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Textos publicados no Correio do Brasil

 No olho do furacão – impressões sobre a crise na Grécia – I

Amigos, segue mais uma referência do debate que vem da Grécia, de quem está envolvido nos seus processos. É certamente a visão de quem prescinde de uma crítica da crise e, por isso mesmo, apoiado numa oposição entre poder político e poder econômico, faz sobressair o problema da organização aos de uma 

ruptura crítica efetiva. Esse parece ser um texto menos problemático do autor, isso aos nossos olhos. Porque em outros contextos ele sugere inclusive estar em causa um enfrentamento com políticas neoliberais que poderia ser levado a cabo por um sentido civilizatório de esquerda frente a barbárie. Ainda assim, e até por conta disso, o texto é importante, porque pode revelar um contexto grego de mediações cotidianas de enfrentamento da crise em que se vai tendo de admitir como não ingênua uma terceira alternativa para além do Estado e da totalidade da esquerda que disputa a civilização mercantil:

“A extinção da democracia na Europa deve ser complementada pelo fortalecimento das comunidades auto-organizadas a nível local e pelo fortalecimento de laços fortes entre elas, conjuntamente com uma mudança voltada para uma economia assente na solidariedade e nas necessidades humanas, e na gestão e defesa coletiva dos bens comuns. O contra-poder social dos oprimidos deve confrontar-se diretamente com o poder social do capital no seu espaço privilegiado: a vida quotidiana.”

A consciência comum de solidariedade é de algum modo constrangida a pensar para além das formas do Estado e da economia – que seja de maneira rudimentar só reforça a questão. A novidade, é claro, não são esses discursos e práticas, mas um contexto de um “cotidiano monetário sem dinheiro” que ainda é capaz de articular solidariedades efetivas que vai tornando aqueles discursos e práticas algo sistemático. Isso obviamente não quer dizer que a situação grega seja incendiária para as formas da emancipação. Já sabemos que nada está dado com a crise, exceto a regressão em curso. Mas pode estar em disputa uma alternativa às formas da economia e do Estado e temos de pensar nos contextos e nas consciências que estão vivendo esses processos. No mesmo bojo, envio dois filmes, ambos feitos por estrangeiros que foram ver de perto o que anda acontecendo na Grécia e puseram-se a divulgar as experiências libertárias que por lá têm se alastrado. Impressiona sobretudo certas solidariedades diretas de ruptura com a economia. Não são solidariedades de apoio, de discurso ou de organização. São formas de enfrentamento coletivo do cotidiano monetário sem dinheiro que podem muito bem se generalizar. Afinal, na estação seca, o fogo corre fácil no trigal. Abraço forte! Renan Saraiva 

O Syriza rendeu-se: é altura de reforçar as resistências populares É o momento oportuno para que uma ampla aliança de forças sociais leve avante um «Plano C», baseado na colaboração social, no auto-governo descentralizado e na administração dos bens comuns. Por Theodoros Karyotis Artigo publicado em Passa Palavra 

Durantes as duas últimas semanas, o tempo político na Grécia sofreu uma condensação política, na qual os cidadãos viveram uma situação limite, lutando contra forças que pareciam encontrar-se para lá do seu controlo. A 27 de junho, o governo liderado pelo Syriza submeteu o ultimato dos credores a um referendo, tendo feito campanha pelo «Não». O resultado – uma inequívoca rejeição da austeridade perpétua e da contínua servidão ao endividamento – ficará na história como um momento excecional de dignidade de um povo sob o ataque dos credores europeus e da elite grega. Apesar dos matizes patrióticos, estes resultado constitui o culmíneo de cinco anos de resistência contra a constante degradação das nossas vidas. Significou escapar ao domínio dos meios de comunicação social, superar o medo e fazer ouvir a voz do povo. Veio confirmar o descrédito absoluto das elites políticas no governo desde a transição política de 1974, que fizeram campanha pelo «Sim». Por outro lado, o resultado revelou uma sociedade dividida segundo a classe: as classes médias e baixas, que até agora assumiram praticamente todo o custo da austeridade e do ajustamento estrutural, votaram esmagadoramente «Não». No entanto, o resultado resiste a todas as tentativas de capitalização por parte dos partidos políticos; é a negação categórica do atual quadro político e económico, a negação que necessariamente precede a todos os atos de autodeterminação social. Porém, menos de uma semana após o referendo, o governo grego apresentou uma nova proposta de financiamento aos seus credores, ligada a um pacote de medidas de austeridade ainda mais duras que as rejeitadas no referendo. Após um fim de semana de «negociações», a qual revelou uma divisão entre os credores, chegou-se na madrugada de segunda-feira a um acordo humilhante, que converte a Grécia numa colónia de dívida europeia. Como é que, em poucas dias, foi possível que este «Não» se transformasse num «Sim»?

O dilema do Syriza

A estratégia do governo destinada a utilizar o veredicto popular como meio de pressão nas negociações fracassou, conforme a previsão de alguns analistas. Ao regressar à mesa de negociações, a linha dura do grupo de credores, reunidos em torno do ministro das finanças alemão Wolfgang Schauble, deixou claro que preferia ver a Grécia a sair – com todas as implicações económicas e políticas para a Zona Euro – do que permitir a mínima fratura na disciplina neoliberal de austeridade. O governo liderado pelo Syriza deparou-se perante um duro e urgente dilema: ou aceitar a implementação de um novo programa de austeridade neoliberal ou ter que assumir o custo político de uma saída, com todos os efeitos desastrosos sob a população grega que tal resultado suporia. Acabou por optar pela primeira, terminando oficialmente com os cinco meses de conflito entre o governo grego e os seus supostos «parceiros» europeus. Os termos da capitulação são duros, uma vez que vão contra a totalidade das promessas eleitorais realizadas pelo Syriza: o novo memorando é, talvez, mais duro que os anteriores, uma experiência extrema de engenharia social e de distribuição de riqueza a favor dos poderosos. Mantém muitas das medidas injustas aplicadas por governos anteriores, como o ENFIA, um imposto transversal à pequena propriedade que converteu as famílias de classe baixa em inquilinos dentro das suas próprias casas, ou a abolição do limite de rendimentos não tributáveis para os trabalhadores por conta própria, que torna impossível aos trabalhadores qualificados saírem da armadilha do desemprego. O novo acordo reafirma igualmente o papel do TAIPED, possivelmente alterando a sua designação. Trata-se de uma instituição criada para a venda de todos os ativos públicos, sobretudo infraestruturas básicas, como portos, aeroportos e a empresa de infraestrutura elétrica. Além do mais, o acordo exige a abolição da moratória aos despejos, abrindo caminho a uma operação de espólio que ameaça provocar um desastre humanitário, conforme demonstrado pela experiência espanhola. O acordo prevê ainda um aumento dos impostos indiretos, dos preços dos alimentos e dos transportes, bem como cortes nos salários e nas pensões, através de um aumento das contribuições para a segurança social. Em suma, um pacote de medidas destinadas a comprimir ainda mais as classes médias e baixas, aumentar a recessão e o desemprego, destruir as pequenas e médias empresas, que compõem a coluna vertebral da economia grega, e entregar todos os ativos públicos e bens comuns ao capital transnacional. Ao mesmo tempo, perpetua-se a depressão e aumenta-se a dívida, paralisando efetivamente a economia grega e destruindo a sua capacidade de saída da crise pelo seu próprio pé. Os  credores fizeram o possível para assegurar medidas suficientemente puníveis. De forma a humilhar ainda mais os seus oponentes, exigiram a votação imediata das leis de reforma e o regresso a Atenas dos supervisores da Troika, expulsos pelo governo ao longo do primeiro período de negociações. Os argumentos dos funcionários do governo e dos quadros do partido que defendem os aspetos «positivos» do acordo são irrisórios, fazendo eco dos argumentos dos governos anteriores, os quais repetiam que a austeridade ampliaria as perspectivas a longo prazo da economia grega e do que custo do ajuste não seria transferido para os mais desfavorecidos. É mais encarar o acordo como ele realmente é: uma operação de despossessão a grande escala, o sacrifício de todo um país em nome da fraude sob a qual se construiu a Zona Euro. Parece que o governo de «salvação nacional» do Syriza chegou ao final do seu trajeto. É chamado a votar e implementar um plano de austeridade que não só é indiferente à luta dos movimentos de austeridade dos últimos cinco anos, da qual o Syriza fez anteriormente parte, como também vem trair o veredicto dos 61% dos gregos que votou contra a austeridade apenas uma semana antes. Poderia argumentar-se que se trata de uma aposta coletiva frustrada, de uma saída menos penosa face à chantagem dos «parceiros». Não há dúvida de que um «grexit» desordenado, aliado às medidas punitivas que seriam empregues pelos extremistas neoliberiais, provocaria um desastre a curto-prazo, em particular nas classes populares. Em qualquer caso, os resultados políticos serão rápidos: o governo será seguramente remodelado ou substituído, e o Syriza confrontar-se-á com uma divisão interna que poderá significar o fim do partido na sua forma atual.

Uma relação contraditória

Ao longo dos últimos três anos, os movimentos sociais de base na Grécia adotaram uma postura profundamente contraditória em relação à ascensão eleitoral do Syriza. Por um lado, a perspetiva de um governo de esquerda constitui a oportunidade de levar o conflito a um nível institucional; afinal, muitas das reivindicações das lutas vieram a refletir-se no programa do Syriza, tendo o partido sempre mantido um perfil próximo dos movimentos. Por outro lado, o Syriza constitui um agente de desmobilização, colocando um fim à crise de legitimação que havia concedido protagonismo à criatividade social e auto-determinação dos movimentos, e contribuindo para a institucionalização das lutas, marginalização das reivindicações incompatíveis com o seu projeto de gestão estatal e restituição da lógica de representação e delegação política, promotoras da inação e da complacência. Ao mesmo tempo, o Syriza cultivou a ilusão de uma real transformação social sem uma ruptura com os mecanismos de dominação capitalista, sem colocar em causa o paradigma económico dominante, sem a construção de alternativas concretas às instituições capitalistas a partir de baixo, sem sequer questionar a permanência do país no seio de uma união monetária que, na sua concepção, favorece as economias do Norte, orientadas para a exportação, em detrimento da periferia europeia. Os dirigentes do Syriza dissociaram-se das bases do partido e dos seus antigos aliados dentro dos movimentos. Resistiram, vigorosamente, ao debate público em torno da elaboração de um «Plano B», fora do euro, caso falhasse o «Plano A» de «fim de austeridade na Zona Euro», por receio que a oposição pró-austeridade a viesse a utilizar contra si, como prova da existência de uma agenda oculta desde o início. Infelizmente, os recentes acontecimentos vieram a dar razão aos que defendiam que, dada a falta de legitimidade e a extrema fragilidade do governo anterior, um novo memorando apenas seria possível através de um novo e popular governo «progressista». Este é, provavelmente, o papel que o Syriza acabou por jogar de forma involuntária, usando as suas amplas reservas de capital político. Levantando o véu da ilusão O facto de o Syriza se ter revelado incapaz de cumprir alguma das suas promessas eleitorais ou reverter a lógica de austeridade levanta o véu da ilusão relativamente a soluções institucionais desde acima e deixa os movimentos de base exatamente onde começaram: compondo a principal força antagónica contra o assalto neoliberal na sociedade e a única força capaz de imaginar um mundo diferente, para lá das instituições falhadas do mercado capitalista predador e da democracia representativa. Não há dúvida de que muitos ativistas honestos e comprometidos estão vinculados às bases partidárias do Syriza. É agora sua tarefa reconhecer o fracasso do plano do partido e resistir aos esforços do governo em vender o novo memorando como um desenvolvimento positivo ou inevitável. Se o Syriza, ou uma parte maioritária do mesmo, decidir permanecer no poder – nesta coligação governamental ou noutra, mais servil, estabelecida pelos credores – e supervisionar a aplicação deste brutal memorando, as bases do partido dever-se-ão revoltar e unir-se a outra forças sociais, em busca de uma saída da barbárie, quebrar as fileiras de um partido que poderia ser rapidamente convertido, de uma força de mudança, num gestor obstinado de um sistema brutal, sobre o qual não exerce qualquer controlo. O papel da Esquerda – definida em termos amplos – não é de um gestor mais benévolo da barbárie capitalista: afinal de tudo, esse era o propósito original da social democracia, um projeto que se esgotou já na década de oitenta. Não pode existir «austeridade com rosto humano»: a engenharia social neoliberal é um ataque à dignidade humana e aos bens comuns em todas as suas manifestações, de direita ou de esquerda. Argumentei, noutro lugar, que o «Não» do referendo da semana passa foi ambivalente, e a luta pela definição do seu sentido acaba de começar. Horas depois do anúncio dos resultados, o primeiro-ministro Tsipras interpretou o veredicto popular como um mandato “para se manter dentro da Zona Euro a qualquer preço». Porém, é evidente que o novo pacote de «resgate» se encontra fora do seu mandato: o plano A, o único do Syriza, que previa o fim da austeridade sem um conflito com os poderes fáticos, fracassou completamente. O plano B, promovido sob diversas formas pelo Antarsya, Partido Comunista e a própria Plataforma de Esquerda do Syriza, defendia uma recapacitação produtiva fora da Zona Euro. Embora seja cada vez mais popular, principalmente após a evidência da inflexibilidade do projeto europeu, esse plano não deixa de ser produtivista, centrado no Estado, de cima para baixo, não colocando em causa os significados dominantes do capitalismo: o incessante crescimento capitalista, a economia extrativa, a expansão da produção, o crédito e o consumo. Por outro lado, mediante o entrincheiramento nacional que promove, acarreta o perigo de desvios autoritários.

Um ponto de inflexão decisivo

A crise grega representa, como sempre, um ponto de inflexão em relação ao futuro do projeto europeu. Os representantes da linha dura da Zona Euro insistem na culpabilização da periferia da Europa pelos defeitos estruturais da moeda única e pela sua insistência em socializar a dívida privada por via dos eufemisticamente designados «pacotes de resgate». Ao mesmo tempo, envenenam as mentes das pessoas do Norte da Europa com um discurso moralista neocolonial, propagado através dos meios de comunicação. A percepção da perda do poder político sobre a sua própria vida está a levar muitos europeus a voltarem-se em direção a partidos xenófobos e reacionários, que prometem um retorno ao Estado-Nação autoritário. A esquerda europeia assiste, perplexa, ao desvanecimento das suas esperanças numa UE baseada em princípios de solidariedade e justiça social, juntamente com os esforços do Syriza na negociação de uma saída humanitária da crise da dívida grega. É o momento oportuno para que uma ampla aliança de forças sociais leve avante um «Plano C», baseado na colaboração social, no auto-governo descentralizado e na administração dos bens comuns. Sem ignorar a sua relevância, a política eleitoral nacional não é o campo privilegiado de ação no que respeita a transformação social. A extinção da democracia na Europa deve ser complementada pelo fortalecimento das comunidades auto-organizadas a nível local e pelo fortalecimento de laços fortes entre elas, conjuntamente com uma mudança voltada para uma economia assente na solidariedade e nas necessidades humanas, e na gestão e defesa coletiva dos bens comuns. O contra-poder social dos oprimidos deve confrontar-se diretamente com o poder social do capital no seu espaço privilegiado: a vida quotidiana. Na Grécia, e após sofrer uma completa alteração, o debate em torno de um futuro para lá da austeridade acaba de ter início. Os inequívocos 61% contra a austeridade recordam-nos da urgência deste debate. Após alguns anos de relativa desmobilização, a reativação dos movimentos sociais que prefiguram novas relações sociais, construídas desde baixo, é iminente. Temos por diante um novo ciclo de resistência criativa, de produção de sujeitos coletivos e de incansável experimentação, destinadas à transformação da nossa realidade a partir de baixo.

