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Flagrantes de uma vida-vivida

Minha Duília – por Arlindenor Pedro


Ah…Maria Adélia! Minha Duília !
Minha portuguesinha da Rua-do-Jogo-da Bola
Lembranças que me deu o poeta
“Viagem aos seios de Duilia”!

Amor juvenil…primaveril
Da Central do Brasil
Do Campo de Sant’Anna
Dos gatos, dos gansos, da escuridão da caverna
Das cutias que nunca fogem.

Da companhia nas arruaças no centro da cidade:
matar aula na Rua da Alfandega.
O medo dos canhões do Palácio do Exército!
Dos beijos de lingua
Da mão nas coxas.

Ah… Adélia!Minha Duília!
Naquela época você não sabia dançar
Que pena: não aproveitamos os bailes da escola
Para esfregar as coxas
Para sentir o seu cheiro de laquê no cabelo
Para passar a lingua no ouvido

Ah…Te troquei por uma loira
que nem gostava de mim

Minha Duília…

Grajaú, 1968

Arlindenor Pedro 

Obsessão – por Arlindenor Pedro

Sentado, só, nesta cela fria,

vôo pelo espaço.

Guiado por meus pensamentos

tento alcançar o mundo .

Parece-me que daqui, longe dele,

posso compreendê-lo melhor .

Lá fora estão todos, a riqueza,

a miséria .

Aqui estou eu, o confinamento,

a esperança .

Liberdade!!!

Quantas vezes repeti teu nome,

quantas noites chorei por ti!

Liberdade!!!

Quantos poetas falaram-me de ti!

do teu corpo, da tua alma!

Mas, agora,

somente agora, te conheço,

somente agora sei quem és.

Triste sina a minha :

– Lutei, sofri por alguém que na

verdade não conhecia!

Antes, eras uma palavra; talvez

mais,um sentimento.

Antes, eras uma luta; talvez

mais,um ideal.

Triste sina a minha:

– só te conhecer quando de mim

te apartaram.

Hoje, torno a lutar por ti,

novas noites choro por ti .

Mas,

há mais sofrimentos no choro!

Maduro pela tua falta

te conheço melhor .

Um dia estarei nos teus braços

( para te possuir daria a vida,

a existência!) .

Tu és uma obsessão, uma procura

desesperada.

Presídio Hélio Gomes, 1976

Arlindenor

Tomada de decisão – por Arlindenor Pedro

Resolveu fugir! Uma tremenda decisão para aquele menino de 11 anos que nunca antes tinha saido sozinho do colégio. Sempre era a sua avó que o levava. Ele ficava aguardando no dia de saída que o seu número fosse cantado: – noventa e um, o seu responsável chegou, pode ir! Gritava uma voz pelos auto-falantes.

 

Dessa vez seria diferente-ele iria sozinho.

 

Foi até a rouparia, para mudar o uniforme e vestir as suas roupas que ficava num armário. A responsável pela rouparia não desconfiou, pois ele sempre saia às sexta-feiras- tinha autorização do Dr. Jaime.

 

Antes tinha se preparado, feito um roteiro da fuga, com outros garotos que eram fujões- categoria daqueles que sabiam fugir.

 

Vestiu as roupas e foi com o colega até uma parte do colégio que dava para a rua. Ali se despediram com um forte abraço.

 

A travessia, pelas ruas de um Jacarepaguá rural, foi de medo, terror em ser capturado pelos inspetores .Pegar dois ônibus ( ainda bem que tinha um dinheirinho para a passagem) e finalmente chegar em casa.

 

– O que você está fazendo aqui? Perguntou a mãe surpresa. –

 

Fugi, não volto mais para lá! Disse com um ar grave para a sua idade. Agora estava no rol dos fujões. Ninguém mais o segurava no colégio. Sua mãe entendeu, e então ele saiu da Escola Rural Santa Mariana. Abria-se um novo capitulo na sua vida.

 

Serra da Mantiqueira,dezembro de 2011.

 

Arlindenor Pedro 

Pesadelo- por Arlindenor Pedro

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Flutuo, pairo no ar. Na leveza de meu corpo danço lentamente no cubículo que ocupo. Passaram-se dias, ou serão apenas horas? Não sei! Há muito que o tempo nada significa para mim. Lá fora ouço o clac-clac- sinal do abrir e fechar da geladeira. Tento voltar ao chão. Inútil, não consigo. Um grande torpor tomou conta de mim. Será a pressão? Mas… minha pressão sempre foi tão boa?! Apalpo-me. Nada sinto. Será que estou inchado? Será que se esqueceram de mim ? Não! Daqui a pouco eu sei que eles virão novamente. Por que demoram tanto? Essa espera me tortura! E esses gritos que não param. Não consigo me acostumar com eles. Não sei se comi. Há tempos que não me alimento. Sinto sede. Acho que isso é bom, meu corpo está reagindo, passo a senti-lo comigo. Dei para ver pássaros, centenas deles. Voam, voam, aos bandos em um imenso céu azul. Fazem grandes algazarras com seus grandes bicos. Abro os olhos. Nada vejo, existe apenas o de sempre… a escuridão, o ruído incessante do exaustor drenado o ar. E o frio, o gelo que tomou meus pés. Lá fora os gritos. Ouço passos. São eles, eu sei que são eles! Quisera acordar do pesadelo.

Presidio Hélio Gomes, dezembro de 1976

Arlindenor Pedro 

Medo – Arlindenor Pedro

De repente abriram a porta da geladeira.

Sinceramente, pensou que era para mais uma sessão de interrogatório. Ele ficava sempre aguardando que viessem busca-lo: o corpo tremia , vinha o pânico. O frio constante que entra através de condutores na geladeira o debilitava : não dormia, começa a ver figuras, imagens…a perda da consciência.

 

Quantos dias estava alí ? Perdera a noção! As vezes pensava que estava em casa. Mas acordava ( acordava?) e só via o escuro. Ficava sentado, agarrando a cabeça, tentando espantar o frio que o consumia.

 

O clarão que vinha da porta aberta só deixou aparecer um braço que balançava insistentemente algo, que aos poucos percebeu ser um cobertor de lã.

 

A voz falou:- toma, cubra-se com esta manta. Pela manhã virei busca-la. Não conte pra ninguém. Anda!…Anda! E, fechou a porta.

 

Cobriu-se mais que rapidamente.. Ah! Que beleza.! Foi a melhor noite da sua vida.

 

Presidio Hélio Gomes, dezembro 1976.
Arlindenor Pedro 

Ode a um amor que virá ou A procura incessante do ideal – por Arlindenor Pedro

Imagem de Igor Morski

Hoje sai novamente a tua procura

Como de outras vezes vaguei sozinho pela
cidade.

Mergulhei na multidão:


olhei os rostos, escutei as vozes.
A todo momento procurava te ver,
reconhecer teu rosto, teu sorriso.

Vã procura!

Será que um dia te encontrarei?

As vezes me surpreendo imaginando tua figura.

Como serás realmente? Serás como imagino?
A cor do bronze, os cabelos do ouro.
A voz da prata ?

Poderás ser para mim tudo o que desejo?
O despertar constante, o ponto de apoio…
o repouso do guerreiro ?

Amanhã sairei novamente pelas ruas.
Mais uma vez andarei, sozinho, pela multidão.
Na busca do ideal verei muitos rostos,
muitos sorrisos.

Como de outras vezes voltarei sozinho,
sem te encontrar.

Poderei até ter cruzado contigo.
Ou pode ser que sempre tenhas estado
comigo.

E eu cego, sem te ver.

Grajaú, 27/11/64

Arlindenor Pedro