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No olho do furacão – impressões sobre a crise na Grécia – V

QUE ESCOLHA RESTA À GRÉCIA DEPOIS DAS ELEIÇÕES?

Πἁντα ῥεῖ – apenas na Grécia não?

Um artigo de Richard Aabromeit


As posições

“… Foi simplesmente como se ninguém tivesse dito nada”.

Na tradução alemã de uma conversa de Yanis Varoufakis com o New Statesman, reproduzida no Neues Deutschland de 16 de Julho de 2015, o antigo Ministro das Finanças grego exprime o seu espanto com o facto de os/as seus/suas colegas do Eurogrupo, nas negociações sobre a dívida soberana da Grécia e um possível terceiro pacote de resgate para a Grécia, não terem querido ter nenhuma discussão com ele sobre o assunto ou sobre questões económicas e terem ignorado simplesmente as suas observações no resultado final. Todos os seus argumentos e análises foram de certo modo recebidos pela competência e poder reunidos da política financeira europeia, sobretudo pelo Dr. Wolfgang Schäuble, mas mesmo assim efectivamente ignorados. Isso indica quão isolado estava o governo grego do ΣΥΡΙΖΑ (1) e Varoufakis pessoalmente desde o início destas negociações com os outros 18 membros do chamado Eurogrupo (2), com a Comissão Europeia e com o FMI. Este Eurogrupo é uma construção única que, segundo a avaliação de um parecer do parlamento alemão, “fundamentalmente não tem poder para uma decisão independente”. Isto deve ser visto em ligação com a discussão actualmente em curso nos média e entre o público em geral sobre o tema da Grécia e da sua dívida pública, em geral, e sobre as condições para o terceiro pacote de ajuda recentemente aprovado, em especial.

Embora o SYRIZA se tenha imposto claramente de novo nas eleições de 20 de Setembro, nada de decisivo vai mudar, a não ser Alexis Zipras a revelar-se definitivamente como o Gerard Schröder grego, continuando a aplicar-se que a situação na zona euro, sobre o tema da Grécia e também em geral, é antes de mais marcada essencialmente por duas posições à primeira vista fundamentalmente diferentes: de um lado estão os que, partindo de ideias neoliberais ou economicamente conservadoras, consideram a política de austeridade adequada e promissora. As suas posições e exigências prevaleceram até agora no essencial, como era esperado: a privatização das empresas públicas (e lucrativas) tais como portos e aeroportos deve ser promovida; o orçamento de Estado deve apresentar a médio prazo um excedente primário (3) de 3,5%, o que só pode ser alcançado através de cortes, especialmente na área social; a reformulação do sistema de pensões deve garantir que a idade de reforma é aumentada para 67 anos e que a reforma antecipada será significativamente penalizada; o IVA será aumentado de 13% para 23%; as regras para a contratação colectiva dos salários serão revistas.

Do outro lado estão aqueles que rejeitam estas medidas de austeridade penalizadoras da maioria da população e favoráveis às instituições de crédito da Grécia. Aqui pertencem em primeira linha todos aqueles que em sentido amplo se enquadram nas posições do jornal TAZ, isto é, pessoas e grupos que insistem em defender posições solidárias, críticas do crescimento e difusamente anti-capitalistas. Como exemplo podem ser aqui apresentados comentários publicados pelo TAZ no seu site (taz.de) em 06.09.2015: “Ao mesmo tempo, a crise também obriga a encontrar novas formas de viver e trabalhar juntos e aumenta os espaços onde são testadas. Projectos que há anos vêm sendo promovidos por grupos anarquistas, anti-fascistas e de solidariedade ganham agora grande adesão, surgem novas ideias. Há espaços de auto-gestão e projectos de vizinhança, clínicas de solidariedade, ilhas sem economia monetária, lojas gratuitas, economia de troca, cooperativas, oficinas e projectos de auto-ajuda. Modelos de base democrática com decisões consensuais e trabalho colectivo tornam-se mais conhecidos e familiares. Alguns gregos são, portanto, obrigados a juntar-se para construir uma sociedade solidária e pacífica a partir de baixo.” Os neo-keynesianos, cujo pensar é puramente do espectro político convencional, também lhe pertenceriam; como, porém, do seu lado, para além da exigência de um extenso mas não especificado programa de investimentos, bem como do aumento da despesa pública, pouco houve que se ouvisse, principalmente na área social, por isso mesmo vou deixá-los subsumidos indiferenciadamente na posição de economia solidária do TAZ.

Uma terceira posição que surge mais marginal, arqueomarxista de cima a baixo, pode ler-se na Junge Welt de 18/19 de Julho de 2015: “Uma vez que tanto os interesses das classes dominantes como os das classes dominadas são contraditórios e a luta de classes pode desenvolver-se sempre em direcções diferentes, de modo nenhum estava claro desde o início como terminaria o processo de negociação entre o governo grego e os credores.”

Outra argumentação mais periférica, construída com base na pura política de poder, afirma que a postura intransigente e de linha-dura da Troika e, em particular, do Ministro das Finanças alemão só tinha dois objectivos: em primeiro lugar, a rejeição clara do primeiro governo de esquerda radical da UE, e, em segundo lugar, a prevenção de um precedente. No entanto, podem-se reconhecer fragmentos desta última posição mais ou menos atenuados em quase em todas as posições.

Em resumo e ligeiramente simplificado, portanto, em primeira linha estão os defensores de uma férrea política de austeridade, grandes privatizações e ajustamentos estruturais drásticos, contra aqueles que defendem um aumento da despesa pública, um amplo perdão da dívida e o início de um programa de investimentos, bem como a exploração de oportunidades de métodos alternativos de gestão para medidas mais eficientes. Nem os/as marxistas da luta de classes nem quaisquer outros/as apresentaram propostas – sequer – que tivessem de ser discutidas a sério. A última das posições acima, ou seja, a da política de poder, quase parecendo de teoria da conspiração, está difundida em doses mais ou menos fortes um pouco por todos os outros pontos de vista e além disso é dificilmente perceptível, de modo que gostaria de me concentrar aqui nas duas primeiras. Uma vez que nenhum dos peritos que aparecem na esfera pública insistiu afinal no tema “Grexit”, também não vou focar este tema; de facto ele acaba por ser de importância secundária, o que também se deduz da minha argumentação.

 O que estas posições esquecem

As semelhanças entre os pontos de vista acima brevemente delineados muito provavelmente não são reconhecidas pelos respectivos representantes, sendo que as discussões sobre as medidas a tomar e sobre as razões para as desgraças gregas são por vezes tão violentas que fica a impressão de diferenças irreconciliáveis. Essas semelhanças podem ser resumidas dizendo que em toda a parte se toma uma situação actual por puramente estática (ver abaixo) e se a considera má, mas as razões para isso, incluindo a história cronológica da formação desta miséria, são ignoradas por uma questão de simplicidade. Também a negação ou recalcamento dos principais conjuntos de problemas com que a Grécia se confrontou cada vez mais desde a sua entrada no Eurogrupo, ou seja, o seu forte atraso na produtividade do capital e do trabalho de acordo com os critérios da economia política – para não falar de critérios marxistas – aglutina involuntariamente a grande maioria dos comentários e exigências. Assim, as diferentes propostas para melhorar a situação da Grécia não se baseiam na percepção dos problemas reais, nem mesmo na consideração de todos os dados empíricos relevantes, mas unicamente no ponto de vista político de cada um dos participantes na discussão.

Repetidamente se pode ver em quase todos os comentários, relatórios e debates sobre o tema da Grécia uma incrível falta de reconhecimento dos factos – real ou simulada –, a adesão aos velhos preconceitos e a criação de novos, e muitas vezes também uma simples projecção de situações experimentadas cá na terra sobre a situação na Grécia. Acrescem ainda nalguns casos ressentimentos patéticos e muita demagogia de conversa de café. A pergunta seria: será isto um processo de recalcamento e de negação, sendo isso realmente incrível, e será isso uma conduta dos média com a qual temos de nos acostumar a partir de agora – se é que não o fizemos já há muito tempo? Talvez os/as representantes dos média não possam ou não queiram “relatar” de modo diferente, porque se não eles teriam de descrever e explicar uma situação muito complicada nos seus jornais, blogs e emissões, o que iria possivelmente aborrecer ou exigir demais aos/às consumidores/as destes meios e poderia assim arruinar a edição, o número de cliques ou a audiência. Pois é bastante mais simples, mais promissor e não em último lugar mais rentável denunciar generalizadamente e corroborar com um par de episódios a alegada preguiça e/ou a suposta manha de todo um povo, ou, em alternativa, flagelar a suposta falta de firmeza do ex-Primeiro-Ministro Alexis Tsipras.

