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Bem-vindo ao Estado suicidário – Vladimir Safatle

Você é parte de um experimento. Talvez sem perceber, mas você é parte de um experimento. O destino do seu corpo, sua morte são partes de um experimento de tecnologia social, de nova forma de gestão. Nada do que está acontecendo nesse país que se confunde com nossa história é fruto de improviso ou de voluntarismo dos agentes de comando. Até porque, ninguém nunca entendeu processos históricos procurando esclarecer a intencionalidade dos agentes. Saber o que os agentes acham que estão a fazer é realmente o que menos importa. Como já se disse mais de uma vez, normalmente eles o fazem sem saber.

Esse experimento do qual você faz parte, do qual te colocaram à força tem nome. Trata-se da implementação de um “Estado suicidário” como disse uma vez Paul Virilio. Ou seja, o Brasil mostrou definitivamente como é o palco da tentativa de implementação de um Estado suicidário. Um novo estágio nos modelos de gestão imanentes ao neoliberalismo. Agora, é sua face a mais cruel, sua fase terminal.

Engana-se quem acredita que isto é apenas a já tradicional figura do necroestado nacional. Caminhamos para além da temática necropolítica do Estado como gestor da morte e do desaparecimento. Um Estado como o nosso não é apenas o gestor da morte. Ele é o ator contínuo de sua própria catástrofe, ele é o cultivador de sua própria explosão. Para ser mais preciso, ele é a mistura da administração da morte de setores de sua própria população e do flerte contínuo e arriscado com sua própria destruição. O fim da Nova República terminará em um macabro ritual de emergência de uma nova forma de violência estatal e de rituais periódicos de destruição de corpos.

Um Estado dessa natureza só apareceu uma vez na história recente. Ele se materializou de forma exemplar em um telegrama. Um telegrama que tinha número: Telegrama 71. Foi com ele que, em 1945, Adolf Hitler proclamou o destino de uma guerra então perdida. Ele dizia: “Se a guerra está perdida, que a nação pereça”. Com ele, Hitler exigia que o próprio exército alemão destruísse o que restava de infraestrutura na combalida nação que via a guerra perdida. Como se esse fosse o verdadeiro objetivo final: que a nação perecesse pelas suas próprias mãos, pelas mãos do que ela mesma desencadeou. Esta era a maneira nazista de dar resposta a uma raiva secular contra o próprio Estado e contra tudo o que ele até então havia representado. Celebrando sua destruição e a nossa. Há várias formas de destruir o Estado e uma delas, a forma contrarrevolucionária, é acelerando em direção a sua própria catástrofe, mesmo que ela custe nossas vidas. Hannah Arendt falava do fato espantoso de que aqueles que aderiam ao fascismo não vacilavam mesmo quando eles próprios se tornavam vítimas, mesmo quando o monstro começava a devorar seus próprios filhos.

O espanto, no entanto, não deveria estar lá. Como dizia Freud: “mesmo a auto-destruição da pessoa não pode ser feita sem satisfação libidinal”. Na verdade, esse é o verdadeiro experimento, um experimento de economia libidinal. O Estado suicidário consegue fazer da revolta contra o Estado injusto, contra as autoridades que nos excluíram, o ritual de liquidação de si em nome da crença na vontade soberana e na preservação de uma liderança que deve encenar seu ritual de onipotência mesmo quando já está claro como o sol sua impotência miserável. Se o fascismo sempre foi uma contrarrevolução preventiva, não esqueçamos que sempre soube transformar a festa da revolução em um ritual inexorável de auto-imolação sacrificial. Fazer O desejo de transformação e diferença conjugar a gramática do sacrifício da auto-destruição: essa sempre foi a equação libidinal que funda o Estado suicidário.

O fascismo brasileiro e seu nome próprio, Bolsonaro, encontraram enfim uma catástrofe para chamar de sua. Ela veio sob a forma de urna pandemia que exigiria da vontade soberana e sua paranoia social compulsivamente repetida que ela fosse submetida à ação coletiva e à solidariedade genérica tendo em vista a emergência de um corpo social que não deixasse ninguém na estrada em direção ao Hades. Diante da submissão a uma exigência de autopreservação que retira da paranoia seu teatro, seus inimigos, suas perseguições e seus delírios de grandeza a escolha foi, no entanto, pelo flerte contínuo com a morte generalizada. Se ainda precisássemos de uma prova de que estamos a lidar com uma lógica fascista de governo, esta seria a prova definitiva. Não se trata de um Estado autoritário clássico que usa da violência para destruir inimigos. Trata se de um Estado suicidário de tipo fascista que só encontra sua força quando testa sua vontade diante do fim.

É claro que tal Estado se funda nessa mistura tão nossa de capitalismo e escravidão, de publicidade de coworking, de rosto jovem de desenvolvimento sustentável e indiferença assassina com a morte reduzida a efeito colateral do bom funcionamento necessário da economia. Alguns acham que estão a ouvir empresários, donos de restaurantes e publicitários quando porcos travestidos de arautos da racionalidade econômica vêm falar que pior que o medo da pandemia deve ser o medo do desemprego.

Na verdade, eles estão diante de senhores de escravos que aprenderam a falar business english. A lógica é a mesma, só que agora aplicada à toda a população. O engenho não pode parar. Se para tanto alguns escravos morrerem, bem, ninguém vai realmente criar um drama por causa disso, não é mesmo? E o que afinal significa 5.000, 10.000 mortes se estamos falando em “garantir empregos”, ou seja, em garantir que todos continuarão sendo massacrados e espoliados em ações sem sentido e sem fim enquanto trabalham nas condições as mais miseráveis e precárias possíveis?

A história do Brasil é o uso contínuo desta lógica. A novidade é que agora ela é aplicada a toda a população. Até bem pouco tempo, o país dividia seus sujeitos entre “pessoas” e “coisas”, ou seja, entre aqueles que seriam tratados como pessoas, cuja morte provocaria luto, narrativa, comoção e aqueles que seriam tratados como coisas, cuja morte é apenas um número, uma fatalidade da qual não há razão alguma para chorar. Agora, chegamos à consagração final desta lógica. A população é apenas o suprimento descartável para que o processo de acumulação e concentração não pare sob hipótese alguma.

É claro que séculos de necropolítica deram ao Estado brasileiro certas habilidades. Ele sabe que um dos segredos do jogo é fazer desaparecer os corpos. Você retira números de circulação, questiona dados, joga mortos por corona vírus em outra rubrica, abre covas em lugares invisíveis. Bolsonaro e seus amigos vindos dos porões da ditadura militar sabem como operar com essa lógica. Ou seja, a velha arte de gerir o desaparecimento que o Estado brasileiro sabe fazer tão bem. De toda forma, there is no alternative. Esse era o preço a pagar para que a economia não parasse, para que os empregos fossem garantidos. Alguém tinha que pagar pelo sacrifício. A única coisa engraçada é que sempre são os mesmos quem pagam. A verdadeira questão é outra, a saber: Quem nunca paga pelo sacrifício enquanto prega o evangelho espúrio do açoite?

Pois vejam que coisa interessante. Na República Suicidária Brasileira não há chance alguma de fazer o sistema financeiro verter seus lucros obscenos em um fundo comum para o pagamento de salários da população confinada, nem de enfim implementar o imposto constitucional sobre grandes fortunas para ter a disposição parte do dinheiro que a elite vampirizou do trabalho compulsivo dos mais pobres. Não, essas possibilidades não existem. There is no alternative: será necessário repetir mais uma vez?

Essa violência é a matriz do capitalismo brasileiro. Quem pagou a ditadura para criar aparatos de crimes contra a humanidade na qual se torturava, estuprava, assassinava fazia desaparecer cadáveres? Não estavam lá dinheiro de Itaú, Bradesco, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Fiesp, ou seja, todo o sistema financeiro e empresarial que hoje tem lucros garantidas pelos mesmos que veem nossas mortes como um problema menor?

Na época do fascismo histórico, o Estado suicidário mobilizava-se através de uma guerra que não podia parar. Ou seja, a guerra fascista não era uma guerra de conquista. Ela era um fim em si mesmo. Como se fosse um “movimento perpétuo, sem objeto nem alvo” cujos impasses só levam a uma aceleração cada vez maior. A ideia nazista de dominação não está ligada ao fortalecimento do Estado, mas a um movimento em movimento constante. Hannah Arendt falará da: “essência dos movimentos totalitários que só podem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo o que os rodeia”. Uma guerra ilimitada que significa a mobilização total de todo efetivo social, a militarização absoluta em direção a uma guerra que se torna permanente. Guerra, no entanto, cuja direção não pode ser outra que a destruição pura e simples.

Só que o Estado brasileiro nunca precisou de uma guerra porque ele sempre foi a gestão de uma guerra civil não declarada. Seu exército não serviu a outra coisa que se voltar periodicamente contra sua própria população. Esta é a terra da contrarrevolução preventiva, como dizia Florestan Fernandes. A pátria da guerra civil sem fim, dos genocídios sem nome, dos massacres sem documentos, dos processos de acumulação de capital feitos através de bala e medo contra quem se mover. Tudo isso aplaudido por um terço da população, por seus avós, seus pais, por aqueles cujos circuitos de afetos estão presos nesse desejo inconfesso do sacrifício dos outros e de si há gerações. Pobres dos que ainda acreditam que é possível dialogar com quem estaria nesse momento a aplaudir agentes da SS.

Pois alternativas existem, mas se elas forem implementadas serão outros afetos que circularão, fortalecendo aqueles que recusam tal lógica fascista, permitindo enfim que eles imaginem outro corpo social e político. Tais alternativas passam pela consolidação da solidariedade genérica que nos faz nos sentir em um sistema de mútua dependência e apoio, no qual minha vida depende da vida daqueles que sequer fazem parte do “meu grupo”, que estão no “meu lugar”, que tem as “minhas propriedades”. Esta solidariedade que se constrói nos momentos mais dramáticos lembra aos sujeitos que eles participam de um destino comum e devem se sustentar coletivamente. Algo muito diferente do: “se eu me infectar, é problema meu”. Mentira atroz, pois será, na verdade, problema do sistema coletivo de saúde, que não poderá atender outros porque precisa cuidar da irresponsabilidade de um dos membros da sociedade. Mas se a solidariedade aparece como afeto central, é a farsa neoliberal que cai, esta mesma farsa que deve repetir, como dizia Thatcher: “não há essa coisa de sociedade, há apenas indivíduos e famílias”. Só que o contágio, Margareth, o contágio é o fenômeno mais democrático e igualitário que conhecemos. Ele nos lembra, ao contrário, que não há essa coisa de indivíduo e família, há a sociedade que luta coletivamente contra a morte de todos e sente coletivamente quando um dos seus se julga viver por conta própria.

