A “pós-verdade” e o último combate de retaguarda da pós-modernidade neoliberal – Daniel Späth

( Notas sobre a especificidade histórica das conjunturas ideológicas )
I.
É característico de cada variante da consciência burguesa que, após assumir um papel hegemónico, depressa se mostra novamente ultrapassada pela processualidade histórica da constituição fetichista do patriarcado produtor de mercadorias. As ideologias mostram assim, em cada caso sem excepção, que fixam analiticamente a forma da dissociação-valor de uma dada constelação histórica, para jogá-la contra outra época da relação de capital. Consequentemente, o conceito burguês de crítica também se limita a este campo de conflito imanente, sendo que a crítica, ou se refere positivamente à configuração actual da disociação-valor, em cujo nome é denunciada a insuficiência de épocas passadas, ou procura idealizar o passado, perante cujo brilho a decadência do presente vem à luz. Tanto o quadro de referência da ideologia da modernização como o da ideologia da decadência permanecem categorialmente presos na positividade da consciência burguesa, assim acabando o próprio conceito de crítica por ser reduzido ao absurdo.

Se essa positividade categorial da consciência burguesa, durante a história da modernização, ainda tinha o seu próprio critério imanente, na luta pela “configuração” presente e futura da constituição fetichista fundamentalmente ontologizada, no caso das ideologias pós-modernas, o facto de a sua legitimação renunciar até a esse horizonte de reflexão limitado lança uma luz sombria sobre elas. Especialmente o neoliberalismo, tornado dominante após o colapso da União Soviética, como primeira ideologia pós-moderna por excelência, prestou um testemunho eloquente sobre a nova qualidade da negação do presente. A noção de “fim da história” (Fukuyama) não nasceu só da presunção da economia de mercado ocidental, ébria da vitória; mais que isso, nela exprimiu-se uma específica disposição de consciência, cuja nova qualidade irracional se alimenta da decadência das próprias categorias reais fetichistas: se o conteúdo do pensamento afirmativo, durante a era da modernização e da acumulação de capital, ainda conseguia cobrir positivamente as formas objectivadas de existência, porque baseado na substância de “trabalho abstrato” e actividades reprodutivas, a consciência de crise pós-moderna resvalou para as categorias reais em decadência, tornando-se literalmente desnecessária.

De acordo com isso, a “teoria” pós-estruturalista distinguiu-se, desde as suas origens, por eliminar completamente a objectividade fetichista. Por muito diferentes que as diversas abordagens se tivessem posicionado ao longo das décadas, esta peculiaridade característica era comum a todas elas, até que, finalmente, o desconstrucionismo conseguiu ter sucesso como ideologia central da administração neoliberal da crise. A orientação quase imediatamente sócio-psicológica desta ideologia, cuja retirada da objectivação autonomizada da constituição social fetichista para o eu abstracto corresponde à reorientação narcisista do objecto da libido para esse mesmo eu, manifestou, mesmo em comparação com as ideologias da era da modernização, um novo grau de irracionalidade.

Uma vez que a forma de pensar radicalmente subjectivista do desconstrucionismo nos centros ocidentais foi causada pela individualização forçada, associada à administração neoliberal da crise, também a inteligência política funcional apresentou, ora mais, ora menos, o correspondente carácter social. Um exemplo particularmente impressionante do espírito do tempo neoliberal é dado por Angela Merkel. Seja sobre descontos para a saúde, política europeia, serviço militar ou energia nuclear – seja qual for o domínio temático que tenha ganho alguma relevância no discurso público, ela dá uma volta de 180 graus na sua opinião, logo que lhe pareça politicamente oportuno: Angela Merkel representa a “desconstrucionista global ideal” por excelência. E, justamente por isso, foi como se estivesse predestinada a tornar-se a confiança personalizada junto do seu rebanho eleitoral democrático. Ela até tem a coragem de mudar de opinião de um dia para o outro nas questões cruciais! Não é isto o verdadeiro pragmatismo?

II.

Neste contexto, era natural que o chavão “pós-verdade” se espalhasse. No entanto, não se trata de um nome para a consciência de crise pós-moderna inicial e para o seu notório anti-objectivismo, mas sim da classificação da ideologia pós-moderna tardia do estado de necessidade, que desde 2008 empurra de modo aparentemente imparável no sentido da fascização dos centros ocidentais. Que “pós-verdade” tenha sido eleita a “Palavra do Ano 2016” revela-se como parte de um combate de rectaguarda da inteligência funcional neoliberal, cujos dias, no entanto, estão contados. As premissas do desconstrucionismo neoliberal, ultrapassadas pela dinâmica da crise social, revelam-se completamente infundadas.

