memórias de tempos vividos! superando o que-já-se-efetivou com a Esperança do que-ainda-não-veio-a-ser ( reflexões ao estilo Ernesth Bloch)

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A teoria de Marx, a crise e a abolição do capitalismo – entrevista com Robert Kurz Featured

Perguntas e respostas sobre a situação histórica da crítica social radical

Nota: A entrevista que se segue constitui a introdução a uma colectânea de análises e ensaios do autor a publicar em França.

O que torna esta crise diferente das anteriores?

O capitalismo não é o eterno retorno cíclico do mesmo, mas um processo histórico dinâmico. Cada grande crise se encontra num nível de acumulação e de produtividade superior aos do passado.

Portanto, a questão da dominação ou não dominação da crise coloca-se de forma sempre nova. Os mecanismos anteriores de solução perderam a validade. As crises do século XIX foram superadas porque o capitalismo ainda não tinha coberto toda a reprodução social. Havia ainda um espaço interno de desenvolvimento industrial.

A crise económica mundial dos anos de 1930 foi uma ruptura estrutural num nível muito mais elevado de industrialização. Ela foi dominada através de novas indústrias fordistas e da regulação keynesiana, cujo protótipo foram as economias de guerra da II Guerra Mundial. Quando a acumulação fordista esbarrou nos seus limites, na década de 1970, o keynesianismo desembocou numa política inflacionista, com base no crédito público. A chamada revolução neo-liberal, no entanto, apenas deslocou o problema do crédito público para os mercados financeiros. O pano de fundo era uma nova ruptura estrutural do desenvolvimento capitalista, marcado pela terceira revolução industrial da microeletrónica. Neste nível qualitativamente diferente de produtividade já não foi possível desenvolver qualquer terreno de acumulação real. Por isso se desenvolveu durante mais de duas décadas, com base no endividamento e em bolhas financeiras sem substância, uma conjuntura económica global baseada no deficit, que não poderia ser duradouramente sustentável.

Toda a era neo-liberal da desregulamentação foi acompanhada por uma cadeia sem precedentes históricos de crises financeiras e de endividamento. Enquanto essas crises estiveram limitadas a certas regiões mundiais ou sectores elas puderam ser contidas por uma enxurrada de dinheiro dos bancos centrais. Mas isso só criou as bases para o culminar do processo de crise. Desde o Outono de 2008, a crise da terceira revolução industrial assumiu uma dimensão global. O estouro das bolhas financeiras agora traz à tona a falta de acumulação real. O novo keynesianismo de crise, entretanto, apenas deslocou o problema do mercado financeiro novamente para o crédito público, mas num nível muito mais elevado do que na década de 1970. O Estado tem tão pouca competência agora como tinha então para subsidiar a falta de acumulação real a longo prazo. A crise dos mercados financeiros é substituída pela crise das finanças públicas; a Grécia é apenas a ponta do iceberg, como caso de actualidade.

O deslocamento forçado e sem imaginação do problema de volta ao Estado mostra que não existem actualmente novos mecanismos de solução da crise no nível de produtividade alcançado.

Você acha que o capitalismo está chegando ao fim. Estamos, pela primeira vez na história, perante a possibilidade de ir além do capitalismo? O capitalismo teve de desenvolver as suas contradições internas até este ponto para isso ser possível? Antes era impossível?

A dinâmica cega do capitalismo se desdobra de acordo com suas próprias leis internas. Este processo, no entanto, apenas é “necessário” e, até certo ponto, determinado, na medida em que as categorias de base e os critérios deste modo histórico de produção e de vida não são postos em questão na prática. Com uma intervenção adequada, o capitalismo poderia ter sido interrompido em qualquer das fases do seu desenvolvimento. Então a socialização da produção teria tomado um rumo diferente, sobre o qual não podemos dizer nada porque ele não ocorreu realmente. Não é uma questão de necessidade objectiva, mas uma questão da consciência crítica. Nem as rebeliões do século XVIII e início do século XIX, nem o velho movimento operário, nem sequer os novos movimentos sociais das últimas décadas foram capazes de produzir tal consciência. Pelo contrário, as formas capitalistas de trabalho abstracto, de valorização do valor e de Estado moderno foram cada vez mais internalizadas.

Mas isto apenas foi assim factualmente. Portanto, o capitalismo não “tinha de” desenvolver as suas contradições internas até ao ponto alcançado hoje, mas foi isso mesmo que ele fez. Agora, somos confrontados com a tarefa de formular de novo a crítica das formas capitalistas e o programa para a sua abolição, no nível das contradições alcançado. Esta é simplesmente a nossa situação histórica, e é inútil lamentar a batalhas perdidas do passado. Embora o capitalismo esbarre objectivamente no seu limite histórico absoluto, a emancipação ainda pode falhar hoje, por falta de suficiente consciência crítica.

Então o resultado já não seria uma nova primavera de acumulação, mas, como disse Marx, a eventual queda colectiva na barbárie.

De acordo com a crítica do valor (da teoria de Marx) a ligação valor-preço passa por um número infindável de mediações. Essa ligação é extremamente flexível. Como podemos então dizer que o capital atingiu o seu limite interno?

As formas de mediação de valor e preço não são de uma multiplicidade infinita, elas formam uma sucessão de etapas geralmente determinável, cujo regulador é a concorrência. O número de transacções individuais, pelo contrário, é que se pode caracterizar como quase infinito. Mas isso é outra coisa.

Devido ao grande número de transacções empíricas, a todos os níveis do capital-mercadoria, do capital-dinheiro e do crédito, que também só insuficientemente são abrangidos pelas estatísticas burguesas, a situação da valorização real nunca pode ser determinada exactamente. Há sempre uma certa tensão entre teoria e empiria. No entanto, a teoria dos fenómenos observáveis pode ser posta em relação com o processo interno essencial da valorização. Pois o enlace das mediações de valor e preço é realmente complexo, mas de modo nenhum infinitamente flexível. O movimento da concorrência em milhares de milhões de transacções individuais relaciona-se com a massa de valor real de toda a sociedade, que não pode ser de imediato determinada empiricamente. Esta massa de valor real está vinculada, de acordo com Marx, à substância do trabalho abstracto, ou seja, à massa de energia humana abstracta utilizada no espaço funcional do capital.

O capital, por outro lado, não pode usar arbitrariamente muita força de trabalho humana, mas somente em conformidade com o padrão pertinente de produtividade, que por sua vez é imposto pela concorrência. As formas intermediárias entre valor e preço não são, portanto, arbitrariamente flexíveis; a sua flexibilidade tem por limite a quantidade real de substância social que lhes está subjacente. No entanto, é sempre apenas ex post que se verifica empiricamente se as relações sociais valor-preço são substancialmente ajustadas ou se representam apenas ar quente. É precisamente por essa situação que passamos na actual crise.

Assim se comprova na prática que a ideia de uma flexibilidade infinita dos preços em relação à substância do valor não passava de uma grandiosa ilusão.

O senhor lê a teoria de Marx da crise como uma teoria do colapso, uma teoria baseada na ideia de uma subprodução de capital. Outros marxistas (Grossmann, Mattick) o fizeram antes, mas essa crítica foi sempre ultraminoritária. Os marxistas – fossem quais fossem as suas diferenças – sempre leram e ainda lêem a teoria de Marx como uma teoria da distribuição desigual da riqueza (distribuição desigual essa que teria a sua origem na especulação, na desregulamentação, na busca de superlucros nos mercados financeiros) e rejeitam a teoria do colapso. Serão ambas estas leituras de Marx justificadas pelo próprio Marx? Existe um duplo Marx?

O termo “colapso” é metafórico e sugestivo. Foi usado por Eduard Bernstein, sem qualquer reflexão teórica, para desqualificar completamente a teoria da crise de Marx, sob o impacto do desenvolvimento capitalista empírico no fim do século XIX .O termo aparece no chamado fragmento sobre as máquinas dos Grundrisse, que nem Bernstein nem os seus adversários conheciam, porque os Grundrisse só foram publicados muito mais tarde.

No terceiro volume de O Capital Marx fala exactamente de um “limite interno do capital” que acaba por se tornar absoluto. As anteriores “teorias do colapso” minoritárias de Rosa Luxemburgo e Henryk Grossman argumentavam com a falta de “realização” da mais-valia (Luxemburgo), ou com uma “sobreacumulação” de capital (Grossmann), que não poderia ser reinvestido suficientemente. Paul Mattick cedo se distanciou da teoria do limite interno objectivo do capital; tal como os leninistas, ele identificou o “colapso” com a acção política do proletariado.

Em Marx, existem dois níveis diferentes da teoria da crise, que não estão teoricamente unificados. O primeiro nível refere-se às contradições da circulação do capital: à disparidade entre compras e vendas, bem como à desproporcionalidade com esta relacionada entre os ramos da produção.

O segundo nível, nos Grundrisse e no terceiro volume de O Capital, refere-se muito mais fundamentalmente à relação entre a produtividade e as condições da valorização, ou seja, à falta de produção da própria mais-valia, ao tornar-se supérflua demasiada força de trabalho. Apenas as contradições da circulação desempenharam um papel nas teorias da crise marxistas; a questão da falta de substância real de trabalho não foi objecto de qualquer debate.

Na terceira revolução industrial, no entanto, apenas o segundo nível mais profundo da teoria da crise de Marx se torna relevante. A “dessubstancialização” real do capital está tão avançada que apenas é possível uma acumulação aparente insubstancial, através das bolhas financeiras e do crédito público, a qual actualmente atinge os seus limites. O que está em causa já não é a distribuição desigual da “riqueza abstracta” (Marx), mas sim a libertação da riqueza concreta do fetichismo do capital e das suas formas abstractas. A maioria dos marxistas contemporâneos, porém, regrediram para trás até mesmo das teorias da crise anteriores e limitam-se a assumir o clássico ponto de vista pequeno-burguês de uma crítica ao “capital financeiro”. Confundem causa e efeito: reduzem a crise não à falta objectiva de produção real de valor, mas à ganância subjectiva dos especuladores. O modo de produção capitalista não é mais criticado nos seus fundamentos; só se pretende voltar à configuração fordista do trabalho abstracto.

