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Reflexões sobre a Melancolia -Arlindenor Pedro

Refletir, pensar , saber o por quê : eis aí uma das características marcantes dos seres humanos – características próprias que se acentuam em alguns, noutros menos.

Sentir, provar, viver intensamente o que se apresenta, eis também aí uma outra característica, que também se acentua em uns, em outros não tanto.

Ser melancólico e saber o que é melancolia, creio, sempre acompanhou o homem em sua tragetória pela terra. Melancolia, então, tornou- se um grande enigma : por uns vivido, por outros pretensamente desvendado .

Embora presente em todas as culturas foi entre os gregos da antiguidade que se destacou a sua racionalização, ou seja, a real compreensão do que poderia ser.

Enigma presente para muitos pensadores da época foi em Aristoteles que conseguimos ter uma sistematizacão para ela, que chegou até nós após ter influenciado várias sociedades.Ele faz então uma clara associação da melancolia à criatividade!



“Por que razão todos os que foram homens de exceção, no que concerne à filosofia, à ciência do Estado, à poesia ou às artes, são manifestamente melancólicos, e alguns a ponto de serem tomados por males dos quais a bile negra é a origem (…)?” (Aristóteles, O Problema XXX, 953 a, 10).

Talvez guiados por tal pergunta , artistas procuraram retratar tal comportamento , cientistas em buscar suas causas, e naturalmente, melancólicos em vivê-la na sua intensidade, como na Renascenca e no Romantismo , onde era a ” doença bem-vinda ” pois enriquecia a alma.

Certamente, a gravura ‘Mellancolia de Albrecht Durer produzida neste período , seja a obra mais conhecida sobre o tema, atravessando os tempos e nos colocando frente à frente com tal enigma.

No nascimento da era industrial, através de Freud  com seu texto “Luto e Melancolia” parece que nos aproximamos mais do momento de desvenda- la . Para Freud, a melancolia é um estado emocional semelhante ao processo de luto ( semelhante, e não igual) pois não há a perda que o caracteriza. A melancolia pode ocorrer sem haver uma causa definida ( sic).

Mas na sociedade moderna, principalmente nos dias da contemporaneidade, constatamos que a melancolia não é mais bem-vinda, pois se choca com o espírito endonista necessário a um “bem-viver” e de uma padronização normótica.

No início do século XX, Edward Bernays, sobrinho de Freud que vivia nos Estados Unidos, apropriou-se dos estudos do renomado cientista, que via no interior da mente humana áreas ainda não conhecidas, a que chamou de inconsciente ,   onde existiriam forças que moldavam o seu  comportamento.  Observou, então, que essas forças podiam ser controladas e desenvolveu através de técnicas da psicanálise e de conselhos de seu tio, mecanismos que pudessem induzir ao consumo de bens, mesmo fora das reais necessidades do pretenso consumidor .

Em Bernays vemos a gênese do que foram as técnicas de propaganda e controle da mente que resultaram para humanidade tanto as grandes ações de propaganda do nazi-fascismo e do “socialismo real” da terceira internacional  quanto as campanhas de massa do agressivo capitalismo americano: aquilo que Guy Debord chamou de “espetáculo concentrado”, contidas nas sociedades totalitárias e no “espetáculo difuso das sociedades ditas democráticas ( in, “A Sociedade do Espetáculo “).

Após apropriar-se da força de trabalho do homem o capital parte então , através das técnicas de propaganda ( da qual E.Bernays é pioneiro) para o contrôle e manipulação do que poderia ser seus gostos, sentimentos, desejos …enfim: a sua alma.

É por demais conhecido o estudo de caso da campanha de marketing criada por Bernays no início do século passado, que levou as mulheres americanas ao hábito de fumar em público (coisa até então inimaginável ) .

Ocorre que a melancolia se apresenta como necessária de ser controlada , por todos os meios disponíveis criados pela psicologia, psicanálise e psiquiatria.

No mundo racional, onde tudo é previsível, a melancolia não tem lugar. Tem que ser substituída por atitudes onde todos julguem que têm o contrôle.As emoções serão então contidas dando lugar à relações humanas totalmente reificadas.

Mas será que este controle se dá na sua totalidade? Ou, deve a humanidade reagir a tal desígnio traçada por um sistema sem sujeitos? Mais ainda: a melancolia deve ser extirpada e tratada como uma doença hostil ao homem?

Na ação concreta da obra de arte o artista exercita claramente a sua liberdade livrando- se das amarras a ele imposta . A obra que apresenta ao mundo, e que a partir dai não mais lhe pertencerá, torna-se um instrumento de libertação, onde cada um fará de acordo com seu senso estético, suas considerações . Tocar a sensibilidade , chegar até a alma , eis aí o caminho do artista.

No seu filme Melancolia, o cineasta dinamarquês Lars Von Trier nos coloca diante da temática da euforia e do sofrimento através de um filme onde não existe saída, e onde o final não é feliz. Tenta desta forma tocar a nossa alma com um tema onde no passado debruçaram-se tantos pensadores .

Trata-se de um filme cheio de simbolismos de uma atmosfera onde o espectador escolherá qual a melhor identificação com seus personagens, numa situação limite de um fim próximo – não de um ser individualmente, mas da totalidade do mundo onde vivemos, com suas cidades, florestas, animais, etc.

Vemos então o embate entre os diversos personagens , com suas posturas perante o mundo, porém destacando – se a relação entre duas irmãs  com visões diametralmente opostas perante a vida e também perante ao fim que se aproxima.

Para horror de muitos Von Trier nos faz refletir sobre a morte ( no sentido da extinção da espécie ) e do sofrimento, que tanto queremos afastar de nós. Apresenta-nos um planeta com uma trajetória de colisão pré  determinada , sem possibilidades de mudanças : o que fazer em um momento que não há nada a fazer ?

Ao desespero de sua irmã perante tal questão Justine , a personagem afetada pela melancolia , vê como perfeitamente lógico o desfechar trágico de suas vidas. Como se fosse o esperado : afinal, isto não fará nenhuma importância no Universo!

Trazendo este tema para a nossa reflexão , Von Trier nos mostra a sensibilidade e o desajuste com o mundo real dos melancólicos. E ao mesmo tempo a necessidade do equilíbrio entre a razão e o sentimento , em mundo racional onde o deus Apólo  reina absoluto afastando os sentimentos dionisíacos da humanidade .

Talvez não estejam errados os que veem no planeta que aparece no filme , que chamam Melancolia, e que irá se chocar com a Terra, uma alusão aos perigos que rodam a nossa e outras espécies em um mundo erigido pelo capitalismo  com sua devastação ambiental. Salta aos olhos de todos que o planeta está em perigo ! E nesse sentido, os melancólicos são mais conhecedores do perigo que corremos . Por flertarem sempre com os limites ( coisas que os ditos normais procuram se afastar ) compreendem melhor o medo, tão constante nos dias de hoje .

Não restam dúvidas que o homem contemporâneo aprisionado por um sistema que não o permite ver a totalidade do mundo em que vive tornou-se limitado e regrediu na sua capacidade de observar e sentir a realidade. Muito,  por ter combatido e afastado a melancolia da sua existência  tornou pobre a sua alma. Ao contrário do homem da renascença e do romantismo , este um ser mais completo por não temer esta forma de ser e o medo contido na existência. Afinal, para ele a melancolia era um doença bem-vinda, pois sua tristeza enriquecia a alma!.



Serra da Mantiqueira, 6 de novembro de 2013

Arlindenor Pedro

O mundo global visto do lado de cá – Milton Santos por Silvio Tendler




 

Um pensador à frente do seu tempo,

Milton Santos foi um geógrafo brasileiro, considerado por muitos como o maior pensador da história da Geografia no Brasil e um dos maiores do mundo. Destacou-se por escrever e abordar sobre inúmeros temas, como a epistemologia da Geografia, a globalização, o espaço urbano, entre outros.

Conquistou, em 1994, o Prêmio Vautrin Lud, o Nobel de Geografia, sendo o único brasileiro a conquistar esse prêmio e o único geógrafo fora do mundo Anglo-Saxão a realizar tal feito. Além dessa premiação, destaca-se também o prêmio Jabuti de 1997 para o melhor livro de ciências humanas, com “A Natureza do Espaço”. Foi professor da Universidade de São Paulo, mas lecionou também em inúmeros países, com destaque para a França.

A obra de Milton Santos caracterizou-se por apresentar um posicionamento crítico ao sistema capitalista e aos pressupostos teóricos predominantes na ciência geográfica de seu tempo. Em seu livro “Por uma Geografia Nova”, em linhas gerais, o autor criticou a corrente de pensamento Nova Geografia, marcada pela predominância do pensamento neopositivista e da utilização de técnicas estatísticas.

Diante desse pensamento, propôs – fazendo eco a outros pensadores de seu tempo – a concretização de uma “Geografia Nova”, marcada pela crítica ao poder e pela predominância do pensamento marxista. Nessa obra, defendia também o caráter social do espaço, que deveria ser o principal enfoque do geógrafo.

Um dos conceitos mais difundidos e explorados por esse geógrafo foi a noção de “meio técnico-científico informacional”, que seria a transformação do espaço natural realizada pelo homem através do uso das técnicas, que difundiram graças ao processo de globalização e a propagação de novas tecnologias.

Sobre a globalização, Milton Santos era um de seus críticos mais ferrenhos. Em uma de suas mais célebres frases, ele afirmava que “Essa globalização não vai durar. Primeiro, ela não é a única possível. Segundo, não vai durar como está porque como está é monstruosa, perversa. Não vai durar porque não tem finalidade”.

Em uma das suas obras mais difundidas pelo mundo – Por uma outra globalização –, muito lida por “não geógrafos”, Milton Santos dividiu o mundo em “globalização como fábula” (como ela nos é contada), “globalização como perversidade” (como ela realmente acontece) e “globalização como possibilidade”, explorando a ideia de uma outra globalização.

Além disso, o geógrafo proporcionou uma fecunda análise a respeito do território brasileiro, abordando as suas principais características e inserindo a produção do espaço no Brasil sob a lógica da Globalização. Nessa obra, de mais de 500 páginas, propôs, inclusive, uma nova regionalização do Brasil, dividido em quatro grandes regiões.