Se o desconstrucionismo negador da realidade, no seu último combate de rectaguarda, pretende justamente agora reivindicar para si uma orientação pelos factos, para apresentar como “pós-verdadeira” a consciência do estado de necessidade pós-moderna tardia do neofascismo (1), torna-se óbvia toda a impotência da inteligência funcional neoliberal. Pois, na verdade, a ideologia do estado de necessidade chamada populismo testemunha mais uma viragem para a factualidade do que o desconstrucionismo negador da realidade. O facto de a desconstrução do objecto recuar cada vez mais o seu posicionamento imediato constitui um deslocamento, ele próprio pré-formado pelo desenvolvimento de crise no interior da forma burguesa de pensar, razão pela qual a ideologia pós-moderna tardia do estado de necessidade desemboca numa ênfase de nova relação com o objecto. Na verdade, a ideologia pós-moderna tardia incorpora um novo fanatismo da objectividade (2).

Esta antecipação do objecto, revelada na consciência do estado de necessidade que começa a substituir gradualmente a sua desconstrução, revela-se aqui não menos obsessiva do que esta. Pelo contrário, constitui a matriz basilar de todas as teorias da conspiração ou da manipulação que, desde a crise financeira de 2008, reaparecem agora também em grande parte dos centros ocidentais. A mania da perseguição, associada a uma disposição paranóica, não pode permanecer na negação do objecto; ela está francamente obcecada com a concretização dos “perseguidores”, cujas maquinações manipuladoras seria preciso romper de uma vez por todas. O que epistemologicamente aparece como uma referência ao objecto e se anuncia como novo fetichismo da factualidade, corresponde à busca obsessiva do manipulador, razão pela qual o novo fanatismo da objectividade já está sempre perto do anti-semitismo. O neofascismo, em todo o caso, há muito perdeu qualquer inibição a este respeito, e nas suas fanfarronices fala agora muito explicitamente do “espírito sionista”.

Compreende-se por si que o positivismo pós-moderno tardio da factualidade não está nada mais em linha com a realidade do que o da arbitrariedade pós-moderna inicial. Como aliança nada santa entre positivismo e irracionalismo, a alucinação da consciência burguesa culmina na teoria da manipulação neofascista. Esta relação pode ver-se exemplarmente em Franz Hörmann, que se revela um representante fogoso do positivismo popperiano e, simultaneamente, medita sobre seres extraterrestres e reencarnação. (3) É a irrealidade de uma alternativa sem futuro, entre a administração do estado de necessidade de crise neoliberal e a administração do estado de necessidade neofascista, que confere à luta simulada em torno da pretensa “pós-verdade” traços assim fantasmáticos.

III.

Apesar de toda a retórica de demarcação recíproca, o desconstrucionismo da pós-modernidade inicial e a hipóstase da objectividade da pós-modernidade tardia são duas ideologias complementares. Já a unilateralidade inerente a ambas as matrizes epistemológicas lança uma primeira luz sobre a sua complementaridade interna. Se apreendermos a relação de ambas as ideologias no plano epistemológico mais abstracto, então a reciprocidade imanente do desconstrucionismo e da ênfase da objectividade revela-se como fuga fundamental à questão levantada por Marx em O Capital: “Porque é que este conteúdo assume aquela forma?”

A consciência burguesa tem de falhar basicamente na resposta a esta pergunta, justamente porque, dada a sua constituição na lógica da identidade, ou coloca a forma a priori para dar-lhe mais tarde um conteúdo, ou refere-se ao conteúdo que a sua própria forma gera fora de si. É com base no conteúdo fetichista da socialização do patriarcado produtor de mercadorias que “formas objectivas de existência” e “formas objectivas de pensamento” (Marx) se desintegram no processo social, pelo que são vistas isoladamente pela consciência burguesa e, assim, fixadas uma contra a outra. Opcionalmente aparece então, ou um princípio espiritual-ideal como motor da realidade social, ou, justamente ao contrário, a dimensão espiritual e ideológica é derivada da realidade social, da “posição no processo de produção”. Essa é a razão pela qual a filosofia e a ciência burguesas se movem constantemente na contradição entre idealismo e materialismo, desde a época da imposição do iluminismo.