Mas, independentemente de se preferir a política de austeridade repressiva completamente falhada ou a política do postulado neo-keynesiano completamente desesperado junta com umas ideias ilusórias de economia solidária, de ambos os lados alguns factos realmente complicados, mas bastante óbvios, não são abordados ou pelo menos não são abordados suficientemente. Como brincadeira mais recente, é de notar que de algum modo todas as partes existentes no espectro da esquerda favorecem secretamente uma espécie de Grexit (4) de esquerda – à semelhança do que também Schäuble faz – ou pelo menos têm-no em consideração, como recentemente Tom Strohschneider no Neues Deutschland de 14.08.2015: “Grexit de esquerda?”

A situação

Mesmo a comparação de princípio não expressa e muitas vezes negligente, seja consciente ou inconscientemente, da economia grega com as de nações industriais tradicionais, como a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda, ou a França, e mesmo com a dos EUA e do Japão, mostra claramente que qualquer abordagem diferenciada continua a não ser tida em conta e fora de todas as ideias nos dois pontos de vista principais dos especialistas sobre a Grécia. A partir desta comparação implícita, tira-se em geral a conclusão de que a Grécia de hoje não deveria nem poderia ser, simplesmente e sem penalização, libertada da sua situação complicada. Se a Grécia apresentou uma dívida tão grande, então “os gregos”, se fazem favor, também não devem evitar as consequências e, finalmente, devem tomar a sério a poupança, a auto-regulação, o reembolso etc.

Uma vista de olhos aos números da econometria já nos revela algumas diferenças em relação aos centros capitalistas dos países plenamente industrializados: o sector terciário grego, ou seja, o sector de serviços, representa actualmente cerca de 71% do PIB, só o sector do turismo contribui com 16%, sem comparação com qualquer outro país da UE em termos de percentagem do PIB. O sector secundário, isto é, a indústria, contribui na Grécia com cerca de 16%, o primário (extractivo), ou seja, em especial agricultura e pescas, ainda assim com cerca de 6%, mais uma vez sem comparação com qualquer outro país da UE. Isto significa: a agricultura e o turismo constituem quase um quarto do PIB; agora se tivermos em conta uma parte do sector secundário, ou seja, a transformação industrial de produtos agrícolas produzidos no país, então aproximamo-nos de um terço do PIB que não tem nada a ver com a indústria clássica; mas é apenas aqui que ocorrem os ganhos de produtividade relevantes e por isso ainda se criam – embora numa escala menor que nunca – novos postos de trabalho. Para já não falar do atraso da economia grega no tema da produtividade industrial no seu conjunto; o nível desta produtividade é uma categoria global e exige a todos os que desejam participar no mercado mundial ou no mercado europeu que atinjam pelo menos este nível. É justamente aqui que a Grécia tem o seu problema central. É verdade que os dados da econometria burguesa dão somente informações limitadas e, principalmente, apenas indirectas sobre a realidade económica; mas, como primeira evidência empírica, eles servem com certeza: Enquanto os/as gregos/as trabalham em média 2.034 horas por ano, em comparação na Alemanha trabalha-se apenas 1.393 horas por ano; no entanto durante este tempo na Grécia produz-se um PIB por hora trabalhada de somente cerca de US $ 36; em comparação, a média na UE é de cerca de US $ 50 e na Alemanha de US $ 62. Assim se refuta o preconceito dos gregos “preguiçosos”, mas também se mostra que os problemas estruturais na Grécia estão de facto essencialmente na quase irrecuperável baixa produtividade da economia. É apenas uma ilusão acreditar que esta situação pode mudar para melhor com poupanças e privatizações.

A dívida pública da Grécia ascende actualmente a mais de 310 mil milhões de €, ou seja, cerca de 177% do PIB, que atingiu em 2013 cerca de 182 mil milhões de €. Em comparação, em 2007, ou seja, pouco antes do crash global, o rácio da dívida pública grega era apenas um pouco mais de 100% do PIB, em 1987 apenas cerca de 50%. O aumento acentuado particularmente depois de 2007 é devido ao grande esforço do Estado grego e das instituições (BCE, FMI, Comissão Europeia) para o resgate dos bancos (privados) gregos e não à extravagância ou devassidão desse Estado. Com o resgate dos bancos em 2010, as dívidas antes privadas (dos bancos privados gregos) foram em grande parte nacionalizadas (5) – e agora é exatamente essa censura que é feita ao mesmo Estado. Em comparação, na Alemanha o mesmo rácio da dívida pública em função do PIB ascendeu, também em 2013, a cerca de 78%, nos EUA a cerca de 100%, em Espanha quase 85%, na China ainda apenas cerca de 25%. A taxa de desemprego na Grécia em Março de 2015 foi de 26%, em Espanha quase 25% – em qualquer outro lugar na UE (NB: incluindo Portugal) significativamente menor. Estes dados serão analisados em mais detalhe abaixo.

Quem quer que olhe para estes números com razoável atenção e os interprete com um pouco de conhecimento de causa sabe que a Grécia nunca vai conseguir pagar as dívidas (6) e até mesmo o serviço dos juros é pouco provável que se mantenha sem permanentes reestruturações e diferimentos. Com o terceiro programa de ajuda recentemente adoptado, em que mais medidas de austeridade constituem alegremente a tónica principal, isso também não estará em vias de mudança. Estranhamente, o peso da dívida na Grécia, de facto, foi quase completamente nacionalizado, e os governos de Tsipras tinham começado as primeiras acções no âmbito dos requisitos de austeridade – no entanto: as dívidas praticamente não diminuíram. Ainda assim, os neoliberais dizem teimosamente que apenas é preciso esperar até que se mostrem os efeitos benéficos das suas medidas!

Apesar de ser mínima a probabilidade do pagamento da dívida da Grécia, mais implícita que explicitamente há ou tem de haver como que um consenso entre todos os participantes no debate, dos arruaceiros neoliberais passando pelos covardes neo-keynesianos e pelos sonhadores da economia solidária até aos espertalhões arqueomarxistas, em toda a parte se procedendo como se a Grécia tivesse de, ou seja, os seus/suas contribuintes (seja lá isso o que for concretamente, sendo que o pagamento dos impostos devidos pressupõe supostamente algum tipo de livre vontade) devessem/pudessem/tivessem de efectuar realmente este pagamento alguma vez de algum modo. Só assim se poderá entender mais ou menos por que é que a rigidez de Schäuble e da “Troika” assume tais proporções e neste ponto permanece sem resistência apreciável. E naturalmente: se se (i. e., o resto de Eurolândia) mostrasse tolerância para com a Grécia, em seguida também todos os outros países com problemas viriam rapidamente a correr e também quereriam qualquer alívio ou ajuda (financeira)!

