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Sionismo, antisemitismo e a esquerda – uma entrevista com Moishe Postone 

Para os nossos leitores trazemos um debate atual sobre a constatação da  existência de um caráter antisemita  nas ações da esquerda contemporânea .

 

É comum verificarmos, junto com a inquestionável necessidade de se denunciar o caráter fascista da política do Estado de Israel  frente ao povo palestino, esta critica ser acompanhada de uma postura de exigência da extinção do Estado de Israel e a negação do direito de autodeterminação do povo judeu . Com frequência partidos e correntes de esquerda fazem coro com estas propostas,  geradas nas entranhas mais retrógradas das correntes reacionárias de direita, imputando  a esse povo a responsabilidade dos males que o capitalismo trouxe a toda o mundo contemporâneo ,   com o seu insano modo de produção. Desenvolvem , assim  uma uma postura de xenofobia, à reboque do fascismo, incompatível para quem deseja a emancipação da humanidade.

 

Postone é um académico marxista radicado na Universidade de Chicago. Além de escrever abundantemente acerca da crítica da economía política de Marx, tem sido fundamental no desenvolvimento de teorias sobre o “antisemitismo  de esquerda”, analisando a forma como posições assumidas por grupos de esquerda, particularmente no que se refere ao conflito Israel/Palestina, podem tornar-se,ou ser baseadas,numa  hostilidade para com povo Judeu, como um todo . Acredito que esta entrevista nos trás esclarecimentos sobre tal questão , para uma abordagem mais precisa do que é o anti semitismo e a postura  equivocada que a esquerda tem tido sobre tão  importante problema  .  

 

