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Aspectos ideológicos do bolsonarismo – Felipe Catalani

Colhido no Blog da Boitempo

A ameaça se tornou um dos cernes da ideologia: com o poder de ameaçar sente-se que algum poder é possível ter, nem que seja o de botar medo, mesmo que para além disso não se tenha poder algum. A única felicidade possível do bolsonarista, que não é felicidade alguma, é o prazer proporcionado pela ameaça ou pela punição, em que se misturam ressentimento e requintes de sadismo.

Para qualquer pessoa que não tenha a sensibilidade atrofiada, a situação brasileira que vivemos é assombrosa. Entretanto, quando da ascensão do fascismo na Alemanha, Benjamin dizia que “o espanto em constatar que os acontecimentos que vivemos ‘ainda’ sejam possíveis no século XX não é nenhum espanto filosófico”1. Tentemos portanto dar sentido às coisas e com isso, quem sabe, tal como esperava Benjamin, “tornar mais forte nossa posição na luta contra o fascismo”.

Muitas das especulações do caráter fascista do bolsonarismo rodam em falso. É evidente que há certos limites na analogia com o fascismo histórico: se na Alemanha hitlerista havia a ostentação de uma Volksgemeinschaft comunidade do povo, calcada na ideologia do “sangue e solo” e até com ares pretensamente anticapitalistas (na oposição entre capitalismo financeiro judaico rapinante versus capitalismo produtivo “com lastro”), o que vemos no Brasil atual é um esgarçamento total do tecido social, um hiper-individualismo de crise. Como contra-argumento, alguns dizem, por exemplo, que o fascismo seria necessariamente estatista e intervencionista, e que o programa de Bolsonaro é ultra liberal, ou que Bolsonaro não é fascista e sim “um soldado das guerras culturais”1 etc. A tentativa de interpretar o fascismo a partir de características do Estado e de formas de governo ou de estruturas econômicas só pode ter caráter de especulação por tratar-se de um governo que ainda não existe, e mesmo se especularmos, vemos nesse provável governo sobretudo um aprofundamento de tendências já existentes. Nesse caso, bastaria analisar as posições e o discurso do General Mourão, que não tem nada de alucinado nem de bobo, muito pelo contrário: encontramos ali a racionalidade de um gestor que quer garantir a paz social e a ordem pública, por meio de armas e políticas públicas de assistência social, o que Christian Laval chamou de “momento hiperautoritário do neoliberalismo”: ou seja, reafirma uma tendência do mundo.2Por um lado, nada muito diferente da receita de pacificação de um governo de contra-insurgência tal como o que começou a se consolidar quando Dilma Roussef soltou a bomba da Lei Anti-Terrorismo. Por outro lado, nos termos da tradição crítica brasileira, o que a inteligência militar por trás da candidatura de Bolsonaro está anunciando (e que o professor da UFF Marco Aurélio Pinto chama de “doutrina da dependência militar”3) é, mais uma vez, uma “desistência histórica”, em que se optaria pelo capital privado internacional e uma “condição de sócio-menor do capitalismo ocidental”, como dizia FHC. O Brasil não é mesmo o país do futuro e assim declara-se encerrada a formação nacional: esse diagnóstico não é de um crítico pessimista, mas deles mesmos. O plano de Mourão, que abertamente falou da “indolência do índio” e da “malandragem do negro”, poderia ser resumido nessa nova dependência do capital privado internacional do ponto de vista ideológico como um branqueamento do capitalismo nacional.

Mas uma coisa é o governo Bolsonaro, que ainda não existe, e sobre o qual podemos ter algumas hipóteses; outra coisa é um fenômeno bem palpável e efetivo que é o que podemos chamar de bolsonarismo, ou o que Esther Solano chamou de “bolsonarização da esfera pública” (que é na verdade, creio eu, o tiro de misericórdia da esfera pública). O fascismo aqui deve ser entendido não tanto como um elemento do Estado ou uma forma de governo, mas como um fenômeno social e ideológico. Por vezes, a adesão ao discurso fascista aparece como uma patologia psicológica, porém, também Adorno, que tanto se apoiou na psicanálise e na crítica da ideologia em suas análises do fascismo, afirmou que “o fascismo como tal não é um problema psicológico . Disposições psicológicas, na verdade, não causam o fascismo.”4 Por mais que a família Bolsonaro seja um bando de psicopatas, isso não é uma explicação suficiente. Ou seja, devemos ter em vista que a ideologia não pode ser tomada como uma dimensão psíquica autônoma, uma patologia individual, mas como algo que diz respeito a processos sociais e históricos objetivos. Por um lado, temos os militares e seu projeto de gestão da desintegração social capitalista em uma sociedade com 14 milhões lde desempregados (segundo dados oficiais) e uma taxa de homicídio com intensidade de guerra civil. Por outro, temos Bolsonaro como o agitador fascista propriamente dito e o bolsonarismo como mecanismo de adesão ideológica de massas. Vou tentar me concentrar nesse segundo aspecto.

O Brasil parece ter sido possuído, nos últimos tempos, por forças demoníacas. Um sentimento de apocalipse, insuflado pela Besta na figura de Bolsonaro, é absorvido tanto por aqueles que desejam o apocalipse quanto por aqueles que o temem. “Acabou para vocês”, ameaçam de um lado. “O nosso mundo vai acabar”, pensamos nós, do lado de cá, ou ainda, “nós vamos morrer”. Há uma espera nesse ar que parece portar um fim, uma espera esperançosa para alguns5, pura agonia para outros. Muito da tensão vem da sensação confidente de que o líder tem uma quantidade desmesurada de poder é proporcionada pelo ato da ameaça e pela sua capacidade de incutir medo nos outros. O país se dividiu entre ameaçadores e ameaçados: estar do lado dos ameaçadores, ou tornar-se um ameaçador, produz a ilusão de que não se é ameaçado com aquilo que se escolhe apoiar. O sentimento de que se é capaz de fazer temer gera uma compensação psíquica para uma situação de impotência real: os impotentes, os fracassados, as vítimas de um sistema produtor de mercadorias e frustração sentem-se, de repente, “empoderados”. O sentimento de impotência é crucial – como dizia Adorno: “As experiências de impotência real são tudo, exceto irracionais; . Somente elas permitem a esperança de uma resistência contra o sistema social .”6Com o poder de ameaçar sente-se que algum poder é possível ter, nem que seja o de botar medo, mesmo que para além disso não se tenha poder algum. O nosso medo e o alarmismo de setores da sociedade civil diante da ascensão fascista é recebido do outro lado, por grande parte dos eleitores do Bolsonaro, com deleite (e adianto aqui que a única felicidade possível do bolsonarista, que não é felicidade alguma, é o prazer proporcionado pela ameaça ou pela punição, em que se misturam ressentimento e requintes de sadismo). “O desespero de vocês é lindo”, diz uma apoiadora na internet. Um outro, com certo revanchismo de classe, porém completamente desinformado de seu próprio destino, comenta: “Vocês estão morrendo de medo porque até agora só os pobres são presos, agora também os ricos irão pra cadeia.” Sem esse aspecto do “empoderamento” dos impotentes por meio da ameaça, e por que não dizer, do terror, também a conversão jihadista de milhares de jovens desesperançados tanto no mundo árabe quanto nas cidades europeias não pode ser explicada. Em uma proporção bem menor em relação àquele que, sem limites para sua raiva e desejo de revanche, se engaja em uma organização como o Estado Islâmico e é capaz de se explodir na esperança desesperada de que algo de bom o bastante ou de muito ruim aconteça, também o ato do eleitor que adquire seu pequeno prazer ao eleger Bolsonaro possui algo desse gesto. Pulsão de morte? Sem dúvida. De todo modo, toda uma dimensão de um poder (imaginário ou real) adquirido por meio da ameaça (e o prazer sádico que decorre disso) impregnou a vida social e política do país.

São ameaças por toda parte. Vive-se uma produção sistemática de arrepios, que são sentidos ora com horror, ora com prazer. Em debate no Rio de Janeiro, Witzel ameaçava mandar prender Eduardo Paes. Bolsonaro fez o mesmo com Haddad: “Sua hora vai chegar”, dizia ele. No caso de Bolsonaro, é uma evidente tática militar de guerra psicológica para amedrontar o inimigo (se procurarem, verão o quão recorrente é a ameaça de prisão que ele fez a Haddad). Os futuros estadistas ameaçam prender, e seus concidadãos (já são centenas de relatos acumulados) ameaçam espancar ou matar, e muitas vezes simplesmente reiteram uma ameaça vaga, sem conteúdo específico. Seria necessário perguntar qual o lastro dessa ameaça de Bolsonaro, o que sustenta ela, ou se ela é um blefe. Pois, como diz Marildo Menegat, “virou um jogo de pôquer no qual todas as cartas são ruins, por isso, basta blefar antes e mais alto para levar.”7De todo modo, é evidente que a própria ameaça se tornou um dos cernes da ideologia, ou a ideologia se manifesta enquanto ameaça. É algo semelhante àquilo que Silvia Viana chamou de “cinismo viril” quando analisava o show de horrores dos mandos e desmandos nos reality shows,8 e de fato não há nada tão constitutivo da sociedade brasileira quanto a violenta virilidade patriarcal e nosso cinismo de nascença.9 Lembremos que a ideologia, em sentido tradicional, depende de um descompasso entre norma e fato, e a crítica da ideologia parte justamente dessa contradição. Já o cinismo enquanto ideologia prescinde da norma e se coloca enquanto fato bruto, ele é violência sem mediações, sem promessa de algo outro para além dele. Neste aspecto, a ideologia torna-se imune a qualquer desvelamento, pois não há nada a ser desvelado. Tentar “mostrar” o que é Bolsonaro é por isso, para grande parte de seus eleitores, uma tentativa em vão, e não surte nenhum efeito justamente porque aquelas normas às quais tentamos contrapor o horror dos fatos, e que caracterizam o horror como horrível, caíram por terra.