Agora é preciso aqui insistir vigorosamente de novo em que os dados e comentários anteriores (e também os que seguem) assentam exclusivamente nos números burgueses da econometria. Se tivermos em consideração o facto de entre 1986 e Junho de 2010 ter havido na Grécia apenas um instituto de estatística, na dependência do Ministério da Economia e Finanças (ou seja, politicamente influenciável de imediato) e de somente em Julho de 2010 ter sido criado um instituto de estatística independente do governo, haverá certamente dúvidas sobre a validade dos números. (7) Mas o que, apesar de tudo, decorre da situação incerta dos dados é duplo: em primeiro lugar, a Grécia, por causa do peso dos juros e reembolsos, não vai dispor de nenhuma margem de manobra para qualquer desenvolvimento económico no futuro previsível. Em segundo lugar, o atraso da Grécia no que respeita à produtividade industrial em relação aos outros países da UE e da zona euro é demasiado grande para poder ser colmatado a médio ou menos ainda a curto prazo. Por outro lado, e isto em geral não é realmente silenciado, mas é pouco referido, a situação social de uma grande parte da população grega não é apenas de miséria, mas cada ano é ainda mais miserável devido às medidas introduzidas com a crise económica ocorrida em 2008. Por exemplo, o PIB na Grécia caiu em termos reais em mais de um quarto do seu valor entre 2008 e 2013. As consequências da crise económica e financeira e das medidas impostas são devastadoras, como sublinham a título de exemplo alguns números (8):

  •  – De 2011 a 2013 cerca de 70.000 empresas entraram com pedido de insolvência, estando em risco de falência um número estimado de mais de 180.000;
  •  – O rendimento médio caiu cerca de 22% entre 2009 e 2013; juntamente com o aumento dos preços em mais de 10% durante o mesmo período, isso resulta numa perda de poder de compra da maioria da população de quase um terço em quatro anos;
  •  – Quase metade dos pensionistas recebem no máximo 500 € por mês;
  •  – 38% dos gregos e das gregas vivem abaixo do limiar da pobreza;
  •  – Quase dois terços das pessoas com menos de 25 anos estão desempregadas;
  • – Cerca de 800 mil pessoas (em cerca de 11 milhões, ou seja, sete por cento da população grega, incluindo lactentes e crianças) já não têm acesso ao serviço de saúde.

Se Angela Merkel e Wolfgang Schäuble queriam realmente estabelecer a Grécia como exemplo, custe o que custar (9), então exactamente isso já foi muito bem conseguido até hoje – só que a situação não tem melhorado desde então nem vai melhorar no futuro. Apenas não se agravou (ainda?) dramaticamente porque na Grécia as famílias e clãs (precisamente por causa das suas relações sociais tradicionais, ou seja, do ponto de vista dos centros capitalistas, atrasadas) ainda são capazes não só de livrar da ruína final os necessitados (desempregados, pobres, viúvas, jovens, idosos etc.) e mantê-los no círculo dos socialmente ainda reconhecidos, mas também de considerá-los com toda a naturalidade.

As razões

As razões para a miséria na Grécia são muito referidas por todos os lados; a maioria das vezes servem para justificar que a Grécia tem de se confrontar com a sua situação actual, mas infelizmente estão cheias de calculismo, de preconceitos e de medo. Das duas posições principais sobre a crise da Grécia acima mencionadas, ou seja, a neo-liberal e a neo-keynesiana / da economia solidária, foram de facto lançadas para discussão algumas propostas para remediar esta crise (ver acima); mas, no que respeita às razões para o surgimento da crise, pouco se pode daí aproveitar além de banalidades. Ora quase ninguém quer tomar nota a sério destas razões no quadro da problemática da Grécia. Estas razões, de facto, já podem ser lidas nas estatísticas e relatórios conhecidos; mas só podem ser entendidas (quase heuristicamente) com a ajuda de uma reflexão razoavelmente intensiva e com base em todos os dados, portanto não apenas com base nos aprazíveis dados empíricos. A quem conseguir desencadear este processo de reflexão de forma propositada e consistente não lhe escapará que o desenvolvimento de crise do capitalismo contemporâneo leva a problemas enormes mesmo nos centros do processo de valorização (10); nas extremidades dos centros, por exemplo na Grécia, estes problemas já se mostram de forma claramente agravada; da situação da periferia (11) não vamos falar aqui. Ora esta propensão para a crise consiste em que durante cerca de 50 anos globalmente foram vítimas do aumento da produtividade mais trabalhadores do que os que foram procurados de novo graças à expansão dos mercados, a novos produtos, ou devido à redução dos custos do trabalho. Se isto já nos centros levou a efeitos secundários muito desagradáveis, por exemplo, na Alemanha, a relações de trabalho cada vez mais precárias, em países à partida economicamente muito mais fracos, como Grécia, o mesmo mecanismo de acção só poderia levar a consequências ainda piores. Infelizmente, e isso simplesmente não é notado nem tomado em consideração pela chamada esquerda ou pelos progressistas, as correntes principais acima mencionados (neoliberais e neo-keynesianos / defensores da economia solidária) a este respeito não diferem nada entre si. Mas eles ainda lutam entre si com muita força – eu pergunto-me: com que propósito?

Qual deve ser a direção?

Medidas políticas significativas não podem visar medidas estruturais ou de austeridade pseudo-realistas, uma vez que de qualquer maneira não conseguem fazer nada, excepto aumentar o sofrimento de uma grande parte da população helénica. Pelo contrário, elas teriam de assumir um carácter que aceitasse a afirmação da formação social existente, em que com quaisquer outras medidas a curto ou a médio prazo na Grécia nada pode ser alterado na valorização do capital, ali ou em outro lugar, ou até mesmo globalmente. Portanto, medidas significativas e bem sucedidas devem ser escolhidas exclusivamente com a finalidade de aliviar o sofrimento de cerca de um terço da população grega, e simultaneamente mostrar a todos aqueles que ainda acreditam no milagre grego ou europeu que tais medidas são a única coisa que resta ser feita pelas pessoas que não reúnem a coragem para pôr em questão o todo, a totalidade social.

Conclusão

A verdadeira conclusão pode ser apresentada de certo modo breve e vertida num formato de tabela simples, que contém apenas sete pontos e pode representar um exemplo de outro tipo:

1. A Grécia não poderá pagar o serviço da sua dívida a médio e longo prazo sem um prejuízo económico e social ainda mais maciço;

2. A Grécia é o país da zona euro que tem mostrado a menor produtividade económica;

 3. A Grécia é o país da zona euro em que podem ser sentidos mais claramente os efeitos da crise geral e global, especialmente na “população média”;

 4. No quadro da valorização do valor capitalista, não há qualquer possibilidade de oferecer à Grécia uma perspectiva satisfatória de melhoria sustentável da situação, seja no domínio económico, seja no domínio social;

 5. Só a melhoria da situação social e financeira dos mais afectados pode ser um objectivo razoável das propostas políticas de pessoas que se julgam críticas da sociedade;

 6. De tudo o que foi dito decorre que uma redução geral ou uma moratória da dívida e a preparação de um pacote social para a terceira parte mais necessitada dos residentes na Grécia seria a única exigência realista para não sucumbir a quaisquer fantasmagorias neo-liberais ou neo-keynesianas ou até mesmo de economia solidária.

É preciso deixar bem claro que as posições neoliberais-conservadoras (palavra-chave: austeridade) têm de ser de facto criticadas por causa das suas consequências profundamente anti-sociais; e também temos de esclarecer que as exigências neo-keynesianas (palavra-chave: programas de investimento) não podem deixar de permanecer tão irrealistas como desesperadas e ineficazes; não em último lugar devemos realçar particularmente que as possibilidades apontadas pelos/as representantes da economia solidária (palavra-chave: auto-gestão e projectos de vizinhança) não representam nenhuma contribuição para o problema global, por isso sendo classificadas pelos afectados como cínicas e arrogantes. De qualquer modo não resta à Grécia nenhuma escolha depois das recentes eleições …

Quem na discussão do problema Grécia for suposto acalentar fantasias grandiosas, no que diz respeito à transformação ou mesmo ao derrube do capitalismo, deve tomar nota que a melhoria da situação dos desfavorecidos deve de facto ser saudada como humanitária e também aqui merece ser apoiada, mas não está em posição de contribuir absolutamente nada para suplantar a nossa formação social!

(1) Συνασπισμὀς Ριζοσπαστικἠς Αριστερἁς, em Português: Coligação da Esquerda Radical (“SYRIZA” de forma abreviada nos média).

(2) O chamado eurogrupo é constituído pelos seguintes países: Bélgica, Alemanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Holanda, Áustria, Portugal, Eslováquia, Eslovénia, Espanha e Chipre.

(3) Isto é, sem o serviço da dívida.