Milton Santos faleceu em 24 de junho de 2001, vítima de complicações proporcionadas por um câncer, aos 75 anos. Deixou uma vasta obra, com dezenas de livros e uma infinidade de textos, artigos e capítulos. Seu pensamento ainda é considerado atual e muitas das críticas dos movimentos antiglobalização fundamentam-se em suas ideias.


Nos anos finais do século XX , de repente o brasileiro percebeu que o mundo está globalizado.

Com as mudanças nas leis de telecomunicação, com as privatizações em várias áreas de infra-estrutura , um mundo que ficava distante chega ao dia-a-dia de todos. As antenas parabólicas, os celulares, o fim da reserva na área da informática, a chegada de grande montadoras e redes de super mercado muda substancialmente os hábito de consumo dos brasileiros. A palavra globalização passa a fazer parte do vocabulário nacional. Mesmo os acontecimentos internacionais, como o fim da União Soviética, a queda do Muro de Berlim, o redesenho internacional com uma nova OTAN e Mercado Comum Europeu são novas questões que deixam muitos perplexos.

Um dos poucos intelectuais que entendeu perfeitamente o o que acontecia e as suas consequências para o povo brasileiro foi o geógrafo Milton Santos, um dos grandes pensadores marxistas , perseguido pela ditadura militar por suas opiniões sobre a nossa cultura, economia e política, sempre advogando a construção de um pais independente e dirigido pelo povo.

Silvio Tendler , arguto e buscando nas suas obras contar e mostrar a realidade brasileira entendeu a importância deste intelectual e numa obra primorosa fez um dos mais importantes documentários sobre a globalização, dentro da ótica dos povos periféricos, que tornou- se um clássico da filmografia brasileira. Milton Santos muito cedo nos deixou mas sua voz está presente e muito atual.Talvez por isto este seja um dos documentários mais discutidos nas comunidades em todo o Brasil pelos que buscam entender o que é afinal esta tal de globalização.

Vejam o filme e reflitam !

Arlindenor Pedro




 




 

A questão judaica e a crise da modernidade – Arlindenor Pedro

O espectador que assiste ao filme Kadoch ( no Brasil , Laços Sagrados ) , do cineasta israelense Amos Gitai, o faz sobre uma grande tensão, pois com ele penetramos no universo de uma das mais antigas seitas religiosas da humanidade – os ultra- ortodoxos judeus do bairro de Mea Shaerim, de Jerusalém- cenário escolhido pelo diretor para contar a história de duas mulheres submetidas às leis patriarcais inflexíveis desta comunidade judaica .

As duas irmãs vivem problemas recorrentes para as mulheres da comunidade : uma tem que se sujeitar a um casamento arranjado pelo líder espiritual, embora esteja apaixonada por um cantor de fora da comunidade, e a outra é obrigada a se afastar do marido a quem ama , pois após 10 anos, não conseguiram ter filhos.

Através deste fio condutor, vamos tomando contato com os hábitos da comunidade, que se prepara avidamente para o Amargedon e para esperada chegada do Messias, o qual fará a redenção do povo judeu, através da vingança imposta a seus inimigos que os sujeitaram à escravidão durante séculos de história .

No desenrolar da trama as duas mulheres agem de forma diferente à opressão dos homens : uma se rebelando, abandonando a comunidade e o marido imposto, e a outra se submetendo as leis religiosas , passando a viver uma vida mais subalterna ainda, fora do casamento que foi desfeito por imposição do rabino.

Talvez por seu realismo, ou mesmo por penetrar tão fundo nos mistérios dos ortodoxos judeus , Amos Gitai não tenha conseguido na época os recursos oficiais para concluir a película, tendo que se capitalizar fora de Israel, com seus contatos na Europa .

Concluído, o filme teve grande êxito , pois trouxe à tona um debate sobre as características e o poder do fanatismo religioso em Israel, um Estado que erroneamente parece laico para muitos, trazendo -nos a lembrança de pontos em comum com outros tipos de fanatismo existente nas duas outras religiões monoteístas – a cristã e a muçulmana : todas dominadas por práticas preconceituosas e belicosas, com a total sujeição das mulheres a um domínio patriarcal inconteste.

Nos filmes dirigidos durante a sua carreira , Amos Gitai, tem implementado a eles uma característica peculiar, pelo seu realismo e coragem de colocar a nu as questões do Estado Judeu e a sua explosiva relação com a comunidade palestina, sendo visto como diretor polêmico , aplaudido por muitos, mas duramente criticado pelos grupos radicais da direita israelense .

Ao trazer para as telas o tema religioso ele nos mostra o papel que as seitas religiosas vão adquirindo em Israel, onde deixaram de ser coadjuvante e vão assumindo claramente a vanguarda política no país ( uma tendência que ocorre nos países vizinhos, no Oriente médio , e em todo o planeta, na contemporaneidade).

Penso então, que caminhamos para grandes embates religiosos, onde neste campo, os novos profetas disputarão a hegemonia do pensamento do homem globalizado.

Sobre este tema, o professor inglês John Gray, em seu livro “Missa Negra-Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias,” recentemente abordou a política do neoconservadorismo do grupo do ex-presidente George Bush e do seu principal aliado na época , o britânico Blair e o seu novo trabalhismo, que levou à invasão do Iraque e o confronto com os movimentos radicais islâmicos, numa guerra de característica plenamente religiosa. Esta política se fez presente após o 11 de setembro e molda hoje o pensamento de amplas parcelas conservadoras em todo o mundo. Nesta obra ele faz uma extensa análise deste movimento de direita, influenciado pelo pensamento de F. Fukuyama acentuando, inclusive, a sua diferença de outro movimento de direita contemporâneo, o neoliberal de Margareth Thatcher, que ele classifica como um movimento utópico.

“Os neoliberais que moldaram as políticas ocidentais na década de 1990 eram em sua maioria economistas bem pensantes com uma fé ingênua em sua própria versão da razão. O avanço do livre mercado podia precisar de ajuda-por exemplo, com programas de ajuste estrutural de impostos a muitos países emergentes pelo Fundo Monetário Internacional; mas haveria de se disseminar e ser aceito em decorrência da crescente prosperidade que propiciasse. Este inocente credo não se adaptava às duras realidades do mundo posterior à Guerra Fria, e logo seria substituído pela fé mais militante do neoconservadorismo. Os neoconservadores entenderam que os mercados livres não haveriam de se disseminar pelo mundo num processo pacífico: ele teria de ser assistido por uma aplicação intensiva de força militar. O mundo posterior à Guerra Fria seria uma era de sangue e ferro, e não de paz.” (in, “Missa Negra”, John Gray, 2008).

Continuando…


“Muitos dos neoconservadores que constituem a base de poder de G. W.Bush esperam um Fim promovido por intervenção divina. Encaram os conflitos mundiais – especialmente os que ocorrem em terras bíblicas-como prenúncio do Armageddon, uma batalha final da luta entre a luz e as trevas. Outros esperam ser poupados dessas provações numa êxtase em que serão conduzidos ao céu. Em ambos os casos, o mundo imperfeito em que a humanidade tem vivido logo chegará ao fim” (idem).

Esta influência crescente das forças neoconservadoras nos E. Unidos, segundo ele seria um fato novo e, na minha opinião, poria em perigo uma característica do capitalismo americano que Marx tinha acentuado na sua obra de juventude – ” A questão judaica”, onde proferiu a célebre frase:

– “só nos Estados livres da América do Norte [EUA] perde a questão judaica seu sentido teológico, para converter-se em verdadeira questão secular” .

Marx não conheceu o Estado de Israel, mas todos sabemos que na sua primitiva fundação prevaleceu a ideia de um Estado secular, oriundos do sionismo do século IX. Mas, desde que o partido direitista Likud chegou ao poder em Israel, em 1977, a influência dos inúmeros grupos religiosos ortodoxos aumentaram consideravelmente, enquanto as posições laicas do sionismo de esquerda foram cada vez mais empurrada para fora do governo , deixando de ter peso na sociedade judia, que vem mudando suas características de forma acelerada .

As instituições onde os trabalhistas obtinham seu maior prestígio , como os sindicatos, as corporações , a Central Sindical; as comunidades autónomas como os kibuts, são pálidos arremedo da força que desfrutavam, perdendo a sua importância social, muito por obra da globalização e da entrada de Israel no mercado global que cobrou importantes dividendos (sua juventude,por exemplo, hoje despolitizados , entregou-se a lógica do consumo de massas).

Isto se deve, em grande parte , as sucessivas ondas migratórias ( do oriente e mais tarde dos antigos países do Leste Europa, notadamente da antiga União Soviética) que deram um novo perfil ao Estado judeu.

O sociólogo e pesquisador brasileiro, José Maurício Rodrigues, na seu trabalho “A Sociologia Israelense e a Crise do Consenso Sionista”, apoiando-se nas teses do importante sociólogo israelense Shmuel Eisenstadt, nos diz que :


“Em meados dos anos de 1990, Shmuel Eisenstadt (1995) assinalava a “desintegração” do molde trabalhista-sionista, cujos elementos de nacionalismo primordialista e revolucionário fundamentaram a construção ideológica de Israel. Este processo, que se iniciara décadas antes, abriu um vazio ideológico, a que se somou um pluralismo crescente na sociedade israelense, levando a um reforço das identidades étnicas entre os próprios judeus e ao aumento da influência da religião. Associou-se a isso, ainda, a emigração de um milhão de judeus da antiga União soviética, com perspectivas bastante distintas das ondas de emigração anteriores. Esta crise do sionismo trabalhista tem um momento fundamental na chegada da direita, o partido Likud, ao poder em 1977. Baruch Kimmerling (2007a, pp. 1-3ss) chegaria a conclusões semelhantes: Israel enfrenta a decomposição da “hegemonia” trabalhista-sionista e, com forte pluralidade social emergindo, mergulha em “guerras culturais” desprovida de um modelo multicultural. Em contrapartida, mantêm-se os arraigados códigos culturais do “militarismo civil” e de um judaísmo genérico, bem como um Estado forte interna e externamente”. ( José Maurício Rodrigues, in ” A Sociologia Israelense e a Crise do Consenso Sionista “).