Esta opção não é apenas ilusória, é também reaccionária. E tem uma semelhança estrutural com a ideologia económica do anti-semitismo.

Você, Robert Kurz, e Moishe Postone, cujo livro “Tempo, trabalho e dominação social” está publicado em francês, desenvolveis dois tipos de crítica do valor que divergem num ponto central. Para si, com os ganhos de produtividade o capital perde substância (trabalho abstracto) e, na terceira revolução industrial da microeletrónica, essa substância é perdida completamente pelo capital. Para Postone, pelo contrário, os ganhos de produtividade fazem crescer o valor – provisoriamente. Depois de o ganho de produtividade ser generalizado, o aumento de valor é anulado, regredindo a unidade básica do trabalho abstracto (a hora de trabalho) para o seu nível inicial. Assim, para você o valor desmorona-se, enquanto para Postone o valor se expande incessantemente, para em seguida retornar ao seu ponto de partida. Daí a pergunta: isto não destrói a plausibilidade da crítica do valor? Ou deve-se ver aqui um momento provisório?

O ponto em comum com Postone é a crítica do conceito de trabalho do marxismo tradicional. O entendimento tradicional transformou o conceito de trabalho abstracto, em Marx puramente negativo, crítico e histórico, numa definição positivista, reinterpretando-o como condição eterna da humanidade.

Em Postone, no entanto, falta a dimensão da teoria da crise na crítica do trabalho abstracto; nesta questão ele próprio permanece tradicional. O aumento da produtividade significa que menos energia humana produz mais produto material. Portanto, a produtividade nunca aumenta o valor, mas sempre o diminui, como Marx mostra logo no primeiro volume de O Capital. Quem afirma o contrário confunde o nível social com o nível da economia empresarial, ou a totalidade do capital com o capital individual.

O capital individual que em primeiro lugar aumenta isoladamente a sua própria produtividade consegue uma vantagem na concorrência. Ele oferece os produtos individuais mais baratos, conseguindo assim vender mais mercadorias e, precisamente por isso, realizar para si próprio uma parte maior da massa de valor social. O que do ponto de vista da economia empresarial surge como lucro crescente e, portanto, como crescente “criação de valor” conduz socialmente, no entanto, à diminuição do valor, e na verdade em detrimento dos outros capitais individuais. Se a maior produtividade se generalizar, o capital individual inovador perde a sua vantagem na concorrência.

Mas isso não é de forma alguma o regresso a zero ou a um ponto de partida anterior. Pelo contrário, a produtividade aumentada torna-se agora o novo padrão geral. A hora de trabalho, como unidade básica de trabalho abstracto, é sempre a mesma, como tal não pode de modo nenhum ter diferentes “níveis”. O padrão novo e mais elevado de produtividade, no entanto, obriga a que sejam necessárias menos destas horas sempre iguais de trabalho abstracto para uma massa crescente de produtos. Se na crise se desvaloriza e destrói capital, apesar disso o padrão de produtividade atingido permanece, porque está inscrito no conjunto do conhecimento e do know how. Para ser claro: o capitalismo não pode retornar do nível da microeletrónica ao nível da máquina a vapor. Um novo aumento do valor torna-se cada vez mais difícil perante níveis de produtividade cada vez mais elevados e, consequentemente, com uma substância de trabalho abstracto cada vez menor. No passado, a redução constante do valor era apenas relativa. Com o aumento dos padrões de produtividade, o produto individual podia representar cada vez menos trabalho abstracto e, portanto, cada vez menos valor.

No entanto, graças ao embaratecimento respectivo, cada vez mais bens anteriormente de luxo entraram no consumo de massas, alargando-se a produção e os mercados. A relativa redução da substância social de valor por produto individual pôde, portanto, levar ainda a um aumento absoluto da massa total de valor social, porque a produção social alargada no seu conjunto mobilizava mais trabalho abstracto do que o tornado supérfluo no fabrico dos produtos individuais. Isto prende-se com o mecanismo designado por Marx como produção de “mais-valia relativa”. O mesmo processo, que reduz continuamente a quota-parte da força de trabalho que produz valor no conjunto do capital, faz baixar também, juntamente com o valor dos alimentos necessários à reprodução dessa força de trabalho, o valor dela própria e, portanto, aumenta a quota-parte da mais-valia na produção total de valor. Mas isto aplica-se apenas à força de trabalho individual.

Para apurar a quantidade social de valor e de mais-valia, porém, é decisiva a relação entre o aumento da mais-valia relativa por força de trabalho individual e o número de forças de trabalho que podem ser socialmente utilizadas em conformidade com o padrão de produtividade.

No fragmento sobre as máquinas dos Grundrisse e no terceiro volume de O Capital, Marx faz notar que o aumento de produtividade deve logicamente chegar a um ponto em que será dispensado mais trabalho abstracto do que poderá ser adicionalmente mobilizado ainda pela expansão dos mercados e da produção. Então também o aumento da mais-valia relativa por trabalhador individual não adiantará nada, porque o número de trabalhadores no conjunto utilizáveis diminui muito. Pode-se mostrar que este ponto abstractamente antecipado por Marx é atingido histórica e concretamente com a terceira revolução industrial. Se assim não fosse o capital teria podido mobilizar bastante trabalho abstracto na base dos seus próprios fundamentos produtivos, e aumentar a produção de valor real, em vez de ter de subsidiá-la numa escala sem precedentes, através de endividamento, bolhas financeiras e crédito público.

O choque da desvalorização a todos os níveis do capital está em curso à nossa vista. Mas agora menos do que nunca haverá o regresso a um ponto zero, a partir do qual todo o teatro pudesse começar novamente. Pelo contrário, mantém-se a causa fundamental do desastre, ou seja, o novo padrão de produtividade estabelecido irreversivelmente pela terceira revolução industrial. Portanto, já só resta a criação repetida de novo capital monetário insubstancial pelos Estados e pelos bancos, capital que repetidamente entrará em colapso, com intervalos cada vez mais curtos.

A crítica do valor é sempre confrontada com a seguinte objecção: Se não houver um sujeito de classe revolucionário, um grupo social por natureza portador da consciência, que interesses haverá então que levem a querer uma sociedade fundamentalmente humana e verdadeiramente histórica?

O conceito de sujeito, no fundo, é paradoxal, é um conceito fetichista.

Por um lado, o sujeito é entendido como uma instância de pensamento e de acção autónomos. Por outro lado, porém, este mesmo sujeito, justamente na sua qualidade de sujeito revolucionário de classe, deve ser condicionado de modo puramente objectivo. Ele deve ter “objectivamente” uma “missão histórica”, independentemente de os seus titulares empíricos saberem disso ou não. A suposta autonomia de pensamento e de acção desmente-se a si mesma se assenta numa pré-determinação inconsciente.

É como se a crítica radical não fosse uma acção da consciência, livre e não-determinada, mas sim um mecanismo causalmente condicionado, como o tempo ou a digestão. A função da consciência seria então, apenas, consumar conscientemente a própria causalidade. Mas essa é precisamente a determinação fetichista do pensamento e da acção no domínio do capital. Se a emancipação enquanto sujeito, embora consciente, só deve ocorrer como um processo natural ou mecânico, então será o contrário de si mesma.

Pode-se determinar objectivamente os mecanismos cegos do capital, mas não a libertação da falsa objectividade, libertação essa que não pode voltar a ser de novo objectiva. A libertação é um facto histórico e, portanto, não pode ser teoricamente “deduzida”, como a queda tendencial da taxa de lucro. O famoso “sujeito objectivo” do marxismo tradicional não é senão uma categoria do próprio capital, ou uma função do “sujeito automático” (Marx) do trabalho abstracto e do valor. Não existe nenhum grupo social no capitalismo que tenha uma pré-determinação ontológica transcendente.

Todos os grupos sociais são pré-formados pelo valor e, portanto, constituídos de modo capitalista.

Quando se fala de “interesses” é preciso fazer uma distinção. Há, por um lado, os interesses vitais das pessoas, de conteúdos materiais, sociais e culturais, que são idênticos às suas necessidades históricas. Estes conteúdos estão, por outro lado, amarrados à forma capitalista. O conteúdo real das necessidades é assim visto como secundário; apenas o interesse capitalista, constituído sob a forma de dinheiro (salário e lucro), é imediatamente percebido. Claro que é inevitável que as necessidades reais ou interesses vitais sejam reivindicados em primeiro lugar na forma capitalista vigente. No entanto, se a diferença entre o conteúdo e a forma deixar de ser vista, esse interesse vira-se contra os seus titulares: estes tornam então os seus interesses dependentes, para a vida e para a morte, de que a valorização do capital funcione. Reduzem-se a si mesmos a um “sujeito objectivo” que entrega a sua vida às leis do capital e considera essa submissão normal. Pelo contrário, é importante declarar o conteúdo real das necessidades como absolutamente inegociável. Somente então existe a possibilidade de intensificar a tensão entre a forma capitalista e este conteúdo, até à crítica que transcenda para além do capital. Isso não será acto de um “sujeito objectivo”, mas de seres humanos, que apenas querem sê-lo e nada mais.

Um movimento emancipatório não tem qualquer fundamento ontológico pré-consciente, pelo contrário, tem de constituir-se a si mesmo, “sem rede nem fundo duplo”.

