Glauber Rocha – Utopia, Cinema e Revolução – Arlindenor Pedro




 

Geralmente, quando ouvimos a palavra utopia logo a associamos ao conhecido conceito de Thomaz Morus que a traduz como uma realidade inalcançável, ou seja: um desejo irrealizável. Foi assim, por exemplo, que F.Engel a definiu, na sua conhecida obra “Do socialismo Utópico ao Socialismo Científico”, traçando uma linha divisória entre os conceitos que ele dizia ingênuos dos socialistas que o precederam e o socialismo científico de Marx.

O pensador húngaro Karl Mannheim, criador da metodologia conhecida como “Sociologia do Conhecimento”, também se ocupou do tema no seu livro “Ideologia e Utopia”, na década de 50, e que teve ampla aceitação na Universidade Brasileira, numa época em que a Universidade ainda discutia os rumos do país.

Ali, de forma diferente de Engels, via a Utopia como uma forma de ser, um comportamento, que estaria em incongruência com uma dada realidade. Poderíamos, então nos referir como utópicas aquelas orientações que, transcendendo a realidade, tendem a se transformar em condutas a abalar, seja parcial ou totalmente, a ordem das coisas que prevalecem no momento.

Desta forma, ele ao limitar o conceito de “utopia” ao tipo de orientação que transcende a realidade e que, ao mesmo tempo, rompe as amarras da ordem existente, passa a estabelecer uma distinção entre o estado de espírito utópico e estado de espírito ideológico, pois este segundo conceito iria se contrapor ao anterior, dado que o ideologia se calca numa situação onde o inconsciente coletivo de certos grupos obscurece a condição real da sociedade ( tanto para ele como para os demais ), lutando para estabilizá-la.

Os grandes líderes, aqueles que fizeram a história, seriam então utópicos por excelência !

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Poderíamos, portanto, dizer que Glauber Rocha, pelo seu comportamento em relação à sociedade brasileira, e ao cinema, era um ser utópico, estando em incongruência com a realidade que viveu, postando-se como um revolucionário que queria através de sua arte subverter as condições estabelecidas.

E era assim que ele se definia: “sou um revolucionário e uso o cinema para ajudar o povo a fazer as transformações que o Brasil precisa”.

Inquieto e genial, com sua forma de ser. Amado por uma geração, embora incompreendido muitas das vezes, esse baiano de Vitória da Conquista ( sertão nordestino ) no seu curto tempo de vida, pois morreu aos 42 anos, incendiou o cenário cultural e político brasileiro, sendo uma peça-chave do movimento do “Cinema Novo”, deixando-nos obras singulares onde a política e o cinema fundiam-se, com elementos estéticos de vanguarda e com o claro objetivo de alterar a ordem social do país.

Admirador de Castro Alves, condoreiro e barroco como ele, apocalíptico e profético, num delírio dionisíaco, levou às últimas conseqüências o seu conceito de arte, entregando sua vida a esse fim, desenvolvendo um cinema poético e revolucionário.

Ela achava que o caminho da felicidade era o viver revolucionário e viveu esse sonho de uma forma acelerada, luminosa e trágica. Dizia que a função do artista é violentar o público com sua arte, e desta forma, não compactuava de forma nenhuma com o cinema como produto industrial.

Embora tenha recebido convites para produzir cinema em grandes mercados, como Hollywood, sempre recusou, pois só fazia filmes onde tivesse o controle absoluto de sua obra.

Uma de suas afirmações, já profetizando o domínio do mercado sobre o cinema era: – “É preciso romper agora, antes que surja na porta de um cinema uma frase mais ao menos assim: hoje em cinemascope e totalmente colorido o magnífico espetáculo de nossa miséria”.

Após a sua morte, consternado, como muito dos seus amigos, o cineasta Silvio Tendler produziu um documentário, que teve o nome de:“Glauber, o filme- labirinto do Brasil”, ainda pouco conhecido, com depoimentos de amigos e companheiros que conviveram mais de perto com Glauber.

Num estilo próprio dos documentários, através de um labirinto que representa o Brasil, ele nos conduz através da obra de Glauber Rocha, tendo as impressionantes imagens do seu enterro no Rio de Janeiro como ponto de referencia ( imagens essas, circundadas por uma trilha sonora de estrema beleza, onde a música de Villa Lobos se destaca).

Interessante é que a obra nos faz lembrar, por sinal, às gravações que Glauber fez no enterro do seu amigo Di Cavalcanti, que resultou em um explosivo documentário, premiado no Festival de Cannes em 1976 e infelizmente ainda não acessível ao público, devido a interdição por iniciativa da família do pintor, que não deu autorização para sua exibição.

Poetas, escritores, políticos, artistas, produtores, amigos em geral, vão desfilando histórias sobre Glauber Rocha, e, num ponto alto do documentário, o cineasta Arnaldo Jabor afirma que: “Glauber não suportaria viver no mundo de hoje, um mundo sem utopias, o mundo de mercadorias, sem grandezas heróicas”.

Mannheim também nos fala nisto no seu livro: para ele o mundo atual, forjado pela burguesia liberal, criou um mundo onde não existem espaços para as utopias, pois as últimas- nacional socialismo; fascismo; comunismo e o socialismo- foram derrotadas pela visão de mundo da burguesia liberal, o mundo da mercadoria.

Vitoriosa, através do mercado globalizado e da revolução tecnológica, que aplicada à produção nos leva a antever, inclusive, um futuro onde o trabalho seja dispensável, a burguesia nos faz viver uma realidade diferente daquela que ainda viveu Glauber: um Brasil que se desencantou e se racionalizou, alterando aquilo lhe era mais caro: o sonho de um povo que foi forjado através de utopias.

Em troca passamos viver em uma sociedade de relações cada vez mais reificadas ,onde tudo se torna descartável e com uma busca incessante por objetos, partindo-se da equação que diz que ter esses objetos é sinônimo da felicidade.

E neste mundo racional, movido pela visão de mundo do capital que chega as suas ultimas fronteiras conquistando a alma do homem contemporâneo, certamente um artista utópico como Glauber e sua arte não poderiam sobreviver.

Talvez venha daí a urgência que tinha em manifestar até o limite a sua arte.

No seu enterro, o psicanalista Helio Peregrino afirmou:-” Glauber era uma vela que se consumia dos dois lados, por isso sua morte prematura ”

Ao analisarmos o conjunto de sua obra: 15 filmes, inúmeros ensaios, romances e peças teatrais, à exemplo de outros artistas geniais, como Vicent Van Gogh, assistimos a tragédia da evolução do seu interior contrapondo-se cada vez mais com a realidade do mundo exterior, principalmente nos seus últimos dias de vida.

O último e incompreendido filme “A Idade da Terra”,que ele considerava a sua obra mais revolucionaria, é um exemplo disso.

Como sempre Silvio Tendler nos brindou com uma bela obra cinematográfica, para ver e refletir.

Serra da Mantiqueira – outubro de 2011

Arlindenor Pedro

 



 

Um dos grandes momentos do documentário foi o discurso de despedida ao Glauber feito por Darcy Ribeiro. Assistam.

 




 

 

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