Como disse anteriormente, alternativas existem. Elas passam por suspender o pagamento da dívida pública, por taxar enfim os ricos e fornecer aos mais pobres a possibilidade de cuidar de si e dos seus, sem se preocupar em voltar vivo de um ambiente de trabalho que será foco de disseminação, que será a roleta russa da morte. Se alguém soubesse realmente fazer conta nas hostes do fascismo, ele lembraria o que acontece com um dos únicos países do mundo que recusa seguir as recomendações de combate à pandemia: ele será objeto de um cordão sanitário global, de um isolamento como foco não controlado de proliferação de uma doença da qual os outros países não querem nunca mais partilhar. Ser objeto de um cordão sanitário global deve ser realmente algo muito bom para a economia nacional.

Enquanto isto nós lutamos com todas as forças para encontrar algo que nos faça acreditar que a situação não é assim tão ruim, que tudo se trata de derrapadas e destemperos de um insano. Não, não há insanos nessa história. Esse governo é a realização necessária de nossa história de sangue, de silêncio, de esquecimento. História de corpos invisíveis e de capital sem limite. Não há insanos. Ao contrário, a lógica é muito clara e implacável. Isso só ocorre porque quando é necessário radicalizar sempre tem alguém nesse país a dizer que essa não é ainda a hora.

Diante da implementação de um Estado suicidário só nos restaria uma greve geral por tempo indeterminado, uma recusa absoluta em trabalhar até que esse governo caia. Só nos restaria queimar os estabelecimentos dos “empresários” que cantam a indiferença de nossas mortes. Só nos restaria fazer a economia parar de vez utilizando todas as formas de contra-violência popular. Só nos restaria parar de sorrir, porque agora sorrir é consentir. Mas sequer um reles pedido de impeachment é assumido por quem diz fazer oposição. No que seria difícil não lembrar dessas palavras do evangelho: “Se o sal não salga, de que serve então?”. Deve servir só para nos fazer esquecer do gesto violento de recusa que deveria estar lá quando tentam nos empurrar nossa própria carne servida a frio.”

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Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, professor convidado das universidades de Paris VII, Paris VIII, Toulouse, Louvain e Stellenboch. É um dos coordenadores do Laboratório de Pesquisas em Teoria social, Filosofia e psicanálise (Latesfip/USP)

CRISE DO CORONAVÍRUS: O COLAPSO IMINENTE – Tomasz Konicz

Tomasz Konicz, 26.03.2020

O sistema capitalista mundial está a entrar na crise mais grave da sua história, cujas consequências – se não forem ultrapassadas rapidamente – podem deixar na sombra até mesmo a década de 1930.

Chegou novamente a hora do “nós” muito grande. Quando o capitalismo tardio, consumido pelas contradições internas, é tomado por outro surto de crise, surge então o momento de grandes apelos ao sentido do comum, à coesão e à disponibilidade para fazer sacrifícios. Todos os prisioneiros de uma sociedade profundamente dividida são igualmente chamados a fazer sacrifícios – do bilionário ao assalariado e ao sem-abrigo. Trata-se do grande e falso todo, quando inúmeros milhares de milhões têm de ser queimados para suportar um sistema destrutivo e irracional. Mas desta vez o sacrifício ao Mamon parece exigir, literalmente, sangue. O capitalismo é assim desmascarado como a religião secularizada que Walter Benjamin descreveu já em 1921.

Sangue para o deus sanguinário

Que tal o sacrifício da vida? É por uma boa causa, para a economia! É isso que eles estão realmente a discutir agora. Todos têm de fazer sacrifícios, Dan Patrick, vice-governador do Texas, exigiu recentemente aos seus cidadãos que todos fizessem sacrifícios. Afinal de contas, a economia tem de continuar a funcionar. Os assalariados deveriam, portanto, ir trabalhar apesar da pandemia, e os idosos, que morrem com mais frequência do que a média com o Coronavírus, deveriam simplesmente ser sacrificados para que os netos possam continuar a trabalhar – exigiu o vice-governador. Ele próprio estava preparado para dar a ida pela economia, afirmou Patrick, de 70 anos. O próprio Trump argumenta de forma semelhante, vendo o seu país “não ter sido feito para isso”, para “permanecer fechado”. Entretanto o presidente dos EUA fala em “reabrir” os EUA até à Páscoa.

Mas também na Alemanha há apelos para que a economia não seja arruinada por uma pandemia passageira. O Handelsblatt, por exemplo, lançou recentemente os excrementos do investidor Alexander Dibelius (McKinsey, Goldman Sachs) em forma de artigo, também defendendo que as rodas têm de voltar a rolar: “Mais vale uma gripe do que uma economia quebrada”. É precisamente em frases cínicas como estas, que na verdade só chegam aos holofotes da opinião publicada em tempos de crise, que o irracionalismo do modo de produção capitalista, que ameaça a civilização, é claramente evidente. O capital é o fim em si mesmo de um movimento de valorização sem limites, um fim em si mesmo ao qual tudo pode ser realmente sacrificado.

Tais apelos ao puro sacrifício de sangue pelo capital deixam claro o quão dramática é a situação. O actual surto de crise é muito mais forte do que a crise de 2008/09, e parece que o sistema pode realmente entrar em colapso no caso de uma pandemia prolongada devido às suas crescentes contradições internas – embora a política faça tudo “bem” a partir de uma perspectiva capitalista interna de mero combate à crise. O Coronavírus é apenas o gatilho que ameaça derrubar um sistema instável.

Economia em queda livre

A única questão agora é se as próximas recessões serão piores do que a enorme quebra em 2009, quando a economia global entrou em queda após o estouro das bolhas imobiliárias nos EUA e na UE, que só pôde ser amortecida por gigantescos pacotes de estímulo económico e emissão maciça de dinheiro. Desta vez, o choque primário vem do rápido colapso da procura, das interrupções na produção e da ruptura das cadeias de abastecimento globais existentes – e tem o potencial de desencadear uma contração historicamente sem precedentes no produto interno bruto (PIB) dos países no centro do sistema mundial capitalista tardio.

Mory Obstfeld, ex-chefe do FMI, comparou recentemente a contracção da economia agora em curso com as consequências da Grande Depressão da década de 1930. A gravidade da desaceleração económica fez das previsões correspondentes uma perda de tempo a uma velocidade recorde. O segundo trimestre de 2020 pode ver a pior queda nos EUA desde 1947; segundo o JPMorgan Chase & Co., há uma ameaça de contracção de 14% em comparação com o mesmo período do ano passado, o Bank of America prevê agora uma queda de 12%, enquanto o Goldman Sachs espera mesmo uma queda catastrófica de 24% para os próximos três meses.

O aviso mais gritante foi feito pelo Presidente do Banco da Reserva Federal de St. Louis, James Bullard, que teme uma queda no PIB de até 50% no final do segundo trimestre, em comparação com o primeiro trimestre de 2020. Isso faria com que a taxa de desemprego disparasse até 30% e corresponderia a uma queda de 25% na produção económica. A título de comparação: durante a Grande Depressão de 1929-33, que mergulhou de largos sectores da população na pobreza extrema, o PIB dos EUA caiu 25% no seu conjunto.

O factor decisivo aqui é o tempo: quanto mais tempo se leva a combater a pandemia, mais longo é o processo de paralisação da valorização do capital na indústria produtora de mercadorias, maior a probabilidade de uma depressão duradoura, o que tornaria uma grande parte dos assalariados economicamente “supérfluos” – mergulhando-os na miséria que ameaçaria a sua existência. A menos que o vírus “tome um rumo milagroso e desapareça nos próximos meses”, disse aos media o professor James Stock, de Harvard, será “como a Grande Depressão”. Na Califórnia, os presságios desta iminente catástrofe social já se fazem sentir: desde 13 de março, ou seja, no prazo de uma semana, cerca de um milhão de assalariados já se inscreveram como desempregados.

Os apelos absurdos mencionados no início para voltar ao trabalho, apesar da pandemia, e para se sacrificar em nome do deus-dinheiro, são levados precisamente por essa visão da compulsão fetichista da valorização sem limites do capital. Caso contrário, está ameaçada de colapso uma sociedade capitalista que só pode reproduzir-se socialmente se os processos de acumulação forem bem sucedidos. A produção de uma humanidade economicamente supérflua resultante da crise sistémica do capital, que se está a desenrolar por fases e que até agora tem sido largamente transmitida aos assalariados da periferia no decurso da concorrência de crise, também atingiria consequentemente os centros com toda a força se o combate à pandemia durasse muito tempo. “Nós” simplesmente não podemos oferecer protecção contra a pandemia dentro do quadro das coerções capitalistas.

Também na UE, o grande afinamento das perspectivas económicas já começou. A Comissão da UE assumiu inicialmente que o PIB da União Europeia iria cair 1,0%. Mas agora também estão a ser esboçados paralelos em Bruxelas com o ano de 2009. Espera-se que a economia da UE encolha em 2020 em grau semelhante ao que ocorreu após o estouro das bolhas imobiliárias durante o último surto de crise que levou à interminável crise do euro: naquela época, a contracção da produção económica foi de 4,5% na zona euro e 4,3% na UE. A repetidamente sacudida aliança europeia de Estados, já em erosão, deve dar um novo impulso às forças centrífugas nacionalistas, particularmente na área monetária. Uma verdadeira mentalidade de salteador já está a fazer incursões na “União” Europeia, onde máscaras cirúrgicas destinadas à Itália “desaparecem” repentinamente na Alemanha ou são simplesmente confiscadas pela Polónia e pela República Checa num acto de latrocínio de Estado.

O pior cenário para a República Federal da Alemanha pressupõe uma queda de 20% na produção económica, o que causará um aumento do desemprego de um milhão de assalariados. A previsão do famigerado Instituto Ifo, com sede em Munique, é de uma forte queda do PIB de 7,2% em 2020 no melhor cenário: “Os custos provavelmente ultrapassarão qualquer coisa conhecida de crises económicas ou desastres naturais na Alemanha nas últimas décadas”, advertiu o chefe do Ifo, Fuest. Dependendo do cenário, a crise custaria entre 255 e 729 mil milhões de euros. Da mesmo modo, o chefe do Bundesbank, Weidmann, argumentou que uma deriva “para uma recessão pronunciada” era inevitável. As consequências destas quedas económicas já estão a ser muitas vezes sentidas pelos assalariados: a VW colocou cerca de 80.000 trabalhadores em horário reduzido devido ao colapso da procura e à ruptura das cadeias de abastecimento.

As previsões globais iniciais, como as do FMI, também têm uma visão negativa do desenvolvimento económico, e também aqui se estabelecem paralelos com o crash de 2008. No entanto, a economia global é largamente dependente da China, onde os relatórios iniciais indicam que a produção já está a aumentar de novo. Isto poderia mitigar o crash global, mas o capitalismo de comando chinês, com o cunho de oligarquia estatal, não pode desempenhar o papel de locomotiva económica global, já que a China também está a sofrer com o peso das altas montanhas de dívidas. Além disso, a dependência da “República Popular” dos mercados de exportação ainda é muito forte, apesar de todos os sucessos parciais no fortalecimento da procura interna.

Na decrépita terra dos milhões de fantasia

Em vista deste colapso iminente da produção económica nos países centrais do sistema capitalista mundial, não é surpreendente que os políticos estejam agora a lidar de forma muito aberta com montantes de biliões. Estão a ser bombeados para o sistema a uma velocidade insana, como se não houvesse amanhã. As elites funcionais políticas estão realmente preocupadas em evitar o colapso. E permanece completamente em aberto se esses esforços podem prolongar a agonia do capital, criando novas bolhas, como fizeram quando as bolhas imobiliárias explodiram em 2008/09.