Esta nova aliança entre o partido Likud e as forças políticas mais a direita levou a um fortalecimento dos grupos religiosos que embora em muitos casos não aceitem a existência do Estado de Israel são intensamente subsidiados por esse mesmo Estado , mantendo suas próprias escolas , serviço médico, etc, portando -se muitas vezes como um estado dentro do Estado. Em suma : a falência da política secular levou cada vez mais a expansão da religião como expressão do Estado Judeu , fato idêntico ao que ocorre com seus vizinhos árabes, onde os movimentos dominados por seitas religiosas vão ocupando o espaço dos antigos movimentos políticos de caráter laico.

E mesmo se olharmos para a outra grande religião – o cristianismo, nas suas diversas versões ( católica e protestantes ) em todo o mundo, veremos que ocorre movimentos semelhantes, com o fortalecimento de suas vertentes mais ortodoxas.

Parece-nos, então, que está em curso o fortalecimento das forças militantes das diversas religiões , preparando-as para os grandes embates religiosos-militares que virão !

Robert Kurz, em 2003 publicou o livro ” A Guerra de Ordenamento Mundial”, e no seu capítulo IV, ” O Oriente Próximo e Síndrome do Anti-Semitismo ” , faz uma reflexão sobre o entendimento do Estado de Israel e seu caráter peculiar no âmbito das nações e, não abrindo mão de acentuar o atual caráter fascista do Estado Judeu, lamenta a submissão das forças das esquerdas ao anti-semitismo , racista e excludente desenvolvida pelos países mercantilistas e capitalistas em relação ao povo judeu.

Kurz vê o anti-semitismo como uma válvula de escape a que burguesia lança mão toda vez em que o capitalismo entra em crise. A lógica capitalista ( da apropriação da mais valia que se faz através da dimensão ideológica da conexão da forma social, que vai para além das classes e das nações e é objectivava em termos históricos, do trabalho abstracto, do valor, da forma da mercadoria, do dinheiro, da produção em regime de economia empresarial, do mercado mundial e do Estado ) , necessita em momentos de crise de objetivar um sujeito, causador ( pela sua existência) dos males que afligem a sociedade. E isto sempre ocorreu em relação aos judeus ,desde a Antiguidade (Babilonia, Egito, Roma,etc) até a Modernidade ( onde o holocausto nazista se destaca), por tempos imemoriais.

A ” questão judaica” sempre esteve presente, em maior ou menor grau, na histórias das Nações . No caso do Brasil ela é um elo importante na construção do Estado Nacional que tentamos erquer no processo da nossa existência . A perseguição aos judeus para mim, e muitos autores, foi um dos fatores determinantes que moldaram a característica do povo português e por extensão o povo brasileiro. A princípio duas mentalidades foram formadas, viciosas e inimigas. Assim eram, segundo o historiador José Hermano Saraiva:

” a do cristão-velho , detentor da verdade, inimigo da inovação, farejador de erros alheios, dogmático e repressivo, e a do cristão-novo, dissimulado, messianista, acosado, intimamente revoltado, não solidário com o conjunto da comunidade nacional que o repele e a que ele no fundo não reconhece como sua…” (in, Historia Essencial de Portugal, Jose Hermano Saraiva ).

E tal fato se faz presente, até a modernidade .

Sobre isto nos diz Kurz:


“Assim, a esquerda do movimento operário e marxista, tal como mais ainda a esquerda radical (e não menos a esquerda anarquista), nem sequer se aperceberam de que elas próprias tinham assumido positivamente partes essenciais da ideologia burguesa, como “legado” da história ideológica e intelectual protestante e iluminista na formação do sistema produtor de mercadorias. Incluindo em especial a canonização da abstracção “trabalho” que, com o seu carácter de fim em si repressivo, tinha passado directamente do ideário do protestantismo e do chamado Iluminismo do século XVIII para a ideologia do movimento operário. Ao invocar precisamente o “trabalho” como ponto de referência central pretensamente oposto ao capital, a esquerda mais não fez que jogar um estado de agregação do capital contra outro. Deste modo, o “trabalho” não se apresentava como aquilo que de facto é, ou seja, a forma de actividade especificamente capitalista (o “trabalho abstracto” em Marx), portanto um conceito inteiramente pertencente ao capital e uma relação real correspondente, mas como uma categoria ontológica da humanidade.”( R.Kurz, in A Guerra de Ordenamento Mundial).

Ainda, e mais adiante:

“Esta crítica do capitalismo notoriamente truncada sempre apresentou pontos de contacto com a ideologia anti-semita. Pois o anti-semitismo pôde ascender ao estatuto de uma perigosa ideologia de crise precisamente pelo facto de exteriorizar e naturalizar em termos socio-biologistas as contradições internas da sociedade constituída de forma capitalista e de todos os seus sujeitos: “

Robert Kurz nos faz pensar na crise mundial do sistema produtor de mercadoria e na falência dos Estados Nacionais que não sobreviverão a catástrofe da dissolução da atual ordem mundial. Mas, ao mesmo tempo, nos adverte da característica peculiar do Estado Nacional Judeu na época da sua fundação : um Estado que surge como forma de defesa ( anti- liquidacionista) de um povo que insiste em sobreviver no âmbito da humanidade.

“Certamente também ao Estado de Israel, que é evidentemente parte integrante da economia mundial capitalista, pode ser atribuída a forma do Estado moderno e do sistema produtor de mercadorias moderno com todos os seus atributos negativos. Mas, devido ao seu carácter singular, já que constitui em última instância um produto involuntário dos nazis e da lógica de aniquilação da subjectividade capitalista na sua derradeira agudização, este Estado é o primeiro, o último e o único a conter um momento decisivo de justificação que aliás faltou desde o início a todos os Estados revolucionários nacionais do terceiro mundo (os quais, afinal, todos muito rapidamente começaram a assumir expressões bem feias). Trata-se de um Estado capitalista que é assim expressão da forma de sujeito capitalista, mas que simultaneamente e de modo paradoxalmente articulado representa a extrema necessidade e a última legítima defesa contra essa mesma forma de sujeito ( idem).

Ao abandonar estas características, que no início foram libertárias, Israel atola-se nos infortúnios dos demais Estados contemporâneos , afundando- se na corrupção , no totalitarismo e na insanidade radical religiosa, apresentando -se meramente como vanguarda dos interesses do capital nesta área estratégica , tornando-se , por seu dispendioso modo de vida, próprio da sociedade da mercadoria , um país inviável economicamente ( a não ser pela ajuda externa do grande capital que atua na região).

Salta aos olhos, que tanto a política belicosa de Israel quanto o reacionarismo medieval das oligarquias árabes , são faces de uma mesma moeda : a política de manipulação dos grandes grupos financeiros internacionais que movimentam seus cordéis de acordo com seus interesses.

Não é impossível imaginar que o próprio Estado de Israel seja, mais adiante, abandonado à própria sorte , cessada a sua importância no tabuleiro da política internacional. Nesse sentido , a morte da Utopia do sionismo de esquerda resultou em criar uma nova diáspora , onde intelectuais e jovens comprometidos com a emancipação humana abandonam Israel, tomado por ” novos bárbaros ” que levam o país para uma política suicida.

E é esta imagem final do filme Kadoch, onde uma das irmãs abandona Jerusalém e a outra submete-se aos ditames da religião, deixando de existir como pessoa.

O cineasta Amos Gitai é conhecido por suas ideias e pela luta pela união dos povos judaicos e palestinos, e nesse sentido, utiliza a sua arte como instrumento de propagação de suas concepções . Certamente, ele acompanha a a tragédia dos palestinos que mesmo antes de constituírem o seu Estado já o vêem carcomido pelas contradições da corrupção e da decadência da política laica da OLP e o assédio crescente da ortodoxia suicida dos grupos religiosos que ocupam o espaço dos desmoralizados líderes palestinos. infelizmente, o ainda- não existente Estado Palestino afunda-se na divisão e no desmantelamento dos valores éticos do que seria a sua constituição.

Mas, seria este um elemento impeditivo da união desse dois povos ?

No Oriente Médio temos uma visão efetiva da tragédia que assola humanidade mas, ao mesmo tempo, por ali se explicitam com agudeza as contradições do mundo contemporâneo, nos dando a oportunidade de exercitar nossa imaginação no novo mundo que virá após a debacle do capitalismo.

Num momento de crise dos Estados Nacionais ( que a crise na política de representatividade nos acentua ) não será pela formação de mais um Estado que se fará a redenção do povo palestino. E também isto não se fará pelo fanatismo de Estados religiosos. Afinal, o conceito de Estado Nacional é uma visão moderna, iluminista, que está num franco processo de superação. A existência e o bem estar do povo palestino e do povo judeu passa pela emancipação do povo ” humano ” ( a emancipação da humanidade ) , dentro daquilo que propunha Marx na ” A questão judaica”.

Certamente a união desses povos só será feita fora da lógica do capital e da sociedade da mercadoria !

Serra da Mantiqueira , janeiro de 2014

Arlindenor Pedro

O cinema como arma revolucionária

 

Um fato relevante nos embates travados enas forças populares e a  repressão do Estado no Brasil é a utilização da imagem como instrumento de luta . De um lado as forças policiais, buscando cada vez mais criminalizar os movimentos sociais, utilizam câmeras de alta tecnologia e todo aparato tecnológico a que têm acesso, para identificar os ativistas nas ruas e mesmo dosar sua violência e atos ilegais , de acordo com a presença da Mídia nas manifestações -o que poderia prejudicar a sua imagem pública.Por outro lado os ativistas sociais aprenderam a força das imagens como instrumento de denúncia da miséria e da desigualdade no Brasil, levando para a casa dos cidadãos, principalmente através da internet, a violência que se abate contra aqueles que ousam lutar contra a miséria e opressão no nosso país.

