memórias de tempos vividos! superando o que-já-se-efetivou com a Esperança do que-ainda-não-veio-a-ser ( reflexões ao estilo Ernesth Bloch)

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Flagrantes de uma vida-vivida

Um dia de cão !- Arlindenor Pedro

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Acordei sobressaltado. O dia 31 de março de 1964 tinha terminado e o 1 de abril estava começando; nublado, um daqueles dias sem cor que as vezes se apresentam na cidade do Rio de Janeiro.

 

Todos estavam em casa, pois fora covocada uma Greve Geral, que atingira os transportes, nos privando dos ônibus.As rádios tocavam hinos militares, numa programação estranha, que nos deixavam alertas.Afinal, o que estava acontecendo?

 

Passei na casa dos Toledos: – estão querendo derrubar o presidente! Disse-me o Sergio,  o mais novo  dos irmãos.

 

Rapidamente nos colocamos em marcha, caminhando em direção ao centro da cidade,saindo do Grajaú.

 

Pessoas andavam às tontas, em rumos indefinidos. Nas ruas somente alguns carros, nem um sinal dos lotações. Nos pontos de ônibus apinhados de gente, figuras assustadas, temendo pelo pior, aguardavam um transporte que não chegava.Volta e meia cruzávamos com caminhões da Policia Militar que passavam com as sirenes ligadas. Abaixávamos as cabeças e apressavamos os passos. Pouco falamos entre nós: uma angústia nos tomava o peito. Aflição da dúvida, medo do que se avizinhava.

 

Em pouco tempo estavamos na Tijuca, na casa do Ruy Raposo- uma grande confusão, o Exército em Minas se rebelou e exige a renúncia do presidente, nos disse a irmã do Ruy, que já tinha saído de casa.

 

Retomamos a marcha e já tínhamos alcançado a Praça da Bandeira. Adiante vimos os vagões dos trens tombados, na porta da Leopoldina, impedindo o tráfrego, cruzando toda a avenida.

 

No Campo de Sant’Anna foi quando ouvimos os primeiros tiros. Estudantes fugiam da Caco em direção à Central. Rajadas que se alternavam com estampidos secos. O caos : numa gare vazia,vultos corriam de um lado para o outro,sem direção. Carreata de automóveis, muitos deles conversíveis, com lenços brancos nas antenas, buzinavam sem parar, indo em direção à Candelária. Víamos claramente o sorriso de alegria nos semblantes daquelas lindas jovens que agitavam bandeirolas do Brasil.

 

Num repente, Astrogildo, um dos Toledos, subiu em um banco e fez um discurso relâmpago : falou que o golpe contra a democracia não iria passar e exortou a todos para que resistíssemos (no que foi entusiasticamente aplaudido por uma pequena multidão, saída não sei de onde, que se formou ao seu redor).

 

Deixamos os populares e seguimos, chegando à Cinelândia onde nos misturamos a uma grande multidão, contida por cordões de policiais da PM, às portas do Clube Militar, de onde, lá do alto, quepes olivas nos observavam.

A turba vaiava sem cessar:gorilas, golpistas, ecoavam gritos da multidão . PM fascista, gritava o povo, empurrando os soldados apavorados.

 

Do lado do obelisco surgiu um tropa de soldados da PE marchando resoluta, sendo imediatamente aplaudida pela multidão: -são os soldados do presidente, vieram nos proteger e prender os golpistas que estão lá em cima, gritou alguém.

 

Engano:a tropa abriu fogo sobre nós. Após a surpresa estabeceu-se o pavor, a corrida para salvar a vida, no meio de corpos que caiam, ficando para trás .

 

Deixamos, então, a praça e rumamos para o Flamengo, para nos abrigarmos no prédio da UNE.

 

Não havia mais abrigo. O prédio ardia em chamas, com móveis que eram atirados pelas janelas pela súcia do MAC.

 

A noite já vinha chegando. Cabisbaixos, empreendemos a volta ao Grajaú, passando pela cidade, pelos prédios, de onde podíamos ouvir os gritos de comemoração, daqueles que mais adiante iriam chorar, rangendo os dentes.

 

Nessa altura, uma chuva fina caia, molhando nossos corpos, misturando-se às lágrimas de quem sabia o que estava por vir.

 

Arlindenor Pedro

Serra da Mantiqueira, março de 2012

A Partida – Arlindenor Pedro

 

Os companheiros em fila,
os guardas que aguardavam.
No ar um grande silêncio- minutos que foram séculos.
(tanta coisa pra dizer!)
Na garganta um nó – a respiração ofegante,
o coração disparando.
Olhei – os, um a um.
A mente repassava os momentos,
os sonhos, os papos nas celas.
Chegara a minha vez.
Como outros, iria partir.
No íntimo a tristeza ( ou seria alegria ?).
Falei palavras que já não recordo:
trêmulo abracei a todos.
Minhas mãos seguravam as sacolas.
Transpus, então, as portas do “convívio”.
Lá fora novos rostos;
os amigos, os entes queridos.
Voltei os olhos para trás .
Das grades, mãos me acenavam.
Oh Deus, por que desaprendi a chorar?

Presídio Político de Bangu, 13 de fevereiro de 1976

Arlindenor Pedro

Presença Constante – Arlindenor Pedro


Presente nos rostos.
Presente nos atos,
nas ruas, nas casas,
nas fábricas,nos escritórios.
Ser onipresente,
invisível (?)
Nos tempos escuros,
nos dias cinzentos
de choro-ranger de dentes.
Presença contante.
Dos homens das cidades, dos campos.
Inimigo feroz,
Tens o nome de medo.

Catete, 20 de agosto de 1976

“faz escuro,mas eu canto”
(Thiago de Mello)

Arlindenor Pedro

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