memórias de tempos vividos! superando o que-já-se-efetivou com a Esperança do que-ainda-não-veio-a-ser ( reflexões ao estilo Ernesth Bloch)

Inteligência Artificial e Capital – Tomasz Konicz Featured

Can, what is playing you, make it to level-2?

Nick Land

 

 

 

Na singularidade ansiosamente esperada por Silicon Valley viria a si mesmo como o sujeito automático

Estará a humanidade pronta para servir com devoção os senhores robots, que em breve estarão entre nós? Esta questão, que costuma aparecer nas produções-lixo da indústria cultural, poderia tornar-se de facto bastante real em breve, na opinião de muitos críticos da pesquisa de inteligência artificial (IA). Se os senhores robots ainda quisessem governar a humanidade – e não decidissem livrar-se rapidamente dos “sacos de carne” irritantes, numa reedição dos filmes do Exterminador Implacável.

As vozes que advertem contra a pesquisa, em grande parte não regulamentada, sobre inteligência artificial, nos laboratórios de grandes empresas internacionais de alta tecnologia, estão a fazer-se ouvir cada vez mais ultimamente – e vêm de uma grande variedade de figuras proeminentes da comunidade da ciência e da alta tecnologia. (1)

Para o mundialmente conhecido físico Stephen Hawking, a descoberta qualitativa crucial na pesquisa de inteligência artificial – muitas vezes referida como singularidade, nos círculos da IA – poderia ser o “fim da humanidade”. (2) Ela “se destacaria sozinha, se modificaria a uma velocidade cada vez maior. Os seres humanos, limitados pela evolução biológica, não poderiam competir com ela e seriam eliminados”. Bill Gates advertiu que a inteligência artificial poderia ser potencialmente mais perigosa do que um desastre nuclear. Nick Bostrom, professor de filosofia da Universidade de Oxford, vê, em seu livro Superintelligence, um futuro cheio de milagres técnicos e económicos, em que não há mais pessoas. (3) Seria uma “Disneylandia sem crianças”, com cuja implantação a IA simplesmente eliminaria o factor humano.

Vernor Vinge, matemático e criador do termo singularidade, vê como inevitável que a formação da inteligência artificial supere o potencial intelectual dos seres humanos em todas as áreas relevantes – e considera possível a “extinção física da humanidade”. O especialista em IA, James Barrat, autor do livro Our Final Invention: Artificial Intelligence and the End of the Human Era, (4) vê, como linha de conflito mais provável, uma luta pelos recursos entre humanos e máquinas inteligentes: sem instituições que se lhe oponham nem mecanismos de segurança, “um sistema autoconsciente, em auto-aperfeiçoamento e autónomo na definição de objectivos prosseguiria o seu caminho, com meios que teriam de nos parecer insanos”.

O conhecido multimilionário da alta tecnologia Elon Musk é considerado um dos mais veementes críticos da inteligência artificial. Em entrevista à Vanity Fair (5), ele deu um exemplo do potencial destrutivo dos sistemas de inteligência artificial que se anunciam, resultantes de uma auto-optimização algorítmica ilimitada. Mesmo uma inteligência artificial encarregada da optimização autónoma de actividades inofensivas poderia vir a constituir um assassinato em massa: “Vamos supor que se criou uma IA que deveria apanhar morangos de modo auto-optimizado. Ela quer melhorar sempre, quer colher cada vez mais morangos, melhorando-se constantemente nessa tarefa. Tudo o que ela quer é apanhar morangos. Gostaria de transformar o mundo inteiro num campo de morangos. Strawberry fields forever”. (6) Não haveria espaço para as pessoas.

O pioneiro da alta tecnologia Musk, que é a força motriz por trás da Tesla-Motors, e quer acelerar a colonização da espaço com a empresa espacial SpaceX, tem estado na sua “cruzada” contra a IA desde 2014, como a Vanity Fair disse na longa reportagem acima mencionada, de Março de 2017.

Nessa altura, Musk avisou, no M.I.T. (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), que a IA pode tornar-se a “maior ameaça existencial para a humanidade”, pelo que terá de haver instituições nacionais e internacionais de regulação e vigilância – coisa que não existe até agora – para evitar que a indústria de IA de Silicon Valley destrua acidentalmente a humanidade.

Ninguém – com excepção dos envolvidos – sabe exatamente o que os deuses da alta tecnologia da era da Internet estão a maquinar, nas suas instalações de pesquisa e laboratórios altamente secretos. Em qualquer caso, Musk comparou o actual boom de pesquisa de sistemas de IA com a invocação de demónios em filmes de terror. Está-se seguro de conseguir manter tudo sob controlo – até que a coisa se escape. Em resposta a essas advertências, Musk foi descrito como um ludita em Silicon Valley, como alguém que quereria evitar o progresso tecnológico através da sabotagem.

O que seria a singularidade?

Mesmo o conceito de singularidade é controverso e pouco claro, porque se trata de uma hipótese que seria um ponto de viragem fundamental no processo de civilização. As ideias sobre um indivíduo portador de inteligência artificial, como Blade Runner ou Ex-Machina, geralmente são consideradas anacrónicas. Nesta hipótese, frequentemente pressupõe-se que o portador da singularidade é um software altamente complexo, que atinge a consciência, que continua a desenvolver-se por si, baseado em algoritmos. Estaria em toda a parte e em lado nenhum, a singularidade não poderia estar localizada num indivíduo artificial, num exterminador implacável ou num andróide – embora também pudesse controlá-los.

De acordo com muitos cenários futuros, a IA seria uma abstracção real, residindo na rede, na nuvem global. Um software que ganharia consciência. Essa inteligência artificial, que se desenvolveria exponencialmente por si só, desencadearia uma explosão de inteligência e de progresso tecnológico, transformando fundamentalmente a civilização humana de um modo sem precedentes, ou extinguindo-a (especialmente neste ponto, as opiniões divergem). Consequentemente, após o acto de singularidade, a IA tornar-se-ia independente, tenderia a escapar ao controlo e superaria a capacidade intelectual da humanidade em pouco tempo.

A singularidade simplesmente seria incontrolável – e assumiria ela o controlo do processo de civilização. Uma inteligência artificial totalmente treinada seria semelhante a uma ruptura civilizacional, como um “desembarque de extraterrestres”, disse à Vanity Fair Peter Thiel, investidor em Silicon Valley. Mesmo os cientistas envolvidos na pesquisa de inteligência artificial não saberiam exatamente como controlá-la. “Na verdade, ainda não sabemos o que IA será em concreto. É muito difícil saber como controlá-la.”

Os defensores da busca pela realização da singularidade gostam de contestar tais avisos, apontando que as máquinas artificiais não seriam dotadas de “inclinações e características humanas”, como a ambição, a autopreservação, o poder. Yann LeCun, líder em pesquisa de sistemas de IA e “deep learning“, actualmente chefe do programa de IA do Facebook, disse à BBC que um cenário de Exterminador Implacável não seria possível. Nas máquinas artificiais simplesmente não se implementaria nenhum instinto de autopreservação, pelo que esses problemas estariam resolvidos, disse Yann LeCun. (7)

O cientista de computação Stuart Russell, em declarações à Vanity Fair, considera tais afirmações simplesmente como “matematicamente erradas”. É óbvio que a inteligência artificial teria a vontade de autopreservação, mesmo que esta não fosse implementada explicitamente. Se se desse a uma máquina inteligente a instrução para obter um café, ela desenvolveria um instinto de autopreservação para cumprir essa missão. “E se alguém a ameaçasse no caminho para o café, ela iria matá-lo, para evitar qualquer risco para o café. Muitas pessoas explicaram isso a LeCun de uma maneira muito simples”.

Seria possível rever a singularidade? O cientista Eliezer Yudkowsky, que trabalha na Universidade de Berkeley, lida com o problema do desligamento da inteligência artificial. Não será de todo claro como incorporar um mecanismo de desligamento, numa inteligência mecânica que pudesse modificar-se e evoluir, alertou Yudkowsky. Ela poderia eliminá-lo ou pressioná-lo. Se se construir algo mais inteligente do que o construtor, então esses mecanismos de segurança teriam que ser implementados correctamente na primeira vez. O perigo real não vem de robots malvados, com olhos vermelhos (que, de acordo com antigas profecias perdidas (8), destruiriam a humanidade em 2084), explicou Yudkowsky:

“A questão da IA é que não é um robot. É o algoritmo de computadores em rede. Assim, o robot é apenas uma externalidade, apenas uma série de sensores e modificadores. A IA está na rede. Ora a questão decisiva é que a inteligência humana colectiva pudesse parar um algoritmo autonomizado. Mas se existir uma IA grande e centralizada, que tome as decisões, então já não pode ser parada”.
Google, Facebook & Cª – A indústria da Inteligência Artificial

Dentro da indústria global de alta tecnologia, existem influentes intervenientes e grandes empresas que acreditam, pelo menos, poderem criar nos próximos anos ou décadas algo que possa escapar ao seu controlo: uma inteligência artificial que ultrapassaria a humanidade e se desenvolveria exponencialmente, de modo independente. Indivíduos que se tornaram ricos a resolver problemas banais, como os sistemas de pagamento on-line, agora acreditam ter sido chamados para “criar um mundo novo, uma nova espécie”, comentou a Vanity Fair. A próxima década foi chamada de época da inteligência artificial em Silicon Valley, com a indústria de alta tecnologia a ser tomada com dinheiro por um pequeno número de “feiticeiros” que estariam familiarizados com as “fórmulas de invocação” da IA.

O principal player da indústria emergente de IA é a fornecedora de motores de busca Google, que é conhecida por ter crescido com modelos comerciais tão triviais como a publicidade online. A partir de 2014, a Google investiu fortemente no campo da inteligência artificial. A empresa também comprou, por 650 milhões de dólares, a DeepMind – uma empresa pioneira da inteligência artificial. O futurista e conselheiro militar dos Estados Unidos, Ray Kurzweil, que prevê a criação de divinais sistemas híbridos de humanos e máquinas para as próximas três décadas, também está na folha de pagamentos da Google. Nesses febris sonhos tecnológicos, presume-se que os seres humanos “carregariam” a sua consciência na singularidade residente na rede, eles se tornariam parte da matriz, seriam Borg. (9) O próprio Kurzweil se alimenta principalmente de “pílulas vitais” e leite de amêndoa – para viver o mais possível e poder fundir-se com a “máquina”.