Atenção : ative as legendas em português dos vídeos 

A morte é um dia que vale a pena viver –  Ana Claudia Quintana Arantes 

 A felicidade só é de verdade quando é compartilhada : eis aí um axioma que aprendi a respeitar. Talvez tão importante que procurei tê-lo em conta , em todos os momentos, na minha vida-vivivida .

Mas, ele não se aplica no momento da morte, a mais solitária das experiência que possamos ter – a da despedida . Ao contrário do nascimento – onde estamos sendo recebidos .

Invariavelmente , na maior parte das vezes  ,  quando tomamos conhecimento que a velhice chegou  , este pensamento nos assalta ; e  então é impossível não lembrar .

Mesmo que procuremos desviar nossos pensamento , desviar o assunto , não discutir com os outros , trata-se de uma questão que não podemos fugir , pois ela nos persegue na nossa intimidade , nas nossas mais profundas reflexões .

Filosofar  sobre a morte !

Isto  nos trás uma profunda tristeza , melancolia , pois sabemos que a solidão  sempre acompanha o momento da morte .

Na verdade ,  penso eu : não temo propriamente a morte ! Temo a figura que ela trás como acompanhante  : a solidão ao partir .

Mesmo que tenha a sorte de morrer entre aqueles que eu adore ( um acontecimento muito difícil , pois a sociedade moderna quase que nos obriga a morrer entre estranhos , entre médicos , enfermeiros , que têm uma relação impessoal conosco ),  o passo decisivo se dá solitariamente ,pois somos nós que vamos  partir – sair de cena . E quanto a isto , não há nada o que se fazer .

Dissociados que somos da natureza , em um mundo racional que nos ensina que ao homem tudo é possível , com certeza não podemos entender a morte .

Melhor seria se pudéssemos conviver com a sua inevitabilidade .

Creio  então , que cabe à medicina , a ciência moderna , atenuar um dos elementos presentes com a sua chegada : o sofrimento físico, pois ele nos tira o discernimento ( pela dor ininterrupta ) deste momento importante .

Eis aí Um assunto pouco discutido , mas que o filme canadense ” As invasões Bárbaras ” , tratou com sensibilidade e coragem . (http://youtu.be/mseGjgbmlKA).

Mas , mesmo sem entrar neste assunto , é impossível  não ver com simpatia o trabalho que a médica Ana Claudia Quintana Arantes , especialista em Cuidados Paliativos  e graduada em Intevensões em Luto , faz com doentes terminais , e que mostramos no vídeo a seguir com sua brilhante intervenção no TED , aqui no Brasil .

Uma palestra para pensar !

Serra da Mantiqueira , 9 de junho de 2015

Arlindenor Pedro 

A Nova Crítica do Valor em debate

Publicado na Revista Sinal de Menos – 11/parte 2 

SOBRE O LIMITE ABSOLUTO DO CAPITAL

Um texto de Daniel Feldeman 

Publicado na Revista Sinal de Menos – 11/parte 2


1- Apresentação de uma hipótese teórica 

O texto que ora apresentamos é de caráter eminentemente especulativo. Em nossa investigação, a hipótese que queremos esmiuçar seria a de que o capitalismo estaria vivendo em uma era de limite absoluto – e portanto não meramente relativo e passageiro. Tal limite se expressaria no fato de que com o desenvolvimento das forças produtivas contemporâneas – aquilo que muitos chamam de a Terceira Revolução Industrial baseada na informática e na robótica – teria sido estabelecido um padrão estrutural de produção que torna cada vez mais o trabalho vivo redundante para a produção de riqueza. Nesse novo “capitalismo cognitivo” – para usar uma expressão em voga – seriam os poderes, informações e conhecimentos acumulados da ciência e da tecnologia cada vez mais os verdadeiros responsáveis pela riqueza material, cabendo ao esforço laboral humano um papel cada vez menor.

Para ilustrar tal hipótese, podemos exemplificar como nos dias de hoje em certos casos a retirada de cena do trabalho humano chega às raias do paroxismo. Um exemplo extremo, mas bastante emblemático deste novo paradigma produtivo, seriam as impressoras 3D. A utilização deste instrumento – ainda embrionário e em desenvolvimento – que permite a produção de virtualmente qualquer objeto sem a utilização de operários desvela todo um conjunto de potenciais e revolucionárias transformações futuras na organização da produção cujos resultados efetivos podemos somente imaginar no presente. Recentemente, na China, um bloco de apartamentos foi construído com tal tecnologia, fato que por si só deve chamar atenção, ainda mais se considerarmos que a construção civil é um dos setores da economia em que a utilização de trabalho vivo costuma ser bastante importante.

Entretanto e de forma contraditória, tal feito grandioso da economia capitalista seria o prenúncio de seu próprio fim. Pois se partimos aqui da premissa mais básica de que capital é a “valorização do valor” sem fim, e que essa valorização para se efetivar necessita da incorporação de trabalho humano como seu pressuposto, estaríamos então diante de uma crise estrutural muito mais profunda e grave do que as inúmeras crises cíclicas que marcam a história do capitalismo. Esta é justamente a tese de autores alemães que se organizam em torno da revista Exit! que tem em Robert Kurz (falecido em 2012) o seu teórico mais conhecido e da revista Krisis da qual participam Ernst Trenkle e Norbert Lohoff. A grande contradição de nosso tempo dentro de tal marco teórico não seria portanto aquela mais conhecida e amplamente difundida pelo marxismo tradicional que enfatiza a luta de classes como motor da história e a disputa pelo excedente econômico entre capitalistas e trabalhadores como a questão econômica fulcral. Para a Exit! Krisis não se trataria de buscar uma efetiva transformação social do ponto de vista do trabalho – como tem sido a tradição entre os marxistas – mas sim uma transformação contra o trabalho. O que importa para nós, nos limites deste texto, é mostrar que para estes autores alemães estaríamos efetivamente vivendo hoje aquilo que Marx nos Grundrisse apontava como possibilidade ainda em germe:


“Nesta transformação o que aparece como o pilar fundamental da produção e da riqueza não é nem o trabalho imediato executado pelo homem nem o tempo que este trabalha, mas sim a apropriação de sua própria força produtiva geral, sua compreensão da natureza e seu domínio da mesma graças à sua existência como corpo social; numa palavra, o desenvolvimento do indivíduo social. O roubo de tempo de trabalho alheio sobre o qual se funda a riqueza atual, aparece como uma base miserável comparada com este fundamento, recém desenvolvido, criado pela grande indústria mesma. Tão pronto como o trabalho em sua forma imediata tem deixado de ser a grande fonte da riqueza, o tempo de trabalho deixa, e tem de deixar, de ser sua medida e, portanto, o valor de troca [deixa de ser a medida] do valor de uso. O sobretrabalho da massa tem deixado de ser condição para o desenvolvimento da riqueza social, assim como o não-trabalho de uns poucos tem deixado de sê-lo para o desenvolvimento dos poderes gerais do intelecto humano. Com isso, se perde a produção fundada no valor de troca, e ao processo de produção material imediato se retira a forma da necessidade premente e o antagonismo .Desenvolvimento livre das individualidades e, p o r consequência, não redução do tempo de trabalho necessário com vistas a pôr sobretrabalho, mas sim, em geral, redução do trabalho necessário da sociedade a um mínimo, ao qual corresponde então a formação artística, científica etc. dos indivíduos graças ao tempo que se torna livre e aos meios criados para todos.1

Para melhor apreendermos o sentido da citação acima, é preciso aqui fazer uma distinção entre riqueza material e valor. A primeira significa pura e simplesmente o conjunto de produtos concretos que satisfazem determinada s necessidades dos indivíduos. O segundo trata-se de uma medida abstrata e geral que é a expressão da forma mercantil da sociabilidade sob o capitalismo. Isto é, na medida em que o trabalho dos indivíduos só se torna social através da mediação de mercados, a forma valor torna- se ela própria a reguladora impessoal e inconsciente da produção e do consumo. Mais ainda, na medida em que o capitalismo se impõe historicamente, a forma valor e não a riqueza material torna-se o objetivo último da produção. Ou seja, o trabalho torna-se também ele abstrato na medida em que conta para o capital como unidade de tempo em geral, independentemente tanto do caráter qualitativo e concreto dos produtos quanto de sua quantidade numérica. E para que o capital cumpra sua missão – isto é, se valorizar – ele precisa se apropriar de uma quantidade maior de trabalho abstrato do que aquela posta por ele em movimento no início do processo produtivo.

No entanto, como sugere a citação acima, o próprio modus operandi capitalista – marcado pela incessante concorrência entre capitais – tende a aumentar exponencialmente a produtividade e tornar o trabalho uma “base miserável” no que tange à produção de riqueza material ou valores de uso. No entanto, na medida em que a forma valor permanece como esteio da sociedade em que vivemos, a constante incorporação de trabalho vivo há de permanecer como questão de vida ou morte para a permanência do capitalismo. O aumento da produtividade jamais pode por si apenas aumentar o valor produzido. Uma jornada de oito horas de trabalho vivo sempre irá adicionar ao “trabalho morto” das máquinas e matérias-primas o equivalente a oito horas de trabalho. Se a produtividade do trabalho aumentar será possível nestas oito horas aumentar a quantidade de riqueza material produzida, mas jamais o valor incorporado, posto que este por definição se mede pela quantidade de trabalho abstrato. Uma mesma quantidade de trabalho – desconsiderando-se diferenças de intensidade e complexidade – sempre representa uma mesma quantidade de valor.

Aqui, portanto, residiria a contradição fundamental contemporânea posta por Kurz, Trenkle, Lohoff e cia. Desde o final do século XX e ainda mais no decorrer deste início de século XXI, a nova estrutura técnica do capitalismo estaria criando novos padrões que estariam minando sua própria base de valorização: o trabalho vivo. Tal dinâmica suicida do ponto de vista do capital revela-se no fato deste último tornar cada vez mais desimportante o trabalho para a produção de riqueza – sendo substituído por aquilo que Marx em outra passagem dos Grundrisse chama de “Intelecto Geral”– ao mesmo tempo que não pode deixar de recolocar este mesmo trabalho como base de sua contínua autovalorização. 

Nesta contradição estaria escancarado de maneira cabal o fato de que as relações fetichistas que governam a economia capitalista criam imperativos aos capitais tomados individualmente que do ponto de vista sistêmico acarretam uma crise insolúvel. O drama se acentua pelo fato de que – caso a tese aqui exposta esteja correta – evidentemente não há como se “voltar atrás”. Se os novos padrões de produção num dado setor econômico tendem a impor uma diminuição da quantidade de trabalho vivo com relação ao trabalho morto, a tentativa de se engendrar técnicas que ponham em movimento mais trabalhadores em nome de se “salvar” globalmente o sistema em sua busca pela expansão do valor não implicam apenas num “retrocesso”, mas sim tendem a ser inviabilizadas pela concorrência e pelo processo de racionalização que não perdoaria a menor eficiência destes “capitalistas utópicos”.

No enfoque dos autores alemães, a citação de Marx, mesmo se bastante conhecida entre aqueles que estudam sua obra, não teria sido absorvida em sua devida profundidade e relevância. Ou, na melhor das hipóteses, a citação de Marx teria sido tomada como mais uma previsão distante que só poderia ser objeto de preocupações futurológicas e especulativas. Justamente o recado de Krisis Exit! é de que estaríamos hoje vivenciando o contexto acima citado. Isto redimensionaria profundamente o debate econômico de inspiração marxista. Afinal, se de fato é a própria produção de valor que está em questão, o eterno debate sobre as crises periódicas do capitalismo que tantas polêmicas incutiu no marxismo torna-se supérfluo. Ou, melhor dizendo, apenas o que sobraria do velho debate das crises seria a ideia – minoritária entre os marxistas – de que o capitalismo teria uma tendência inexorável ao colapso. 

Tais foram as teses defendidas por Rosa Luxemburgo e H. Grossman, evidentemente com argumentos e num contexto diferentes dos de Kurz, e que foram de maneira geral rechaçados no debate marxista.

2- Acerca da validade desta hipótese teórica

O que expomos acima não é por certo novidade para todos aqueles que já tiveram algum contato com a obra de Kurz, em especial com seu livro mais conhecido, O Colapso da Modernização. Este último teve um impacto considerável no Brasil e em outros países no início dos anos 1990, apesar de que mesmo então tenha sido duramente criticado. Todavia, a influência de Kurz e seus parceiros tendeu a esmorecer bastante nos anos subsequentes. Independentemente disso, persiste a questão: a hipótese aventada acima é válida? Nosso esforço subsequente neste texto não pretende responder de maneira inequívoca a tal questão. Trata-se muito mais de tentar juntar elementos, buscar organizar melhor a discussão e propor certos pontos para posteriores pesquisas e reflexões que dialoguem com os elementos postos por tal hipótese.

Pensamos que uma primeira aproximação à proposta acima é ligar a hipótese de Kurz ao conceito do livro III de O Capital de Marx de Queda Tendencial da Taxa de Lucro. Tal conceito a nosso ver permite pensar melhor a hipótese de uma crise permanente da valorização do capital. Como é sabido, seria a aumento da composição orgânica do capital, isto é, o aumento do peso relativo em termos de valor do trabalho morto com relação ao trabalho vivo que configuraria a queda da taxa de lucro no transcorrer do desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo. Tal queda da taxa de lucro – caso não fosse contrarrestada pelas tendências atenuantes discutidas pelo próprio Marx – significa a iminência de uma crise absoluta do capitalismo. Não é à toa que justamente a discussão sobre um eventual colapso do capitalismo aparece em Marx num capítulo em que trata do problema da taxa de lucro. E não poderia ser de outra forma, posto que a taxa de lucro dentro da construção teórica marxiana é a medida da expansão de valor do capital em relação a si próprio. Se esta taxa vai a zero, ou declina muito, a continuidade da acumulação é travada e o processo de valorização se esboroa. A crise que daí advém, na medida em que desvaloriza o capital existente, pode reerguer a taxa de lucro e colocar na ordem do dia um novo ciclo de acumulação. Mas se a composição orgânica do capital prossegue sua escalada ascendente, esta breve recuperação será apenas um respiro dentro da inexorável agonia que o capitalismo a t r av e s s ar ia .

A similitude do conceito de queda tendencial da taxa de lucro com a da tese de Kurz é enorme, e poder-se-ia dizer que seriam diferentes formas de se dizer a mesma coisa, ainda mais quando se leva em conta a teorização do colapso do capitalismo que daí se derivaria. Até certo ponto isto é correto, mas desde que se façam certas qualificações. Se é inegável que as transformações tecnológicas implicam numa enorme substituição de trabalho humano por máquinas, equipamentos, informação, conhecimento etc. isto não decreta por si só a impossibilidade da continuidade da dinâmica capitalista, pois não se pode inferir daí diretamente a interrupção da relação de valorização do capital consigo próprio. Para tanto não há como fugir da análise das contratendências à queda da taxa de lucro tais quais formuladas por Marx e buscar contrapô-las a Kurz, na tentativa de falsear sua tese de crise absoluta do valor e da valorização. Mais especificamente, a nosso ver, é preciso ver quais os efeitos da  incidência da chamada Terceira Revolução Industrial e do Capitalismo Cognitivo sobre 1) a taxa de mais-valia; 2) o valor dos elementos materiais do capital constante. 5

No que tange ao primeiro caso, a tentativa de se falsear a tese de Kurz se daria em função da simples constatação de que o mesmo aumento da produtividade que tem como corolário a redução de trabalho vivo poderia aumentar a mais-valia relativa (e por tabela a taxa de mais valia). À medida que cai o valor dos bens que fazem parte do custo de vida dos trabalhadores, é possível extrair deles mais tempo de trabalho excedente. Se antes era necessário que o trabalhador recebesse o equivalente a 4 horas da sua jornada de trabalho de 8 horas para manter seu padrão de vida, é possível que com o aumento da produtividade na elaboração dos bens que ele consome, agora sejam necessárias apenas 2 horas que correspondam ao seu salário, sobrando 6 horas agora como mais valia ao capitalista. Em outras palavras, é possível que a redução relativa da quantidade de horas de trabalho vivo na produção seja compensada por uma maior absorção relativa de horas de trabalho sobre cada jornada realizada.