Uma empresa, um hospital ou uma escola estão em greve. Luta-se pela preservação dos empregos, contra a deterioração das condições de trabalho e contra os cortes salariais… ou então os trabalhadores já não lutam pela preservação dos postos de trabalho, mas ameaçam “fazer tudo ir pelos ares” para receberem indemnizações de saída decentes (isso já aconteceu várias vezes em França). Como há-de reagir a isso quem se relaciona positivamente com a crítica do valor? Que atitude tomar face aos sindicatos e aos média?

A crítica do valor não é simplesmente contra as lutas sociais imanentes ao capitalismo. Estas são um ponto de partida necessário. No entanto, a questão é saber em que sentido se desenvolvem tais lutas. Aqui a fundamentação desempenha um papel importante.

Os sindicatos habituaram-se a apresentar as suas exigências não como decorrendo das necessidades dos seus membros, mas como contribuição para o melhor funcionamento do sistema.

Assim, diz-se que seriam necessários salários mais altos para fortalecer a conjuntura económica, e que eles seriam possíveis porque o capital tem altos lucros. Mas, logo que a valorização do capital obviamente emperra, esta atitude leva a render-se voluntariamente à co-gestão da crise, no “superior interesse” da economia da empresa, das leis do mercado, da nação, etc. Esta falsa consciência existe não apenas entre os profissionais dos sindicatos, mas também nas chamadas bases. Se as trabalhadoras e trabalhadores assalariados se identificam com a sua própria função no capitalismo e exigem aquilo que precisam apenas em nome dessa função, tornam-se eles próprios “máscaras de carácter” (Marx) de um determinado componente do capital, nomeadamente a força de trabalho. Assim, eles reconhecem que apenas têm direito à vida se conseguirem produzir mais-valia. Daqui decorre uma concorrência acirrada entre as diversas categorias de trabalhadoras e trabalhadores assalariados e uma ideologia de exclusão social darwinista. Isto é particularmente evidente na luta defensiva pela conservação dos postos de trabalho, que não tem qualquer perspectiva para além disso. Aqui muitas vezes concorrem entre si pela sobrevivência até os empregados das diferentes empresas do mesmo grupo.

Portanto, é essencialmente simpático, e de resto também mais realista, que os trabalhadores franceses tenham ameaçado fazer explodir as fábricas para forçarem a obtenção de uma indemnização de despedimento razoável. Estas novas formas de luta não são defensivas nem positivas, mas poderão ser combinadas com outras reivindicações, como por exemplo a melhoria do rendimento dos desempregados. Na medida em que de tais lutas sociais surja um movimento social, também este, com a experiência dos seus limites práticos, se confrontará com as questões de uma nova “crítica categorial” ao fim em si fetichista do capital e das suas formas sociais.

A concretização desta perspectiva avançada é a tarefa da nossa elaboração teórica, que não existe num Além abstracto, mas se entende como momento do debate social.

Para os anti-industrialistas, a emancipação do capitalismo é sinónimo de retorno à sociedade agrária (Kaczynski, ‘Encyclopédie des Nuisances’ etc.) Para os adeptos do decrescimento (Décroissants) emancipação significa saída do capitalismo – mas, como eles escondem a ligação entre produção e valor, a sua crítica não passa de pura moral de renúncia para tempos de crise. Para si em que consiste a sociedade pós-capitalista?

Já Marx disse, com razão, que o anti-industrialismo abstracto é reaccionário, porque joga fora o potencial de socialização e, tal como os apologistas do capitalismo, só consegue imaginar um contexto geral da reprodução social nas formas do capital. O anti-industrialismo conclui que a auto-determinação humana só poderá ser à custa da “dessocialização”, em pequenas redes baseadas na economia de subsistência (small is beautiful). O regresso postulado à reprodução agrária é apenas o aspecto material desta ideologia.

No lugar de uma divisão de funções amplamente diversificada e entrelaçada deve entrar o “faça você mesmo” imediato. Trata-se de uma fantasia económica que constitui um aspecto do que Adorno chamou “falsa imediatidade”. Se essas condições fossem realizadas, uma grande parte da humanidade actual teria de passar fome. Não é melhor a crítica do crescimento, igualmente abstracta, que hoje está na moda e que pretende uma “produção de mercadorias simples”, sem a coerção do crescimento, ou substitutos das relações contratuais burguesas, em pequenos contextos de cooperação.

O que, no espaço da língua alemã, se apresenta como “economia solidária” não passa de um conglomerado de ideias pequeno-burguesas que há muito falharam historicamente e que, sob as novas condições de crise, não oferecem qualquer perspectiva. Tais ideias são um mero subterfúgio. Não querem entrar em conflito com a administração da crise, mas sim cultivar o seu próprio idílio imaginário, “ao lado” da síntese social real feita pelo capital.

Na prática esses projectos são completamente irrelevantes. Eles representam apenas uma ideologia “de bons sentimentos” de esquerdas desorientadas, que pretendem auto-iludir-se no capitalismo de crise e correm o risco de tornar-se elas próprias um recurso da administração da crise. A questão, pelo contrário, é libertar a reprodução social do fetiche do capital e das suas formas basilares. As potências de socialização são determinadas no capitalismo de modo puramente negativo, como submissão dos seres humanos ao fim em si mesmo da valorização.

Até o lado material da produção industrial obedece a este imperativo do “sujeito automático” (Marx). Portanto, o conteúdo material da socialização industrial não pode ser superado positivamente, mas tem de ser abolido juntamente com as formas fetichistas do capital. Isso afecta não só as relações sociais de produção, mas também a relação com a natureza. Não se trata, por conseguinte, de assumir a indústria capitalista e o produtivismo que lhe é inerente sem rupturas.

No entanto, um “anti-produtivismo” igualmente abstracto, ou a regressão a uma pobreza idílica em economia de subsistência e à atmosfera socialmente opressiva de confusas “comunidades”, não é alternativa, mas apenas o reverso da mesma medalha. A tarefa é, pois, revolucionar as próprias condições materiais de produção ao nível social global e tomar como objectivo as necessidades, bem como a preservação das bases naturais. Isto significa que não poderá haver mais desenvolvimento descontrolado segundo o critério geral e abstracto da chamada racionalidade da economia empresarial. Os diversos momentos da reprodução social devem ser considerados no contexto da lógica própria do respectivo conteúdo.

Por exemplo, os cuidados médicos e a educação não podem ser organizados segundo o mesmo padrão da produção de máquinas de perfurar ou de rolamentos de esferas. As infra-estruturas sociais ultrapassaram em geral a forma do valor, em consequência da “cientificização”. Mesmo dentro da própria indústria, tem de ser suplantada esta lógica do valor, que transforma as forças produtivas em forças destrutivas, enquanto vai desbastando domínios necessários à vida, por falta de “rentabilidade”. Assim, a mobilidade não deve ser eliminada, ou reduzida ao nível de carroças puxadas por burros, mas sim, partindo da forma destrutiva do transporte automóvel individual, transformada numa rede qualitativamente nova de transportes públicos. Os “excrementos da produção” (Marx) não podem continuar a ser espalhados na natureza, em vez de serem integrados num circuito industrial. E a “cultura de combustão” capitalista não pode ser mantida, exigindo-se, pelo contrário, um uso diferente dos materiais energéticos fósseis.

Finalmente, é preciso que os momentos da reprodução insusceptíveis de serem abrangidos pelo valor e pelo trabalho abstracto, que foram dissociados da sociedade oficial e historicamente delegados nas mulheres (trabalho doméstico, acompanhamento, cuidados etc.), sejam organizados de forma conscientemente social e descolados da sua fixação sexual. Esta ampla diversificação da produção industrial e dos serviços, segundo critérios puramente qualitativos, é algo diferente de um anti-industrialismo abstracto; mas exige a abolição da razão capitalista, da síntese através do valor e do cálculo económico empresarial daí resultante. Isto só funciona como processo social, por meio de um contramovimento social da própria sociedade, e não através “modelos” pseudo-utópicos, que apenas teriam de ser generalizados.

A sociedade pós-capitalista não pode ser pintada como um “modelo” positivo que se deva apresentar completamente pronto. Isso não seria concretização nenhuma, pelo contrário, não passaria de uma patética abstracção e mais uma antecipação da falsa objectividade, precisamente a mesma que tem de ser abolida. O que a teoria pode desenvolver como crítica do economismo capitalista são critérios de uma socialização diferente. Aqui se inclui, antes de mais, um planeamento social consciente dos recursos, que deve tomar o lugar da dinâmica cega das “leis coercivas da concorrência” (Marx). O planeamento social caiu em descrédito, mesmo na esquerda, porque o seu conceito nunca foi além da compreensão do extinto socialismo de Estado burocrático. Mas esse socialismo não constituiu qualquer alternativa ao capitalismo, mas sim, essencialmente, uma “modernização atrasada” na periferia do mercado mundial, que fez uso dos mecanismos do Estado capitalista. A lógica do valor não foi abolida, mas apenas nacionalizada. A consciência crítica não foi mais longe, nas condições de um desenvolvimento ainda não esgotado do capital mundial. Não tinha de ser necessariamente assim, mas é um facto histórico. Tratava-se apenas da participação das regiões periféricas no mercado mundial com direitos iguais, participação em que acabaram fracassando.

Portanto, esta formação permaneceu prisioneira da aporia de um “planeamento do valor”, que por natureza não é planeável, mas implica a concorrência universal, sob os ditames do produtivismo abstracto. Se hoje a socialização negativa através do valor esbarra em limites históricos à escala mundial, está na ordem do dia um novo paradigma de planeamento social, para além do mercado e do Estado, para além do valor e do dinheiro.

