Arquivo da categoria: Ponto de Vista

Textos publicados no Correio do Brasil

O Estado de Exceção é Religioso e Militarizado – Diogo Labrego de Matos

Editado no Blog da Consequência

A origem etimológica do termo “abandono” reside na palavra bando. Com efeito, abandono consistia em uma prática humana primitiva de aplicação das leis em certos grupos sociais, bandos, em que os indivíduos condenados não eram exilados, nem deveriam cumprir alguma pena imediata, ou mesmo se submeter ao rigor direto do líder tribal. Os condenados, contrariamente, permaneceriam acompanhando seu clã, mas não mais sujeitos à aplicação das leis do grupo. Abandonados pelas regras vigentes, tornavam-se passíveis de sofrer qualquer violência por outros componentes. Eles estariam ao mesmo tempo dentro e fora daquele sistema legal, subordinados às leis do grupo por meio da sua exclusão.[i]

Essa origem filológica é resgatada por Giorgio Agamben para teorizar sobre o estado de exceção na sociedade moderna. O autor da trilogia Homo Sacer sentencia que o estado de exceção não necessariamente assume a configuração de uma ditadura nos moldes clássicos. Ele não se forma sob o regime autoritário de um excêntrico velho barbudo de coturno comandando uma república das bananas composta por sujeitos idiotizados. O estado de exceção não é essa caricatura. A realidade é sempre muito mais sutil.

São abundantes as análises atuais que creditam à situação decadente do capitalismo desde a década de 70 o recrudescimento do fascismo e da periclitância da democracia, tendo como reflexos, por exemplo, um descrédito geral dos processos eleitorais e uma participação declinante nos pleitos. [ii] Principalmente no que diz respeito ao Brasil, todavia, há nuances nessa trajetória de quase 50 anos das quais essa explicação geral não pode dar conta completamente.

O primeiro ponto a se notar é que, nas décadas de 60 e 70, a Europa e, em parte, os EUA promoveram uma ampla pesquisa teórica na área dos estudos culturais e o que ficou conhecido mais tarde como a virada linguística, com transbordamentos relevantes para a liberalização sexual e para as lutas minoritárias nos centros do capitalismo mundial. Podemos tomar vários marcos dessa onda de contracultura, mas não seria aleatório citarmos Maio de 68, o movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA, e os levantes de Stonewall como emblemas de tal virada. Seguiu-se nas décadas seguintes nessas comunidades uma gradativa – ainda que geograficamente desigual – assimilação dos discursos promovidos pelas parcelas sociais marginalizadas, desembocando, na última década do século passado, em conquistas legais e institucionais efetivas, como o reconhecimento do casamento homoafetivo em várias nações do velho mundo e a promoção de políticas raciais afirmativas nos EUA. Esses êxitos não se detiveram aí, permeando nos últimos anos toda uma discussão sobre a validade de certas estruturas linguísticas de cunho racistas e discriminações simbólicas e físicas sobre mulheres, negros e homossexuais, dentre outros subgrupos sociais.

Em Pindorama, como costuma acontecer com as ondas teóricas e culturais que se dão nos países centrais, tais discussões chegaram com algumas décadas de atraso, muito por intermédio dos círculos acadêmicos e de toda uma vida político-cultural que desde tempos acontece em torno das universidades públicas. Elas desembarcam aqui, então, com uma característica marcante: estes círculos promovem um debate e pressionam por uma mudança comportamental da sociedade brasileira muito mais acelerada do que nos países centrais, que levaram décadas para deglutir as mesmas questões. Cria-se, assim, a tão afamada bolha das redes sociais: basicamente jovens estudantes e ex-estudantes geralmente das ciências humanas que cresceram no ambiente politicamente desértico da esquerda e do marxismo nos anos 90. Essa parcela da população encontra, nas mídias sociais, meios de debate e de compartilhamento de ideias que reforçam o caráter acelerado desse processo de isolamento – tendência claramente reforçada pelos algoritmos de filtragem de informação pelas mídias -, mas a delimitação e identificação do grupo em si, não podemos dizer que se deu como resultado da internet. Antes, o ambiente virtual apenas concorreu para que acontecesse uma relativa homogeneização em um grupo que já existia antes como nicho social destacado e cujo discurso nunca se infiltrou na grande massa da população. De todo modo, esse é apenas um lado da história da polarização ideológica do Brasil nos últimos anos. Há outra parte dela a ser contada.

