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Ainda sobre o “milagre chinês” (II) – Maurilio Lima Botelho e Marcos Barreiro

A crise dos referenciais teóricos da antiga esquerda marxista – que, em todo caso, nunca entendeu criticamente as categorias de base do capitalismo – se deu em meio ao esgotamento do modelo de planejamento estatal do mercado que vigorou desde a década de 1920. Por mais que se apresentasse como um antípoda do capitalismo, sempre entendendo este a partir da combinação reducionista de propriedade privada e “livre mercado”, a realidade dessas sociedades “pós-revolucionárias” consistia precisamente no contrário, isto é, no processo de afirmação histórica das relações capitalistas fundamentais, a começar pela instituição da força de trabalho e do seu disciplinamento no contexto de construção da economia nacional. Desde o início, e em conformidade com o conceito reduzido de capitalismo, a intervenção do Estado foi confundida pelo marxismo tradicional com uma forma de poder não capitalista, mesmo quando ela atuava para implementar a acumulação primitiva e o desenvolvimento das relações de valor-mercadoria-dinheiro. O resultado da “modernização recuperadora” em economias de base fortemente rural (como a Rússia no início do século passado) foi uma formação social assentada na contradição entre a manutenção das categorias de base do capitalismo que o “primado da política” ajudou a instituir e a limitação do elemento concorrencial do mercado, o que deu origem a uma sociedade profundamente disfuncional.2 Continuar lendo Ainda sobre o “milagre chinês” (II) – Maurilio Lima Botelho e Marcos Barreiro

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A sociedade autofágica- Resenha de Eleutério Prado

Anselm Jappe é um dos teóricos da corrente de pensamento crítico contemporâneo que se autodenomina de “crítica do valor”, a qual tem como fundadores principais dois pensadores bem conhecidos no Brasil: Moishe Postone e Robert Kurz. Essa linhagem de reflexão que provém de Marx é, entretanto, adversária do que ela própria denomina de “marxismo tradicional”. Em sua visão, este último tronco, assim como os seus vários ramos, nunca quis enfatizar a irracionalidade intrínseca do processo de acumulação de capital. Preferiu, ao contrário, concentrar-se na questão da distribuição dos frutos do progresso que dele resulta. Continuar lendo A sociedade autofágica- Resenha de Eleutério Prado

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A subdemocracia brasileira – André Márcio Neves Soares

Dessa maneira, o conceito de “subdemocracia” brasileira não está na forma como ela se deu, mas no método a que foi submetida. De fato, na nossa trajetória republicana o povo sempre foi excluído, enganado, marginalizado até, antes de ser reintroduzido na cena política, apenas para legitimar os acordos firmados entre os detentores do poder. Nessa toada, não importa se os governos que se sucederam foram encabeçados por militares, como nos períodos Vargas e na ditadura de 1964-1985, ou não, como no período pós-ditadura. Não à toa, a expressão “República Democrática de Direitos” só foi introduzida na Constituição de 1988. Não que espelhe a realidade, pois continuamos mais para uma “República Oligárquica de Direitos”. Mas é sintomático que, até 1988, a democracia sequer era mencionada na Carta Magna do nosso país. Continuar lendo A subdemocracia brasileira – André Márcio Neves Soares

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Sobre a potência política do inumano: retornar à crítica ao humanismo- Vladimir Safatle

É cada vez mais aceito certo diagnóstico de época que determina o presente como era do esgotamento da humanidade do homem. Compreende-se que o projeto filosófico da modernidade forjou, como uma de suas peças fundamentais, a imagem da humanidade enquanto qualidade do que é humano. Qualidade esta definida sobretudo por atributos ligados aos conceitos modernos de sujeito, como: autonomia reflexiva das condutas e ações, autodeterminação capaz de fundar o homem em uma relação de autenticidade a si mesmo, imputabilidade individual própria àquele que é moralmente responsável pelo que faz ser capaz de deliberar no interior do solo seguro de sua interioridade e, por fim, individualidade singular do que é irredutivelmente único. Acredita-se, inclusive, que as lutas políticas e as estratégias de crítica do existente devem estar fundadas na consciência do bloqueio da realização de tais atributos. Um pouco como se o sofrimento que leva a criticar a situação sócio-histórica estivesse ancorado em valores não realizados de autonomia, autodeterminação e autenticidade. Continuar lendo Sobre a potência política do inumano: retornar à crítica ao humanismo- Vladimir Safatle

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