As dimensões das medidas de apoio são historicamente únicas – especialmente nos EUA. Na quarta-feira, democratas e republicanos concordaram no Congresso para um pacote de estímulo de 2 biliões de dólares (são 2 milhões de milhões!). O dinheiro de helicóptero, ou seja, o pagamento de dinheiro aos cidadãos para estimular a procura, tornou-se uma realidade nos EUA. Cada cidadão americano com uma renda anual inferior a 75.000 dólares recebe uma doação em dinheiro de 1.200 dólares, cada filho traz um adicional de 500 dólares. Para a “indústria da saúde” disfuncional e privada, serão 100 mil milhões, os pequenos empresários podem contar com 350 mil milhões, à grande indústria serão lançados 500 mil milhões para mantê-la viva, 150 mil milhões são destinados a cidades e municípios, etc.

Na UE e na RFA, todas as medidas de austeridade impostas por Schäuble & Co. à área monetária serão levantadas, enquanto o BCE anunciou um gigantesco programa de compra de títulos de 750 mil milhões de euros, a fim de, indirectamente, através do mercado de capitais, levar a cabo o que é, na realidade, o financiamento estatal que foi proibido aos antigos – e futuros – países em crise na zona euro. Entretanto, a UE flexibilizou as regras orçamentais dos Estados da zona euro, a fim de promover os investimentos estatais financiados pelo crédito, que são possíveis graças à inundação de dinheiro do BCE. Os travões da dívida de Schaubler estão suspensos na UE, bem como na RFA. Entretanto, o ministro da Economia, Peter Altmaier, disse estar disposto a considerar “medidas não convencionais”, como cheques para o consumo, depois de ter anunciado recentemente a nacionalização de empresas para as proteger de aquisições estrangeiras.

Devido a anos de excedentes de exportação sob a política alemã Begger-thy-Neighbor [empobrece o teu vizinho], a República Federal está de facto em condições de lançar programas de estímulo económico maciço que – em relação à produção económica – pode certamente acompanhar o ritmo da gigantomania americana. Berlim está a mobilizar um total de cerca de 750 mil milhões de euros para amortecer o impacto económico, acompanhado de novos empréstimos de cerca de 156 mil milhões. Esta dívida adicional deve ser usada para financiar todas as medidas sociais, injecções financeiras adicionais para as infra-estruturas em dificuldades, tais como o sistema de saúde destruído, e ajuda às empresas e aos trabalhadores independentes. Cerca de 600 mil milhões estão destinados a proteger as grandes empresas e indústrias exportadoras alemãs da falência ou de aquisições hostis através da nacionalização ou de empréstimos governamentais.

Esses milhares de milhões tornam-se insignificantes em relação aos biliões que os bancos centrais devem bombear para os mercados financeiros em retracção, a fim de evitar o colapso do sistema financeiro global. A principal preocupação aqui é evitar o estouro da bolha de liquidez que foi iniciada pelas medidas tomadas para combater as consequências do estouro das bolhas imobiliárias em 2008/09. São precisamente estas bolhas do mercado financeiro (bolha dot-com, bolha imobiliária, bolha de liquidez actual) ,que têm vindo a aumentar desde a segunda metade dos anos 90 e que continuam em expansão, que geram a montanha cada vez maior da dívida, representando agora 322 por cento do produto económico global, sob a qual o sistema global hiperprodutivo, dependente da procura impulsionada pelo crédito, ameaça entrar em colapso.

As medidas em pânico de biliões dos bancos centrais servem para salvar esta gigantesca torre de dívida do colapso. Incluem os 750 mil milhões em novas aquisições de obrigações pelo BCE, bem como as medidas num total de 1,5 biliões de dólares que a Reserva Federal norte-americana tomou num esforço para inverter o colapso dos mercados bolsistas norte-americanos. Em última análise, trata-se da emissão monetária, conhecida como “flexibilização quantitativa”, que é realizada na esfera financeira através da compra de obrigações e “títulos” dos bancos centrais, a fim de manter o sistema “líquido” (a subida dos preços dos títulos constitui o efeito inflacionário resultante). Entretanto, não há mais limites oficiais no Fed: “acções agressivas” são necessárias, a flexibilização quantitativa – ou seja, a emissão de dinheiro – será realizada sem limites, declarou o Fed em 23 de março.

O céu é o limite – até ao grande surto de desvalorização que poderá começar em conjunto com o colapso económico. O problema é precisamente que uma grande parte dessa montanha crescente de dívidas não pode mais ser honrada se a recessão durar mais tempo – especialmente no caso de empréstimos às empresas. O frágil castelo de cartas capitalista tardio nos mercados financeiros entraria então em colapso, com consequências desastrosas. Os primeiros cálculos do modelo correspondente levaram em conta a dívida das empresas de oito países – China, EUA, Japão, Grã-Bretanha, França, Espanha, Itália e Alemanha. No caso de um choque económico que fosse apenas metade do da crise financeira global de 2008, o passivo no valor de 19 biliões de dólares americanos (19 milhões de milhões) não seria mais atendido. Isso representaria 40% do total da dívida das empresas nos países em questão. No entanto, em muitas regiões, a crise ameaça assemelhar-se à queda de 2009.

Assim, as quedas económicas, que agora se pretende mitigar com biliões, ameaçam interagir com a sucata financeira do inchado sistema financeiro global, o que resultaria na sua desvalorização e num colapso irreversível. Este é o perigo real da actual dinâmica da crise: o colapso da montanha da dívida global desencadearia um verdadeiro colapso. A casta política reconheceu isto correctamente, e é por isso que as comportas do Fed e do BCE estão agora a ser abertas até ao fim.

A exigência arcaica de sacrifícios para acalmar novamente os mercados, como mencionado no início, tem de facto um verdadeiro núcleo na coerção objectiva do capitalismo. Trump está certo. Se o controle pandémico necessário for mantido por um longo período de tempo, os centros do sistema capitalista mundial estão literalmente ameaçados de colapso. A propósito, o anúncio de Trump de que os EUA voltariam às operações normais já na Páscoa, juntamente com o “pacote de estímulo económico” que havia sido acordado, causou o maior salto das cotações nos mercados financeiros dos EUA desde 1933. O Baal do dinheiro aceita benignamente os sacrifícios humanos anunciados. Mesmo que centenas de milhares de pessoas possam morrer miseravelmente, o capital tem de voltar a ser valorizado através do trabalho assalariado. A natureza irracional do capitalismo como uma “louca seita suicida” (Robert Kurz), como um desenfreado culto de morte na compulsão cega ao crescimento, torna-se evidente em tais momentos de crise.

Mas a necessidade de ultrapassar emancipatoriamente este sistema que se afunda na dissolução e na barbárie, cujos apologistas se transformam em sumos sacerdotes deste culto da morte, também se torna evidente. Em última análise, é uma pura necessidade de sobrevivência encontrar formas de reprodução social para além da totalitária socialização do valor. Esta é a única exigência política razoável que deve agora ser formulada em resposta ao desastre que se está a desenrolar.

Tomasz Konicz publicou recentemente o livro “Klimakiller Kapital. Wie ein Wirtschaftssystem unsere Lebensgrundlagen zerstört”. [“Klimakiller Kapital”. Como um sistema económico destrói as bases da nossa vida].

Original Coronakrise: Der kommende Absturz. Publicado em Lower Class Magazine, 26.03.2020. Tradução de Boaventura Antunes

Nossa última catástrofe ? – uma conversa com Paulo Arantes

Paulo Arantes é um dos mais importantes intelectuais brasileiros: isto porque sua ótica de estudos está voltada para o entendimento da crise da sociedade contemporânea, a sociedade da mercadoria, e seus reflexos na vida cotidiana do nosso país . Por isto, volta e meia publicamos aqui suas palestras, que ocorrem com frequencia em todo Brasil , visto ser ele requisitado dentro e fora da Universidade .

Numa linha de pensamento que ele não se furta em dizer: tem sua origem na Escola de Frankfurt, se destaca dos pensadores ortodoxos do chamado “ marxismo oficial” , tendo uma abordagem peculiar muito próxima dos teóricos da “Crítica do Valor” .

Trouxemos em vídeo uma destas palestras, desta feita realizada no Maranhão, na UFMA, um pouco depois das últimas eleições : “ Nossa última catástrofe ?“ é o seu nome, aliás muito sugestivo. Nela, ele nos remete ao Movimento Militar de 1964 como um elemento essencial para a compreensão da catástrofe de 2018 , com a chegada da chamada “ nova direita “ ao poder .

Poderíamos aqui, parafraseando Zuenir Ventura, dizer então que: “ 1964 é um ano que não acabou ” e que a chave da comprensão da ” catástrofe de 2018″ passa necessariamente na descoberta do que foi de fato a negociação do pacto da Anistia, asssinado entre os líderes da Ditadura e as lideranças do Campo Democrático, naquele momento de transição .

A primeira parte da palestra, que se estende pela maior parte do video inical, é o desenvolvimento deste tema, quado chegarmos então às jornadas de junho de 2013 e vemos a entrada em cena da “nova direita” e os enfrentamentos de rua com os jovens libertários, que naquele momento eram também fustigados pelo aparato repressivo do governo do PT.

Na segunda parte da Palestra, talvez a sua parte mais interessante , o professor Paulo Arantes nos convida à reflexão sobre o real caráter do grupo militar que junto com Bolsonaro capturaram o poder no Brasll, a sua articulação a nivel internacional com as forças conservadoras que fustigam os liberais em todo o mundo e a opção que fizeram em alinhar o país com os americanos num mundo multipolar claramente conflagrado.Numa abordagem bastante simples desvenda então o horrror que nos cerca : na verdade a tigrada está de volta e a guerra continua, agora em novos moldes. Na votação do então deputado Bolsonaro ao cassar a Presidente Dilma, ele nos relembra, isto ficou evidente : foi um grito de guerra e um aviso aos incautos .

Finalizamos aqui, e para a melhor compreensão do pensamento do professor Paulo Arantes estamos disponibilizando o video de uma entrevista que ele concedeu à equipe da Radio Comunitária Tambor, também em São Luiz .

Boas reflexões

Arlindenor Pedro

video 1

video 2

video 3

Entrevista com a equipe da Rádio Tambor

Feitiço de fundo de quintal – o PT, a crise e a economia política da barbárie – Marildo Menegat

O autor articula em três planos o argumento de que se chegou ao fim de um período curto da história recente do capitalismo, marcada por uma crise estrutural, em que ainda foi possível uma gestão da barbárie (administrar a regressão social sem rumo sobressaltos e rupturas abruptas da ordem institucional).
No primeiro plano, se defende que o lugar do PT na história, como um tipo original de partido surgido na era do colapso da periferia do capitalismo, foi o de realizar programaticamente (e pragmaticamente) a gestão da barbárie.
No segundo plano, se apresenta o conceito de ‘economia política da barbárie’ e se traça um paralelo entre a sua primeira apresentação histórica na Alemanha dos anos 1920 e a sua forma constitutiva na conjuntura atual, para, na última parte, se defender a ideia de que a ‘nova direita’ não pode ser reduzida ao conceito de nazi-fascismo. Ela é um fenômeno regressivo muito mais monstruoso e precisa ser entendida em sua novidade e amplitude destrutivas.