Até que ponto a inteligência artificial prosperou foi demonstrado recentemente pelo programa Alpha Go, da DeepMind, que derrotou os melhores jogadores do mundo no jogo mais complexo do mundo, Go, por 60 a zero. Outro sistema de IA provou que poderia fazer bluff – derrotando os melhores jogadores num torneio de poker em Las Vegas. (10)

Além disso, o problema do “esquecimento catastrófico” parece estar resolvido, pelo menos em princípio. Este termo implica a incapacidade dos sistemas IA existentes de transferirem a experiência adquirida num campo de trabalho para outro problema. Um programa desenvolvido pela DeepMind foi capaz de realizar uma série de tarefas diferentes, usando a experiência adquirida anteriormente. Até agora, a inteligência artificial tinha de executar uma “reinicialização” para cada nova tarefa, de modo que o processo de aprendizagem começasse novamente. (11)

Além da Google, também o Facebook é líder na pesquisa de inteligência artificial. Em 2016, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, lançou a sua iniciativa de IA, na qual uma inteligência artificial amigável deve monitorizar e gerir a casa do multimilionário. Deve tornar-se uma espécie de “Jarvis de Iron Man”, segundo Zuckerberg. No entanto, de acordo com os críticos, essa abordagem não é tão avançada quanto os avanços da DeepMind, já que o Facebook, de facto, apenas desenvolveu e conectou sistemas de assistência existentes, como Cortana e Siri.

Aliás, a DeepMind foi cofundada por Demis Hassabis – tem graça que o autor do jogo de computador Evil Genius, no qual um cientista louco toma conta do mundo. E é em jogos de computador clássicos, como Pong ou Breakout, que os sistemas de IA de Hassabis demonstraram as suas habilidades.(12) Mesmo para capitalistas calejados, as ideias do guru da IA parecem ir muito longe, relatou a Vanity Fair. “Deveria ter disparado imediatamente”, teria sido “a última chance de salvar a humanidade”, brincou um investidor, após o encontro com o pioneiro da IA, que prossegue o estudo da inteligência artificial com um fervor religioso.

Transumanismo: o culto da morte dos talibãs da alta tecnologia

À medida que uma pessoa se desloca pelos gabinetes envidraçados das startups de IA de Silicon Valley, para questionar os “príncipes da nuvem” sobre as suas ideias do admirável mundo novo, a ser moldado pela inteligência artificial, faz-se então notar, com o tempo, um “sentimento assustador”, relatou a Vanity Fair. Com todas as garantias de tornar o mundo um lugar melhor, através da inovação, as pessoas são vistas como meras cobaias, como “tecnologia antiga, que em breve será eliminada”.

Muitos elementos de Silicon Valley conformaram-se com a realidade que aí vem: “Teremos 150 anos de idade, mas também teremos governantes-máquinas”. Steve Wozniak, co-fundador da Apple, fala sobre um futuro em que os humanos serão “animais domésticos” de máquinas inteligentes. (13)

E muitos gurus da alta tecnologia também estão prontos para aceitar o poder das máquinas que se aproxima, com todas as consequências. Há muitas pessoas na cena da IA que argumentam que, se as máquinas são mais inteligentes do que os humanos, “então elas devem tomar conta do planeta e nós devemos ir embora”, explicou Stuart Russell. Também é generalizada a crença de que as pessoas poderiam transferir a sua consciência para as máquinas, para continuarem a existir, para além do seu invólucro material. “Nós teríamos consciência, mas então seríamos máquinas”, o que é completamente improvável, disse Russell. Neste contexto, Musk falou de um “fio neuronal” entre o ser humano e a máquina, que poderia impedir a “obsolescência humana”, conectando o cérebro humano diretamente à IA em rede. Seria uma “fusão de consciência”, na qual o indivíduo ficaria totalmente absorvido no Nós colectivo da IA.

Obviamente que este debate sobre a IA também se caracteriza por um materialismo flagrantemente vulgar. O crítico francês do transumanismo, Jean-Michel Besnier, comentou: “A deflação semântica do termo inteligência é em si mesma um sintoma, a saber, o esmorecimento, ou, se se quiser, uma simplificação preocupante da ideia que o ser humano faz de si mesmo.” (14) Historicamente, a simples ideia de inteligência artificial surgiu na sequência da disciplina da fábrica, quando o ser humano foi obrigado pelo capitalismo a ser uma máquina. Por exemplo, Emil Post (junto com Alan Turing, um dos pioneiros teóricos do computador) costumava chamar a um trabalhador de linha de montagem o modelo de uma máquina programável. (15)

Pretende-se, agora, traduzir em realidade esta fusão ideológica do ser humano com a máquina. Na indústria domina um fatalismo neoliberal clássico em relação ao desenvolvimento social e tecnológico, o princípio TINA (There Is No Alternative: não há alternativa). “Os impérios caem, as sociedades mudam e estamos caminhando para a próxima fase inevitável”, lê-se na Vanity Fair. Consequentemente, já não é discutido se, mas quando se estará pronto para “se auto-aperfeiçoar”, através da inteligência artificial. Todos os “aprimoramentos” tecnológicos da nossa vida quotidiana, propagados pelas oligarquias da alta tecnologia, levariam a um futuro em que a humanidade desempenharia apenas um papel menor, se tanto. Isto seria um “paradoxo”, afirmou a Vanity Fair.

Musk disse à revista que, na cena da IA, o papel histórico da humanidade é comparado à função de um carregador de inicialização. O termo bootloader, como o conhecido programa GNU Grand Unified Bootloader (Grub), designa programas que têm a função de iniciar o carregamento do verdadeiro sistema operacional. Na ideologia da IA do transumanismo, que se está a espalhar como fogo na estepe em Silicon Valley, à humanidade é atribuído esse papel: ela é o bootloader do verdadeiro sistema operacional de uma inteligência artificial superior e sem limites de expansão.

“Nós somos o carregador de inicialização biológico para uma superinteligência digital”, assim resumiu Musk (que teve “muitas discussões acaloradas” sobre IA com o chefe da Google, Larry Page) as crenças de salvação de muitos transumanistas em Silicon Valley. “A matéria não consegue organizar-se num chip. Mas ela pode organizar-se num ser biológico complexo, que finalmente cria o chip.”
Os entediados multimilionários da alta tecnologia de Silicon Valley, que fizeram seus milhares de milhões com princípios comerciais tão triviais como sistemas de pagamento on-line e publicidade on-line, agora querem como que fazer o papel de Deus. Eles querem, afinal, insuflar a consciência na “bela máquina” (Adam Smith) produzida pelo capital, em sua cega compulsão de valorização global.

O cientista Jaron Lanier, um dos criadores do conceito de realidade virtual, disse à Vanity Fair por que razão os oligarcas de alta tecnologia estavam tão obcecados com o conceito de inteligência artificial. Ele satisfaz o seu narcisismo, pois apenas Silicon Valley é capaz disso: “Sois homens da tecnologia digital, criais vida, transformais a realidade.” Ninguém poderia fazê-lo, nem o Papa, e nem o Presidente, apenas vós. “O software que construímos é a nossa imortalidade”. Faz lembrar a história do bezerro de ouro, diz Lanier. Na verdade, pioneiros da IA, como Kurzweil, esforçam-se por prolongar as suas vidas, usando uma absurda dieta de pílulas, até que a fusão da sua consciência com a inteligência artificial na rede seja tecnicamente viável.

Independentemente de a singularidade ser tecnicamente viável, a ideologia do transumanismo, (16) que surgiu na sequência da pesquisa da IA, é digna de nota – e perigosa. Em geral, essa maneira relativamente nova de pensar a ideologia capitalista liberal pressupõe que o progresso científico-técnico e económico tende a transcender o homem, a transformá-lo ou a depositá-lo na lixeira da história. A humanidade como parteira de um mundo maquinal hiper-inteligente, que levaria a uma explosão de tecnologia e crescimento – este é o quadro ideológico de todas as versões de transumanismo. (17)

Torna-se assim evidente o reflexo ideológico do actual processo de crise nesta religião de alta tecnologia: As máquinas devem continuar com a compulsão de crescimento sem fim do capital, num além do lado de cá da aberta dominação mecânica, mesmo que a humanidade morra. O sistema continua, sem o factor humano perturbador, cujas deficiências mentais são apontadas como a causa de todas as actuais tendências de crise. Continuar com o capitalismo – mesmo depois da morte da humanidade, que é vista como um factor perturbador, perante a próxima explosão de crescimento e inteligência. (18)

O transumanismo é, portanto, um culto da morte, nascido do processo de crise do capitalismo tardio, semelhante ao islamismo do Estado islâmico ou dos Talibãs, semelhante ao antigo fascismo e ao novo, europeu e americano, do século XXI. O extermínio da humanidade é transfigurado num acto de salvação. A fantasia de salvação islâmica, que foge às contradições crescentes da socialização capitalista tardia com ataques suicidas, está instalada no além, com as suas dezenas de virgens. Os talibãs da alta tecnologia de Silicon Valley vêem a sua perspectiva de salvação no domínio da máquina, na fusão da sua consciência com a hiperinteligência residente na rede. É por isso que muitos participantes na cena da IA estão a seguir todas as absurdas dietas neocalvinistas que, diz a Vanity Fair, supostamente lhes darão a mais longa vida possível. Pretende-se prolongar a vida até que a fusão com a IA seja tecnicamente possível. O transumanismo, em que caíram muitos dos mais poderosos gurus da alta tecnologia, é, portanto, uma religião mecânica imanente. O culto liberal-capitalista da bela máquina, que o teórico da crise Robert Kurz desmascarou e denunciou. no seu Livro Negro do Capitalismo, (19) atinge o seu fim lógico no transumanismo. Os seres humanos devem tornar-se máquinas, ou dar lugar a elas, para encontrarem a salvação (Isto da religião da máquina também é para ser tomado à letra: já foi fundada uma seita em que a IA deve ser adorada como “Deus”, com toda a seriedade). (20)

Na sua agonia, o capitalismo assume cada vez mais os traços de um movimento intrinsecamente religioso (21), uma “seita suicida louca” (Robert Kurz) que, das montanhas do Afeganistão a Silicon Valley, carrega o colapso iminente do sistema mundial com um sentido louco. Para os talibãs de todas as cores, a salvação só pode ser encontrada na morte. O transumanismo é uma religião da máquina, incubada pelo “centro” do capitalismo tardio: a “bela máquina” do capital, adorada pela ideologia capitalista, deve literalmente ser despertada para a “vida”, e dotada de uma consciência sem limites. A inteligência exponencialmente crescente, com que sonham muitos gurus da IA, é, claramente, apenas um reflexo ideológico do ilimitado desejo de explorar do capital, que está a atingir o seu limite histórico.

