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Flagrantes de uma vida-vivida

Pneumonia e morte

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Múmia de camponês morto por pneumonia no período pré Inca, exibida no Museo Nacional de Antropología, Arqueología e Historía del Perú

Existe a idéia de que a pneumonia seria uma doença trazida pelos europeus para a América. Na verdade isto é um mito, como nos prova esta mumia do Perú. Fica então a pergunta: como é possível que a pneumonia, fator da maior incidência de mortes na América pré colombiana, ainda esteja tão presente entres os povos da América Latina nos dias atuais?

Serra da Mantiqueira

Arlindenor Pedro

Ano-Novo – Arlindenor Pedro

 

 

Aguardar sereno o Ano-Novo que se aproxima

Lutar sem esmorecer transformando-o no que
sempre se almejou

Trará alegrias?Sim, também terá tristezas!

Trará vitórias?Certamente,porém também
existirão derrotas!

Será belo?Com certeza, mas haverá choro!

Aguardar consciente o novo ano que chega:

Chega com um novo tempo,com novos fatos,
com uma nova vez.

Nas ruas o fogos, os cantos,
os abraços…a esperança .

Aqui, por ora, o silêncio, a reflexão
mas…a certeza .

Olhar para trás, para os anos que
já se foram.

Despedir-se do ano velho (?) que
já se vai.

Marchar resoluto para frente,
para o futuro.

Aguardar sereno o Ano-Novo que se aproxima!

 

(Presídio Hélio Gomes, dezembro de 1975 )

” O último dia do ano não é o último dia do tempo” (Carlos Drumond de Andrade )

Arlindenor Pedro- 

Nos subúrbios da cidade – Arlindenor Pedro

 

Olhando aquelas cadeiras dispostas na calçada, as mulheres sentadas, crianças em algazarras, sentindo o entardecer. Olhando aquelas imagens  serenas, debruçadas nos portões e muros das casinhas com cortinas nas janelas. Observando aquele cenário, o sol morrendo na serra distante, o vermelho do céu, os acordes da Ave Maria, confesso, não nego, que as lágrimas saltaram dos meus olhos. Num repente passei a fazer comparações: lembrei – me de Jack London, das alusões aos descompassos neuróticos dos guetos das classes médias. E senti orgulho,sem nenhuma vergonha, dessa gente tão simples, que no mundo de não ser, num tempo de incertezas, de desconfianças, de degradação humana, se mantém imunes, vacinadas da crise. Senti, então, que elas, a seu modo, estão cientes e simplesmente aguardam o chegar do futuro, o quebrar do Tacão de Ferro.

Presidio Hélio Gomes,1 de novembro de 1976.

Arlindenor Pedro

Um dia de cão !- Arlindenor Pedro

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Acordei sobressaltado. O dia 31 de março de 1964 tinha terminado e o 1 de abril estava começando; nublado, um daqueles dias sem cor que as vezes se apresentam na cidade do Rio de Janeiro.

 

Todos estavam em casa, pois fora covocada uma Greve Geral, que atingira os transportes, nos privando dos ônibus.As rádios tocavam hinos militares, numa programação estranha, que nos deixavam alertas.Afinal, o que estava acontecendo?

 

Passei na casa dos Toledos: – estão querendo derrubar o presidente! Disse-me o Sergio,  o mais novo  dos irmãos.

 

Rapidamente nos colocamos em marcha, caminhando em direção ao centro da cidade,saindo do Grajaú.

 

Pessoas andavam às tontas, em rumos indefinidos. Nas ruas somente alguns carros, nem um sinal dos lotações. Nos pontos de ônibus apinhados de gente, figuras assustadas, temendo pelo pior, aguardavam um transporte que não chegava.Volta e meia cruzávamos com caminhões da Policia Militar que passavam com as sirenes ligadas. Abaixávamos as cabeças e apressavamos os passos. Pouco falamos entre nós: uma angústia nos tomava o peito. Aflição da dúvida, medo do que se avizinhava.

 

Em pouco tempo estavamos na Tijuca, na casa do Ruy Raposo- uma grande confusão, o Exército em Minas se rebelou e exige a renúncia do presidente, nos disse a irmã do Ruy, que já tinha saído de casa.

 

Retomamos a marcha e já tínhamos alcançado a Praça da Bandeira. Adiante vimos os vagões dos trens tombados, na porta da Leopoldina, impedindo o tráfrego, cruzando toda a avenida.

 

No Campo de Sant’Anna foi quando ouvimos os primeiros tiros. Estudantes fugiam da Caco em direção à Central. Rajadas que se alternavam com estampidos secos. O caos : numa gare vazia,vultos corriam de um lado para o outro,sem direção. Carreata de automóveis, muitos deles conversíveis, com lenços brancos nas antenas, buzinavam sem parar, indo em direção à Candelária. Víamos claramente o sorriso de alegria nos semblantes daquelas lindas jovens que agitavam bandeirolas do Brasil.

