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Flagrantes de uma vida-vivida

Segunda – feira – Arlindenor Pedro

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Com o bater de sua mão o relógio parou de tocar.De um salto alcançou a cozinha. Ao abrir a porta da rua sentiu o frio cortante; recuou por momentos. Lá fora estava o poço . Tomou coragem e o alcançou. Estrelas brilhavam na alvorada que não tardava. Ao largo, no portão, vultos negros deslizavam silenciosos, perdendo-se na escuridão . Eram seus companheiros. Iam para o trabalho. Pouco  tempo fazia que os mesmos vultos tinham chegado e agora já partiam. Apanhou a lata com água e arrepiou-se com o gelo no rosto. Usou a escova. Colocou-a na caixa em cima do poço. Entrou na meia água e acendeu o fogão. Andava com cuidado. Não queria tropeçar nos corpos que casa a dentro ressonavam. Tudo estava pronto: era só esquentar a marmita com o de sempre. Tudo preparado na véspera pela mulher. Dentro da marmita a pasta negra começou a borbulhar. Deixou mais alguns minutos- questão de hábito,  para não azedar! Do quarto ouviu a voz rouca da Maria:- Zé, toma o café ! Não dava tempo. Nunca dá tempo, pensou. Entrou na sala. Olhou para as pequenas sombras espalhadas pelo chão -seus filhos! Esticou o pescoço tentando alcançar o quarto. Lá dentro a mulher voltara a dormir. Com passos rápidos saiu. Na rua de terra, molhada pelo sereno, os vultos iam se perdendo na névoa . Respirou fundo o ar da madrugada. Tossiu. Porcos, dezenas deles atravessavam o caminho em direção às valas que margeavam a estrada  e  que serviam de esgoto. Ergueu a gola do casaco roto e apressou-se. Breve iria passar o velho ônibus : -como sempre estaria lotado, pensou. Iria repetir o ciclo: o ônibus, o trem…a fábrica.

DOPS,agosto de 1975

Arlindenor Pedro

Reencontro tardio – Arlindenor Pedro

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Na boca da noite.
No beco da fome.
Encontei-a passando.
Me aproximei

Por que não te vejo?
Por que não te falo?
Por que não te dispo?
Por que não te toco?

Por que a ausência,
do teu corpo tão meu?
Reentrâncias cobertas
que já não me lembro.

Onde tua voz?
Onde teu cheiro?
Onde teu choro?
Onde teus cabelos?

Já não me conheces,
já não te conheço .
Só restam as lembranças
de alguém que não és .

Na boca da noite.
No beco da fome.
Encontrei uma estranha
que me nego a conhecer.

Rio, verão de 1978 .


(o choque de te ver e pensar que tudo poderia ser como antes)

Arlindenor Pedro

Fazendo história – Arlindenor Pedro

 

Quando ele subiu no palanque e olhou para fora…não acreditou no que viu.A multidão ia da Candelária até a Central do Brasil.Alguém falou: – chegamos a 1 milhão de pessoas!!! Este era o maior comício, dentre os inúmeros que tinha ajudado a organizar, desde que o movimento se iniciara. Uma massa compacta, viva, com tamanha energia que,acreditem: saía faíscas com um barulho de eletricidade que vinha da multidão. Teve medo. Não conseguia falar. Foi para o fundo do palanque, receoso de que alguém tivesse visto o que aconteceu, o que vira, da sua reação.

 

Aquele comício era o resultado de um movimento que ele e alguns outros tinham iniciado meses atrás, com poucas pessoas, em intermináveis reuniões na ABI.Discutia-se tudo. Qual o nome do movimento? Eleições Diretas para Presidente da República. Muito grande! Não sabia como apareceu o slogam : Diretas Já.Pegou!

 

Como era do PMDB pediu ao Presidente a representação do Partido: – tudo bem, falou ele, ninguém vai querer ir mesmo . Essas reuniões são um saco!Ficou com a representação. Votava em nome do PMDB do Rio, num conselho de entidades, sindicatos, associações, que ia crescendo gradativamente. A cada reunião tinha mais gente, mais falatórios, divergências, mas..as coisas andavam. Cada reunião marcava uma nova passeata, que sempre começava na Candelária e acabava na Cinelândia. Um trabalho danado. Não se importava. Tinha muita energia. As ruas eram dele!!!

 

As passeatas começaram pequenas.Na primeira esperavam cinco mil pessoas- vieram mais de dez mil.Na segunda apostavam em vinte mil. Mais de trinta mil apareceram.Mais de cinqüenta mil na terceira.Ultrapassaram a histórica passeata dos cem mil,colocando nas ruas cerca de duzentas mil pessoas.Depois disso, o governador chamou todos no palácio. Queria fazer parte daquele movimento, que se alastrara para as principais cidades do país.Colocou à disposição do Comitê, uma ampla sala na Assembléia Legislativa . Agora era um movimento oficial, chapa branca.Com direito a tudo, inclusive propaganda nas rádios e TVs.