Numa situação parecida com o que houve na Guerra do Vietnã , quando os noticiários levavam para sala de jantar dos americanos o horror dos massacres aos vietnamitas, o público brasileiro , pouco a pouco, está tendo acesso a esta guerra que é travada em país dividido, e vai tomando consciência do Brasil real, diferente do que o governo propaga e a Mídia esconde.Parece-nos, então, que aquilo que Glauber Rocha propugnava – a utilização do cinema como arma revolucionária , está acontecendo com uma nova geração de cineastas, e mesmo através de simples cidadãos que nas ruas transformaram seus celulares e máquinas fotográficas em armas mais mortíferas que os fuzis da polícia .

Um desses novos cineastas é Vladimir Seixas, cuja obra , Atrás da Porta, já vinculamos aqui junto com o post ” A explosão da cidade e a trajetória do capitalismo ” , de Bruno Lamas, que colhemos na revista Exit.

A obra que trazemos agora , deste cineasta, é o seu curta Hiato, que tem corrido o mundo, colhendo prêmios no Brasil e exterior, apoiado pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro, que está se transformando num nascedouro de talentosos cineastas desta nova geração .

Para melhor compreendermos o pensamento de Vladimir Seixas sobre o documentário Hiato, e também suas impressões sobre seu outro filme , Atrás da Porta, nada como a leitura da entrevista que deu à Revista Estudos Políticos.

Arlindenor Pedro



Perguntas a Vladimir Seixas sobre os documentários Hiato e Atrás da Porta, por Cesar Kiraly, da Revista Estudos Políticos 

Antes de tudo, gostaria que comentasse a sensação, presente no seu primeiro filme, Hiato, de que as pessoas estão sempre muito próximas de entidades muito abstratas, tais como direitos, quão mais o aspecto duro da realidade sobre elas se impõe. Digo a dureza no sentido da fragilidade. Porque no que concerne aos guardas e autoridades, quão mais a dureza lhes confere poder, menos as entidades abstratas se manifestam. Como o documentarista de cenas urbanas conflituosas vive esse paradoxo?

-As regiões onde vivem as pessoas que são mostradas no Hiato estão arrasadas até hoje, mesmo que a conjuntura política local seja outra. De fato, elementos como cidadania, direitos humanos, estado de bem estar social e outros, se mostram distante daquela realidade cotidiana e os moradores de lá sabem muito bem disso. A ida ao shopping fazia parte dos esforços de uma semana de ações por parte dos movimentos sociais do Rio de Janeiro referente aos sete anos da chacina de Vigário Geral onde foram assassinadas mais de vinte pessoas. Esse episódio do shopping foi o único que tencionou essa discussão em um nível maior de abstração. Isso se passou no ano 2000 e vi somente pela televisão. Na época me lembro de ter entrado ao vivo no jornal local uma pauta que esperava uma onda de saques e ‘arrastões’. Depois de sete anos, quando precisei fazer um exercício para a escola de cinema Darcy Ribeiro, decidi trabalhar essa história. Já tinha conhecido integrantes do episódio que estudavam na Universidade comigo, lido artigos que abordavam o assunto, assistido palestras que lembravam tudo etc. Pode inicialmente parecer um paradoxo, pessoas com demandas tão concretas realizarem uma intervenção desse tipo, mas acontece que isso foi somente o que ficou; justamente por esse diferencial. Na época houve manifestação no Centro da cidade, recolhimento de abaixo-assinado, comissão entregando documentos ao governador, discurso em carro de som na porta da Alerj, distribuição de vários informativos… Entretanto, a ida ao maior shopping de classe média/alta na zona sul com mais de 300 pessoas muito pobres em vários ônibus e o anúncio à grande imprensa instaurava um gesto perturbador que surpreendeu muita gente.

Primeiro você filmou o Hiato e depois o Atrás da Porta. Mas, para mim, depois de assistir ao Atrás da Porta foi que os sentidos do Hiato se abriram com mais consistência. No Hiato as portas se abrem automaticamente, no Atrás da Porta elas precisam ser arrombadas. No primeiro a repressão se deve em muito ao olhar desgostoso, no segundo pela obrigação dos militares uniformizados, ou outros agentes do poder público. No primeiro a pobreza busca a luz, no segundo se esconde dela. No primeiro há o espetáculo da própria condição, no segundo certo envergonhamento. Até a voz que no segundo filme pede “Filma Tudo”, busca se esconder. Como avalia essas distinções?

-Entre os dois trabalhos houve mais quatro curtas. Outras formas foram experimentadas e talvez venha daí a referência de maior consistência aberta aos sentidos. Fico feliz que relacione os dois, pois o Atrás da Porta veio mesmo em decorrência do Hiato. Os próprios sem-teto me chamaram para registrar as novas ocupações e despejos devido à circulação e o grau de debate que o curta gerou. E eles foram muito pouco exibidos em conjunto. Também penso neles como complementares. Essa diferença que você identifica também vem da diferença dos processos. No Hiato fui, anos depois, conversar com os manifestantes e nos utilizamos muito de imagens de arquivo da grande imprensa como também de arquivos dos próprios manifestantes. Na ocasião fui com a Helen Ferreira, que tinha registrado em VHS toda a movimentação no Shopping na época. Aquilo tudo era distante. Já no Atrás da Porta, eu e Chapolim (fotógrafo morador de uma ocupação que também aparece no vídeo) estávamos registrando todo o processo e a ação da polícia. Chegamos ao ponto de que em um despejo, quando toda a grande imprensa já tinha ido embora, de receber ameaça de prisão se continuássemos filmando. Quando no último despejo o policial federal diz que serei o último a sair e que eles vão ficar lá dentro só comigo eu não consegui nem apontar a câmera diretamente para seu rosto. Em ambos os contextos houve repressão, imagina um shopping enorme parado. Quantos empresários não exigiram uma punição exemplar, posto que o shopping parou? E se a moda pega? E de fato tivemos caso de abuso e agressão posterior, aos militantes. Mas esse risco não havia diretamente na feitura do curta, diferentemente do segundo caso. Com efeito, os vídeos realmente trabalham a vergonha de maneira diferenciada. Com relação a vergonha no Hiato, vejo o ato do shopping como a potencialização da própria condição no sentido de combate pelos signos da própria pobreza. Isso que te envergonha, nossos signos de pobreza, nos fortalece. Existe uma violência gestual nessa primeira vergonha. Menos espetáculo que ato performático. Com relação ao Atrás da Porta, a vergonha se apresenta em um sentido mais complexo. Me lembro de como propõe duramente Primo Levi em relação aos campos de concentração nazistas; vergonha de ter vivido aquilo e não conseguir impedir. Vergonha de não superar uma lógica que mantém centenas de prédios fechados na região central e expulsa pessoas para onde não há qualquer oportunidade digna de subsistência. Vergonha de ser homem.

Poderíamos dizer que a estética da sobrevivência é superior a do shopping center?

-Em Campo Belo, Nova Iguaçu, onde vive grande parte das pessoas que participaram do ato no shopping, de 2000 pra cá tivemos a atuação incisiva de milícias, grupos de extermínio, narcotraficantes, policiais e com isso muitas execuções. Na época, cada vez que chegávamos mais perto de lá e pedíamos explicação de como chegar lá, éramos perguntados o que íamos fazer em um local como aquele. Isso já bem longe do centro do Rio. E a estratégia foi exibir imagens de arquivo e depois realizar a entrevista. Os entrevistados iam vendo as imagens e enumerando alguns que já haviam sido mortos. Além de pessoas executadas, muitas mortes por doença… O que quero dizer com isso é que cada uma dessas estéticas de luta só pode valer mais que a outra se forem artificialmente separadas, posto que se articulam em relação de complementariedade. A ida ao shopping e a discussão da segregação disfarçada em nossa cidade recobre seu lado de sobrevivência e vice-versa. Acho que meu primeiro vídeo tenha sido excessivamente expositivo e pra muitos isso tem um menor valor estético no panorama geral do audiovisual. Talvez pela forma como a televisão se utilizou, e ainda utiliza muito, dessa metodologia. A recorrência dessa forma de documentário pela mídia realmente não acrescentou muito no enriquecimento do campo das narrativas audiovisuais. Muito pelo contrário, vemos com isso uma proliferação de clichês.

Durante o curso de cinema, realizei paralelamente um estudo que recuperava a divisão feita por um filósofo de um cinema ancorado na dimensão do homem como estímulo-resposta e outra baseada na ruptura desse par. A intenção era problematizar os automatismos contidos em cada campo. A diferenciação realizada por Gilles Deleuze entre imagem-movimento e imagem-tempo se tornou tão empregada que gera alguns usos acomodados. Grosso modo, o mundo da primeira imagem é ligado ao cinema narrativo que se tornou clássico; já o da segunda seria remetido ao cinema moderno que muitas vezes se vale de uma disnarratividade. O caso é que atualmente o clichê se instala em ambas as tendências, mas vemos um esforço concentrado de denúncia estritamente ao primeiro tipo de imagem. Como se os críticos, curadores, pesquisadores e até os próprios realizadores tomassem um partido; somente de um lado tudo é válido esteticamente. Veja o exemplo da reedição do Cineastas e Imagens do Povo de Jean Claude Bernardet. Ele acrescentou um capítulo mostrando como a ampla utilização de entrevistas nos documentários cada vez mais engessava a criação no cinema. Em dois anos a hegemonia dos filmes documentários nos festivais brasileiros era de documentários que não se valiam de entrevistas. O próprio Deleuze perto da conclusão desses 2 trabalhos acerca do cinema chega a afirmar que não se pode dizer que uma imagem valha mais que a outra. Que as imagens modernas não possuem valor algum se não estiverem à serviço de uma vontade de arte poderosa. Decidi realizar pela escola de cinema um curta filiado a cada uma das imagens. O Hiato pode ser remetido à imagem-movimento e o curta, pouquíssimo exibido, Ruído Negro à imagem-tempo. Ambas investidas foram experimentais em minha condição de aluno. Lembro-me de ter mostrado um corte preliminar a um professor que ficou incomodadíssimo com o rumo da montagem do Hiato. Para agredir o filme disse que o mesmo era um Globo repórter. Chegou ao cúmulo de intervir quando o curta foi selecionado para o festival de Havana no intuito de que o filme não fosse enviado pela escola para o festival. Acho que esse histórico do Hiato ajuda acrescenta nos questionamentos que levantou em relação as distinções estéticas.