Entretanto, como bem mostrou Rosdolsky em seu Gênese e Estrutura de O Capital de Karl Marx, a possibilidade de se atenuar a queda da taxa de lucro pela via da produção de mais-valia relativa é bastante limitada e não pode ter um longo fôlego. No nosso exemplo anterior, para que seja possível reduzir a quantidade de horas equivalentes ao salário em termos de valor de 4 para 2 horas, seria necessário dobrar a produtividade dos bens de consumo para que seu valor caísse pela metade. No entanto, este processo caso continuado por mais vezes traria um efeito cada vez menor em termos de geração de mais-valia. No caso em discussão se a produtividade dobrar mais uma vez o salário poderá ser equivalente a 1 hora de trabalho, mas isto significaria então apenas mais 1 hora – e não 2 como no caso anterior – de mais-valia incorporada pelo capital. De forma análoga, nas próximas vezes em que dobrar a produtividade – o que convenhamos não ocorre do dia para a noite – na feitura dos bens que o trabalhador consome renderiam respectivamente como tempo excedente ao capital 30, 15, 7.5 minutos etc. Em suma, por esta via, não parece ser possível que se negue a tendência à queda da taxa de lucro.

Caso mais complexo parece ser o da relação entre as recentes mudanças produtivas e a outra das contratendências à queda da taxa de lucro, a saber, a do barateamento dos elementos do capital constante. Mais uma vez, tentando falsear Kurz, podemos aqui argumentar que se de um lado é inquestionável que do ponto de vista técnico-material o trabalho morto torna-se cada vez mais relevante em detrimento do trabalho vivo, não necessariamente o mesmo pode-se afirmar sobre esse processo do ponto de vista do valor. Ou, dito de outra forma, não se pode negar que a mesma estrutura produtiva da Terceira Revolução Industrial que faz com que um único trabalhador coloque em movimento um volume de equipamentos e matérias-primas maior do que em etapas pretéritas do capitalismo possa, por outro lado, reduzir o valor unitário destas matérias-primas e equipamentos de forma que o efeito em termos de “custos” globais não aumente, ou mesmo caia. Ou seja, usando o mesmo exemplo que já tratamos da impressora 3D, podemos intuir aqui que esta nova tecnologia vá produzir de forma bem mais barata não só bens de consumo mas também máquinas e equipamentos, de forma a aliviar a taxa de lucro das consequências advindas da substituição de trabalho vivo por trabalho morto. Por outro lado, também se pode contrapor o dito anteriormente se se tiver em conta que a possibilidade de que a queda do valor unitário dos elementos do capital constante sobrepuje o aume nto de quantidade destes elementos enfrenta dificuldades que não oferecem fácil solução. Uma destas dificuldades é de que as matérias-primas – ou ao menos uma parte considerável delas – oferece limites para redução em seu valor unitário.Como uma primeira aproximação, consideremos por ora que, no que tange ao barateamento dos elementos do capital constante, não é possível uma afirmação taxativa sobre sua eficácia em conter a queda da taxa de lucro. Mais à frente, neste texto, retomaremos o assunto.

Em síntese, nossa proposta até aqui é a de que para se negar ou corroborar a hipótese de bloqueio da valorização do capital é mister uma investigação mais detida  sobre a queda (ou não) da taxa de lucro. Por mais que este conceito tenha sido largamente debatido na história do marxismo produzindo infindáveis controvérsias, achamos que ele é inescapável quando se trata de auferir a existência de uma possibilidade de uma crise estrutural e de um colapso do capitalismo. Ademais, outro motivo pelo qual a análise em termos da taxa de lucro tende a ser preferível do que a mais genérica constatação de que estaria produzindo-se a obsolescência do trabalho vivo na produção reside na possibilidade maior de inferências empíricas. É certo que não é simples aferir o conceito marxiano de taxa de lucro a partir dos dados estatísticos existentes acerca da economia. Entretanto, existem tentativas de se estimar as taxas de lucro no sentido marxiano a partir de certas mediações, seja para países importantes, ou mesmo para o mundo como um todo, cobrindo longos períodos que podem sem dúvida ilustrar fenômenos e tendências importantes.

Citamos como exemplo, o livro dos economistas franceses Duménil e Lévy, A Crise do Neoliberalismo, no qual fazem este exercício para a economia dos EUA, e também o texto “A Taxa de Lucro Mundial”, de Michael Roberts.Entretanto, tais estudos não parecem ser conclusivos acerca de uma queda substancial da taxa de lucro, nem para os EUA, nem para o mundo como um todo. Seria então o caso de dizer que o conjunto de considerações feitas até aqui estariam enviesadas, ou então que na melhor das hipóteses elas dizem respeito a um futuro muito longínquo que nossa atual geração não irá vivenciar?

3- Sobre dois fenômenos que podem reforçar a referida hipótese

Ainda achamos que há lenha para se queimar nesse debate. Iremos neste tópico realizar um dado percurso para tentarmos aprofundar a reflexão da tese sobre a crise do valor e limite absoluto do capital. Mais precisamente, iremos abordar dois fenômenos fundamentais do capitalismo contemporâneo e tentaremos pensá-los à luz do exposto mais acima. O primeiro deles é a crescente tendência à profusão de capital fictício das últimas décadas que se liga ao exaustivamente debatido processo de financeirização da  economia global. O segundo deles reside na constatação de que o novo padrão tecnológico da Terceira Revolução Industrial tem sido acompanhado por um incremento considerável das tentativas de se monopolizar e privatizar o conhecimento, a informação e os saberes. No que tange ao primeiro destes fenômenos, iremos aqui reproduzir em certa medida as análises que já têm sido realizadas pelos apoiadores de Krisis Exit!, ao mesmo tempo em que iremos avançar algumas observações nossas. Já no que diz respeito ao segundo, até onde sabemos, não existe uma elaboração da parte dos referidos autores sobre o tema, de forma que as análises que aqui faremos refletem considerações pessoais.

Afirmamos de antemão que realizaremos neste tópico um exercício não muito usual. Mesmo não tendo provado a vigência das teses dos autores alemães, vamos assumir sem mais nas linhas que se seguem que tais teses são de fato convincentes e verdadeiras. Assim, buscaremos mostrar que ambos os fenômenos mencionados no parágrafo acima (capital fictício e monopolização do conhecimento) podem ser em larga medida explicados a partir das proposições explicitadas nas contribuições de Kurz e cia. Argumentaremos no sentido de que os dois fenômenos constituem uma tentativa de “fuga para frente” diante da crise geral de valorização na produção. Ao mesmo tempo, sugeriremos que os dois fenômenos, apesar de serem eles mesmos produtos da crise do valor e da queda da taxa de lucro, poderiam estar ao menos no curto prazo engendrando uma atenuação provisória da queda de tal taxa. Com isto, estaríamos propondo uma possível solução para a contradição entre o alegado limite absoluto do capital e ausência de dados empíricos que corroborem a vigência de uma queda pronunciada da taxa de lucro.

a) Capital fictício e financeirização

A teoria de que por trás da fabulosa profusão de capital fictício que tem se desenvolvido num ritmo crescente desde os anos 1970 estaria uma crise da valorização real do capital na produção é uma das marcas da análise econômica tanto na revista Krisis como na Exit!. Para explicitar por que ela poderia ser convincente, procederemos aqui inicialmente pela lógica da exclusão, isto é, mencionando porque outras visões  acerca do tema são insuficientes. É comum dizer que a financeirização reflete uma espécie de vitória política e social do lado “rentista” em detrimento do lado “empreendedor” ou “produtivista” do capitalismo. Uma versão mais sofisticada dessa ideia aparece nos últimos trabalhos do famoso historiador econômico francês Fernand Braudel. Para este último, um olhar de longo prazo na história do capitalismo mostra que ao contrário do que muitos aventaram o lócus preferido do capital não seria a fábrica, a fazenda, as unidades produtivas em geral, mas sim espaços por assim dizer externos à produção como a articulação de rotas de comércio monopolistas, relações privilegiadas com o poder e a alta finança. Neste sentido, a volta da financeirização dos anos 1970 seria nada mais do que a afirmação de uma vocação quase ontológica do capital em submeter a dinâmica produtiva externamente e pelo alto, sem ter que se ver com as vicissitudes corriqueiras e desconfortáveis do “chão de fábrica”. Em suma, o capital nas finanças estaria de volta a sua “casa”. Todo o processo de desregulamentação e globalização dos mercados financeiros subjacente ao período recente seria visto dentro dessa ótica também como a coroação de tal vitória do “rentismo”. Os Estados Nacionais, cada vez mais reféns de tal fração capitalista hegemônica, não apenas acomodariam seu poder como ainda o estimulariam ao endossarem a desregulamentação e a abertura global dos mercados financeiros.

O problema com tal interpretação a nosso ver é que ela não explica por que justamente nos últimos 40 anos esse processo de “dominância financeira” cresce exponencialmente, e nem mesmo a hecatombe causada a partir de 2008 com a crise mundial parece apontar para qualquer caminho para questioná-la de forma substancial. Ao imputar o fenômeno da multiplicação do capital fictício simplesmente a um determinado poder consciente dos capitalistas ou de setores deles, tal explicação só pode se tornar subjetivista e tautológica. Subjetivista, pois em última instância trata-se de afirmar que a financeirização é forte porque os interesses pessoais (ou de classe) em torno dela são fortes. As origens e os meios de sustentação desses interesses são tomados como dados – como em Braudel, que diria que “sempre foi assim” – e se oblitera o processo objetivo que tem permitido a sua vigência tão longínqua, profunda e intensa. Justamente por isso trata-se de uma explicação também tautológica, pois se explica a força da financeirização pela sua própria força.

 Por outro lado, outra explicação para o fenômeno reside na ideia de que a queda da rentabilidade do capital ao fim da “era de ouro” nos anos 1970 teria incentivado um processo de “fuga para frente” diante das dificuldades de valorização na produção, estimulando a profusão de diferentes formas de valorização fictícia do capital. Entretanto, mesmo que esta explicação não seja subjetivista e tautológica como a anterior, ela tampouco parece ser satisfatória. Afinal, uma coisa é explicar a origem de um dado fenômeno. Outra coisa é e explicar sua perenidade, desenvolvimento e o caráter aparentemente insuperável de que se revestiu a financeirização recente. Guardam certa relação com esta tese por nós criticada as explicações cíclicas como a de Giovanni Arrighi, que mostram a existência no passado capitalista de recorrentes ciclos ligados a hegemonias geográficas de acumulação produtiva seguidos de ciclos de acumulação financeira. Tais explicações podem ter seus méritos em ilustrar o quadro histórico. Todavia, não nos aparece correto situar a etapa em que vivemos apenas em mais um destes momentos cíclicos – agora hegemonizado pelos EUA. Não apenas tal afir maçã o r e duzir ia a imp or t ância de apr e e nde r mos o co nju nt o de muda nças qualitativas em curso, isto é, o seu caráter sui generis, como também isso nos obrigaria a prever qual seria o próximo hegemón que lideraria um novo ciclo de acumulação produtiva. Neste caso, o erro de análise não seria subjetivismo ou tautologia, mas sim teleologia: estaríamos supondo um dado sentido pré-determinado para o curso da história a partir da mera repetição de eventos passados.9

Feito este percurso, voltemos então à nossa hipótese de queda estrutural da taxa de lucro como razão última da financeirização recente e da hipertrofia do capital fictício. Ela nos parece, sem dúvida, uma explicação bem mais convincente para o fenômeno que  estamos a considerar. É quase lugar comum em debates econômicos alguém citar uma estatística que mostra como o valor dos ativos financeiros tem crescido em escala imensamente maior do que a da produção ou do comércio mundiais. Se se aceita a ideia de que de um ponto vista sistêmico a valorização produtiva do capital tem encontrado dificuldades crescentes, dificuldades estas que não são passageiras mas sim permanentes e que tendem a se agravar no médio prazo, tais dados talvez deixem de causar o assombro costumeiro. Ademais, também com este ponto de vista, poder-se-ia abandonar a perspectiva subjetivista que explica a ascensão das finanças pela suposta força incontrolável de desejos individuais ou de grupos. Longe evidentemente de se negar a ocorrência de tais desejos e interesses, poderíamos agora inclusive melhor compreendê-los, inclusive para explicar fenômenos como a generalização do rentismo para amplas camadas populacionais através de fundos de pensão de assalariados, da valorização imobiliária etc. 1 0

Para além disso, é plausível também arguir que a própria explosão da valorização fictícia, a despeito dela mesma se originar no bojo da crise do valor, possa ser um elemento de impulso da própria valorização real. A expansão de crédito e as bolhas financeiras podem criar lucros fictícios que se expressam em ganhos de capital realizados via títulos, ações, imóveis etc. Nesse processo, pode-se criar uma dada situação de estímulo “artificial” que coloque em movimento capitais “reais” que de outra forma não se aventurariam pela produção. Esse processo, como se sabe, pode se realizar de diferentes maneiras e deu o tom da dinâmica macroeconômica em vários países até a crise de 2008, com especial destaque aos EUA. A profusão creditícia pode inflar o consumo e o investimento e com isso aumentar as expectativas de lucro e o engajamento de capitais na produção de nova mais-valia. A bolha imobiliária ao inflar o preço dos imóveis torna rentável uma maciça incorporação de trabalhadores e produção de valor  na construção civil. O mesmo vale para as corporações cujas ações têm seu valor majorado com a bolha vis à vis o custo de seu estoque “real” de capital e que com isso sentem-se estimuladas a investir. Ou ainda, o efeito riqueza que as famílias sentem a partir da inflação de seus patrimônios imobiliários estimula um aumento do consumo, o que por sua vez aumenta as vendas, a utilização da capacidade e os lucros das empresas etc.

Evidentemente, tal processo não pode indefinidamente substituir o que seria um processo “normal” de acumulação produtiva de capital. Daí o fato de que – diante da débâcle estrutural do valor – as crises econômicas tenham se tornado cada vez mais recorrentes a partir dos anos 1970, sendo a crise recente sua manifestação mais substantiva. Ademais, há outra ilação possível, talvez espantosa para muitos, das questões aqui levantadas. Como se sabe, o crescimento da produção mundial dos anos 1970 para cá tem sido muito menor do que em outros períodos anteriores da história do capitalismo. Entretanto, ao contrário do que é comum afirmar, a financeirização da economia não teria sido o freio da expansão do PIB mundial, mas ao contrário, teria sido justamente responsável por evitar que tais resultados pífios fossem ainda piores.

b) A luta pela monopolização do conhecimento

Antes de situarmos a temática deste tópico com o sentido geral de nosso texto, façamos uma breve digressão. Como é largamente sabido, desde fins do século XIX o capitalismo é marcado pela existência de monopólios/oligopólios que realizam práticas restritivas para sustentar preços acima dos “competitivos”, criar barreiras à entrada e proteger seus mercados. Mas a monopolização é per se totalmente estéril do ponto de vista da criação de mais valor. Ao contrário, as taxas de lucro monopolistas baseiam-se via de regra na obtenção de sobrelucros que são obtidos com a apropriação de mais- valia dos demais setores não monopolizados. É esta transferência de valor que está por trás da existência de taxas de lucro substancialmente maiores em determinadas empresas e setores econômicos vis-à-vis aos demais. Impedir a equalização das taxas de lucros, seja por dispositivos jurídicos e políticos, ou por uma produtividade maior  enquanto fruto de técnicas não passíveis de serem obtidas economicamente por outros capitais é a essência do monopólio moderno.