 

Num repente, Astrogildo, um dos Toledos, subiu em um banco e fez um discurso relâmpago : falou que o golpe contra a democracia não iria passar e exortou a todos para que resistíssemos (no que foi entusiasticamente aplaudido por uma pequena multidão, saída não sei de onde, que se formou ao seu redor).

 

Deixamos os populares e seguimos, chegando à Cinelândia onde nos misturamos a uma grande multidão, contida por cordões de policiais da PM, às portas do Clube Militar, de onde, lá do alto, quepes olivas nos observavam.

A turba vaiava sem cessar:gorilas, golpistas, ecoavam gritos da multidão . PM fascista, gritava o povo, empurrando os soldados apavorados.

 

Do lado do obelisco surgiu um tropa de soldados da PE marchando resoluta, sendo imediatamente aplaudida pela multidão: -são os soldados do presidente, vieram nos proteger e prender os golpistas que estão lá em cima, gritou alguém.

 

Engano:a tropa abriu fogo sobre nós. Após a surpresa estabeceu-se o pavor, a corrida para salvar a vida, no meio de corpos que caiam, ficando para trás .

 

Deixamos, então, a praça e rumamos para o Flamengo, para nos abrigarmos no prédio da UNE.

 

Não havia mais abrigo. O prédio ardia em chamas, com móveis que eram atirados pelas janelas pela súcia do MAC.

 

A noite já vinha chegando. Cabisbaixos, empreendemos a volta ao Grajaú, passando pela cidade, pelos prédios, de onde podíamos ouvir os gritos de comemoração, daqueles que mais adiante iriam chorar, rangendo os dentes.

 

Nessa altura, uma chuva fina caia, molhando nossos corpos, misturando-se às lágrimas de quem sabia o que estava por vir.

 

Arlindenor Pedro

Serra da Mantiqueira, março de 2012

A Partida – Arlindenor Pedro

 

Os companheiros em fila,
os guardas que aguardavam.
No ar um grande silêncio- minutos que foram séculos.
(tanta coisa pra dizer!)
Na garganta um nó – a respiração ofegante,
o coração disparando.
Olhei – os, um a um.
A mente repassava os momentos,
os sonhos, os papos nas celas.
Chegara a minha vez.
Como outros, iria partir.
No íntimo a tristeza ( ou seria alegria ?).
Falei palavras que já não recordo:
trêmulo abracei a todos.
Minhas mãos seguravam as sacolas.
Transpus, então, as portas do “convívio”.
Lá fora novos rostos;
os amigos, os entes queridos.
Voltei os olhos para trás .
Das grades, mãos me acenavam.
Oh Deus, por que desaprendi a chorar?

Presídio Político de Bangu, 13 de fevereiro de 1976

Arlindenor Pedro

Presença Constante – Arlindenor Pedro


Presente nos rostos.
Presente nos atos,
nas ruas, nas casas,
nas fábricas,nos escritórios.
Ser onipresente,
invisível (?)
Nos tempos escuros,
nos dias cinzentos
de choro-ranger de dentes.
Presença contante.
Dos homens das cidades, dos campos.
Inimigo feroz,
Tens o nome de medo.

Catete, 20 de agosto de 1976

“faz escuro,mas eu canto”
(Thiago de Mello)

Arlindenor Pedro

O primeiro emprego – Arlindenor Pedro

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Deixou-se envolver pela neblina.
Caminhou lado a lado aos vultos na escuridão .
Silenciosos, todos percorriam a trilha conhecida.
Avançaram a passos largos,
sonolentos da noite mal dormida.
Para trás ficaram as casas,
abrigos infectos, feios, sem cor.
No rosto estampava a vida que levavam.
Máscaras de luta,  de revolta, de dor
Ao longe, os contornos conhecidos.
Brancas contruções, altas muralhas-chaminés fumegantes.
Portões de ferro. Homens sem rosto,
máquinas que rugem, que gritam.
Fornos que não se apagam jamais.
Ao longo da estrada:longas fileiras de vidas suplicantes.
Caçam a colocação. Lutam pela chance.
Escolhe uma das filas.
Agora seria “um deles”.
Chegara à idade: trabalharia…
Assim sempre fora a lei da vida.
Em uma janela deu seu nome.
Em troca recebeu um número.
Iria percorrer a longa estrada,
Estrada de trabalho, suor e medo.
Pequeno, franzino, dedicado.
Um novo escravo !
Um novo operário !

Presidio Hélio Gomes,1975.

Arlindenor Pedro