Inteligência artificial e “sujeito automático”

A amarga ironia da ignorância do transumanismo, que surgiu da idiotice profissional clássica, é, naturalmente, que as “máquinas” há muito prevaleceram sobre a humanidade. Elas fazem isso desde que o capitalismo foi imposto – só que não o fazem conscientemente. Em qualquer crise, em que os surtos de automação conduzam ao desemprego em massa e à miséria, torna-se evidente que as “máquinas” servem para outro propósito que não a satisfação das necessidades humanas, satisfação que para elas é apenas um mal necessário, apenas um meio para outro fim.

Isso já era evidente na automação da indústria têxtil e na consequente pauperização, que desencadeou, por exemplo, as revoltas dos tecelões. E este é também o caso da crise que agora se está a desenvolver na sociedade do trabalho capitalista, com a sucessão cada vez mais rápida de surtos de automação, crise que agora está a ser discutida não apenas entre grupos teóricos de esquerda, mas mesmo no mainstream burguês. (22) Os ocupantes da roda de hamster capitalista estão há muito tempo em luta com as máquinas, uma luta na qual eles só podem perder, na imanência do sistema.

O absurdo escandaloso, em que ninguém repara, é precisamente o facto de as máquinas, cada vez mais inteligentes, poderem produzir cada vez mais bens, num tempo cada vez menor, com cada vez menos trabalho humano. O paraíso parece estar próximo, as necessidades básicas de todas as pessoas podem ser satisfeitas, mas, no entanto, o inferno irrompe na terra – surgindo com ele os cultos de morte correspondentes, como o islamismo, o fascismo e o transumanismo.

A produção cada vez mais eficiente no capitalismo, toda a racionalidade do processo de produção, visa um propósito afinal irracional: a maior valorização possível do capital investido. O propósito próprio de obter o maior lucro possível por meio da produção de mercadorias torna-se independente no plano social global. Por trás das costas dos produtores, esse processo de valorização do capital desenvolve uma dinâmica própria, que enfrenta os seus sujeitos de mercado como um poder estranho, quase natural (“mercados”, “coerções objectivas”, etc.). (23)

Portanto, se a própria força de trabalho não pode mais ser vendida no mercado de trabalho, devido a um surto de racionalização, porque as novas técnicas de automação tornam o trabalho maciçamente supérfluo, então as máquinas já estão a roubar às pessoas os seus meios de subsistência. As máquinas já “dominam” sobre a humanidade capitalista tardia, fazem isso como concretização do movimento de valorização do capital, realmente abstracto e cego, que se torna cada vez mais eficiente por meio da concorrência, afastando cada vez mais o trabalho da produção de mercadorias, ao tornar-se cada vez mais “inteligente”.

Nesse contexto, o pioneiro da tecnologia Tim Berners-Lee fala dos robots que estão a assumir os “nossos empregos”. Os carros de condução automática e as fábricas automatizadas tornarão os trabalhadores cada vez mais supérfluos: (24) “Hoje são sobretudo os postos de trabalho pouco qualificados que são substituídos por computadores, mas acabarão por ser também postos de trabalho qualificados, como redactores de jornais, juristas e médicos”. É por isso que é necessário, segundo Berners-Lee, considerar e discutir amplamente novas formas de reprodução social, como o rendimento básico incondicional.

Essa tendência tem funcionado há décadas, na verdade, desde o começo da revolução das TI: as máquinas, como ferramentas do movimento de valorização fetichista do capital, estão a empurrar os seres humanos para fora do processo de produção. E esse desenvolvimento também é a causa do actual processo de crise socioeconómica.

Marx sintetizou no conceito de sujeito automático (25) o movimento social global, cegamente desmedido, da valorização do capital, que desenvolve a sua dinâmica fetichista própria nos “mercados”, como “coerções objectivas”, contra os impotentes sujeitos do mercado. O automatismo ilimitado da “autovalorização” do capital é executado com uma tenacidade subjetivada, que, em tempos de crise, pode devastar regiões inteiras do mundo, e pode pauperizar camadas inteiras da população. Uma dinâmica social produzida inconscientemente, através do mercado, pelos membros da sociedade, na sua qualidade de sujeitos do mercado, domina-os – e é geralmente documentada com conceitos como “os mercados” ou “coerções objectivas”.

A ironia que, obviamente, escapou do transumanismo é que os seres humanos ainda não são senhores da sua própria sociedade, nem nunca foram. A humanidade, sob o capital, não é necessariamente o animal de estimação (Wozniak), mas sim o gado de uma dinâmica social autonomizada. As máquinas já mostram dominar os seres humanos, uma vez que são usadas no ciclo de valorização do capital, sendo a sua aplicação direccionada para o objectivo do automatismo da valorização do valor, que globalmente constitui a referida dinâmica própria subjectivada. É uma dominação mecânica, cega de raiva e inconsciente, que constitui o capitalismo tardio – impulsionado apenas pelo impulso doentio de uma autopropagação da relação de capital, como sujeito automático.

Decisiva para a formação concreta da inteligência artificial é, naturalmente, a sociedade na qual ela iria surgir. Um exemplo, relativamente a este assunto, da ingenuidade das empresas de alta tecnologia, que funcionam na sua bolha de public relations desligadas das contradições sociais concretas, foi dado em 2016 pela Microsoft, co-fundada pelo “visionário” Bill Gates (“640 kilobytes são suficientes”) (26). A empresa colocou na Internet o Chatbot de IA Tay, que supostamente se tornaria “mais inteligente” através de “conversas aleatórias e divertidas” com os utilizadores da Internet. Num curto período de tempo, o programa de IA teve que ser posto offline, quando se transformou “num idiota racista, em menos de um dia”, como disse The Verge. (27)

A IA avançada, totalmente formada como uma singularidade, aperfeiçoando-se a si mesma sem fim, não surgiria no vácuo, mas na indústria tecnicamente avançada do capitalismo tardio – que constitui precisamente um culto transumanista da morte, cujos seguidores literalmente querem ser absorvidos na “bela máquina” do capital. O que poderia aqui falhar?

Qual seria então a singularidade, se ela realmente surgisse num capitalismo tardio marcado pela crise (admitindo que tal inteligência artificial, auto-aperfeiçoada e explosivamente crescente, é tecnicamente viável)? O capital, como sujeito automático, tornar-se-ia consciente de si mesmo – o processar cegamente raivoso da dinâmica do capital, em seu movimento de acumulação ilimitado, devastador do mundo, viria a si, chegaria à consciência. Os gurus da IA querem criar um deus mecânico, residente na vastidão virtual da rede, que saísse do automatismo muito real, “subjetivado” da dinâmica de valorização capitalista.

A humanidade e um mundo ecologicamente de algum modo intacto, como estádios necessários do processo de valorização, poderiam então ser deliberadamente descartados. É para isso que o capital já se esforça, em seu processo de valorização cego, ele torna a humanidade economicamente supérflua. A religião transumanista da morte, destes talibãs da alta tecnologia, apenas executa a tendência inerente ao capital, de processar cegamente para destruir a humanidade. Silicon Valley poderia assim dar uma consciência ao processo social “inconsciente”.

Berners-Lee já vê actualmente os primeiros começos de uma “IA baseada na rede”, abrangendo todo o globo. (28) O perigo não viria de exterminadores implacáveis ou de robots “sexy”, é mais provável que a “super-inteligência” se manifeste primeiro em rede na “nuvem empresarial”: “A distopia será muito mais aborrecida do que um robot a tomar conta do mundo. Será um programa empresarial na nuvem da Internet”.

De resto, a valorização do capital na esfera financeira há muito foi optimizada por sistemas de IA – entre outros, por Robert Mercer, o arqui-reaccionário patrocinador de Trump, que fez os seus milhares de milhões na especulação do mercado financeiro, através de sistemas de IA optimizados. (29) A inteligência quântica já está na nuvem e é “muito poderosa”, diz Berners-Lee. Especialmente na negociação de títulos nos mercados financeiros, ela é usada para optimizar a especulação rápida e eficiente:

“Afinal já externalizámos para o computador a maior parte do nosso negócio. A nossa economia quer que os computadores façam coisas inteligentes, que os tornem mais eficientes. Nós queremos que os nossos computadores sejam os melhores, para que possamos sobreviver na economia. É por isso que treinamos os nossos computadores, para serem os melhores e sobreviverem. Os computadores criarão novos programas e até novas empresas para fazerem o seu trabalho melhor … a IA criará os seus próprios programas. Na verdade, os computadores serão capazes de criar programas melhores e mais rápidos que os seres humanos”.
Se for tecnicamente viável realizar a singularidade no capitalismo tardio, então ela surgirá aqui: na corrida de ratos, em busca de maiores lucros, na esfera do capital fictício, nos mercados financeiros globais. Os novos senhores robots terão as familiares características desumanas – e lidarão com a humanidade economicamente supérflua “escorrendo sangue e sujeira” (Marx), tal e qual como o cego automatismo da relação de capital já faz há 300 anos. (30)

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(1) „5 Very Smart People Who Think Artificial Intelligence Could Bring the Apocalypse“, time.com, 02.12.2014

(2) „Stephen Hawking warns artificial intelligence could end mankind“, bbc.com, 02.12.2014

(3) Nick Bostrom, „Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies“, Oxford University Press, 2014

(4) James Barrat, „Our Final Invention: Artificial Intelligence and the End of the Human Era“, Thomas Dunne Books, 2013

(5) „Elon Musk’s Billion-Dollar Crusade to Stop the A.I. Apocalypse“, vanityfair.com, 26.03.2017

(6) https://www.youtube.com/watch?v=tdbTOaRh79U

(7) „Intelligent Machines: What does Facebook want with AI?“, bbc.com, 15.09.2015

(8) https://www.youtube.com/watch?v=2QLKk_RBEgw

(9) https://www.youtube.com/watch?v=ZetmwyBanNU

(10) „Alpha Go zerlegt Go-Community“, golem.de, 05.01.2017

(11) „Google’s DeepMind makes AI program that can learn like a human“, theguardian.com, 17.03.2017

(12) „Evil Genius designer has created an AI that can play games and will doom us all“, pcgamesn.com, 26.02.2015

(13) „Apple co-founder Steve Wozniak says humans will be robots’ pets“, theguardian.com, 25.06.2015

(14) Laurent Alexandre, Jean Michel Besnier: „Können Roboter Liebe machen? Transhumanismus in zwölf Fragen“ [Os robots poderiam fazer amor? Transumanismo em doze questões], Wien, 2017, S. 80

(15) Bettina Heintz, „Die Herrschaft der Regel – Zur Grundlagengeschichte des Computers“ [O domínio da regra. História fundamental do computador], Frankfurt/New York 1993, S.166.