 

No último comício, da Candelária, não puderam ficar mais na frente do palanque, dirigindo os falatórios.Chamaram um “locutor oficial”,artistas para um grande show, onde os principais políticos iriam falar.Bem, era assim mesmo.A função deles tinha tinha acabado. Tinham iniciado, contra tudo e contra todos,um dos maiores movimentos de massa da história do Brasil.Para comemorar foram jantar numa grande casa de show- presente do governador. Vida que segue…

 

Arlindenor Pedro 

Memórias – Arlindenor Pedro

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…um dia de deslumbramento para um garoto de 11 anos que naquela tarde de 58 ouvia pelos auto-falantes do colégio interno outro garoto jogar, com apenas 17 anos, num lugar muito longe, que nem sabia que existia, chamado Suécia.

 

Um jogo contra um outro país – um Pais de Gales. Fantástico!

 

Sentados nos degraus do “pátio-coberto”,  a imaginação levava a todos para aquele lugar  distante, acompanhado os comentários do radialista.

 

Todas as turmas estavam lá! Dezenas  de jovens, numa verdadeira catarse- à espera do gol.

 

A sua turma era a 301 e o seu número 91. 

 

Franzino, como a maioria dos garotos da Escola Rural Sta. Mariana, sentado nos degraus, com o macacão azul, sujo do dia-a-dia, torcia para que a seleção saísse daquele sufoco.

 

Grajaú , 1968

Arlindenor Pedro

Morte – por Arlindenor Pedro

Imagem recolhida na plataforma pública Tumblr, para fim não comercial .

A primeira vez que ele viu a morte foi com o pai do seu amigo Itaci – o  Álvaro , e ela o levou. Foi muito estranho: ele começou a respirar mais acelerado e de repente parou…ficou com os olhos e a boca aberta.Então, ele chamou as pessoas da casa: -eu acho que o Sr. Alvaro está morrendo! Gritou bem forte. Da cozinha acudiram todos.

 

A Maria, amiga da familia, pegou um espelho e pôs na boca do doente, para ver se ele estava respirando. Não estava. O choro desabou, embora que durante os dias da sua agonia, todos sabiam que não tinha mais condições de viver- estava moribundo..

 

A cada dia, ele ficara esperando a morte chegar para levar o pai do seu amigo, num sentimento sádico que não conseguia reprimir.Foi então  que pediram para ele segurar a cabeça do morto, para tirar o corpo da cama e coloca-lo numa mesa fúnebre que ficaria na sala, para a exposição – a visita das condolências. Enquanto  segurava a cabeça do morto inadvertidamente soltou – a : ela bateu com força na madeira, fazendo um barulho oco, aterrador. Todos olharam com ar de reprovação.

 

Mas… o espetáculo do enterro apagaria aquela lembrança. Um grande funeral: a viuva de preto, os filhos bem vestidos, os chapéus das mulheres, o ar de elegância das pessoas do Grajaú, nos anos-dourados. Sentiu-se como numa fita de cinema, daqueles que via na Praça Saens Penna que acabavam  com letreiro  The End .Tinha então 15 anos.

 

Serra da Mantiqueira,dezembro de 2011.

Arlindenor Pedro 

Deus ! por Arlindenor Pedro

Deus sempre o acompanhou. Para um menino sozinho, em um colégio interno, longe da segurança do lar, viver o dia-a-dia? – somente com Deus! Na escuridão do dormitório, onde figuras da noite apareciam e desapareciam: – somente com Deus! No castigo constante, infligido por inspetores sádicos: – somente com Deus! Na defesa contra as gangues internas de garotos maiores, que queriam violentá-lo, deixa-lo submisso, tomar o que era dele: -somente com Deus! E Ele sempre o protegeu. O fez sobreviver naquele mundo insano,cruel…competitivo.

Aprendeu a dissimular, a tomar a cor do ambiente, como um camaleão.Aprendeu a desaparecer, deixar de ser notado – arte da sobrevivência do mais fraco.Aprendeu também a negociar, a fazer política, ligar-se aos mais fortes, ser também respeitado, não pela força,mas pela artimanha, pela inteligência. Sabia calcular o que iria acontecer, a fazer previsões, a jogar no dia seguinte. Amadureceu!

Por isso ficou desesperado quando Ele o abandonou, naquela tarde ensolarada de Jacarepaguá.