O discurso de Bolsonaro tem algo daquela “desfaçatez de classe” que Roberto Schwarz viu estilizada no narrador de Brás Cubas, que é “um show de impudência, em que as provocações se sucedem, numa gama que vai da gracinha à profanação.”10 No caso de Bolsonaro, é uma profanação da própria política (enquanto nós a defendemos, perdemos o lugar de profanadores). Seu aspecto que mistura violência e gracejo, brutalidade sanguinária e piadismo, não é tanto a rigidez do militar ultra disciplinado, mas traz representada em si a conduta própria à classe dominante brasileira desde os tempos de Machado. Bolsonaro diz as maiores barbaridades como um tiozão da padaria, burro e violento, mas simpático, com um ar debochado e leve – que é precisamente o que permite a identificação do cidadão médio. Como dizia Adorno, “o agitador fascista é usualmente um exímio vendedor de seus próprios defeitos psicológicos. Isso somente é possível devido a uma similaridade estrutural geral entre seguidores e líder, e o objetivo da propaganda é estabelecer um acordo entre eles.”11 O fato de Bolsonaro ser um idiota não joga contra ele, mas a favor: “Os agitadores fascistas são tomados a sério porque arriscam a se passar por tolos.”12O discurso do fascista não é trágico, mas farsesco (Marcuse já dizia que quando a história se repete como farsa, a farsa é pior que a tragédia13).

Entretanto, somente burrice e cinismo não dão conta de todo o quadro ideológico. A ameaça sádica e cínica, por mais central que seja, é, a longo prazo, psicologicamente insuportável. Ela não é cínica em tempo integral. Há mesmo no bolsonarismo uma pretensão de inteligência (uma apreensão pseudo-cognitiva do mundo) e uma pretensão de moralidade. Isso contradiz a tese da desnormatização social generalizada inerente à ideia de cinismo como regra. Tanto não é o caso de um cinismo de massas, em que a própria transparência dos processos sociais tenha se tornado a ideologia, que uma campanha, quer dizer, um cyber-ataque terrorista com amparo internacional e financiado por empresários para a divulgação massiva de mentiras foi necessário. As famosas e tão debatidas “fake news” têm um papel central no funcionamento ideológico, na formação de sujeitos paranoicos, acuados, e ao mesmo tempo indignados e apáticos (a ideia de indignação apática talvez seja aqui complementar à definição de fascismo como “revolta na ordem”, segundo João Bernardo). O apático indignado é um info-junkie viciado em fatos. Nas últimas semanas, essas fake news assumiram um evidente caráter de manipulação de massas com comando centralizado, exemplo claro de guerra psicológica, tática militar empregada desde a Primeira Guerra Mundial que se define pela produção de um certo sentimento ou emoção na população (como indignação ou medo), a partir de informações verdadeiras ou falsas, tendo em vista um certo sistema de valores, crenças e comportamentos, de modo a converter tais sentimentos em vantagem política ou militar. No caso de Bolsonaro, mesmo que a notícia venha a ser posteriormente desmentida, cria-se um desnorteamento das pessoas e um clima de incerteza que beneficiou o candidato, que aparece como figura reestabilizadora (o efeito de indignação ou medo perdura mesmo depois que a notícia é desmentida). Isso porque ninguém sabe quem é o forjador ou remetente daquela notícia, ela simplesmente aparece. E, diferentemente do boato, que pode ter como origem uma notícia verdadeira que é deturpada no processo comunicativo, as fake news exigem um forjador consciente.

Porém, desde antes dessa campanha-ataque, já vinha se consolidando o chão ideológico proto-fascista que tanto fomenta as notícias falsas quanto é retroalimentado por elas. Esse chão ideológico proto-fascista é uma paranoia com dois aspectos. Por um lado, trata-se de uma paranoia sexual em que a homofobia da sociedade brasileira se converteu em força política movida a nojo, elegendo deputados e presidente. As fantasias que circundam o “kit gay” vão desde a pedofilia até o incesto (devemos portanto ver a tragédia não somente na disseminação das falsas notícias acerca do “kit gay”, mas sobretudo no fato de que elas funcionaram). Por outro lado, o antipetismo (que tem seu momento de verdade) tem também elementos paranoicos e, penso eu, pode ser analisado a partir de estruturas do antissemitismo. Para o primeiro aspecto (que não é completamente isolado do segundo), podemos pensar a partir de uma frase amplamente repetida, que é: “A putaria vai acabar.” A liberalização dos costumes, a visibilização de LGBTs, as cotas, as drogas, sindicatos, as universidades públicas, peças de teatro com nudez, ONGs, tudo isso aparece como uma espécie de festa, uma suruba da qual eu fui excluído e que eu quero que acabe. Eu quero que todos sofram como eu: essa a lógica fundamental do ressentimento. A dinâmica deles é: “Matam para que se iguale a eles o que lhes parece vivo.”14 Adorno já dizia que faz parte do discurso do agitador fascista “a revelação vingativa de toda sorte de prazeres proibidos usufruídos por outros.” O significante “putaria” aqui engloba desde corrupção até amor homossexual visibilizado. Outra versão da frase, “a mamata vai acabar”, denota ainda um ódio à preguiça e aos supostos preguiçosos (de forma semelhante ao ódio aos “judeus parasitas” que não trabalham) – bolsonaristas dizem que a esquerda vai ser torturada porque agora todos terão que trabalhar (mostrando aqui o vínculo entre ideologia do trabalho e punição – nada mais adequado para a crise da sociedade do trabalho, na qual resta somente seu caráter tautológico e de produção de sofrimento, também bastante adequada à antiética neoliberal da austeridade). Ao mesmo tempo, nessa mesma ameaça de “a putaria vai acabar”, é possível ver – por exemplo no grotesco ritual promovido pelo dono de puteiro Oscar Maroni no dia da prisão de Lula (todos devem ainda ter essa imagem na cabeça) – o verdadeiro anúncio: “a putaria vai começar.” Alexandre Frota, quando indagado sobre seu passado como ator pornô após sua eleição como deputado federal, responde ao ingênuo jornalista: “Mas o congresso já é uma putaria.” O moralismo se autodesativa.

Todas as “fake news” têm caráter de denúncia, e aquelas que circulam em torno do “kit gay”, que vão desde a acusação de Olavo de Carvalho de que Haddad teria defendido o incesto até imagens de pedofilia, são mensagens que estimulam tanto repulsa a um outro que realiza um prazer proibido, imoral, quanto desejo vingativo de linchamento (e como demonstrou o sociólogo José de Souza Martins, os linchamentos são uma especialidade brasileira praticada em larga escala). A diferença é que agora o próprio Estado (e a justiça oficial) cumprirá o papel de justiceiro popular e de linchador – a transformação espetacular (e popular!) de um juiz como Sergio Moro em “herói” já dava sinais da guinada linchadora e justiceira da justiça e do Estado, que agora se casa com um punitivismo de massas, que já vinha celebrando atos bárbaros como prender um ladrão no poste pelo pescoço com uma trava de bicicleta e tatuar à força a testa de outro.

A esse punitivismo corre em paralelo o antipetismo, que, como disse antes, se estrutura ideologicamente de forma análoga ao antissemitismo. Segundo Adorno, o antissemitismo tem um “caráter funcional” que possui uma “independência relativa do objeto”. O antissemitismo é “um dispositivo device para ‘orientação’ sem esforço em um mundo frio, alienado e altamente incompreensível.”15 O antissemitismo é uma crítica primitiva do mundo, funda-se no sentimento (correto) de que há forças sociais intangíveis que operam às costas dos sujeitos e que carecem de explicação. A conspiração, forma básica da compreensão antissemita do mundo, é uma intuição de que existe totalidade social, porém transformada na imagem de uma reunião de indivíduos excessivamente inteligentes e malignos (além das “ideologias perversas”, uma das coisas que se pretende abolir, segundo o programa de Bolsonaro, é a “esperteza”). A divulgação massiva de fotos (montadas ou não) mostrando petistas se encontrando, ou encontrando outros políticos “malignos e poderosos” como Kirchner (!!!) dá sinal disso. O grande complô para o antipetismo é o Foro de São Paulo, a partir do qual é possível explicar terríveis males em frases vagas como esta, que consta no mesmo programa: “Mais de UM MILHÃO de brasileiros foram assassinados desde a 1a reunião do Foro de São Paulo.”16 Aliás, a imprecisão e o exagero de números em dados completamente sem sentido são uma constante no programa: “Graças ao Liberalismo, bilhões de pessoas estão sendo salvas da miséria em todo o mundo.” As explicações esdrúxulas, que são ao mesmo tempo “complicadas” e muito simples de compreender, geram satisfação. Como Adorno analisava, há um “ganho narcísico fornecido pela propaganda fascista”, frente ao qual “qualquer tipo de crítica ou de autoconsciência é ressentida como uma perda narcísica e incita fúria.”17 O fascismo é anti-intelectualista não só no sentido de ódio aos intelectuais, mas também como ódio ao pensamento, aversão à introspecção.