(16) Christopher Coennen, Stefan Gammel, Reinhard Heil, Andreas Woyke (Hg.): Die Debatte uber „Human Enhancement“ – Historische, philosophische und ethische Aspekte der technologischen Verbesserung des Menschen [O debate sobre human enhancement. Aspectos históricos, filosóficos e éticos da melhoria tecnológica do ser humano], Bielefeld 2010.

(17) O transumanismo pode aqui referir-se a visões capitalistas mais antigas da “melhoria técnica do homem”. Ver novamente: Christopher Coennen, Stefan Gammel, Reinhard Heil, Andreas Woyke (Hg.): Die Debatte uber „Human Enhancement“ – Historische, philosophische und ethische Aspekte der technologischen Verbesserung des Menschen [O debate sobre human enhancement. Aspectos históricos, filosóficos e éticos da melhoria tecnológica do ser humano], Bielefeld 2010. Na verdade, no século XIX o homem foi repetidamente considerado como uma máquina a ser optimizada. Os antecedentes disso foram os esforços para controlar medicamente a “fadiga” causada pelo trabalho, como explica Anson Rabinbach em “Kraft Ermudung und die Ursprung der Moderne [A fadiga do pessoal e a origem da modernidade], Wien 2001”. Em certo sentido, o transumanismo também pode ser visto como uma forma extrema de eugenia, sob uma nova aparência. Com a diferença de que agora todos os seres humanos são considerados “vidas que são um fardo”. As tradições do transumanismo vão até à história da imposição do capital: já se manifestam na extrema hostilidade ao corpo e no ascetismo calvinista dos transumanistas. Não é de admirar que os transumanistas, como outros antes deles, sonhem em abolir o parto: a concepção e o parto devem ser substituídos pelo fabrico. A mania androcêntrica da fazibilidade dificilmente poderia ser mais clara (Ver: https://netzfrauen.org/2016/07/09/maschine-statt-mama/).

(18) „AI is getting brainier: when will the machines leave us in the dust?“, theguardian.com, 15.03.2017

(19) Online no original alemão em: http://www.exit-online.org/pdf/schwarzbuch.pdf

(20) „Man kann Kirche nicht ohne KI schreiben“ [Não se pode escrever igreja sem o I e o A], zeit.de, 18.11.2017

(21) „Die Prophezeiung“ [A profecia], heise.de/tp, 27.12.2013

(22) „Millionen Jobs fallen weg“ [Milhões de jobs desaparecem], faz.net, 17.01.2016

(23) Mas o determinismo tecnológico agressivo dos investigadores de IA e transumanistas também se mostra no facto de eles não serem minimamente capazes de questionar, ou de algum modo problematizar, as formas sociais do capitalismo. Por exemplo, Hans Moravec pinta febris sonhos tecnológicos, mas não consegue imaginar um mundo não capitalista. Mesmo num mundo onde as máquinas governassem, ainda haveria concorrência e nada seria grátis, diz Hans Moravec em: Computer ubernehmen die Macht – Vom Siegeszug der kunstlichen Intelligenz [Os computadores tomam o poder – O triunfo da inteligência artificial], Hamburg 1999.

(24) „Internet founder speaks out on AI fear, the singularity, and beautiful robots“, businessesgrow.com

(25) Karl Marx – Friedrich Engels – Werke, Band 23, „Das Kapital“, Bd. I, Zweiter Abschnitt [O Capital, Livro I, Secção 2], p. 161 – 191

(26) „The ‘640K’ quote won’t go away — but did Gates really say it?“, computerworld.com, 23.06.2008

(27) „Twitter taught Microsoft’s AI chatbot to be a racist asshole in less than a day“, theverge.com24.03.2016

(28) „Internet founder speaks out on AI fear, the singularity, and beautiful robots“, businessesgrow.com

(29) „Das Establishment hinter den Rechtspopulisten“ [O establishment por detrás dos populistas de direita], heise.de/tp, 22.08.2017

(30) Siehe: „Die sogenannte ursprungliche Akkumulation [A chamada acumulação original]“, in: Karl Marx – Friedrich Engels – Werke, Band 23, “Das Kapital”, Bd. I, Siebenter Abschnitt [O Capital, Livro I, Secção 7], p. 741 – 791

OriginalKI und Kapitalin http://www.exit-online.org. 18.02.2018. Tradução de Boaventura Antunes

http://obeco-online.org/

http://www.exit-online.org/

Um ataque frontal – Norbert Trenkle Featured

Lembramos aqui a memória do professor Moishe Postone com um artigo do pensador alemão Norbert Trenkle, de 2004, a respeito de sua obra mais conhecida , Tempo, Trabalho e Dominação Social, numa tradução de Marcos Barreira.

Moishe Postone abalou a crítica social tradicional

Há livros que alardeiam ter reinventado o mundo, embora não apresentem muito mais do que versões renovadas de banalidades já conhecidas. O contrário se aplica ao livro de Moishe Postone, “Tempo, trabalho e dominação social”. Calmo e cuidadoso no tom e no estilo – às vezes até demais –, ele representa, no conteúdo, um verdadeiro ataque frontal às falsas certezas de base do pensamento social crítico até então existente. Com uma enorme meticulosidade, Postone mina as bases teóricas dessa crítica e as questiona radicalmente.

Não surpreende, portanto, que essa reinterpretação da teoria de Marx, embora disponível há dez anos no original em inglês, até agora tenha encontrado pouca entrada no debate social crítico. O velho pensamento é obstinado e tem grande capacidade de resistir e reprimir. É precisamente uma minoria acadêmica, que ainda invoca Marx e nunca ultrapassou o marxismo tradicional, que o demonstra cada vez mais. Quem sabe agora, com uma tradução alemã, ela seja ao menos obrigada a renunciar à sua ignorância desafiadora.

O ataque de Postone é dirigido primeiro contra o maior dos santos da sociedade burguesa, contra a categoria que é venerada pela direita e pela esquerda: o trabalho no capitalismo. Nada parece mais natural ao pensamento burguês do que a idéia de que toda sociedade se baseia no trabalho. Ele vê o trabalho como um princípio trans-histórico, como o que torna o homem humano. É exatamente este princípio auto-evidente que é questionado em seus fundamentos por Postone.

Embora o trabalho, no sentido de um processo metabólico com a natureza, desempenhe evidentemente um papel em toda sociedade, o capitalismo é a única de todas as formações sociais até essa altura que é constituída pelo trabalho ou, em outras palavras: a única em que o contexto social é mediado pelo trabalho. Essa é uma característica historicamente muito específica que distingue o capitalismo de todas as sociedades anteriores.

Tal conclusão tem consequências de grande alcance. A mediação do trabalho é essencialmente uma mediação consigo mesma, quase automática. Desafia o controle consciente e a planificação, por exemplo, através do Estado, elevando-se, ao invés disso, a “sujeito automático” da sociedade, constituindo assim uma certa forma de dominação abstrata. Nas formas objetivadas da mercadoria e do valor, confronta o homem como uma força aparentemente externa e o sujeita às suas coerções objetivas, como a compulsão ao crescimento quantitativo permanente; coerções que aparecem como leis naturais intransponíveis, embora elas mesmas, de forma alienada, sejam produzidas por seres humanos.

Raramente isso foi analisado de forma tão precisa e coerente como em Postone, especialmente no quarto capítulo de seu livro. Embora o caráter auto-mediador do trabalho esteja intrinsecamente ligado à produção de mercadorias, isso é, à característica central de uma sociedade “em que a mercadoria é a forma geral do produto e, portanto, o valor é a forma geral de riqueza” (p.229.), Postone não pega o desvio através da troca de mercadorias, como disse Marx, mas persiste em seu argumento de forma consequente ao nível do próprio trabalho.

Essa “via direta” é muito mais laboriosa e difícil de entender do que o referido “desvio”, e, no entanto, é necessário segui-la. Pois somente dessa maneira pode ser dissipado esse mal-entendido fundamental que é característico de todas as variantes do marxismo tradicional. Uma vez que o trabalho sempre foi considerado como a categoria central trans-histórica de toda sociedade, sua crítica, em última análise, sempre se opôs à “transformação” dessa categoria em capital. A exploração do trabalho e o suposto “encobrimento” dessa exploração através da troca de mercadorias foram criticados, mas não a forma do trabalho abstrato em si mesma e o papel específico do trabalho no capitalismo.

Nesse sentido, como Postone não se cansa de enfatizar, o marxismo tradicional, ao contrário de sua própria autocompreensão, ocupou positivamente o ponto de vista do trabalho, a partir do qual ele fez a crítica da circulação, da propriedade privada e do mercado; uma crítica da apropriação da mais-valia pela classe capitalista e não do valor como categoria. Sua principal preocupação era libertar o trabalho e não libertar-se do trabalho.

Essa fixação irrefletida da crítica no nível da circulação e da distribuição também é a razão pela qual o marxismo tradicional chegou ao seu limite e se tornou incapaz de analisar e criticar adequadamente os desenvolvimentos atuais do capitalismo. Seu caso limite é marcado pela Teoria Crítica, cujo pessimismo resultava precisamente do fato de ela não superar o ponto de vista do trabalho, embora já não pudesse se relacionar positivamente com ele à luz do desenvolvimento histórico transcorrido.

No entanto, Postone não descarta de forma abstrata essa limitação da crítica como um “erro”, mas a classifica historicamente como expressão de um determinado período da história da constituição e da imposição capitalistas. Em geral, sua grande força reside em compreender de modo consequente o capitalismo como um processo histórico que não apenas sofre uma série de mudanças, mas que possui uma dinâmica direcional específica. Essa direcionalidade, que se estabelece na automediação contraditória da sociedade pelo trabalho e pelo valor, consiste, antes de tudo, em impor coercitivamente o seu próprio absoluto, em subsumir o mundo inteiro na finalidade abstrata da valorização do valor, isto é, em produzir uma totalidade social.

Em segundo lugar, ela se expressa no impulso permanente para aumentar a produtividade e assim tornar supérfluo o trabalho no processo de produção imediato. Dessa forma, segundo Postone, o capitalismo produz as condições e o potencial para sua própria superação.