Máximo , o seu amigo , chegou com aquele andar característico de malandro e sentou-se a seu lado ,nos degraus do Pátio- Coberto. O jogo corria solto , numa tensão muito grade- estava  difícil para o Brasil! Ele era um negro muito alto para sua idade e impunha respeito. Gostava  de ouvir as história do Máximo, todas da favela de Parada de Lucas, em uma época em que as favelas cariocas tinham ainda aquele ar de aventura, e mesmo beleza, num tipo de malandragem que já não existe mais.

-Noventa e um, o Dr. Jaime quer falar com você, lá na diretoria, falou, olhando para ele. – Você sabe o que êle quer? Respondeu com ar assustado. Não estava gostando do recado. – Sei lá !  Ele não disse, e encerrou a conversa, prestando atenção ao  som que vinha dos autos-falantes.

Pegou a sua sacola, onde levava os pertences : escova de dente, pente, papel higiênico, e um inseparável canivete, que nunca deixava dando sopa,pois podiam ser roubados, e, dirigiu-se para o Dr. Jaime.

Dr.Jaime era muito gordo e suava toda a camisa branca. Foi logo dizendo, mal ele transpôs a porta: – a sua mãe ligou e disse que você não vai mais ao dentista nas sextas-feiras. Agora você tem que passar o sábado e domingo aqui no colégio, como os outros.Acabou a moleza, pode ir,falou encerrando o assunto e apontando a porta de saída. E ele foi saindo, tonto, sem enterder o que se passava 

Aquilo caiu como um raio na sua cabeça! Como? Tudo o que ele fazia era esperar a sexta-feira para ir embora, ir para casa.

Na sexta a sua avó chegava e ele trocava o uniforme pela sua roupa de sair, que ficava na rouparia e deixava o colégio. Era uma regalia, devido ao fato de que a sua mãe pagava a internação e os outros internos não – quem pagava era a Prefeitura do Distrito Federal.

O tratamento dentário era a o motivo para ele sair e só voltar na segunda-feira. Não estava acreditanto no que ouviu.

Voltou-se, então para Deus: – Você me abandonou, disse! Não é justo, não é justo! Falou para dentro de sí. Por que você fez isto comigo? Isto era tudo o que eu queria.Respirou fundo e falou com convicção: –
a partir de agora não acredito mais em Você.

E foi assim que rompeu suas relações com  ele , ficando ainda mais sozinho nos difíceis caminhos da vida.

Serra da Mantiqueira,dezembro de 2011

Arlindenor Pedro 

Relógio – por Arlindenor Pedro

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Sentado da sua mesa podia olhar o Relógio que imponente dominava aquele trecho da cidade. Tec, tec, tec, o barulho da máquina de escrever ia se perdendo, transportando-o, fazendo com que a realidade ficasse mais longínqua; fazendo-o viajar para fora da seção. Não sabia explicar, mas desde pequeno, quando fitava aquele Relógio, como naquele momento, sua alma se enchia de emoção.

As vezes, quando sua avó levava-o até a cidade, surpreendia-se em estado de tensão, aguardando que o trem chegasse à primeira curva, de onde podia avistar uma de suas faces. E, quando ao longe ele ia surgindo, enorme, branco, com rapidez acertava o seu relógio de pulso, brinquedo dado pelo tio Reinaldo, que sempre o acompanhava nos dias de ir até a cidade – dias de festa.

Jamais se esqueceu daquele dia, quando sua mãe levou-o à casa de uma amiga em Copacabana e ele pode vê-lo, pela primeira vez à noite. Foi demais! Estava todo aceso: seus enormes ponteiros e números destacando-se na escuridão do céu. Enormes, marcando as horas: quinze para às oito, ainda se lembra.

Agora, olhando para o Relógio, depois de tanto tempo, sorria ao relembrar a idéia que dele faziam. Via, agora que não era tão grande assim, nem mesmo tão bonito. Talvez os olhos de uma criança vejam as coisas diferentes…mais bonitas, maiores!

Ao longo dos tempos passara a ouvir muitas histórias sobre ele. Passou, como muita gente, a associá-lo à vida da cidade, aos constantes atrasos dos trens. Convenceu-se que eram verdades as coisas engraçadas que contavam, colocando-o como único responsável nos atrasos dos empregados, das músicas que faziam a esse respeito. Mas, mesmo assim, admirava-o. Tinha por ele um grande carinho. Via-o como um amigo, que dali, mudo e impassível, acompanhava a sua vida, pois, tinha sido o espectador sempre presente em momento importantes da vida nacional.

Podia imaginá-lo a assistir, lá do alto, aos desfiles, as bandeiras vermelhas, a luta pelo petróleo, a queda de Vargas, o suicídio, o governo Dutra, as repressões aos trabalhadores, aos assassinatos. Ele assistira derramar-se à sua volta as greves, as manifestações na Central do Brasil, o quebra-quebra do bondes. O governo do Juscelino, a mudança de capital.