(4) Ou seja, a saída da Grécia do euro, que seria apoiada também justamente pelos partidos de esquerda…

(5) Os bancos e companhias de seguros privados contribuíram para o efeito, renunciando a cerca de 37 mil milhões de euros dos seus empréstimos em 2011 – podendo, porém, transferir as respectivas responsabilidades para o Estado grego.

(6) Em rigor isto aplica-se a muitos países em todo o mundo!

(7) Uma ideia verdadeiramente horrorosa para os/as estatísticos/as e construtores/as civis, bem como para os/as funcionários/as do fisco na Alemanha: apenas até 2020 terá de haver na Grécia um registo predial – por outras palavras, até lá, nada!

(8) Todos os números relativos às consequências sociais são tirados de: http://www.zeit.de/wirtschaft/2013-07/griechenland-sparen-krise/seite-2; acesso em 01.09.2015; DIE ZEIT refere-se aí ao especialista da ONU para a pobreza, Cefas Lumina, a Dimitris Asimakopulos, presidente da Associação de Pequenos Empresários Gregos, à Associação Grega da Câmara de Comércio e Indústria, bem como à própria pesquisa.

(9) Mais ou menos isso presumia DIE ZEIT em Julho de 2013.

(10) Esses centros são: América do Norte, Japão, China Oriental, Taiwan, Singapura, Coreia do Sul, Reino Unido, França, Benelux, Alemanha, Áustria, Suíça, Norte da Itália, Escandinávia.

(11) Por periferia entendo: África, grande parte da Ásia Ocidental e Central, América do Sul sem o Brasil.

Original Vor welcher Wahl steht Griechenland nach der Wahl? Πἁντα ῥεῖ – nur in Griechenland nicht? em http://www.exit-online.org em 25.09.2015

http://obeco.planetaclix.pt/

 http://www.exit-online.org/

No olho do furacão – impressões  sobre a crise na Grécia  – IV 

Apocalipse grego: Versalhes ou Brest-Litovsk?- Um texto de Slavoj Zizek*

Slavoj  Zizek , philosophe slovene, auteur du livre  " Bienvenue dans le des    ert du reel" PARIS, FRANCE , 29/11/2005

Quando o breve ensaio “A coragem da desesperança”, sobre a Grécia pós referendo, foi reproduzido pelo In These Times, mudaram o título para “Como Alexis Tsipras e o Syriza ganharam a partida contra Angela Merkel e os eurocratas “.

Embora eu efetivamente acredite que a aceitação das condições da União Europeia (UE) não foi uma simples derrota, estou longe de uma visão tão otimista. Abdicar do NÃO no referendo para dar um SIM às exigências de Bruxelas representou uma comoção verdadeiramente devastadora, uma dolorosa e frustrante catástrofe. Para ser mais preciso, foi um apocalipse nos dois sentidos da palavra, a habitual (catástrofe) e a original literal (descobrimento, revelação): o antagonismo básico da situação, o beco sem saída ficou claramente exposto.

Muitos comentaristas de esquerda se equivocaram ao ler o conflito entre a UE e a Grécia como o conflito entre a tecnocracia e a política: o tratamento da UE à Grécia não é tecnocracia, e sim política, em seu estado mais puro, uma política que age contra os interesses econômicos – como ficou estabelecido claramente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), um autêntico representante da fria racionalidade econômica, que declarou o plano de resgate inviável).

 

Em todo caso, foi a Grécia que representou a racionalidade econômica e a UE a que representou a paixão político-ideológica. Depois que reabriram os bancos e a bolsa do país, se produziu uma tremenda fuga de capitais e uma queda das reservas, que não foram simplesmente um sinal de desconfiança com o governo do Syriza, e sim de desconfiança com as medidas impostas pela UE, uma mensagem descarnadamente clara de que (tal como estamos acostumados a dizer) o próprio capital não acredita no plano de resgate da UE – e, aliás, a maior parte do dinheiro emprestado à Grécia irá aos bancos privados ocidentais, o que significa que a Alemanha e outras potências da UE estão gastando o dinheiro dos contribuintes para salvar a seus próprios bancos, que cometeram o erro de conceder empréstimos impossíveis de cobrar, para não falar do fato de que a Alemanha se beneficiou bastante da fuga de capital grego da Grécia à Alemanha.

Quando Varoufakis justificou seu voto contra as medidas impostas por Bruxelas, comparou o acordo com o Tratado de Versalhes, que era injusto e que levava em seu seio uma nova guerra. Embora o paralelo seja correto, eu preferiria fazê-lo com o Tratado de Brest-Litovsk, entre a Rússia soviética e a Alemanha, nos princípios de 1918, no qual, para consternação de muitos de seus partidários, o governo bolchevique cedeu às exorbitantes demandas da Alemanha. Certo, se retiraram, mas isso lhes deu um respiro para fortalecer seu poder e esperar. O mesmo acontece com a Grécia hoje em dia: não estamos no final, a retirada grega não é a última palavra, pela simples razão de que a crise vai voltar, em dois anos mais, ou antes, e não só na Grécia. A missão do governo do Syriza é se preparar para esse momento, para ocupar posições e planejar as opções pacientemente. Manter o poder político nessas condições impossíveis, porém, oferece um espaço mínimo para preparar o terreno para a ação futura, e para a educação política.

Aí está o paradoxo da situação: se, por um lado, o plano de resgate não vai a funcionar, não há porque perder os nervos e sair correndo, mas sim segui-lo até a próxima explosão. Por que? Por causa da evidente falta de preparação da Grécia para o grexit (uma saída da Zona Euro). Não há um plano B para esta dificílima e complexa operação. Até agora, o governo do Syriza funcionou sem controlar realmente o aparato do Estado, com seus dois milhões de funcionários: a polícia e o poder judiciário pertencem, em sua maioria, à direita política, a administração é parte integrante da corrompida máquina clientelista, etc. E terá que depender precisamente dessa vasta máquina estatal no caso de ter que enfrentar o enorme desafio do grexit (definamos que o grexit era o plano do inimigo, inclusive há rumores de que Schäuble (ministro da Fazenda alemão) ofereceu cinquenta bilhões de euros à Grécia para abandonar a Zona Euro). O que torna esse governo tão irritante é o fato de ser de um país da Zona Euro: “a veemência com a que se opõem se deve precisamente à presença da Grécia no euro. Realmente, a quem lhe importaria se chegasse ao poder num pequeno país, com o dracma como divisa?”.

Que espaço de manobra o Syriza tem, se aceita se reduzir a promulgar a política do seu inimigo? Deveria se demitir e convocar novas eleições, em vez de promulgar a política que se opõe diretamente ao seu programa? Uma decisão assim é muito fácil e, em última instância, é uma nova versão do que Hegel chamava de “a beleza do espírito”. Como explica Étienne Balibar, antes de tudo, o Syriza necessita ganhar tempo, e as potências da UE estão fazendo todo o possível para privar o Syriza de tempo, tratando de colocar o partido contra as cordas, de forçá-lo a uma decisão rápida: ou a rendição total (sua demissão) ou o grexit. Tempo, para que? Não só para se preparar para a próxima crise. Devemos lembrar sempre que a meta básica do governo do Syriza não é nem o euro nem a exigência de saldar suas contas com a UE, mas sim, sobretudo, a reorganização radical das instituições sociais e políticas corruptas da Grécia a longo prazo: “O mais complicado problema do Syriza, que não foi enfrentado por nenhum outro partido político no governo, é o de modificar as estruturas institucionais internas, em condições de assalto institucional externo” (como fez a Alemanha, no começo do Século XIX, sob a ocupação francesa).

O problema que a Grécia está enfrentando agora é o da “governabilidade da esquerda”: a dura realidade do que significa para a esquerda radical governar no mundo do capitalismo global. Que opções terá o governo? As alternativas óbvias (a simples social democratização, o socialismo de Estado, a retirada do Estado e a dependência dos movimentos sociais) não são suficientes, evidentemente. A verdadeira novidade do governo do Syriza é que supõe um acontecimento de governo: é a primeira vez que uma esquerda radical ocidental (não o velho estilo comunista) chega ao poder do Estado.