Voltando ao tema da primeira questão, mas no contexto do segundo filme, o vocabulário das pessoas é muito mais conjuntural, mais circunscrito, e muito menos abstrato, e o sofrimento ao deixar as ocupações parece ser brutal. Há menos espaço para o conceito e se abrem demandas de vitalidade e confronto? A que atribui?

-Ao momento decisivo que a cidade do Rio de Janeiro vive em relação aos megaeventos e os confrontos que com isso se anunciaram. Houve um acúmulo de análises conjunturais tanto no nível local quanto no global por parte de vários moradores de ocupações do centro da cidade. Chegou o momento em que ficou claro qual seria o modelo de intervenção urbanística que viveremos. E como a condição deles dialoga com o chamado capitalismo avançado. Os moradores de ocupações do Centro estão no olho do furacão imobiliário. Isso forçou pensar e denunciar o processo político que se encontram. Arrisco a dizer que os jogos Pan-americanos em 2007 foram decisivos nesse acúmulo. O aumento das ações policiais violentas nas favelas, as grandes obras que não visavam a melhora da qualidade de vida das pessoas, o acirramento da especulação imobiliária, aumento absurdo do custo de vida dos trabalhadores, inúmeros despejos de quem está no caminho do tal crescimento etc. Acho que o que surpreende no vídeo é a qualidade da fala das pessoas que estão fora da academia. São pessoas bem pobres e muito articuladas. Tentamos também com o vídeo oferecer a oportunidade de um encontro com a subjetividade daquelas pessoas. Mostrar, mesmo que minimamente, um cotidiano. Com o maquinismo cinematográfico funcionando, compartilham-se as vitórias provisórias como também toda a violência posterior. Fico muito feliz com os usos que o filme já serviu. Ele é utilizado constantemente em manifestações políticas, em atividades de greve, em núcleos de educação popular etc. Claro que se procurar problemas, ele certamente possui, entretanto, diferentemente do Hiato, que teve uma penetração mais rápida, o Atrás da Porta está abrindo seus caminhos aos poucos e, talvez, mais firme como instrumento de confronto ao estado de coisas. De fato, abrem-se as demandas da vitalidade e o conceito vem ao seu lado. As análises das tendências genocidas contidas nas políticas de terra promovidas pelo Estado, a serviço de uma classe dominante determinada pelo capital, que os moradores desenvolvem, surpreendem pelo nível de amplitude e alcance; e pela clareza nas estratégias e propostas. O pensamento destes moradores vai muito além da questão da moradia e a disposição de enfrentamento vem certamente desta consciência.

Como explica o cuidado com o habitat ocupado, apesar de toda transitoriedade? Ou será que é o oposto, a obrigação de cuidado com o transitório? Além disso, são nítidos os fragmentos de que uma ocupação prévia foi mal sucedida, mas a esperança das pessoas parece genuína. Como explicar?

-Isso é realmente estranhíssimo. Já me relataram que é um fenômeno recorrente em ocupações que são despejadas em poucos dias. Aposto que seja pela intensidade do processo e pela imensa vontade de conquistar um espaço.

Colocar-se ao lado da família e se lançar numa luta tão desigual… é preciso territorializar rapidamente de alguma forma e isso acontece no excessivo cuidado ao recente espaço em disputa. O ato de “criar novos espaços de moradia” dos sem-teto se mostra um ato vital. Todos limpam, arrumam, transformam muito rápido, talvez, para ter força de continuar o confronto. Mesmo que nos pareça óbvio a transição e despejo seja o mais provável. Precisamos também marcar que várias ocupações seguem a luta e resistem no centro do Rio. Ocupações que se fortalecem tanto politicamente quanto juridicamente. Como é o caso da Manuel Congo, Quilombo das Guerreiras e Chiquinha Gonzaga.

Quando dá a câmera a uma das ocupantes, uma nova intimidade é criada. Poderia falar um pouco disso? Da mesma forma, há um momento em que mostra as imagens para elas, e de alguma forma se alegram. Como é essa tensão existente na necessidade de autonarrativa como sobrevivência?

-Vários filmes já se aproveitaram desse procedimento, O Prisioneiro da Grade de Ferro, as realizações do projeto Vídeo nas Aldeias etc. No caso do Atrás da Porta, tudo se deu menos por um programa que uma atenção aos acasos. Já tinha assistido, sim, bons filmes onde os próprios protagonistas se registravam, mas não tinha qualquer intenção prévia nesse sentido. Até que a Sílvia segurou a câmera para que pudesse almoçar… e tudo aconteceu. Ela tinha gravado muito mais coisa, muito o filho dela e tive que cortar. Mas toda a montagem do filme foi um trabalho de desapego, pois gravamos cerca de 50 horas no total e ficamos no final com uma hora e meia somente. Certamente uma nova intimidade aparece ali. Assisti muitas vezes o trecho em que ela gravou e percebi como a imagem fica com uma leveza própria pelo jeito que ela conduz a câmera e aborda as pessoas. Ela em alguns minutos registrou e se aproximou das pessoas de tal maneira que quem assiste não deixa de se alegrar com aquelas imagens. De se sentir parte daquele coletivo. Acho que grande parte da indignação de quem assiste ao vídeo vem da proximidade que essas imagens proporcionam. Depois disso as imagens ficam um pouco mais dolorosas. Com relação a mostrar as imagens posteriormente aos moradores da última ocupação, foi uma ideia que tive já durante a montagem do filme. Me recordo de Cabra Marcado para Morrer e Boca de Lixo do grande mestre Eduardo Coutinho, de quando leva seus arquivos para gerar algumas fissuras nas pessoas que ele reencontra. Então preparei um pequeno corte de imagens dentro da ocupação seguido da série de agressões que as pessoas que estavam fora do prédio sofreram. Levei tudo em um ipod e mostrei antes da conversa. Fiz isso com os moradores e com os defensores públicos. Acho que isso pode ter gerado uma intensidade maior nas falas. Aproveitei e gravei eles assistindo… o que acabou entrando no filme. Novamente, não existe nenhuma novidade nessa tática, mas me alegro de ter percebido que isso foi necessário a realização desse longa. Se permite uma digressão, não vejo o Atrás da Porta um filme pretensioso que busca desesperadamente o novo, o autoral, o purismo do autêntico; vejo como um filme que encontrou e resolveu suas próprias necessidades com os recursos que dispunha, que soube retribuir o convite dos próprios moradores, como um filme pode somar aos seus esforços de luta. Acho que muitas exibições desses 2 filmes seguiram no esforço de unificação das lutas dos sem-teto em um ponto comum no âmbito das diferentes organizações que existem no Rio de Janeiro. Vejo grupos que debatem depois do filme como ampliar as lutas pela melhora das condições de vida de uma classe que não interessa muito para o crescimento, que se planeja para os próximos anos sob a ótica do capital. Tanto nesse filme quanto no Hiato a forma redonda da narrativa é um modo de retribuição. Nesses dois casos escapar de um filme puramente formalista foi uma escolha necessária. Debruço-me bastante sobre a questão da forma cinematográfica e as minhas poucas investidas nessa arte me mostraram a importância de tentar entender cada filme e a vida daqueles que estão no campo e no extracampo das lentes. Uma vez ouvi o montador Eduardo Escorel falar que sempre dá um filme. Essa afirmação, vindo de uma pessoa que se dedicou muito anos a montar filmes, sempre me soou enigmática. Penso que ela se dirige a inúmeras questões formais, que ela tem o intuito apontar uma saída possível aos impasses das questões últimas, as mais essenciais e as que discutem as funções teleológicas da arte cinematográfica. Não saberia aqui nem aprofundar nem esgotar essa afirmação, mas ela ultrapassa a questão de toda quantidade de filmes que fracassam, não se concretizam na montagem. Filmes que são montados, que se mostram nulos enquanto obra. Filmes, mesmo montados em diferentes versões continuam esvaziados de presença, como também filmes que encontram seu caminho. Filmes que tiveram suas vozes contempladas. Os filmes mais belos. Isso me parece essencial. Sempre dá um filme?

Como é se deixar trancar? Quanto tempo leva a última ocupação?

-Infelizmente a ocupação durou apenas cinco dias. Desses, dormi dois dias lá. Tirando o último dia, nós podíamos sair e entrar. Havia uma barricada reforçada que seguravam a porta e dava certo trabalho na circulação. Diria que a experiência de estarmos trancado, na hora da ação policial, foi assustadora pela possibilidade de ficarmos fora do campo de visão das pessoas e dos grandes veículos de comunicação que estavam todos lá. Não sei se foi porque aquela região do Centro toda parou com aquela intervenção, não sei se foi porque a situação foi crescendo de proporção, se foi porque não conseguiram arrombar a porta, não sei exatamente o porquê, mas os policiais no final do processo estavam alterados e querendo pegar alguém para punir como exemplo. Nosso maior medo era ficarmos sozinhos com o Batalhão de Choque e a Polícia Federal lá dentro. Apesar de isso estar mudando, não se agride deliberadamente ou se executa uma pessoa normalmente na frente das câmeras. Na internet encontram-se inúmeros vídeos de ações policiais e de exércitos nos quais os próprios combatentes algozes filmam tudo que fazem, mas no geral ainda é uma forma de coibição a presença da câmera nos momentos que se quer agredir ou matar o outro. Alguns acharam que se devia continuar ali dentro e resistir ao máximo, já que a polícia não estava conseguindo arrombar o aparato de bloqueio da porta, mas só fomos até onde deu. Na hora decisiva se deliberou que era melhor, para resguardar todo o coletivo, abrir a porta e finalmente receber a dolorosa ordem de despejo. É preciso que se diga que passei recentemente na porta do prédio e ele está com um muro de alvenaria no local da porta e ainda não mora ninguém lá. É um prédio estatal, como inúmeros outros do Centro, que aguarda uma destinação que não é moradia popular.

Como percebe a fala dos juristas? Para mim de alguma forma, parece que ela não se sustenta.