Tal dinâmica, à luz da chamada Terceira Revolução Industrial, deve ser lida tendo-se em vista o desenvolvimento de uma efetiva mudança de qualidade. Tal mudança residiria no fato de que agora o poder de monopólio estaria de forma muito mais conspícua consubstanciado no domínio restritivo de conhecimentos, informações, processos e mesmo marcas de produtos. A possibilidade diferenciada de se acumular amplas quantidades de capital fixo que em períodos mais antigos impuseram ganhos monopolistas para certos capitalistas em detrimento de outros, podem e devem ainda jogar o seu papel, mas no caso eles seriam apenas a continuidade de um processo histórico de concentração e centralização de capitais. A dimensão efetivamente nova seria a do chamado “capitalismo cognitivo” em que uma nova elevação do padrão científico-tecnológico radicalizaria a obsolescência do trabalho vivo na produção de riqueza no sentido do “Intelecto Geral” preconizado por Marx. E para que se tenha em vista a profundidade de tal mudança de qualidade, é preciso reter por um momento o sentido do conceito de “Intelecto Geral”. O conhecimento como “fator de produção” pela sua própria natureza tem uma tendência a se socializar quase que instantaneamente e de forma muito mais abrangente do que, por exemplo, a pesada linha de produção clássica do fordismo. O desenvolvimento de um software operacional da Microsoft certamente envolve em si trabalho vivo – qualificado e não qualificado– para a sua produção. Entretanto, uma vez desenvolvido, potencialmente o software é passível de utilização gratuita e instantânea por todos aqueles que tem um microcomputador e só não o é na prática por conta dos mecanismos jurídicos de propriedade intelectual que exigem o seu pagamento. Em outras palavras, se há trabalho(valor) para a produção originária deste bem, não há qualquer trabalho(valor) na sua reprodução.1 1

Feito este percurso, é possível tentar estabelecer uma ponte entre o vertiginoso crescimento de patentes e artifícios de proteção de conhecimentos, técnicas e informações que marca o capitalismo contemporâneo com a problemática da crise do valor. Assim como buscamos sugerir mais acima que a multiplicação de capital fictício não pode ser atribuída simplesmente a uma “vitória política do rentismo”, tampouco a obsessão com a propriedade intelectual e com diferentes formas de privatização e proteção do conhecimento pode ter a ver apenas com uma vontade consciente e subjetiva mais pronunciada de patenteamento da parte das corporações e seus líderes. Ora, nos parece claro que o motor objetivo de tal obsessão é o fato de que o próprio caráter de “Intelecto Geral” das técnicas exige sua imediata monopolização, posto que do contrário a sua generalização quase que imediata e sem custos de reprodução inviabilizaria o empreendimento de um ponto de vista capitalista.

Se as patentes e demais formas de defesa da propriedade intelectual sempre fizeram parte de certa forma da história do capitalismo como artifícios de restrição da concorrência, agora elas se tornam questão de vida ou morte para muitos dos setores mais importantes e dinâmicos da economia. Do ponto de vista imediato do capital individual tais formas de restrição à concorrência devem ser concebidas como decisões lógicas e racionais. Seja pela exclusividade total do uso de tais técnicas e know-how, seja pela cobrança de d inhe iro de outros usuários por sua utilizaçã o, ou então por mecanismos tácitos12 que vedem a sua difusão, busca-se assim se cristalizar a posse exclusiva de tais vantagens econômicas. E com isso também radicaliza-se a transição contínua dos lucros convencionais oriundos da produção e reprodução de mercadorias através da mobilização da força de trabalho para rendas de monopólio que permitem uma apropriaç ão de v alor em prop orções absurdamente superiores ao v alor acrescentado (em termos de quantidade de trabalho vivo) por tais capitais à massa global de valor.1 3

A obsolescência do trabalho vivo implícita em tais mudanças ganha contornos ainda mais críticos se pensarmos por exemplo no próprio caráter de que se reveste a substituição de trabalho vivo por trabalho morto que tende a assumir a mercadoria “conhecimento”. Mesmo quando as técnicas da indústria pesada tipicamente “fordistas” já implicavam em substituição de trabalho por máquinas, a produção e a reprodução das referidas máquinas ainda implicavam o empenho de certa dose de trabalho vivo para a sua confecção, acrescentando assim valor ao sistema econômico. Já no caso da substituição de trabalho vivo pelo insumo “conhecimento”, abstraindo-se o trabalho necessário para sua obtenção primária, a sua multiplicação não envolve qualquer acréscimo de valor.

Em suma, a sugestão aqui seria a seguinte. Em fases anteriores do capitalismo, mesmo que o padrão técnico estabelecido já acarretasse altas composições orgânicas de capital nos mais importantes ramos de produção, ele ainda env olv ia montantes substanciais de trabalho vivo na sua dinâmica e no seu processo de acumulação. Com a chamada Terceira Revolução Industrial e seus desdobramentos, não apenas se radicaliza a substituição de trabalho vivo por máquinas etc. como também a própria acumulação, ao menos no que diz respeito ao bem “conhecimento”, se daria em bases distintas. Em vez de, como em períodos anteriores, a própria acumulação implicar na ampliação da massa global de valor à medida que acarretava a produção de novas máquinas, equipamentos etc., agora a acumulação de “conhecimento” se reveste de um caráter “once and for all”, isto é, torna-se um ativo cuja função econômica é promover a apropriação de rendas monopolistas que só podem ser auferidas a partir da drenagem do valor produzido em outros setores/empresas. A própria ideia de rotação do capital, nesses termos, deve ser repensada, posto que no caso em tela não se trataria da reprodução dos elementos materiais do capital constante e variável. Mesmo que se considere aqui a necessidade de se atualizar de tempo em tempo o conhecimento acumulado – o que seria o análogo a “repor o capital fixo depreciado” de padrões mais antigos de capitalismo – não obstante o fato de que isso implique sem dúvida a mobilização de certa dose de “trabalho vivo” qualificado, trata-se muito mais de aperfeiçoamentos a partir de um “fundo” social e global de informação e ciência. Portanto, mesmo no caso das melhorias e renovações no estoque de saberes à disposição do capital não se pode vislumbrar aí uma dinâmica pautada na produção de mais- trabalho. Se o que dizemos até agora é correto, estaria então posta a radicalização explícita da contradição referida acima entre trabalho vivo como “base miserável” para a produção de riqueza material e o trabalho vivo como condição para o prosseguimento da valorização do capital. No centro desta contradição está ascensão do “Intelecto Geral” como ator preferencial da produção. Tanto porque de forma “estática” com ele se aprofunda a subida da composição orgânica do capital, como também de forma “dinâmica” e prospectiva elimina o trabalho vivo do processo de acumulação e da continuidade da valorização do capital.

O que foi dito acima pode facilmente servir para retomarmos a questão da queda da tax a de lu cro. Mencionamos mais acima a possibilidade de que a produtividade elevada da Terceira Revolução Industrial consiga contrarrestar a tendência à queda da taxa de lucro via barateamento dos elementos unitários de capital constante, o que poderia conter ou mesmo em tese reverter a subida da composição orgânica do capital. De um lado, é verdade que se uma máquina convencional pode ser produzida de forma mais barata, ao ser usada como insumo ela reduz custos e aumenta os lucros dos que a compram. Só que isso não é o fim de toda a história, pois do ponto de vista do capital social se o padrão produtivo tornar imperativo a apropriação de doses crescentes do “Intelecto Geral” ele contribuirá para o aniquilamento das fontes de mais- valia e lucratividade mediante uma nova subida exponencial da composição orgânica. Ou seja, se o conhecimento imaterial tende a suplantar as próprias máquinas “físicas” no evolver da própria racionalidade da produção, o mais-trabalho obtido hoje com o barateamento de tais máquinas será anulado pelo não-trabalho que tende a se impor como paradigma. Em outras palavras, o barateamento dos elementos unitários do capital constante, por mais significativo que seja, não pode compensar uma situação em que potencialmente o trabalho vivo é praticamente excluído do processo produtivo e que por definição tende a levar ao infinito a composição orgânica do capital. Assim, a taxa de lucro g loba l, com o desenv olv imento d os processos em curso, s ó poderá tendencialmente cair, e, no limite, zerar.

Destarte, numa sociedade mercantil, ainda governada pelo valor, a crescente busca de monopólio da ciência produtiva apareceria como algo totalmente compreensível. Não se pode interpretar tal fenômeno apenas como fruto de um eterno desejo do capital de deslocar seus rivais e de obter taxas de lucros mais altas e protegidas, pois com isso se perderia de foco a mudança de qualidade em curso. 

Neste preciso sentido, a emergência do “Intelecto Geral” como elemento decisivo para produção de valores de uso poderia então ser interpretada como causa da crise geral da forma valor, assim como o afã por sua privatização e controle monopolista uma das consequências de tal crise. Trata-se aqui, do ponto de vista dos capitais individuais, da defesa do seu quinhão “particular” de valor diante da iminência de dada estrutura que nega globalmente o valor a partir de seu próprio desenvolvimento inconsciente e fetichista.1 4 Ou, dito de outra forma, este seria mais um capítulo (final?) da contradição entre forças produtiv as e relações de prod uçã o. De um lad o forças produtiv as socializadas num grau extremo, de outro, relações de produção que asseguram a apropriação privada através de mecanismos cada vez menos puramente “econômicos”, escancarando-se, também aqui, outra faceta da crise terminal do valor.

Todavia, este mesmo processo de privatização do conhecimento socialmente produzido, justamente por retardar a generalização do “intelecto geral” como elemento predominante da produçã o, poderia também estar contendo uma queda mais pronunciada da taxa de lucro. Na medida em que muitos capitais menos afortunados ainda estariam privados do usufruto do conjunto de conhecimento socialmente produzidos, a substituição de técnicas seria mais lenta e os efeitos referidos sobre a composição orgânica ainda não seriam sentidos na escala em que potencialmente se dariam caso a monopolização do conhecimento não estivesse vigorando. Nesse sentido, assim como a financeirização e o capital fictício podem se constituir numa atenuação provisória diante de dos limites absolutos do capital, o mesmo pode ser dito da monopolização do conhecimento. Também este poderia ser um fator que ajuda a explicar por que do ponto de vista empírico não há indícios de queda pronunciada da lucrativ idade.

No entanto, tal “alívio” do ponto de vista da valorização do capital não pode por certo ter vida muito longa. Afinal, aqueles capitais que ainda geram maiores doses de valor via trabalho vivo, mas cuja apropriação se dá cada vez mais por capitais que monopolizam o conhecimento, necessariamente terão de buscar acompanhar os novos padrões em função da pressão competitiva ou tenderão a perecer. Num ou noutro caso, o desdobramento será aprofundar a crise do valor e a queda global da taxa de lucro. Em síntese, o processo aqui descrito pode no máximo consistir numa sobrevida.

4- Considerações finais

Como frisamos no início, não esperamos ter provado nada com este breve texto e conscientemente o produzimos com intuito de provocar o debate. Buscamos apenas explicitar em que medida ao se assumir como verdadeiras as ideias de Kurz e cia. é possív el v islumbrarmos diferentes formas de interpretar fenômenos cruc iais d o capitalismo contemporâneo. Isso não nos impede, por outro lado, de nessas linhas finais considerar muito sucintamente certas consequências que a veracidade das hipóteses e s m iu ç a d a s m a is a c im a p o d e r ia a c a r r e t a r p a r a a r e f lex ã o c r ít ic a d os r u m os d a sociedade.

Em primeiro lugar, estaríamos diante de um desenvolvimento substancialmente maior da irracionalidade no processo de reprodução da sociabilidade capitalista, em que aquilo que aparece como sendo um generalizado parasitismo – financeiro e tecnológico – em realidade consiste num sopro de vida na cambaleante dinâmica do sistema econômico como um todo. Em segundo lugar, em paralelo à crise do valor, é forçoso constatar a crise do trabalho enquanto tal. Daí decorre que uma profícua transformação social não poderá mais ser pensada nos termos de uma emancipação do trabalho enquanto tal, mas sim de uma emancipação contra o trabalho. A utilização da disputa pelo excedente produzido pelo trabalho como norte principal da luta política não pode ter qualquer futuro se é o próprio trabalho que se torna uma “base miserável” para a reprodução da vida humana. A reapropriação consciente, racional e liberta da forma valor pela humanidade do Intelecto Geral que foi produzido na história de forma alienada e inconsciente seria a tarefa da ordem do dia.

Daniel Feldeman 

Professor do Curso de Economia da UNIFESP.


Notas
MARX, Karl. Elementos fundamentales para la crítica de la economia política (Grundrisse) – 1857/1858. 15a ed. México: Siglo Veintiuno Editores, 1987, v. 2, p. 228-229.
Sobre uma boa discussão do conceito de intelecto geral, ver o artigo do professor Eleutério Prado intitulado “As interpretações da noção de “intelecto geral” dos Grundrisse” (Crítica Marxista, no 34, 2012).
 Ao longo de nossa exposição nos referiremos mais a Robert Kurz do que aos outros autores tanto da Exit! e da Krisis, pelo simples fato de que sua obra é mais conhecida por nós do que a dos outros.
 A taxa de lucro para um dado período para Marx é expressa na fórmula m/c+v, sendo m (mais-valia), c (capital constante) e v (capital variável). Uma notação útil da mesma fórmula se obtém quando dividimos tanto numerador como denominador por v, obtendo-se m/v: c/v+1, o que permite correlacionar diretamente a taxa de lucro a variações na taxa de mais-valia (m/v) e composição orgânica do capital (c/v).
Do que pudemos apreender em nossas leituras, Robert Kurz poucas vezes utiliza o conceito de taxa de lucro em seus textos. Uma importante exceção é o capítulo 16 de seu livro “Dinheiro sem Valor” onde ele avança a ideia de que no capitalismo contemporâneo estaria ocorrendo não apenas uma queda substancial da taxa de lucro, como também a ideia de que a própria massa absoluta de mais-valia já estaria declinando de forma pronunciada. De toda forma, por motivos que nos tomariam muito tempo aqui descrever, pensamos que a justificativa dada por Kurz para a queda da taxa de lucro carece de rigor e consistência. Justamente um dos motivos de escrevermos este texto é o de tentar melhor refletir a hipótese de crise absoluta da valorização do capital nos apoiando na análise da taxa de lucro marxiana.
Cf. capítulo 16 deste livro.
 Cf. apêndice do Cap. 27 da referida obra de Rosdolsky.