Tradicionalmente, a crítica do capitalismo fazia-se do ponto de vista do trabalho. Para si, Robert Kurz, capital e trabalho não se contradizem. Para si, o capitalismo é a sociedade do trabalho. Por que rejeita você o trabalho?

O conceito claramente crítico e negativo de trabalho abstracto em Marx pode ser determinado como sinónimo da moderna categoria “trabalho”. Nas condições pré-modernas, às vezes não havia sequer essa abstracção universal, outras vezes ela era determinada negativamente de maneira diferente, ou seja, como actividade dos dependentes e subjugados (escravos). “Trabalho” não é a mesma coisa que produção em geral, ou que “processo de metabolismo com a natureza” (Marx), ainda que a terminologia de Marx sobre a questão seja hesitante.

Foi o capitalismo que, pela primeira vez, generalizou e ideologizou positivamente a categoria negativa “trabalho” e deste modo levou à inflação do conceito de trabalho. O cerne dessa generalização e falsa ontologização do “trabalho” é constituído pela redução, historicamente sem precedentes, do processo de produção a um puro e simples dispêndio de energia humana abstracta, ou de “nervo, músculo e cérebro” (Marx), com total indiferença para com o conteúdo. Os produtos “são válidos” socialmente não como bens de uso, mas como representações de trabalho abstracto passado. Sua expressão geral é o dinheiro.

Neste sentido, em Marx o trabalho abstracto, ou energia humana abstracta, constitui a “substância” do capital. O fim em si mesmo fetichista da valorização, de fazer de um euro dois euros, baseia-se no fim em si mesmo de aumentar ininterruptamente o dispêndio de trabalho abstracto, sem levar em conta as necessidades. Este imperativo absurdo, no entanto, está em contradição com o aumento permanente da produtividade, que é imposto pela concorrência. A crítica do capitalismo do ponto de vista do trabalho é uma impossibilidade lógica, uma vez que não se pode criticar o capital a partir da sua própria substância. A crítica do capitalismo tem de ser dirigida contra esta substância em si, libertando a humanidade da sujeição ao trabalho abstracto forçado. Só então poderá ser vencida a indiferença face ao conteúdo da reprodução e ser levado a sério este mesmo conteúdo.

Se o capital é entendido no sentido restrito, como capital-dinheiro e capital físico (“capital constante” em Marx), há realmente uma contradição funcional entre capital e trabalho. Trata-se de diferentes interesses capitalistas num sistema de referência comum. Mas, se se compreende o capital no sentido mais amplo de Marx, o trabalho é apenas a sua outra parte integrante. Capital-dinheiro e capital físico representam “trabalho morto”, a força de trabalho (“capital variável” em Marx) representa “trabalho vivo”. Existem apenas diferentes “estados de agregação” do trabalho abstracto e, portanto, do capital. Neste entendimento, a contradição é “interior” ao próprio capital global, ou “sujeito automático”, e não uma contradição que aponte para além do capitalismo.

O antigo movimento operário, enquanto não assumiu a posição de libertar-se do trabalho abstracto, mas sim a posição de libertar esse mesmo trabalho, ele próprio se amarrou a ser aquela mera parte integrante do capital e a encontrar um duvidoso “reconhecimento” apenas nesse sentido. Por conseguinte, no socialismo de Leste, aliás, capitalismo de Estado, o trabalho abstracto não foi criticado nem abolido, mas usado pela burocracia como categoria fundamental, na tentativa (falhada) duma contabilização tecnocrática.

Hoje, na terceira revolução industrial, o capitalismo minou amplamente a sua própria substância de trabalho. Nos balanços dos conglomerados empresariais, o trabalho já não desempenha qualquer papel decisivo, como parte do capital. A produção industrial, e não só, é mais influenciada pelo uso da ciência e da técnica do que pelo uso da actividade humana produtiva imediata. A dinâmica cega do capitalismo ultrapassou na prática e reduziu ao absurdo a ideia, já teoricamente sempre falsa, de um socialismo baseado na contabilização do “tempo de trabalho”. O que precisa de ser planeado numa sociedade pós-capitalista não é a quantidade de energia física humana, mas sim o uso com sentido e pragmaticamente diversificado dos recursos naturais, técnicos e intelectuais.

Original MARXSCHE THEORIE, KRISE UND ÜBERWINDUNG DES KAPITALISMUS in www.exit-online.org (13.05.2010). Entrevista introdutória a uma colectânea de análises e ensaios do autor a publicar em França.

http://obeco-online.org/

http://www.exit-online.org/

Feitiço de fundo de quintal – o PT, a crise e a economia política da barbárie – Marildo Menegat Featured

O autor articula em três planos o argumento de que se chegou ao fim de um período curto da história recente do capitalismo, marcada por uma crise estrutural, em que ainda foi possível uma gestão da barbárie (administrar a regressão social sem rumo sobressaltos e rupturas abruptas da ordem institucional).
No primeiro plano, se defende que o lugar do PT na história, como um tipo original de partido surgido na era do colapso da periferia do capitalismo, foi o de realizar programaticamente (e pragmaticamente) a gestão da barbárie.
No segundo plano, se apresenta o conceito de ‘economia política da barbárie’ e se traça um paralelo entre a sua primeira apresentação histórica na Alemanha dos anos 1920 e a sua forma constitutiva na conjuntura atual, para, na última parte, se defender a ideia de que a ‘nova direita’ não pode ser reduzida ao conceito de nazi-fascismo. Ela é um fenômeno regressivo muito mais monstruoso e precisa ser entendida em sua novidade e amplitude destrutivas.

Publicado originalmente em Revista Brasileira de Cultura e Política em Direitos Humanos Metaxy 

I.

Poucas vezes na experiência brasileira foi possível se assistir em câmera lenta e – ainda por hora – sem ferimentos graves e escoriações expostas a um desmoronamento político nas proporções do ocorrido entre 2015-16. A destituição da presidenta Dilma Rousseff encerrou um ciclo da esquerda no país. Sua derrota não foi um erro de cálculo do estratego providencial – se bem que isto esteja presente como argumento racionalizante da inconsciência do que são estes tempos que queimam sem horizonte -, mas os limites de um governo de esquerda na condição atual de crise do capitalismo. Faz muito tempo que o petismo se descobriu uma força saída da cartola de um feiticeiro, seja lá quem ele for. A sua adesão ao realismo político não se realizou como um mero oportunismo de uma direção traidora do programa revolucionário que, na verdade, nunca existiu.

O PT já nasceu como produto de um tempo em que as revoluções andavam escassas e em baixa – em geral, de sinal trocado, como foi o caso das restaurações de veludo que se seguiram ao colapso dos países socialistas no leste europeu. Talvez, por isso, suas lideranças intuíram que a mística que os envolvia não seria, neste momento histórico, algo mais do que a tentativa de direcionar forças sociais impessoais, de letalidade crescente e assombrosa, para um leito benigno de soluções inovadoras para o bem de todos !

Será por muito tempo difícil arrumar pontos comuns de interpretação do que foram os últimos 35-40 anos da vida nacional, mas eles se farão urgentes, e no centro deles estará a esfinge do PT para ser decifrada. A resposta mais frequente e comum dada a esta inquirição pensou o PT como um instrumento tardio e inovador da modernização incompleta do país que precisava sem demora ser concluída. Que este Iluminismo fora de época tenha sido hegemonizado por variantes do marxismo tradicional2 não mudam em nada a matriz modernizante, apenas confirma a fraqueza de sua compreensão crítica do capitalismo e a expectativa de que este ainda possua alguma potencialidade emancipatória.

A própria conjuntura de origem do PT ajudou para que as respostas ao enigma embalassem um “bebê de Rosemary”. O movimento democrático que pôs fim a 20 anos de ditadura militar foi a fiel expressão de uma sociedade de massas, na qual o Brasil havia entrado de cabeça neste período (1950-80), sendo que a ala esquerda deste movimento democrático era constituída por diferentes movimentos sociais dirigidos pela autoridade e força do sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista. A unidade do processo que fundou o PT se deve em parte ao vazio produzido na esquerda com o esgotamento da hegemonia pecebista-populista após a derrota em 1964. Sendo que a luta armada que se seguiu a estes anos nunca foi uma alternativa a este vazio, mas tão somente um limbo  impotente, que ensaiou uma resistência diante de forças abismais, para que a chama da esquerda não se apagasse totalmente. E é nesta espécie de heroísmo menor que reside seu modesto lugar na história.

O espelho em que o PT procurou elaborar sua imagem revela uma história de peças autocompreensivas que foram sendo deixadas de lado por falta de sustentação no curso desastrado que o mundo adotava. A rapidez com que estes debates foram deixados de lado reveste-se de grande interesse, pois mostra o quanto este tempo foi uma aceleração contínua de um tempo de crise, em que as definições nunca foram mais do que provisórias – “até o dia em que a mão encontrou sua luva”.

A primeira destas grandes contendas foi aquela em que o partido se viu obrigado a esclarecer seu caráter – se seria um partido eleitoral de massas ou revolucionário? -, e foi feita no velho molde da discussão  entre social-democratas x esquerda revolucionária dos anos 1910. O inusitado da situação não era apenas o absurdo sugerido pela distância de duas guerras mundiais e uma ditadura militar que a separava do tempo originário deste debate. Ele aparecia também, e principalmente, na forma inovadora em que surgia este partido: uma agremiação ‘espontânea’ (arredia a formulações teóricas e a qualquer aprofundamento do debate que a distanciasse de um eixo prático), ao mesmo tempo em que era uma síntese dos fragmentos a que se reduzira o processo de modernização já no início do seu colapso e que, no entanto, não era percebido como tal3 .