Publicado originalmente em Revista Brasileira de Cultura e Política em Direitos Humanos Metaxy 

I.

Poucas vezes na experiência brasileira foi possível se assistir em câmera lenta e – ainda por hora – sem ferimentos graves e escoriações expostas a um desmoronamento político nas proporções do ocorrido entre 2015-16. A destituição da presidenta Dilma Rousseff encerrou um ciclo da esquerda no país. Sua derrota não foi um erro de cálculo do estratego providencial – se bem que isto esteja presente como argumento racionalizante da inconsciência do que são estes tempos que queimam sem horizonte -, mas os limites de um governo de esquerda na condição atual de crise do capitalismo. Faz muito tempo que o petismo se descobriu uma força saída da cartola de um feiticeiro, seja lá quem ele for. A sua adesão ao realismo político não se realizou como um mero oportunismo de uma direção traidora do programa revolucionário que, na verdade, nunca existiu.

O PT já nasceu como produto de um tempo em que as revoluções andavam escassas e em baixa – em geral, de sinal trocado, como foi o caso das restaurações de veludo que se seguiram ao colapso dos países socialistas no leste europeu. Talvez, por isso, suas lideranças intuíram que a mística que os envolvia não seria, neste momento histórico, algo mais do que a tentativa de direcionar forças sociais impessoais, de letalidade crescente e assombrosa, para um leito benigno de soluções inovadoras para o bem de todos !

Será por muito tempo difícil arrumar pontos comuns de interpretação do que foram os últimos 35-40 anos da vida nacional, mas eles se farão urgentes, e no centro deles estará a esfinge do PT para ser decifrada. A resposta mais frequente e comum dada a esta inquirição pensou o PT como um instrumento tardio e inovador da modernização incompleta do país que precisava sem demora ser concluída. Que este Iluminismo fora de época tenha sido hegemonizado por variantes do marxismo tradicional2 não mudam em nada a matriz modernizante, apenas confirma a fraqueza de sua compreensão crítica do capitalismo e a expectativa de que este ainda possua alguma potencialidade emancipatória.

A própria conjuntura de origem do PT ajudou para que as respostas ao enigma embalassem um “bebê de Rosemary”. O movimento democrático que pôs fim a 20 anos de ditadura militar foi a fiel expressão de uma sociedade de massas, na qual o Brasil havia entrado de cabeça neste período (1950-80), sendo que a ala esquerda deste movimento democrático era constituída por diferentes movimentos sociais dirigidos pela autoridade e força do sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista. A unidade do processo que fundou o PT se deve em parte ao vazio produzido na esquerda com o esgotamento da hegemonia pecebista-populista após a derrota em 1964. Sendo que a luta armada que se seguiu a estes anos nunca foi uma alternativa a este vazio, mas tão somente um limbo  impotente, que ensaiou uma resistência diante de forças abismais, para que a chama da esquerda não se apagasse totalmente. E é nesta espécie de heroísmo menor que reside seu modesto lugar na história.

O espelho em que o PT procurou elaborar sua imagem revela uma história de peças autocompreensivas que foram sendo deixadas de lado por falta de sustentação no curso desastrado que o mundo adotava. A rapidez com que estes debates foram deixados de lado reveste-se de grande interesse, pois mostra o quanto este tempo foi uma aceleração contínua de um tempo de crise, em que as definições nunca foram mais do que provisórias – “até o dia em que a mão encontrou sua luva”.

A primeira destas grandes contendas foi aquela em que o partido se viu obrigado a esclarecer seu caráter – se seria um partido eleitoral de massas ou revolucionário? -, e foi feita no velho molde da discussão  entre social-democratas x esquerda revolucionária dos anos 1910. O inusitado da situação não era apenas o absurdo sugerido pela distância de duas guerras mundiais e uma ditadura militar que a separava do tempo originário deste debate. Ele aparecia também, e principalmente, na forma inovadora em que surgia este partido: uma agremiação ‘espontânea’ (arredia a formulações teóricas e a qualquer aprofundamento do debate que a distanciasse de um eixo prático), ao mesmo tempo em que era uma síntese dos fragmentos a que se reduzira o processo de modernização já no início do seu colapso e que, no entanto, não era percebido como tal3 .

Justamente por esta razão era possível se pensar o partido como a força propulsora da conclusão ‘civilizatória’ desta modernização a ser realizada politicamente pela classe trabalhadora (conceito este que por aquela época guardava um certo estranhamento, uma vez que se tratava de uma inovação que desbancava o realismo do uso corrente que se fazia do conceito de operariado), cuja heterogeneidade da composição era concebida mais como um resultado do atraso a ser suprimido – e que, por sinal, teria sido aprofundado pelas alianças políticas conservadoras que sustentaram o regime militar -, do que, como mais tarde ficou evidente, devido ao limite em que o trabalho como fundamento da sociedade burguesa havia ingressado4.

Este debate, porém, não durou muitos anos. Já no 5º Encontro Nacional do PT (1987) as resoluções programáticas assinalaram uma mudança de expectativas em relação a este debate e, ao invés de um esperado salto de autocompreensão, ocorreu a inflexão para outro dilema. O novo tempo do mundo se fechava, mas naquele momento ainda restavam espaços para simulações. Na linguagem gramsciana de tais resoluções, se formulava o entendimento do início de uma época de acúmulo de forças e de luta por hegemonia (e este é outro conceito chave para se entender, no caso, a metamorfose de social- democratas, ex-trotskystas, stalinistas reciclados, etc. que fundou uma convergência – não saberia dizer se socialista – que deu ao PT uma estrela a ser seguida e estabilidade duradoura) que deveria potencializar a realização de reformas que, na expressão de um dos teóricos de então, seriam revolucionárias caso atingissem a estrutura da concentração de riqueza e poder das classes dominantes. Muita gente compreendeu a mensagem, e não demorou para se começar a dizer (num mantra repetido até ontem) que reformas democrático-populares numa sociedade horrorosa como a brasileira seriam uma ‘verdadeira’ revolução. A conversão do PT às reformas (revolucionárias) também não durou muito. Em 1992 foi lançado um livro com o sentido profundo e, aparentemente, oculto, da nova chave em curso: o modo petista de governar (BITTAR: 1992). Neste livro, as experiências de ‘gestões democrático-populares’ do partido em prefeituras de diferentes regiões do Brasil serviram de laboratório para o desenvolvimento de técnicas inovadoras de ‘inversão de prioridades’ do uso do orçamento público5.

Se se pode dizer que o PT um dia teve um programa, esta foi a sua natureza: um modo de governar que  tinha na intenção do socialismo o papel de um tipo ideal de modernização a ser concluída por meio de políticas públicas, apesar de cada vez mais inviabilizadas pela violência da  crise e dos acontecimentos mundiais. Por hora, observe o ( a) leitor(a) que a densidade da crítica ao capitalismo nestas formulações se concentra basicamente no seu modo de ser, nunca na negação de seus fundamentos constitutivos. Não será fácil entender se foi o  espelho que envelheceu e embaçou as imagens, ou se foram as imagens que foram ficando fracas e desgastadas.

No início do século XXI, quando Lula venceu as eleições presidenciais, o vigor dos movimentos que deram origem ao PT já estava extinto. Não havia qualquer ascenso da luta de classes na rua, a não ser as 230 mil famílias mobilizadas pelo MST na beira de estradas distantes6. A crise que já havia destruído as forças ‘progressistas’ nacionais, tornando inócuo qualquer esforço de desenvolvimento nesta altura da história do capitalismo, realizou também um concomitante e imponenteapagão intelectual7 no outrora centro democrático, de onde pulsava uma das vertentes modernizadoras antioligárquicas do país; e, na segunda curva do rio, extinguiu a base material dos movimentos sociais que deram origem ao PT, a começar pelo movimentos sindicais .18 .
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O que se tem chamado de lulismo (SINGER: 2012; 51 e ss) não é um produto maior nem separado do PT. Como líder moderno numa sociedade de massas, a figura de Lula foi constitutiva de um partido que sempre se definiu como uma força de classe numa época histórica em que a sociedade burguesa com suas duas classes antagônicas bem definidas já havia desmoronado há tempo9. Apenas como líder operário, vestido de macacão azul, nosso personagem, desde os tempos em que trabalhava na fabrica de elevadores Villares, percebeu que não teria futuro político. Portanto, a partir de 1989, Lula foi produzido com a participação e entusiasmo do PT como um moderno líder de massas. As origens sociais deste tipo de liderança são apenas parte de um mito que serve para dar força mística ao projeto de se chegar ao poder. Portanto, quando as massas, que já não cabiam no conceito de operariado, passaram também a não caber no conceito de classes trabalhadoras – a não ser que o conceito de trabalho seja reduzido a uma sociologia vulgar e descaracterizado de sua definição dada pela economia política -, viram em 2002, na figura do líder, um personagem providencial, este fato foi um misto de acaso e consistência de uma trajetória que se fundiram para produzir os últimos anos da história do PT.  Nesta fase, o modo petista de governar deu ao partido seu caráter definitivo de ser um competente gestor da barbárie, e – ao que parece – este será o lugar original que o PT ocupará na história.

Para se entender este constructo emblemático do lulismo é necessário explicar um pouco mais qual o conteúdo que está presente na expressão consistente trajetória histórica.A formação do PT, diferente de outros partidos tradicionais, como PMDB, PSDB, DEM, etc., foi essencialmente um resultado do que havia de novo no seu tempo. Trata-se do único partido com alcance de massas no Brasil. Semelhante invenção existe apenas nas igrejas pentecostais, que também são, ao seu modo, fenômenos de organização de massas. Lula da Silva e Edir Macedo, nesse sentido e em diversos níveis, são absolutamente contemporâneos, se bem que os propósitos e a mística de Lula ainda sejam distintos do caráter de ralé (ARENDT: 2012; 218 e ss) que Edir Macedo representa. Tanto o PT como qualquer igreja pentecostal, para existirem, precisaram de um contato direto com as massas. O PT, na fase de sua construção, nos anos 1980, formou milhares de militantes que representaram uma força viva da democratização do país e da disseminação de hábitos republicanos, como a disposição para o debate e a polêmica. Uma de suas maiores qualidades era a capacidade de pensar coletivamente e de debater com a sociedade seus rumos – por mais ilusórias que fossem suas propostas.

Esta militância treinada foi consolidando, com o passar dos debates internos e suas definições, o que Robert Michels chamou de lei de ferro da burocracia10. Na fase mais recente da história do PT, acompanhando o aprofundamento da regressão à barbárie da segunda metade dos anos 1990, esta burocracia se especializou em conceber técnicas de
‘governabilidade social’ – como se diz no jargão partidário.