A ascensão relevante dos grupos protestantes neopentecostais remonta aos anos 80, tendo se acelerado a partir da década de 90, até chegar à proporção de 22,2% da população brasileira no censo de 2010. Tais números, porém, não revelam a estrutura dessas organizações que leva a que tenham um poder de representação ideológica muito maior do que sua presença quantitativa no país. Esse processo de crescimento aconteceu quando os grupos evangélicos modificaram sua abordagem de pregação, que antes se pautava em um fundamentalismo puro e que desde o início apresentava viés proselitista, mas com compromisso teológico basicamente baseado na salvação, para o que se convencionou chamar “teologia da prosperidade”: a ideia de que a contribuição dizimária, a conversão de novos membros e a observância prática de uma leitura específica da bíblia (marcado por um extremo conservadorismo comportamental, em confronto direto com o discurso daquele nicho extra-acadêmico) levaria à prosperidade ainda em vida.

O casamento dessa cosmovisão religiosa com uma organização hierarquizada orientada para ocupar espaços de poder – em seu sentido mais amplo, como a mídia, as organizações e a vida comunitárias, os partidos políticos, a ocupação do espaço público, vasta produção de mercadorias culturais etc.- gestou uma estrutura coesa que amplificou o seu poder de representação ideológica em comparação com a relevância quantitativa dos evangélicos no Brasil. De fato, o que houve nessas instituições foi uma dinâmica de reforço mútuo entre o crescimento das estruturas de poder e o aparato econômico em si, erigindo um bloco social com técnicas de autodefesa e expedientes de pressão pública só comparável aos maiores grupos midiáticos do país, que agora se viam com um concorrente à altura. Some-se a isso o fato de que o perfil social dos evangélicos extrapolou parcialmente a sua presença para além da parcela pobre periférica e temos, então, montado no teatro o palco da polarização, em que só faltaria a entrada triunfal do ator principal, o Partido dos Trabalhadores.

Vários indícios apontam para o fato de que a ascensão do extremismo de direita no Brasil está em conexão visceral com o avanço das instituições evangélicas e da propagação do seu discurso conservador.

Para embasar esta ideia, podemos inicialmente evocar o fato de que parte da classe jurídica que moveu mundos contra o petismo era declaradamente evangélica e motivada por fundamentos religiosos. Se não for suficiente, cite-se o mote propagado nessas eleições e que se tornou onipresente: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Para que não reste dúvida, veja-se o gráfico abaixo, em que se enumera o percentual de intenções de voto em Bolsonaro no primeiro turno[iii] (em vermelho) e a proporção de evangélicos em cada estado do país[iv] (em branco ou preto parece forte a relação positiva entre a presença de evangélicos nos estados da federação e as intenções de voto no candidato extremista. Tal relação fica muito clara quando observamos que em estados pobres como o Acre e Roraima, a intenção de votos chega à faixa dos 50%, o que não acontece nos estados do Nordeste, em que a presença da instituição evangélica é muito menos acentuada. A mesma tendência é verificada nos outros estados da região, como o Amazonas e Rondônia, o que torna o dado relevante se compararmos com os estados do Nordeste, também desprivilegiados economicamente. Assim, cairia por terra a ideia de que os votos no Brasil foram comprados há longa data com benesses paternalistas do Partido dos Trabalhadores.

Com os resultados das urnas do primeiro turno, é impossível negar o avanço do autoritarismo no Brasil, aliado ao cunho religioso dos candidatos eleitos. Acima de tudo, é importante ressaltar que essa construção paulatina de um poder quase invisível, porque alicerçado em convicções de uma parcela também invisível da população brasileira, teve a complacência da esquerda, que continua órfã do seu sujeito revolucionário subalternizado e não consegue ver que, no momento atual, são eles que têm o poder, e isso não é nada bom, principalmente para a democracia. A esquerda brasileira tomou uma postura diante do crescimento dos evangélicos que sempre oscilou entre as vistas grossas em relação ao caráter conservador e a condescendência com a ignorância, por eles serem supostamente manipulados, ignorando a base popular na qual o fascismo sempre se apoiou.

Fato é que, se juntarmos os dois lados da polarização política do Brasil esboçada aqui – obviamente muito esquemática e com interseções inúmeras -, chegamos ao tão afamado arquétipo do homem de bem, construído com a contrapartida de um outro arquétipo, esse demonizado, do indivíduo moralmente degenerado (abortista, homossexual, feminista, bandido etc.). E a construção desse arquétipo, retomando a ideia de Agamben, serve agora justamente para sedimentar um tipo de sujeito ideal e estigmatizar uma parcela da população que justamente deve ter prioridade em ser abandonada à violência por uma sociedade demoradamente decadente.