Arlindenor Pedro 

Para muitas pessoas na esquerda de hoje, o antisemitismo  parece ser apenas mais outra forma de racismo, indesejável mas por enquanto francamente marginal, e que é proeminente nas discussões apenas porque o governo israelita utiliza as acusações de anti-semitismo  para defletir as críticas que enfrenta. O senhor argumenta, contudo, que o antisemitismo é diferente das outras formas de racismo, e que o mesmo não  é marginal hoje em dia. Por que ?
Moishe Postone: É verdade que o governo israelita utiliza as acusações de antisemitismo  para se proteger das críticas. Mas isso não  significa que o próprio anti-semitismo não  seja um problema sério
A forma como o antisemitismo se distingue, e deve ser distinguido, do racismo, está ligada ao tipo e poder imaginário, atribuído aos Judeus, ao sionismo e a Israel, que está no âmago do antisemitismo. Os Judeus são  vistos como constituindo de uma  forma global de poder imensamente poderosa, abstrata e intangível que domina o mundo. Não  existe nada semelhante a esta ideia no cerne das outras formas de racismo. O racismo, por aquilo que conheço, raramente constitui um sistema integral que procura explicar o mundo. O antisemitismo é uma crítica primitiva do mundo, da modernidade capitalista. A razão  porque o considero particularmente perigoso para a esquerda é precisamente porque o anti-semitismo possui uma dimensão  pseudo-emancipatória que as outras formas de racismo raramente apresentam.
Em que medida o Senhor considera que o antisemitismo de hoje está ligado com atitudes face a Israel? Parece-nos que uma corrente na atitude de algumas forças da esquerda em relação  a Israel tem implicações antisemitas. Essa é a corrente que deseja não  apenas criticar e mudar a política israelita face os palestinos , mas a aboliçao  de Israel enquanto tal, e um mundo onde os outros estados-nação  possam existir, mas não  Israel. Deste ponto de vista, ser um judeu, sentir qualquer identidade comum com outros Judeus e, portanto, com os Judeus de Israel, significa ser “sionista”, algo que será tão  aberrante como ser um racista.
– É preciso desagregar muitas coisas  neste âmbito. Existe uma espécie de convergência fatal num  número de correntes históricas na forma contemporânea de antissionista.
Uma, cujas origens não  são  necessariamente antisemitas, tem as suas raízes nas lutas entre membros da intelligentsia judaica na Europa do Leste no início do século XX. Uma maioria de intelectuais judaicos, incluindo intelectuais secularizados, sentiam que alguma forma de identidade colectiva fazia parte da experiência judaica. Esta identidade tornou-se crescentemente definida como nacional, em virtude do colapso das anteriores formas imperiais de coletividade; isto é, a medida que os impérios antigos, os impérios dos Habsburgo, Romanov e Prússia se desmembravam. Os Judeus na Europa do Leste, ao contrário dos Judeus na Europa Ocidental, viam-se a si mesmos como uma coletividade, e não  simplesmente como uma religião .
Existiam várias formas desta auto-expressão nacional judaica. O sionismo foi uma delas. Havia outras, como os autonomistas culturais judaicos e o Bund, um movimento socialista autónomo dos trabalhadores judeus, muito maior do que quaisquer outro movimento e que saiu  do Partido Operário Social-Democrata Russo nos primeiros anos do século XX.
Por outro lado, havia Judeus, muitos deles membros de Partidos Comunistas, que viam qualquer expressão da identidade judaica como um anátema para as suas noções do que eu chamaria noções iluministas abstratas de humanidade. Por exemplo, Trotsky, numa fase inicial, referiria-se ao Bund como “sionistas enjoados”. Note-se que a crítica do sionismo aqui nada tinha a ver com a Palestina ou a situação  dos Palestinos , uma vez que o Bund se focava na autonomia no Império russo e rejeitava o sionismo. Ao invés, a equação  de Trostky do Bund e o sionismo implicava a rejeição  de qualquer forma de autoidentificação comunitária judia. Trotsky, acho, mudou de opnião  posteriormente, mas essa atitude era francamente típica. As organizações comunistas tendiam a se opor fortemente ao nacionalismo judeu, quer se tratasse do nacionalismo cultural, nacionalismo político ou sionismo. Esta é uma das correntes do antissionismo. Não é necessariamente antissemita, mas rejeita a autoidentificação coletiva judia em nome de um  universalismo abstracto.
Todavia, frequentemente, esta forma de antisionismo   é inconsistente, pois visa conceder a autodeterminação nacional à maioria de povos, salvo aos Judeus. É neste ponto que aquilo que se apresenta como universalismo abstrato torna-se ideológico. Para além disso, o próprio significado desse universalismo muda com o contexto histórico. Após o Holocausto e o estabelecimento do Estado de Israel, este universalismo abstrato serve para velar a história dos Judeus na Europa. Isto cumpre uma dupla função “purificadora”: a violência historicamente perpetrada pelos  Europeus sobre os Judeus é apagada; ao mesmo tempo, os horrores do colonialismo europeu agora são  atribuídos aos Judeus. Neste caso, o universalismo abstrato expressado por muitos antissionistas hoje torna-se numa ideologia de legitimização  que ajuda a constituir uma espécie de amnésia relativamente à longa história de ações, políticas e ideologias europeias face os Judeus, enquanto essa história, no essencial, continua. Os Judeus, mais uma vez, tornaram-se no objeto singular da indignação  europeia. A solidariedade que a maioria de Judeus sentem em relação  a outros Judeus, incluindo em Israel, compreensível depois do Holocausto, é agora criticada. Esta sorte de antissionismo tornou-se numa das bases para um programa com vista a erradicar a autodeterminação judia existente. Converge com algumas formas de nacionalismo árabe, agora codificada como singularmente progressista.
Outra corrente da esquerda antisemita , desta vez fundamentalmente  antisemita , foi introduzida pela  União  Soviética, particularmente nos julgamentos fantoche na Europa Oriental após a Segunda Guerra mundial. Isto foi particularmente dramático no caso do julgamento de Slansky, quando a maioria dos membros do Comité Central do Partido Comunista Checoslovaco foram julgados e depois fuzilados. Todos as acusações  contra eles eram  antissemitas: eles careciam de raízes, eram cosmopolitas e faziam parte de uma  conspiraração  global geral. Já que a União  Soviética nao  podia oficialmente usar a linguagem do antissemitismo, a palavra “sionista” começou a ser utilizada com o mesmo significado ao do “judeu” utilizado pelos  antissemitas. Esses líderes do PC Checoslovaco, que nada tinham a ver com o sionismo, pois a maioria deles eram veteranos da Guerra Civil espanhola, foram fuzilados como sionistas.
Esta corrente de antissionismo antissemita foi importada para o Próximo Oriente durante a Guerra Fria, em parte pelos  serviços de inteligência de países como a Alemanha Oriental. Foi introduzida uma forma de antissemitismo que era considerada “legítima” pela  esquerda, e designada por antissionismo.
As suas origens nada têm a ver com o movimento contra o estabelecimento de Israel. Com certeza, a população árabe da Palestina reagiu negativamente e resistiu à imigração  judia. Isto é bastante compreensível e, em si mesmo, nao  é certamente antissemita. Mas estas correntes de antissionismo convergiram históricamente .
 
Em relação  à terceira corrente, houve uma mudança nos últimos dez anos, começando pelo  próprio movimento palestino, relativamente à existência de Israel. Durante anos, a maioria de organizações palestinas  rejeitaram aceitar a existência de Israel. Porém, em 1988 a OLP decidiu que iria aceitar a existência de Israel. A segunda intifada, que começou em 2000, foi politicamente muito diferente da primeira, e implicou em uma  reversão  dessa decisão .
 