Neste sentido, no idealismo desconstrucionista articulou-se a autonomia da forma contra o conteúdo, para o que já a categoria principal “discurso” pode funcionar como paradigma: o idealismo desconstrucionista é, na realidade, um formalismo. É deste ímpeto formalista que depois provém também o sentimento contra qualquer conteúdo e contra qualquer momento natural, sentimento que é inerente ao virtualismo da pós-modernidade inicial. Do outro lado, o materialismo hipostasiador da objectividade revela-se, pelo contrário, como autonomização do conteúdo perante a forma. O sentimento que a partir daí cresce contra a forma reflecte-se, no neofascismo, numa concepção da história como decadência, que tenciona limpar a formação feita pela cultura, insistindo no ser pretensamente dela ignorante das sociedades pré-modernas, que não teriam sido corrompidas pelo moderno estilo de vida. A autonomização do conteúdo perante a forma regressa como naturalismo, no materialismo pós-moderno tardio.

No entanto, seria uma redução desta polaridade entre a administração do estado de necessidade de crise neoliberal e a administração do estado de necessidade neofascista, polaridade oposicionista e todavia interdependente, entendê-la como uma oposição abstracta. As constelações da consciência burguesa, constituídas na divisão, não conseguem permanecer na sua unilateralidade; a realidade fetichista pode, efectivamente, ser distorcida e escondida, mas produz-lhes o contexto interior, contra a sua vontade, em resultado da reflexão. Portanto, já não surpreende que o naturalismo encapotado no idealismo desconstrucionista de Judith Butler – apesar da aversão antinaturalista – venha à luz em seus escritos recentes, com base numa ontologia da corporeidade; e também o naturalismo fetichisador da objectividade, por sua vez, é um idealismo encapotado, é essencialmente um repensar mental-espiritual que, uma vez efectuado, faz com que a reestruturação material da sociedade pareça um jogo infantil.

IV.

A identidade interna de ambas as ideologias pode agora ver-se na sua reciprocidade imanente e não só. Elas concordam desde logo completamente na estrutura epistemológica fundamental. O que aparece, em ambas as formas de pensar, como um objecto contraposto ao sujeito – que poderia ser negado ou posto pelo sujeito – faz saber da inclusão, nas formas de pensar do sujeito do conhecimento, da constituição social fetichista, cuja objectualidade objectivada como totalidade em si dinâmica é neutralizada numa referência ao objecto adequada ao sujeito – justamente ao seu objecto.

Então, o que tem de ser deixado de fora na dicotomia sujeito-objecto burguesa é o excedente específico da constituição fetichista objectivada, como pressuposto social e histórico específico. E como este excedente, em cada período de desenvolvimento e de decadência da forma da dissociação-valor, se configura de modo bastante diferente, porque depende do grau de compressão intensiva para si concretamente em vigor, perde-se, para a reflexão na lógica de identidade, na grelha de percepção da dicotomia sujeito-objecto, além da constituição social, também a sua mediação histórica concreta. O que se passa com a forma de pensamento científica burguesa em geral também se aplica à constelação complementar de formalismo neoliberal e naturalismo neofascista: as suas ideologias só podem começar onde a compulsão de socialização fetichista é silenciada.

Por isso, só se pode chegar à conexão interna específica entre ambas as ideologias com a noção de que elas são arranjadas com o seu contexto condicional histórica e socialmente específico da forma de dissociação-valor global. Perante este pano de fundo de uma reflexão crítica sobre a dinâmica de crise genuinamente histórica do excedente fetichista, o desconstrucionismo idealista ganha a função de um aquecedor de fluxo histórico e ideológico, pela barbárie pós-moderna tardia adentro. Para que as teorias da conspiração e da manipulação, desde a crise financeira de 2008, pudessem brotar em toda a parte como cogumelos no campo, para isso foi necessário o campo de destroços ideológico da negação pós-moderna inicial da realidade, cujo rolo compressor da desconstrução cilindrou à partida qualquer concreção de conteúdo, assim abrindo o caminho para a degradação da consciência do estado de necessidade.