Justamente por esta razão era possível se pensar o partido como a força propulsora da conclusão ‘civilizatória’ desta modernização a ser realizada politicamente pela classe trabalhadora (conceito este que por aquela época guardava um certo estranhamento, uma vez que se tratava de uma inovação que desbancava o realismo do uso corrente que se fazia do conceito de operariado), cuja heterogeneidade da composição era concebida mais como um resultado do atraso a ser suprimido – e que, por sinal, teria sido aprofundado pelas alianças políticas conservadoras que sustentaram o regime militar -, do que, como mais tarde ficou evidente, devido ao limite em que o trabalho como fundamento da sociedade burguesa havia ingressado4.

Este debate, porém, não durou muitos anos. Já no 5º Encontro Nacional do PT (1987) as resoluções programáticas assinalaram uma mudança de expectativas em relação a este debate e, ao invés de um esperado salto de autocompreensão, ocorreu a inflexão para outro dilema. O novo tempo do mundo se fechava, mas naquele momento ainda restavam espaços para simulações. Na linguagem gramsciana de tais resoluções, se formulava o entendimento do início de uma época de acúmulo de forças e de luta por hegemonia (e este é outro conceito chave para se entender, no caso, a metamorfose de social- democratas, ex-trotskystas, stalinistas reciclados, etc. que fundou uma convergência – não saberia dizer se socialista – que deu ao PT uma estrela a ser seguida e estabilidade duradoura) que deveria potencializar a realização de reformas que, na expressão de um dos teóricos de então, seriam revolucionárias caso atingissem a estrutura da concentração de riqueza e poder das classes dominantes. Muita gente compreendeu a mensagem, e não demorou para se começar a dizer (num mantra repetido até ontem) que reformas democrático-populares numa sociedade horrorosa como a brasileira seriam uma ‘verdadeira’ revolução. A conversão do PT às reformas (revolucionárias) também não durou muito. Em 1992 foi lançado um livro com o sentido profundo e, aparentemente, oculto, da nova chave em curso: o modo petista de governar (BITTAR: 1992). Neste livro, as experiências de ‘gestões democrático-populares’ do partido em prefeituras de diferentes regiões do Brasil serviram de laboratório para o desenvolvimento de técnicas inovadoras de ‘inversão de prioridades’ do uso do orçamento público5.

Se se pode dizer que o PT um dia teve um programa, esta foi a sua natureza: um modo de governar que  tinha na intenção do socialismo o papel de um tipo ideal de modernização a ser concluída por meio de políticas públicas, apesar de cada vez mais inviabilizadas pela violência da  crise e dos acontecimentos mundiais. Por hora, observe o ( a) leitor(a) que a densidade da crítica ao capitalismo nestas formulações se concentra basicamente no seu modo de ser, nunca na negação de seus fundamentos constitutivos. Não será fácil entender se foi o  espelho que envelheceu e embaçou as imagens, ou se foram as imagens que foram ficando fracas e desgastadas.

No início do século XXI, quando Lula venceu as eleições presidenciais, o vigor dos movimentos que deram origem ao PT já estava extinto. Não havia qualquer ascenso da luta de classes na rua, a não ser as 230 mil famílias mobilizadas pelo MST na beira de estradas distantes6. A crise que já havia destruído as forças ‘progressistas’ nacionais, tornando inócuo qualquer esforço de desenvolvimento nesta altura da história do capitalismo, realizou também um concomitante e imponenteapagão intelectual7 no outrora centro democrático, de onde pulsava uma das vertentes modernizadoras antioligárquicas do país; e, na segunda curva do rio, extinguiu a base material dos movimentos sociais que deram origem ao PT, a começar pelo movimentos sindicais .18 .
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O que se tem chamado de lulismo (SINGER: 2012; 51 e ss) não é um produto maior nem separado do PT. Como líder moderno numa sociedade de massas, a figura de Lula foi constitutiva de um partido que sempre se definiu como uma força de classe numa época histórica em que a sociedade burguesa com suas duas classes antagônicas bem definidas já havia desmoronado há tempo9. Apenas como líder operário, vestido de macacão azul, nosso personagem, desde os tempos em que trabalhava na fabrica de elevadores Villares, percebeu que não teria futuro político. Portanto, a partir de 1989, Lula foi produzido com a participação e entusiasmo do PT como um moderno líder de massas. As origens sociais deste tipo de liderança são apenas parte de um mito que serve para dar força mística ao projeto de se chegar ao poder. Portanto, quando as massas, que já não cabiam no conceito de operariado, passaram também a não caber no conceito de classes trabalhadoras – a não ser que o conceito de trabalho seja reduzido a uma sociologia vulgar e descaracterizado de sua definição dada pela economia política -, viram em 2002, na figura do líder, um personagem providencial, este fato foi um misto de acaso e consistência de uma trajetória que se fundiram para produzir os últimos anos da história do PT.  Nesta fase, o modo petista de governar deu ao partido seu caráter definitivo de ser um competente gestor da barbárie, e – ao que parece – este será o lugar original que o PT ocupará na história.

Para se entender este constructo emblemático do lulismo é necessário explicar um pouco mais qual o conteúdo que está presente na expressão consistente trajetória histórica.A formação do PT, diferente de outros partidos tradicionais, como PMDB, PSDB, DEM, etc., foi essencialmente um resultado do que havia de novo no seu tempo. Trata-se do único partido com alcance de massas no Brasil. Semelhante invenção existe apenas nas igrejas pentecostais, que também são, ao seu modo, fenômenos de organização de massas. Lula da Silva e Edir Macedo, nesse sentido e em diversos níveis, são absolutamente contemporâneos, se bem que os propósitos e a mística de Lula ainda sejam distintos do caráter de ralé (ARENDT: 2012; 218 e ss) que Edir Macedo representa. Tanto o PT como qualquer igreja pentecostal, para existirem, precisaram de um contato direto com as massas. O PT, na fase de sua construção, nos anos 1980, formou milhares de militantes que representaram uma força viva da democratização do país e da disseminação de hábitos republicanos, como a disposição para o debate e a polêmica. Uma de suas maiores qualidades era a capacidade de pensar coletivamente e de debater com a sociedade seus rumos – por mais ilusórias que fossem suas propostas.

Esta militância treinada foi consolidando, com o passar dos debates internos e suas definições, o que Robert Michels chamou de lei de ferro da burocracia10. Na fase mais recente da história do PT, acompanhando o aprofundamento da regressão à barbárie da segunda metade dos anos 1990, esta burocracia se especializou em conceber técnicas de
‘governabilidade social’ – como se diz no jargão partidário.

Quando Hugo Chávez, na Venezuela, tentou replicar alguns aspectos deste modelo de gestão, logo percebeu que lhe faltava este patrimônio da militância – e buscou suprir tal falta na disposição colaboração dos cubanos com assessoria técnica atualizada e inovadora de brasileiros. Outro aspecto que tornou possível a elaboração das técnicas de governabilidade social foi  a imensa quantidade de dados e estatísticas que a burocracia estatal produz – IPEA, IBGE, PNAD, censo, etc. De posse destes dados e com as técnicas já testadas em  administrações locais, foi possível replicá-las com relativo sucesso na governança nacional. Será pouco provável que a eficiente gestão da barbárie que o PT criou seja mantida, não apenas por razões do aprofundamento da crise e da falta de dinheiro, ou mesmo pela mera falta de vontade política dos partidos conservadores que o desalojaram do poder em 2016, mas, principalmente, pela perda desta máquina de cargos de confiança  que são o savoir fare de engenharias sociais como Bolsa Família, ProUni, Pronera, Pronaf, Peti, etc, cujo segredo não está no Estado, e sim “numa cultura a partir de um projeto” do PT11. A ação destes militantes organizada por um modo de governar produziu  a sutilidade de uma intencionalidade que, por razões bastante complexas, não encontrou  mais respaldo no frágil equilíbrio do arranjo social que a sustentou durante 14 anos.

Há dois aspectos importantes para se pensar o que vem por ai depois do desmoronamento.

O primeiro é que uma máquina de influência absolutamente moderna como o PT, cuidadosamente pouco ‘ideológica’, não chegou ao fim dos seus dias. Irá por certo se renovar, porém, qual a linha destes novos dias não é possível ainda saber. O outro aspecto é mais importante. O colapso da sociedade brasileira entrou num tempo de aceleração. Uma economia política da barbárie se consolidou e é ela que explica os movimentos de alterações dos direitos trabalhistas, das aposentadorias, do teto de gastos e, inclusive, do campo de conduta dos indivíduos cuja liberdade de escolha os direitos humanos tentavam preservar. Esta nova intencionalidade, mais crua e brutal, precisa ser entendida para além de simples maniqueísmos políticos, pois, ao que tudo indica, nunca esteve ausente no período anterior que por hora findou.

II.

A ideia de uma economia política da barbárie pode parecer um pleonasmo, como se esta forma social fundada nas objetivações abstratas do trabalho pudesse ser mais do que um tempo da pré-história da humanidade (MARX). A diferenciação que este conceito procura estabelecer, porém, é um corte histórico para explicar uma época em que as práticas da esfera econômica da vida social precisam se utilizar da rapina e do saque com uma frequência acachapante, ao ponto de se tornarem leis gerais que, por alguma razão alheia ao entendimento dos indivíduos nelas envolvidos, são pressentidas como necessárias para que tudo não desmorone.

A diferença destas práticas com a ‘assim chamada acumulação primitiva de capital’ (MARX), é que elas surgem historicamente em países capitalistas cujas formas essenciais da sociabilidade de uma sociedade produtora de mercadorias estão constituídas, depois de há muito o capitalismo ter superado sua fase originária e, portanto, não ter por finalidade direta expropriar os produtores de seus meios de vida para impor o trabalho assalariado. Logo, não se trata da destruição e conquista de uma formação social não-capitalista, mas de uma fuga para frente da acumulação de capital, quando esta já bateu no limite. A primeira vez que estas práticas aparecem amplamente no ocidente ‘civilizado’, salvo engano, foi pelas mãos do nazismo na década de 1930.

