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A Carne podre e a essência do capitalismo – Arlindenor Pedro

Existem momentos em que a realidade se aproxima totalmente da teoria !

Desde o século XIX a literatura marxista sabe que a  única função do capital é a sua eterna reprodução . Num  movimento  incessante o capital projeta-se na busca do lucro numa operação   automática  intermediada  pela mercadoria . Isto ocorre por que os homens criaram  estruturas (“leis econômicas”, “imperativos tecnológicos”, etc ) que acabaram por dominá-los, da mesma forma como na religião. Portanto,  o único sujeito real na sociedade capitalista seria o valor. Marx chamou a isto  de “Sujeito Automático ” . O valor asseguraria  que a sociedade humana existisse apenas para garantir que a sua acumulação nunca termine. Na verdade os homens se tornaram escravos de seus próprios poderes alienados !

No recente episódio do escândalo das carnes podres não chegaremos a lugar algum se mantivermos o nosso foco apenas na falta de caráter dos empresários que adulteram a qualidade dos produtos, ou mesmo na corrupção dos agentes do governo que permitiram que estes produtos chegassem ao mercado, ou ainda na existência de um pretenso plano maquiavélico das forças do imperialismo que almejam  destruir os empresários  nacionais que vendem para o exterior, a famosa burguesia nacional,  que neste momento  deveria ser defendida pela pátria ameaçada .

Sem minimizar as responsabilidades pessoais destes personagens avançaríamos muito se entendêssemos a questão a luz da própria essência do capitalismo que é transformar dinheiro em mais dinheiro .  Nesse sentido, os operadores deste sistema não estariam nem  aí se a carne está vencida, ou simplesmente está podre . O que importa é vender, derrotar a concorrência .

Os analistas de plantão fariam muito bem, neste momento onde através desta tragédia fica  claro o que acontece, onde a teoria se aproximava realidade, de mostrarem ao público a real face do sistema capitalista, um sistema que desfigura os homens transformando – os em feras, bárbaros que oprimem o próprio semelhante. Um sistema que precisa ser banido para que o homem possa ter um encontro com a sua humanidade .

Sociedade Enferma – Maurilio Lima Botelho 

Apenas 24 horas depois do caso da carne e já temos uma vasta compilação de casos comuns de adulteração de alimentos na imprensa. Também o humor em torno do assunto demonstra que estamos habituados à falsificação de nossa comida, que apaticamente irá ressoar em nossa vida cotidiana. Afinal, é de uma periodicidade quase semanal nos noticiários a fraude no leite com adição de formol, água oxigenada ou soda cáustica. As pesquisas de qualidade anunciam há muito que o azeite é quase sempre uma mistura com óleo de soja. Pelo mundo a falsificação é também cotidiana e se descobriu recentemente que carne de cavalo era vendida na Europa como carne de boi ou se misturava carne de rato na carne moída e hambúrgueres na China.

Nesse último país, conhecido pela pirataria generalizada, até mesmo ovos falsos foram vendidos — a casca era na verdade parafina…

O embuste é tão comum que nem precisa ser ilegal, dado o condicionamento de nosso paladar.
Os “refrigerantes de fruta” estampam orgulhosamente que tem 2,5 % de suco em sua composição! As grandes cervejarias brasileiras usam milho em quase metade de sua fórmula e registram nos rótulos “cereais não maltados”. As geladeiras dos mercados estão abarrotadas de “bebida láctea” que tem uma fração mínima de leite e é cada mais difícil achar um bolo de chocolate que contenha uma colher pelo menos de cacau.

O processo de falsificação sistemática não é restrito à periferia do capitalismo (os casos da Europa e EUA o demonstram) e também não é algo novo: ao longo de O Capital, Marx descreve uma série de expedientes utilizados na indústria inglesa, na primeira metade do século XIX, para ganhar mais com suas mercadorias: desde pão produzido com trigo misturado a sabão, cal, pó de pedra e outros “ingredientes saborosos, nutritivos e saudáveis” até mesmo medicamentos que não continham um “átomo de morfina”, mas misturavam pequenas quantidades de papoula com argila, pasta de borracha e farinha de trigo.

Não vemos aí uma “ganância” intrínseca aos grandes capitalistas — embora o alcance destes seja mais amplo e destrutivo –, pois a trapaça também aparece na produção artesanal (mistura de soja com carne em salgadinhos) ou mesmo na mais simples informalidade dos camelôs: recentemente circularam imagens mostrando vendedores de água de rua enchendo garrafas diretamente na bica.

Também estamos longe de uma “maldade humana” em geral, pois é a forma de relacionamento baseada na mercadoria que tornou o sistema de tapeação de terceiros uma prática corrente. A mediação social por meios de coisas e baseada no acúmulo de dinheiro faz do outro mero objeto de nossas práticas econômicas, portanto, uma potencial vítima do cálculo de custos/rentabilidade.

Aqui a economia política clássica aparece como um conto da carochinha, por ter acreditado que é o interesse individual do padeiro que nos garante toda manhã um pão fresquinho e saboroso – o interesse privado, atomizado, cria uma forma de relacionamento indireta onde todos tentam externalizar seus prejuízos e seus problemas.

Também o marxismo tradicional se iludiu com a forma mercantil, pois achou que o entrelaçamento universal através das mercadorias criava uma riqueza de necessidades e um progresso material que devia ser racionalizado pelo Estado – que o principal foco da operação da polícia federal esteja nos agentes públicos de fiscalização que participavam do crime que deviam coibir só demonstra a ingenuidade de tal avaliação.

É a forma social própria que enlaça indivíduos através de coisas e também como coisas – agora cada vez mais descartáveis – que está na raiz do logro sistemático e que nos leva a um processo de destruição social involuntário e incontrolável. A esquizofrenia dos indivíduos envolvidos diretamente na adulteração revela de modo cristalino o caráter antissocial desta sociedade: o mesmo vendedor de defensivos agrícolas oferece morango aos seus filhos, o funcionário do frigorífico que adiciona ácido na carne podre participa do churrasco com a família no feriado, o açougueiro que mistura todo rejeito na carne moída come coxinha na lanchonete.

A escritora Svetlana Aleksiévitch deu voz a relatos pessoais dramáticos de como na Europa Oriental as pessoas consumiam conscientemente alimentos das áreas contaminadas por Chernobyl mas preferiam não refletir sobres os riscos.

O capitalismo é por sua natureza um sistema generalizado de embuste, de falsificação e de farsa – tudo muito bem envolvido em embalagens esteticamente impecáveis e socialmente embrulhado na uniformidade do processo de troca e na equivalência jurídica do contrato.

Que esse mundo de tapeação difusa em sua forma avançada seja representado filosófica e esteticamente pelo simulacro pós-moderno só nos deixa numa encruzilhada histórica: já não há mais “lisura” e “originalidade” que possamos nos apegar.

Ao criar um “planeta enfermo” (Debord), a sociedade da mercadoria em sua forma avançada só leva à destruição. Isso já seria motivo suficiente, mesmo sem algo palpável em que se apoiar, para justificar sua superação.

Maurillio Lima Botelho é professor de geografia urbana  da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e autor do artigo “Crise urbana no Rio de Janeiro: favelização e empreendedorismo dos pobres” que integra também o livro Até o último homem.