Para o observador superficial, isso pode aparecer algo como um constructo de filosofia da história. Mas seria um grande mal entendido. Postone mostra muito claramente que esta direcionalidade histórica é uma peculiaridade muito específica do capitalismo que o distingue de todas as formações sociais anteriores. A noção de uma lei trans-histórica da “história” é explicitamente recusada por Postone; de forma convincente, ele mostra que essa idéia, em si mesma, reflete a consciência típica da sociedade burguesa, precisamente essa regularidade dinâmica historicamente específica que, como as demais categorias do capitalismo, aparenta ser trans-histórica.

Esta visão possibilita uma crítica de Hegel e Lukács, que pertence ao melhor do que já foi feito a este respeito. Em contraste com o modismo da crítica da filosofia da história que é recitado hoje em dia por qualquer estudante recém-chegado, o método de Postone consiste em explicar essa forma de pensar a partir de certas relações sociais, ao invés de rejeitá-la como uma simples construção idealista. Visto desta maneira, o livro de Postone também pode ser lido como um comentário sobre o pós-modernismo, mesmo que este seja mencionado apenas ocasionalmente nas notas de rodapé.

O problema com a demonstração de Postone dessa dinâmica direcional inerente não é uma suposta direção em termos de filosofia da história, mas uma contradição imanente à sua própria argumentação. Se ele mostra que o capitalismo, em sua lógica intrínseca, pressiona para tornar supérfluo o trabalho imediato no processo de produção e, portanto, minar sua própria base, a valorização do valor, isso é na verdade o diagnóstico de um processo de crise fundamental. Um processo de crise que empurra o capitalismo até os limites de sua capacidade de funcionar e, como resultado, exclui uma parte cada vez maior da humanidade da riqueza social.

Esta conseqüência é apresentada logicamente na argumentação de Postone, no entanto, ela recua temerosa. Embora se fale de uma tensão crescente resultante do processo contraditório fundamental entre as forças produtivas e as relações de produção, ele as descreve apenas como uma entre as possibilidades e os potenciais que o capitalismo produz, e sua realização, que por sua vez é impedida. Que essa tensão se sustente é algo que em nenhum momento é negado.

Além disso, Postone está certo em rechaçar a ideia de algum tipo de automatismo de libertação. A dissolução emancipatória dessa tensão é apenas uma possibilidade, cuja realização pressupõe o processo consciente de superação da forma do valor e da mercadoria. Mas como é que se expressa a intensificação da contradição entre forças produtivas e relações de produção se ou enquanto não ocorre essa superação emancipatória? O capitalismo se desenrola ad infinitum numa base em constante diminuição? Ou são as suas tendências autodestrutivas que estão muito mais próximas?

Especialmente em vista dos desenvolvimentos globais atuais, essa questão é enormemente explosiva, porque estabelece o pano de fundo para a ação dos movimentos emancipatórios. Postone deixa esta questão em aberto. Mas, ao jogar por terra a crítica social tradicional, ele fornece a base teórica sobre a qual tal questão deve ser discutida.

Ein Frontalangriff

Moishe Postone wirft die traditionelle Gesellschaftskritik über den Haufen

erschienen in: Jungle World Nr. 24/2. Juni 2004.

Tradução : Marcos Barreira

Tempo, Trabalho e Dominação Social – Moishe Postone Featured

Foto : Postone curtindo com a galera em Fortaleza 

Quando o Jorge Paiva me ligou de Fortaleza perguntando se nós aqui no Rio estaríamos interessados em fazer uma palestra com o professor Postone, eu de imediato concordei e o mesmo aconteceu com o Silas e os demais integrantes do nosso Grupo de Estudos, mesmo sabendo das dificuldades que teríamos para organizar um evento como este . Segundo o Jorge, o professor teria que fazer uma conexão no Rio ( ele vinha de de Fortaleza, após participar de palestras organizadas pelo Grupo Crítica Radical na Universidade daquela cidade ) e teria dois dias livres .

Anteriormente ele participara de algumas palestras organizadas pela Editora Boi Tempo, onde o seu livro foi lançado no Brasil e manifestara o desejo de voltar àquela cidade do nordeste, onde alguns anos antes fora tão bem recebido . Queria rever os amigos ! Então, porque não aproveitar a oportunidade : na volta, palestra no Rio, ora ! Teríamos então que combinar com a Editora Boi Tempo ( que trouxe Postone ao Brasil para o lançamento do livro Tempo, Trabalho e Dominação Social ) e obter sua anuência para o encontro.

Após estas medidas apelei então para o professor Marildo Menegat que gostou da ideia e se pôs em movimento me apresentado a uma série de professores e estudantes que tinham interesse em estar com o Postone e com ele dialogar . Afinal ele era um dos mais identificado com as ideias do canadense no seio da Universidade . Tínhamos então, a partir daí, uma massa crítica para por o evento de pé : reservar hotel ( ele viria com seu filho, que sempre o acompanha nas suas viagens internacionais ), destacar alguém para recebê-los no aeroporto acompanhando- os pela cidade ( que a professora Larissa cumpriu com grande brio ) , ver uma empresa de tradução de palestras, cartazes, convites, som e o mais importante : o local , que pensamos ser o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro . Local central, e já tradicional na cidade para tal acontecimento.

Enfim, o encontro com o Postone tomava forma : quem não pudesse ajudar diretamente poderia contribuir financeiramente para os custos do evento. Uma vaquinha foi então aberta, abrindo caminho para a sua realização.

A obra do professor Postone tem enorme importância para a reflexão crítica da teoria marxista entre nós, aqui no Brasil . Mas, é importante ressaltarmos que poucos intelectuais daqui se importam com suas concepções. E, neste sentido, suas ideias circulam ainda num círculo restrito da inteligência do país. Num momento em que a principal saída para o desenvolvimento do país se encontra na figura do líder do maior partido dos trabalhadores do ocidente, como ler a obra de quem afirma que o protagonismo do proletariado tende a cada vez mais ser irrelevante na construção de uma nova sociedade ? E mais : que é o proletariado o primeiro que desaparecerá ( e não a burguesia ) na sociedade que se vai delineando : uma sociedade sem trabalho !

O professor Postone na sua palestra ( que ele faz de pé, por cerca de uma hora ) apresenta suas ideias calçada em um texto elaborado previamente . Fica evidente o rigor teórico que ele quer atingir . Sempre indo e voltando na exposição quer marcar bem suas posições : é uma ilusão atribuir-se, em última instância, as classes sociais, a dominação de pessoas por outras pessoas, o âmago da dominação social existente no capitalismo . Ele vê em Marx, na sua obra O capital, o entendimento de que estamos tratando de um sistema abstrato, criado pelo próprio homem que o domina, esteja ele onde estiver no extrato social . Nesse sentido, na sua impessoalidade voraz na busca do mais valor, ele é um inimigo concreto de toda a humanidade , que poderá nos levar a extinção .

Creio que foi uma boa palestra ao nível de outras como Robert Kurz, Anselm Jappe e outros que utilizam os instrumentos da Crítica do Valor como material de análise. Valeu a pena o esforço de todos para concretiza-la . Após algum tempo, finalmente conseguimos eterniza-la em um vídeo, que graças aos esforços do Renan, da Paula e da Virgínia se tornou um fato .

Aproveitem, trata-se de excelente apoio para leitura do livro. Daqui da Mantiqueira, um grande abraço para todos !

Arlindenor Pedro

Repensando o Capitalismo, Reestudando Marx

Palestra de

Moishe Postone

Brasil, junho de 2015

 

I

Se há um teórico do qual se pode dizer que teve uma significativa influência na prática histórica, esse teórico é Karl Marx. Entretanto, poderia se argumentado também que a prática histórica de cada geração dá origem ao seu próprio Marx – do Marx positivista da Social Democracia do final do Século XIX, passando pelo Marx anti-positivista Hegeliano dos anos 1920 e 1930, passando pelo existencialista e, finalmente, Marx estruturalista das décadas posteriores.

Essas várias tradições, ao que tudo parece, têm sido suplantadas várias décadas atrás. Havia um afastamento de abordagens inspiradas por Marx e o surgimento de outras formas de abordagens da teoria crítica como o pós-estruturalismo e a desconstrução. Todavia, venho argumentar que o recente histórico desenvolvimento sugere que Marx possui uma renovada significância para a prática histórica.

As profundas transformações do mundo nas recentes décadas têm indicado dramaticamente que a análise social crítica precisa ter uma preocupação central com questões da dinâmica histórica e com grandes mudanças estruturais para se adequar com nosso universo social; essas profundas transformações têm duramente revelado a limitação fundamental da recente abordagem crítica como tentativa de apreender o mundo contemporâneo. Focado em tais transformações, finalmente aponta para uma fundamental reconsideração do que isso significa pela história e pela temporalidade; uma reconsideração que, eu argumentaria, pode ser mais bem verificada na base da teoria crítica do capitalismo fundamentalmente reinterpretada. Em vez considerar a temporalidade como uma pré-concebida, imutável ordem na qual todas as formas de vida social se movem, tal teoria apreende o capitalismo como uma organização muito peculiar da vida social que constitui sua própria e específica temporalidade histórica. Isto se faz na medida em que esteja estruturado por formas únicas de mediação social que são intrinsecamente temporais. Essas formas fundamentam um dinamismo histórico peculiar que é ao mesmo tempo historicamente global e específico.  A temporalidade do capitalismo, então, não é intrínseca para ele próprio, mas intrínseca para sua forma de estruturação social.

A idéia da dimensão temporal da modernidade capitalista ser historicamente específica implica em que o formato das condições para as investigações do mundo moderno sejam também historicamente específicas. Isso, conseqüentemente, sugere que a investigação histórica precisa buscar ser adequada com a temporalidade de seu objeto de investigação, ao invés de reunir todas as sociedades humanas com o mesmo conceito do processo temporal.

II

Meu foco no caráter do historicamente dinâmico da sociedade capitalista responde às massivas transformações globais das últimas quatro décadas. Este período tem sido caracterizado pela fragmentação dos estados centralizados da pós-Segunda Guerra Mundial e síntese Fordista do Oeste, pelo colapso ou transformações fundamentais dos estados partidos e o comando de suas economias no Leste e a emergência do capitalismo neoliberal na ordem global.