Alguns poderiam argumentar que a descrição feita aqui não bate com o fato de que os opressores são precisamente uma boa parcela da população que será afetada pelo extremismo de direita, a periferia urbana marginalizada. No que eu me esforço para completar a ideia com a seguinte afirmação: não há autoritarismo sem um discurso das massas sobre si mesmas, ou seja, sem que uma parcela marginalizada construa o tal arquétipo das vidas desimportantes mesmo que ela, em boa parte, se inclua nessa marginalidade. Isso é uma parte do processo de (auto)abandono que referenda o estado de exceção do fascismo.

Qualquer estado de exceção no Brasil – autoritário ou não, a depender dos resultados das urnas no segundo turno -, será do tipo militar-religioso. A esquerda precisa lidar com esse fato e parar de olhar para a nossa realidade apenas pelas lentes de obras elaboradas na Alemanha de quase oito décadas atrás, com toda a importância que elas têm. O mundo mudou, o fanatismo religioso ganhou novas roupagens no mundo inteiro e o país não ficou de fora da tendência. O que torna completamente insuficientes as análises de que o PT foi responsável pelo momento atual, como se as causalidades históricas fossem completamente inequívocas, dado que a tendência de declínio econômico acentuada na última década, por essas abordagens, não pudesse ser contra-restada de nenhuma forma. O discurso generalista da decadência do capitalismo é negligente com as particularidades do Brasil e trata a ascensão do fascismo como resultado inevitável contra o qual só resta a luta emancipatória radical, quando esta não é capaz sequer de amealhar um punhado de gente para promover ações socialmente coesas.

Por fim, me retomo afirmando que veremos cada vez mais estados de emergência que irão referendar ações violentas contra os abandonados. Porque, e essa foi a maior contribuição de Agamben, a violência é a ação por excelência contra aqueles cujo estatuto jurídico é seletivamente suspenso, e a polarização dos anos recentes no Brasil caminha para interditar simbólica e fisicamente o direito de uma parcela marginalizada – pobres, negros, gays e mulheres, cada um com suas particularidades – o direito de se defenderem da agressão direta da sociedade civil e do Estado. Quando a sociedade do trabalho entra em crise, mesmo que ele seja sua própria vítima, o próprio trabalhador pode tornar-se uma ameaça, porque é capaz de lutar a qualquer custo para resgatar um passado idealizado. Uma jangada de pedra se descolou da América do Sul e está mais próxima do que nunca do Oriente Médio.

Diogo Labrego de Matos é doutorando em Filosofia Moderna e Contemporânea pela UERJ

[i] cf. AGAMBEN, G., Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012. 1ª reimpressão

[ii] Wolfgang Streeck cita que, desde a década de 60, a participação nas eleições nos países centrais do capitalismo declinou de 84,1% para 72,5% entre 2000 e 2011 (STREECK, W. Tempo comprado: a crise adiada do capitalismo democrático. São Paulo: Boitempo, 2018).

[iii] Pesquisa do IBOPE de 26/9. Não foram divulgados números para o estado do Espírito Santo.

[iv] Censo do IBGE de 2010.

A Carne podre e a essência do capitalismo – Arlindenor Pedro

Existem momentos em que a realidade se aproxima totalmente da teoria !

Desde o século XIX a literatura marxista sabe que a  única função do capital é a sua eterna reprodução . Num  movimento  incessante o capital projeta-se na busca do lucro numa operação   automática  intermediada  pela mercadoria . Isto ocorre por que os homens criaram  estruturas (“leis econômicas”, “imperativos tecnológicos”, etc ) que acabaram por dominá-los, da mesma forma como na religião. Portanto,  o único sujeito real na sociedade capitalista seria o valor. Marx chamou a isto  de “Sujeito Automático ” . O valor asseguraria  que a sociedade humana existisse apenas para garantir que a sua acumulação nunca termine. Na verdade os homens se tornaram escravos de seus próprios poderes alienados !

No recente episódio do escândalo das carnes podres não chegaremos a lugar algum se mantivermos o nosso foco apenas na falta de caráter dos empresários que adulteram a qualidade dos produtos, ou mesmo na corrupção dos agentes do governo que permitiram que estes produtos chegassem ao mercado, ou ainda na existência de um pretenso plano maquiavélico das forças do imperialismo que almejam  destruir os empresários  nacionais que vendem para o exterior, a famosa burguesia nacional,  que neste momento  deveria ser defendida pela pátria ameaçada .

