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Memórias – Arlindenor Pedro

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…um dia de deslumbramento para um garoto de 11 anos que naquela tarde de 58 ouvia pelos auto-falantes do colégio interno outro garoto jogar, com apenas 17 anos, num lugar muito longe, que nem sabia que existia, chamado Suécia.

 

Um jogo contra um outro país – um Pais de Gales. Fantástico!

 

Sentados nos degraus do “pátio-coberto”,  a imaginação levava a todos para aquele lugar  distante, acompanhado os comentários do radialista.

 

Todas as turmas estavam lá! Dezenas  de jovens, numa verdadeira catarse- à espera do gol.

 

A sua turma era a 301 e o seu número 91. 

 

Franzino, como a maioria dos garotos da Escola Rural Sta. Mariana, sentado nos degraus, com o macacão azul, sujo do dia-a-dia, torcia para que a seleção saísse daquele sufoco.

 

Grajaú , 1968

Arlindenor Pedro

Morte – por Arlindenor Pedro

Imagem recolhida na plataforma pública Tumblr, para fim não comercial .

A primeira vez que ele viu a morte foi com o pai do seu amigo Itaci – o  Álvaro , e ela o levou. Foi muito estranho: ele começou a respirar mais acelerado e de repente parou…ficou com os olhos e a boca aberta.Então, ele chamou as pessoas da casa: -eu acho que o Sr. Alvaro está morrendo! Gritou bem forte. Da cozinha acudiram todos.

 

A Maria, amiga da familia, pegou um espelho e pôs na boca do doente, para ver se ele estava respirando. Não estava. O choro desabou, embora que durante os dias da sua agonia, todos sabiam que não tinha mais condições de viver- estava moribundo..

 

A cada dia, ele ficara esperando a morte chegar para levar o pai do seu amigo, num sentimento sádico que não conseguia reprimir.Foi então  que pediram para ele segurar a cabeça do morto, para tirar o corpo da cama e coloca-lo numa mesa fúnebre que ficaria na sala, para a exposição – a visita das condolências. Enquanto  segurava a cabeça do morto inadvertidamente soltou – a : ela bateu com força na madeira, fazendo um barulho oco, aterrador. Todos olharam com ar de reprovação.

 

Mas… o espetáculo do enterro apagaria aquela lembrança. Um grande funeral: a viuva de preto, os filhos bem vestidos, os chapéus das mulheres, o ar de elegância das pessoas do Grajaú, nos anos-dourados. Sentiu-se como numa fita de cinema, daqueles que via na Praça Saens Penna que acabavam  com letreiro  The End .Tinha então 15 anos.

 

Serra da Mantiqueira,dezembro de 2011.

Arlindenor Pedro 

Deus ! por Arlindenor Pedro

Deus sempre o acompanhou. Para um menino sozinho, em um colégio interno, longe da segurança do lar, viver o dia-a-dia? – somente com Deus! Na escuridão do dormitório, onde figuras da noite apareciam e desapareciam: – somente com Deus! No castigo constante, infligido por inspetores sádicos: – somente com Deus! Na defesa contra as gangues internas de garotos maiores, que queriam violentá-lo, deixa-lo submisso, tomar o que era dele: -somente com Deus! E Ele sempre o protegeu. O fez sobreviver naquele mundo insano,cruel…competitivo.

Aprendeu a dissimular, a tomar a cor do ambiente, como um camaleão.Aprendeu a desaparecer, deixar de ser notado – arte da sobrevivência do mais fraco.Aprendeu também a negociar, a fazer política, ligar-se aos mais fortes, ser também respeitado, não pela força,mas pela artimanha, pela inteligência. Sabia calcular o que iria acontecer, a fazer previsões, a jogar no dia seguinte. Amadureceu!

Por isso ficou desesperado quando Ele o abandonou, naquela tarde ensolarada de Jacarepaguá.

Máximo , o seu amigo , chegou com aquele andar característico de malandro e sentou-se a seu lado ,nos degraus do Pátio- Coberto. O jogo corria solto , numa tensão muito grade- estava  difícil para o Brasil! Ele era um negro muito alto para sua idade e impunha respeito. Gostava  de ouvir as história do Máximo, todas da favela de Parada de Lucas, em uma época em que as favelas cariocas tinham ainda aquele ar de aventura, e mesmo beleza, num tipo de malandragem que já não existe mais.