Considero que esse foi um erro político fundamental, e acho que é extraordinário e lamentável que a esquerda tenha sido apanhada por esta  onda e esteja, a cada vez mais, a exigir a abolição  de Israel. Porém, hoje no Próximo Oriente há quase tantos Judeus quanto Palestinos . Qualquer estratégia baseada em analogias a situações como a Argélia ou a África do Sul simplesmente nao  funcionam , tanto a nível demográfico como a nível político e histórico.
 
Por que as pessoas não o  conseguem apreender a situação  tal como ela é atualmente, e tentam descobrir se existe algum tipo de resolução para aquilo que é essencialmente um conflito nacional que poderia gerar  uma  política progressista? Subordinar o conflito à categoria de colonialismo é desconhecer a situação . Ao contrário daqueles que limitaram a política progressista a uma luta nacional, eu penso que enquanto a luta estiver centrada na existência de Israel e na existência da Palestina, as lutas progressistas permanecem indeterminadas. As pessoas que consideram a luta contra a existência de Israel progressista estão  a aceitar algo reacionário.

 Na última década tem havido umha campanha concertada por parte de alguns  palestinos , e conduzida no Ocidente pela  esquerda, no sentido de colocar a existência de Israel novamente em cima da mesa. Entre outras coisas , isto tem como efeito o fortalecimento da direita em Israel.

 Entre 1967 e 2000 a esquerda em Israel argumentou sempre que os palestinos  queriam a autodeterminação e que a versão da propagada pela  direita que eles pretendiam erradicar Israel era uma fantasia. Infelizmente, essa fantasia revelou no ano 2000 não  ser uma  fantasia de todo, o que fortaleceu incomparavelmente a direita nas suas tentativas de impedir a criação  de um Estado Palestino . A direita israelita e a direita palestina estão a reforçar-se mutuamente, e a esquerda ocidental está apoiar aquilo que considero ser a direita palrstina , os ultranacionalistas e os islamistas.

 A ideia de que a cada nação , excetuando os Judeus, deve ser permitida a autodeterminação conduz-nos de volta à União  Soviética. Basta apenas ler Estaline acerca da questão  das nacionalidades.

 Outra coisa  invulgar em algumas  atitudes atuais das correntes de esquerda em relação  a Israel é a visão  sobre Israel   possuir um poder enorme e misterioso. Por exemplo, é frequentemente assumido como axiomático que Israel é a potência dominante do Próximo Oriente, e é igualmente argumentado que Israel possui um enorme poder nas camadas dirigentes dos EUA e do Reino Unido.

– Israel está longe de ser este país tão forte como  é assumido. Porém, existe gente como o meu presente e antigos colegas na Universidade de Chicaco, John Mearsheimer e Stephen Walt, fortemente apoiados por círculos britânicos, que defendem que o único elemento que dirige a política americana no Próximo Oriente é Israel, medida polo lobby judeu. Eles realizam esta afirmação  veemente na ausência de qualquer tentativa séria de analisar a política americana no Próximo Oriente desde 1945, que seguramente não  pode ser adequadamente compreendida estando assentada em Israel. Assim sendo, por exemplo, eles ignoram completamente a política americana relativamente ao Irám nos últimos 75 anos. Os alicerces reais da política americana no Próximo Oriente após a Segunda Guerra mundial foram a Arábia Saudita e o Irám. Isto mudou nas últimas décadas, e os americanos nnão  têm a certeza hoje em dia em  como lidar com isso e assegurar o Golfo para a prossecução dos seus objetivos. Todavia, há um livro escrito por esses dois académicos mencionados que alega que a política americana no Próximo Oriente foi conduzida mormente pelo  lobby judeu, sem se preocuparem em analisar seriamente as políticas das grandes potências em relação  ao Próximo Oriente no século XX.
 
Já sustentei noutro lugar que este tipo de argumentação  é antissemita. Isto não  tem nada a ver com as atitudes pessoais do povo envolvido, mas a sorte de enorme poder global atribuido aos Judeus (como, neste caso, o de manipularem ocultadamente o gigante, bondoso e ingénuo Tio Sam) é típico do pensamento antissemita moderno.
 