Este texto pode ser acessado no site do professor Eleutério Prado, no link

https://eleuterioprado.files.wordpress.com/2012/07/taxa-de-lucro-mundial.pdf

 Para Arrighi, seria justamente a China a cumprir o requisito de liderar este novo ciclo. Aqui cabe um parêntese. Evidentemente é fundamental incorporar o fenômeno chinês em qualquer avaliação sobre os rumos da dinâmica global do capitalismo. No bojo do assunto que estamos debatendo, caberia por certo discutir melhor se a incorporação da China como nova “fronteira” do capitalismo não estaria provendo o capital de um novo e gigantesco manancial de trabalho vivo que poderia estar por trás da ausência empírica de sufocamento as taxas de lucro. Todavia – seguindo-se aqui como já dito a perspectiva de crise do valor – outra coisa muito distinta seria afirmar que no século XXI a China poderia liderar um pronunciado ciclo global de valorização produtiva do capital tal qual os EUA fizeram no século XX e a Inglaterra no século XIX. Sinteticamente: o milagre chinês poderia talvez se constituir num fôlego a mais para a produção de mais valia, mas a China não pode também estar imune aos processos de racionalização que tornam o trabalho obsoleto no médio prazo. Ainda mais quando temos em vista que a inserção global da China se dá através em parte considerável pela mediação de grandes empresas multinacionais.
10 Não se trata aqui, por certo, de sugerir que tal processo implique numa democratização da distribuição de renda e riqueza a partir do aumento da importância da ampliação do número de pessoas que tem acesso a formas de riqueza patrimonial e financeira. O contrário disso seria muito mais próximo da verdade, posto que tal contexto tende a reforçar os direitos acumulados da riqueza passada sobre a renda presente em detrimento dos rendimentos do trabalho. Esta seria a contribuição relevante do livro de Piketty, muito mais do que suas propostas de taxação da riqueza que nos parecem utópicas dentro da ordem econômica e política vigente. E vale também, por fim, nos perguntarmos sobre o seguinte dilema: se é a própria sociedade do trabalho e o valor como tal que se encontram em crise crônica, qual seria a efetividade de se colocar como tarefa central a alteração distributiva em favor dos assalariados?
 11 O texto da professora Leda Paulani, “Acumulação e Rentismo: resgatando a teoria da renda de Marx para pensaro capitalismo contemporâneo” (cf. bibliografia), aborda bem esta questão a nosso ver.
12 Nos referimos aqui ao fato largamente estudado pela literatura neo-schumpeteriana de que grande parte do know-how obtido pelas principais empresas se dá de forma silenciosa e oculta, fator que naturalmente veda a sua difusão para as demais empresas. Justamente por isso, este seria mais um importante reforço ao poder de monopólio do conhecimento para muitos capitais.
13 Um caso emblemático deste processo é o caso do aplicativo Whatsapp. A empresa responsável pelo aplicativo foi comprada recentemente pelo Facebook pela bagatela de US$ 21,8 bilhões, tendo apenas 14 funcionários! Certamente, a renda prospectiva que se espera ter a partir de tal aquisição, só pode ser – em termos marxianos – a de uma brutal extração de valor da economia global em virtude do monopólio de uso do aplicativo que se estabelece.
 14 É sintomático que mesmo alguns economistas que estão muito longe de partilharem uma visão afinada com o aporte marxiano cheguem a conclusões semelhantes, mesmo que por outras vias. O conceito de “custo marginal zero”, que é o fulcro da análise recente de economistas como Jeremy Rifkin, guarda relação com a problemática aqui exposta. Como as novas tecnologias já estariam produzindo em determinados ramos econômicos produtos em que podem ser multiplicados em quantidades enormes sem custos adicionais- justamente o “custo marginal zero” – haveria aí o fim de qualquer escassez relativa. Mas justamente o problema é que isso significaria também no limite zerar os preços e por tabela também o “lucro normal” que numa perspectiva neoclássica é um dos componentes dos custos. Numa entrevista recente de Rifkin, ele faz referência a um comentário do ex -secretário do Tesouro dos EUA Lawrence Summers sobre o assunto. Perguntado ainda em 2001 se a Internet teria o mesmo impacto que a eletrificação sobre a economia mundial, Summers respondeu “Olha, nós teremos um problema aqui. Em breve seremos capazes de produzir a um custo marginal zero e isso vai tornar virtualmente impossível a obtenção de lucros”. Rifkin menciona ainda, em tom de desaprovação, a solução dada por Summers ao dilema “Então o que ele propôs? Ele propôs monopólios, imagine isso! Esta era, na sua opinião a única maneira de superar o limite do custo marginal zero ”. Rifkin, ao longo da entrevista, afirma acreditar que é possível conciliar a continuidade do capitalismo com a nova perspectiva tecnológica sem o uso de monopólios. De nossa parte, o comentário de Summers nos parece bem mais realista. A entrevista de Rifkin pode ser lida em http://www.theeuropean- magazine.com/jeremy -rifkin–2/9652-implications-of-the-third-industrial-revolution
 Referências bibliográficas
DUMÉNIL, G. e LÉVY, D. A crise do neoliberalismo. São Paulo: Boitempo, 2014.
KURZ, R.

KURZ, R. 
Dinheiro sem valor. (Linhas gerais para uma transformação da crítica da economia política). Lisboa: Antígona, 2014.
MARX, K. Elementos fundamentales para la crít ica de la economia política
(Grundrisse) 1857/1858. 15a ed. México: Siglo Veintiuno Editores, 1987, v. 2. PAULANI, L. Acumulação e Rentismo: resgatando a teoria da renda de Marx para pensar o capitalismo contemporâneo.
In:
http://www.sep.org.br/artigos/downloa d?id=201 4&title=Acumu la%C3%A7%C3%A3 o+ e+Rentismo%3A+resgatando+a+teoria +da+renda+de+Marx+para+pensar+o+capitalis mo+c ontemp or%C3%A2neo
PRADO, E. As interpretações da noção de ‘intelecto geral’ dos Grundrisse. Crítica Marxista, no 34, 2012. In: http://www.ifch.u nicamp.br/criticam arx ista/arquiv os_biblioteca/comentario46asinter pretacoes.pdf
__________. A grande desvalorização. Parte I-III. In: https://eleuterioprado.wordpress.com/201 4/1 2/01 /a- grande- desv alorizacao/
ROBERTS, M. A taxa de lucro mundial.
In: https://eleuterioprado.files.wordpress.com/2012/07/taxa-de-lucro-mundial.pdf
 RIFKIN, J. Implications of the third industrial revolution. In: http://www.theeuropean-magazine.com/jeremy-rifkin–2/9652-implications-of-the- third- industrial- rev olution
ROSDOLSKY, R.. Gênese e estrutura de O capital de Karl Marx. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001. 

 

Marcello Cerqueira critica as prisões dos ativistas

É evidente que as leis sofrem interpretações, mas elas não podem fugir a parâmetros mínimos de afinidades com que está em debate, e é por isto que existem os juristas e os estudiosos no campo do Direito Constitucional , onde certamente o nome do Marcello Cerqueira encontra destaque .

Sua opinião é um contra ponto às práticas anti democráticas dos agentes em questão, chocando- se claramente com a opinião do jornal, que insiste em querer passar a ideia de que o processo e as prisões foram feitos dentro da lei , não ferindo a ordem democrática que eles dizem defender .

Ao se manifestar o jurista presta prestimoso papel a ordem democrática, pois se o Estado quer garantir a ordem pública, nunca deve usar sua força fora da lei , respeitando sempre os direitos constitucionais do cidadão , que tem o direito de discordar e protestar .

Não se trata aqui de se defender as práticas ilegais de manifestantes, mas se estas existiram devem ser autuadas dentro dos preceitos legais , abundantes na jurisprudência .

Na sua opinião o jornal não faz menção a situação dos defensores dos acusados que não tiveram acesso as acusações exaradas no processo , embora a opinião pública fosse bombardeada nos meios de comunicação com as gravações obtidas em escutas que atingiram os próprios advogados , prática claramente ilegal.

Também não faz menção ao triste episódio vivido pelos acusados em jogar o rojão no cinegrafista que veio a falecer, onde sua repórter teve acesso privilegiado a eles , na época foragidos, numa clara promiscuidade com um polemico advogado, que obstruiu o direito do acusado de não criar provas contra si , agindo mais como um agente de acusação do que como um advogado de defesa .

Mas , não é no campo da prática anti – ética do jornal que o artigo discorre.

Tal questão está presente na própria opinião emitida pela redação , eivada de mentiras que saltam aos olhos de quem tem um mínimo de informações dos fatos . São afirmações que colocam mais para a baixo a já tão abalada credibilidade do jornal.

Na verdade , o texto do jurista é contundente ao apontar as falhas técnicas do processo e as atitudes arbitrárias do Ministério Público e do Delegado que conduz as investigações, além de ressaltar as atitudes fora dos parâmetros legais do juiz que decretou as prisões .

Trata-se também de chamar a ordem o próprio governador , omisso em todo o processo de afronta a ordem democrática por parte de seus subordinados, que deveriam ser guardiões e não violadores da Constituição que juraram defender, que pode pagar um alto preço por estes atos, assim como pagou o se predecessor .

O título “Recado ao Tempo ” expressa com propriedade as advertências de quem sabe do que está falando .

Serra da Mantiqueira, julho de 2014
Arlindenor Pedro

Recado ao Tempo



Copiando o Código Penal de Rocco (1930, na ascensão do fascismo na Itália), os autores das leis de segurança nacional da ditadura militar ampliaram os tipos penais: a conspiração, que no direito brasileiro ganharia o nome de “formação de quadrilha ou bando”, era o crime que se praticava contra o Estado, então reduzido a miserável ditadura. O que vem causando perplexidade e mal-estar é ver que tais conceitos fascistas estão, em parte, assimilados em pleno Estado de Direito, na vigência da mais avançada Constituição do mundo no que diz respeito aos direitos fundamentais. As “acusações” abusam do tipo penal “crime de quadrilha” para indiciar ou denunciar cidadãos quando não encontram para eles um efetivo tipo penal descrito nas leis.

O crime de quadrilha, abrigado no art. 288 do Código Penal na parte que trata dos “Crimes contra a paz pública”, pune a associação “de mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes”. Esse tipo penal é uma exceção à dogmática do Direito Penal se admite que um “ato preparatório” constitui-se em crime autônomo. Com tristeza, tenho verificado que, à falta de uma acusação específica, a polícia e o MP têm indiciado ou denunciado cidadãos que rigorosamente não praticaram concretamente qualquer delito punível. O trabalho dos advogados é tolhido pelo arbítrio da “justiça”. Juízes decidem por induções e presunções e contaminam suas decisões por premissas “morais” e preconceituosas; a hipótese substitui os fatos e impede a ampla defesa.

Nesses dias, juiz de Direito decreta a prisão provisória por “eventos futuros que poderiam cometer cidadãos brasileiros” com base em “provas” sabidamente “fabricadas” pela polícia. A polícia que matou e escondeu o corpo do Amarildo e acaba de matar crianças, entre tantas e tantas barbaridades que sempre comete. Pois bem: desembargador anula o decreto de prisão provisória e o juiz volta, com as mesmas “provas” (desconsideradas pela instância superior), e decreta a prisão preventiva dos mesmos acusados, desafiando o Tribunal. Com isso, as “autoridades”, para além de ferir direitos da cidadania, criam ambiente hostil ao governo do estado, ambiente que antes vitimou o então governador quando a polícia cruzou os braços incentivando a condenável violência de manifestantes mascarados, e agora atinge diretamente o postulante à reeleição, nominalmente chefe das polícias civil e militar, que talvez fujam ao seu controle.

Se este alerta que faço, no curso de uma cinquentenária militância na advocacia, objetiva defender princípios constitucionais que garantam todos os cidadãos, especialmente as vítimas da polícia, de promoções iníquas do Ministério Público estadual e decisões judiciais equivocadas, ele deverá alcançar o governador/candidato, ele também vítima dos reiterados desacertos e crimes da polícia que deveria comandar.

Futebol – apenas para quem pode pagar ! – Arlindenor Pedro

Com a celebração da Copa patrocinada pela FIFA no Brasil , o país sentiu na carne o que vem a ser o controle total pelo capital de um esporte que em nosso país tem um profundo sentimento popular. Não que este controle não existisse até então , mas com a Copa nas nossas fronteiras tivemos que nos adaptar ao chamado padrão FIFA , que nada mais é que a administração do evento em todos os seus detalhes . Usando um axioma popular : ” está tudo dominado “.

Para que o espetáculo se desenvolvesse dentro da ilusão de um mundo clean , necessário aos olhos dos milhões de pessoas que acompanharão o evento em todo o mundo, pela TV dominada pelo cartel que controla o futebol, tudo que estivesse fora dos padrões foi afastado: populações foram removidas, vias de acesso aos eventos foram abertas, aeroportos foram reformados, hotéis foram reformulados, estádios adaptados as transmissões televisivas foram construídos , e , mesmos leis , como por exemplo a de não se vender bebidas alcoólicas nos estádios , foram removidas. Criaram-se, inclusive , leis exclusivas, para permitir o total controle pela FIFA do espetáculo , que nesses dias de Copa pairou acima das próprias leis do país. Para isto o Brasil se vergou ao evento, contando com o conluio de políticos, e pelo governo , que se adaptou a todas as exigências dos organizadores estrangeiros.

Para se proteger das vozes descontentes com os gastos astronômicos da Copa, e pela evidente rapinagem de políticos, empresários e oportunistas que se apropriaram de fortunas dos cofres públicos na exploração dos eventos, foi montado um esquema de segurança sem precedentes , onde milhões foram gastos no reequipamento das forças policiais e na movimentação das Forças Armadas , que ficaram prontas para intervenções contra o seu próprio povo, caso os protestos chegassem a embasar o brilho das imagens .

Para justificar os gastos , incompreensíveis para muitos , em um país carente de um sistema razoável de saúde e de educação , entre outras necessidades , o governo , porta-voz dos cartolas de futebol , acena com o argumento de que o principal ganho da Copa será o legado deixado após a sua conclusão com as obras executadas.

Mas , salta aos olhos , que o principal legado será o afastamento definitivo das classes mais populares dos grandes estádios de futebol , pois pela sua estrutura , que exige altos custos para a sua manutenção , só poderá ser freqüentada por quem tem dinheiro para pagar os altos preços dos ingressos . Desta forma, aos aficionados do futebol, sem dinheiro para tal diversão , restará apenas torcer pela televisão , deixando de ser protagonista direto do espetáculo , virando meramente um espectador.

Em um tipo de sociedade que se vai construindo, onde cada vez menos somos protagonistas e cada vez mais espectadores do espetáculo da vida que nos é impingida , as argumentações de que as recentes vaias e xingamentos sofridas nos estádios pela presidente do país ( vaias que surgiram evidentemente dentro de uma lógica eleitoral ) se deram porque ali estavam as elites e não o povo , que não teve acesso aos eventos , soou, no mínimo , como pura hipocrisia .

Ora, não foi o próprio governo quem afastou dos estádios o povo, que até então, mesmo com dificuldades podia ter no futebol um espetáculo onde podia participar ? Se ele queria o povo nos estádios , pelo menos no momento da abertura da Copa, por que não distribuiu ingressos para as classes populares? Só de convites , cerca de 20.000 foram distribuídos pelo próprio Governo .

A constatação de que só as elites estava presente nos estádios realmente procede.E esta será a imagem que prevalecerá daqui por diante . Imagem criada pelo próprio governo quando se rendeu a lógica de que o futebol é um negócio , altamente rentável , para quem pode pagar. Por isso as chamadas “gerais ” foram abolidas destes estádios e as imagens transmitidas pelas tvs só mostrarão as classes mais abastadas , únicas que terão acesso as partidas de futebol.

Nesse sentido , torna-se perfeitamente compreensível o argumento utilizado pelo presidente da FIFA, Joseph Blatter, quando respondeu aos integrantes da oposição que queriam que ele se afastasse da entidade: ” Por que devo sair ? A FIFA nunca teve tanto dinheiro nos seus cofres !” . E é claro que com esta cândida argumentação foi imediatamente reeleito.

Serra da Mantiqueira, junho de 2014
Arlindenor Pedro

A noite em que lembramos o que restou da ditadura

No Rio, grupo Tortura Nunca Mais relembra, entre outros, Amarildo e os guaranis, para frisar que violência contra pobres e desigualdade brutal persistem

Publicado em Outras Palavras

O dia 1º de abril deste ano foi um dia singular. Em todos o país, inúmeras manifestações, organizadas por um vasto leque de entidades, marcaram os cinquenta anos da deposição do presidente eleito João Goulart em 1964. Foram palestras, debates, atos culturais e políticos, marchas e comícios em praças públicas, mostrando de forma incisiva e criativa que a sociedade brasileira não quer esquecer o que ocorreu naquela data, quando o país mergulhou na mais sangrenta ditadura da sua história.

Este clima de comoção havia se iniciado dias antes, nas redes sociais. Internautas substituíram seus avatares por figuras de desaparecidos e mortos pela ditadura. Filhos fizeram homenagens a seus pais militantes. Pais choraram seus filhos torturados. Textos, vídeos e músicas relembraram os dias de chumbo do regime militar e trouxeram à tona revelações e novas formas de enfoque sobre a ditadura. O ambiente manteve-se durante dias. Espraiou-se para discursos nos Legislativos, textos na mídia, aulas e seminários nas universidades e escolas.

