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A Hermenêutica do Mito – Emmanuel Carneiro Leão

A serpente não mentiu. Verificou-se o que ela predissera. Será que Deus não disse a verdade? A interpretação cristã procura sair da aporia, recorrendo à imortalidade. O homem fôra criado imortal. O que Deus predissera com a cominação imediata da morte foi a perda da imortalidade. Mas o mito desconhece totalmente uma imortalidade do homem tanto depois como antes da transgressão. Por outro lado, o mito também afirma que a serpente enganou o homem. Interrogada por Deus, diz a mulher no versículo 13: “a serpente me enganou para que eu comesse”. Como a serpente pode ter enganado se disse a verdade? Só num caso; a saber, no caso de equivocação do têrmo morrer. Nesse caso, embora seja verdade, o que disse a serpente não é tõda verdade. Há um sentido de morte em que se torna falsa a predição da serpente. Então talvez seja verdadeira a predição da morte imediata feita por Deus. Mas que outra coisa poderá significar do que terminar de viver, a morte biológica? Para se responder essa questão de acôrdo com o mito, deve-se primeiro examinar os efeitos do fruto proibido.
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Sobre a potência política do inumano: retornar à crítica ao humanismo- Vladimir Safatle

É cada vez mais aceito certo diagnóstico de época que determina o presente como era do esgotamento da humanidade do homem. Compreende-se que o projeto filosófico da modernidade forjou, como uma de suas peças fundamentais, a imagem da humanidade enquanto qualidade do que é humano. Qualidade esta definida sobretudo por atributos ligados aos conceitos modernos de sujeito, como: autonomia reflexiva das condutas e ações, autodeterminação capaz de fundar o homem em uma relação de autenticidade a si mesmo, imputabilidade individual própria àquele que é moralmente responsável pelo que faz ser capaz de deliberar no interior do solo seguro de sua interioridade e, por fim, individualidade singular do que é irredutivelmente único. Acredita-se, inclusive, que as lutas políticas e as estratégias de crítica do existente devem estar fundadas na consciência do bloqueio da realização de tais atributos. Um pouco como se o sofrimento que leva a criticar a situação sócio-histórica estivesse ancorado em valores não realizados de autonomia, autodeterminação e autenticidade. Continuar lendo Sobre a potência política do inumano: retornar à crítica ao humanismo- Vladimir Safatle

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Por que deveríamos ler mais John Gray ? – André Marcio Neves Soares

Ora, como almejar pretensiosamente a imortalidade sem sequer alcançar a liberdade? A solução para esse conflito que nunca foi deixado para trás, como disse Kleist, foi elevar a ciência como o atual demiurgo da humanidade. Ao contrário dos antigos que sabiam da incapacidade humana de despir-se do próprio mal interior, os atuais humanos, entorpecidos pela crença secular, buscam rodopiar em volta de si mesmos, como fantoches, e enganar a própria falha primordial: a ação humana. Continuar lendo Por que deveríamos ler mais John Gray ? – André Marcio Neves Soares

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À espera dos escravos globais- Robert Kurz

Por trás dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, da forma como os concebeu Montesquieu, há um “quarto poder” -o poder estrutural do sistema total de mercado. Desde Rousseau, esse ídolo econômico, que zomba de todo procedimento democrático, atende na teoria política pelo nome abstrato de “bem comum”. Ao jogo democrático sujeitam-se, portanto, somente alternativas predeterminadas (algo como a livre escolha entre a cruz e a caldeirinha), do modo como as concebem os cegos “processos naturais” da física social.
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