Quando Hugo Chávez, na Venezuela, tentou replicar alguns aspectos deste modelo de gestão, logo percebeu que lhe faltava este patrimônio da militância – e buscou suprir tal falta na disposição colaboração dos cubanos com assessoria técnica atualizada e inovadora de brasileiros. Outro aspecto que tornou possível a elaboração das técnicas de governabilidade social foi  a imensa quantidade de dados e estatísticas que a burocracia estatal produz – IPEA, IBGE, PNAD, censo, etc. De posse destes dados e com as técnicas já testadas em  administrações locais, foi possível replicá-las com relativo sucesso na governança nacional. Será pouco provável que a eficiente gestão da barbárie que o PT criou seja mantida, não apenas por razões do aprofundamento da crise e da falta de dinheiro, ou mesmo pela mera falta de vontade política dos partidos conservadores que o desalojaram do poder em 2016, mas, principalmente, pela perda desta máquina de cargos de confiança  que são o savoir fare de engenharias sociais como Bolsa Família, ProUni, Pronera, Pronaf, Peti, etc, cujo segredo não está no Estado, e sim “numa cultura a partir de um projeto” do PT11. A ação destes militantes organizada por um modo de governar produziu  a sutilidade de uma intencionalidade que, por razões bastante complexas, não encontrou  mais respaldo no frágil equilíbrio do arranjo social que a sustentou durante 14 anos.

Há dois aspectos importantes para se pensar o que vem por ai depois do desmoronamento.

O primeiro é que uma máquina de influência absolutamente moderna como o PT, cuidadosamente pouco ‘ideológica’, não chegou ao fim dos seus dias. Irá por certo se renovar, porém, qual a linha destes novos dias não é possível ainda saber. O outro aspecto é mais importante. O colapso da sociedade brasileira entrou num tempo de aceleração. Uma economia política da barbárie se consolidou e é ela que explica os movimentos de alterações dos direitos trabalhistas, das aposentadorias, do teto de gastos e, inclusive, do campo de conduta dos indivíduos cuja liberdade de escolha os direitos humanos tentavam preservar. Esta nova intencionalidade, mais crua e brutal, precisa ser entendida para além de simples maniqueísmos políticos, pois, ao que tudo indica, nunca esteve ausente no período anterior que por hora findou.

II.

A ideia de uma economia política da barbárie pode parecer um pleonasmo, como se esta forma social fundada nas objetivações abstratas do trabalho pudesse ser mais do que um tempo da pré-história da humanidade (MARX). A diferenciação que este conceito procura estabelecer, porém, é um corte histórico para explicar uma época em que as práticas da esfera econômica da vida social precisam se utilizar da rapina e do saque com uma frequência acachapante, ao ponto de se tornarem leis gerais que, por alguma razão alheia ao entendimento dos indivíduos nelas envolvidos, são pressentidas como necessárias para que tudo não desmorone.

A diferença destas práticas com a ‘assim chamada acumulação primitiva de capital’ (MARX), é que elas surgem historicamente em países capitalistas cujas formas essenciais da sociabilidade de uma sociedade produtora de mercadorias estão constituídas, depois de há muito o capitalismo ter superado sua fase originária e, portanto, não ter por finalidade direta expropriar os produtores de seus meios de vida para impor o trabalho assalariado. Logo, não se trata da destruição e conquista de uma formação social não-capitalista, mas de uma fuga para frente da acumulação de capital, quando esta já bateu no limite. A primeira vez que estas práticas aparecem amplamente no ocidente ‘civilizado’, salvo engano, foi pelas mãos do nazismo na década de 1930.

A estupidez da irrupção organizada do mal-estar em que a sociedade burguesa se vê com relativa frequência arrastada desde o início do século XX, em que as massas sã mobilizadas e instrumentalizadas politicamente, ganhou no nazismo contornos que merecem ser sondados nesta chave explicativa de um modelo da economia política da barbárie. O sentido metódico da destruição que o nazismo representou até hoje desconcerta, tanto porque, a princípio, uma destruição deveria ser o oposto de uma atividade ordenada, algo como a força explosiva de uma dinamite, como também porque não precisou de qualquer preparação ou treinamento para ser realizada com o esmero e empenho de boa parte dos alemães. A mesma racionalidade que mantinha em pé a sociedade foi espontaneamente usada para perseguir e linchar grupos sociaisconceitualmente definidos’ como inimigos da nação12. Ao que parece, esta estupidez e (ir) racionalidade estavam dadas a priori e faziam parte naturalmente do modo constitutivo da totalidade social. Sua intencionalidade, no entanto, ainda não havia sido posta e dirigida a serviço de uma destruição voluntária daquelas proporções. Uma das características conhecidas do capitalismo é reduzir em grande medida a forma de existência dos indivíduos às necessidades da economia.

Transformar as pessoas em força de trabalho e impor sua mercantilização como único meio de sobrevivência foi um dos capítulos mais brutais deste modo de produção. Este processo de reificação, como já assinalou alguém13, não produz nenhuma consciência que não seja o reflexo imanente das leis deste sistema. Trata-se de uma luta pela sobrevivência mantida nos níveis mais vulgares de uma animalização socialmente condicionada.

Robert KURZ (2014: 247 ss) na exposição do seu conceito de crise, observa que o limite lógico do capital já está presente nas crises da segunda metade do século XIX. A cada nova crise, desde então, este limite vai enfrentando dificuldades crescentes para remover as barreiras que se opõem à acumulação, o que obriga o capital a produzir mecanismos de compensação que funcionam como verdadeiras fugas para a frente, adiando o tempo de uma crise sem saída e, ao mesmo tempo, preparando uma letalidade (da natureza e da humanidade) sempre maior no seu desenlace.

Assim, o aumento da composição orgânica do capital produziu legiões de desempregados na Europa desde o final do século XIX, que puderam se socorrer da desgraça anunciada graças à fome de mão de obra da economia norte-americana e da expansão imperialista. Contudo, estes mecanismos perderam em parte sua força nas primeiras décadas do século XX. Na Alemanha dos anos 1920, após a derrota da Primeira Guerra, a massa de desempregados será enorme e não poderá contar com a imigração em massa como solução do seu dilema existencial. Depois da crise de 1929 ela chegará, na época da tomada do poder pelo partido nazista, a 6 milhões de pessoas. São massas humanas cuja sobrevivência foi reduzida ao elementar das necessidades animais do corpo e seus instintos reificados – que fazem a vez de uma racionalidade reflexiva que foi extorquida pelo próprio processo social – não fazem muito mais do que refletir as leis da economia14. Pouca ou nenhuma resistência podem oferecer aos horrores que o desespero liberta nestas horas. Como a concorrência é a lei da gravidade da existência social nestas condições, onde não cabem todos, que se reabilite o leito de Procusto. O sentido de muitas ações do nazismo, transbordantes de irracionalidade, pode ser encontrado na racionalidade desta lógica daeconomia política de saque.

A construção de instrumentos de terror pelo Estado policial nazista é uma boa medida do que aqui vai dito. Deles fizeram parte a reabilitação da pena de morte, os campos de concentração, além de revisões draconianas do Código Penal a partir de 1933 ( 15) , configurando um sistema de construção, reconhecimento e controle dos chamados ‘inimigos internos’, que permitiu ao Estado mobilizar a explosão de ódio resultante de condições muito frustrantes da existência de milhões de indivíduos na legitimação e organização do trabalho forçado em larga escala e do saque generalizado de riquezas que seriam pretensamente usadas para o restabelecimento da grandeza da pátria, perdida após a assinatura do Tratado de Versalhes em 1919.

O primeiro nível desta organização coletiva da brutalidade se concentrou no uso hipertrofiado do sistema penal, em que a sua função então central serviu para a mobilização de todos os esforços da sociedade para saltar o relativo atraso da Alemanha em relação aos seus competidores diretos no mercado mundial. Para isso, o incentivo de um espírito sacrificial, que pudesse contribuir para a imposição de regimes de trabalho intensificados, foi a tônica. A pena como privação de liberdade, por exemplo, andou naturalmente abraçada ao trabalho16: este, diz EVANS (2014: 113), “estava se tornando uma função cada vez mais importante dos campos. Contudo, a mão de obra era sacrificável, e as condições dos novos campos eram mais duras que em seus predecessores em meados da década de 1930″.

Por esta mesma época, dois autores judeus alemães – George Rusche e Otto Kirchheimer17, escreveram uma obra pioneira sobre a origem das prisões no capitalismo, e observam queum dos princípios que organiza o regime prisional em cada país é a less eligibility, emque o tratamento dado ao apenado nunca deve ser melhor do que as condições de vida das camadas mais pobres desta sociedade. O nazismo modificou o referencial desta lógica.Ele fez as massas perceberem que era possível um degrau mais baixo da existência -aquele reservado aos inimigos nas prisões e campo de trabalho forçado -, em que os sacrifícios e sofrimentos poderiam ser piores do que a pobreza abjeta que era comum – e deveria ainda continuar sendo por anos – entre os trabalhadores arianos18. Conseguiu, dessa forma, induzir – pelo medo que os instrumentos de terror criavam – algo como a”nacionalização das atitudes e dos sentimentos da maioria dos indivíduos” (MARCUSE: 1997, 148).

De uma espécie de garantia civilizatória mínima que tal princípio define, o padrão nazista das prisões passou a deixar visível o estado de barbárie como medida para toda a nação. O segundo nível dos instrumentos de terror, concomitante ao primeiro, era a forma mais crua da economia de saque, que pode ser vista na politica de “arianização da economia”, que se iniciou com a remoção de todos os judeu-alemães de cargos públicos19 e prosseguiu na sua “expropriação (…) pelo regime20, uma vasta campanha de pilhagem com poucos paralelos na história moderna” (EVANS: 427). Este “sistema de pilhagem, expropriação e peculato” (idem: 458), ampliado para a rapina de nações inteiras, permaneceu a todo vapor nas invasões alemãs durante toda a Segunda Guerra Mundial.

Tal sistema foi, no todo, uma economia política de imposição por meios de terror de um regime forçado de mais trabalho na retaguarda e de “despedaçamento da substância física das economias nacionais arruinadas” (KURZ: 2016; 41) no front da guerra.

III.