A estupidez da irrupção organizada do mal-estar em que a sociedade burguesa se vê com relativa frequência arrastada desde o início do século XX, em que as massas sã mobilizadas e instrumentalizadas politicamente, ganhou no nazismo contornos que merecem ser sondados nesta chave explicativa de um modelo da economia política da barbárie. O sentido metódico da destruição que o nazismo representou até hoje desconcerta, tanto porque, a princípio, uma destruição deveria ser o oposto de uma atividade ordenada, algo como a força explosiva de uma dinamite, como também porque não precisou de qualquer preparação ou treinamento para ser realizada com o esmero e empenho de boa parte dos alemães. A mesma racionalidade que mantinha em pé a sociedade foi espontaneamente usada para perseguir e linchar grupos sociaisconceitualmente definidos’ como inimigos da nação12. Ao que parece, esta estupidez e (ir) racionalidade estavam dadas a priori e faziam parte naturalmente do modo constitutivo da totalidade social. Sua intencionalidade, no entanto, ainda não havia sido posta e dirigida a serviço de uma destruição voluntária daquelas proporções. Uma das características conhecidas do capitalismo é reduzir em grande medida a forma de existência dos indivíduos às necessidades da economia.

Transformar as pessoas em força de trabalho e impor sua mercantilização como único meio de sobrevivência foi um dos capítulos mais brutais deste modo de produção. Este processo de reificação, como já assinalou alguém13, não produz nenhuma consciência que não seja o reflexo imanente das leis deste sistema. Trata-se de uma luta pela sobrevivência mantida nos níveis mais vulgares de uma animalização socialmente condicionada.

Robert KURZ (2014: 247 ss) na exposição do seu conceito de crise, observa que o limite lógico do capital já está presente nas crises da segunda metade do século XIX. A cada nova crise, desde então, este limite vai enfrentando dificuldades crescentes para remover as barreiras que se opõem à acumulação, o que obriga o capital a produzir mecanismos de compensação que funcionam como verdadeiras fugas para a frente, adiando o tempo de uma crise sem saída e, ao mesmo tempo, preparando uma letalidade (da natureza e da humanidade) sempre maior no seu desenlace.

Assim, o aumento da composição orgânica do capital produziu legiões de desempregados na Europa desde o final do século XIX, que puderam se socorrer da desgraça anunciada graças à fome de mão de obra da economia norte-americana e da expansão imperialista. Contudo, estes mecanismos perderam em parte sua força nas primeiras décadas do século XX. Na Alemanha dos anos 1920, após a derrota da Primeira Guerra, a massa de desempregados será enorme e não poderá contar com a imigração em massa como solução do seu dilema existencial. Depois da crise de 1929 ela chegará, na época da tomada do poder pelo partido nazista, a 6 milhões de pessoas. São massas humanas cuja sobrevivência foi reduzida ao elementar das necessidades animais do corpo e seus instintos reificados – que fazem a vez de uma racionalidade reflexiva que foi extorquida pelo próprio processo social – não fazem muito mais do que refletir as leis da economia14. Pouca ou nenhuma resistência podem oferecer aos horrores que o desespero liberta nestas horas. Como a concorrência é a lei da gravidade da existência social nestas condições, onde não cabem todos, que se reabilite o leito de Procusto. O sentido de muitas ações do nazismo, transbordantes de irracionalidade, pode ser encontrado na racionalidade desta lógica daeconomia política de saque.

A construção de instrumentos de terror pelo Estado policial nazista é uma boa medida do que aqui vai dito. Deles fizeram parte a reabilitação da pena de morte, os campos de concentração, além de revisões draconianas do Código Penal a partir de 1933 ( 15) , configurando um sistema de construção, reconhecimento e controle dos chamados ‘inimigos internos’, que permitiu ao Estado mobilizar a explosão de ódio resultante de condições muito frustrantes da existência de milhões de indivíduos na legitimação e organização do trabalho forçado em larga escala e do saque generalizado de riquezas que seriam pretensamente usadas para o restabelecimento da grandeza da pátria, perdida após a assinatura do Tratado de Versalhes em 1919.

O primeiro nível desta organização coletiva da brutalidade se concentrou no uso hipertrofiado do sistema penal, em que a sua função então central serviu para a mobilização de todos os esforços da sociedade para saltar o relativo atraso da Alemanha em relação aos seus competidores diretos no mercado mundial. Para isso, o incentivo de um espírito sacrificial, que pudesse contribuir para a imposição de regimes de trabalho intensificados, foi a tônica. A pena como privação de liberdade, por exemplo, andou naturalmente abraçada ao trabalho16: este, diz EVANS (2014: 113), “estava se tornando uma função cada vez mais importante dos campos. Contudo, a mão de obra era sacrificável, e as condições dos novos campos eram mais duras que em seus predecessores em meados da década de 1930″.

Por esta mesma época, dois autores judeus alemães – George Rusche e Otto Kirchheimer17, escreveram uma obra pioneira sobre a origem das prisões no capitalismo, e observam queum dos princípios que organiza o regime prisional em cada país é a less eligibility, emque o tratamento dado ao apenado nunca deve ser melhor do que as condições de vida das camadas mais pobres desta sociedade. O nazismo modificou o referencial desta lógica.Ele fez as massas perceberem que era possível um degrau mais baixo da existência -aquele reservado aos inimigos nas prisões e campo de trabalho forçado -, em que os sacrifícios e sofrimentos poderiam ser piores do que a pobreza abjeta que era comum – e deveria ainda continuar sendo por anos – entre os trabalhadores arianos18. Conseguiu, dessa forma, induzir – pelo medo que os instrumentos de terror criavam – algo como a”nacionalização das atitudes e dos sentimentos da maioria dos indivíduos” (MARCUSE: 1997, 148).

De uma espécie de garantia civilizatória mínima que tal princípio define, o padrão nazista das prisões passou a deixar visível o estado de barbárie como medida para toda a nação. O segundo nível dos instrumentos de terror, concomitante ao primeiro, era a forma mais crua da economia de saque, que pode ser vista na politica de “arianização da economia”, que se iniciou com a remoção de todos os judeu-alemães de cargos públicos19 e prosseguiu na sua “expropriação (…) pelo regime20, uma vasta campanha de pilhagem com poucos paralelos na história moderna” (EVANS: 427). Este “sistema de pilhagem, expropriação e peculato” (idem: 458), ampliado para a rapina de nações inteiras, permaneceu a todo vapor nas invasões alemãs durante toda a Segunda Guerra Mundial.

Tal sistema foi, no todo, uma economia política de imposição por meios de terror de um regime forçado de mais trabalho na retaguarda e de “despedaçamento da substância física das economias nacionais arruinadas” (KURZ: 2016; 41) no front da guerra.

III.

Mudanças de comportamento coletivo tão acentuadas e, aparentemente, repentinas, podem ter muitas causas. Num tipo de sociedade em que, como foi dito, a existência é reduzida às funções econômicas, o comportamento grupal dos indivíduos, por um instinto de sobrevivência, inclina-se a seguir as necessidades dos movimentos inconscientes desta estrutura e sua dinâmica. Eles acabam personificando estas funções – o que Marx chamou de ‘máscaras de caráter’ – como se fossem um modo seu de ser, absolutamente pessoal e intransferível. São em parte, na definição do seu comportamento social, personificações de um ‘enredo teatral’ cujo fim desconhecem, não obstante pressentirem estar em jogo nesta representação a decisão sobre a conservação ou não de sua sobrevivência nos padrões que lhe são habituais. Para um autor como Norbert ELIAS (1997: 42), este é o problema chave de qualquer processo civilizador, ou seja, “como as pessoas conseguem satisfazer suas necessidades animalescas elementares, sem  reciprocamente se destruírem (…) ou causarem repetidos danos umas às outras em busca dessa satisfação”. O nazismo corporificou, em certo sentido, a aparição prematura na história de um tipo de máscara de caráter das formas de existência impostas pelas condições de uma economia política da barbárie. Ele, entre outras coisas, representou a reação do homem branco (ariano)21 à primeira experiência histórica de dissolução dasociedade urbana industrial durante a grande depressão dos anos 1930, quando se viu curvado diante dos limites lógicos internos do capital que produziram, como um de seus efeitos explosivos, entre tantos outros, uma sobra de seres humanos – sobra se considerados na habitual, e no capitalismo incontornável, forma existencial total de força de trabalho – em muito superior à expectativa da população relativa então existente. Foi um monstro do seu tempo cuja monstruosidade ainda podia ser mandada de volta às trevas de onde veio.

Os mecanismos de compensação que o capital produz para forçar suas fugas para frente nestes momentos de presentificação dos limites lógicos, naquela ocasião, que incluiu, como condição desta fuga, uma destruição inaudita da Europa e parte da Ásia, ainda tinham um horizonte de manobras para a acumulação bastante promissor com a expansão do fordismo. No entanto, enquanto esta máscara de caráter brutal foi necessária, como uma intencionalidade social, ela representou “uma tendência latente para soltar-se, para afrouxar o controle da própria consciência, para a violência e a brutalidade – tendência essa que, enquanto coerção externa do controle estatal (…), só podia, no máximo, manifestar-se informalmente nos interstícios privados da rede de controle do Estado – tornou-se formalizada e, para os grupos institucionalizados, elevada  a um tipo de comportamento exigido e sustentado pelo próprio Estado” (ELIAS: 390).