Foi talvez a maior comemoração de uma data, na história recente do Brasil, que não ficou restrita a ações de marketing ou de máquinas governamentais. Atingiu grandes parcelas de uma juventude que pouco conhecia desses fatos históricos . Embora não fossem vistas grandes multidões, a diversificação dos atos políticos e a utilização das redes sociais deram dimensão nacional à data.

Dos diversos enfoques dados ao cinquentenário do golpe, destaca-se a necessidade de rever a Lei da Anistia Política e sanar a chaga aberta, até hoje, pela existência de desaparecidos políticos que não puderam ser pranteados por seus familiares. Entre que abordaram este aspecto, um dos mais concorridos foi o do Grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro, realizado nas dependências da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Centro Acadêmico Cândido de Oliveira .

Talvez pelo fato de realizar-se em um prédio histórico, palco de importantes acontecimentos na República, e particularmente por ter ali ocorrido, há cinquenta anos, um episódio marcante de resistência ao golpe, o evento revestiu-se de enorme significado.

Trouxe à memória de todos o ocorrido na tarde de 1 de abril, quando o então capitão Ivan Proença, que na época comandava uma coluna de tanques que guardava a Casa da Moeda, conseguiu, em um gesto heróico retirar estudantes e professores da faculdade, que se encontrava cercada por forças insurgentes, levando-os em segurança para fora da área conflagrada (o centro da cidade) e livrando- os da prisão que era certa.Tal ato, inclusive, levou-o a ser cassado mais tarde e expulso do exército.

Mas, o que saltou ao olhos no evento organizado pelo Tortura Nunca Mais – que promove, todos os anos, a entrega de um medalha àqueles que se destacam na luta social, foi o caráter libertário e de cobrança ao Estado por suas investidas contra os movimentos sociais.

Longe de se transformar em uma solenidade nostálgica e fora da realidade contemporânea, o ato realçou o momento em que vivemos, com o povo nas ruas reclamando por melhores condições de vida e o caráter opressor do Estado com sua política de criminização dos movimentos sociais.

Dentre os momentos marcantes desta solenidade, onde foi homenageada a família do ex-presidente João Goulart, comoveram a todos o depoimento dos familiares do desaparecido Amarildo (cujo corpo até hoje não foi encontrado) e da mãe do morador de rua Rafael Vieira, condenado por carregar frasco de Pinho Sol em manifestação, em sentença draconiana e política da Justiça – que procurou convertê-lo em “exemplo”, para desestimular os movimentos cotestatórios.

Homenagendo tanto figuras como Julio Assange, do Wikileaks, como a memória de guerrilheiros urbanos e do Araguaia, políticos militantes, índios guaranis e ativistas do MST, o Tortura Nunca Mais prestou, naquela noite, um importante serviço aos movimentos sociais do país. Foi muito além das solenidades oficiais promovidas pelo Estado Brasileiro, deixando claro que, embora os ditadures tenha sido afastada do poder, após cinquenta anos ainda permanecem as sequelas do regime, mormente a violência contra as maiorias e as desigualdades sociais.

Embora , possamos tristemente ouvir figuras públicas – inclusive que tiveram papel no movimento de resistência contra da ditadura – tentando desqualificar a luta pelo total esclarecimento dos fatos ocorridos neste momento obscuro da vida nacional, a existência de movimentos como o Tortura Nunca Mais passa a ter um papel crucial como instrumento da manutenção da chama da liberdade do cidadão.

A ligação que faz entre luta empreendida contra a ditadura pelos ativistas da época e as lutas contemporâneas dos ativistas sociais, coloca este movimento (e outros semelhantes) na vanguarda dos movimentos sociais, dado o caráter político e libertário das suas atividades.

Arlindenor Pedro

Extrato da Crise do Estado Contemporâneo – Paulo Baía

 

Após o texto assista o vídeo de Erica Maradona, Travessia

Texto de Paulo Baía*

Formular uma teoria geral para a humanidade é um projeto intelectual constituinte da própria sociologia. Entre nossos exercícios mais consistentes podemos incluir a ousadia de se pronunciar sobre o porvir, pensando com a história (Schorske, 2000), ouvindo a voz do passado a partir do presente.
Como sociólogo, tenho na história uma fonte inesgotável de riquezas, um tesouro político, cultural e educacional. E é da experiência concreta da história, que se podem extrair lições para enfrentar o futuro envelhecido precocemente do século XXI.

De fato, valemo-nos de premissas culturais e ideológicas para elaborar quase que uma metateoria sobre o que virá, e normalmente traçamos roteiros de possibilidades presumidas. E é nas perspectivas teóricas e políticas dos erros cometidos no passado recente que observo apreensivo a euforia das análises prospectivas que apontam, com garantia e certa petulância, a formulação de que o século XXI alcançará uma plataforma política de compreensão, de civilidade e uma multidiversidade salutar e includente. Estas análises tendem a nos fazer acreditar que os avanços científicos e tecnológicos mundializados serão o fundamento de uma sociabilidade na qual o respeito às diferenças será a principal evidência, produzindo assim um cenário social onde as diferenças serão simétricas, ou seja, haverá igualdade na diversidade. Este é um sonho acalentado pelo humanismo desde o século XVII.

O futuro, o século XXI, consolida-se com muita rapidez, em um campo minado de múltiplas possibilidades tecnológicas, científicas, políticas e culturais, todas fundamentadas na intolerância ao “outro”. Na crença unicista de que é o indivíduo o agente central e único de sua própria transformação. E não falo aqui de um indivíduo Weberiano, que é coletivo e solidário.

A tradição das práticas políticas brasileiras, baseadas na clientela (Faoro, 1979), é geradora de dispersões e alicerça a edificação de um imaginário social mistificado, um espetáculo bufo, nebuloso e de enredo indefinido para os atores sociais (Goffman, 1985) que o vivem nas duas pontas da relação.

Diante de um cotidiano dominado pelo ócio, uma nova hierarquia de valores societais começa a ser produzida; e a violência é a principal delas.

Chegando a tal nível, que parece estabelecer-se como um novo centro ético de comportamento; assim já o é em vários territórios das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Falar sobre o futuro tornou-se um hábito anacrônico, cuja racionalidade a médio prazo é o medo, diante do poder crescente da lúmpen-elite sobre o Estado e sobre a sociedade e do monopólio dos especialistas do MERCADO financeiro mundializado, que com seus Phds em Harvard e Yale e suas agências de análises de riscos, pitonisam os indicadores de riscos para cada sociedade e nação, com critérios duvidosos e especulativos (Silveira, 1998).

Há um esgotamento no estoque de idéias criativas e construtivas, tanto do Estado como da sociedade (Cerqueira Filho, 1982). No momento, vence e se impõe um individualismo narcísico e solitário, que acarreta a dissolução das redes tradicionais de sociabilidade, abrindo possibilidades políticas e históricas para um rearranjo das redes sociais e civilidade, hoje coagidas e/ou seduzidas pelas violências e corrupções como valores éticos de convivência cotidiana (Hirschman, 1992).

A crise da segurança pública reflete a crise da cultura política brasileira, revelando o desespero que se generalizou e se difundiu na população, pela falta de esperança, que era produzida pela ética do trabalho. As pessoas foram dominadas pelo ceticismo das largas diferenças, consolidadas pelas exclusões históricas, e pela ausência de perspectivas de melhora para o futuro.

A idéia de trabalho, ao deixar de ser o fundamento da sociedade, e, portanto, valor ético e eixo de organização dos desejos, vontades e esperanças, desaparecem (Habermas, 1987), favorecendo que a violência, os ilícitos e as corrupções se transformem em uma via política de ascensão social.

O trabalho, ao deixar de ser o fator ético catalisador da organização social, promove um desarranjo nas subjetividades coletivas. Promove a emergência em escala crescente da violência e da religiosidade fundamentalista como formas de reagrupamento simbólico e concreto de indivíduos desesperançados (Alvito, 2001).

O individualismo que configurou a política de formação do Estado moderno tinha nas idéias da posse, da propriedade e do trabalho seus centros de tensão e organização. O individualismo clássico produziu os sentidos, os significados, de duas concepções tradicionais de Estado: o Estado liberal, que regula a ação entre o privado e o público; e um Estado que, sem romper com a tradição liberal, aponta para uma socialização simbólica da propriedade, através de mecanismos mitigadores para os despossuídos e não proprietários.

De qualquer forma, seja qual for à vereda que se percorra, tem-se que os princípios da sociabilidade, do contrato de cidadania, estavam intimamente vinculados à própria formação da ideia do Estado-nação

(Bendix, 1996), e reforçaram-se nos pressupostos da revolução americana e da revolução francesa, conferindo legitimidade à propriedade a todo aquele que, de alguma forma, estabelecesse um laço de “pertencimento” a um estatuto jurídico e simbólico com uma comunidade política, com um Estado.
Portanto, aquilo que a princípio parecia separado e distinto configura-se como uma equação de variáveis interdependentes. O Estado, ao estabelecer-se centrado no indivíduo, no individualismo, na posse particularizada, engendrou formas políticas de administrar uma coletividade despossuída, consolidou uma maneira de regular e controlar conflitos daí decorrentes, produzindo uma concepção de Estado mediador e provedor (Bobbio, 2000). O Estado-nação moderno assegurou a propriedade material e simbólica, manipulando e gerindo os conflitos através de mecanismos públicos de distribuição de bens de natureza simbólica e material.

A questão do individualismo do Estado-nação está diretamente ligada a questão da organização política e, portanto, da organização das sociedades, formadas historicamente cada uma de maneira diferente das outras, com suas peculiaridades e características próprias.

O contrato de cidadania estava centrado nessa lógica, o individualismo gerando um Estado que organiza o conflito via distribuição de bens simbólicos e o estímulo à mobilidade social e à esperança de um futuro melhor via trabalho e poupança.

Essa estratégia, bem sucedida do século XIX ao século XX, fortaleceu uma matriz do indivíduo como ator social, portador de um direito natural a toda forma de posse, tradição política liberal herdada de Locke.

Entretanto, a expressão ‘posse’ introduz a questão da propriedade e do conflito daí decorrente, das formas de legitimar socialmente, em cada Estado-nação, a obtenção e manutenção da propriedade (Bendix, 1996). O Estado e as sociedades engendraram as formas políticas de controle social e legitimação política e ideológica para as exclusões e os despossuídos, mantendo a ordem pública e o espírito de pertencimento a uma nacionalidade.

O individualismo coletivizou-se através do Estado de direito, mantenedor das formas particularizadas de propriedade material, simbólica e afetiva, sendo ele, o Estado, tanto liberal como social-democrata, uma materialização de um “EU COLETIVO”, onde havia uma subordinação do privado ao público. Experiência sociopolítica rara na trajetória do Estado-nação brasileira, onde o público e o privado são indistintos historicamente e no tempo presente.

Associo ainda a idéia de que o Estado administra o individualismo coletivizado pela comunidade política, fazendo com que os despossuídos sintam-se confortáveis dentro de suas esferas de atuação no trabalho. E, ainda, a idéia de que o despossuído legitima o exercício da posse através dos mecanismos públicos eficientes de um Estado distributivista, que opera a ética do trabalho como fundamento das esperanças de se ter posse e ser proprietário.

Para os individualismos clássicos, o Estado é o ente fundamental para solucionar e administrar crises sociais, conflitos, gerir os ambientes de mudança, de antagonismos. E ainda, enxergar nos antagonismos a oportunidade criativa de se implantar políticas afirmativas, um Estado mitigador (Boudon, 1979). Um “Estado do equilíbrio instável”, um Estado centrado no desenvolvimento dos bens materiais e coletivos, capaz de identificar e controlar os efeitos perversos de uma ordem social capitalista e excludente, ao menos em tese e na doutrina jurídica.

Como exemplo, o desenvolvimento da indústria do petróleo no Rio de Janeiro gera poluição e má qualidade de vida nos territórios da Baía de Guanabara, encarados com naturalidade como um efeito perverso de um desenvolvimento bom para a humanidade, para o ser humano, e, particularmente, para o Rio de Janeiro, lógica explicitada nas análises de custo-benefício que os governos e a indústria do petróleo produzem.

Portanto, o Estado, como lógica política de intervenção, justifica estas mazelas ao promover ações para mitigar esses efeitos perversos através de uma política pública de controle ambiental e industrial. O Estado é um contraponto administrativo e político para aqueles que têm posse e as utilizam em um contexto de legitimidade social e jurídica.

O Estado que se consolidou ao longo dos séculos XVIII até o século XX materializou um sentimento de responsabilidade coletiva dos que têm posse, procurando mitigar os efeitos perversos de uma ordem social contraditória. Estes eram e são os pressupostos políticos e doutrinários que orientaram a formação dos diversos Estados-nações na modernidade (Bobbio, 2000).

A história do Estado-nação no Brasil parece caminhar na contramão destes pressupostos. Entender o confronto do Estado de direito no Brasil com o individualismo narcísico e solitário passa necessariamente por conhecer como, nos séculos passados, as elites brasileiras apostaram na idéia de que seria melhor construir um Estado gerador de privilégios do que um Estado promotor e defensor da cidadania clássica (Carvalho, 2001), passa necessariamente por desvendar a trama de hostilidades e perversidades que foram cometidas contra a população pobre, particularmente com os escravos africanos e seus descendentes, e por entender como o arcaísmo foi o projeto de futuro para as elites em formação no século XVIII no Brasil (Fragoso & Florentino, 1993).

No Brasil, o individualismo patrimonialista consolidou o desejo e o sentido da posse, arraigado na idéia de controle estatal, marca da tradição histórica do Estado-nação brasileiro, cuja racionalidade e normatização garantem a posse ao indivíduo através de mecanismos institucionais de um Estado excludente (Faoro, 1994). A posse está, hipoteticamente, pela doutrina jurídica, à disposição de qualquer ator social, disponibilidade que se consolida através das esperanças produzidas pela ética do trabalho.

A ordem social contemporânea, do século XXI, configura um mundo que nos parece não ter espessura, em movimento quase que incessante, como que se vivêssemos dentro do rodopiar de um tornado, em que uma força centrífuga nos fragmenta e nos joga de um lado para o outro, e que provoca nos indivíduos, nas sociedades e nos Estados a sensação de possibilidades inúmeras, de estarem dentro de um CONJUNTO EM DISPERSÃO, que, entretanto, tem uma lógica centralizada, apesar das rupturas das representações sociais, da dissolução dos absolutos, da transmutação das redes de pertencimento e suas reconstruções fragmentadas.

O sutil mecanismo centralizador da dispersão configura a principal estratégia política do tempo presente, um experimento em que a fragmentação e a descontinuidade não representam descontinuidades e fragmentações, mas indícios de um projeto unitário e de uma lógica única, comandado por um oligopólio transnacional e privado que tem no G-8 e G20 suas melhores expressões.

Recorro ao modelo estatístico de Paul Lazarfeld de intercambialidade de índices, na lógica algébrica da análise fatorial, para pontuar que as descontinuidades funcionam como VARIÁVEIS DE DISTORÇÃO e as fragmentações como VARIÁVEIS SUPRESSORAS (Babbie, 1999).

Portanto, identificar a tensão dessa lógica, como ela é constituída, é o desafio para que não nos percamos na idéia de um mundo fragmentado, multicultural e atomizado, como alguns teóricos da sociologia, da antropologia, da ciência política, da história e da psicologia contemporânea vêm afirmando. O cenário social contemporâneo se inspira nas pinturas abstratas, surrealistas, são como cenas de um filme, que, embora partidas, têm uma lógica. Esta lógica tem como estratégia de legitimação política o NOVO como imperativo, é a era da permanente atualização, é a configuração de espaços e tempos que volatilizam-se, tempos esses que provocam uma dispersão das redes de sociabilidade e afeto. Uma sucessão coercitiva, quase que “natural” de fragmentos e extinções, a vida como um jogo de pôquer, a vida como uma entropia, a vida como um bungee jumping, em que se joga para um abismo o cotidiano de milhões de pessoas, para tentar construí-lo durante a queda.