Vale ressaltar que há um elemento desse novo fascismo que se vincula a uma forma específica da luta de classes no Brasil. Florestan Fernandes dizia que a luta de classes no Brasil não se dá entre capital e trabalho, e sim entre quem tem propriedade e quem não tem: por isso ela não é um mecanismo regulador interno do capital, mas sim simplesmente sanguinária. Alguns substantivos no programa de Bolsonaro são grafados em maiúsculo, dando a eles uma conotação semi-religiosa, mas no caso da propriedade privada, para não deixar dúvidas, é dito de forma clara: ela é sagrada. Portanto aquele que a infringe é um sacrílego. Isso é muito evidente no “programa”, que visa (1) armar os proprietários (2) “tipificar como terrorismo invasão de propriedade rural e urbana”, e (3) para ladrões e assaltantes: “prender e deixar na cadeia” (para não citar as declarações que envolvem pena de morte e esterilização dos pobres). O que se revela aqui é uma matriz colonial desse neo-fascismo brasileiro, estruturalmente racista: uma parcela da população é considerada efetivamente descartável “como modess usado ou bombril” (Mano Brown).

Para além dessa utopia apocalíptica que prevê o extermínio de um contingente da população supérflua como parte de uma grande “limpeza”, é evidente para todos que Bolsonaro não tem um programa de governo. Mas penso que também isso não joga contra ele, e pode eventualmente até jogar a favor. Adorno notou que os agitadores fascistas falam muito sobre “este grande movimento”, mas “raramente dizem alguma coisa sobre aquilo a que se supõe que tal movimento conduzirá, para qual fim a organização é boa ou o que o misterioso renascimento pretende positivamente alcançar”18. Ou seja, não há um objetivo claro, um projeto, um ponto a ser alcançado – mas esse ponto é preenchido pela fantasia, seja pelos nossos pesadelos, ou pelos delírios perversos deles. Depois que a esquerda brasileira descobriu sua vocação definitiva para o governo e para a gestão, o espaço que se abriu depois que a gota d’água de 2013 fez o balde transbordar foi ocupado por uma direita que redescobriu a anti-política, e que encaminhou os sonhos do povo (que desaprendemos a interpretar) para esse pesadelo real.


Notas

1 Como defendeu Pablo Otellado. Ver: “Não é o que parece”, Folha de S.Paulo, 27 set. 2018.
2 Christian Laval, “Bolsonaro e o momento hiperautoritário do neoliberalismo”. Blog da Boitempo, out. 2018.
3 Marco Aurélio Cabral Pinto, “A ‘doutrina da dependência’ militar e a eleição de 2018”, Carta Capital, 27/09/2018.
4 Theodor Adorno, “A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista”, em: Margem Esquerda #7, disponibilizado integralmente no Blog da Boitempo. Citado de: Theodor Adorno, Ensaios sobre psicologia social e psicanálise, Unesp, p. 185-6.
5 Uma esperança que, entretanto, parece ter se revelado em algumas pessoas, após o resultado das eleições, como vergonha.
6 Theodor Adorno, “Sobre a relação entre sociologia e psicologia”, em: Ensaios sobre psicologia social e psicanálise, São Paulo, Unesp, p. 111
7 Marildo Menegat, “Volver!”.
8 Silvia Viana, Rituais de sofrimento, São Paulo, Boitempo, 2013.
9 No auge da era FHC, em 1998, Paulo Arantes escrevia: “Não quero parecer ufanista, mas em matéria de cinismo também estamos na frente. Ou melhor, continuamos. […] Enquanto na metrópole um espesso véu vitoriano ainda recobria o interesse nu e cru do pagamento em dinheiro, numa longínqua sociedade colonial a exploração prosperava a céu aberto, direta e seca. Na metrópole, todos faziam, porém a rigor não sabiam de nada, ao passo que na periferia todos sabiam muito bem o que estavam fazendo.” Paulo Arantes, “Eles sabem o que fazem” in Zero à esquerda, p. 109.
10 Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo. São Paulo: Duas Cidades, p. 17.
11 Theodor Adorno, “Antissemitismo e propaganda fascista”, p. 144
12 Theodor Adorno, “Antissemitismo e propaganda fascista”, p. 145
13 Herbert Marcuse, “Prólogo”. Em: Karl Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo, Boitempo, 2011,
14 Theodor Adorno, Minima Moralia, p. 228
15 Theodor Adorno, The Autoritarian Personality
16 “Enfrentaremos o viés totalitário do Foro de São Paulo, que desde 1990 tem enfraquecido nossas instituições democráticas.” (Ou seja, basicamente desde a redemocratização). “O caminho da prosperidade: Proposta de Plano de Governo (Jair Bolsonaro 2018)”, pp. 11-12.
17 Theodor Adorno, A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista”, p. 177.
18 Theodor Adorno, The Autoritarian Personality.

Felipe Catalani é mestrando em Filosofia pela FFLCH-USP. 

Perspectivas de modificações conscientes na vida cotidiana- Guy Debord


Publicado na revista da Internacional Situacionista, volume 6, agosto de 1961, pp. 20-7
Original em francês
Versão em inglês

Estudar a vida cotidiana seria um esforço perfeitamente ridículo e condenado de antemão a não conhecer nada de seu objeto, a menos que proponhamos que o estudo dessa vida cotidiana tenha explicitamente o intuito de transformá-la.

A conferência, isto é, a exposição de certas considerações intelectuais diante de um público, como forma extremamente banal de relações humanas em um amplo setor da sociedade, revela-se ela mesma sob a crítica da vida cotidiana.

Os sociólogos, por exemplo, têm tendência a se retirar da vida cotidiana, a segregar em esferas separadas – ditas superiores – aquilo que lhes chega a todo momento. É o habito sob todas as suas formas, a começar pelo hábito do uso de alguns conceitos profissionais – produzidos pela divisão do trabalho – que esconde desse modo a realidade última das convenções privilegiadas.

É assim desejável fazer ver, por um leve deslocamento das fórmulas atuais, que a vida cotidiana está exatamente aqui. A difusão destas palavras através de uma fita-cassete não quer ilustrar precisamente a integração das técnicas nessa vida cotidiana marginal ao mundo técnico, mas aproveitar esta simples ocasião para romper com as aparências da pseudo-colaboração e do diálogo artificial, que se encontram instituídas entre os conferencistas “presente de corpo” e seus espectadores. Esta leve ruptura de um conforto pode servir para trazer imediatamente ao campo da discussão da vida cotidiana (discussão de outro modo totalmente abstrata) a própria conferência, como uma das tantas outras disposições de uso do tempo ou dos objetos, disposições tidas como “normais”, que não são mesmo vistas, e que afinal nos condicionam. A propósito de um detalhe, como a propósito do conjunto da vida cotidiana, a modificação é sempre a condição necessária e suficiente para fazer aparecer experimentalmente o objeto de nosso estudo, que por vício permaneceria questionável; um objeto menos para estudar que para modificar.

Acabei de dizer que a realidade de um conjunto observável que seria designado pelo termo “vida cotidiana” pode continuar hipotética para muitas pessoas. Com efeito, desde que este grupo de pesquisadores se constituiu, o traço mais surpreendente não é, evidentemente, que ele ainda não tenha encontrado nada, mas que a contestação da própria existência da vida cotidiana nele se faça ouvir desde o primeiro momento; e que ela não tenha deixado de ganhar força de sessão em sessão. A maioria das intervenções que pudemos escutar até aqui nesta discussão veio de pessoas que não estão convencidas de que a vida cotidiana existe, pois não a encontraram em parte alguma. Um grupo de pesquisa sobre a vida cotidiana, animado deste espírito, é em todos os pontos comparável a um grupo que parte à procura do Yeti e cuja investigação poderia muito bem leva à conclusão de que ele se trata de uma invenção folclórica.