De um modo mais geral, essa ideologia representa aquilo que eu chamo de forma fetichizada de anticapitalismo. Isto é, o poder misterioso do capital, que é intangível, global e que desestabiliza nações, regiões e a vida das pessoas, é atribuído os Judeus. O domínio abstrato do capitalismo é personificado no judeu. O antissemitismo é uma revolta contra o capital global, falsamente entendido como os Judeus. Esta abordagem pode também ajudar a explicar o crescimento do antissemitismo no Próximo Oriente nas últimas duas décadas. não  penso que mencionar apenas o sofrimento dos Palestinos  seja uma explicação  suficiente. Economicamente, o Próximo Oriente tem declinado significativamente nas últimas três décadas. Apenas a África Subsariana se encontra em piores condições. E isto ocorreu num momento em que os outros países e regiões, tidos como parte integrante do Terceiro Mundo há cinquenta anos, se desenvolveram rapidamente. Penso que o antissemitismo no Próximo Oriente, hoje em dia, é uma expressão  não  apenas do conflito israelo-palestino, mas também de um  sentimento geral de impotência exacerbado à luz destes desenvolvimentos globais.
Na direita alemã de há cem anos, a dominação  global do capital costumava ser considerada como dos Judeus e da Grã Bretanha. Hoje em dia a Esquerda encara esse domínio como o de Israel e os EUA. O padrão  de pensamento é o mesmo. Temos agora uma forma de antissemitismo que parece ser progressista e “anti-imperialista”; o que constitui um verdadeiro perigo para a esquerda.

 O racismo raramente constitui um  perigo para a esquerda. Mas a esquerda tem de ter cuidado para não  se tornar racista, mesmo que  isso não seja um perigo permanente porque o racismo não  possui a dimensão  aparentemente emancipadora do antissemitismo.

 A identificação  do poder capitalista global com os Judeus e o Reino Unido remonta a uma época anterior aos nazis, as seções da esquerda britânica durante a Guerra dos Bóeres, condenada como sendo uma “guerra judaica”, e ao movimento populista nos EUA, no final do século XIx.
– Sim, e está a voltar nos EUA atualmente. Os chamados “tea parties”, a denominada fúria popular (grass-roots) de direita acerca da crise financeira, possui traços marcadamente antissemitas.
O senhor defende que a URSS e os sistemas similares não  eram formas de emancipação  do capitalismo, mas formas de capitalismo de Estado. Assim, a atitude geral da esquerda ao colocar-se do lado da URSS, por vezes de um modo bastante crítico, contra os EUA foi autodestrutiva. O senhor tem realçado a analogia entre o tipo de anti-imperialismo que se coloca do lado do Islám político, enquanto contrapoder dos EUA, e a velha Guerra Fria. Quais são as características comuns entre estas duas polarizações políticas? E as diferenças?
– As diferenças são  que a forma anterior de antiamericanismo estava ligada à promoção  das revoluções comunistas no Vietname, em Cuba,… O que quer que pensássemos disso na altura, ou como o encaremos retrospetivamente, a sua própria autocompreensão era a de que promovia um projeto emancipador. Os EUA eram severamente criticados não  apenas por serem uma grande potência, mas também porque estavam a impedir a emergência de uma   ordem social mais progressista. Essa era a autocompreensão de muitos dos que solidarizavam com o Vietname ou com Cuba.

 Hoje em dia, duvido que mesmo as pessoas que proclamavam “somos todos Hezbollah” ou “somos todos Hamas” acreditem que esses movimentos representam uma ordem social emancipadora. No melhor dos casos está envolvida uma reificação orientalista dos Árabes e/ou Muçulmanos enquanto Outro, mediante a qual o Outro, desta vez, é afirmado. Trata-se de outra  indicação  do sentimento histórico de impotência por parte da esquerda, da incapacidade para desenvolver um imaginário acerca de como poderia ser um futuro pós-capitalista. não  possuindo qualquer visão  de um  futuro pós-capitalista, muitos substituíram qualquer concepção  de transformação por uma noção  reificadau de “resistência”. Qualquer coisa  que “resista” aos EUA é encarada positivamente. Considero esta forma de pensamento extremamente questionável.

 Mesmo no período anterior, quando predominava a solidariedade com o Vietname, Cuba,…, penso que a divisão do globo em dois campos teve consequências bastante negativas para a esquerda. A esquerda encontrou-se frequentemente numa posição  em que era o espelho dos nacionalistas ocidentais.

 Muitos elementos de esquerda tornaram-se nacionalistas do outro lado. A maior parte deles, com algumas exceções significativas, era extremamente apologética do que se estava a passar nos países comunistas. O seu olhar crítico estava distorcido. Em vez de desenvolver uma forma de internacionalismo que fosse crítico de todas as relações existentes, a esquerda tornou-se apoiante de um dos lados numa outra vesão  do Grande Jogo.

 Isto teve efeitos desastrosos nas faculdades críticas da esquerda, e não apenas no caso dos comunistas. É absurdo que Michel Foucault tenha ido ao Irám e considerado a revolução dos mullahs como possuidora de aspectos progressistas.