-Creio que essa percepção apareça pelo reforço de duas condições, exteriores ao papel das relações, que eles desenvolvem e que são mostradas no filme. Primeiramente, são os únicos com formação acadêmica que ganham voz no filme. E depois pela saturação atual que os especialistas adquiriram no papel de ratificação de qualquer questão quando lhe solicitam; sobretudo quando os moradores já tinham brilhantemente falado de como eles viam a conjuntura política do processo que os afeta diretamente. Geralmente no jornalismo um especialista chega com um ar de Voz de Deus para corroborar uma noção corrente. Os defensores públicos do núcleo de terras do Rio de Janeiro foram pessoas ativas no processo de defesa dos moradores e estão até hoje lá lutando em um quadro duro e desigual. Fui testemunha de como eles sofreram bastante também com tudo e ainda estão lá; a quantidade de despejos e demolições tende a continuar ampliando a medida que os megaeventos se aproximam e não só no Centro da cidade. É, talvez, preciso reconciliar o intelectual acadêmico com os ouvidos da sociedade. O Brasil possui um corpo docente na área de humanas que é extremamente rico e plural; as disputas das ideias precisam sair e transbordar os muros das universidades. É inegável que existe o intelectual-professor que está ali apenas para realizar uma pesquisa onde o meio se transforma em seu fim, ou seja, está na academia para direcionar sua pesquisa meramente para alastrar-se nos meandros burocráticos da instituição e aumentar seus ganhos pessoais. Muitos outros apenas se apoiam na universidade, mas querem debater e propor pensamentos. Além das ciências sociais, poderia destacar professores da filosofia, geografia, história, serviço social, psicologia, letras, cinema e comunicação que escapam das exigências tristes dos órgãos de fomento institucionais e pretendem pensar e criar. É preciso encontrar um canal, pois isso interessa muito as pessoas. No entanto, o que vemos é a formação de guetos que mal dialogam entre si. É necessário substituir as querelas de poder interno na academia pela disputa de alcance das teses. E isso precisa partir dos próprios professores. Se formos de fato todos intelectuais, posto que podemos pensar, por que aqueles que fizeram disso sua profissão precisam se isolar dos que tem outra atividade profissional? Queremos ouvi-los, conversar e algumas vezes argui-los… sem hierarquias. E no cinema acho que isso também deve se colocar assim. Fugir desse Hiii! Lá vem o intelectual. Inversamente, os filmes brasileiros mais acadêmicos são aqueles que negam mais veementemente a presença direta dos intelectuais. Não sei se isso tudo isso se iniciou com a assimilação das críticas às instituições que vários intelectuais europeus realizaram a partir década de 1960, ou com a crescente especialização que o doutor deve seguir atualmente, mas o caso é que o intelectual acadêmico se afastou muito das pessoas no debate de ideias e só publica e dialoga com seus pares. E desde que seu programa de pós-graduação tenha uma boa nota nos órgãos de fomento, suas publicações tenham uma boa qualificação, tudo vai bem e a meta foi cumprida. Aí transformam o meio acadêmico em uma finalidade.

Como percebe as ameaças que recebeu? Parece que antes você não podia entrar, e depois não podia sair. A identidade de documentarista lhe foi uma desvantagem?

-Acho que a polícia está cada vez mais atenta com relação às diferentes coberturas instauradas nos fatos políticos que são obrigados a enfrentar cotidianamente. Não é de hoje que também realizam suas filmagens na cara dos militantes com o intuito de intimidação. Outro dia acompanhei uma novidade em uma manifestação em São Paulo contra o aumento das passagens dos ônibus. Tinha o contingente que normalmente se destaca para esse tipo de ato, choque, soldados, P2, oficiais etc. Mas tinha um pequeno grupo de policiais resguardando outros dois: um filmava e outro carregava uma grande mochila com uma antena… Eles estavam transmitindo em tempo real toda a movimentação. Provavelmente estavam recebendo ordens de acordo com o que transmitiam. Nesse dia houve uma série de agressões e os novos-documentaristas a serviço do estado estavam bem no meio delas… Sempre filmando. Quando eles partem diretamente para agressão dos militantes, que também sempre filmam, e tentam quebrar as câmeras, ou eles já cometeram excesso ou não há a presença da grande imprensa no momento. Não há mais manifestações políticas sem a presença de câmeras. Acho que naquele caso eles não tinham a dimensão que era um documentário que já vinha filmando há alguns meses, mas que era um registro que destinava apenas a proteção das pessoas envolvidas e posterior denúncia. Um oficial de justiça chegou a me ameaçar que me daria voz de prisão, pois não queria vídeo com suas imagens na internet. O tamanho da câmera é um importante diferencial que orienta a forma com que a polícia se relaciona com cada tipo de mídia. Falava pro Chapolim que às vezes era necessário aquele trambolho da grande imprensa para abrir portas e garantir nossa segurança… Ele sempre ria. Mas o que é estranho é essa mistura de poderes e instituições. Os policiais confiam de tal maneira na grande imprensa que é comum no Rio de Janeiro, incursões policiais em que os jornalistas vão junto com o destacamento mais avançado, mesmo na linha de tiro. Vemos jornalistas com colete à prova de balas, com roupas da mesma cor que os policiais; sem a possibilidade de distinção, a certa distância, se estão portando um fuzil ou uma câmera. Simultaneamente, vemos um número menor das denúncias das execuções como auto de resistência. Não precisa nem mesmo ter acontecido um acordo às claras. Fica assim: me dá oportunidade de imagens espetaculares do confronto, à moda das grandes produções, com base em tiroteio em favela, que reproduzo no jornalismo o que se viu no cinema. É o famoso ‘juntos e misturados’. Temos novos integrantes nas Tropas de Elite com propósitos em comum. É também comum morrer um jornalista na linha de frente… que sempre tentam transformar em herói. Penso que as filmagens minoritárias possuem a desvantagem, em relação à segurança, de estar claramente no lado oposto. Como ainda não se criminalizou totalmente os movimentos sociais há ainda a possibilidade de chamar os jornalistas e utilizarmos a presença deles como salvo-conduto das manifestações. Isso pode já estar em transição dado o grau de envolvimento dos grupos midiáticos nos projetos e nos financiamentos estatais. Se isso se efetivar totalmente teremos, com certeza, dias muitos mais duros.

 

 

 

SINOPSE
Em agosto de 2000 um grupo de manifestantes organizou uma ocupação em um grande shopping da zona sul carioca. O episódio obteve grande repercussão na imprensa nacional e ainda hoje é discutido por alguns teóricos. O filme recuperou imagens de arquivo e traz entrevistas de alguns personagens 7 anos após essa inusitada manifestação.

 

FICHA TÉCNICA
20’00” | MiniDV | Cor NTSC | Estéreo | 16:9 | 2008 | Brasil
DIREÇÃO Vladimir Seixas | ROTEIRO Vladimir Seixas e Maria Socorro e Silva | MONTAGEM Ricardo Moreira e Roberta Rangé | FOTOGRAFIA Maurício Stal e Vladimir Seixas | SOM DIRETO Vitor Kruter e Helen Ferreira | ASSISTENTE DE FINALIZAÇÃO Juliana Oakim

HISTÓRICO
Festivais
15º Festival Ibero-Americano de Cinema e Vídeo | Cinesul
19º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo
16º Gramado Cine Vídeo
36º Festival de Cinema de Gramado
5º Catarina Festival de Documentário
Cinecufa 2008
2º Cinema com Farinha | Festival Audiovisual do Sertão Paraibano
35º Jornada Internacional de Cinema da Bahia
3ª Mostra Curta Audio Visual de Campinas
5º Curta Vídeo Votorantim
18º Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro | Curta Cinema 2008
2º Perro Loco | Festival de Cinema Universitário Latino-Americano
4º Festival Latino-americano de Canoa Quebrada | Curta Canoa
7º Festival de Vídeo Estudantil e Mostra de Cinema | Guaíba, RS
30º Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano | Havana, Cuba
4º Festival Curta Três Rios
2º Festival de Curtas Metragens de Direitos Humanos | Entretodos
4º Festival Aruanda do Audiovisual Universitário Brasileiro | FestAruanda
6º Festival de Cinema de Campo Grande | FestCine Pantanal
1º Festival do Júri Popular
Mostra do Filme Livre 2009
6ª Mostra de Cinema Documentário de Ipatinga | CineDocumenta
Festival Universitário de Cinema e Vídeo de Curitiba | PUTZ 2009
5ª Mostra Audiovisual de Cambuquira | Mosca 2009
4º Festival Audiovisual de Campina Grande | Comunicurtas 2009
9º ArariboiaCine | 2010
Prêmios
Melhor documentário pelo Júri Oficial do 2º Cinema com Farinha
Entre os dez mais votados na 3ª Mostra Curta Audiovisual de Campinas pelo Júri Coletivo Popular
Melhor Documentário pelo Júri Oficial do 2º Perro Loco
Melhor Filme pelo Voto Popular do 2º Perro Loco
Melhor Direção no 4º Curta Canoa
Melhor Documentário no 7º Festival de Vídeo Estudantil e Mostra de Cinema | Guaíba, RS
Prêmio Curadoria no 2º Festival de Curtas Metragens de Direitos Humanos | Entretodos
Melhor Filme pelo Júri Popular no 4º no FestAruanda
Melhor Filme no 1º Festival do Júri Popular na cidade de Lençóis | BA
Melhor Documentário pelo Júri Popular na 5ª Mostra Audiovisual de Cambuquira
Prêmio Machado Bittencourt Especial do Júri no Comunicurtas 2009
Melhor Documentário no Comunicurtas 2009

Entrevista com Sílvio Tendler:

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Uma interessante entrevista com o cineasta Silvio Tendler realizada pela revista Carta Maior e que nós reproduzimos nesta seção Emancipacionismo . Através destas publicações procuramos mostrar as principais idéias de pensadores e ativistas que nas mais diversas atividades pensam e agem no sentido de alcançarmos uma sociedade pós capitalista .