No entanto, a todo mundo parece que certos gestos repetidos diariamente, como abrir portas ou encher copos, são de fato reais; mas esses gestos se encontram em um nível tão trivial da realidade que se contesta, de maneira compreensível, que eles possam ser interessantes a ponto de justificar uma nova especialização da pesquisa sociológica. E um certo número de sociólogos parece pouco inclinado a imaginar outros aspectos da vida cotidiana a partir da sua definição proposta por Henri Lefebvre: “aquilo que permanece quando se extrai do vivido todas as atividades especializadas”. Aqui descobre-se que a maior parte dos sociólogos – e sabemos o quanto eles se encontram imersos em suas atividades especializadas e como eles sustentam de hábito uma crença cega nelas! –, portanto, reconhece atividades especializadas em todos os lugares, mas em lugar algum a vida cotidiana. A vida cotidiana está sempre nos lugares em que estão os outros. De qualquer maneira, somente nas classes não-sociólogas da população. Alguém disse aqui que os trabalhadores seriam interessantes de estudar, como cobaias provavelmente inoculadas com este vírus da vida cotidiana, já que eles, não tendo acesso às atividades especializadas, não têm senão a vida cotidiana a viver. Essa maneira de se observar as pessoas, à procura de um remoto primitivismo do cotidiano, e sobretudo esse contentamento confessado sem rodeios, esse orgulho ingênuo de participar de uma cultura cuja ruidosa queda ou a radical incapacidade de compreender o mundo que a produziu ninguém pode pensar em dissimular, tudo isso não deixa de ser fantástico.

Existe aí uma vontade manifesta de se abrigar atrás de uma formação do pensamento fundada sobre a separação de domínios parciais artificiais, a fim de rejeitar o conceito inútil, vulgar e perturbador de “vida cotidiana”. Este conceito retoma um resíduo da realidade catalogada e classificada, resíduo cuja confrontação repugna alguns, pois é ao mesmo tempo o ponto de vista da totalidade; ele implicaria a necessidade de um julgamento global, de uma política. Poderia-se dizer que certos intelectuais se sentem lisonjeados desse modo de uma participação pessoal ilusório no setor dominante da sociedade, através da posse de uma ou mais especializações culturais; o que, contudo, os coloca na linha de frente para perceber que o conjunto dessa cultura dominante é notoriamente comido pelas traças. Mas, qualquer que seja o julgamento que se tenha sobre a coerência dessa cultura ou sobre seu interesse detalhado, a alienação que ela impôs aos intelectuais em questão é a de fazê-los julgar, desde o céu dos sociólogos, que eles são de fatos exteriores a essa vida cotidiana das populações, ou que são muito altos na escala dos poderes humanos, como se eles também não fossem pobres.

É certo que as atividades especializadas existem; elas têm mesmo, em uma dada época, um uso geral que sempre é bom poder reconhecer de maneira desmistificada. A vida cotidiana não é tudo. Ainda que ela esteja em osmose com as atividades especializadas a ponto de, de uma certa maneira, nunca estarmos fora da vida cotidiana; no entanto, recorrendo à imagem fácil de uma representação especial das atividades, a vida cotidiana está no centro dessas atividades. Cada projeto parcial e cada realização vêm tirar dela sua verdadeira significação. A vida cotidiana é a medida de tudo: da realização, ou melhor, da não realização das relações humanas; do uso dos tempos vividos; das pesquisas da arte; da política revolucionária.

Nunca é demais lembrar que velha imagem idealizada científica do observador desinteressado é sempre falaciosa.

Deve-se ressaltar o fato de que a observação desinteressada é ainda menos possível aqui do que em outras partes. O que dificulta o reconhecimento mesmo de um domínio da vida cotidiana não é somente o fato de que ela seria o domínio de encontro de uma sociologia empírica e de uma elaboração conceitual, mas também de que ela se encontra neste momento no centro de toda a renovação revolucionária da cultura e da política.

A vida cotidiana não criticada significa agora o prolongamento das formas atuais, profundamente degradadas, da cultura e da política, formas cuja crise extremamente avançada, sobretudo nos países mais modernos, se traduz por uma despolitização e um neo-analfabetismo generalizados. Em resposta e em ação, a crítica radical da vida cotidiana dada pode produzir uma superação da cultura e da política no sentido tradicional, isto é, a um nível superior de intervenção sobre a vida

Mas, poderão perguntar, essa vida cotidiana, que de acordo com o que falo é a única real, como a sua importância é tão completa e imediatamente diminuída por pessoas que não têm, afinal, nenhum interesse direto em fazê-lo – e muitas delas sem dúvida estão inclusive longe de serem inimigas de uma renovação do movimento revolucionário?

Considero que isso ocorre porque a vida cotidiana está organizada nos limites de uma pobreza escandalosa. E sobretudo porque essa pobreza da vida cotidiana não tem nada de acidental: é uma pobreza que lhe é imposta a todo instante pela pressão e pela violência de uma sociedade dividida em classes; uma pobreza organizada historicamente segundo as necessidades da história da exploração.

O uso da vida cotidiana, no sentido de um consumo do tempo vivido, é comandado pelo domínio da escassez: escassez do tempo livre e escassez dos usos possíveis desse tempo livre.

Do mesmo modo que a história acelerada de nossa época é a história da acumulação, da industrialização, o retardo da vida cotidiana e a sua tendência ao imobilismo são produtos de leis e interesses que conduziram essa industrialização. A vida cotidiana apresenta, efetivamente, até o presente momento, uma resistência ao histórico, considerando aqui o histórico como herança e projeto de uma sociedade de exploração.

A pobreza extrema da organização consciente, da criatividade das pessoas, na vida cotidiana, traduz a necessidade fundamental da inconsciência e da mistificação em uma sociedade exploradora, em uma sociedade de alienação.

Henri Lefebvre aplicou aqui uma extensão do ideia de desenvolvimento desigual para caracterizar a vida cotidiana, deslocada mas não excluída da historicidade, como um setor atrasado. Acredito que se pode inclusive caracterizar esse nível da vida cotidiana como um setor colonizado. Vimos, com a queda da economia mundial, que o sub-desenvolvimento e a colonização são fatores em interação. Tudo leva a crer que isso também se aplica à queda da formação econômico-social, da práxis.

A vida cotidiana, mistificada por todos meios e policialmente controlada, é um tipo de reserva para os bons selvagens que fazem andar a sociedade moderna, com o rápido crescimento de seus poderes técnicos e a expansão forçada de seu mercado, sem no entanto a compreenderem. A história – isto é, a transformação do real – não é atualmente utilizável na vida cotidiana porque o homem da vida cotidiana é o produto de uma história sobre a qual ele não tem controle. É evidentemente ele mesmo que faz essa história, mas não livremente.

A sociedade moderna é compreendida por fragmentos especializados, transmissíveis a alguns poucos próximos, e a vida cotidiana, onde todas as questões podem ser postas de uma maneira unitária, é portanto naturalmente o domínio da ignorância.

Essa sociedade, através de sua produção industrial, esvaziou de todos os sentidos os gestos do trabalho. E nenhum modelo de conduta humana carrega uma atualidade genuína no cotidiano.

Essa sociedade tende a atomizar as pessoas em consumidores isolados, a interditar a comunicação. A vida cotidiana é assim vida privada, domínio da separação e do espetáculo.

De modo que a vida cotidiana é também a esfera da renúncia dos especialistas. É lá que, por exemplo, um dos raros indivíduos capazes de compreender a mais recente imagem científica do universo torna-se estúpido e reflete longamente sobre as teorias artísticas de Alain Robbe-Grillet[1], ou então envia petições ao Presidente da República[2] com o objetivo de mudar sua política. É a esfera do desarmamento, da admissão da incapacidade de viver.

Não se pode então caracterizar o sub-desenvolvimento da vida cotidiana somente por sua relativa incapacidade de integrar técnicas. Esse traço é um produto importante, mas parcial, do conjunto da alienação cotidiana, a qual poderia ser definida como a incapacidade de inventar uma técnica de libertação do cotidiano.

E de fato muitas técnicas modificam mais ou menos claramente certos aspectos da vida cotidiana: as artes domésticas[3], como já disse aqui, mas também o telefone, a televisão, o registro da música em discos de vinil, as viagens aéreas popularizadas etc.

Esses elementos intervêm anarquicamente, ao acaso, sem que ninguém tenha previsto suas conexões e as consequências. Mas é certo que, nesse contexto, o movimento de introdução das técnicas na vida cotidiana, estando afinal delimitado pela racionalidade do capitalismo moderno burocratizado, vá mais no sentido de uma redução da independência e da criatividade das pessoas. Assim, as cidades novas atuais representam claramente a tendência totalitária da organização da vida pelo capitalismo moderno: isola os indivíduos (geralmente na célula familiar), visando a reduzir suas vidas à pura trivialidade do repetitivo, que absorvem obrigatoriamente um espetáculo igualmente repetitivo.

É preciso então crer que a censura que as pessoas exercem sobre a questão de sua própria vida cotidiana se explique pela consciência de sua miséria insustentável e ao mesmo tempo pela sensação, talvez mantida em segredo, mas inevitavelmente experimentada num dia ou noutro, de que todas as possibilidades verdadeiras, todos os desejos que foram impedidos pelo funcionamento da vida social, residem nela e não nas atividades ou distrações especializadas. Isto é, o conhecimento da riqueza profunda, da energia abandonada na vida cotidiana, é inseparável do conhecimento da miséria da organização dominante desta vida: somente a existência perceptível dessa riqueza inexplorada conduz para a definição, por contraste, da vida cotidiana como miséria e como prisão, e para, no mesmo movimento, a negação do problema.