Mudanças de comportamento coletivo tão acentuadas e, aparentemente, repentinas, podem ter muitas causas. Num tipo de sociedade em que, como foi dito, a existência é reduzida às funções econômicas, o comportamento grupal dos indivíduos, por um instinto de sobrevivência, inclina-se a seguir as necessidades dos movimentos inconscientes desta estrutura e sua dinâmica. Eles acabam personificando estas funções – o que Marx chamou de ‘máscaras de caráter’ – como se fossem um modo seu de ser, absolutamente pessoal e intransferível. São em parte, na definição do seu comportamento social, personificações de um ‘enredo teatral’ cujo fim desconhecem, não obstante pressentirem estar em jogo nesta representação a decisão sobre a conservação ou não de sua sobrevivência nos padrões que lhe são habituais. Para um autor como Norbert ELIAS (1997: 42), este é o problema chave de qualquer processo civilizador, ou seja, “como as pessoas conseguem satisfazer suas necessidades animalescas elementares, sem  reciprocamente se destruírem (…) ou causarem repetidos danos umas às outras em busca dessa satisfação”. O nazismo corporificou, em certo sentido, a aparição prematura na história de um tipo de máscara de caráter das formas de existência impostas pelas condições de uma economia política da barbárie. Ele, entre outras coisas, representou a reação do homem branco (ariano)21 à primeira experiência histórica de dissolução dasociedade urbana industrial durante a grande depressão dos anos 1930, quando se viu curvado diante dos limites lógicos internos do capital que produziram, como um de seus efeitos explosivos, entre tantos outros, uma sobra de seres humanos – sobra se considerados na habitual, e no capitalismo incontornável, forma existencial total de força de trabalho – em muito superior à expectativa da população relativa então existente. Foi um monstro do seu tempo cuja monstruosidade ainda podia ser mandada de volta às trevas de onde veio.

Os mecanismos de compensação que o capital produz para forçar suas fugas para frente nestes momentos de presentificação dos limites lógicos, naquela ocasião, que incluiu, como condição desta fuga, uma destruição inaudita da Europa e parte da Ásia, ainda tinham um horizonte de manobras para a acumulação bastante promissor com a expansão do fordismo. No entanto, enquanto esta máscara de caráter brutal foi necessária, como uma intencionalidade social, ela representou “uma tendência latente para soltar-se, para afrouxar o controle da própria consciência, para a violência e a brutalidade – tendência essa que, enquanto coerção externa do controle estatal (…), só podia, no máximo, manifestar-se informalmente nos interstícios privados da rede de controle do Estado – tornou-se formalizada e, para os grupos institucionalizados, elevada  a um tipo de comportamento exigido e sustentado pelo próprio Estado” (ELIAS: 390).

Não é possível ir muito mais longe nas comparações de hoje com a conjuntura das duas grandes guerras no século XX. A crise atual é uma forma mais ampla e profunda daquela. Suas saídas, portanto, são mais breves e abertamente destrutivas, sem que com isso se acrescente, ao serem acionadas, qualquer acumulação nova de valor ao capital. As bolhas especulativas, que são um desses mecanismos de compensação da atualidade, simulam grandezas abstratas de riqueza sem substância (trabalho vivo) que, a cada estouro, afundam mais profundamente a humanidade no pântano de uma dessocialização catastrófica (KURZ). Além desses limites comparativos, o parentesco da nova direita com o nazismo mantém diferenças relevantes. Aquela figura de horror do espírito, que foi a máscara de caráter do nazismo, não é a mais adequada à sociedade atual. O fim do mundo que foi vivido com a clareza do extermínio em massa dos campos de concentração e da destruição radioativa nos anos 1933-45, após os 30 anos de trégua que o fordismo representou, voltou a campo com força e potências multiplicadas. Sua atuação não é um acontecimento isolado, mas o curso sólido em que a humanidade vive seu cotidiano em todos os quadrantes do planeta22. Não são apenas as guerras que andam se generalizando, como no Oriente e na África, ou a implosão social por meio de novos tipos de guerras civis em todos os continentes, mas até mesmo a destruição da natureza entrou numa nova fase. Conceitos como o de aquecimento global, talvez, sejam demasiado genéricos para dar conta do que anda se perdendo sem volta23

.A dessocialização catastrófica é um deslocamento do processo outrora  intencionalmente orgânico24 das formações sociais modernas, que produziam sua unidade em torno da dinâmica imanente da identidade das personificações constitutivas destas formas sociais (capital, trabalho e terra). Como esta unidade foi implodida pela crise, seu lugar vai sendo ocupado por relações sociais sustentadas no uso direto da violência25, que procura manter conectado o que ainda funciona da reprodução social da velha ordem agônica. Por isso, tal situação não tem como impedir a fragmentação sócio-territorial em fraturas, que expõe as falhas do que Norbet Elias chamou de “mecanismos de autocoação”. Na verdade, nestas frestas vão se disseminando revoltas privadas contra estes mecanismos. Lasch considerava estas reações, que já eram visíveis nos anos 1990, e foram características das elites pós-modernas, um sintoma do descompromisso destas elites com instituições que – como o Estado de Direito – um dia foram a base da nação e implicaram no imperativo da autolimitação dos impulsos coletivos para mantê-la viva.

No Brasil, o marco do colapso deste compromisso data do curto governo de Fernando Collor. Ele foi a demarcação da personificação – e o início da maturação de uma máscara de caráter que recentemente se vestiu de amarelo e saiu às ruas – de uma constelação docapital dominada por fluxos financeiros de dinheiro sem valor. Sem ser seu oposto, a era FHC aprofundou este caráter ao mesmo tempo em que amainou seus exageros. Assim, foi se produzindo uma reação dos indivíduos que ainda estão conectados com os fluxos de dinheiro – predominantemente homens brancos – contra os perdedores locais da concorrência global – em geral mulheres, índios e negros. Na medida em que a aparente produção da riqueza deste tempo pode se desconectar do trabalho vivo, pois é um resultado do capital fictício que produz a objetivação ilusionista da transformação de dinheiro em mais dinheiro por meio quase exclusivo de mecanismos financeiros (D-D’), a existência de seres humanos supérfluos – para usarmos o termo cunhado por ARENDT (2012; 223) para designar o primeiro momento da história em que tal fenômeno apareceu- e a obrigação de um cuidado coletivo com o azar de seus destinos, seria uma ‘coação social’ contra o ‘direito’ ao livre usufruto dos triunfos que a justiça meritocrática do mercado proporciona.

Além do mais, estes mesmos inutilizados sociais seriam os ‘culpados’ da enorme sobrecarga de impostos que os vencedores são obrigados a pagar e que, nem por isso, os livra de estarem expostos à violência que um estado crescente de guerra civil de novo tipo produz26. Os governos do PT, por seu turno, em alguns aspectos simbólicos e secundários – mas de grande efeito social – representaram um recalque momentâneo a esta reação. Por ter se iniciado num ponto em que as políticas neoliberais da década anterior haviam fracassado e produzido uma insolvência do Estado – literalmente, um estado de emergência -, e em que a gestão tucana já estava completamente desmoralizada, esta irrupção da estupidez coletiva refluiu para outros caminhos, tal como pode ser visto na produção cinematográfica deste período27. As técnicas de gestão da barbárie desenvolvidas com o modo petista de governar a nível federal deram outro sentido aos impostos pagos – apesar desses gastos sociais serem pequenos quando comparados aos aportes de capital feitos neste mesmo período ao BNDES – e ao compromisso com políticas públicas para os miseráveis e deserdados da dissolução dos laços sociais. Por isso, quando o arranjo que deu sustentação aos governos do PT se desfez28, estes setores irromperam do passado recente cobrando juros compostos, como se tivessem passado séculos sofrendo ‘ofensas abusivas’. Parece que agora nada mais os segura. A nova direita não é conservadora no mesmo sentido da velha direita. Esta era uma reação à dissolução das raízes agrárias das sociedades tradicionais em processo de modernização 29, enquanto a nova direita que está em cena é uma reação à dissolução catastrófica da sociedade urbana em curso desde os anos 1990. Porém, diferente da esquerda política (marxismo tradicional), sua reação não é a defesa de uma volta a algum tempo perdido do passado – mesmo quando isso aparece eventualmente em seus discursos, como no saudosismo pela ditadura militar, isto tem força marginal no argumento.

Antes, ela é o desejo incontido de se livrar de alguém que, no fundo, estorva e ameaça a continuidade ou melhora do seu padrão atual de existência. Este sentimento é retirado da própria representação (fantasiosa) da reprodução social, na qual, por acaso, estes indivíduos ainda estão contidos e julgam, por alguma crença, que dela participam por um direito seu desde sempre garantido. Contudo, como a crise em curso é a dissolução da reprodução capitalista e do aparelho de Estado, o que leva “os serviços públicos desapareçam quase por completo” (KURZ: 2016, 41), assim como ao agigantamento das funções policiais do Estado, vai se formando, então, uma versão contemporânea, mais brutal e permanente da economia política da barbárie: “Em paralelo nasce uma economia de saque em que é despedaçada a substância física da economia nacional arruinada – da e na qual grupos da população, segundo critérios étnicos ou religiosos, caem uns sobre os outros numa continuação da concorrência por outros meios” (KURZ: idem, pp. 41-2).

Curiosamente, a nova direita anda mais ideologizada do que a esquerda. Seus pensamentos são fantasmagorias que cumprem a função de digerir a crise, dando um fundo de dever inexorável aos horrores que está disposta a realizar para que o curso do fim do mundo permaneça intacto. Sua identidade com a destruição é monstruosa. Este monstro é toda a luz que resta nas trevas que esta crise produziu Como o capital, ele não tem mais para onde fugir. No dia 17 de abril de 2016 ela deu uma demonstração de ser mais do que uma revolta privada: ela é uma rebelião política de massas.

Notas

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Algo revelador deste caráter é a negativa recorrente de quadros dirigentes do partido ao serem perguntados se são “pessoas de esquerda”. Há o caso clássico de Lula, que numa entrevista à Revista Carta Capital (2005) disse: “Você sabe que eu nunca gostei de me rotular de esquerda. Eu sou torneiro mecânico e cheguei à Presidência da República por obra e graça da paciência…” (cf.http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/presidencia/ex-presidentes/luiz-inacio-lula-da- silva/entrevistas/1o-mandato/2005/07-12-2012-entrevista-exclusiva-concedida-pelo-presidente-da-republica-luiz-inacio-lula-da-silva-revista-carta-capital). No filme Entre Atos, de João Moreira Salles (2002), ele havia desconversado sobre sua profissão para, algum tempo depois (2007), se dizer uma metamorfose ambulante: “Eu não tenho vergonha e muito menos tenho razão para não dizer que eu mudo de posição e há muito tempo eu digo que prefiro ser considerado uma metamorfose ambulante, ou seja, mudando à medida que as coisas mudam” (cf.http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL205291-9356,00.html). Mais recentemente, uma Marta Suplicy ressentida e sentindo-se em casa no PMDB, se saiu com uma pérola do gênero: “eu nunca me coloquei como alguém de esquerda” (cf. http://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes- 2016/2016/09/1814981-nunca-me-coloquei-como-alguem-que-e-de-esquerda-diz-marta-suplicy.shtml).

2 (…) o termo ‘marxismo tradicional’ faz referência não a uma tendência histórica específica do marxismo, mas, em geral, a todos os enfoques teóricos que analisam o capitalismo desde o ponto de vista do trabalho e caracterizam esta sociedade, fundamentalmente, em termos de relações de classe, estruturadas pela propriedade privada dos meios de produção e por uma economia regulada pelo mercado. As relações de dominação são entendidas, então, principalmente, em termos de dominação de classe e exploração”. POSTONE, M. Tiempo, trabajo y dominación social – una reinterpretación de la teoria crítica de Marx. Madrid: Marcial Pons, 2006, p. 48.