E agora, olhando para ele, daquela janela de repartição pública, voltou a lembrança daquele dia que, ainda pequeno, levado por mãos de quem não se lembra, participou da homenagem que fizeram ao presidente americano que chegara ao Rio. Ficou marcado que os gritos de “I like lke “não foram escutados nas imediações da Central, reduto de operários.

Por uma dessas obras do destino, quando chegou a época de cursar a escola secundária, época em que alargou seus horizontes para além do bairro suburbano em que vivia, foi num colégio do estado- o Orsina da Fonseca, exatamente ao lado da Central, que passou a estudar. E lá, bem no alto, defronte a sua janela, estava o seu amigo. Passava horas e horas, largado olhando para ele, sem prestar atenção nas intermináveis palestras em francês de Dona Tora, elegantíssima professora de francês que todo dia chegava ao colégio num reluzente Mercedes da embaixada, prerrogativa de quem era mulher de embaixador.

Quando o professor Bayard fazia aquelas suas críticas ao governo, atacando o Lacerda, todos na sala olhavam rindo para ele, entendendo o que queria dizer quando o associava aos atrasos no pagamento do magistério estadual.

Uma vez, recorda-se, quando na aula de fantoches do mestre Belan, pediram-lhe que escrevesse uma historieta para ser apresentada no auditório de colégio, foi sobre o seu amigo que escreveu. E a Maria Adélia, a portuguesinha de coxas grossas que morava na rua do Jogo- da- Bola? Era no Campo de Santana aonde iam namorar, as mãos dadas, o sexo explodindo por entre as calças, matando aula, o olho controlando as horas para pegar o bonde Uruguai-Engenho Novo, com os amigos do Pedro II! Ufa…que aventura!

Num dia de agosto, qual não foi sua surpresa, quando chegou ao colégio e viu que ele estava tomado por tanques enormes, contingentes de soldados armados, caras com graxa, em trincheiras, canhões antiaéreos. Não houve aula. Todos foram mandados de volta para casa porque o presidente tinha renunciado e ninguém sabia o que iria acontecer. Depois disso, sempre que chegava cedo, dava um pulo ao centro da praça que separava o colégio da Central, para ver de perto a troca de guarda do Panteon, onde os soldados levavam bandas e flores para o Duque de Caxias.Momentos de excitação para uma criança!

Foi com tristeza que um dia teve que abandonar o colégio, pois fora transferido para outro na Tijuca, longe da Central e da cidade. Mas, sua vida ainda continuaria ligada ao Relógio

À seus pés, levado pelo jornalista Muniz Bandeira, assistiu ao grande comício da Central, onde se diluiu na multidão de operários, camponeses e estudantes que, aos milhares, fluíam ao redor de um grande palanque para ouvirem as palavras de homens como Arraes, Brizola e outros.

Já rapaz, qual sonâmbulo, andava de um lugar para o outro, bebendo as palavras, os comentários e os gritos extasiados com o número enorme de pessoas, pois, nunca tinha assistido a alguma coisa como aquela. Olhou para cima. Soberbo, lá estava o seu amigo, e preso ao edifício da Estrada de Ferro, um enorme painel do presidente Jango que, dias depois, seria derrubado e partiria para o exílio.

Numa tarde chuvosa, no dia 1º de abril, horrorizado em frente ao Campo de Santana, assistiu às metralhadoras atirarem nos estudantes do Caco, deixando corpos na calçada, abrindo caminho para que as tropas do general Mourão pudessem ocupar a Praça da República.

Quantas coisas esse Relógio não testemunhou. O silêncio geral. As paradas comportadas do 7 de setembro, as pessoas indo para o trabalho, o carnaval!

Num dia, em 1968, assistiu, junto com ele, a um inflamado discurso do Wladimir, que em frente ao STM, levado por milhares de pessoas, exigia a libertação dos presos políticos. E, anos mais tarde, achava graça daquilo tudo, olhando para o seu amigo não mais das ruas, mas de uma janela de sua cela no DOPS, na Rua da Relação, onde podia avistá-lo ao longe, nas intermináveis noites de sua incomunicabilidade.

Quis o destino que trabalhasse numa janela que desse frente para ele, e nas enfadonhas tardes de burocrata se pergunta: quantas coisas aconteceram, quantas coisas acontecerão ainda e que ele registrará?

Por sobre a cabeça de seu amigo, na torre, a bandeira nacional tremula à meio-pau, na última homenagem a Juscelino que se foi. É a história! É a história!

Santa Tereza , 1979 

Arlindenor Pedro

Imagens do histórico comício da Central do Brasil em 1964.