Nessas condições, esconder a questão política colocada pela miséria da vida cotidiana quer dizer esconder a profundeza das reivindicações sobre a riqueza possível dessa vida; reivindicações que não levariam a menos que uma reinvenção da revolução. Uma fuga diante da política neste nível não é de forma alguma contraditória com a militância no Partido Socialista Unificado, por exemplo, ou de ler e acreditar no L’Humanité[4].

Tudo depende efetivamente do nível em que se ousa colocar os seguintes problemas: como vivemos? Como nos satisfazemos? Isso sem se deixar intimidar em instante algum pelas diversas publicidades que querem convencer de que se pode ser feliz por causa da existência de Deus, ou da pasta de dentes Colgate, ou do CNRS[5].

Parece-me que o termo “crítica da vida cotidiana” também poderia e deveria ser escutado junto com o seu inverso: crítica que vida cotidiana exerceria, soberanamente, sobre todos aqueles que lhe são aparentemente exteriores.

A questão do uso dos meios técnicos, na vida cotidiana e fora dela, é uma questão política (e entre todos os meios técnicos existentes, aqueles postos em prática são na realidade selecionados de acordo com objetivos da manutenção da dominação de uma classe). Quando consideramos a hipótese de um futuro, como é admitido pela literatura de ficção científica, onde aventuras interestelares coexistiriam com uma vida cotidiana protegida nesta terra na mesma indigência material e no mesmo moralismo arcaico, o que quer dizer, exatamente, que ainda haveria uma classe de dirigentes especializados, os quais manteriam a seu serviço as multidões proletárias das fábricas e dos escritórios, e que as aventuras interestelares seriam unicamente o empreendimento escolhido pelos dirigentes, a maneira que eles teriam encontrado de desenvolver sua economia irracional, o auge da atividade especializada.

Pergunta-se: “A vida privada é privada do quê?”. Simplesmente da vida, que está cruelmente ausente dela. As pessoas são tão privadas quanto possível de comunicação e de realização pessoal. Seria melhor dizer: de realizar sua própria história, pessoalmente. As hipóteses para responder positivamente esta questão sobre a natureza da privação não poderão portanto ser enunciadas senão sob a forma de projetos de enriquecimento; projeto de um outro estilo de vida, se é que se trata de um estilo… Ou então, se considerarmos que a vida cotidiana está na fronteira do setor dominado e do setor não dominado da vida, portanto lugar do aleatório, seria preciso chegar a substituir o presente gueto por uma fronteira sempre em movimento; trabalhar permanentemente para a organização de novas possibilidades.

A questão da intensidade do vivida é colocada atualmente, por exemplo, com o uso de drogas, nos termos em que a sociedade da alienação é capaz de colocar todas as questões: isto é, em termos de falso reconhecimento de um projeto falsificado, em termos de fixação e de fissura. Convém notar também a que ponto a imagem do amor elaborada e difundida nessa sociedade se parece com a droga. A paixão é primeiramente reconhecida enquanto recusa de todas as outras paixões, posteriormente ela é impedida, e finalmente encontrada nas compensações do espetáculo reinante. La Rochefoucald[6] escreveu: “O que frequentemente nos impede de nos abandonar a um vício é que nós temos muitos deles”. Eis uma constatação muito positiva se, rejeitando os pressupostos moralistas, for reabilitada, como base de um programa de realização das capacidades humanas.

Todos esses problemas estão na ordem do dia porque, visivelmente, nosso tempo está dominado pelo aparecimento do projeto, levado pela classe operária, de abolição de toda sociedade de classes e do começo da história humana; e, portanto, ele está dominado, por corolário, pela resistência contra este projeto, os desvios e fracassos, até aqui, deste projeto.

A crise atual da vida cotidiana inscreve-se nas novas formas da crise do capitalismo, formas que permanecem sem ser percebidas por aqueles que se obstinam em realizar os cálculos clássicos das datas das próximas crises cíclicas do capitalismo.

O desaparecimento de todos os antigos valores, de todas as referências da comunicação antiga, no capitalismo desenvolvido, e a impossibilidade de substituí-los por quaisquer outros, antes dominar racionalmente, na vida cotidiana e em toda a parte, as novas forças industriais que nos escapam cada vez mais; estes fatos produzem não somente a insatisfação quase oficial de nossa época, insatisfação particularmente aguda na juventude, mas também no movimento de negação da arte.

A atividade artística sempre foi a única a dar conta dos problemas clandestinos da vida cotidiana, ainda que de uma maneira velada, deformada, parcialmente ilusória. Existe, em nossa visão, o testemunho de uma destruição de toda expressão artística: é a arte moderna.

Considerando em toda sua extensão a crise da sociedade contemporânea, não creio que ainda seja possível considerar os lazeres como uma negação do cotidiano. Admitiu-se aqui que seria necessário “estudar o tempo perdido”. Mas vejamos o movimento recente desta ideia de tempo perdido. Para o capitalismo clássico, o tempo perdido é aquele exterior à produção, à acumulação, à poupança. A moral laica, ensinada nas escolas da burguesia, implantou essa medida da vida. Mas nota-se que o capitalismo moderno, por um ardil não esperado, tem necessidade de aumentar o consumo, de “elevar o nível de vida” (esta expressão é rigorosamente desprovida de sentido).

Como, ao mesmo tempo, as condições da produção, compartimentalizada e controlada ao extremo, tornam-se perfeitamente indefensáveis, a moral que já corre na publicidade, na propaganda e em todas as formas do espetáculo dominante, admite, pelo contrário, com franqueza, que o tempo perdido é aquele do trabalho, que não se justifica senão pelos diversos graus de ganhos, que permitem comprar o descanso, o consumo, os lazeres – isto é, uma passividade cotidiana fabricada e controlada pelo capitalismo.

Atualmente, se encararmos a facticidade das necessidades do consumo que cria todas as peças e estimula sem cessar a indústria moderna – se reconhecermos o vazio dos lazeres e a impossibilidade de descanso – podemos colocar a questão de uma maneira mais realista: o que não seria tempo perdido? Dito de outra maneira: o desenvolvimento de uma sociedade da abundância deveria levar à abundância de quê?

Isso pode, evidentemente, servir de pedra de toque de vários modos. Por exemplo, em uma das revistas em que se demonstra a inconsistência do pensamento dessas pessoas chamadas intelectuais de esquerda – o France-Observateur[7] –, pode-se ler um título que anuncia algo como “o pequeno carro que ataca o socialismo”. O artigo que lhe sucede explica que os russos começaram nestes tempos a seguir individualmente um consumo privado de bens no estilo americano, a começar, naturalmente, pelos carros.

Em vista de tal artigo, não podemos deixar de pensar que não teria sido indispensável a assimilação de toda a obra de Marx, depois da de Hegel, para perceber no mínimo que um socialismo que recua diante da invasão do mercado por pequenos carros não é de nenhum modo o socialismo pelo qual o movimento operário lutou. De modo que não é no nível de sua tática ou de seu dogmatismo que é preciso se opor aos dirigentes burocratas russos, mas à base, sobre o fato de que a vida das pessoas não mudou realmente de sentido. E esta não é uma fatalidade obscura da vida cotidiana, destinada a permanecer reacionária. É uma fatalidade imposta exteriormente à vida cotidiana pela esfera reacionária dos dirigentes especializados, seja qual for o rótulo sob o qual eles planificam a miséria, em todos os seus aspectos.

Dessa maneira, a despolitização atual de muitos dos antigos militantes da esquerda, o distanciamento de uma certa alienação para se jogar em outra, a da vida privada, não te, não tem tanto o sentido de uma retorno à privatização enquanto refúgio contra as “responsabilidades da historicidade”, mas mais de um distanciamento do setor político especializado e portanto sempre manipulado pelos outros; em que a única responsabilidade foi de deixar todas as responsabilidades a chefes incontroláveis; em que o projeto comunista foi traído e enganado. Do mesmo modo que não se pode opor totalmente a vida privada a uma vida pública, sem perguntar qual vida privada e qual vida pública (pois a vida privada contém os fatores de sua negação e de sua superação, assim como a ação coletiva revolucionária pôde alimentar os fatores de sua degeneração), desse mesmo modo, seria errado acreditar numa alienação dos indivíduos na política revolucionária enquanto se trata de uma alienação da própria política revolucionária. É justo entender o problema da alienação dialeticamente, assinalar as possibilidades de alienação sempre renascentes na própria luta conduzida contra a alienação, mas ressaltemos que tudo isso deve ser aplicado no nível mais alto da pesquisa (por exemplo, à filosofia da alienação em seu conjunto) e não ao nível do stalinismo, cuja explicação é infelizmente a mais grosseira.