Como consciência objectivamente ultrapassada pelo desenvolvimento da crise desde 2008, o desconstrucionismo neoliberal demonstra pela última vez o seu total sentido da flexibilidade, ao sentir-se passo a passo como em casa com a administração neofascista do estado de necessidade. A metamorfose pós-moderna tardia para o fanatismo da objectividade é da sociedade como um todo, porque se alimenta da posição concreta dos centros ocidentais na desvalorização global. Se o desconstrucionismo académico de repente descobre um “novo realismo” (4), ou se a teoria queer já há muito tempo começou a plagiar a crítica da dissociação-valor, está à vista que o desconstrucionismo pós-moderno inicial, para poder manter-se face ao contexto social da pressão de desvalorização potenciada, se refugiará passo a passo no materialismo da hipóstase da objectividade.

V.

O boom político-mediático da viragem à direita europeia em torno da “pós-verdade”, por conseguinte, pode ser decifrado como uma tentativa extremamente ambígua das elites funcionais neoliberais de se encenarem como baluarte da razão. A advertência a isso associada, de que a importância dos “sentimentos” no discurso político também terá de ser assumida no trabalho de partido, mais uma vez elucida sobre a simbiose histórica real em preparação de desconstrucionismo e naturalismo. A inconsistência do espírito do tempo neoliberal já não pode passar em claro, quando agora são precisamente aquelas alas da inteligência política funcional que nas últimas décadas deslocaram “performativamente” a determinação social, ou a dissolveram no discurso virtualizado, que insistem no carácter persuasivo da factualidade. Os processos reais de frente transversal entre a inteligência funcional neoliberal e o neofascismo, para além da constituição específica por uma “viragem imanente pós-moderna” (5), resultam também desta inconsistência da própria axiomática desconstrucionista.

Se o conceito de “pós-verdade” pode reivindicar alguma relevância, é exclusivmente no fim de uma época que se manifestou primeiro no colapso da União Soviética e vai até à crise fundamental pós-moderna. A impossibilidade absoluta de ainda se poder relacionar positivamente com a forma da dissociação-valor e com as categorias reais que lhe são inerentes, na base do capital mundial em colapso, porque uma relação social em desintegração simplesmente não pode ser preenchida, é um fenómeno da pós-modernidade inicial e não da “viragem imanente pós-moderna” desde a crise financeira de 2008. O desconstrucionismo negador da realidade representava apenas o símbolo desta nova qualidade irracional da consciência de crise pós-moderna; foi ele próprio quem abriu a era da “pós-verdade”. A ascensão do neofascismo é a expressão agudizada dessa tendência de barbarização, sob as condições de uma desvalorização agora directa do capital ocidental.

Abstraindo dessas escapadelas legitimatórias, que vão de mãos dadas com a encenação política e mediática da “pós-verdade”, este conceito deve ser rejeitado em si e por si, como índice de falsa consciência. O campo de debate com ele aberto entre uma política fiel aos factos, que se vê confrontada com um populismo para além dos factos, está empenhado desde o início na imanência da socialização de crise fundamental. O factum brutum é inexistente; na constituição fetichista o facto é um produto da aparência, que na sua existência abstracta apagou a mediação com a forma da dissociação-valor que o produz.

Na crise fundamental do capital mundial e da compressão por ele forçada do modo de vida social à pura imanência, agudiza-se novamente o paradoxo da constituição fetichista: quanto mais inexorável se afirma a pressão de desvalorização da constituição social global, quanto mais impiedosamente, portanto, o excedente fetichista aglomerado no capital mundial exige o seu tributo, tanto mais a consciência de crise é aferida pela imediatidade abstracta. A luta em torno da “(pós-)verdade”, travada entre o desconstrucionismo neoliberal e o fanatismo da objectividade neofascista, revela-se assim como campo de batalha das formas de consciência da subjectividade burguesa de crise degradada à pura imanência, em que as duas partes lutam pela posição hegemónica na próxima administração do estado de necessidade.

Para conseguir aqui ter um panorama do desassossego paranóico da época pós-moderna tardia, seria necessária, em vez disso, uma distância crítico-teórica capaz de explicar a desintegração dos Estados ocidentais, tanto na sua génese histórica como em relação à constituição social de crise da forma global da dissociação-valor. Em vez de ceder ao culto da imediatidade, que balança para lá e para cá entre as alternativas fossilizadas de “verdade” e “pós-verdade” da imanência totalizada, é indispensável reconstruir a mediação dos processos de crise, que agora também se repercutem nos centros ocidentais, com a processualidade objectivada da forma da dissociação-valor. A distância teórica preliminar a uma tal crítica radical não pode simplesmente cair do céu, nem ser repentinamente retirada da imediatidade da consciência pós-moderna tardia do estado de necessidade; como a história da elaboração teórica da crítica da dissociação-valor deixa claro, tal distância teórica só pode nascer na base de uma teoria crítica desenvolvida ao longo de décadas, que leve à exposição da processualidade fetichista real da forma da dissociação-valor nos diversos planos da “totalidade concreta” (Roswitha Scholz). Especialmente na era da imediatidade pós-moderna, é fácil esquecer que os principais protagonistas, que apenas puderam elaborar e desenvolver a teoria da dissociação-valor com uma tenacidade resistente, para o efeito suportaram e suportam até hoje dificuldades em muitos aspectos na sua própria história de vida.