Sílvio Tendler: “Eu quero ser visto: copie e distribua”

Léa Maria Aarão Reis

Há cerca de um mês, numa sessão do 46 Festival do Cinema Brasileiro, na capital federal, a plateia superlotada aplaudiu de pé, durante alguns minutos, o documentário de Noilton Nunes, A arte do renascimento – uma cinebiografia de Silvio Tendler. O cineasta carioca é autor de 40 produções de longa e curta-metragens, de séries para a televisão, e já foi premiado com dezenas de prêmios – entre eles seis Kikitos em Gramado, dois Candangos em Brasília, quatro Margaridas de Prata com que a CNBB o distinguiu.

Silvio, professor da cadeira de Cinema e História do Departamento de Comunicação Social da PUC/RJ, presente à consagração no Cine Brasília, comentou depois, emocionado, mas sem perder o humor permanente – uma das suas marcas mais fortes: “Eu me senti como se estivesse vendo a arquibancada do sambódromo se levantar”. Já Noilton Nunes observou: “O filme conta muito da história do Brasil e explica um pouco porque ocorreram as manifestações de junho passado. Ele vem no lugar certo e na hora certa. Todo manifestante deve assisti-lo porque agora é a vez da geração dos jovens entrar em ação.”

O documentário conta a trajetória de Tendler que, após ficar tetraplégico anos atrás, continuou lutando pela vida e por suas idéias através dos filmes que não parou de fazer. Espécie de manifesto, não se trata apenas da história de um homem na batalha contra a limitação física, mas de um cidadão lutando contra as limitações do Brasil. Como ele diz: “Se dá para salvar a saúde de uma pessoa, por que não dá para salvar a saúde de um país?”

Longe vai o tempo em que viveu em Paris, estudou História e Ciências Sociais, fez mestrado de Cinema na Sorbonne, trabalhou com o mitológico documentarista Chris Marker e foi aluno de outra lenda deste gênero de cinema, Jean Rouch. Agora, aos 63 anos, Silvio carrega na bagagem de cineasta, com justo orgulho, o título de dono das maiores bilheterias de documentários da história do cinema brasileiro: Os anos JK, Jango, O mundo mágico dos trapalhões. Os seus longas sobre brasileiros notáveis – Oswaldo Cruz, Josué de Castro, Carlos Marighela, Milton Santos – são outras referências culturais obrigatórias.

Mas o filme Utopia e Barbárie, de 2005, relançado há três anos, que “consumiu”, ele registra, “19 anos da minha vida”, é a obra prima desse cineasta “dos sonhos interrompidos”, como Silvio é chamado pelos muitos amigos. Por Utopia e Barbárie, que se passa na França, Itália, Canadá, Estados Unidos, Cuba, Israel, Palestina e, na América Latina, no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, e México, no período dos últimos 50 anos do século passado, o jornalista Mauro Santayana nutre grande admiração: ”Sua visão pessoal do que foram o mundo e o Brasil neste período é antológica. Isto para dizer o mínimo; o filme representa o clímax de uma carreira.”

Exuberante, caloroso, expansivo e ágil na percepção das coisas ao redor, Silvio conversou com Carta Maior em seu apartamento, em Copacabana, Rio. Nosso assunto foi cultura. Sempre perpassada pela política, questões relativas ao meio ambiente, as manifestações de rua, os jovens e, naturalmente, cinema.

Recuperando-se bem da doença que o atingiu de repente, trabalhando no computador com energia renovada, ele tem vários projetos novos simultâneos. Dois deles serão lançados em março de 2014, por ocasião dos 50 anos do golpe militar no país. Um, sobre os advogados que defenderam presos políticos. O outro sobre os militares que foram contra o golpe.

Sempre apaixonado pelo Brasil e dedicado ao resgate da memória nacional, ele segue como crítico impiedoso das mazelas do país e das políticas neoliberais que desmontaram a cultura – aqui e lá fora.

Quero saber, Silvio, qual foi o impacto das políticas neoliberais na cultura mundial e brasileira.

Total. Tudo virou mercadoria, produto. O produtor passou a ser mais importante que o autor. Este passou a não ter qualquer importância. Houve um grande desmonte na minha área de cinema. Os cinemas de rua viraram igreja, banco ou academia de ginástica. Passeando pelo meu bairro me lembro do cinema Copacabana. Virou academia. O Art Palácio, uma sapataria. O Metro, loja de departamentos. O Caruso, um banco, o Rian virou hotel, e o Riviera e o Alvorada acabaram. O grande Roxy foi fracionado em várias salas. No Centro da cidade, o Odeon, sobreviveu porque é subsidiado. E o Iris hoje é cinema pornô.

Na área do documentário?

O documentário deixou de ser uma arte política para virar entretenimento. Os meus filmes são classificados como entretenimento. Tenho os mesmos constrangimentos que o cinema de ficção e não tenho nenhuma das benesses desse gênero porque meus filmes não passam em cinema de shopping. Cinema político em cinema de shopping? Não tem mais sala de rua para passar meus filmes. E tenho que pagar os mesmos direitos que paga um filme com três milhões de espectadores.

Não se discute hoje a importância artística e cultural dos filmes. Discute-se se dão ou não grana. A qualidade de uma produção é medida pelo mercado; não pelo conteúdo nem pela criatividade. Isso tem muito a ver com a política neoliberal que se instalou no mundo e que o Brasil adotou.

Não há mais espaço, então, para o cinema político?

Hoje ele está praticamente sem espaço para exibição. Os filmes passam em um único cinema, às duas da tarde, se mantêm em cartaz durante uma semana e ninguém vai ver. Para efeito de bilheteria não se considera sala de periferia; apenas aquelas com o bilhete com código de barra. Se o filme passa na laje, na escola pública, se passar para mil pessoas onde o ingresso não tem código não se considera o número de espectadores. É desconsideração total com o cinema. Meus filmes são muito vistos na periferia. Têm muito prestígio, mas não dão bilheteria. Eu não quero ganhar dinheiro com cinema, eu quero ser visto. Não me importo de baixarem da internet. O filme sobre o Milton Santos é talvez o mais pirateado do Brasil. Em outro, O veneno está na mesa, coloquei o selo: copie e distribua.

Seu filme Utopia e barbárie, Mauro Santayana o considera obra prima. Foi exibido em circuito comercial?

Teve 10 mil espectadores. Eu sou vítima da honestidade política dos meus filmes. Utopia me tomou 19 anos de vida. Foi lançado em 2010 quando a Dilma, ainda não candidata, foi ao Senado e respondeu ao Agripino Maia que ela, sob tortura, tinha mentido para salvar a vida de pessoas. Eu pensei e disse: ‘Esta mulher é muito corajosa; eu a quero em meu filme’. Não sabia que seria candidata e fiz a entrevista com ela. Se soubesse, teria pensado no assunto. Mas ela foi candidata, o filme estava pronto para ser lançado e eu me perguntei: o que faço? Paguei então o preço de ter incluído a Dilma em Utopia e Barbárie, e fui criticado por isso. E paguei o preço de ter ouvido Aécio e Serra no meu filme sobre o Tancredo. A mídia está muito condicionada pelas conjunturas, pelo momento. Como se fosse um jogo: por exemplo, você torce pelo PT e me reprime porque acho um equívoco a política do governo de estímulo à indústria automobilística. Amanhã, vai para a oposição e resgata as minhas velhas entrevistas. Eu não me pauto pelo momento, pelas circunstâncias. Eu me pauto pela história.

As artes foram atingidas pela lógica do lucro acima de tudo. E lá fora?

Paris tem mecanismos culturais, mas não acho que a realidade, lá, seja menos dramática que aqui. Os artistas lá foram todos mobilizados para o mercado – falo isto a partir de conversas com amigos meus. Antes, era charmoso você ser pobre, viver com certa parcimônia. Hoje, todo mundo quer consumir. Vivemos numa sociedade… cool; as pessoas são cool… querem ter o celular cool, a televisão cool, e aí você vai perdendo essa aura de artista, de criador. Hoje, tudo é mercado.

Voltando ao papel do desmonte do Estado brasileiro para a cultura.

O desmonte vem dos anos 90 com o globalitarismo – a expressão é de Milton Santos. Além do fascismo e do nazismo, existem outras formas de totalitarismo sobre as quais a gente não fala; e o consumo é a pior delas, dizia Milton Santos.

Neste sentido você acha nocivo o estímulo ao consumo dirigido à chamada nova classe média?

Eu acho nocivo uma palavra muito forte. Mas eu acho que é extremamente nocivo, sim. Eis o pior exemplo que a gente pode dar do equívoco da política econômica: incentivar a indústria através do consumo de automóveis.

Quer criar qualidade de vida? Constrói transporte de massa de alta qualidade. Na França, quando Paris começou a crescer além da conta e a ficar uma cidade insuportável, estimulou-se a ocupação dos subúrbios, a periferia, o banlieu, e foi criado um sistema de transporte coletivo de alta qualidade.

Aqui, os ônibus são construídos sobre carroceria de caminhão. Lá, os ônibus têm a altura da calçada. Ao invés de botar 20 milhões de carros nas ruas de SP – isto é tragédia! – vamos botar transporte de alta qualidade. A pessoa anda de ônibus de segunda a sexta-feira e usa seu carro no fim de semana para passear na montanha, na praia. Eu discuto o governo. Ele tem que ter um projeto social para o país. Quero viver em um país em que possa andar de ônibus sendo cadeirante e possa me deslocar pela cidade de uma forma limpa, rápida e confortável sem precisar ter carro. A única chance de sermos cidadãos, com direitos, é investir nos direitos públicos. Isto não aconteceu nos 12 anos de governo do PT.

A inclusão ao consumo não foi um primeiro passo?

Primeiro passo é criar cidadania, o cara ter direitos públicos, sociais. O segundo passo é acesso a bens de consumo. Podemos até discutir o padrão de consumo, mas estimular a compra de automóvel é criminoso. É incentivar engarrafamentos, é incentivar falta de qualidade de vida nas cidades. Mas aqui o transporte não é público – é privado. Se ele for público, como ocorre em Paris, Berlim, Roma, Londres, Nova Iorque, mundo afora, não haverá os financiamentos nas campanhas eleitorais.