-Noventa e um, o Dr. Jaime quer falar com você, lá na diretoria, falou, olhando para ele. – Você sabe o que êle quer? Respondeu com ar assustado. Não estava gostando do recado. – Sei lá !  Ele não disse, e encerrou a conversa, prestando atenção ao  som que vinha dos autos-falantes.

Pegou a sua sacola, onde levava os pertences : escova de dente, pente, papel higiênico, e um inseparável canivete, que nunca deixava dando sopa,pois podiam ser roubados, e, dirigiu-se para o Dr. Jaime.

Dr.Jaime era muito gordo e suava toda a camisa branca. Foi logo dizendo, mal ele transpôs a porta: – a sua mãe ligou e disse que você não vai mais ao dentista nas sextas-feiras. Agora você tem que passar o sábado e domingo aqui no colégio, como os outros.Acabou a moleza, pode ir,falou encerrando o assunto e apontando a porta de saída. E ele foi saindo, tonto, sem enterder o que se passava 

Aquilo caiu como um raio na sua cabeça! Como? Tudo o que ele fazia era esperar a sexta-feira para ir embora, ir para casa.

Na sexta a sua avó chegava e ele trocava o uniforme pela sua roupa de sair, que ficava na rouparia e deixava o colégio. Era uma regalia, devido ao fato de que a sua mãe pagava a internação e os outros internos não – quem pagava era a Prefeitura do Distrito Federal.

O tratamento dentário era a o motivo para ele sair e só voltar na segunda-feira. Não estava acreditanto no que ouviu.

Voltou-se, então para Deus: – Você me abandonou, disse! Não é justo, não é justo! Falou para dentro de sí. Por que você fez isto comigo? Isto era tudo o que eu queria.Respirou fundo e falou com convicção: –
a partir de agora não acredito mais em Você.

E foi assim que rompeu suas relações com  ele , ficando ainda mais sozinho nos difíceis caminhos da vida.

Serra da Mantiqueira,dezembro de 2011

Arlindenor Pedro 

Minha Duília – por Arlindenor Pedro


Ah…Maria Adélia! Minha Duília !
Minha portuguesinha da Rua-do-Jogo-da Bola
Lembranças que me deu o poeta
“Viagem aos seios de Duilia”!

Amor juvenil…primaveril
Da Central do Brasil
Do Campo de Sant’Anna
Dos gatos, dos gansos, da escuridão da caverna
Das cutias que nunca fogem.

Da companhia nas arruaças no centro da cidade:
matar aula na Rua da Alfandega.
O medo dos canhões do Palácio do Exército!
Dos beijos de lingua
Da mão nas coxas.

Ah… Adélia!Minha Duília!
Naquela época você não sabia dançar
Que pena: não aproveitamos os bailes da escola
Para esfregar as coxas
Para sentir o seu cheiro de laquê no cabelo
Para passar a lingua no ouvido

Ah…Te troquei por uma loira
que nem gostava de mim

Minha Duília…

Grajaú, 1968

Arlindenor Pedro 

Tomada de decisão – por Arlindenor Pedro

Resolveu fugir! Uma tremenda decisão para aquele menino de 11 anos que nunca antes tinha saido sozinho do colégio. Sempre era a sua avó que o levava. Ele ficava aguardando no dia de saída que o seu número fosse cantado: – noventa e um, o seu responsável chegou, pode ir! Gritava uma voz pelos auto-falantes.

 

Dessa vez seria diferente-ele iria sozinho.

 

Foi até a rouparia, para mudar o uniforme e vestir as suas roupas que ficava num armário. A responsável pela rouparia não desconfiou, pois ele sempre saia às sexta-feiras- tinha autorização do Dr. Jaime.

 

Antes tinha se preparado, feito um roteiro da fuga, com outros garotos que eram fujões- categoria daqueles que sabiam fugir.

 

Vestiu as roupas e foi com o colega até uma parte do colégio que dava para a rua. Ali se despediram com um forte abraço.

 

A travessia, pelas ruas de um Jacarepaguá rural, foi de medo, terror em ser capturado pelos inspetores .Pegar dois ônibus ( ainda bem que tinha um dinheirinho para a passagem) e finalmente chegar em casa.