Toda essa retórica de atuar distanciando-se do Estado, tão querida pela nova esquerda, não pode se impor sobre um elemento central: é preciso assumir heroicamente toda a responsabilidade pelo bem-estar de toda a população e deixar para trás a atitude crítica básica da esquerda, de encontrar uma perversa satisfação em proporcionar explicações sofisticadas sobre porque as coisas tiveram que tomar um rumo equivocado.

O dilema ao que o governo grego se enfrenta é uma difícil escolha, que deve ser abordada em termos pragmáticos, não é uma questão de princípios entre a ação real (de governo) e a traição oportunista. As acusações de “traição” dirigidas ao governo do Syriza se formulam para evitar a pergunta realmente importante: como enfrentar o capital em sua forma atual? Como governar, como fazer um Estado funcionar “com gente”? É muito fácil dizer que o Syriza não é simplesmente um partido de governo, mas sim tem suas raízes na mobilização popular e nos movimentos sociais: o Syriza “é uma coalizão pouco rígida, contraditória em si mesma e internamente antagônica, de pensamento e prática esquerdistas, enormemente dependente da capacidade dos movimentos sociais de todos os tipos, totalmente descentralizada e impulsada pelo ativismo de redes de solidariedade num amplo campo de ação, através de linhas de conflito de classe, de ativismo de gênero e de sexualidade, de questões de imigração, de movimentos antiglobalização, de defesa dos direitos civis e humanos, etc”. Entretanto, a pergunta continua de pé: como essa dependência da auto-organização popular afeta, ou como deveria afetar, a direção de um governo?

Sobre a Grécia traída, Tariq Ali escreveu: “no começo do mês de julho, estavam celebrando o voto pelo NÃO. Estavam dispostos a fazer mais sacrifícios, a se arriscar a viver fora da Zona Euro. O Syriza lhes deu as costas. A data, 12 de julho de 2015, quando Tsipras aceitou as condições que a UE impôs, chegará a ser tão infame como o 21 de abril de 1967. Os tanques foram substituídos pelos bancos, como expressou Varoufakis, depois de ser nomeado ministro da Fazenda”. Considero convincente esse paralelo entre 2015 e 1967 mas, ao mesmo tempo, profundamente enganoso. É verdade, tanques rimam com bancos em alguns idiomas (em inglês, tanks rima efetivamente com banks), o que significa que a Grécia agora está de fato sob ocupação financeira, com a soberania fortemente restringida, todas as propostas do governo têm que ser aprovadas pela troica antes de se submeter ao Parlamento, não só as decisões financeiras mas inclusive de dados que estão sob controle estrangeiro (Varoufakis não tinha acesso aos dados de seu próprio ministério, e foi acusado de traição por tentar obtê-los) e, o cúmulo dos males, na medida em que o governo democraticamente eleito obedece essas regras, proporciona voluntariamente uma máscara democrática a essa ditadura financeira (enquanto as acusações recentes contra Varoufakis, por traição, são uma mostra de obscenidade em seu estado mais puro: nas últimas décadas, desapareceriam bilhões e o Estado manipulava informes financeiros falsificados, o único acusado foi o jornalista que tornou públicos os nomes dos titulares das contas ilegais nos bancos estrangeiros, contudo, agora Varoufakis é acusado, a partir de um pretexto ridículo. Se houve um herói de verdade em toda a história da crise grega, esse herói é Varoufakis).

Deve se assumir então o risco de um grexit? Nos enfrentamos aqui a uma tentation événementielle, ou seja, à tentação de seguir o curso dos acontecimentos: a tentação, numa situação difícil, de cometer uma loucura, de fazer o impossível, de assumir o risco e sair correndo, quaisquer que sejam os custos, sob a lógica subjacente de que “as coisas não podem estar pior do que estão agora”. O problema é que, com toda a certeza, as coisas podem ir ficar muito pior, até mesmo explodir, numa crise social e humanitária total. A pergunta principal é: houve realmente alguma possibilidade objetiva de um ato autenticamente emancipador que extraísse todas as consequências políticas e econômicas do NÃO no referendo? Quando (o filósofo Alain) Badiou fala de um acontecimento emancipador, sempre enfatiza num fato que não é um ato em si mesmo: só se converte em tal com o carácter retroativo, mediante esforçada e paciente obra de amor de quem luta por ele, que professa fidelidade a ele. A questão da oposição entre o curso normal das cosas e o estado de exceção caracterizado pela fidelidade a um acontecimento que interrompe o curso normal das coisas deveria, portanto, ser abandonada (desconstruída, inclusive). No curso normal das coisas, a vida simplesmente continua por sua própria inércia, estamos absortos em nossas preocupações e rituais diários. Então, algo sucede, um despertar causado por algum acontecimento, uma versão secular de um milagre (uma explosão social emancipadora, um encontro amoroso traumático…), se optamos pela fidelidade a esse acontecimento, toda nossa vida muda, nos dedicamos à obra do amor e nos esforçamos por inscrever o acontecimento em nossa realidade, e depois, em algum momento, a sequência do acontecimento se esgota e voltamos ao fluxo normal das coisas…

E se o verdadeiro poder de um acontecimento deveria se medir precisamente por sua desaparição, quando o acontecimento fica desconectado do seu resultado, da mudança da vida normal? Vejamos um acontecimento sociopolítico: o que fica de suas consequências quando sua energia estática está esgotada e as coisas voltam à normalidade? Até que ponto essa normalidade é diferente da prévia do acontecimento?

Voltando à Grécia, é fácil contar com o gesto heroico de prometer sangue, suor e lágrimas, de repetir el mantra de que a política autêntica significa que não se deve aceitar os limites do possível, e sim se arriscar ao impossível, mas o que seria isso no caso do grexit? Em primeiro lugar, não esqueçamos que o referendo não era nem sobre o euro (75% dos gregos preferem seguir com o euro) nem sobre a permanência ou não na UE. A pergunta era: “Quer que esta situação continue ou não?”, o que significa que o resultado tampouco pode ser lido como um sinal de que o povo grego está disposto a suportar sacrifícios e mais sofrimento para afirmar sua soberania. O NÃO foi um NÃO à sua situação sem saída, que era a situação da austeridade, pobreza, etc. Foi uma demanda de uma vida melhor, não uma disposição a mais sofrimento e sacrifício (em geral, os motivos de uma disposição a um sofrimento exagerado são extremamente problemáticos). Em segundo lugar, no caso do grexit, o Estado grego não se veria obrigado a adotar uma série de medidas (nacionalização dos bancos, impostos mais altos, etc.) que são simplesmente uma reedição da velha política econômica socialista-estatal-nacional-soberana? Não há nada contra este tipo de política, mas teria sucesso na Grécia de hoje, nas condiciones específicas que o país enfrenta, com seu aparato estatal ineficaz e dentro de uma economia global? Aqui estão os três pontos principais do plano antiausteridade da Plataforma de Esquerda, enumerando medidas “perfeitamente realizáveis”:

“1– A reorganização radical do sistema bancário, sua nacionalização sob controle social e sua reorientação voltada ao crescimento.

2 – A rejeição total da austeridade fiscal (superavits primários e orçamentos equilibrados), para enfrentar a crise humanitária de forma eficaz, cobrindo as necessidades sociais, reconstruir o Estado social e tirar a economia do círculo vicioso da recessão.

3 – A aplicação de procedimentos preliminares que levem a saída do euro e ao cancelamento da maior parte da dívida. Há opções perfeitamente realizáveis que podem conduzir a um novo modelo econômico orientado à produção, ao crescimento e à mudança no equilíbrio social de forças em benefício da classe trabalhadora e da população”.

Além disso, duas especificações adicionais:

“A elaboração de um plano de desenvolvimento baseado no investimento público, permitindo também o investimento privado em paralelo. A Grécia necessita uma relação nova e produtiva entre os setores público e privado, para entrar numa via de desenvolvimento sustentável. A realização desse projeto será possível uma vez que se restabeleça a liquidez, combinada com a capacidade do país economizar.

Retomar o controle do mercado interno, diante da disputa com os produtos importados, revitalizará e reforçará o papel das pequenas e médias empresas, que seguem sendo a coluna vertebral da economia grega. Ao mesmo tempo, as exportações serão estimuladas pela introdução de uma moeda nacional”.