A civilização capitalista ainda não foi superada em nenhuma parte, mas em toda parte ela continua a produzir seus inimigos.

O próximo levante do movimento revolucionário, radicalizado pelos ensinamentos das derrotas anteriores, e cujo programa de reivindicações deverá se enriquecer na medida dos poderes práticos da sociedade moderna, poderes que constituem virtualmente a partir de agora a base material que faltava às correntes ditas utópicas do socialismo; essa próxima tentativa de contestação total do capitalismo saberá inventar e propor um outro uso da vida cotidiana e se apoiará imediatamente sobre novas práticas cotidianas, sobre novos tipos de relações humanas (não ignorando mais que toda conservação, no interior do movimento revolucionário, das relações que dominam a sociedade existente levam sem perceber à reconstituição, com diversas variações, dessa mesma sociedade).

Assim como outrora a burguesia, em sua fase ascendente, teve que conduzir uma liquidação impiedosa de tudo aquilo que sobrepujava a vida terrestre (o céu, a eternidade), desse mesmo modo o proletariado revolucionário – que não pode nunca, sem deixar de existir como tal, se reconhecer em um passado ou em um modelo – deverá renunciar a tudo aquilo que sobrepuja a vida cotidiana. Ou melhor, que pretende sobrepujá-la: o espetáculo, a palavra ou o gesto “históricos”, a “grandeza” dos dirigentes, o mistério das especializações, a “imortalidade” da arte e sua importância exterior à vida. O que quer dizer o seguinte: renunciar a todos os sub-produtos da eternidade que sobreviveram como armas do mundo dos dirigentes.

A revolução na vida cotidiana, quebrando a sua atual resistência ao histórico (e a todo tipo de mudança) criará condições tais em que o presente domina o passado, e em que a criatividade prevalece sempre sobre a repetição. É preciso então esperar que o lado da vida cotidiana que exprime os conceitos da ambiguidade – mal-entendidos, compromissos ou abusos – perca muita importância, em benefício de seus opostos, a escolha consciente ou a aposta.

O atual questionamento artístico da linguagem, contemporânea dessa metalinguagem das máquinas, que não é outra senão a linguagem burocratizada da burocracia no poder, será então superado por formas superiores de comunicação. A noção atual de texto social decifrável deverá levar a novos procedimentos de escrita desse texto social, na direção daquilo que pesquisam atualmente meus camaradas situacionistas com o urbanismo unitário e o esboço de um comportamento experimental. A produção central de um trabalho industrial inteiramente reconvertido será o planejamento de novas configurações da vida cotidiana, a criação livre de eventos.

A crítica e a recriação perpétua da totalidade da vidade cotidiana, antes serem feitas naturalmente por todos os homens, devem ser empreendidas nas condições da opressão presente com o objetivo de destruir essas condições.

Um movimento cultural de vanguarda, mesmo que tenha simpatias revolucionárias, não é capaz de fazê-lo. Nem um partido revolucionário sob o modelo tradicional, mesmo que conceda um lugar importante para a crítica da cultura (entendendo este termo como o conjunto dos instrumentos artísticos ou conceituais pelos quais uma sociedade se explica a si mesma se coloca objetivos de vida). Tanto essa cultura quanto essa política são usadas, e não é sem motivo que a maior parte das pessoas se desinteresse delas.

A transformação revolucionária da vida cotidiana, que não está reservada a um futuro vago, mas posta imediatamente diante de nós pelo desenvolvimento do capitalismo e de suas exigências insuportáveis, cuja alternativa é o reforço da escravatura moderna; essa transformação marcará o fim de toda expressão artística unilateral e estocada sob a forma de mercadoria ao mesmo tempo que o fim da política especializada

Esta será a tarefa de uma organização revolucionária nova, desde sua formação.

Notas

↑ N.T.: Um dos expoentes do “novo romance francês” em meados dos anos 1950 e 60. É uma crítica irônica de Debord.
↑ N.T. Na época, o presidente francês era Charles de Gaulle. Mais uma ironia do autor.
↑ N.T.: O que atualmente faz mais sentido sob o nome de design.
↑ N.T.: O Partido Socialista Unificado foi um partido francês de centro-esquerda criado em 1960 e dissolvido por seus militantes em 1990. Situava-se entre o Partido Comunista Francês, com ligações soviéticas, e a Seção Francesa da Unidade Operária, social-democrata. Os três partidos eram próximos do jornal L’Humanité.
↑ N.T.: Centro Nacional de Pesquisa Social, principal unidade de pesquisa social na França.
↑ N.T.: François de La Rochefoucauld, duque francês que viveu no século XVII.
↑ N.T.: Revista francesa fundada em 1950. Atualmente, chama-se L’Obs.

 

 

Belchior – histórica entrevista ao Pasquim !

Conhecemos como “anos de chumbo” o  período de maio terror dos anos da  da Ditadura Militar que governou o Brasil por mais de duas décadas. Foram anos que se sucederam após edição do AI 5 e que só  terminou  com o processo de “distensão lenta, gradual e segura” estabelecido pelo Governo Gaisel.Foi nele que a repressão aos movimentos insurgentes e a oposição ao Regime  se estendeu   se tornou mais cruel e presente . Foi também o período em que a censura aos órgãos da imprensa foi mais dura e abrangente . 


Pois, é neste período que o tabloide Pasquim jogou seu mais importante papel : por sua coragem e irreverência, tornou -se em uma válvula de escape, um respiradouro de liberdade , para quem se contrapunha aos militares . E foi a partir daí que em suas páginas  foram feitas entrevistas memoráveis  . Entrevistas que marcaram época . 


Quando soube da notícia da morte do cantor Belchior e começaram a aparecer inúmeras notícias sobre ele e análises às mais desencontradas sobre sua  personalidade,  imediatamente me lembrei de sua entrevista no Pasquim que tinha lido no período em que a ditadura estava mais branda,  em 1982, com a eleição do Brizola no Rio de Janeiro, e o governo Figueiredo . As diretas já estavam a caminho . Neste momento, tanto Belchior quanto o Pasquim desfrutavam  de enorme prestígio . 


Para mim Belchior representa um tipo de artista que em determinado momento recusou-se a ser esmagado  pela máquina de triturar pessoas do mundo do espetáculo . E talvez ( nunca sabermos totalmente sobre isto ) tenha sido este o motivo principal para a sua deserção  do mundo espetáculo , abdicando da carreira e passando a viver num autoexílio, longe das  luzes, do palco e das cobranças dos empresários e das gravadoras .

 

É verdade que neste momento, quando do  seu “desaparecimento”  seus discos já não vendiam tanto como anteriormente e os convites para shows tinham  se tornado mais escassos .Mas, está claro, também,  que com está atitude ele tomou seu destino nas mãos, resolvendo  ele mesmo traçar o seu caminho . E isto fez dele um verdadeiro ícone , reverenciado por uns e cobiçados por outros que almejavam uma entrevista exclusiva .


Onde está Belchior ? Era a pergunta freguente. E quando surge a notícia da sua morte está dada a senha para a produção de  inúmeros programas na TV, entrevistas de especialistas sobre ele, e um  verdadeiro frisson na redes sociais . Como diria Debord : a sociedade do espetáculo transforma tudo em mercadoria !


Saudoso deste cantor  procurei então achar esta entrevista dada ao Pasquim, revirando a web e pedindo ajuda a amigos e amigas que trabalham com pesquisas e arquivos. E vi então que não se tratava de uma tarefa facil pois este tabloide hoje só está acessível para colecionadores,  e alguns de seus números transformaram-se em raridade, embora tão pouco tempo tenha  decorrido  da sua última edição .Coisas do Brasil !


Fui salvo pelo Marcio de Aquino a quem pedi ajuda,  dizendo a ele que o meu blogue não tinha caráter comercial; no que fui   prontamente atendido,  pois ele me  mandou a cópia da entrevista me autorizando a publica-la .  


Marcio é uma espécie de “anjo da guarda”  da web pois possui um blogue na rede cujo o objetivo, segundo ele, ” é divulgar entrevistas e matérias antigas, como fonte de pesquisa e leitura” . Certamente, infelizmente,  um ser em extinção , pois a web rapidamente está perdendo este caráter libertário, se transformando num espaço competitivo e comercial, a exemplo do mundo real . Publicamente agradeço a ele!


Bem, mas vamos a entrevista, que vocês  verão é muito interessante .


Arlindenor Pedro 


O fim da gestão da barbárie – Marildo Menegat

1.