A vida social e as identidades opacas foram substituídas em suas tragédias pelo individualismo fóbico de um consumismo lúdico e hedonista.
A ideia e o conceito de cidadania transitam do direito a ter direitos ao de ter capacidade e oportunidade para consumir com rapidez os NOVOS, e sociabilidades sempre reinventadas e/ou transmutadas para serem novas.

Ao iniciar esta reflexão, busquei na idéia do Estado moderno as noções de indivíduo e de individualismo, tendo Max Weber (1982) e Raymond Boudon (1996) como minhas referências para analisar as contradições entre o indivíduo e o coletivo, entre o individual e o social, tendo igualmente o fundamento analítico que a tradição da filosofia política confere ao ser humano e às ações humanas, como sendo dotadas de uma razão prática, que procura viver uma sociabilidade fundada na palavra, na persuasão e no diálogo; portanto, estabelecedora de contratos de convivência. Daí centrar o olhar na história dos contratos de cidadania, valendo-me das teses de Max Weber (1982) e Louis Dumont (1985) sobre os individualismos, a ação social e a liturgia dramática das sociedades (Goffman, 1985). E como parâmetro de comparação, a história da cidadania no Estado-nação brasileiro, a partir da leitura dos livros O arcaísmo como projeto, de João Fragoso e Manolo Florentino (1993), e A cidadania no Brasil: um longo caminho, de José Murilo de Carvalho (2001).

No Brasil do século XXI as classes dominantes capitalistas e burguesas, a cada dia, cedem seus lugares a uma lúmpen-elite endinheirada. Esta nova casta de mandatários foi um produto inesperado do patrimonialismo estatal, sendo gestado cuidadosamente pelos privilégios concentracionistas e racistas das elites tradicionais brasileiras.

A lúmpen-elite, devagar, ocupa a máquina do Estado por suas beiradas e estabelece áreas de controle territorial e de serviços no dia-a-dia da sociedade. Em certos territórios, ela substituiu na “marra” a pequena burguesia comercial e de serviços e o próprio Estado, difundindo com suas práticas ilícitas, violentas, machistas, corruptas e corruptoras uma incerteza social como clima de convivência; é arbitrária, coercitiva e geradora de medo e mortes, produz, com suas práticas, um sentido social anti-civilizador, no qual as regras do Estado, já anacrônicas historicamente, nada valem e as relações interpessoais são atomizadas pelo silêncio necessário à sobrevivência.

O caminho da humanidade no século XXI se assemelha ao percorrido por Dante Alighieri, tendo Virgílio como cicerone, em sua ida ao inferno.
A história do tempo presente está engenheirando uma ação humana que faz um contraponto à razão, à estruturação e ao “regramento”, constatação feita pelo estudo de Denis Rosenfield (1988), ao introduzir o MAL como uma categoria ético-política. De maneira muito criativa, Rosenfield inverte a lógica do contrato de cidadania possível, centrado na idéia das boas intenções do bem comum, do Estado mediador e provedor e da mitigação dos efeitos perversos da ordem social capitalista.

Quero enfatizar que as intolerâncias e machismos obedecem a uma lógica, um processo bem articulado de sociabilidade perversa (Silva, 2004) geradora de pertencimentos e identidades para homens e mulheres.
A ideia de violência e masculinidade articula-se em uma correlação formatadora de redes de relacionamentos, do micro ou macro no tempo presente.

A violência, o consumismo hedonista e o individualismo fóbico masculinizado são relações sociais de poder que estruturam e fundamentam múltiplos grupos de pertencimento e ação social coletiva, constituindo-se em uma subjetivação que legitima comportamentos de indivíduos submetidos a esses grupos. Portanto, a violência e a masculinidade estão presentes como lugares simbólicos e praticas de sentido estruturante nas relações sociais no tempo presente.

A violência, a masculinidade e os individualismos fóbicos não são relações de poder unilateral. São eventos sociais complexos e plurais, imersos em múltiplas interações, com representações coletivas interligadas em redes de sociabilidades nos contextos vividos pelos diversos grupos, em que a violência e a masculinidade são representações polissêmicas de organização social.

Essa reflexão discute a relação entre as violências, solidões, individualismos fóbicos, consumismos hedonistas e as masculinidades a partir das práticas sociais de indivíduos em múltiplos grupos de pertencimento. Através destes eventos, analiso as relações entre estes fenômenos sociais e demonstro como funciona esta rede de construção de intolerâncias e assédios múltiplos, com um ponto de vista ancorado na ideia de Ethos guerreiro de Norbert Elias (1994).

Nesse trabalho, o fenômeno da violência é entendido como uma expressão de subjetividade negada, passível de verificação quando os indivíduos compreendem alguns valores como coletivos e indispensáveis para um grupo ser um grupo. A subjetividade negada é sempre estabelecida na interação com outros indivíduos portadores de ideias coletivas. A violência, por ser construída por uma subjetividade negada, estabelece uma negação da alteridade do outro (Silva, 2004). Nesse sentido, a sociabilidade violenta é um modo de vida.

A negação existente passa a se constituir em uma identidade coletiva construtora de múltiplos grupos de indivíduos como comunidades de pertencimento (Anderson, 2008), que compartilham valores grupais através das violências e solidões dos individualismos fóbicos com outros grupos, que se rivalizam rotineiramente. Nos eventos acima citados nega-se a existência de outros indivíduos e/ou outros grupos. Negam-se os direitos às existências diferenciadas. As identidades são estabelecidas articulando-se através das solidões e violências e de um ethos guerreiro (Elias, 1994) etnocentrado.

As violências e solidões são binômios relacionais complexos que exigem precisões, objetividades e reconhecimentos das subjetividades de cada um dos múltiplos agrupamentos de indivíduos, como se formatam suas categorizações, como classificam o que é violência, individualismo e solidão, pois essas categorias são variáveis dependentes da aceitação tanto dos autores como das coletividades grupais nas quais os indivíduos estão inseridos e os eventos contextualizados.

A intencionalidade subjetiva relaciona-se com os valores que orientam o sentido de conduta do indivíduo. A subjetividade é relacionada à representação coletiva que há dentro de um contexto. Um ato de violência é sempre uma mediação desses binômios em ação, assim como é uma interpretação que quem sofreu a ação violenta dá ao fato.

A interpretação que quem sofreu a ação realiza em torno da agressão se faz de acordo com princípios morais construídos dentro do contexto social em que vive. É desta maneira que um mesmo ato pode ser, em um contexto específico, violento, mas, em outro, compreendido como uma relação social que não afete o cotidiano do indivíduo (Oliveira, 2008).

As intencionalidades do indivíduo e dos grupos podem variar, de acordo com o contexto no qual eles se inserem. Dependem da apreensão coletiva dos indivíduos e/ou grupos sobre o que sejam violência, individualismo e consumo. Atores aprendem essas ideias e valores de acordo com as dinâmicas dos grupos em que estão inseridos. Conclui-se que não há violência e solidão no singular, mas há violências e solidões que precisam considerar os indivíduos em suas ações além do contexto dos grupos nos quais estão inseridos.

As violências, os consumismos e as fobias são compreendidos de maneira ampla, visto que todos esses eventos e atos participam das negações de alteridades de outros grupos como sujeitos constituintes de determinadas e especificas sociabilidades. As violências, os consumismos e as fobias são atos violentos e fóbicos na medida em que negam a um ou mais indivíduos ou grupos as normas estabelecidas pela representação coletiva no contexto de um determinado grupo, que são compartilhadas por todos.

Quando falo em normas, não me refiro às normas legais estatutárias de uma instituição ou do Estado. Estas normas são as dos contextos informais dos múltiplos grupos com o qual os indivíduos interagem. Considero nessa reflexão violências, individualismos fóbicos e consumismos hedonistas e lúdico-narcísicos como alteridade desconsiderada, que não reconhece outros indivíduos ou grupos, a não ser como objetos de consumo descartáveis que serão refugados pelos extermínios e abandonos, como se não fossem sujeitos sociais e humanos. São objetos de consumo e satisfação de desejos voláteis e imediatos, que negam as interações sociais, pois os outros são sempre descartáveis ou perigosos.

As violências, solidões, individualismos fóbicos e consumismos hedonistas são construções sociais dos novos em continuada mutação no tempo presente. No agora. A participação nas interações dos indivíduos é valorada no âmbito exclusivo de suas sociabilidades especificas e autocentradas – em si mesmos ou nos grupos a que pertencem. As sociabilidades são estruturadas a partir de uma finalidade de agregação que desconsidera os comportamentos e valores dos outros sociais. Em termos clássicos, as sociabilidades estavam estritamente ligadas a uma livre participação dos valores sociais (liberdade, convivência, reconhecimento) de um ou mais indivíduos, sendo garantida ao mesmo tempo a mesma liberdade de participação de outros indivíduos e/ou grupos. Desta forma, sociabilidade em Simmel (2006) envolve uma construção, que tem como pressuposto uma ação que leva em consideração o outro.

A sociabilidade para Simmel é uma alteridade. O reconhecimento do outro é um condicionante para a vida social. A sociabilidade das violências, solidões, individualismos fóbicos e consumismos hedonistas são um não reconhecimento das condutas tanto objetiva como subjetiva de outros sujeitos como sujeitos, e sim como objetos para serem usados e refugados. É oposta à sociabilidade de Simmel. As violências, intolerâncias e fobias produzem uma forma de relação social estruturada pela absoluta desconsideração dos outros, uma relação social que descarta o convívio social diferenciado.

As violências, consumismos hedonistas e fobias contemporâneas são relações sociais que organizam grupos específicos como universais.

As violências, o consumismo hedonista e fobias aos outros são novos tipos e arranjos de relações sociais plurais e polissêmicas (Bauman 2005), onde não é possível falar de uma única espécie de violência, o que faz emergir grupos específicos e locais intolerantes, fundamentalistas e fóbicos, que baseiam seus compartilhamentos em normas de comportamentos brutais tantos em ações objetivas como simbólicas, que são consideradas “normais” e definidoras dos grupos específicos. Ao focar em normas interessam-me os significados que os grupos sociais específicos compartilham sobre o que é um ato violento, fóbico e intolerante. Existem variações de comportamentos violentos, narcísicos, fóbicos e consumistas hedonistas conforme os múltiplos grupos constituem-se. Realço a compreensão já feita por Becker sobre as regras normativas de conduta dos grupos:

Todos os grupos sociais fazem regras e tentam, em certos momentos e em algumas circunstâncias, impô-las. Regras sociais definem situações e tipos de comportamento a elas apropriados, especificando algumas ações como ‘certas’ e proibindo outras como ‘erradas’ (Becker, 2008).

A ideia acima indica que esses fenômenos sociológicos citados ocorrem em redes, em uma cadeia sequencial, que interliga os indivíduos às normas dos grupos específicos. São percebidas pelos grupos e/ou indivíduos engajados a uma sociabilidade violenta especifica não como “desvio” de comportamento, e sim como atos e eventos de normalidades rotineiras que valorizam e legitimam as regras grupais. Como as regras não são individuais, esses eventos e fenômenos das violências, fobias ao outro, intolerâncias e consumismos hedonistas tornam-se uma interpretação valorativa para os grupos e os indivíduos a eles pertencentes.

As sociabilidades violentas e o Estado são duas faces da mesma moeda: a organização de uma sociedade e grupos de pertencimento pautados nas forças violentas e intolerantes. As sociabilidades violentas e o Estado nascem da mesma forma de organização, que pressupõe a força e as normas como elementos centrais de ordenamento coletivo e alteridades.

As violências, solidões, consumismos hedonistas e individualismos fóbicos no tempo presente em nossas cidades têm como princípio estruturador a força. O uso da força é uma relação social que não pressupõe um esvaziamento do Estado em sua norma jurídica de ter o monopólio legítimo da violência. Ao contrário, a compreensão das sociabilidades violentas desvenda um novo princípio ético moral que estrutura a percepção coletiva dos atores sociais envolvidos, para os quais as violências e intolerâncias não são violências e intolerâncias, mas mecanismos sociais “legítimos” de autoproteção via pertencimento a um determinado grupo. Liga-se a uma privatização, individuação e ‘tribalismos urbanos’ (Giddens 1978) das forças violentas objetivas e simbólicas em detrimento dos princípios normativos governamentais e institucionais que ligavam violência ao Estado.

De acordo com Silva:
(…) a transformação da violência, de meio de obtenção de interesse minimizado pela sua concentração como monopólio formal do Estado, no centro de um padrão de sociabilidade em formação que não se confronta com a ordem estatal, mas lhe é contíguo. Creio que é justamente isso que confere especificidade histórica à violência contemporânea nas grandes cidades. (Silva, 2004)

Nessa conjuntura, no tempo presente, há uma fragmentação do Estado, que ainda assim é bastante atuante – ao mesmo tempo e contexto onde agem e atuam grupos e/ou indivíduos que competem e concorrem com suas práticas violentas “privadas” de intolerâncias, fundamentalismos, consumismos hedonistas e descartes humanos ao refugar quem não é considerado igual. Através destas práticas, estes grupos expressam um sentido e significado à sua existência que não podem mais ser dados pelos princípios de reconhecimento do Estado (Baía 2006). Assim, deve-se compreender a ascensão das sociabilidades violentas e das fobias aos outros através de uma estrutura que compacta e forma valores. (Elias, 1994).

A masculinidade nesse contexto analítico está inserida em múltiplos contextos que reproduzem sua condição normativa de existência (Bourdieu 2011). É um conceito que tem uma homologia entre estrutura cognitiva e estrutura objetiva.

A masculinidade é um processo de interação inserido no conceito gênero. Por gênero, entendo um processo de produção social de diferença onde estrutura-se uma percepção oposta entre duas categorias: masculino e feminino, que formam um binômio complementar, onde o masculino se impõe. Nos dizeres de Almeida:
Se masculinidade e feminilidade são, ao nível da gramática dos símbolos, conceitualizadas como simétricas e complementares, na arena do poder são discursadas como assimétricas. (Almeida, 1996)

O ethos do macho homogeneíza o mundo social como masculino através das práticas violentas, perversas e sutis (Almeida 1996). Não se limita à violência física contra as mulheres, é uma violência simbólica totalizadora, violência simbólica coercitiva quando os mesmos princípios de visão e de divisão do mundo, esquemas de pensamento, estrutura cognitiva é imposta pelos dominantes aos dominados, que não têm outra forma de reagirem às suas práticas sociais, a não ser pelo referencial do mundo social criado pelos dominantes. Mesmo quando mulheres rompem barreiras no trabalho e na política, têm suas condutas estigmatizadas a um ethos que as aciona como ‘femininas’ como categoria acusatória.

O masculino insere os atores sociais em um espaço social inerente de desigualdades (Oliveira 2008). As formas como os atores interagem na sociedade são percebidas como expectativas coletivas ajustadas às estruturas concretas em que homens e mulheres estão inseridos.

A dominação do masculino é operada pela reedificação de um masculino universal (Bourdieu 2011). Embora haja variações nas formas de dominação, sempre se reatualizam práticas sociais desiguais entre os gêneros. A lógica da dominação masculina atualiza-se frente às inovações e contextos variados das novas identidades libertárias da mulher.

A masculinidade como processo social, pode ser apreendida por variados métodos, pois existem múltiplas masculinidades de acordo com as sociabilidades inseridas em diferentes contextos (Bauman 2005). A masculinidade implica no poder e privilégio que o indivíduo tem nas hierarquias e fragmentações do social e do Estado.