3 Roberto SCHWARZ (1987) foi uma das exceções a perceber o fim de linha da modernização brasileira nos anos 1980, cf. Que horas são?, em especial “O fio da meada”, pp. 71-77.

4 Sobre este tema ver o prefácio de R. SCHWARZ (novamente!), ao livro O colapso da modernização de Robert Kurz (1992).

5 Cf. BITTAR, J. Modo petista de governar. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1992. Poucos anos depois veio a público uma nova carga de formulações coletivas sobre a cara do PT nas administrações populares, organizado por Vicente TREVAS, com o sugestivo título de Desafios do governo local: o modo petista de governar. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1997. Esta também é, ao que parece, a origem da inspiração para a discussão do fundo público no Brasil feita por OLIVEIRA, F. de cf. Os direitos do anti-valor – a economia política da hegemonia imperfeita. Petrópolis: Vozes, 1998.

6 Cf. MENEGAT, M. Unidos pela catástrofe: o que há de novo nos movimentos sociais da América Latina. In: DE PAULA, D.; MENDONÇA, S. R. Sociedade civil: ensaios históricos. Jundiaí: Paco Editorial, 2013, proponho neste artigo uma interpretação desta nova modalidade de revolta social, que foi a mobilização desta época do MST, distinta da leitura comum de mera luta pela terra.

7 Cf. ARANTES, P. E. “Apagão”, in: Zero à esquerda. São Paulo: Conrad, 2004; pp. 13-24.

8 “O iluminismo, em todas as suas variantes e graus de desenvolvimento, sempre se limitou a submeter à crítica as situações e manifestações que de algum modo se atravessavam no caminho da esmagadora roda do movimento da valorização. Por isso mesmo, a sua crítica das realidades anteriores à modernidade apenas constituía uma crítica do poder, na medida em que as formas tradicionais de dominação eram censuradas pela sua falta de eficiência e pela sua falta de capacidade de ingerência no íntimo dos indivíduos. O iluminismo foi, desde o início, o perscrutar dos pontos fracos do poder, com o intuito de fortalecer este último sob uma forma nova, objectivada que, ao mesmo tempo, seria ideologizada como forma natural inultrapassável. O início da crítica iluminista foi, por conseguinte, simultaneamente o fim de toda a crítica, o desaparecimento da crítica na forma auto-referente da subjectividade burguesa”. KURZ, R. Razão Sangrenta: 20 teses contra o chamado Iluminismo e os valores ocidentais, cf. http://obeco.planetaclix.pt/rkurz103.htm

9 O momento clássico deste antagonismo na formação social brasileira teria sido entre 1945 e 1964.

10 Sobre a pertinência do uso deste conceito especificamente ao PT, ver RIBEIRO, P. F. “Robert Michels e a oligarquia do Partido dos Trabalhadores cf:http://www.teoriaepesquisa.ufscar.br/index.php/tp/article/viewFile/186/152). Para demonstrar sua hipótese de validade deste conceito na descrição do PT, Ribeiro analisou o ‘grau de estabilidade dos dirigentes’ do partido em diversas instâncias e, principalmente, a formação de um ‘núcleo estratégico’ na Executiva Nacional a partir de 1995. A coincidência da formação deste núcleo e a consolidação do seu pensamento programático em torno do modo petista de governar pode ser atestado na autoria do prefácio e de diversos artigos do livro Desafios do poder local (1997). Estes mesmos dirigentes/autores foram o núcleo duro dos governos de Lula da Silva, apesar de ter ficado parcialmente debilitado com as conhecidas defecções depois do escândalo do mensalão (2003-10)

11

“Embora usemos corretamente – porque também se forma uma cultura a partir de um projeto, de um enunciado – a expressão modo petista de governar (…)”; GENRO, T. Combinar democracia direta e democracia representativa, in: TREVAS, V. Desafios do governo local: o modo petista de governar. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1997, p. 14 (Grifos no origin

12 A construção do inimigo era, por exemplo, para um capitão de polícia responsável pela deportação de um grupo de judeus de Viena à Riga, tornar conhecido para todos a elaboração do “verdadeiro conceito de judeu” (cf. GILBERT; 259). Esta exigência tornaria impensável qualquer tratamento ‘humanizante’ dado a eles. O ‘objeto’ deveria render-se à ideia que temos dele. Nada mais assombroso e… kantiano!

13 Cf. LUKÁCS, G. História e consciência de classe: estudos de dialética marxista. Lisboa: Escorpião, 1974.

14 “As principais objeções, repetidas muitas vezes” no Congresso norte-americano contra uma imigração em massa dos judeus perseguidos na Europa “eram o medo de ‘inundar’ os já sobrecarregados orfanatos, a futura competição por empregos durante um período de elevado desemprego (…)” (GILBERT; 221-2).

15 “As novas leis e os maiores poderes policiais aumentaram em até 50% o número de detentos de todos os tipos (…), até chegar a um ápice de 122 mil em fevereiro de 1937, comparados a meros 69 mil dez anos antes” (EVANS: 2014, 103).

16 “O trabalho forçado de início não era uma grande prioridade, visto que se pensava que solaparia os projetos de criação de empregos do lado de fora, mas esta política em breve foi revertida, e em 1938 até 95% dos detentos estavam engajados no trabalho forçado em muitas prisões” (EVANS: 2014,101).

17 Rusche iniciou a escrita de Punição e estrutura social nos anos 1930, para depois desaparecer num campo de concentração. Kirchheimer o concluiu no exílio nos EUA em 1938.

18 “Dentro das prisões, as condições pioraram rapidamente sob o terceiro Reich. Os nazistas costumavam acusar o serviço carcerário de Weimar de ser mole com os criminosos, mimando os detentos com comida e entretenimento provavelmente muito melhores do que eles experimentavam no lado de fora. (…). A rápida expansão dos números logo criou mais problemas de higiene, nutrição e bem-estar geral para os prisioneiros. As cotas de alimentos diminuíram até os prisioneiros reclamarem da perda de peso e fome supliciante. Infestação por vermes e doenças de pele tornaram-se ainda mais comuns do que haviam sido nas condições longe de perfeitas de Weimar” (EVANS: 2014, 101).

19 Cf. GILBERT: 2006, pp. 122-3.

20 “Em 23 de fevereiro [de 1939] (…), Goering anunciou em Berlin que todos os judeus deveriam, dentro de duas semanas, entregar ‘todas as jóias e outros objetos de ouro, prata e platina, bem como diamantes, pérolas e outras pedras preciosas. (…) A desobediência acarretaria uma multa, ou a prisão com trabalho forçado por até dez anos” (GILBERT: 2005, 206).

21 Podia-se ler numa cartilha nazista: “A ressurreição alemã (…) é um evento masculino”; (EVANS:

2014, 383). “Na primeira metade do século XX, na época das guerras mundiais industrializadas e das crises da economia mundial, o moderno patriarcado produtor de mercadorias já parecia fracassar nas suas contradições internas e dissolver-se no caos e na barbárie – com manifestação extrema no sistema de aniquilamento de seres humanos (…)”. (KURZ: 2016, 75-6).

22

“Algo de fundamental mudou na química da terra”, diz um grupo de cientistas que propõe modificar a nomenclatura para definir a era geológica em que estamos vivendo. “Uma maioria sólida [do grupo de 30 pesquisadores] também apoiou a proposta de definir o início do Antropoceno como a década de 1950”. http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2016/09/1811580-cientistas-querem-criar-oficialmente- a-era-geologica-do-homem.shtml

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Numa entrevista obrigatória, o reconhecido paleontólogo Altair Sales Barbosa explicou o que foi o resultado da expansão do agronegócio pelo Centro-Oeste do Brasil nos últimos 30 anos: “O cerrado está extinto e isto leva ao fim dos rios e reservatórios de água”. Cf.

http://www.jornalopcao.com.br/entrevistas/o-cerrado-esta-extinto-e-isso-leva-ao-fim-dos-rios-e-dos- reservatórios-de-agua-16970/

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Esta afirmação é relativa, obviamente. Caio Prado Jr. assinalou no seu Formação do Brasil Contemporâneo que no aqui não havia se formado um ‘nexo moral’ que daria aos grupos sociais justamente esta organicidade.

25 Apenas alguns dados sobre o crescimento da função policial do Estado brasileiro deste período. Primeiro, o relativo ao grande encarceramento, por exemplo, em que o número de encarcerados do início dos anos 1990 saltou de 114 mil

(http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/12/121226_presos_brasil_aumento_rw.shtml) para

622.000 em 2014 (cf http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/06/numero-de-presos-dobra-em-10- anos-e-passa-dos-600-mil-no-pais.html ). Outro dado: os números de homicídios que passou de 13 mil em 1980, para 56 mil em 2014. Cf. http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-07-02/brasil-bate- recorde-em-homicidios-e-fica-em-setimo-lugar-entre-100-paises.htm

26 Sobre este conceito no Brasil ver MENEGAT, M. Estudos sobre ruínas. Rio de Janeiro: Revan, 2012.

27 O crítico de cinema Inácio Araújo diz algo interessante sobre o filme Cidade de Deus, de Fernando Meireles, e a conjuntura em que foi feito: “Estranho momento, o de Cidade de Deus (2002): o país estava saturado de um tipo de política e se preparava para eleger Lula presidente, pendendo, portanto para políticas sociais. Ao mesmo tempo, o filme anuncia o surgimento de uma nova sensibilidade. Rompe-se, a rigor com o cinema novo e com a ideia de que o banditismo é, antes de tudo, uma questão de política. Ainda não estamos na era de Tropa de Elite, mas a caminho: o jovem bandido é perverso por natureza, assim como o rapaz que aspira à função de repórter fotográfico é pessoa de boa índole.O sucesso do filme deve-se, em parte, é inegável, a uma espécie de saturação de um olhar – esse olharsempre benevolente com o banditismo. Ele nos diz que estávamos cheios disso. Os espectadores que fizeram o sucesso desse tipo de olhar pendiam, na esfera política, para outro lado. Nem sempre somos fáceis de entender”. Cf Ilustrada, Folha de São Paulo, 3 setembro de 2016.

28 Sobre este tema ver MENEGAT, M. O fim da gestão da barbárie. Revista Territórios Transversais – resistência urbana em movimento, nº 3, Rio de Janeiro, 2015; pp. 13-15.

29 Conforme pode ser lido na obra clássica de HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: J. Olímpio, 1982.

Marildo Menegat Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

A importância da imaginação pós capitalista – David Harvey

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Dando continuidade ao tema a que nos propomos na seção emancipacionismo deste blog, publicamos a entrevista da Revista Fórum feita com o geógrafo David Harvey sobre os caminhos da sociedade que emergirá no pós capitalismo, publicado pelo jornal Diário da Liberdade. Boa leitura .

Arlindenor Pedro

Revista Forum – Original em David Harvey interview: The importance of postcapitalist imagination. Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu, publicado em redecastorphoto.

No próximo mês fará cinco anos desde que o banco Lehman Brothers foi protagonista do maior caso de falência bancária na história dos Estados Unidos. O colapso sinalizou o início da Grande Depressão, a crise mais substancial do capitalismo mundial desde a 2ª Guerra Mundial.