Este desenvolvimento pode ser entendido com referência na predominante trajetória do capitalismo de estado centralizado no século 20 do seu início na Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, atravessando o seu ápice nas décadas que se seguem à Segunda Guerra Mundial e seu declínio depois do início dos anos 1970. O que é significativo sobre sua trajetória é o seu caráter global. Ele abrangeu os países capitalistas do oeste e os países comunistas, assim como suas colônias e ex-colônias. Apesar das diferenças ocorridas no histórico desenvolvimento, é claro, elas parecem mais como diferentes inflexões de um padrão comum do que um fundamentalmente diferente desenvolvimento.  Esse desenvolvimento geral ocorreu independentemente de qual partido estivesse no poder e foi paralelo ao sucesso do pós-guerra e subseqüente rápido declínio da União Soviética e as distantes transformações da China.

Tal desenvolvimento geral não pode ser convincentemente explicado por termos contingentes. Ele fortemente sugere a existência de estrutura geral limitada nas decisões políticas, sociais e econômicas, assim como da força dinâmica não completamente particular do controle político. Ao mesmo tempo eles colocam em questão noções lineares do desenvolvimento histórico – se marxista, weberiano ou liberal.

Esses padrões gerais também sugerem que o foco teórico na agência e contingência nas recentes décadas é unilateral do funcionalismo estrutural que ele suplantou. Sendo o alcance da disseminação da moeda durante o auge do capitalismo de estado centralizado, o padrão desenvolvido então durante a época neoliberal. Nenhuma abordagem, entretanto, materializou suas relações para seu contexto histórico. Isso sugere que, ao contrário de tais abordagens, uma teoria crítica pode ser capaz de problematizar sua própria descontextualização. Isso é, pode ser reflexivo.

Considerações desse predominante padrão sugerem a importância de um renovado encontro com a crítica de economia política de Marx, pela problemática da dinâmica histórica e mudanças da estrutura global está no amado dessa crítica. Embora a história do último século também sugira que uma teoria crítica adequada precisa diferir fundamentalmente da tradicional crítica Marxista do capitalismo, pelo qual eu intenciono um modelo interpretativo geral no qual o capitalismo é analisado essencialmente em termos de relações de classe que está enraizada na propriedade privada e mediada pelo mercado e dominação social, que é entendida primariamente em termos de dominação de classe e exploração.

Com esse modelo básico, se verifica uma gama de abordagens que tem gerado uma poderosa análise econômica, política, social, histórica e cultural. Entretanto, as próprias limitações do modelo geral tornam-se cada vez mais evidente à luz do desenvolvimento histórico do século XX. Esse desenvolvimento inclui o caráter não emancipatório do verdadeiramente existente socialismo, a histórica trajetória do seu apogeu e declínio, paralelamente àquela do estado intervencionista do capitalismo (sugerindo que eles são similarmente situados historicamente), a importância do crescimento do conhecimento científico e avanços tecnológicos na produção (que parece levantar questões da teoria do valor do trabalho), crescente criticismo do progresso tecnológico (que se opõe ao produtivismo do mais tradicional marxismo), e o crescimento da importância das não-classes baseadas nas identidades sociais. Juntos, eles sugerem que o tradicional modelo é insuficiente como ponto de partida para uma teoria crítica adequada. Consideração ao padrão histórico geral que tem caracterizado o século passado levanta questões de ambos os marxismos tradicionais com sua afirmação do trabalho e história, assim como entendimentos pós-estruturalistas da história como essencialmente contingente. Entretanto, tal consideração não necessariamente nega a percepção da informação crítica numa tentativa de lidar contingentemente com a história – quer dizer, àquela história, entendida como desdobramento de uma necessidade imanente, que delineia uma forma de não liberdade.

Essa forma de não liberdade é o objeto central da crítica político-econômica de Marx. Na sua teoria madura, História, entendida como uma imanente dinâmica direcional forçada, não é uma habilidade da vida social humana, nem tampouco, no entanto, é contingência histórica. Antes disso, ele baseia o caráter historicamente dinâmico e mudanças estruturais do mundo moderno no imperativo e restrito que são historicamente específicos para a sociedade capitalista (isso pode ser e tem sido reificado e projetado sobre a vida social em geral). Afastado da visão da história, afirmativamente Marx baseia essa dinâmica direcional como categoria do capital, dessa forma entendendo isso como uma forma de heteronomia.

Sua crítica, então, não é apreendida do ponto de vista da história e do trabalho como no tradicional marxismo. Ao contrário, a dinâmica histórica do capitalismo e a aparente centralidade ontológica do trabalho se tornaram objeto da crítica de Marx. Pelo mesmo ponto, a teoria madura de Marx, não obstante pretende ser uma transhistoricamente válida teoria da história e vida social, mas é autoconsciente, historicamente específica e trás em questão algumas abordagens que reivindica para si mesmo validade universal transhistórica.

A estocada crítica da análise de Marx, nessa leitura, entalha uma crítica da totalidade e da lógica dialética da história humana como expressões da temporalidade dinâmica como forma de dominação característica da sociedade capitalista e busca desvendar as condições de sua superação. Isso difere fundamentalmente da crítica pós-estruturalista da totalidade e lógica histórica que insiste na ontológica primazia de contingência. A crítica de Marx da heteronômia da história difere fundamentalmente de tal abordagem na medida em que não aprecia tal história como uma narrativa que pode ser dispersiva, mas como expressão de uma estrutura de dominação temporal. Desse ponto de vista, qualquer tentativa de recuperar a ação histórica insistindo na contingência como forma de negar ou obscurecer a temporalidade dinâmica como forma de dominação característica do capital é ironicamente, profundamente frágil.

III

Essas alegações são baseadas na leitura que reconsidera a mais fundamental categoria da crítica madura de Marx com referência à heteronomia dinâmica que caracteriza o capitalismo. Dentro do tradicional modelo, categorias tais como valor, mercado, lucro e capital geralmente tem sido descartadas como categorias econômicas que corrobora trabalho como origem de toda riqueza social e apresentada como a principal classe-base explorada no capitalismo.

Tal interpretação atribuiu para Marx um transhistórico entendimento do trabalho como uma atividade humana mediada e natural que é postulada como fonte de riqueza em todas as sociedades. No capitalismo, no entanto, trabalho é impedido de tornar-se totalmente consciente. Emancipação então, é percebido na sociedade onde o trabalho transhistórico tem surgido abertamente como o princípio regulador da sociedade. Essa noção, é claro, é vinculada para aquela do socialismo, como a “auto-realização” do proletariado. Trabalho aqui proporciona o ponto de vista da crítica do capitalismo.

Uma leitura atenta da crítica madura de Marx de política econômica, no entanto trás a pressuposição da interpretação tradicional. Marx sinaliza que sua categoria fundamental não pode ser entendida no estreito termo econômico, mas como Daseinsformen (forma de ser), Existenzbestimmungen (determinações da existência) – forma historicamente específica de ser social que são simultaneamente subjetiva e objetiva. Além disso – e isso é crucial – tais categorias não podem ser entendida como transhistóricas, mas como historicamente específicas da sociedade capitalista. Mesmo categorias como dinheiro e trabalho que parecem transhistóricos por causa de seu caráter abstrato e geral, são válidos na sua generalização abstrata somente para a sociedade capitalista, de acordo com Marx.

Isso também se aplica para a categoria de valor. Em Grundrisse, Marx explicitamente apresenta valor como um fundamento da produção burguesa, como forma de riqueza historicamente específica para capitalismo que é constituída pelo consumo direto do tempo de trabalho humano. Ele distingue isso do que ele chama “riqueza real”, que é a função do rendimento dos produtos e é baseada num número de fatores naturais e sociais, incluindo conhecimento. Marx prossegue para traçar a contradição fundamental do capitalismo entre valor e o resultado do seu próprio desenvolvimento. O caráter dual do formato social do capitalismo geram grande aumento da produtividade, originando a possibilidade histórica de que valor por si só pode ser abolido e que produção pode ser organizada em novas bases, não dependente d consumo direto do tempo de trabalho humano na produção. Ao mesmo tempo no entanto, valor permanece como a necessária condição do capitalismo. Essa contradição entre o potencial gerado pelo sistema baseado em valor e sua realidade indica que, para Marx, a abolição do capitalismo implica na abolição do valor e valor originado do trabalho. Isso implica que, longe de significar a “auto-realização” do proletariado, a abolição do capitalismo pode entalhar a auto-abolição do proletariado.

O Volume I do Capital é a rigorosa elaboração dessa análise. Ele começa com a categoria de mercadoria, que é tratado por Marx como uma forma social historicamente específica que constitui o cerne definidor da modernidade capitalista. O livro não se refere a mercadorias como algo que pudesse existir em muitos diferentes tipos de sociedades, mas como um princípio estrutural da sociedade capitalista, caracterizada por um historicamente específico caráter dual (usa valor e valor). Marx procurou desdobrar a natureza dinâmica fundamental da modernidade capitalista do seu ponto de partida. No centro de sua analise está a ideia de que trabalho no capitalismo não é somente trabalho como nós consensualmente pensamos sobre ele, como uma atividade mediando as interações do homem com a natureza (trabalho concreto), mas também tem uma exclusiva função de mediação social (ao que Marx chama de trabalho abstrato) que não é intrínseca da atividade laboral como tal.

Numa sociedade na qual a mercadoria é a categoria estrutural básica da totalidade, trabalho e seus produtos não são socialmente distribuídos por normas tradicionais ou claras relações de poder, como no caso de outras sociedades. Ao invés disso, trabalho por si só substitui tais relações servindo como um quase objetivo meio de obtenção de produtos de outros. Em servindo como tal meio, trabalho e seus produtos no efeito adequado da função por parte do manifesto das relações sociais; o trabalho mediando uma nova forma de inter-relacionamentos sociais. Na madura obra de Marx, a noção de centralidade do trabalho para a vida social não é uma proposição transhistórica. O que não significa que a produção material seja a dimensão mais essencial da vida social em geral, ou mesmo do capitalismo em particular. Preferencialmente, isto se refere à historicamente específica constituição do trabalho no capitalismo do formato de mediação social que fundamentalmente caracteriza aquela sociedade.

De acordo com essa análise, as relações sociais que mais fundamentalmente caracterizam a sociedade capitalista são muito diferentes da qualitativamente específicas, claras relações sociais – tal como relações de parentesco  – que caracterizam outras sociedades. O que finalmente estrutura aquela sociedade é um novo fundamento de relações sociais, constituídas pelo trabalho que é caracterizado pela oposição entre um abstrato, quase objetivo, formal, geral e hegemônica dimensão, e uma concreta, particular e material dimensão.