É difícil de ver nisso tudo algo mais que o conjunto habitual de medidas intervencionistas do Estado: retorno à moeda nacional, impressão de dinheiro, financiamento de grandes obras públicas, apoio à indústria nacional… Medidas como essas, adequadamente calibradas, podem funcionar, mas funcionariam na Grécia de hoje, com um enorme endividamento externo de indivíduos e empresas privadas (que não podem ser pagos), com uma economia plenamente integrada à Europa Ocidental e dependente dela, por exemplo, para importar alimentos e produtos industriais e médicos? Em outras palavras, onde, em que outro lugar, a Grécia veria a si mesma? Em que outro lugar da Bielorrússia e de Cuba? Como Paul Krugman escreveu recentemente que é preciso admitir que ninguém sabe realmente quais seriam as consequências do grexit. É um território inexplorado.

Uma coisa está clara: “O grexit significa uma política de independência nacional”, por isso não é de se estranhar que alguns partidários da Plataforma de Esquerda prefiram inclusive à extremamente problemática e (para mim) totalmente inaceitável definição dessa como “populismo nacional” (por certo, deve-se rejeitar ambos os mitos otimistas, o mito da Plataforma de Esquerda, de que há um claro procedimento racional de empreender um grexit que traga uma nova prosperidade e sua contrapartida – defendida por Jeffrey Frankel, entre outros – de que, ao executar fielmente o plano de resgate, Tsipras pode chegar a se tornar um novo Lula).

Portanto, a eleição já não é simplesmente entre um grexit, a saída da Zona Euro, ou capitulação: o governo do Syriza se encontra numa situação única, obrigado a fazer aquilo ao que se opõe. Persistir numa situação tão difícil e não jogar a toalha é autêntico valor. Neste momento, o inimigo do governo do Syriza não é, em primeiro lugar, a plataforma de esquerda, e sim os que aceitam sinceramente a derrota, e o que na verdade querem é jogar o jogo da UE. Esse perigo parece evidente quando temos em conta o efeito da rendição do Syriza: pelo que Varoufakis m confessou numa conversa privada, “moderou as posições daqueles que ficaram nos ministérios, que ou são incapazes de realizar o projeto original ou não têm nenhum desejo (para não incomodar a troica) de planificar a próxima ruptura. É mais, a troica os usa como cobaias numa roda, fazendo-os correr cada vez mais rápido, para pôr em prática as medidas tóxicas. Foram cooptados em poucos dias, se tornaram incapazes de planejar algo próximo àquilo que foi proposto. Para finalizar esse processo, o movimento decisivo da troica é o de forçar, inteligentemente, que a normativa governamental inclua mais, e consolide alguns feudos próprios dentro do Estado. Assim, por exemplo, as unidades de luta contra a fraude fiscal acabaram sendo absorvidas pela Secretaria Geral de Ingressos Públicos (cuja dependência da troica já foi denunciada), de forma que o governo não conta com instrumentos ao seu alcance para combater a evasão fiscal da oligarquia. O mesmo ocorre com as privatizações. A troica está estabelecendo novos órgãos que controlam totalmente”.

Fica, então, algum resquício de esperança? O verdadeiro milagre da situação, e uma das poucas fontes de moderada esperança, é que, apesar de Bruxelas ter imposto suas exigências, parece que cerca de 70% dos votantes gregos ainda apoiam o governo do Syriza. A explicação é que a maioria percebe que o Syriza está fazendo o que tem que fazer numa situação impossível.

Existe um risco de que a humilhação do Syriza termine levando o partido a ficar sozinho em sua luta, sem conseguir avançar em seu projeto, o que permitirá a reintegração plena de Grécia na UE como um humilde membro em quebra, da mesma forma que há um risco de que um grexit se transforme numa catástrofe em grande escala. Sobre esse ponto não há uma resposta clara a priori, qualquer decisão só se justificará com carácter retroativo, em função de suas consequências. O que há que temer é não só a perspectiva de um maior sofrimento do povo grego, mas também a perspectiva de outro fiasco que desacredite a esquerda para os anos vindouros, enquanto os esquerdistas sobreviventes argumentarão que sua derrota demonstra uma vez mais a perfídia do sistema capitalista…

* Filósofo e crítico cultural esloveno, é professor da European Graduate School, diretor internacional do Birkbeck Institute for the Humanities (Universidade de Londres) e investigador senior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana.

Tradução: Victor Farinelli

Link: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/A-coragem-da-desesperanca/6/34142

No olho do furacão – impressões sobre a crise na Grécia – II

A acelerada construção do despotismo ocidental- Boaventura de Sousa Santos
Publicado em Outras Palavras

IMG_1833A Europa transformou-se num laboratório do futuro. O que nele se experimenta deve causar preocupação a qualquer democrata e, muito mais, a qualquer pessoa de esquerda. Duas experiências estão em curso em ambiente laboratorial, isto é, supostamente controlado. A primeira experiência é um teste de stress à democracia. A hipótese que orienta o teste é a seguinte: a deliberação democrática de um país forte pode sobrepor-se antidemocraticamente à deliberação democrática de um país fraco sem que tal altere a normalidade da vida política europeia. As condições para o êxito desta experiência são três: controlar a opinião pública de modo que os interesses nacionais do país mais forte sejam convertidos no interesse comum da zona euro; dispor de um conjunto de instituições não eleitas (Eurogrupo, BCE, FMI, Comissão Europeia) capazes de neutralizar e punir qualquer deliberação democrática que desobedeça ao diktat do país dominante; demonizar o país mais fraco de modo a que não suscite nenhuma simpatia junto dos eleitores dos restantes países europeus, especialmente junto dos eleitores dos países candidatos a desobedecer.

A Grécia é a cobaia desta tenebrosa experiência. Trata-se do segundo exercício de ocupação colonial do século XXI (o primeiro foi a Missão de Estabilização da ONU no Haiti a partir de 2004), um colonialismo de tipo novo, executado com o consentimento do país ocupado, ainda que sob inaudita chantagem. E, tal como o velho colonialismo, justificado como servindo o melhor interesse do país ocupado. A experiência está em curso e os resultados do teste de stress são incertos. Ao contrário dos laboratórios, as sociedades não são ambientes controlados, por maior que seja a pressão para os controlar. Uma coisa é certa: depois desta experiência, qualquer que seja o seu resultado, a Europa não será mais a Europa da paz, da coesão social e da democracia. Será o epicentro de um novo despotismo ocidental, rivalizando em crueldade com o despotismo oriental estudado por Karl Marx e Max Weber.

A segunda experiência em curso é um exercício sobre a solução final para a esquerda europeia. A hipótese que orienta esta experiência é a seguinte: não há lugar na Europa para a esquerda na medida em que esta reivindicar a existência de uma alternativa às políticas de “austeridade” impostas pelo país dominante.

As condições para o êxito desta experiência são três. A primeira consiste em provocar a derrota preventiva dos partidos de esquerda, punindo de maneira brutal o primeiro que tentar desobedecer. A segunda consiste em criar nos eleitores a ideia de que os partidos de esquerda não os representam. Até agora, a ideia de que “os representantes não nos representam” era uma bandeira do movimento dos indignados e do Occupy, contra os partidos de direita e seus aliados. Depois de o Syriza ser forçado a beber o cálice da cicuta austeritária, apesar do “não” do referendo grego que ele próprio apoiara, os eleitores serão levados a concluir que, afinal, também os partidos de esquerda não os representam. A terceira condição consiste em aprisionar a esquerda em falsas opções entre falsos Planos A e Planos B.

Nos últimos anos, a esquerda dividiu-se entre os que pensam que é melhor permanecer no euro e os que pensam que é melhor sair do euro. Ilusão: nenhum país pode optar por sair ordenadamente do euro, mas, se desobedecer, será expulso e o caos desabará implacavelmente sobre ele. Passa-se o mesmo com a restruturação da dívida que até agora tanto dividiu a esquerda. Ilusão: a restruturação ocorrerá quando tal servir os interesses dos credores e é por isso que mais esta bandeira de alguma esquerda se transforma agora numa política do FMI.