O pânico da pequena burguesia pós-modernizada de perder o último benefício na desvalorização iminente, pelo contrário, deve-se ao espírito do tempo vigente, com o neofascismo no seu auge. O abrangente atamancar de conceitos, que tem alucinações de um “capitalismo sem crescimento”, de um “dinheiro sem juros” ou de uma “economia física”, oferece, além disso, o produto que consiste numa revolta inconformista de pessoas cujas biografias transbordam de carreiras tradicionais neoliberais. O que aqui se aperalta como “oposição ao sistema” é composto a partir do establishment por excelência; não há protagonista da “AfD”, da “Mahnwachen” ou dos “PEGIDA” que não tenha uma carreira para mostrar no mainstream denunciado. No neofascismo evidencia-se o que distingue a situação historicamente concreta da “viragem imanente pós-moderna”: é o próprio ex-neoliberalismo que se vira na alternativa inerente de uma administração pós-moderna tardia do estado de necessidade.

No entanto, o que também escapa completamente àqueles que acreditam ter o monopólio da “crítica do capitalismo” do lado da esquerda exprime-se precisamente naquela distância crítico-teórica da crítica social radical, que insiste na mediação da administração do estado de necessidade iminente, mediação que no seu devir histórico rejeita a processualidade objectivada da socialização global da dissociação-valor. A negação específica das diferentes dimensões da “totalidade concreta” é e continua a ser o pré-requisito indispensável para a negação categorial, para a suplantação da constituição fetichista do patriarcado produtor de mercadorias, através dum contramovimento social transnacional. Mesmo se este contramovimento actualmente é completamente inexistente, no futuro o seu critério concreto também será a “crítica categorial” (Robert Kurz) do fetichismo da dissociação-valor, na sua constituição específica em cada caso.

Uma vez que não pode esperar, até que a versão de esquerda da não-crítica desconstrucionista, no dia de São Nunca à tarde, tenha revisto completamente a sua fuga ao tema que dura há três décadas, a crítica radical só pode, no status quo de uma sociedade mundial paranóica, divulgar as condições concretas para a abolição global da socialização fetichista do patriarcado produtor de mercadorias, submetendo a uma análise crítica as metamorfoses históricas no processo de decadência da socialização fetichista global, bem como as ideologias dela surgidas. Assim, à ideia mantida pela crítica radical de transcender a socialização capitalista de crise, ainda resta, pelo menos, roubar à consciência decadente a sua última ilusão, de que a “factualidade” da socialização burguesa de crise seria não apenas o melhor de todos os mundos, como também, em todo o caso, dada pela natureza.

*************************

(1) A distinção entre a pós-modernidade inicial e a pós-modernidade tardia, que se estabelece ao longo dos processos de crise global desde a revolução microelectrónica, não pode ser mais desenvolvida aqui. Para isso seria necessária uma reflexão abrangente sobre a dinâmica de crise objectivada, como vai ser exposto em detalhe na primeira parte do ensaio „Querfront allerorten!“ [Frente transversal em toda a parte!] a publicar no próximo da revista EXIT! (nº 14).

(2) Pense-se apenas em Thilo Sarrazin e nas suas notórias ocupações com os factos e a coisa em si.

(3) https://www.youtube.com/results?search_query=ufos+hörmann.

(4) Roswitha Scholz vai ocupar-se desta questão no plano epistemológico na edição da EXIT! a seguir à próxima (no nº 15).
(5) Remete-se aqui mais uma vez para o texto „Querfront allerorten!“ [Frente transversal em toda a parte!].

Original „Postfaktizität“ und das letzte Ruckzugsgefecht der neoliberalen Postmoderne na homepage da EXIT! http://www.exit-online.org em 03.01.2017. Tradução de Boaventura Antunes
http://www.obeco-online.org/

http://www.exit-online.org/

Qual sua opinião ?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s