A característica abstrata do fundamento de mediação social no capitalismo é, ao mesmo tempo, expressada pela forma de riqueza dominante naquela sociedade. Como mencionado acima, a “teoria do valor do trabalho” de Marx freqüentemente tem sido mal compreendida como uma teoria da riqueza do trabalho, que considera trabalho a todo tempo e todo lugar, como sendo o único recurso social de riqueza. Marx analisa valor, no entanto, com uma historicamente específica forma de riqueza, ao qual é associado a historicamente exclusiva função do trabalho no capitalismo. Similar distinção que Marx desenha em
Grundrisse, no Capital, ele explicitamente distingue valor  de riqueza material, que é medido pela quantidade produzida e uma função do conhecimento, organização social e condição natural adicionada ao trabalho. Valor, a dominante forma de riqueza no capitalismo é constituída unicamente pelo dispêndio do tempo de trabalho socialmente necessário. Diferentemente da riqueza material que é mediada por relações sociais públicas, valor é auto-mediada forma de riqueza.

Dentro do modelo da análise de Marx, a dualidade da forma mercadoria, gera uma interação dialética do valor e uso-valor que dá origem para uma complexa dinâmica temporal. Significante nessa apreciação é a determinação de Marx da magnitude do valor em termos de tempo de trabalho socialmente necessário. Isso não é simplesmente descritivo, mas delineia uma norma socialmente geral, convincente. Produção precisa se adaptar a isto prevalecendo uma norma abstrata predominante se isto for para gerar o pleno valor de seus produtos. O modo tempo (produto/hora) se constituiu como uma variável independente. A quantidade do valor produzido por unidade de tempo é uma função só da unidade do tempo; isso permanece o mesmo sem levar em conta as variações individuais do nível de produtividade. Isso é uma peculiaridade do valor como uma forma temporal de riqueza que, embora aumentado a produtividade aumente a quantidade de uso-valor produzido por unidade de tempo, isso resulta somente, em curto termo, aumento da magnitude do valor criado por unidade de tempo. Tendo aumento na produtividade se tornado geral, a magnitude do valor gerado por unidade de tempo recai sobre suas bases. O resultado é um tipo de impasse. Altos níveis de produtividade resultam em grande incremento na riqueza material, mas não em longo termo proporcional aumento no valor por unidade de tempo. Isso, em seqüência, leva a um aumento cada vez maior da produtividade.

Esse dinâmico impasse tanto expressa como constitui uma peculiar, forma temporal de dominação. A socialmente geral, abstrata, convincente norma do tempo de trabalho socialmente necessário é a primeira determinação da historicamente específica abstrata forma de dominação social intrínseca do capitalismo: isso é a dominação das pessoas pelo tempo, pela historicamente específica forma de temporalidade – abstração newtoniana do tempo – que é constituído historicamente com a forma mercadoria.

Isso poderia, contudo, ser uma forma de ver a temporalidade no capitalismo somente em termos do tempo newtoniano, isto e, como tempo vazio hegemônico. Uma vez que o capitalismo esteja completamente desenvolvido, sua forma temporal gera um permanente aumento na produtividade. Tais aumentos, como temos visto, não modificam a quantidade do valor produzido por unidade de tampo. Contudo, eles modificam a determinação de que o que importa como dada unidade de tempo. A unidade (abstrata) tempo permanece constante; a mesma unidade de tempo gera a mesma quantidade de valor. Entretanto mudanças na produtividade empurram esta unidade para frente, por assim dizer.  Este movimento é próprio do tempo. Portanto isso não pode ser apreendido dentro do modelo newtoniano de tempo, mas requer um super ordenado modelo de referência dentro do modelo newtoniano de movimento do tempo. Este movimento do tempo pode ser expresso tempo histórico. A redeterminação da abstrata, constante unidade de tempo, redetermina a compulsão associada com esta unidade. Nesse caminho, o movimento do tempo adquire uma dimensão necessária. Historicamente tempo aqui não representa o oposto do tempo abstrato, muito menos sua negação (como Lukács, por exemplo, teria feito). Preferencialmente, tempo abstrato e tempo histórico são dialeticamente inter-relacionados. Ambos são constituídos historicamente com mercadoria – e capital – formas de estruturas de dominação.

Dentro do modelo dessa interpretação a questão fundamental do capitalismo é caracterizada por uma historicamente específica, quase objetiva forma social de mediação que é constituída pelo trabalho – isto é, por determinadas formas de práticas sociais, e até então, se tornou quase independente de pessoas engajadas em tais práticas. (note que prática aqui não é simplesmente o oposto de estrutura, mas constitui isso).

O resultado é uma historicamente nova forma de dominação social – em que submete pessoas para um impessoal, cada vez mais racionalizado, imperativo estrutural e restrito que não pode ser adequadamente apreendido em termos de dominação de classe, ou mais genericamente, em termos de dominação concreta de grupos sociais ou de agências institucionais do estado e/ou da economia. Isso não espaço e, apesar de constituído por determinadas formas de prática social, aparenta não ser social, contudo. Estou sugerindo que a análise de Marx da dominação abstrata é uma rigorosa e determinada análise do que Foucault tentou apreender com sua noção de poder do mundo moderno. Sobretudo, sua análise revela a unilateralidade da noção de Foucault da capilaridade do poder. A forma de dominação na análise de Marx não é somente celular e espacial, mas também processual e temporal. Ela é ao mesmo tempo capilar e predominante.

O peculiar impasse dinâmico, tenho destacado, é gerador de um complexo não linear histórico dinâmico que marca o capitalismo moderno. Por um lado, isto é caracterizado pela permanente transformação da produção e da vida social. Por outro lado, esta dinâmica histórica entalha a permanente reconstituição da sua própria condição fundamental como imutável aspecto da vida social – quer dizer que valor é reconstituído, que mediação social finalmente permanece afetada pelo trabalho e que trabalho permanece integral para todo o processo social de produção, sem levar em conta o nível da produtividade. A dinâmica histórica do capitalismo incessante gera o que é “novo”, enquanto regenera o que é o “mesmo”. Como eu irei elaborar, em ambos geram a possibilidade de outra organização do trabalho e da vida social e, ainda, ao mesmo tempo, impede a possibilidade para ser compreendido.

A dinâmica gerada pela dialética do tempo abstrato e tempo histórico está no centro da categoria do capital, que Marx inicialmente introduz como auto-valorizado valor. Capital, para Marx, é a categoria do movimento, isto é, valor em movimento. Isso não tem uma incorporação material fixa, mas aparece como diferentes momentos de sua estrada espiral na forma de dinheiro e mercadoria.

Significativamente, Marx descreve a categoria capital com a mesma linguagem que Hegel usou com referência ao Geist – a substância do auto-movimento que é sujeito. Assim, Marx sugere que a noção de Hegel da história como tendo uma lógica, como um fundamento dialético do Sujeito, é sem dúvida válida – mas somente para a modernidade capitalista. Além do mais Marx não identifica o Sujeito com o proletariado ou mesmo com humanidade. Invés disso ele identifica isso como capital, uma estrutura dinâmica de dominação abstrata que, apesar de constituída por humanos, se torna independente de sua vontade.

A madura crítica de Hegel por Marx, não obstante, entalha uma inversão antropológica da tardia dialética idealista. Antes, isto é como sempre foi, a “justificativa” do materialismo dialético. Marx implicitamente argumenta que o “centro racional” da dialética de Hegel é precisamente seu caráter idealista. Isto é uma expressão do modo de dominação constituído por relações alienadas – isto é, relações que adquirem uma quase independente existência oposta do individual exercem uma forma de compulsão dele, e que por causa da sua característica dual peculiar, são dialéticos no caráter.

Note que o histórico Sujeito, totalidade e o trabalho constituinte se tornou agora o objeto da crítica da teoria de Marx.

O entendimento da dinâmica complexa do capitalismo que tenho traçado é relevante para assomar a contemporânea dualidade da crise – aquela da degradação ambiental e do fim da sociedade do trabalho. Categoria de Marx de mais valia e capital permite uma análise crítica social (em vez de tecnológica) da trajetória do crescimento e da estrutura de produção na sociedade moderna – que não é o caso quando eles são entendidos somente como categorias de exploração de classe. A dimensão temporal do valor, especialmente na forma do que Marx chama relativa mais valia sustenta um determinado padrão de crescimento que dá margem para o aumento na riqueza material maior do que aquela na mais valia (que permanece a forma relevante de excedente no capitalismo). Isso resulta numa pressão pelo aumento acelerado da produtividade e, portanto, uma demanda acelerada por matéria prima e energia, que contribui centralmente para a acelerada destruição dos recursos naturais. Dentro desse padrão, o problema com o crescimento da economia no capitalismo não é somente que é uma crise escondida. Preferencialmente a forma de crescimento por ele próprio é problemática. A trajetória do crescimento pode ser diferente se ao objetivo final da produção fossem aumentadas quantidades de produtos, em vez de mais valia.

Essa abordagem também provém a base da análise da estrutura social do trabalho e produção no capitalismo. Isso não trata o processo capitalista de produção como um processo técnico que é usado por capitalistas privados para seus próprios fins individuais. Ao invés disso, a base da análise de Marx de como a valorização do crescimento do modela o processo de trabalho, mostra produção sendo modelada pelo capital. Entretanto esse processo é contraditório. O direcionamento para o permanente crescimento da produtividade conduz para o aumento da importância da ciência e da tecnologia na produção. A acumulação do conhecimento social geral, que é promovido pelo capital, desiste da produção baseada em tempo de trabalho – isto é, do valor, portanto, trabalho proletário – crescimento anacrônico. Isso abre a possibilidade de redução em larga escala social em tempo de trabalho, e fundamentalmente muda a natureza e a organização social do trabalho. Entretanto, porque a dialética do valor e uso-valor reconstitui valor, isso também estruturalmente reconstitui a necessidade do trabalho proletário. Portanto, a realização dessa possibilidade gerada pelo capital está constrangendo o próprio capital.

A história dinâmica do capitalismo aponta para além da necessidade do trabalho proletário enquanto reconstitui essa grande necessidade. Mais geralmente, essa dinâmica tanto gera a possibilidade de outra organização da vida social como ainda impede a possibilidade de ser percebida.

No Capital, assim como em Grundrisse, a contradição entre o potencial gerado pelo sistema baseado em valor e sua realidade indica que, para Marx a abolição do capitalismo não poderia entalhar a auto realização do proletariado, mas sua própria abolição.