Também os resultados desta experiência são incertos e pelas mesmas razões acima referidas. Uma coisa é certa:

para sobreviver a esta experiência, a esquerda terá de se refundar para além do que é hoje imaginável. Tal envolverá muita coragem, muita audácia e muita criatividade

 No olho do furacão – impressões sobre a crise na Grécia – I

Amigos, segue mais uma referência do debate que vem da Grécia, de quem está envolvido nos seus processos. É certamente a visão de quem prescinde de uma crítica da crise e, por isso mesmo, apoiado numa oposição entre poder político e poder econômico, faz sobressair o problema da organização aos de uma 

ruptura crítica efetiva. Esse parece ser um texto menos problemático do autor, isso aos nossos olhos. Porque em outros contextos ele sugere inclusive estar em causa um enfrentamento com políticas neoliberais que poderia ser levado a cabo por um sentido civilizatório de esquerda frente a barbárie. Ainda assim, e até por conta disso, o texto é importante, porque pode revelar um contexto grego de mediações cotidianas de enfrentamento da crise em que se vai tendo de admitir como não ingênua uma terceira alternativa para além do Estado e da totalidade da esquerda que disputa a civilização mercantil:

“A extinção da democracia na Europa deve ser complementada pelo fortalecimento das comunidades auto-organizadas a nível local e pelo fortalecimento de laços fortes entre elas, conjuntamente com uma mudança voltada para uma economia assente na solidariedade e nas necessidades humanas, e na gestão e defesa coletiva dos bens comuns. O contra-poder social dos oprimidos deve confrontar-se diretamente com o poder social do capital no seu espaço privilegiado: a vida quotidiana.”

A consciência comum de solidariedade é de algum modo constrangida a pensar para além das formas do Estado e da economia – que seja de maneira rudimentar só reforça a questão. A novidade, é claro, não são esses discursos e práticas, mas um contexto de um “cotidiano monetário sem dinheiro” que ainda é capaz de articular solidariedades efetivas que vai tornando aqueles discursos e práticas algo sistemático. Isso obviamente não quer dizer que a situação grega seja incendiária para as formas da emancipação. Já sabemos que nada está dado com a crise, exceto a regressão em curso. Mas pode estar em disputa uma alternativa às formas da economia e do Estado e temos de pensar nos contextos e nas consciências que estão vivendo esses processos. No mesmo bojo, envio dois filmes, ambos feitos por estrangeiros que foram ver de perto o que anda acontecendo na Grécia e puseram-se a divulgar as experiências libertárias que por lá têm se alastrado. Impressiona sobretudo certas solidariedades diretas de ruptura com a economia. Não são solidariedades de apoio, de discurso ou de organização. São formas de enfrentamento coletivo do cotidiano monetário sem dinheiro que podem muito bem se generalizar. Afinal, na estação seca, o fogo corre fácil no trigal. Abraço forte! Renan Saraiva 

O Syriza rendeu-se: é altura de reforçar as resistências populares É o momento oportuno para que uma ampla aliança de forças sociais leve avante um «Plano C», baseado na colaboração social, no auto-governo descentralizado e na administração dos bens comuns. Por Theodoros Karyotis Artigo publicado em Passa Palavra 

Durantes as duas últimas semanas, o tempo político na Grécia sofreu uma condensação política, na qual os cidadãos viveram uma situação limite, lutando contra forças que pareciam encontrar-se para lá do seu controlo. A 27 de junho, o governo liderado pelo Syriza submeteu o ultimato dos credores a um referendo, tendo feito campanha pelo «Não». O resultado – uma inequívoca rejeição da austeridade perpétua e da contínua servidão ao endividamento – ficará na história como um momento excecional de dignidade de um povo sob o ataque dos credores europeus e da elite grega. Apesar dos matizes patrióticos, estes resultado constitui o culmíneo de cinco anos de resistência contra a constante degradação das nossas vidas. Significou escapar ao domínio dos meios de comunicação social, superar o medo e fazer ouvir a voz do povo. Veio confirmar o descrédito absoluto das elites políticas no governo desde a transição política de 1974, que fizeram campanha pelo «Sim». Por outro lado, o resultado revelou uma sociedade dividida segundo a classe: as classes médias e baixas, que até agora assumiram praticamente todo o custo da austeridade e do ajustamento estrutural, votaram esmagadoramente «Não». No entanto, o resultado resiste a todas as tentativas de capitalização por parte dos partidos políticos; é a negação categórica do atual quadro político e económico, a negação que necessariamente precede a todos os atos de autodeterminação social. Porém, menos de uma semana após o referendo, o governo grego apresentou uma nova proposta de financiamento aos seus credores, ligada a um pacote de medidas de austeridade ainda mais duras que as rejeitadas no referendo. Após um fim de semana de «negociações», a qual revelou uma divisão entre os credores, chegou-se na madrugada de segunda-feira a um acordo humilhante, que converte a Grécia numa colónia de dívida europeia. Como é que, em poucas dias, foi possível que este «Não» se transformasse num «Sim»?

O dilema do Syriza

A estratégia do governo destinada a utilizar o veredicto popular como meio de pressão nas negociações fracassou, conforme a previsão de alguns analistas. Ao regressar à mesa de negociações, a linha dura do grupo de credores, reunidos em torno do ministro das finanças alemão Wolfgang Schauble, deixou claro que preferia ver a Grécia a sair – com todas as implicações económicas e políticas para a Zona Euro – do que permitir a mínima fratura na disciplina neoliberal de austeridade. O governo liderado pelo Syriza deparou-se perante um duro e urgente dilema: ou aceitar a implementação de um novo programa de austeridade neoliberal ou ter que assumir o custo político de uma saída, com todos os efeitos desastrosos sob a população grega que tal resultado suporia. Acabou por optar pela primeira, terminando oficialmente com os cinco meses de conflito entre o governo grego e os seus supostos «parceiros» europeus. Os termos da capitulação são duros, uma vez que vão contra a totalidade das promessas eleitorais realizadas pelo Syriza: o novo memorando é, talvez, mais duro que os anteriores, uma experiência extrema de engenharia social e de distribuição de riqueza a favor dos poderosos. Mantém muitas das medidas injustas aplicadas por governos anteriores, como o ENFIA, um imposto transversal à pequena propriedade que converteu as famílias de classe baixa em inquilinos dentro das suas próprias casas, ou a abolição do limite de rendimentos não tributáveis para os trabalhadores por conta própria, que torna impossível aos trabalhadores qualificados saírem da armadilha do desemprego. O novo acordo reafirma igualmente o papel do TAIPED, possivelmente alterando a sua designação. Trata-se de uma instituição criada para a venda de todos os ativos públicos, sobretudo infraestruturas básicas, como portos, aeroportos e a empresa de infraestrutura elétrica. Além do mais, o acordo exige a abolição da moratória aos despejos, abrindo caminho a uma operação de espólio que ameaça provocar um desastre humanitário, conforme demonstrado pela experiência espanhola. O acordo prevê ainda um aumento dos impostos indiretos, dos preços dos alimentos e dos transportes, bem como cortes nos salários e nas pensões, através de um aumento das contribuições para a segurança social. Em suma, um pacote de medidas destinadas a comprimir ainda mais as classes médias e baixas, aumentar a recessão e o desemprego, destruir as pequenas e médias empresas, que compõem a coluna vertebral da economia grega, e entregar todos os ativos públicos e bens comuns ao capital transnacional. Ao mesmo tempo, perpetua-se a depressão e aumenta-se a dívida, paralisando efetivamente a economia grega e destruindo a sua capacidade de saída da crise pelo seu próprio pé. Os  credores fizeram o possível para assegurar medidas suficientemente puníveis. De forma a humilhar ainda mais os seus oponentes, exigiram a votação imediata das leis de reforma e o regresso a Atenas dos supervisores da Troika, expulsos pelo governo ao longo do primeiro período de negociações. Os argumentos dos funcionários do governo e dos quadros do partido que defendem os aspetos «positivos» do acordo são irrisórios, fazendo eco dos argumentos dos governos anteriores, os quais repetiam que a austeridade ampliaria as perspectivas a longo prazo da economia grega e do que custo do ajuste não seria transferido para os mais desfavorecidos. É mais encarar o acordo como ele realmente é: uma operação de despossessão a grande escala, o sacrifício de todo um país em nome da fraude sob a qual se construiu a Zona Euro. Parece que o governo de «salvação nacional» do Syriza chegou ao final do seu trajeto. É chamado a votar e implementar um plano de austeridade que não só é indiferente à luta dos movimentos de austeridade dos últimos cinco anos, da qual o Syriza fez anteriormente parte, como também vem trair o veredicto dos 61% dos gregos que votou contra a austeridade apenas uma semana antes. Poderia argumentar-se que se trata de uma aposta coletiva frustrada, de uma saída menos penosa face à chantagem dos «parceiros». Não há dúvida de que um «grexit» desordenado, aliado às medidas punitivas que seriam empregues pelos extremistas neoliberiais, provocaria um desastre a curto-prazo, em particular nas classes populares. Em qualquer caso, os resultados políticos serão rápidos: o governo será seguramente remodelado ou substituído, e o Syriza confrontar-se-á com uma divisão interna que poderá significar o fim do partido na sua forma atual.