A curiosa sensação de estar assistindo a um sinistro fim de festa se apodera de todos aqueles que procuram entender o significado dos protestos da classe média predominantemente branca iniciados ainda durante os jogos da copa de 2014 e continuados nas manifestações de março e abril de 2015. Diferente dos protestos de 2013, estes têm um perfil conservador dominante e são essencialmente premonitórios: não sabem o que dizem, mas sabem o que fazem. Esta sensação precisa ser explicada, pois trata-se de uma intuição coletiva de que terminado o tempo das vacas gordas, tudo que antes foi sagrado deve ser agora profanado. Para isso, se procurarmos uma definição sintética do significado histórico dos governos do PT, não estaremos longe de um acerto se os definirmos como os anos improváveis de uma bem sucedida gestão da barbárie. Pois é o arsenal destas políticas e suas técnicas de ‘governabilidade social’ que serão profanadas, mas não por razões meramente ideológicas, destas que poderiam dividir esquerda x direita numa luta cheia de glórias, e sim pela disputa pequena de como se deve organizar a próxima etapa do desmoronamento da sociedade brasileira dentro da crise mundial – e neste cenário nem o PT nem a direita apresentam ou significam saídas.

Esta situação histórica esdrúxula se apresenta minada por formas ideológicas fantasmagóricas que, num espetáculo de gosto duvidoso, parecem encenar os verdes anos da velha luta de classes; de repente, 1964 passa a rondar a imaginação de todos como se pudesse ser novamente revivido – com direito a cicatrizes antecipadas. Uma farsa des-graciosa. A sociedade brasileira que desmorona desde os anos 1980 é o resultado de mais de um século bem sucedido da internalização do capital e, a partir de então, de seus limites lógicos internos. Em 1964, talvez, ainda fosse possível se realizar uma expansão deste processo social a partir de ‘reformas de base’ com distribuição de riqueza, mas depois da crise da dívida, em 1981, o capitalismo entrou numa fase em que, no mundo inteiro, assegurar direitos conquistados, quando possível, teve o sabor de amarga vitória. É esta situação que fica encoberta no teatro conservador das ruas e nas respostas débeis que a elas dá a esquerda tradicional – governista ou na oposição.

2.

A globalização ou mundialização imediata do mercado, em que as mediações e barreiras dos Estados Nacionais foram detonadas pela concorrência – esta insuprimível enquanto o processo da acumulação ampliada de capital ainda se sustentar, mesmo que com forças produtivas que não cabem mais nas estreitas margens da produção de mercadorias -, cria relações de interdependência incontornáveis, principalmente em sociedades periféricas. Neste sentido, o capitalismo é a crise e não há, por enquanto, qualquer perspectiva de um se livrar do outro. (Este é um dos lados cômicos da farsa que se espetaculariza nas manifestações, pois o PT e a corrupção são tão causas da crise quanto os mesmos e a Petrobras estariam preparando as condições históricas de um novo futuro para a nação). Acontece que com a imposição de novos patamares de concorrência pelo mercado global, boa parte do esforço de industrialização do Brasil ficou rapidamente obsoleto. Em duas décadas a desindustrialização tornou-se uma realidade que desafia o pensamento de todos aqueles que concebem esta questão como um problema redutível à vontade política. A verdade é que as bases técnicas do desenvolvimento do capitalismo no Brasil sempre foram defasadas em relação aos países centrais, porém, durante muito tempo foi possível compensar esta diferença com salários baixos e restrições de direitos (como o de greve na ditadura militar). Estas condições nunca foram superadas, entre outros motivos, devido às bases restritas de acumulação interna de capital, de tal modo que, quando a competição passou a ser direta e a privilegiar as bases tecnocientíficas da produção, as vantagens relativas do salário baixo desapareceram como pó.

O caráter dramático desta situação fica mais nítido quando se acrescenta que desde 1940 houve um êxodo rural gigantesco, que transferiu em 40 anos, para um conjunto não muito grande de regiões metropolitanas, mais de 70% da população. A reprodução desta massa humana urbana nos padrões elementares de uma moderna sociedade produtora de mercadorias é impossível sem um forte setor industrial. Com o seu desmoronamento, tanto o desemprego passou a níveis insuportáveis, como as importações começaram a forçar cada vez mais os déficits da balança comercial. Para ficarmos apenas nos anos 1990, estima-se em mais de 10 milhões de empregos fechados. A corrente que anima o sistema de produção e reprodução social passou a circular em baixa intensidade e, por isso, a cada novo ciclo econômico, novas quebras ou modernizações de empresas representaram quantidades maiores de indivíduos excluídos das condições elementares de existência por meio de um salário (mesmo que este fenômeno se assemelhe, pelo pauperismo, é bastante diferente em termos estruturais daquele do baixo salário da superexploração que funcionou como vantagem relativa no período anterior).

Por certo já é perceptível que estamos descrevendo uma sociedade colapsada. O sistema de produção não permite as condições de realização das necessidades de contingentes crescentes da população. Se não nos prendermos aos dados oficiais, o número de indivíduos da população economicamente ativa (PEA) desempregados, que sequer procuram emprego, é alarmante, mesmo depois do crescimento da economia no último lustro. As populações de algumas regiões do país, como o Nordeste, apenas são rentáveis no atual quadro da concorrência mundial a partir de um comércio de bens de consumo popular financiados por transferência de rendas estatais como o Bolsa Família e trabalhos temporários em alguns ramos fortemente ancorados em atividades precárias, como o corte de cana em São Paulo – aliás já em vias de supressão –, confecções por peças e etc. Há muito tem viralizado em redes sociais da internet declarações de ódio a setores específicos da população, como os nordestinos, os negros ou, mais abstratamente, os pobres. O ex-presidente Fernando Henrique, modelo acabado da estupidez sem freios em que a dialética do iluminismo se realiza, durante a eleição de 2014 foi o arauto de uma destas boutades. A conexão entre o porta-voz e, para voltarmos às manifestações obscurantistas acima comentadas, as classes médias predominantemente brancas, é o início da verbalização de algo que em breve se sedimentará em movimentos com violência crescente: livrar-se fisicamente dos perdedores da competição global.

3.

Qual foi o corte conjuntural que avivou tanta bestialidade? O segredo pode estar na forma como vivemos nos últimos anos. Poucos se perguntaram neste período como podia um país que já passava a habitar o brejo das almas das nações quebradas pela corrida da globalização, manter uma balança comercial superavitária exportando predominantemente commodities? O ‘bilhete da sorte’ do governo Lula foi tirado em 2002, quando se iniciou uma bolha especulativa com o preço das commodities.

Entre este ano e 2008 os preços não pararam de subir, quando, em razão do estouro da bolha imobiliária nos EUA e do agravamento da crise mundial, os preços caíram, para voltar a subir rapidamente em 2010 e voltar a cair desde 2012. Estes movimentos dão uma base mais consistente para se entender diversos fenômenos, como a popularidade dos governos do PT neste período e a razão sem volta do dissenso atual.

Bolhas financeiras são sintomas agudos de crise. Elas consistem no emprego do capital excedente que circula no mercado mundial, resultante de uma superacumulação que já não encontra oportunidades rentáveis de aplicação na produção em nenhum lugar do mundo. Dinheiro quente desesperado ante a possibilidade iminente de desvalorização. Elas são uma exacerbação e ampliação do chamado capital fictício observado por Marx ainda no século XIX. Segundo este conceito, o dinheiro excedente destinado ao crédito tende a se reproduzir a partir dele mesmo, ou seja, a se transformar na fórmula simplificada de D-D’. Para quem toma este dinheiro emprestado, seria fundamental que fizesse seu emprego produtivo, para que o ciclo de reprodução do capital continuasse a se realizar sem rupturas bruscas. Se assim for, no seu retorno para o emprestador, pouco importa imediatamente para este o uso que foi feito do dinheiro.

Esta questão somente aparecerá na reprodução total do capital. Caso o seu emprego tenha sido apenas em consumo não-produtivo (como é o caso de um processo especulativo), na perspectiva do capital total, o seu valor inicial declinante e o mais-valor – que de fato não se produziu – se perdem. Ou seja, dele não resulta a fórmula ampliada D-M-D’, e, por conseguinte, a desvalorização que parecia ter sido evitada se realiza com força maior, pois arrastará uma cadeia fictícia de valores que alimentou falsamente a reprodução social. Ela passou a criar uma realidade que, não obstante ser uma objetivação das formas abstratas que a sustentam, é constituída de uma objetividade impossível de manter sua existência sob o ponto de vista da valorização do valor (Marx). O absurdo deste real ao mesmo tempo i-real é que ele viabiliza a existência momentânea de milhões de indivíduos já descartados pelo processo de reprodução, reincluíndo-os como fantasmas portadores de crédito, ou trabalhadores precarizados do setor de serviços – que pouco acrescenta à difícil rentabilidade do capital -, etc. As duas formas, por excelência, de que se investe a assombrosa ação do capital fictício são as dívidas públicas e o mercado de ações. Tal quadro tem seu fundamento na base técnica sobre a qual se realiza a concorrência no capitalismo globalizado. Como ela elimina quantidades imensas de trabalho vivo, aumentando o peso do trabalho morto na composição orgânica do capital, a produção de valor vai ficando fraca, insuficiente para valorizar o capital acumulado sedento por investir-se. Por esta razão a especulação não é uma ‘livre escolha’ dos agentes econômicos, mas uma ‘fuga para frente’ do sistema, ou seja, é mais um sintoma do agravamento da crise do que uma saída. Este fenômeno já está posto, sob o ponto de vista lógico desta análise, como a causa da desindustrialização comentada acima; o que ocorre agora é que o circuito de baixa intensidade que dali resultava foi artificialmente intensificado, sem dele resultar um novo processo de expansão e desenvolvimento sobre o qual se pudesse erguer um projeto de nação – como ilusoriamente o petismo sustentou.