 

– O que você está fazendo aqui? Perguntou a mãe surpresa. –

 

Fugi, não volto mais para lá! Disse com um ar grave para a sua idade. Agora estava no rol dos fujões. Ninguém mais o segurava no colégio. Sua mãe entendeu, e então ele saiu da Escola Rural Santa Mariana. Abria-se um novo capitulo na sua vida.

 

Serra da Mantiqueira,dezembro de 2011.

 

Arlindenor Pedro 

Ode a um amor que virá ou A procura incessante do ideal – por Arlindenor Pedro

Imagem de Igor Morski

Hoje sai novamente a tua procura

Como de outras vezes vaguei sozinho pela
cidade.

Mergulhei na multidão:


olhei os rostos, escutei as vozes.
A todo momento procurava te ver,
reconhecer teu rosto, teu sorriso.

Vã procura!

Será que um dia te encontrarei?

As vezes me surpreendo imaginando tua figura.

Como serás realmente? Serás como imagino?
A cor do bronze, os cabelos do ouro.
A voz da prata ?

Poderás ser para mim tudo o que desejo?
O despertar constante, o ponto de apoio…
o repouso do guerreiro ?

Amanhã sairei novamente pelas ruas.
Mais uma vez andarei, sozinho, pela multidão.
Na busca do ideal verei muitos rostos,
muitos sorrisos.

Como de outras vezes voltarei sozinho,
sem te encontrar.

Poderei até ter cruzado contigo.
Ou pode ser que sempre tenhas estado
comigo.

E eu cego, sem te ver.

Grajaú, 27/11/64

Arlindenor Pedro

Tempos Modernos- Uma crítica à Sociedade Industrial – Arlindenor Pedro

Ao meu amigo Eduardo Teixeira ( Dudu )

Quando o filme Tempos Modernos chegou às telas, em 1936, o mundo já convivia com o cinema sonoro há quase 10 anos. Durante todo esse tempo, o “vagabundo”, personagem que conhecemos como Carlitos, criado por Charlie Chaplin — que compartilhou nas primeiras décadas do século XX o infortúnio dos desvalidos, que viam nele uma identificação com suas geniais performances –   ficou  sem aparecer nos cinemas.

No intervalo do seu último filme, Luzes da Cidade e o lançamento de Tempos Modernos, Chaplin amadureceu a ideia de que o “vagabundo” não iria transitar no mundo do cinema sonoro. Decidiu, então, que Tempos Modernos seria o último filme do personagem.

O mundo tinha mudado muito nessa época, já se vivia a tensão de uma nova guerra que estava por vir !

Em 1931, Chaplin tinha feito uma turnê pela Europa e viu que os males que afligiam a economia americana — a recessão e o desemprego — estavam presentes em todo lugar. Viu, também, que os capitalistas europeus, à  exemplo dos americanos, buscavam superar a crise através de alterações no processo produtivo, adaptando-se aos novos tempos, racionalizando cada vez mais a produção. Os conceitos de Henri Fayol e Frederick Taylor, de racionalizar as operações de trabalho , levariam a um considerável ganho de produtividade, reduzindo o custo unitário dos produtos e ampliando a margem de lucro através de implementos que tiveram seu ápice com a linha de montagem fordista. Isso encantava os empresários. A aplicação dessas ideias resultou no desemprego de milhões de pessoas, contribuindo para acelerar o confronto dos países capitalistas através da guerra. O conflito aliviaria as tensões sociais internas e abriria as portas para novos mercados.

Retornando aos Estados Unidos, vivamente sensibilizado com essas questões, Charlie Chaplin tomou a decisão de fazer um novo filme, onde retrataria esse novo mundo. O cineasta sempre teve uma visão diferente daquela que estava sendo construída pelas elites econômicas da burguesia liberal. Sua Utopia era uma sociedade mais justa, com pleno emprego, sem a violência do Estado, com a felicidade ao alcance de todos, sem o racionalismo científico que tirava do ser humano a sua essência humanista, procurando transformá-lo em máquina. Eram ideias que ele procuraria sintetizar mais tarde, na cena final seu próximo filme, lançado já em plena guerra: O Grande Ditador.

Em Tempos Modernos, Chaplin nos mostra o “vagabundo” — antípoda da sociedade moderna racionalizada — às voltas com a linha de montagem fordista, em um ambiente asséptico, científico, controlado e não menos cruel. Numa cena clássica, vemos o nosso herói ser sugado, literalmente, pelas engrenagens das máquinas industriais, sem condições, portanto, de se adaptar a linha de produção, e por isso mesmo, levado a loucura.