 Uma outra  coisa  que tornou a divisão  em dois campos sedutora foi o  facto dos comunistas ocidentais tenderem a ser pessoas bastante progressistas, pessoas muito corajosas, frequentemente, que sofriam em virtude das suas tentativas, no seu próprio entendimento, de criar umha sociedade mais humana e progressista, e talvez mesmo uma sociedade socialista. Essas pessoas foram completamente instrumentalizadas; mas, por causa do duplo carácter do comunismo, era muito difícil para algumas pessoas constatar isso. Os segmentos da esquerda social-democrata que se opunham a esses comunistas, e viam como eles eram manipulados, tornaram-se eles mesmos ideólogos do liberalismo  durante a Guerra Fria.

 Julgo que a esquerda não deveria ter apoiado nenhum dos dois lados da divisão . Mas penso igualmente que a situação  da esquerda é pior hoje em dia.  Entrevista original: “Zionism, anti-semitism and the left”, in Solidarity, Vol. 3, Nº 166, fevereiro 2010, PP. 21-22. Fonte: WORKER’S LIBERTY

A questão judaica e a crise da modernidade – Arlindenor Pedro

O espectador que assiste ao filme Kadoch ( no Brasil , Laços Sagrados ) , do cineasta israelense Amos Gitai, o faz sobre uma grande tensão, pois com ele penetramos no universo de uma das mais antigas seitas religiosas da humanidade – os ultra- ortodoxos judeus do bairro de Mea Shaerim, de Jerusalém- cenário escolhido pelo diretor para contar a história de duas mulheres submetidas às leis patriarcais inflexíveis desta comunidade judaica .

As duas irmãs vivem problemas recorrentes para as mulheres da comunidade : uma tem que se sujeitar a um casamento arranjado pelo líder espiritual, embora esteja apaixonada por um cantor de fora da comunidade, e a outra é obrigada a se afastar do marido a quem ama , pois após 10 anos, não conseguiram ter filhos.

Através deste fio condutor, vamos tomando contato com os hábitos da comunidade, que se prepara avidamente para o Amargedon e para esperada chegada do Messias, o qual fará a redenção do povo judeu, através da vingança imposta a seus inimigos que os sujeitaram à escravidão durante séculos de história .

No desenrolar da trama as duas mulheres agem de forma diferente à opressão dos homens : uma se rebelando, abandonando a comunidade e o marido imposto, e a outra se submetendo as leis religiosas , passando a viver uma vida mais subalterna ainda, fora do casamento que foi desfeito por imposição do rabino.

Talvez por seu realismo, ou mesmo por penetrar tão fundo nos mistérios dos ortodoxos judeus , Amos Gitai não tenha conseguido na época os recursos oficiais para concluir a película, tendo que se capitalizar fora de Israel, com seus contatos na Europa .

Concluído, o filme teve grande êxito , pois trouxe à tona um debate sobre as características e o poder do fanatismo religioso em Israel, um Estado que erroneamente parece laico para muitos, trazendo -nos a lembrança de pontos em comum com outros tipos de fanatismo existente nas duas outras religiões monoteístas – a cristã e a muçulmana : todas dominadas por práticas preconceituosas e belicosas, com a total sujeição das mulheres a um domínio patriarcal inconteste.

Nos filmes dirigidos durante a sua carreira , Amos Gitai, tem implementado a eles uma característica peculiar, pelo seu realismo e coragem de colocar a nu as questões do Estado Judeu e a sua explosiva relação com a comunidade palestina, sendo visto como diretor polêmico , aplaudido por muitos, mas duramente criticado pelos grupos radicais da direita israelense .

Ao trazer para as telas o tema religioso ele nos mostra o papel que as seitas religiosas vão adquirindo em Israel, onde deixaram de ser coadjuvante e vão assumindo claramente a vanguarda política no país ( uma tendência que ocorre nos países vizinhos, no Oriente médio , e em todo o planeta, na contemporaneidade).

Penso então, que caminhamos para grandes embates religiosos, onde neste campo, os novos profetas disputarão a hegemonia do pensamento do homem globalizado.

Sobre este tema, o professor inglês John Gray, em seu livro “Missa Negra-Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias,” recentemente abordou a política do neoconservadorismo do grupo do ex-presidente George Bush e do seu principal aliado na época , o britânico Blair e o seu novo trabalhismo, que levou à invasão do Iraque e o confronto com os movimentos radicais islâmicos, numa guerra de característica plenamente religiosa. Esta política se fez presente após o 11 de setembro e molda hoje o pensamento de amplas parcelas conservadoras em todo o mundo. Nesta obra ele faz uma extensa análise deste movimento de direita, influenciado pelo pensamento de F. Fukuyama acentuando, inclusive, a sua diferença de outro movimento de direita contemporâneo, o neoliberal de Margareth Thatcher, que ele classifica como um movimento utópico.