Uma relação contraditória

Ao longo dos últimos três anos, os movimentos sociais de base na Grécia adotaram uma postura profundamente contraditória em relação à ascensão eleitoral do Syriza. Por um lado, a perspetiva de um governo de esquerda constitui a oportunidade de levar o conflito a um nível institucional; afinal, muitas das reivindicações das lutas vieram a refletir-se no programa do Syriza, tendo o partido sempre mantido um perfil próximo dos movimentos. Por outro lado, o Syriza constitui um agente de desmobilização, colocando um fim à crise de legitimação que havia concedido protagonismo à criatividade social e auto-determinação dos movimentos, e contribuindo para a institucionalização das lutas, marginalização das reivindicações incompatíveis com o seu projeto de gestão estatal e restituição da lógica de representação e delegação política, promotoras da inação e da complacência. Ao mesmo tempo, o Syriza cultivou a ilusão de uma real transformação social sem uma ruptura com os mecanismos de dominação capitalista, sem colocar em causa o paradigma económico dominante, sem a construção de alternativas concretas às instituições capitalistas a partir de baixo, sem sequer questionar a permanência do país no seio de uma união monetária que, na sua concepção, favorece as economias do Norte, orientadas para a exportação, em detrimento da periferia europeia. Os dirigentes do Syriza dissociaram-se das bases do partido e dos seus antigos aliados dentro dos movimentos. Resistiram, vigorosamente, ao debate público em torno da elaboração de um «Plano B», fora do euro, caso falhasse o «Plano A» de «fim de austeridade na Zona Euro», por receio que a oposição pró-austeridade a viesse a utilizar contra si, como prova da existência de uma agenda oculta desde o início. Infelizmente, os recentes acontecimentos vieram a dar razão aos que defendiam que, dada a falta de legitimidade e a extrema fragilidade do governo anterior, um novo memorando apenas seria possível através de um novo e popular governo «progressista». Este é, provavelmente, o papel que o Syriza acabou por jogar de forma involuntária, usando as suas amplas reservas de capital político. Levantando o véu da ilusão O facto de o Syriza se ter revelado incapaz de cumprir alguma das suas promessas eleitorais ou reverter a lógica de austeridade levanta o véu da ilusão relativamente a soluções institucionais desde acima e deixa os movimentos de base exatamente onde começaram: compondo a principal força antagónica contra o assalto neoliberal na sociedade e a única força capaz de imaginar um mundo diferente, para lá das instituições falhadas do mercado capitalista predador e da democracia representativa. Não há dúvida de que muitos ativistas honestos e comprometidos estão vinculados às bases partidárias do Syriza. É agora sua tarefa reconhecer o fracasso do plano do partido e resistir aos esforços do governo em vender o novo memorando como um desenvolvimento positivo ou inevitável. Se o Syriza, ou uma parte maioritária do mesmo, decidir permanecer no poder – nesta coligação governamental ou noutra, mais servil, estabelecida pelos credores – e supervisionar a aplicação deste brutal memorando, as bases do partido dever-se-ão revoltar e unir-se a outra forças sociais, em busca de uma saída da barbárie, quebrar as fileiras de um partido que poderia ser rapidamente convertido, de uma força de mudança, num gestor obstinado de um sistema brutal, sobre o qual não exerce qualquer controlo. O papel da Esquerda – definida em termos amplos – não é de um gestor mais benévolo da barbárie capitalista: afinal de tudo, esse era o propósito original da social democracia, um projeto que se esgotou já na década de oitenta. Não pode existir «austeridade com rosto humano»: a engenharia social neoliberal é um ataque à dignidade humana e aos bens comuns em todas as suas manifestações, de direita ou de esquerda. Argumentei, noutro lugar, que o «Não» do referendo da semana passa foi ambivalente, e a luta pela definição do seu sentido acaba de começar. Horas depois do anúncio dos resultados, o primeiro-ministro Tsipras interpretou o veredicto popular como um mandato “para se manter dentro da Zona Euro a qualquer preço». Porém, é evidente que o novo pacote de «resgate» se encontra fora do seu mandato: o plano A, o único do Syriza, que previa o fim da austeridade sem um conflito com os poderes fáticos, fracassou completamente. O plano B, promovido sob diversas formas pelo Antarsya, Partido Comunista e a própria Plataforma de Esquerda do Syriza, defendia uma recapacitação produtiva fora da Zona Euro. Embora seja cada vez mais popular, principalmente após a evidência da inflexibilidade do projeto europeu, esse plano não deixa de ser produtivista, centrado no Estado, de cima para baixo, não colocando em causa os significados dominantes do capitalismo: o incessante crescimento capitalista, a economia extrativa, a expansão da produção, o crédito e o consumo. Por outro lado, mediante o entrincheiramento nacional que promove, acarreta o perigo de desvios autoritários.

Um ponto de inflexão decisivo

A crise grega representa, como sempre, um ponto de inflexão em relação ao futuro do projeto europeu. Os representantes da linha dura da Zona Euro insistem na culpabilização da periferia da Europa pelos defeitos estruturais da moeda única e pela sua insistência em socializar a dívida privada por via dos eufemisticamente designados «pacotes de resgate». Ao mesmo tempo, envenenam as mentes das pessoas do Norte da Europa com um discurso moralista neocolonial, propagado através dos meios de comunicação. A percepção da perda do poder político sobre a sua própria vida está a levar muitos europeus a voltarem-se em direção a partidos xenófobos e reacionários, que prometem um retorno ao Estado-Nação autoritário. A esquerda europeia assiste, perplexa, ao desvanecimento das suas esperanças numa UE baseada em princípios de solidariedade e justiça social, juntamente com os esforços do Syriza na negociação de uma saída humanitária da crise da dívida grega. É o momento oportuno para que uma ampla aliança de forças sociais leve avante um «Plano C», baseado na colaboração social, no auto-governo descentralizado e na administração dos bens comuns. Sem ignorar a sua relevância, a política eleitoral nacional não é o campo privilegiado de ação no que respeita a transformação social. A extinção da democracia na Europa deve ser complementada pelo fortalecimento das comunidades auto-organizadas a nível local e pelo fortalecimento de laços fortes entre elas, conjuntamente com uma mudança voltada para uma economia assente na solidariedade e nas necessidades humanas, e na gestão e defesa coletiva dos bens comuns. O contra-poder social dos oprimidos deve confrontar-se diretamente com o poder social do capital no seu espaço privilegiado: a vida quotidiana. Na Grécia, e após sofrer uma completa alteração, o debate em torno de um futuro para lá da austeridade acaba de ter início. Os inequívocos 61% contra a austeridade recordam-nos da urgência deste debate. Após alguns anos de relativa desmobilização, a reativação dos movimentos sociais que prefiguram novas relações sociais, construídas desde baixo, é iminente. Temos por diante um novo ciclo de resistência criativa, de produção de sujeitos coletivos e de incansável experimentação, destinadas à transformação da nossa realidade a partir de baixo.

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