Sem minimizar as responsabilidades pessoais destes personagens avançaríamos muito se entendêssemos a questão a luz da própria essência do capitalismo que é transformar dinheiro em mais dinheiro .  Nesse sentido, os operadores deste sistema não estariam nem  aí se a carne está vencida, ou simplesmente está podre . O que importa é vender, derrotar a concorrência .

Os analistas de plantão fariam muito bem, neste momento onde através desta tragédia fica  claro o que acontece, onde a teoria se aproximava realidade, de mostrarem ao público a real face do sistema capitalista, um sistema que desfigura os homens transformando – os em feras, bárbaros que oprimem o próprio semelhante. Um sistema que precisa ser banido para que o homem possa ter um encontro com a sua humanidade .

 Da Obamania ao último combate – Gerd Bedszent

Comentários a uma vitória eleitoral não tão completamente surpreendente

Publicado na Revista Êxit

Uma estridente gritaria de horror domina os grandes media alemães perante o resultado das recentes eleições presidenciais nos EUA. Dos radicais de mercado de linha dura até às esquerdas que restam, toda a gente está de acordo que o presidente recém-eleito é um desastre. E, naturalmente, também não falta a acusação de que a esquerda é a culpada da vitória eleitoral do candidato presidencial republicano. O que, naturalmente, é um disparate, pois no fim até o (pequeno) Partido Comunista dos EUA apelara ao voto na neoliberal declarada Hillary Clinton. Significativamente, a vitória eleitoral do republicano arquiconservador Trump é aclamada na Alemanha apenas pela direita radical e pela ala direita dos partidos da coligação.

Donald John Trump, filho de um empresário dos EUA, é, sem dúvida, um contemporâneo extremamente desagradável; os seus ataques abertamente racistas e misóginos não precisam de ser aqui novamente comentados. Nem mesmo a sua biografia – apenas o que se diz na Wikipedia sobre as múltiplas falências e o actor falhado só por si seria suficiente para uma pessoa se rebolar a rir. Em público, o empresário aparece como multimilionário; se o é, de facto, é posto em dúvida por analistas económicos. O actual presidente é um camaleão político entrado pela porta dos fundos, que no passado mudou muitas vezes de pontos de vista e de filiação partidária.

Claro que Trump não é a primeira figura estranha trazida à presidência pelo boletim de voto, mas é provavelmente uma dos mais desagradáveis. A sua descarada manipulação de slogans de café da direita é um marco no processo de crescente decadência da política burguesa e integra-se no fenómeno pan-europeu da ascensão de partidos duvidosos dissidentes da direita, bem como na instalação de ditaduras presidenciais repressivas consumada em vários estados europeus. Esta decadência da política, por sua vez, resulta da crise da economia política burguesa.

Comércio livre e refugiados – com estes dois temas Trump conseguiu conquistar eleitores em massa. Ele anunciou que vai fortalecer a economia dos EUA por via da protecção estatal maciça; com a imposição de tarifas alfandegárias punitivas, as empresas seriam obrigadas a trazer de volta as instalações industriais deslocalizadas para o exterior. Além disso também favorece uma política de isolamento rigorosa e a expulsão em massa de migrantes ilegais. Para milhões de cidadãos norte-americanos atormentados pelo medo da queda, a sua promessa de criar empregos desta maneira foi provavelmente a famosa última réstia de esperança a que se agarraram.

O resultado da recente eleição nos EUA constitui, por isso, uma resposta equivocada da população à crise. Equivocada porque, embora as consequências desta crise – encerramento das instalações industriais, desemprego em massa, empobrecimento de amplos sectores da população, incluindo da classe média – tenham dominado a campanha eleitoral, contudo não foi abordada por ninguém a sua causa estrutural, o fim em si louco da produção capitalista.