“Os neoliberais que moldaram as políticas ocidentais na década de 1990 eram em sua maioria economistas bem pensantes com uma fé ingênua em sua própria versão da razão. O avanço do livre mercado podia precisar de ajuda-por exemplo, com programas de ajuste estrutural de impostos a muitos países emergentes pelo Fundo Monetário Internacional; mas haveria de se disseminar e ser aceito em decorrência da crescente prosperidade que propiciasse. Este inocente credo não se adaptava às duras realidades do mundo posterior à Guerra Fria, e logo seria substituído pela fé mais militante do neoconservadorismo. Os neoconservadores entenderam que os mercados livres não haveriam de se disseminar pelo mundo num processo pacífico: ele teria de ser assistido por uma aplicação intensiva de força militar. O mundo posterior à Guerra Fria seria uma era de sangue e ferro, e não de paz.” (in, “Missa Negra”, John Gray, 2008).

Continuando…


“Muitos dos neoconservadores que constituem a base de poder de G. W.Bush esperam um Fim promovido por intervenção divina. Encaram os conflitos mundiais – especialmente os que ocorrem em terras bíblicas-como prenúncio do Armageddon, uma batalha final da luta entre a luz e as trevas. Outros esperam ser poupados dessas provações numa êxtase em que serão conduzidos ao céu. Em ambos os casos, o mundo imperfeito em que a humanidade tem vivido logo chegará ao fim” (idem).

Esta influência crescente das forças neoconservadoras nos E. Unidos, segundo ele seria um fato novo e, na minha opinião, poria em perigo uma característica do capitalismo americano que Marx tinha acentuado na sua obra de juventude – ” A questão judaica”, onde proferiu a célebre frase:

– “só nos Estados livres da América do Norte [EUA] perde a questão judaica seu sentido teológico, para converter-se em verdadeira questão secular” .

Marx não conheceu o Estado de Israel, mas todos sabemos que na sua primitiva fundação prevaleceu a ideia de um Estado secular, oriundos do sionismo do século IX. Mas, desde que o partido direitista Likud chegou ao poder em Israel, em 1977, a influência dos inúmeros grupos religiosos ortodoxos aumentaram consideravelmente, enquanto as posições laicas do sionismo de esquerda foram cada vez mais empurrada para fora do governo , deixando de ter peso na sociedade judia, que vem mudando suas características de forma acelerada .

As instituições onde os trabalhistas obtinham seu maior prestígio , como os sindicatos, as corporações , a Central Sindical; as comunidades autónomas como os kibuts, são pálidos arremedo da força que desfrutavam, perdendo a sua importância social, muito por obra da globalização e da entrada de Israel no mercado global que cobrou importantes dividendos (sua juventude,por exemplo, hoje despolitizados , entregou-se a lógica do consumo de massas).

Isto se deve, em grande parte , as sucessivas ondas migratórias ( do oriente e mais tarde dos antigos países do Leste Europa, notadamente da antiga União Soviética) que deram um novo perfil ao Estado judeu.

O sociólogo e pesquisador brasileiro, José Maurício Rodrigues, na seu trabalho “A Sociologia Israelense e a Crise do Consenso Sionista”, apoiando-se nas teses do importante sociólogo israelense Shmuel Eisenstadt, nos diz que :


“Em meados dos anos de 1990, Shmuel Eisenstadt (1995) assinalava a “desintegração” do molde trabalhista-sionista, cujos elementos de nacionalismo primordialista e revolucionário fundamentaram a construção ideológica de Israel. Este processo, que se iniciara décadas antes, abriu um vazio ideológico, a que se somou um pluralismo crescente na sociedade israelense, levando a um reforço das identidades étnicas entre os próprios judeus e ao aumento da influência da religião. Associou-se a isso, ainda, a emigração de um milhão de judeus da antiga União soviética, com perspectivas bastante distintas das ondas de emigração anteriores. Esta crise do sionismo trabalhista tem um momento fundamental na chegada da direita, o partido Likud, ao poder em 1977. Baruch Kimmerling (2007a, pp. 1-3ss) chegaria a conclusões semelhantes: Israel enfrenta a decomposição da “hegemonia” trabalhista-sionista e, com forte pluralidade social emergindo, mergulha em “guerras culturais” desprovida de um modelo multicultural. Em contrapartida, mantêm-se os arraigados códigos culturais do “militarismo civil” e de um judaísmo genérico, bem como um Estado forte interna e externamente”. ( José Maurício Rodrigues, in ” A Sociologia Israelense e a Crise do Consenso Sionista “).