Marx desenvolve essa argumentação geral além do seu tratamento da acumulação, no qual ele argumenta que a direção do capitalismo para o aumento da produtividade cria uma tendência secular em direção ao aumento de proporções da objetividade da ciência e tecnologia relativa para o trabalho real. As conseqüências dessa tendência é que menos e menos trabalho é requerido para elevar níveis de produtividade baseada em novos processos de produção. Um resultado é a tendência para a criação de uma relativamente supérflua população de trabalhadores – o chamado de exército de reserva industrial de trabalho.

Essa análise tradicionalmente tem sido lida como uma explicação de como capitalismo exerce uma pressão no declínio da base estrutural do salário. Relacionadamente, ele tem sido tomado como uma crítica da inabilidade do capitalismo para prover todos os empregos. Essa leitura, no entanto é incompleta. Ela perde uma importante verdade do argumento de Marx e, portanto, sua relevância para a crise de hoje. O capítulo de Marx da acumulação pode ser lida como a culminação desse argumento da tendência secular do direcionamento do capital para o permanente crescimento na produtividade origina um aparato de produção tecnologicamente sofisticada que desiste da produção de riqueza material essencialmente independente do valor, isto é, do tempo direto de trabalho humano dispensado, enquanto ao mesmo tempo, reconstitui valor como a fundação do sistema.

A combinação da permanente reconstituição da necessidade do valor-criando trabalho, isto é, trabalho proletário, e seu cada vez mais anacrônico caráter, cada vez mais gerando trabalho supérfluo. De um lado isso abre a possibilidade de uma redução geral no tempo de trabalho e ainda aponta para além dele próprio para a possibilidade histórica de abolição do trabalho proletário. De outro lado, como resultado, finalmente, da permanente reconstituição da forma fundamental do capitalismo, essa possibilidade histórica aparece na forma de um crescimento superfluido de uma cada vez maior parcela da população trabalhadora, do crescimento do desemprego e da precariedade – o subempregado. Esse desenvolvimento vai para além da expansão periódica do “exército de reserva industrial” com sua conseqüente decrescente pressão no salário e trás em questão a demanda por todo (proletário) emprego. No entanto, isso se expressa de forma inversa no crescimento superfluido de muito trabalho proletário. Longe de aparentar como uma possibilidade linear, a possibilidade de abolição do trabalho proletário e, portanto a emergente possibilidade de um futuro, no qual a produção excedente não mais está baseada no trabalho de uma classe oprimida, é, ao mesmo tempo, a emergente possibilidade de um desastroso desenvolvimento no qual o crescimento superfluido do trabalho é expresso no crescimento superfluido das pessoas.

Capital, portanto gera a possibilidade de uma futura sociedade na forma que, ao mesmo tempo, está cada vez mais destrutiva do meio ambiente e da população trabalhadora. Como Marx ressalta “produção [c]apitalista…somente desenvolve as técnicas e decresce a combinação do processo social da produção por simultaneamente minar as fontes originais de toda a riqueza – o solo e o trabalhador.”

IV

A propósito,podemos notar que, por fundamento a característica contraditória da modernidade capitalista na forma dual expressada pela categoria de commodity e capital, Marx sugere que a contradição estrutural da base social é específica para o capitalismo. A noção que a realidade os relações sociais em geral são essencialmente contraditórias e aparentemente dialéticas, à luz dessa análise, para ser algo que pode ser somente presumido metafisicamente, não explicitamente.

Uma outra implicação da análise traçada é que capital não existe como uma totalidade unitária. A noção marxiana da contradição dialética entre “forças” e “relações” de produção não se refere à contradição entre “relações” que são intrinsecamente capitalista ( n.e. o mercado e propriedade privada) de “forças” que aparentemente são extrínsecas para o capital (trabalho). Apresar disso, a contradição é intrínseca para o próprio capital fixado finalmente em suas duas dimensões. Como uma contraditória totalidade, capital é gerador da complexa dinâmica histórica Eu começo a traçar, uma dinâmica que aponta para a possibilidade de sua própria superação. A fonte de “não-idêntico” não está fora do ou anterior do capital, mas é iminente dele.

Note que a idéia de outra possível forma de vida social além do capitalismo é imanente da própria modernidade capitalista. Isso não derivou do contato cultural de estudos etnográficos da fundamentalmente diferente forma de vida social; nem é baseada na experiência da prévia ordem social que sua própria moral econômica que está sendo destruída pelo capitalismo, apesar dessa experiência certamente ter sido geradora de oposição. Oposição para capitalismo, contudo, não necessariamente aponta para além dele. Ele pode ser – e geralmente tem sido – incluído pelo capital por ele mesmo ou será preterido como inadequado para as exigências do largo contexto histórico. A análise de Marx é menos direcionada para a emergencia da “resistência” (que é politicamente e historicamente indeterminado) que direcionada para a possibilidade de transformação. Ela expressa a emergência da forma de vida que, como resultado da dinâmica do capitalismo, é constituída como uma possibilidade histórica, e ainda é forçada por aquela grande dinâmica da revelada. A distância entre o que é e o que poderia ser é traçada por Marx, com base nas suas análises de categoria, consente para uma possibilidade futura – uma possibilidade que, crescentemente, tem se tornado historicamente real. Essa diferença constitui a base para uma histórica crítica do que é. Ela revela um historicamente caráter específico da forma social fundamental do capitalismo – não somente com referência ao passado ou uma presumida organização social natural mas, também com referência à um futuro possível.

A contradição permitindo para outra forma de vida social, então permitida pela possibilidade de imaginar outra ordem social, uma baseada no presente enquanto superando isto.  Isso é, isso permite a possibilidade de uma teoria crítica fundamental da modernidade do capitalismo. Pelo entendimento o presente como uma dinâmica contraditória, a teoria se tornou auto-reflexiva. Ele fundamenta sua própria condição da possibilidade pela mesma categoria com a qual entende seu objeto. As condições da crítica e aquelas de transformações são semelhantes. Tanto uma implícita teoria demanda de toda tentativa de teoria crítica que eles são capazes de contabilizar para sua própria possibilidade histórica.

De acordo com a reinterpretação eu tenho traçado, então, que a teoria de Marx estende para além da crítica tradicional das relações burguesas de distribuição (o mercado e a propriedade privada). Isto não é somente uma crítica de exploração e uma desigual distribuição de riqueza e poder. Entretanto, ele entende a própria moderna sociedade industrial como capitalista, e a análise primariamente crítica do capitalismo em termo da estrutura abstrata de dominação aumentando a fragmentação individual do trabalho e existência individual, e mascara a lógica do desenvolvimento descontrolado. Ele trata a classe trabalhadora como um elemento básico do capitalismo em vez de como incorporação de sua negação, e socialismo implicitamente conceitualizado em termos de possível abolição do proletariado e a organização da produção baseada no trabalho proletário, bem como a abolição do sistema dinâmico de compulsão abstrata pelo trabalho como atividade socialmente mediada.

Saindo do foco da crítica adiante de uma exclusiva preocupação com o mercado e propriedade privada, essa abordagem poderia proporcionar a base para uma teoria crítica dos então chamado  países “verdadeiramente-existentes socialistas” como alternativa que representaram a histórica negação do capital, no entanto, de forma imperfeita.

Eu não tenho elaborado a noção aqui que as categorias poderiam ser interpretadas não meramente como econômica, mas, nos termos de Marx, como Daseinformen, Existenzhestimmungen – que indicam que eles são também para serem entendido como categoria cultural que implica determinada visão de mundo e conceitos de personhood (?), por exemplo. Apesar disso eu gostaria de sugerir que, pela relação a superação do capital pela superação do trabalho proletário, essa interpretação poderia começar a abordar a histórica emergência do pós-proletariado auto-conhecimento e subjetividade. Ele abre a possibilidade para uma teoria que pode refletir historicamente nos novos movimentos sociais das recentes décadas e espécie de visão de mundo historicamente constituído que eles incorporam e expressam. Ele pode também se capaz de abrodar o surgimento global de fundamentalismos como populismo, formas fetichizadas de oposições para um efeito diferencial do capitalismo global neo-liberal.

V

Ele se tornou evidente, considerado retrospectivamente, da social/política/econômica/cultural configuração da hegemonia do capital como variedade historicamente – do mercantilismo, capitalismo liberal através do século XIX, capitalismo estado-centro fordista, até o contemporâneo neo-liberal capitalismo global. Cada configuração tem evocado um número de penetrantes críticas – de exploração e ímpar e inigualável crescimento, por exemplo, ou do tecnocrático, burocrático modo de dominação.

Cada uma dessas críticas, contudo, é incompleta. Como nós agora vemos, capitalismo não pode ser totalmente identificado como algo de sua configuração histórica.

Eu tenho procurado por diferenciações entre abordagens que, contudo sofisticadas, finalmente são críticas de uma configuração histórica do capital e uma abordagem que segue por um entendimento do capital como coração da formação social, separado de suas várias faces de configuração.

A distinção entre capital como coração da formação social e historicamente específica configuração do capitalismo tem se tornado muito importante.  Combinando os dois tem resultado em significante desconhecimentos. Retornando à afirmação de Marx de que a próxima revolução social pode desenhar sua poesia do futuro, diferente precoce revoluções que focada no passado, desconhece seu próprio conteúdo histórico. Nesse revelação, Marxismo tradicional retorna  de um futuro que ele não apreende.  Antes então aponta para a superação do capitalismo, ele entalha um desconhecimento que, focando na propriedade privada e no mercado, combina capital e sua configuração do século 19. Consequentemente ele implicitamente afirma a nova configuração estado-centro que emerge fora da crise do capitalismo liberal.

A não intencional afirmação da nova configuração do capitalismo pode ser mais recentemente no anti-hegeliana retorno para característica de Nietzsche do mais pós-estruturalista pensamento desdeo início dos anos 70. Tal pensamento, arguitivamente, também retorna em um futuro ele não atende adequadamente. Rejeitando o tipo de ordem de estado-centro o marxismo tradicional implicitamente afirma, isso feito então de maneira que era incapaz de atender criticamente a ordem global neo-liberal que tem suplantado estado-centro capitalista no leste e oeste.

As históricas transformações do século passado, então, não tem revelado apenas fraqueza no marxismo mais tradicional como também de várias formas de críticas p-os-marxistas, mas também sugerem um significância central da crítica por uma atual teoria crítica.

Na tentativa de repensar a Concepção de Marx do capital como o coração essencial da formação social, eu tenho procurado contribuir para a reconstituição e uma crítica robusta do capitalismo de hoje que, livre de algemas conceituais de abordagens que identificam capitalismo com uma de suas configurações históricas, poderia ser adequado para nosso universo social.

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