Nesses novos tempos, mais do que nunca, a competição econômica forçaria as empresas a buscarem a eficácia, revolucionando o trabalho, a técnica e os produtos, que adiante voltam a competir e a serem revolucionados, em um processo contínuo e infindável. Noutras palavras: estaria na lógica da produção de mercadorias a obrigatoriedade das empresas a racionalizarem o desenvolvimento das suas forças produtivas.

Isso exige, além da técnica, um operário totalmente adaptado a essa nova forma de produção — o que evidentemente não é o caso do nosso “vagabundo”. Por isso, não é sem sentido que Chaplin começe seu filme com a imagem de um rebanho de carneiros em marcha, saindo de uma fábrica: a indústria precisa de máquinas, sem vontade própria, seguindo os ditames da linha de montagem. Quem não se adaptar perde o emprego!

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Os sindicatos se veem obrigados a afrontar diretamente a situação e através das manifestações e das greves buscam melhores condições de trabalho para seus associados. Nesse contexto, nosso herói acaba sendo envolvido pelo turbilhão dos movimentos grevistas: é preso pelas malhas do Estado e dominado pelas forças da burguesia industrial.

Nesse momento, vemos também, que o próprio Estado mudou !

Racionalizando-se e se adaptando aos novos tempos, exige um comportamento da sociedade dentro de parâmetros legais de uma nova ordem. No filme, houve uma cena  (que mais tarde foi retirada ) onde o “vagabundo” causa a maior confusão por não se adaptar à ordem que todos devem ter para atravessar um sinal de trânsito numa esquina super movimentada, confundindo-se com os semáforos que continuamente dão ordem para seguir ou parar. Perseguido pelo guarda, é obrigado a fugir.

Situações como essa vão se repetindo em diversos momentos do filme: o “vagabundo” e sua amada ( interpretada pela jovem Paulette Goddar )  preocupando-se em passar todo o tempo na busca de trabalho e de uma vida melhor, driblam as dificuldades da pobreza, alternando-se em momentos de liberdade ou prisão.

Tempos Modernos mostra também a racionalização do comércio, fazendo com que o casal passe uma noite em uma loja de departamentos ( precursora dos nossos conhecidos shoppings centers ) onde nossa heroína delicia-se em experimentar casacos de vison, acabando por adormecer em uma cama exposta para venda.

No fim, eles conseguem emprego,  quando alguns empresários, observando a forma natural como Paulette dança em plena rua, oferecem-lhe a oportunidade de se transformar em bailarina; que ela aceita, mas com a condição de que também haja emprego para seu companheiro de ruas. Chaplin transforma-se em cantor e bailarino e, num inusitado desempenho, brinda-nos com um número musical impagável, onde pela primeira vez podemos ouvir a voz do “vagabundo”.

Tempos Modernos não somente é uma obra de arte, como é também a obra prima de Charlie Chaplin. Mostra o seu amadurecimento como cineasta dentro de uma vasta galeria de excelentes filmes. No filme, Chaplin já anuncia os rumos que a humanidade irá tomar após o final da II Grande Guerra, com a hegemonia do American way of life, ou seja, a forma de ser do capitalismo americano, que seria implantado no mundo, garantido pela Pax das suas forças armadas.

Seu roteiro nos toca pela clareza e momentos poéticos, mesmo que o retratado seja a crueldade do sistema capitalista, que reduz os homens a simples máquinas para serem consumidas e descartadas. Seus personagens — principalmente o “vagabundo” e a pequena órfã, de Paulette Goddard — mostram-nos um otimismo tocante, num quadro onde a todo o momento tentam esmagá-los e reduzi-los a nada: são as engrenagens de uma sociedade cruel, que gera riquezas mas, ao mesmo tempo, exclui completamente aqueles que foram os seus geradores.

Porém, eles não se deixam abater e seguem em frente na busca da felicidade a que todos os seres humanos têm direito. Trata-se de um filme otimista, que aponta para um futuro de uma vida diferente.

A música ” Smile “, composta por Charlie Chaplin, nos evolve e nos dá a certeza de que a vida-vivida pode existir, mesmo na adversidade. Não é por acaso que o “vagabundo” de Chaplin é cultuado e amado por todas as gerações no mundo inteiro.

Serra da Mantiqueira,dezembro de 2011

Arlindenor Pedro