Contudo, enquanto o artificio durou – 2002-2008; 2010-12 – os governos lulo-petistas colocaram em andamento toda energia destrutiva, tanto ecológica quanto social, do desenvolvimentismo. A exportação de ferro, soja, milho, açúcar etc. financiou uma inversão na tendência de déficit da balança comercial causados pela perda de competitividade da indústria nacional. Estes recursos resultavam de uma valorização do preço destas commodities devido não a ganhos de produtividade – se bem que houve algum ganho em pequena escala -, ou a um aumento excepcional da demanda – se bem que isto também ocorreu, sem que justifique preços tão altos -, mas a uma ascensão aos céus destes preços devido a uma bolha especulativa. Enquanto seu ar quente enchia balões, o governo tratou de desengavetar o planejamento estratégico, legítimo esqueleto de armário do falecido Estado Nacional, e encenou a realização de um projeto nacional em plena fagocitose desta forma em decorrência da globalização. Dessa maneira, foi induzido um aquecimento do consumo no mercado interno – note o leitor que este aquecimento esteve presente desde o início, e não como resultado de um ciclo de maturação de investimentos produtivos que, por sua vez, teriam induzido o consumo através de novos empregos e o aumento dos salários por conta do aquecimento do mercado de trabalho etc. – por meio de ganhos reais do salário mínimo e farta oferta de crédito (o consignado, por exemplo). Este aquecimento levou o setor de serviços a uma verdadeira apoteose, criando rapidamente milhões de empregos de baixa remuneração e qualificação. Num primeiro momento, como o Estado voltou a ter recursos para investir, devido ao superávit da balança comercial, criou-se o Programa de Aceleração do Crescimento, PAC-I, que tinha principalmente o modesto objetivo de reconstruir a infraestrutura de estradas, portos etc., reduzindo os custos de exportação. Em 2007, porém, a Petrobras anunciou a descoberta do pré-sal. Com ela o feitiço tornou-se inebriante. Com o crash da bolsa de valores americana em 2008, foram postas em andamento, nos anos seguintes no Brasil, políticas anticíclicas para evitar já naquele momento um desastre maior. O planejamento ganhou contornos astronômicos e fez-se um mega esforço de capitalização desta empresa estatal para tornar o Brasil um grande produtor de petróleo. Esta foi, talvez, a aposta mais alta do projeto lulo-petista, porque a extração de petróleo, mais do que a produção de commodities agrícolas e a extração mineral, tem a potencialidade de alimentar uma cadeia produtiva complexa e com capacidade de criar um punhado de empregos industriais maior que os demais setores. A revitalização da indústria naval devia compensar o fechamento de tantas outras neste mesmo período.

A capitalização da Petrobras via BNDES foi paralela ao financiamento de grandes empresas brasileiras com vistas a ocupar posições mais vantajosas na economia mundial. Dinheiro emprestado para aquisições, essencialmente, com pouco investimento em novos meios de produção. A presença deste banco em empresas brasileiras faz dele proprietário ou financiador de parcela significativa do PIB! A esta altura o feitiço já começava a se voltar contra o feiticeiro. A primeira onda da bolha estoura em 2008. No entanto, por conta da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, iniciou-se uma bolha imobiliária interna, com repercussão em boa parte das grandes cidades. Novamente o Estado entrou como facilitador da indução artificial, e passou, com o PAC-II a financiar uma série de obras cosméticas em mobilidade urbana, construção e reforma de estádios e o Programa Minha Casa, Minha Vida, fortalecendo a ilusão de que o aumento repentino e astronômico do preço dos imóveis tinha uma base real. Porém, nada foi como a primeira onda da bolha, de 2002-2008. Dada a gravidade da crise mundial, de 2010 em diante as premonições começaram a se formar.

4.

Antes de analisarmos novamente as precipitações recentes deste quadro de tensões, fazem-se necessários alguns comentários sobre o que se quer dizer com “gestão da barbárie”.

Desde 1981, as dívidas pesam sobre o Estado de tal forma que inviabilizam a manutenção de diversas de suas funções vitais, entre elas, além dos investimentos (comentado acima), o financiamento de políticas públicas. Na década de 1990, o ‘desmonte da nação’, a partir dos primeiros choques da abertura da economia, foi verdadeiramente catastrófico. Um estado de emergência social se espalhava em todas as regiões do território nacional. A violência passou a ser endêmica e o número de mortes por causas externas e de encarcerados chegou a índices de uma guerra civil. Diante deste estado de calamidade, ao vencer as eleições em 2002, o PT se credenciava para a gestão desta crise social com uma longa ficha corrida de experiências (principalmente em prefeituras). Nestas experiências, o partido foi criando para si outro lugar na história, distinto das antigas polêmicas sobre ser um partido revolucionário ou de reformas.

Seu sentido histórico último será mesmo o de ter construído um sistema original de gestão de uma sociedade que desmorona. Que este sistema seja concebido como parte de um esforço de transição (para onde?) é tão somente uma das formas fantasmagóricas da ideologia deste período histórico. Em toda sua arquitetura, as políticas sociais passaram a ser concebidas como uma linha auxiliar da tentativa de reanimação econômica do gigante combalido. Os circuitos que a transferência de renda deveria percorrer sempre estiveram integrados a uma expectativa de que, em algum momento, o mecanismo autômato e declinante da economia voltasse aos tempos de outrora e crescesse por suas próprias forças. (Este é outro momento tragicômico das manifestações obscurantistas de 2015. Seus participantes enxergam nas técnicas de gestão da barbárie apenas um aspecto oportunista – e o creditam a uma manipulação com vistas à perpetuação no poder. Porém, tanto o PT como os manifestantes pensam que em algum momento estas massas se tornarão de novo economicamente viáveis).

Observe o leitor que as politicas de assistência estavam diretamente ligadas e subordinadas ao contexto mais geral de gestão econômica. Isso se deve ao fato de que, como a economia é uma esfera autônoma da sociedade burguesa, que predomina em sua dinâmica sobre as demais esferas de produção da vida social, se ocorrer o desmoronamento desta, ela leva consigo, portanto, todas as formas de vida em comum. Assim, governabilidade social é, em grande medida, fazer com que refugos econômicos sejam reaproveitáveis. Em outros termos, o horizonte social, nestes casos, não vai nunca além da intenção de manter os indivíduos ligados a um sistema produtor de mercadorias, justamente quando este nada mais pode fazer para a reprodução deles.

Como a bolha estourou, também este aspecto do projeto lulo-petista ficou a ver navios. A sinergia que a gestão econômica da crise social deveria produzir não se efetivará jamais. De tudo isto, sobrará apenas o braço punitivo hipertrofiado com prisões abarrotadas e as polícias superarmadas. As técnicas de gestão da barbárie, além da concepção de integração econômica, pressupunham também o financiamento, que passará a ser cada vez mais difícil no próximo período. O fim da festa pregou uma peça na prepotência ideológica do progresso sem fim da esquerda tradicional (eis outra convergência trágica entre os manifestantes de classe média e o PT – se bem que a esquerda oposicionista, sobre este tema, em nada se diferencie). Sobram canteiros de obras inacabadas por todos os lados, índios removidos para sempre de suas terras ancestrais e hidrelétricas sem fios para conectar a eletricidade com os centros urbanos e as fábricas que nunca existirão. O desemprego voltou a crescer e, por um bom tempo, não encontrará obstáculos que o limite. A violência também seguirá novos rumos. Esta população de brancos enraivecidos que se despe na av. Paulista como se estivessem ‘na maior’ intimidade já avisou que “fará justiça com as próprias mãos”.

A dívida pública deve crescer aos saltos. O financiamento do PAC-II, principalmente com as capitalizações do BNDES, junto às políticas anticíclicas (com isenções de impostos e subvenções), deixou um rombo nos cofres públicos. O desmonte do Brasil entrará num outro ciclo de estagnação endividada. O futuro já acabou. Mas contra o que mesmo se voltam os protestos? Sem simplificar diferenças, fundamentalmente não tivemos dois mundos separados pelo antes e depois dos governos lulo-petistas. Os elementos de continuidade com o período anterior ficam agora mais nítidos do que suas descontinuidades. As descontinuidades dependeram de um instrumento de politica econômica produzido pela própria crise que teve como consequência aprofundar mais ainda a crise. Não foi o PT quem o inventou, mas o PT não foi capaz de discernir que dele não resultaria nenhuma saída.

 

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Marildo Menegat – é Pós-doutor em Filosofia pela USP e atualmente trabalha como professor adjunto IV na Escola de Serviço Social da UFRJ. Sua pesquisa alia filosofia social, teoria crítica e crítica cultural na tentativa de compreender e enfrentar os impasses da modernização.