Esta nova aliança entre o partido Likud e as forças políticas mais a direita levou a um fortalecimento dos grupos religiosos que embora em muitos casos não aceitem a existência do Estado de Israel são intensamente subsidiados por esse mesmo Estado , mantendo suas próprias escolas , serviço médico, etc, portando -se muitas vezes como um estado dentro do Estado. Em suma : a falência da política secular levou cada vez mais a expansão da religião como expressão do Estado Judeu , fato idêntico ao que ocorre com seus vizinhos árabes, onde os movimentos dominados por seitas religiosas vão ocupando o espaço dos antigos movimentos políticos de caráter laico.

E mesmo se olharmos para a outra grande religião – o cristianismo, nas suas diversas versões ( católica e protestantes ) em todo o mundo, veremos que ocorre movimentos semelhantes, com o fortalecimento de suas vertentes mais ortodoxas.

Parece-nos, então, que está em curso o fortalecimento das forças militantes das diversas religiões , preparando-as para os grandes embates religiosos-militares que virão !

Robert Kurz, em 2003 publicou o livro ” A Guerra de Ordenamento Mundial”, e no seu capítulo IV, ” O Oriente Próximo e Síndrome do Anti-Semitismo ” , faz uma reflexão sobre o entendimento do Estado de Israel e seu caráter peculiar no âmbito das nações e, não abrindo mão de acentuar o atual caráter fascista do Estado Judeu, lamenta a submissão das forças das esquerdas ao anti-semitismo , racista e excludente desenvolvida pelos países mercantilistas e capitalistas em relação ao povo judeu.

Kurz vê o anti-semitismo como uma válvula de escape a que burguesia lança mão toda vez em que o capitalismo entra em crise. A lógica capitalista ( da apropriação da mais valia que se faz através da dimensão ideológica da conexão da forma social, que vai para além das classes e das nações e é objectivava em termos históricos, do trabalho abstracto, do valor, da forma da mercadoria, do dinheiro, da produção em regime de economia empresarial, do mercado mundial e do Estado ) , necessita em momentos de crise de objetivar um sujeito, causador ( pela sua existência) dos males que afligem a sociedade. E isto sempre ocorreu em relação aos judeus ,desde a Antiguidade (Babilonia, Egito, Roma,etc) até a Modernidade ( onde o holocausto nazista se destaca), por tempos imemoriais.

A ” questão judaica” sempre esteve presente, em maior ou menor grau, na histórias das Nações . No caso do Brasil ela é um elo importante na construção do Estado Nacional que tentamos erquer no processo da nossa existência . A perseguição aos judeus para mim, e muitos autores, foi um dos fatores determinantes que moldaram a característica do povo português e por extensão o povo brasileiro. A princípio duas mentalidades foram formadas, viciosas e inimigas. Assim eram, segundo o historiador José Hermano Saraiva:

” a do cristão-velho , detentor da verdade, inimigo da inovação, farejador de erros alheios, dogmático e repressivo, e a do cristão-novo, dissimulado, messianista, acosado, intimamente revoltado, não solidário com o conjunto da comunidade nacional que o repele e a que ele no fundo não reconhece como sua…” (in, Historia Essencial de Portugal, Jose Hermano Saraiva ).

E tal fato se faz presente, até a modernidade .

Sobre isto nos diz Kurz:


“Assim, a esquerda do movimento operário e marxista, tal como mais ainda a esquerda radical (e não menos a esquerda anarquista), nem sequer se aperceberam de que elas próprias tinham assumido positivamente partes essenciais da ideologia burguesa, como “legado” da história ideológica e intelectual protestante e iluminista na formação do sistema produtor de mercadorias. Incluindo em especial a canonização da abstracção “trabalho” que, com o seu carácter de fim em si repressivo, tinha passado directamente do ideário do protestantismo e do chamado Iluminismo do século XVIII para a ideologia do movimento operário. Ao invocar precisamente o “trabalho” como ponto de referência central pretensamente oposto ao capital, a esquerda mais não fez que jogar um estado de agregação do capital contra outro. Deste modo, o “trabalho” não se apresentava como aquilo que de facto é, ou seja, a forma de actividade especificamente capitalista (o “trabalho abstracto” em Marx), portanto um conceito inteiramente pertencente ao capital e uma relação real correspondente, mas como uma categoria ontológica da humanidade.”( R.Kurz, in A Guerra de Ordenamento Mundial).

