memórias de tempos vividos! superando o que-já-se-efetivou com a Esperança do que-ainda-não-veio-a-ser ( reflexões ao estilo Ernesth Bloch)

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Belchior – histórica entrevista ao Pasquim !

Conhecemos como “anos de chumbo” o  período de maio terror dos anos da  da Ditadura Militar que governou o Brasil por mais de duas décadas. Foram anos que se sucederam após edição do AI 5 e que só  terminou  com o processo de “distensão lenta, gradual e segura” estabelecido pelo Governo Gaisel.Foi nele que a repressão aos movimentos insurgentes e a oposição ao Regime  se estendeu   se tornou mais cruel e presente . Foi também o período em que a censura aos órgãos da imprensa foi mais dura e abrangente . 


Pois, é neste período que o tabloide Pasquim jogou seu mais importante papel : por sua coragem e irreverência, tornou -se em uma válvula de escape, um respiradouro de liberdade , para quem se contrapunha aos militares . E foi a partir daí que em suas páginas  foram feitas entrevistas memoráveis  . Entrevistas que marcaram época . 


Quando soube da notícia da morte do cantor Belchior e começaram a aparecer inúmeras notícias sobre ele e análises às mais desencontradas sobre sua  personalidade,  imediatamente me lembrei de sua entrevista no Pasquim que tinha lido no período em que a ditadura estava mais branda,  em 1982, com a eleição do Brizola no Rio de Janeiro, e o governo Figueiredo . As diretas já estavam a caminho . Neste momento, tanto Belchior quanto o Pasquim desfrutavam  de enorme prestígio . 


Para mim Belchior representa um tipo de artista que em determinado momento recusou-se a ser esmagado  pela máquina de triturar pessoas do mundo do espetáculo . E talvez ( nunca sabermos totalmente sobre isto ) tenha sido este o motivo principal para a sua deserção  do mundo espetáculo , abdicando da carreira e passando a viver num autoexílio, longe das  luzes, do palco e das cobranças dos empresários e das gravadoras .

 

É verdade que neste momento, quando do  seu “desaparecimento”  seus discos já não vendiam tanto como anteriormente e os convites para shows tinham  se tornado mais escassos .Mas, está claro, também,  que com está atitude ele tomou seu destino nas mãos, resolvendo  ele mesmo traçar o seu caminho . E isto fez dele um verdadeiro ícone , reverenciado por uns e cobiçados por outros que almejavam uma entrevista exclusiva .


Onde está Belchior ? Era a pergunta freguente. E quando surge a notícia da sua morte está dada a senha para a produção de  inúmeros programas na TV, entrevistas de especialistas sobre ele, e um  verdadeiro frisson na redes sociais . Como diria Debord : a sociedade do espetáculo transforma tudo em mercadoria !


Saudoso deste cantor  procurei então achar esta entrevista dada ao Pasquim, revirando a web e pedindo ajuda a amigos e amigas que trabalham com pesquisas e arquivos. E vi então que não se tratava de uma tarefa facil pois este tabloide hoje só está acessível para colecionadores,  e alguns de seus números transformaram-se em raridade, embora tão pouco tempo tenha  decorrido  da sua última edição .Coisas do Brasil !


Fui salvo pelo Marcio de Aquino a quem pedi ajuda,  dizendo a ele que o meu blogue não tinha caráter comercial; no que fui   prontamente atendido,  pois ele me  mandou a cópia da entrevista me autorizando a publica-la .  


Marcio é uma espécie de “anjo da guarda”  da web pois possui um blogue na rede cujo o objetivo, segundo ele, ” é divulgar entrevistas e matérias antigas, como fonte de pesquisa e leitura” . Certamente, infelizmente,  um ser em extinção , pois a web rapidamente está perdendo este caráter libertário, se transformando num espaço competitivo e comercial, a exemplo do mundo real . Publicamente agradeço a ele!


Bem, mas vamos a entrevista, que vocês  verão é muito interessante .


Arlindenor Pedro 


Inês Etienne Romeu – Uma vida devotada à luta contra a tortura

Por Arlindenor Pedro

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 A morte de Inês Etienne Romeu, última sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis, encerra o ciclo da história oral dos que ali foram torturados. Agora que ela se foi, só nos restaúm os documentos escritos e as centenas de depoimentos que ela prestou sobre este triste episódio, que envergonha a história brasileira.

Obstinada na busca pela justiça, ela mostrou, a todos os que se dispuseram a ouvir, até que ponto pode chegar um sistema ditatorial que transforma os homens em fera e, no dizer da pensadora Hannah Arendt, banaliza o mal , transformando a ação bárbara da tortura em um ato de mera rotina profissional.

O fato de ter sobrevivido às sessões de tortura e o erro cometido por seus arrogantes algozes, que esperavam ter dominado sua mente, julgando-a incapaz de reagir, deu a nossa população as condições de saber exatamente o que eram os porões da ditadura e a existência desses centros clandestinos, como a Casa de Petrópolis, onde inúmeros opositores do regime militar de 1964 foram eliminados.

Inês Etienne foi incansável na sua vida após a prisão. Devotou o que restou dela na denúncia dos que participaram de seu sequestro, prisão, tortura e seviciamento: cobriu todo o país com palestras, e deu importantes depoimentos às Comissões da Verdade que mais tarde foram criadas. Mostrou o quanto foi cruel o Sistema ilegal montado por aqueles que se apropriaram do poder, derrubando um presidente legitimamente eleito, e a que ponto eles puderam chegar através dessas Casas de Tortura.

Certamente, trata-se de uma personagem importante na nossa história, honrando uma geração de jovens utópicos que não tiveram dúvidas em enfrentar um inimigo poderoso, na busca pela liberdade que naquele momento faltava ao país.

Oxalá sua vida e sua morte chamem à reflexão os incautos que acreditam que um sistema ditatorial pode ser melhor do que a liberdade política que ainda temos, e expressam tal vontade instigando os militares a se apropriarem novamente do poder político.

Nenhuma proposta de avanço econômico ou material pode justificar supressão da liberdade, em qualquer dos seus níveis, pois nos seus porões os regimes ditatoriais geram apenas excrescências inumanas – com as quais Etienne se deparou.

Sabemos que a sua luta não foi em vão e a história não se repetirá.

Publicado em Outras Palavras 

Dora, a força feminina na luta contra o Regime Militar 

O filme “  Quando chegar o momento “ do cineasta Luiz Alberto Barreto Leite Sans “ nos trás com profundo realismo os dias cinzentos daqueles então jovens que entregaram suas vidas a luta contra o regime opressor  dos militares que assaltaram o poder em 1964 .

Aqui o filme reconstitui a trajetória de Maria Auxiliadora Lara Barcelos, de Minas Gerais, onde nasceu, até seu suicídio no exílio em Berlim, três anos antes da Anistia. Dora fazia parte do grupo de 70 revolucionários libertados em 1971 da prisão em troca do Embaixador Suíço Enrico Bucher, capturado pela guerrilha brasileira em dezembro de 1970.

Apresentação e narração de Reinaldo Guarany e Luiz Alberto Sanz; roteiro de Reinaldo Guarany, Luiz Alberto Sanz e Lars Säfström; Fotografia de Staffan Lindkvist; captação de som de Leonardo Céspedes Garreaud; produção executiva de Bettan von Horn; direção de Lars Säfström e Luiz Alberto Sanz; produção de SLS Film och Videoproduktion para TV Suécia Canal 1.

Ao assisti- lo não há como não pensar que devemos fazer de tudo para que dias como estes não se repitam .

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