Vê luz no fim do túnel?

Eu sou um otimista. Essa bolha que aconteceu nos Estados Unidos, a quebradeira que chegou à Europa, que criou os homeless, que criou o Ocupa Wall Street, que vai ocupando as cidades, Barcelona, Rio de janeiro, está levando à formação de outra mentalidade que ainda não se materializou em ações culturais específicas. Estamos vivendo uma era muito performática. As pessoas estão agindo muito via facebook. Há grandes manifestações de massa, mas tudo isto ainda não se cristalizou numa criação coletiva.

O filho do taxista que me trouxe até sua casa me contava sobre o filho dele que estava, naquele momento, numa grande manifestação, no centro do Rio, filmando tudo para um blog, o Nova Democracia. Não ia comercializar o vídeo dele. Tem 21 anos. Não quer ver seu trabalho manipulado.

Eles se intitulam vídeoativistas. Um dos principais é o Patrick Granja. Tomou tiro de borracha na perna. Costumo ter encontros com o pessoal, mas tenho uma diferença com eles. Enquanto eu, com 63 anos, acredito nas ações políticas organizadas, eles estão beirando um anarquismo orgânico e inorgânico.

Sobre o pessoal dos Black Blocs?

Tenho medo da infiltração de agentes à paisana, os P2, para quebrar coisas e botar a culpa nos manifestantes. Isto me dá medo. Por outro lado, ouvi inúmeros relatos de professores daqui do Rio defendendo os Black Blocs e dizendo que graças a eles não foram massacrados. Eu sou contra esse massacre policial. Você tem que usar os meios à mão para reagir a esta violência insana. Jogar spray de pimenta no rosto das pessoas é uma covardia. Usar armas que dão choque elétrico é criminoso – várias pessoas que levaram um tiro dessas armas morreram. E não se noticia.

Paris, em 68, não foi parecido?

Não, em 68 tinha de tudo…

Mas não tem um perfume daquela época?

Naquela época nós fomos enganados. Sessenta e oito só deu certo porque a a CGT (Central Geral dos Trabalhadores) entrou em greve e foram cinco milhões de trabalhadores grevistas – senão teria sido só uma fuzarca no Quartier Latin. O que transformou 68 em 68 foi a soma das ações. Nas ruas, eram os comunistas, os anarquistas, maoístas, trotskistas, a CGT entrando em greve.

… e deram consequência e maior consistência ainda às grandes manifestações e protestos.

Você tinha, nas ruas, o Cohn-Bendit, hoje um cara super bem comportado; agora ele é verde bílis. Na época, era uma sociedade que pregava certa liberdade, o proibido proibir; pare o mundo – eu quero descer; sejam realistas, peçam o impossível. Por outro lado você já tinha o padrão do pequeno consumidor: eu quero ter o meu quartinho, a minha bibliotecazinha, meus livrinhos, ver meus filminhos, arranjar uma namorada que seja uma guerrilheira, uma camponesa, manequim. A música Soy loco por ti America resume muito esse espírito desta época .

Tempos Modernos- Uma crítica à Sociedade Industrial – Arlindenor Pedro

Ao meu amigo Eduardo Teixeira ( Dudu )

Quando o filme Tempos Modernos chegou às telas, em 1936, o mundo já convivia com o cinema sonoro há quase 10 anos. Durante todo esse tempo, o “vagabundo”, personagem que conhecemos como Carlitos, criado por Charlie Chaplin — que compartilhou nas primeiras décadas do século XX o infortúnio dos desvalidos, que viam nele uma identificação com suas geniais performances –   ficou  sem aparecer nos cinemas.

No intervalo do seu último filme, Luzes da Cidade e o lançamento de Tempos Modernos, Chaplin amadureceu a ideia de que o “vagabundo” não iria transitar no mundo do cinema sonoro. Decidiu, então, que Tempos Modernos seria o último filme do personagem.

O mundo tinha mudado muito nessa época, já se vivia a tensão de uma nova guerra que estava por vir !

Em 1931, Chaplin tinha feito uma turnê pela Europa e viu que os males que afligiam a economia americana — a recessão e o desemprego — estavam presentes em todo lugar. Viu, também, que os capitalistas europeus, à  exemplo dos americanos, buscavam superar a crise através de alterações no processo produtivo, adaptando-se aos novos tempos, racionalizando cada vez mais a produção. Os conceitos de Henri Fayol e Frederick Taylor, de racionalizar as operações de trabalho , levariam a um considerável ganho de produtividade, reduzindo o custo unitário dos produtos e ampliando a margem de lucro através de implementos que tiveram seu ápice com a linha de montagem fordista. Isso encantava os empresários. A aplicação dessas ideias resultou no desemprego de milhões de pessoas, contribuindo para acelerar o confronto dos países capitalistas através da guerra. O conflito aliviaria as tensões sociais internas e abriria as portas para novos mercados.

Retornando aos Estados Unidos, vivamente sensibilizado com essas questões, Charlie Chaplin tomou a decisão de fazer um novo filme, onde retrataria esse novo mundo. O cineasta sempre teve uma visão diferente daquela que estava sendo construída pelas elites econômicas da burguesia liberal. Sua Utopia era uma sociedade mais justa, com pleno emprego, sem a violência do Estado, com a felicidade ao alcance de todos, sem o racionalismo científico que tirava do ser humano a sua essência humanista, procurando transformá-lo em máquina. Eram ideias que ele procuraria sintetizar mais tarde, na cena final seu próximo filme, lançado já em plena guerra: O Grande Ditador.

Em Tempos Modernos, Chaplin nos mostra o “vagabundo” — antípoda da sociedade moderna racionalizada — às voltas com a linha de montagem fordista, em um ambiente asséptico, científico, controlado e não menos cruel. Numa cena clássica, vemos o nosso herói ser sugado, literalmente, pelas engrenagens das máquinas industriais, sem condições, portanto, de se adaptar a linha de produção, e por isso mesmo, levado a loucura.

Nesses novos tempos, mais do que nunca, a competição econômica forçaria as empresas a buscarem a eficácia, revolucionando o trabalho, a técnica e os produtos, que adiante voltam a competir e a serem revolucionados, em um processo contínuo e infindável. Noutras palavras: estaria na lógica da produção de mercadorias a obrigatoriedade das empresas a racionalizarem o desenvolvimento das suas forças produtivas.

Isso exige, além da técnica, um operário totalmente adaptado a essa nova forma de produção — o que evidentemente não é o caso do nosso “vagabundo”. Por isso, não é sem sentido que Chaplin começe seu filme com a imagem de um rebanho de carneiros em marcha, saindo de uma fábrica: a indústria precisa de máquinas, sem vontade própria, seguindo os ditames da linha de montagem. Quem não se adaptar perde o emprego!

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Os sindicatos se veem obrigados a afrontar diretamente a situação e através das manifestações e das greves buscam melhores condições de trabalho para seus associados. Nesse contexto, nosso herói acaba sendo envolvido pelo turbilhão dos movimentos grevistas: é preso pelas malhas do Estado e dominado pelas forças da burguesia industrial.

Nesse momento, vemos também, que o próprio Estado mudou !

Racionalizando-se e se adaptando aos novos tempos, exige um comportamento da sociedade dentro de parâmetros legais de uma nova ordem. No filme, houve uma cena  (que mais tarde foi retirada ) onde o “vagabundo” causa a maior confusão por não se adaptar à ordem que todos devem ter para atravessar um sinal de trânsito numa esquina super movimentada, confundindo-se com os semáforos que continuamente dão ordem para seguir ou parar. Perseguido pelo guarda, é obrigado a fugir.

Situações como essa vão se repetindo em diversos momentos do filme: o “vagabundo” e sua amada ( interpretada pela jovem Paulette Goddar )  preocupando-se em passar todo o tempo na busca de trabalho e de uma vida melhor, driblam as dificuldades da pobreza, alternando-se em momentos de liberdade ou prisão.

Tempos Modernos mostra também a racionalização do comércio, fazendo com que o casal passe uma noite em uma loja de departamentos ( precursora dos nossos conhecidos shoppings centers ) onde nossa heroína delicia-se em experimentar casacos de vison, acabando por adormecer em uma cama exposta para venda.

No fim, eles conseguem emprego,  quando alguns empresários, observando a forma natural como Paulette dança em plena rua, oferecem-lhe a oportunidade de se transformar em bailarina; que ela aceita, mas com a condição de que também haja emprego para seu companheiro de ruas. Chaplin transforma-se em cantor e bailarino e, num inusitado desempenho, brinda-nos com um número musical impagável, onde pela primeira vez podemos ouvir a voz do “vagabundo”.

Tempos Modernos não somente é uma obra de arte, como é também a obra prima de Charlie Chaplin. Mostra o seu amadurecimento como cineasta dentro de uma vasta galeria de excelentes filmes. No filme, Chaplin já anuncia os rumos que a humanidade irá tomar após o final da II Grande Guerra, com a hegemonia do American way of life, ou seja, a forma de ser do capitalismo americano, que seria implantado no mundo, garantido pela Pax das suas forças armadas.

Seu roteiro nos toca pela clareza e momentos poéticos, mesmo que o retratado seja a crueldade do sistema capitalista, que reduz os homens a simples máquinas para serem consumidas e descartadas. Seus personagens — principalmente o “vagabundo” e a pequena órfã, de Paulette Goddard — mostram-nos um otimismo tocante, num quadro onde a todo o momento tentam esmagá-los e reduzi-los a nada: são as engrenagens de uma sociedade cruel, que gera riquezas mas, ao mesmo tempo, exclui completamente aqueles que foram os seus geradores.

Porém, eles não se deixam abater e seguem em frente na busca da felicidade a que todos os seres humanos têm direito. Trata-se de um filme otimista, que aponta para um futuro de uma vida diferente.

A música ” Smile “, composta por Charlie Chaplin, nos evolve e nos dá a certeza de que a vida-vivida pode existir, mesmo na adversidade. Não é por acaso que o “vagabundo” de Chaplin é cultuado e amado por todas as gerações no mundo inteiro.

Serra da Mantiqueira,dezembro de 2011

Arlindenor Pedro