Como entender os fundamentos desse sistema agora em crise? E, com o sistema em guerra contra a classe trabalhadora, sob o disfarce da “austeridade”, como imaginar um mundo depois disso?

Poucos pensadores geraram respostas mais influentes para essas perguntas que o geógrafo marxista David Harvey. Em entrevista recente, ele fala a Ronan Burtenshaw e Aubrey Robinson [da revista Red Pepper] sobre esses problemas:

Red Pepper: Você está trabalhando agora num novo livro, The Seventeen Contradictions of Capitalism [As 17 contradições do capitalismo]. Por que focar essas contradições?

David Harvey: A análise do capitalismo sugere que são contradições significativas e fundamentais. Periodicamente essas contradições saem de controle e geram uma crise. Acabamos de passar por uma crise e acho importante perguntar que contradições nos levaram à crise? Como podemos analisar a crise em termos de contradições? Um dos grandes ditos de Marx foi que uma crise é sempre resultado das contradições subjacentes. Portanto, temos de lidar com elas próprias, não com os resultados delas.

Uma das contradições a que você se dedica é a que há entre o valor de uso e o valor de troca de uma mercadoria. Por que essa contradição é tão fundamental para o capitalismo e por que você usa a moradia para ilustrá-la?

-Temos de começar por entender que todas as mercadorias têm um valor de uso e um valor de troca. Se tenho um bife, o valor de uso é que posso comê-lo, e o valor de troca é quanto tenho de pagar para comê-lo.

A moradia é muito interessante, nesse sentido, porque se pode entender como valor de uso que ela garante abrigo, privacidade, um mundo de relações afetivas entre pessoas, uma lista enorme de coisas para as quais usamos a casa. Houve tempo em que cada um construía a própria casa e a casa não tinha valor de troca.

Depois, do século 18 em diante, aparece a construção de casas para especulação – construíam-se sobrados georgianos [reinado do rei George, na Inglaterra] para serem vendidos. E as casas passaram a ser valores de troca para consumidores, como poupança. Se compro uma casa e pago a hipoteca, acabo proprietário da casa. Tenho, pois, um bem, um patrimônio. Assim se gera uma política curiosa; “não no meu quintal”, “não quero ter gente na porta ao lado que não se pareça comigo”. E começa a segregação nos mercados imobiliários, porque as pessoas querem proteger o valor de troca dos seus bens.

Então, há cerca de 30 anos, as pessoas começaram a usar a moradia como forma de obter ganhos de especulação. Você podia comprar uma casa e “passar adiante”; compra uma casa por £200 mil, depois de um ano consegue £250 mil por ela. Você ganha £50 mil, por que não? O valor de troca passou a ser dominante. E assim se chega ao “boom” especulativo.

Em 2000, depois do colapso dos mercados globais de ações, o excesso de capital passou a fluir para a moradia. É um tipo interessante de mercado. Você compra uma casa, o preço da moradia sobe você diz “os preços das casas estão subindo, tenho de comprar uma casa”, mas outro compra antes de você. Gera-se uma bolha imobiliária. As pessoas ficam presas na bolha e a bolha explode. Então, de repente, muitas pessoas descobrem que já não podem usufruir do valor de uso da moradia, porque o sistema do valor de troca destruiu o valor de uso.

E surge a pergunta: é boa ideia permitir que o valor de uso da moradia, que é crucial para o povo, seja comandado por um sistema louco de valor de troca? O problema não surge só na moradia, mas em coisas como educação e atenção à saúde. Em vários desses campos, liberamos a dinâmica do valor de troca, sob a teoria de que ele garantirá o valor de uso, mas o que se vê frequentemente, é que ele faz explodir o valor de uso e as pessoas acabam sem receber boa atenção à saúde, boa educação e boa moradia. Por isso me parece tão importante prestar atenção à diferença entre valor de uso e valor de troca.

Outra contradição que você comenta envolve um processo de alternar, ao longo do tempo, entre a ênfase na oferta, na produção, e ênfase na demanda, pelo consumo, que se vê no capitalismo. Pode falar sobre como esse processo apareceu no século 20 e por que é tão importante?

-Uma grande questão é manter uma demanda adequada de mercado, de modo que seja possível absorver seja o que for que o capital esteja produzindo. Outra é criar as condições sob as quais o capital possa produzir com lucros.

Essas condições de produção lucrativa quase sempre significam suprimir a força de trabalho. Na medida em que se reduzem salários (pagando salários cada vez menores), as taxas de lucro sobem. Portanto, do lado da produção, quanto mais arrochados os salários, melhor. Os lucros aumentam. Mas surge o problema: quem comprará o que é produzido? Com o trabalho arrochado, onde fica o mercado? Se o arrocho é excessivo, sobrevém uma crise, porque deixa de haver demanda suficiente que absorva o produto.

A certa altura, a interpretação generalizada dizia que o problema, na crise dos anos 1930 foi falta de demanda. Houve então uma mudança na direção de investimentos conduzidos pelo Estado, para construir novas estradas, o WPA [serviços públicos, sob o New Deal] e tudo aquilo. Diziam que “revitalizaremos a economia com demanda financiada por dívidas” e, ao fazer isso, viraram-se para a teoria Keynesiana.

Saiu-se dos anos 1930 com uma nova e forte capacidade para gerenciar a demanda, com o Estado muito envolvido na economia. Resultado disso, houve fortes taxas de crescimento, mas as fortes taxas de crescimento vieram acompanhadas de maior poder para os trabalhadores, com salários crescentes e sindicatos fortes.

Sindicatos fortes e altos salários significam que as taxas de lucro começam a cair. O capital entra em crise, porque não está reprimindo suficientemente os trabalhadores. E o “automático” do sistema dá o alarme. Nos anos 1970, voltaram-se na direção de Milton Friedman e da Escola de Chicago. Passou a ser dominante na teoria econômica, e as pessoas começaram a observar a ponta da oferta, sobretudo os salários.

E veio o arrocho dos salários, que começou nos anos 1970. Ronald Reagan ataca os controladores de tráfego aéreo; Margaret Thatcher caça os mineiros; Pinochet assassina militantes da esquerda. O trabalho é atacado por todos os lados, e a taxa de lucros sobe. Quando se chega aos anos 1980, a taxa de lucro dá um salto, porque os salários estão sendo arrochados e o capital está se dando muito bem. Mas surge o problema: a quem vender aquela coisa toda que está sendo produzida.

Nos anos 1990 tudo isso foi recoberto pela economia do endividamento. Começaram a encorajar as pessoas a tomarem empréstimos; começou uma economia de cartão de crédito e uma economia de moradia pesadamente financiada por hipotecas. Assim se mascarou o fato de que, na realidade, não havia demanda alguma. Em 2007-2008, esse arranjo também desmoronou.

O capital enfrenta essa pergunta, “trabalha-se pelo lado da oferta ou pelo lado da demanda?” Minha ideia, para um mundo anticapitalista, é que é preciso unificar tudo isso. Temos de voltar ao valor de uso. De que valores de uso as pessoas precisam e como organizar a produção de tal modo que satisfaça à demanda por aqueles valores de uso? Hoje, tudo indica que estamos em crise pelo lado da oferta. Mas a austeridade é tentativa de encontrar solução pelo lado da demanda. Como resolver isso?

-É preciso diferenciar entre os interesses do capitalismo como um todo e o que é interesse especificamente da classe capitalista, ou de uma parte dela. Durante essa crise, a classe capitalista deu-se muitíssimo bem. Alguns saíram queimados, mas a maior parte saiu-se extremamente bem. Segundo estudo recente, nos países da OCDE a desigualdade econômica cresceu significativamente desde o início da crise, o que significa que os benefícios da crise concentraram-se nas classes mais ricas. Em outras palavras, os ricos não querem sair da crise, porque a crise lhes traz muitos lucros.

A população como um todo está sofrendo, o capitalismo como um todo não está saudável, mas a classe capitalista (sobretudo uma oligarquia que há ali) está muito bem. Há várias situações nas quais capitalistas individuais operando conforme os interesses de sua classe, podem de fato fazer coisas que agridem muito gravemente todo o sistema capitalista. Minha opinião é que, hoje, estamos vivendo uma dessas situações.

Você tem repetido várias vezes, recentemente, que uma das coisas que a esquerda deveria estar fazendo é usar nossa imaginação pós-capitalista, e começar por perguntar como, afinal, será um mundo pós-capitalista. Por que isso lhe parece tão importante? E, em sua opinião, como, afinal, será um mundo pós-capitalista?

-É importante, porque há muito tempo trombeteia-se nos nossos ouvidos que não há alternativa. Uma das primeiras coisas que temos de fazer é pensar a alternativa, para começar a andar na direção de criá-la.

A esquerda tornou-se tão cúmplice com o neoliberalismo, que já não se vê diferença entre os partidos políticos da esquerda e os da direita, se não em questões nacionais ou sociais. Na economia política não há grande diferença. Temos de encontrar uma economia política alternativa ao modo como funciona o capitalismo. E temos alguns princípios. Por isso as contradições são interessantes. Examina-se cada uma delas, por exemplo, a contradição entre valor de uso e valor de troca e se diz; “o mundo alternativo é mundo no qual se fornecem valores de uso”. Assim podemos nos concentrar nos valores de uso e tentar reduzir o papel dos valores de troca.

Ou, na questão monetária: claro que precisamos de dinheiro para que as mercadorias circulem. Mas o problema do dinheiro é que pessoas privadas podem apropriar-se dele. O dinheiro torna-se uma modalidade de poder pessoal e, em seguida, um desejo-fetiche. As pessoas mobilizam a vida na procura por esse dinheiro, até quem não sabe que o faz. Então, temos de mudar o sistema monetário: ou se taxam todas as mais-valias que as pessoas comecem a obter ou criamos um sistema monetário no qual a moeda se dissolve e não pode ser entesourada, como o sistema de milhagem aérea.

Mas para fazer isso, é preciso superar a dicotomia Estado / propriedade privada, e propor um regime de propriedade comum. E, num dado momento, é preciso gerar uma renda básica para o povo, porque se você tem uma forma de dinheiro antipoupança é preciso dar garantia às pessoas. Você tem de dizer “você não precisa poupar para os dias de chuva, porque você sempre receberá essa renda básica, não importa o que aconteça”. É preciso dar segurança às pessoas desse modo, não por economias privadas, pessoais.

Mudando cada uma dessas coisas contraditórias chega-se a um tipo diferente de sociedade, que é muito mais racional que a que temos hoje. Hoje, o que acontece é que produzimos e, em seguida, tentamos persuadir os consumidores a consumir o que foi produzido, queiram ou não e precisem ou não do que é produzido. Em vez disso, temos de descobrir quais os desejos e vontades básicas das pessoas e mobilizar o sistema de produção para produzir aquilo. Se se elimina a dinâmica do valor de troca, é possível reorganizar todo o sistema de outro modo. Pode-se imaginar a direção na qual se moverá uma alternativa socialista, se nos afastamos da forma dominante da acumulação de capital que hoje comanda tudo.

Fonte: Revista Fórum