No contexto específico das sociabilidades violentas, solidões, consumismos hedonistas e individualismos fóbicos a masculinidade forma um paradigma (Anderson 2008) em que os integrantes se reconhecem uns nos outros e, articulando-se através das violências, conseguem estabelecer normas e comportamentos que tendem a uni-los e, concomitantemente, se diferenciar dos outros e de seus estilos de vida.

A masculinidade é o liame normativo constitutivo de identidades (Elias, 1994). Uma masculinidade diferente da que separa o mundo em masculino e feminino, pois se articula através de um ethos guerreiro que impõe a violência como formadora de uma identidade masculina para homens e mulheres.

O racional do ser humano, nos envelhecidos tempos presentes do século XXI, é uma racionalidade falaciosa, na medida em que põem em confronto os valores gerados pelos pensamentos liberal e socialista clássicos, e as formas contemporâneas de violência política, pessoal e simbólica (Bourdieu 2009). A desregulamentação das sociedades em escala mundial engendra formas excludentes e totalitárias de vida social, de um cotidiano em que os indivíduos tornam-se solitários e narcísicos, a partir da utilização maciça do desenvolvimento científico-tecnológico e da precarização e inconstância das relações humanas (Giddens 1978). Cria-se um cenário de “arianismo” técnico-científico, de violências e barbáries.

Chamo a atenção para o fato de que as formas totalitárias não são as tradicionais do totalitarismo do Estado, são privatizadas e individualizadas, ou pela prepotência do mercado ou pela barbárie da violência diária. É um totalitarismo centrado no individual narcísico e solitário, é à vontade absolutizada do indivíduo sobre ele mesmo e sobre os demais. Ou seja, é a soberania absoluta e plena de um EU SOLITÁRIO. (Baía 2006).

Nessa reflexão, ao introduzir o conceito de violência como um projeto individualizado do mal, de uma vontade maligna, tem-se a perversidade como uma categoria ético-política, portanto, um conceito capaz de produzir realidades sociais factíveis. Tendo a perversidade como categoria sociológica analítica, tomo igualmente os conceitos de solidão, consumismos hedonistas, intolerâncias e individualismo narcísico fóbico como ideias que foram recusadas pela maioria dos analistas sociais. Somente a psicanálise cuidou deles, e os analistas sociais, ao recusarem a idéia da existência de uma pulsão maligna, influenciaram de forma decisiva as mais diferentes vertentes do pensamento científico na área de ciências humanas, pois estabeleceram um silêncio sobre as perversidades e a maldades.

Na medida em que as idéias acima foram excluídas das preocupações analíticas, trabalharam-se os conceitos de ordem social e vontade, sendo que a idéia da vontade individual, a idéia da vontade de progresso, é a fonte constitutiva central de uma sociedade racional e administradora das ações humanas voltadas para o bem, que tem na ética do trabalho seu fundamento (Durkheim, 2001). A perversidade, a maldade, o eu narcísico fóbico e o eu auto-realizável eram analisados como acidentes, acasos, acontecimentos aleatórios não pertencentes a um projeto coletivo, de sociedade (Durkheim, 1984).

Ao refletir sobre essas idéias, percebe-se uma configuração social assentada no desregramento como uma proposta, como uma meta a alcançar. O desregramento provoca desregulamentação, promovendo fragmentação e atomização (Elias, 1994). A desregulamentação como projeto final de uma ação específica dos indivíduos narcísicos fóbicos e fundamentalistas, é antiética e tudo pode por se absolutista. A partir de seu absolutismo individual hedonista, tende a controlar os mecanismos de Estado, que, contemporaneamente, se desregulamenta como projeto político coletivo, mantendo, entretanto sua essência coercitiva, policial.

Com base na leitura de Rosenfield (1988) e Silva (2004), deduzo que a análise dos eventos contemporâneos sobre as violências, fobias refugadoras dos outros e consumismos voláteis de descartáveis humanos, por essa ótica, constituem-se em ações políticas e sociais determinadas, que para nós ainda representam um projeto nebuloso e indefinido, mas que, no entanto, começam a apontar indícios muito precisos de que a questão das violências, intolerâncias, fundamentalismos, refugamentos em massa de populações e individuos podem indicar ações efetivadas tendo como meta a destruição sistemática das redes tradicionais de sociabilidade, sem que se caia em contradição lógica. Para a particularidade brasileira, pode-se afirmar, a partir da leitura do texto de João Fragoso e Manolo Florentino (1993), que estes estabeleceram as bases em que se pode profetizar, de forma afirmativa, que o arcaísmo deu certo, constituindo-se hoje, como o foi no passado, um projeto de contemporaneidade.

Com efeito, do ponto de vista da meta das desregulamentações, tem que se ter a eliminação não somente de uma sociedade determinada, mas de tudo aquilo que entendíamos e imaginávamos até aqui por formas humanas de sociabilidade já que, na perspectiva dos meios de ação política, estar-se-ia em presença de formas regradas e sistemáticas de extermínios e violências múltiplas, sendo elas políticas, humanas, afetivas e simbólicas. Assim, as solidariedades volatilizam-se e estabelecem-se subordinações pela força das armas e do medo generalizado.

Ao tomar-se a perversidade, a maldade, do eu narcísico, fóbico e auto-realizável como conceitos ético-políticos, e, portanto sociológicos, temos que ter como contrapartida uma enunciação da natureza humana como um conjunto de proposições suscetíveis de serem transformadas por formas violentas, sendo que estas violências podem ser concretas ou subjetivas, podem ser materiais ou simbólicas. Essas formas violentas se traduzem numa ação política de valorização do sucesso a qualquer custo e dos seres humanos auto-realizáveis, auto centrados, solitários bem sucedidos (RIBEIRO, 1993a), e em um não político que é essencialmente político e projeto de poder de poucos para subordinar muitos, em que os mecanismos tradicionais são substituídos por mecanismos simbólicos que materializam os medos e valorizam a violências, os consumismos hedonistas e o extermínio dos outros sociais como mecanismo de ascensão social. Formando-se grupamentos minoritários endinheirados e empoderados, ou seja, formando-se uma lúmpen-elite no poder cotidiano do tempo presente, esteja ela no Estado ou no mundo da vida dos privados na sociedade como uma totalidade fragmentada.

A lúmpen-elite não tem nenhum interesse no futuro, pois seus passados são de humilhação, fome e desesperança. Só quem pensa no passado é quem quer construir uma civilização para o futuro, e, para a lúmpen-elite, o passado só traz lembranças amorais e perversas; e, portanto, um sentimento de tristeza e morte. Quem pensa com a história (SCHORSKE, 2000) é quem tem um projeto de futuro, que produz valores transcendentes à sua época, que acredita estar vivendo um processo de construção permanente de uma nação e de uma sociedade de solidarismos acolhedores. Este não é o caso da lúmpen-elite no Brasil do tempo presente, que quer viver o agora, sem passados e sem futuros.

A perversidade, como uma categoria, é um conceito que, provido de razão prática, dá conta de uma dimensão essencial do agir humano, das violências, das solidões, dos fobismos individualistas, das intolerâncias e das refugações e extermínios dos outros, que passa a produzir estruturações sociais e dar forma de organização precária e eventual a múltiplos e diversificados agrupamentos para as populações metropolitanas nas metrópoles brasileiras do tempo presente.

Enfim, utilizar a perversidade como uma categoria sociológica analítica transforma o tempo presente do século XXI em algo factível de análise para as recentes perplexidades e medos coletivos. Ao tomar a perversidade como um conceito prático, uma categoria ético-política, produz-se uma visibilidade assustadora (Whyte 2005).

A lúmpen-elite se realiza no agora, pois acredita que suas vidas nada valem; e, apesar de endinheirados e prestigiados, não passam de cadáveres baratos.

Ao ter a perversidade como um conceito político, como uma categoria sociológica analítica, este conceito permite a mediação da percepção que transforma o Estado mediador e provedor em um Estado policial, e exceção como projeto político.

Os múltiplos cenários sociais contemporâneos engenheiram mecanismos de matança simbólica do público, do coletivo, promovendo a emergência de uma lúmpen-elite pela violência e pela delinqüência, e fortalecendo uma perspectiva de individualismo auto-centrado e auto-realizável, solitário (RIBEIRO, 1993b). Os despossuídos contemporâneos enfrentam não só as concentrações cada vez maiores das posses como enfrentam igualmente, de maneira contundente, a ação de um Estado policial e tecnológico (MISSE, 1999). E ainda enfrentam, em seu cotidiano, as gangues e redes criminosas, que mantêm as exclusões e exterminam as esperanças que a ética do trabalho produzia, mesmo que de forma precária e com alto nível de exploração do trabalhador.

Nesta reflexão, tendo a afirmar minha convicção de que a cada dia torna-se mais difícil obter um grupo de pertencimento. Mesmo que este grupo seja a sua própria família; a formação do menor micro-grupo social, que é um casal ou uma dupla, é cada dia mais difícil.

Se quisermos outros destinos, diferente daqueles que Dante descreveu em sua trajetória cruzando o inferno, devemos nos confrontar já, e de forma contundente, com as variadas formas de individualismo fundamentalista fóbico, com os consumismos hedonistas e com as sociabilidades violentas em suas dinâmicas objetivas, simbólicas e afetivas. E quando falo em individualismo, não estou usando o conceito generoso de Max Weber, que vê no indivíduo um ser coletivo, um ator social, capaz de traçar e enfrentar o seu destino, de construir uma civilização. Falo de um individualismo egocentrado, narcísico e solitário, falo do indivíduo que Lair Ribeiro (1993a, 1993b) tão bem descreve e compreende. O indivíduo que se realiza em sua própria individualidade solitária e original. Que acredita ser o responsável, ele próprio, pelos sucessos e mazelas dos tempos contemporâneos (Ribeiro, 1993a).

Torna-se efetivamente necessário valorizar com a publicização e análises as conquistas civilizatórias, afetivo-polítcas de bem estar e bem querer mais significativas dos séculos passados.

A meu ver essa tarefa é e será uma missão intelectual, analítica e existencial ampliada, radicalmente ampliada em todos os campos das atividades humanas e das múltiplas redes de sociabilidades. É um desafio sociológico de compreensão. Tenho certeza que, por estratégia de sobrevivência, homens e mulheres terão que ser rigorosamente semelhantes e solidários nestes tempos presentes de intolerâncias, de iniquidades e múltiplos fundamentalismos isolacionistas.

O século XXI tornou inexorável o fim de uma ética social, baseada no trabalho. Esta ética, que orientou a organização social de múltiplas sociedades, particularmente a sociedade capitalista ocidental (Weber, 1982), na qual o Brasil se inscreve, produziu conflitos sociais, lutas de classe e esperanças, alimentou sonhos de transformações sociais igualitárias, sonhos de mobilidade social e circulação territorial. Com o fim desta ética, o trabalho deixa de ser à base de organização da sociedade, transformando o ócio em mercadoria simbólica e hipervalorizada; insuflando os desejos mais profundos e primitivos de uma multidão de desesperançados, a participar como consumidores hedonistas e lúdicos de um mundo que os exclui e não lhes confere identidade social. O conceito de cidadania é transmutado para o de consumidor.

Como conseqüência, forma-se um modo de produção ilícito e paralelo que atenta contra a cidadania precária e o Estado de direito anacrônico, atuando com todos os itens de uma pauta industrial, de serviços e financeira. Cria-se assim a possibilidade de ganhar capital, endinheirar, tornar-se o dono do pedaço, constituir-se em uma pequena casta de mandatários absolutistas, enfim, tornar-se um membro da lúmpen-elite, através de um lucrativo comércio informal e ilegal de todos os tipos de mercadorias roubadas, falsificadas e de drogas, que se capilariza em nossos territórios, estando ao alcance de todos via telefone celular ou internet.

Nosso dilema é que hoje a lúmpen-elite está associada a uma rede mundializada dominada pelo narcopoder (Silveira, 1998), controla territórios e aglomerados populacionais que não possuem sólidos vínculos de solidariedade social e coesão afetiva cultural. E o Estado real, anacrônico, se relaciona com estes territórios sociais através da coerção policial ou do clientelismo, transformando o ilícito em mercadoria política monopolizada pelo Estado (Misse, 1999), e, portanto passível de comércio e intercâmbio com a lúmpen-elite, com a casta paralela de mandatários locais e regionais.

O fim da ética do trabalho produz um cenário cinzento no presente e obscuro para o futuro, pois as regras do mercado são as regras do capital, e este, a cada dia que passa, cada vez mais é gerado por gangues e redes criminosas hierarquizadas em escala mundial.

Retrocedemos à Idade Média, em que o poder das armas e da coerção legitima as ações, tradição ibérica que orientou e formatou a subjetividade coletiva das elites brasileiras no passado (Faoro, 1979). No presente, as elites brasileiras parecem-me possuir os mesmos parâmetros de subjetividade coletiva de seus antepassados, pois ao longo de quatro séculos foram insensíveis ao crescente desequilíbrio social produzido no Brasil (Faoro, 1994). Nossos territórios nas principais metrópoles como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Brasília, têm comandos paralelos, mais presentes e coercitivos que o do Estado anacrônico de fato.

Quem conhece o Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Brasília sabe quem é que manda (Paes, 2008).

Hoje, no Brasil, chegamos a um nível em que as dimensões das diferenças são de difícil solução, pois se consolidaram as exclusões clássicas e racistas, gerando-se novos tipos de mal estar que se generalizam, indicando uma incapacidade estrutural para soluções; existe falta de coragem cívica e civilizatória para enfrentar as conseqüências de uma exclusão e refugamento humano em escala exponencial.

Neste cenário, o que resta ao Estado cada vez mais desregulamentado é transformar-se em uma vasta máquina policial mantenedora da ordem pública. Este talvez seja o produto mais visível da recente desregulamentação do Estado e das sociedades a nível mundial. E mesmo assim esta vasta estrutura bem equipada e bem orçada é obsoleta e cooptada pela dinâmica social imposta pelo narcopoder, pelas lúmpen-elites e pelas corrupções. A desregulamentação do Estado acarreta de imediato uma desregulamentação das redes de sociabilidade micro da sociedade, que dilui os fundamentos éticos clássicos, tendo como decorrência uma ditadura da produção gerada por um sistema paralelo e ilícito de fazeres, que, entretanto, apesar de paralelo e ilícito, converge para o mercado financeiro formal de maneira mundializada e especulativa.

Neste cenário, velhos perdem qualquer proteção ou respeito, e as crianças são seduzidas pelos ganhos produzidos pela delinquência e por um sistema de produção de capital cujos valores se assentam na violência e na barbárie (Becker 2008). E cada um de nós busca proteção em redutos de solidão e individualidade. Estabelecemos, como nos castelos medievais, fossos de proteção contra os outros. Somos estimulados a uma não alteridade, a ver no outro indivíduo e em outros grupos ameaças reais e/ou imaginadas, e que portanto devem ser evitadas.

Também, no contexto do tempo presente, as tragédias das grandes diferenças sociais e a hiperfragmentação da sociedade em múltiplos grupos de identidade fazem com que, embora circulemos por vários deles com performances diferenciadas, passemos a exercer um individualismo fóbico que tem no outro um objeto de consumo descartável. Assim produzimos com nosso narcisismo coletivo um refugo em massa de milhares de seres humanos. Contudo, creio que já existem contrapontos micro e atomizados a desenvolver sociabilidades não hedonistas e não fóbicas.

* Nota biográfica:
Paulo Baía, sociólogo, Doutor em Ciências Sociais pela UFRRJ, professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. paulorsbaia@ifcs.ufrj.br; paulorsbaia@gmail.com. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/0123426930185325

A visão da solidão na perspectiva da arte cinematográfica de Erica Maradona
Um homem, descontente com o caos e a indiferença da cidade grande, decide se retirar e acaba encontrando o fim de sua angústia em meio a própria solidão.
Trilha sonora: Clube da Esquina 2 – Milton Nascimento e Lô Borges