Não é possível ir muito mais longe nas comparações de hoje com a conjuntura das duas grandes guerras no século XX. A crise atual é uma forma mais ampla e profunda daquela. Suas saídas, portanto, são mais breves e abertamente destrutivas, sem que com isso se acrescente, ao serem acionadas, qualquer acumulação nova de valor ao capital. As bolhas especulativas, que são um desses mecanismos de compensação da atualidade, simulam grandezas abstratas de riqueza sem substância (trabalho vivo) que, a cada estouro, afundam mais profundamente a humanidade no pântano de uma dessocialização catastrófica (KURZ). Além desses limites comparativos, o parentesco da nova direita com o nazismo mantém diferenças relevantes. Aquela figura de horror do espírito, que foi a máscara de caráter do nazismo, não é a mais adequada à sociedade atual. O fim do mundo que foi vivido com a clareza do extermínio em massa dos campos de concentração e da destruição radioativa nos anos 1933-45, após os 30 anos de trégua que o fordismo representou, voltou a campo com força e potências multiplicadas. Sua atuação não é um acontecimento isolado, mas o curso sólido em que a humanidade vive seu cotidiano em todos os quadrantes do planeta22. Não são apenas as guerras que andam se generalizando, como no Oriente e na África, ou a implosão social por meio de novos tipos de guerras civis em todos os continentes, mas até mesmo a destruição da natureza entrou numa nova fase. Conceitos como o de aquecimento global, talvez, sejam demasiado genéricos para dar conta do que anda se perdendo sem volta23

.A dessocialização catastrófica é um deslocamento do processo outrora  intencionalmente orgânico24 das formações sociais modernas, que produziam sua unidade em torno da dinâmica imanente da identidade das personificações constitutivas destas formas sociais (capital, trabalho e terra). Como esta unidade foi implodida pela crise, seu lugar vai sendo ocupado por relações sociais sustentadas no uso direto da violência25, que procura manter conectado o que ainda funciona da reprodução social da velha ordem agônica. Por isso, tal situação não tem como impedir a fragmentação sócio-territorial em fraturas, que expõe as falhas do que Norbet Elias chamou de “mecanismos de autocoação”. Na verdade, nestas frestas vão se disseminando revoltas privadas contra estes mecanismos. Lasch considerava estas reações, que já eram visíveis nos anos 1990, e foram características das elites pós-modernas, um sintoma do descompromisso destas elites com instituições que – como o Estado de Direito – um dia foram a base da nação e implicaram no imperativo da autolimitação dos impulsos coletivos para mantê-la viva.

No Brasil, o marco do colapso deste compromisso data do curto governo de Fernando Collor. Ele foi a demarcação da personificação – e o início da maturação de uma máscara de caráter que recentemente se vestiu de amarelo e saiu às ruas – de uma constelação docapital dominada por fluxos financeiros de dinheiro sem valor. Sem ser seu oposto, a era FHC aprofundou este caráter ao mesmo tempo em que amainou seus exageros. Assim, foi se produzindo uma reação dos indivíduos que ainda estão conectados com os fluxos de dinheiro – predominantemente homens brancos – contra os perdedores locais da concorrência global – em geral mulheres, índios e negros. Na medida em que a aparente produção da riqueza deste tempo pode se desconectar do trabalho vivo, pois é um resultado do capital fictício que produz a objetivação ilusionista da transformação de dinheiro em mais dinheiro por meio quase exclusivo de mecanismos financeiros (D-D’), a existência de seres humanos supérfluos – para usarmos o termo cunhado por ARENDT (2012; 223) para designar o primeiro momento da história em que tal fenômeno apareceu- e a obrigação de um cuidado coletivo com o azar de seus destinos, seria uma ‘coação social’ contra o ‘direito’ ao livre usufruto dos triunfos que a justiça meritocrática do mercado proporciona.

Além do mais, estes mesmos inutilizados sociais seriam os ‘culpados’ da enorme sobrecarga de impostos que os vencedores são obrigados a pagar e que, nem por isso, os livra de estarem expostos à violência que um estado crescente de guerra civil de novo tipo produz26. Os governos do PT, por seu turno, em alguns aspectos simbólicos e secundários – mas de grande efeito social – representaram um recalque momentâneo a esta reação. Por ter se iniciado num ponto em que as políticas neoliberais da década anterior haviam fracassado e produzido uma insolvência do Estado – literalmente, um estado de emergência -, e em que a gestão tucana já estava completamente desmoralizada, esta irrupção da estupidez coletiva refluiu para outros caminhos, tal como pode ser visto na produção cinematográfica deste período27. As técnicas de gestão da barbárie desenvolvidas com o modo petista de governar a nível federal deram outro sentido aos impostos pagos – apesar desses gastos sociais serem pequenos quando comparados aos aportes de capital feitos neste mesmo período ao BNDES – e ao compromisso com políticas públicas para os miseráveis e deserdados da dissolução dos laços sociais. Por isso, quando o arranjo que deu sustentação aos governos do PT se desfez28, estes setores irromperam do passado recente cobrando juros compostos, como se tivessem passado séculos sofrendo ‘ofensas abusivas’. Parece que agora nada mais os segura. A nova direita não é conservadora no mesmo sentido da velha direita. Esta era uma reação à dissolução das raízes agrárias das sociedades tradicionais em processo de modernização 29, enquanto a nova direita que está em cena é uma reação à dissolução catastrófica da sociedade urbana em curso desde os anos 1990. Porém, diferente da esquerda política (marxismo tradicional), sua reação não é a defesa de uma volta a algum tempo perdido do passado – mesmo quando isso aparece eventualmente em seus discursos, como no saudosismo pela ditadura militar, isto tem força marginal no argumento.

Antes, ela é o desejo incontido de se livrar de alguém que, no fundo, estorva e ameaça a continuidade ou melhora do seu padrão atual de existência. Este sentimento é retirado da própria representação (fantasiosa) da reprodução social, na qual, por acaso, estes indivíduos ainda estão contidos e julgam, por alguma crença, que dela participam por um direito seu desde sempre garantido. Contudo, como a crise em curso é a dissolução da reprodução capitalista e do aparelho de Estado, o que leva “os serviços públicos desapareçam quase por completo” (KURZ: 2016, 41), assim como ao agigantamento das funções policiais do Estado, vai se formando, então, uma versão contemporânea, mais brutal e permanente da economia política da barbárie: “Em paralelo nasce uma economia de saque em que é despedaçada a substância física da economia nacional arruinada – da e na qual grupos da população, segundo critérios étnicos ou religiosos, caem uns sobre os outros numa continuação da concorrência por outros meios” (KURZ: idem, pp. 41-2).

Curiosamente, a nova direita anda mais ideologizada do que a esquerda. Seus pensamentos são fantasmagorias que cumprem a função de digerir a crise, dando um fundo de dever inexorável aos horrores que está disposta a realizar para que o curso do fim do mundo permaneça intacto. Sua identidade com a destruição é monstruosa. Este monstro é toda a luz que resta nas trevas que esta crise produziu Como o capital, ele não tem mais para onde fugir. No dia 17 de abril de 2016 ela deu uma demonstração de ser mais do que uma revolta privada: ela é uma rebelião política de massas.

Notas

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Algo revelador deste caráter é a negativa recorrente de quadros dirigentes do partido ao serem perguntados se são “pessoas de esquerda”. Há o caso clássico de Lula, que numa entrevista à Revista Carta Capital (2005) disse: “Você sabe que eu nunca gostei de me rotular de esquerda. Eu sou torneiro mecânico e cheguei à Presidência da República por obra e graça da paciência…” (cf.http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/presidencia/ex-presidentes/luiz-inacio-lula-da- silva/entrevistas/1o-mandato/2005/07-12-2012-entrevista-exclusiva-concedida-pelo-presidente-da-republica-luiz-inacio-lula-da-silva-revista-carta-capital). No filme Entre Atos, de João Moreira Salles (2002), ele havia desconversado sobre sua profissão para, algum tempo depois (2007), se dizer uma metamorfose ambulante: “Eu não tenho vergonha e muito menos tenho razão para não dizer que eu mudo de posição e há muito tempo eu digo que prefiro ser considerado uma metamorfose ambulante, ou seja, mudando à medida que as coisas mudam” (cf.http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL205291-9356,00.html). Mais recentemente, uma Marta Suplicy ressentida e sentindo-se em casa no PMDB, se saiu com uma pérola do gênero: “eu nunca me coloquei como alguém de esquerda” (cf. http://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes- 2016/2016/09/1814981-nunca-me-coloquei-como-alguem-que-e-de-esquerda-diz-marta-suplicy.shtml).

2 (…) o termo ‘marxismo tradicional’ faz referência não a uma tendência histórica específica do marxismo, mas, em geral, a todos os enfoques teóricos que analisam o capitalismo desde o ponto de vista do trabalho e caracterizam esta sociedade, fundamentalmente, em termos de relações de classe, estruturadas pela propriedade privada dos meios de produção e por uma economia regulada pelo mercado. As relações de dominação são entendidas, então, principalmente, em termos de dominação de classe e exploração”. POSTONE, M. Tiempo, trabajo y dominación social – una reinterpretación de la teoria crítica de Marx. Madrid: Marcial Pons, 2006, p. 48.

3 Roberto SCHWARZ (1987) foi uma das exceções a perceber o fim de linha da modernização brasileira nos anos 1980, cf. Que horas são?, em especial “O fio da meada”, pp. 71-77.

4 Sobre este tema ver o prefácio de R. SCHWARZ (novamente!), ao livro O colapso da modernização de Robert Kurz (1992).

5 Cf. BITTAR, J. Modo petista de governar. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1992. Poucos anos depois veio a público uma nova carga de formulações coletivas sobre a cara do PT nas administrações populares, organizado por Vicente TREVAS, com o sugestivo título de Desafios do governo local: o modo petista de governar. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1997. Esta também é, ao que parece, a origem da inspiração para a discussão do fundo público no Brasil feita por OLIVEIRA, F. de cf. Os direitos do anti-valor – a economia política da hegemonia imperfeita. Petrópolis: Vozes, 1998.