Ainda, e mais adiante:

“Esta crítica do capitalismo notoriamente truncada sempre apresentou pontos de contacto com a ideologia anti-semita. Pois o anti-semitismo pôde ascender ao estatuto de uma perigosa ideologia de crise precisamente pelo facto de exteriorizar e naturalizar em termos socio-biologistas as contradições internas da sociedade constituída de forma capitalista e de todos os seus sujeitos: “

Robert Kurz nos faz pensar na crise mundial do sistema produtor de mercadoria e na falência dos Estados Nacionais que não sobreviverão a catástrofe da dissolução da atual ordem mundial. Mas, ao mesmo tempo, nos adverte da característica peculiar do Estado Nacional Judeu na época da sua fundação : um Estado que surge como forma de defesa ( anti- liquidacionista) de um povo que insiste em sobreviver no âmbito da humanidade.

“Certamente também ao Estado de Israel, que é evidentemente parte integrante da economia mundial capitalista, pode ser atribuída a forma do Estado moderno e do sistema produtor de mercadorias moderno com todos os seus atributos negativos. Mas, devido ao seu carácter singular, já que constitui em última instância um produto involuntário dos nazis e da lógica de aniquilação da subjectividade capitalista na sua derradeira agudização, este Estado é o primeiro, o último e o único a conter um momento decisivo de justificação que aliás faltou desde o início a todos os Estados revolucionários nacionais do terceiro mundo (os quais, afinal, todos muito rapidamente começaram a assumir expressões bem feias). Trata-se de um Estado capitalista que é assim expressão da forma de sujeito capitalista, mas que simultaneamente e de modo paradoxalmente articulado representa a extrema necessidade e a última legítima defesa contra essa mesma forma de sujeito ( idem).

Ao abandonar estas características, que no início foram libertárias, Israel atola-se nos infortúnios dos demais Estados contemporâneos , afundando- se na corrupção , no totalitarismo e na insanidade radical religiosa, apresentando -se meramente como vanguarda dos interesses do capital nesta área estratégica , tornando-se , por seu dispendioso modo de vida, próprio da sociedade da mercadoria , um país inviável economicamente ( a não ser pela ajuda externa do grande capital que atua na região).

Salta aos olhos, que tanto a política belicosa de Israel quanto o reacionarismo medieval das oligarquias árabes , são faces de uma mesma moeda : a política de manipulação dos grandes grupos financeiros internacionais que movimentam seus cordéis de acordo com seus interesses.

Não é impossível imaginar que o próprio Estado de Israel seja, mais adiante, abandonado à própria sorte , cessada a sua importância no tabuleiro da política internacional. Nesse sentido , a morte da Utopia do sionismo de esquerda resultou em criar uma nova diáspora , onde intelectuais e jovens comprometidos com a emancipação humana abandonam Israel, tomado por ” novos bárbaros ” que levam o país para uma política suicida.

E é esta imagem final do filme Kadoch, onde uma das irmãs abandona Jerusalém e a outra submete-se aos ditames da religião, deixando de existir como pessoa.

O cineasta Amos Gitai é conhecido por suas ideias e pela luta pela união dos povos judaicos e palestinos, e nesse sentido, utiliza a sua arte como instrumento de propagação de suas concepções . Certamente, ele acompanha a a tragédia dos palestinos que mesmo antes de constituírem o seu Estado já o vêem carcomido pelas contradições da corrupção e da decadência da política laica da OLP e o assédio crescente da ortodoxia suicida dos grupos religiosos que ocupam o espaço dos desmoralizados líderes palestinos. infelizmente, o ainda- não existente Estado Palestino afunda-se na divisão e no desmantelamento dos valores éticos do que seria a sua constituição.

Mas, seria este um elemento impeditivo da união desse dois povos ?

No Oriente Médio temos uma visão efetiva da tragédia que assola humanidade mas, ao mesmo tempo, por ali se explicitam com agudeza as contradições do mundo contemporâneo, nos dando a oportunidade de exercitar nossa imaginação no novo mundo que virá após a debacle do capitalismo.

Num momento de crise dos Estados Nacionais ( que a crise na política de representatividade nos acentua ) não será pela formação de mais um Estado que se fará a redenção do povo palestino. E também isto não se fará pelo fanatismo de Estados religiosos. Afinal, o conceito de Estado Nacional é uma visão moderna, iluminista, que está num franco processo de superação. A existência e o bem estar do povo palestino e do povo judeu passa pela emancipação do povo ” humano ” ( a emancipação da humanidade ) , dentro daquilo que propunha Marx na ” A questão judaica”.

Certamente a união desses povos só será feita fora da lógica do capital e da sociedade da mercadoria !

Serra da Mantiqueira , janeiro de 2014

Arlindenor Pedro