6 Cf. MENEGAT, M. Unidos pela catástrofe: o que há de novo nos movimentos sociais da América Latina. In: DE PAULA, D.; MENDONÇA, S. R. Sociedade civil: ensaios históricos. Jundiaí: Paco Editorial, 2013, proponho neste artigo uma interpretação desta nova modalidade de revolta social, que foi a mobilização desta época do MST, distinta da leitura comum de mera luta pela terra.

7 Cf. ARANTES, P. E. “Apagão”, in: Zero à esquerda. São Paulo: Conrad, 2004; pp. 13-24.

8 “O iluminismo, em todas as suas variantes e graus de desenvolvimento, sempre se limitou a submeter à crítica as situações e manifestações que de algum modo se atravessavam no caminho da esmagadora roda do movimento da valorização. Por isso mesmo, a sua crítica das realidades anteriores à modernidade apenas constituía uma crítica do poder, na medida em que as formas tradicionais de dominação eram censuradas pela sua falta de eficiência e pela sua falta de capacidade de ingerência no íntimo dos indivíduos. O iluminismo foi, desde o início, o perscrutar dos pontos fracos do poder, com o intuito de fortalecer este último sob uma forma nova, objectivada que, ao mesmo tempo, seria ideologizada como forma natural inultrapassável. O início da crítica iluminista foi, por conseguinte, simultaneamente o fim de toda a crítica, o desaparecimento da crítica na forma auto-referente da subjectividade burguesa”. KURZ, R. Razão Sangrenta: 20 teses contra o chamado Iluminismo e os valores ocidentais, cf. http://obeco.planetaclix.pt/rkurz103.htm

9 O momento clássico deste antagonismo na formação social brasileira teria sido entre 1945 e 1964.

10 Sobre a pertinência do uso deste conceito especificamente ao PT, ver RIBEIRO, P. F. “Robert Michels e a oligarquia do Partido dos Trabalhadores cf:http://www.teoriaepesquisa.ufscar.br/index.php/tp/article/viewFile/186/152). Para demonstrar sua hipótese de validade deste conceito na descrição do PT, Ribeiro analisou o ‘grau de estabilidade dos dirigentes’ do partido em diversas instâncias e, principalmente, a formação de um ‘núcleo estratégico’ na Executiva Nacional a partir de 1995. A coincidência da formação deste núcleo e a consolidação do seu pensamento programático em torno do modo petista de governar pode ser atestado na autoria do prefácio e de diversos artigos do livro Desafios do poder local (1997). Estes mesmos dirigentes/autores foram o núcleo duro dos governos de Lula da Silva, apesar de ter ficado parcialmente debilitado com as conhecidas defecções depois do escândalo do mensalão (2003-10)

11

“Embora usemos corretamente – porque também se forma uma cultura a partir de um projeto, de um enunciado – a expressão modo petista de governar (…)”; GENRO, T. Combinar democracia direta e democracia representativa, in: TREVAS, V. Desafios do governo local: o modo petista de governar. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1997, p. 14 (Grifos no origin

12 A construção do inimigo era, por exemplo, para um capitão de polícia responsável pela deportação de um grupo de judeus de Viena à Riga, tornar conhecido para todos a elaboração do “verdadeiro conceito de judeu” (cf. GILBERT; 259). Esta exigência tornaria impensável qualquer tratamento ‘humanizante’ dado a eles. O ‘objeto’ deveria render-se à ideia que temos dele. Nada mais assombroso e… kantiano!

13 Cf. LUKÁCS, G. História e consciência de classe: estudos de dialética marxista. Lisboa: Escorpião, 1974.

14 “As principais objeções, repetidas muitas vezes” no Congresso norte-americano contra uma imigração em massa dos judeus perseguidos na Europa “eram o medo de ‘inundar’ os já sobrecarregados orfanatos, a futura competição por empregos durante um período de elevado desemprego (…)” (GILBERT; 221-2).

15 “As novas leis e os maiores poderes policiais aumentaram em até 50% o número de detentos de todos os tipos (…), até chegar a um ápice de 122 mil em fevereiro de 1937, comparados a meros 69 mil dez anos antes” (EVANS: 2014, 103).

16 “O trabalho forçado de início não era uma grande prioridade, visto que se pensava que solaparia os projetos de criação de empregos do lado de fora, mas esta política em breve foi revertida, e em 1938 até 95% dos detentos estavam engajados no trabalho forçado em muitas prisões” (EVANS: 2014,101).

17 Rusche iniciou a escrita de Punição e estrutura social nos anos 1930, para depois desaparecer num campo de concentração. Kirchheimer o concluiu no exílio nos EUA em 1938.

18 “Dentro das prisões, as condições pioraram rapidamente sob o terceiro Reich. Os nazistas costumavam acusar o serviço carcerário de Weimar de ser mole com os criminosos, mimando os detentos com comida e entretenimento provavelmente muito melhores do que eles experimentavam no lado de fora. (…). A rápida expansão dos números logo criou mais problemas de higiene, nutrição e bem-estar geral para os prisioneiros. As cotas de alimentos diminuíram até os prisioneiros reclamarem da perda de peso e fome supliciante. Infestação por vermes e doenças de pele tornaram-se ainda mais comuns do que haviam sido nas condições longe de perfeitas de Weimar” (EVANS: 2014, 101).

19 Cf. GILBERT: 2006, pp. 122-3.

20 “Em 23 de fevereiro [de 1939] (…), Goering anunciou em Berlin que todos os judeus deveriam, dentro de duas semanas, entregar ‘todas as jóias e outros objetos de ouro, prata e platina, bem como diamantes, pérolas e outras pedras preciosas. (…) A desobediência acarretaria uma multa, ou a prisão com trabalho forçado por até dez anos” (GILBERT: 2005, 206).

21 Podia-se ler numa cartilha nazista: “A ressurreição alemã (…) é um evento masculino”; (EVANS:

2014, 383). “Na primeira metade do século XX, na época das guerras mundiais industrializadas e das crises da economia mundial, o moderno patriarcado produtor de mercadorias já parecia fracassar nas suas contradições internas e dissolver-se no caos e na barbárie – com manifestação extrema no sistema de aniquilamento de seres humanos (…)”. (KURZ: 2016, 75-6).

22

“Algo de fundamental mudou na química da terra”, diz um grupo de cientistas que propõe modificar a nomenclatura para definir a era geológica em que estamos vivendo. “Uma maioria sólida [do grupo de 30 pesquisadores] também apoiou a proposta de definir o início do Antropoceno como a década de 1950”. http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2016/09/1811580-cientistas-querem-criar-oficialmente- a-era-geologica-do-homem.shtml

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Numa entrevista obrigatória, o reconhecido paleontólogo Altair Sales Barbosa explicou o que foi o resultado da expansão do agronegócio pelo Centro-Oeste do Brasil nos últimos 30 anos: “O cerrado está extinto e isto leva ao fim dos rios e reservatórios de água”. Cf.

http://www.jornalopcao.com.br/entrevistas/o-cerrado-esta-extinto-e-isso-leva-ao-fim-dos-rios-e-dos- reservatórios-de-agua-16970/

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Esta afirmação é relativa, obviamente. Caio Prado Jr. assinalou no seu Formação do Brasil Contemporâneo que no aqui não havia se formado um ‘nexo moral’ que daria aos grupos sociais justamente esta organicidade.

25 Apenas alguns dados sobre o crescimento da função policial do Estado brasileiro deste período. Primeiro, o relativo ao grande encarceramento, por exemplo, em que o número de encarcerados do início dos anos 1990 saltou de 114 mil

(http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/12/121226_presos_brasil_aumento_rw.shtml) para

622.000 em 2014 (cf http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/06/numero-de-presos-dobra-em-10- anos-e-passa-dos-600-mil-no-pais.html ). Outro dado: os números de homicídios que passou de 13 mil em 1980, para 56 mil em 2014. Cf. http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-07-02/brasil-bate- recorde-em-homicidios-e-fica-em-setimo-lugar-entre-100-paises.htm

26 Sobre este conceito no Brasil ver MENEGAT, M. Estudos sobre ruínas. Rio de Janeiro: Revan, 2012.

27 O crítico de cinema Inácio Araújo diz algo interessante sobre o filme Cidade de Deus, de Fernando Meireles, e a conjuntura em que foi feito: “Estranho momento, o de Cidade de Deus (2002): o país estava saturado de um tipo de política e se preparava para eleger Lula presidente, pendendo, portanto para políticas sociais. Ao mesmo tempo, o filme anuncia o surgimento de uma nova sensibilidade. Rompe-se, a rigor com o cinema novo e com a ideia de que o banditismo é, antes de tudo, uma questão de política. Ainda não estamos na era de Tropa de Elite, mas a caminho: o jovem bandido é perverso por natureza, assim como o rapaz que aspira à função de repórter fotográfico é pessoa de boa índole.O sucesso do filme deve-se, em parte, é inegável, a uma espécie de saturação de um olhar – esse olharsempre benevolente com o banditismo. Ele nos diz que estávamos cheios disso. Os espectadores que fizeram o sucesso desse tipo de olhar pendiam, na esfera política, para outro lado. Nem sempre somos fáceis de entender”. Cf Ilustrada, Folha de São Paulo, 3 setembro de 2016.

28 Sobre este tema ver MENEGAT, M. O fim da gestão da barbárie. Revista Territórios Transversais – resistência urbana em movimento, nº 3, Rio de Janeiro, 2015; pp. 13-15.

29 Conforme pode ser lido na obra clássica de HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: J. Olímpio, 1982.

Marildo Menegat Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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