O facto de a crise da economia mundial estar a progredir rapidamente já não é, entretanto, segredo para ninguém. É verdade que nas últimas décadas foi gerada uma breve recuperação em algumas regiões do leste e sudeste asiáticos, com base em baixos salários e legislação repressiva. Outras economias, pelo contrário – principalmente retardatários da modernização capitalista – arrefeceram e chegaram ao colapso económico e político. Vários estados africanos agora já só existem no papel, tendo-se dissolvido numa mistura de senhores da guerra, milícias étnicas, clãs mafiosos e hordas de bandidos vulgares combatendo entre si. Também outros estados – principalmente de regiões antes altamente industrializadas – estão a passar por um processo contínuo de erosão da sua economia nacional. Muitas localizações industriais desmoronaram-se; a produção foi completamente parada ou mudou-se para países de baixos salários. Minas de metal e de carvão foram fechadas porque as importações passaram a ser mais baratas. Robert Kurz falou, neste contexto, de uma “contradição lógica ou estrutural entre economia nacional e mercado mundial.” (1) Em resultado disso antigos trabalhadores da indústria caíram num buraco sem fundo, transformaram-se em sem-abrigo, em beneficiários do apoio social, ou tiveram de se agarrar arduamente a empregos precários para sobreviver.

A redução do poder de compra da população desencadeou, também nos EUA, uma espiral económica descendente, que arrastou consigo partes da classe média. Outras partes da classe média, a maioria pequenos empresários, embora (ainda) não atingidos, entraram mesmo assim em pânico e exigiram do governo a reversão deste processo de qualquer maneira. Exemplo de um tal protesto cívico de direita foi o obscuro movimento chamado “Tea Party”, que há dez anos ainda fazia manchetes em todos os media e hoje está desaparecido no Orco mediático. Mas também as organizações mais de esquerda dos adversários da globalização, que responsabilizam pelas distorções sociais, por eles acertadamente denunciadas, não as leis da fase final da produção capitalista de mercadorias, mas apenas a ganância de banqueiros criminosos, também elas abriram e abrem visivelmente o flanco a obscuros teóricos da conspiração, anti-semitas e racistas.

O facto de o aumento do desemprego em massa em todo o mundo resultar da terceira revolução industrial, ou seja, da substituição de trabalhadores assalariados por programas de computador e robôs industriais, quase não é tematizado. O processo, chamado sobretudo de “globalização” ao longo das últimas décadas, de desintegração das economias nacionais a favor de fluxos de mercadorias e financeiros vagabundeando sem entraves por todo o globo, contribuiu de facto para a situação desastrosa da economia dos EUA, entre outras. Robert Kurz descreveu esta globalização acertadamente como um “processo de escalada da crise, em que o capital […] foge das suas próprias contradições internas, daí resultando apenas que estas se desenvolvem mais acerbamente.” (2) No entanto é irreal pretender fazer este processo andar para trás simplesmente através de decretos estaduais, como anunciou Trump. Antes de mais a globalização já foi uma reacção à crise. E, em segundo lugar, já não há entretanto um “capital nacional”, que pudesse ser subjugado com ameaças de punição. Os emaranhados de filiais de empresas de primeira, segunda e terceira geração, distribuídos por todo globo, poderão facilmente contornar qualquer tipo de disposições nacionais. Também por isso os protestos dos radicais do mercado de linha dura contra o protecionismo anunciado por Trump foram muito limitados – provavelmente eles perceberam que se tratava de puro ruído de campanha eleitoral.

Algo diferentes se apresentam as coisas com as medidas anunciadas por Trump contra migrantes indesejados. Aqui estão pessoas reais. Estas podem ser atingidas pelas balas da polícia, apodrecer nas prisões, ou ser impedidas, com cercas de vários metros de altura, de entrar num país onde até nasceram em certas circunstâncias, ou em que têm vivido há muitos anos. A onda de repressão anunciada contra os migrantes não mudaria obviamente nada no estado desastroso da economia dos EUA. Mas dá sempre jeito poder acicatar a populaça contra os supostos culpados.

A próxima presidência de Donald J. Trump será provavelmente mais uma tentativa, de partes do sector arquiconservador das elites norte-americanas, de – contra toda a lógica – mudar bruscamente de direcção e, à escala nacional, fugir às consequências da crise global por eles próprios também promovida. Tentativa que, naturalmente, apenas pode fracassar.

Neste contexto se explica também a negação supostamente irracional das alterações climáticas feita por Trump. Na lógica enviesada do homem de negócios conservador, em que o próprio Trump também se enquadra, todas as formas de protecção ambiental aparecem apenas como incómodos factores de custo, que distorcem a concorrência, atravessados no caminho de um crescimento económico desenfreado: o capitalismo é uma lei natural. Que temos nós então a ver com isso, se em qualquer lugar as pessoas se vão afogar, morrer de sede ou ser envenenadas…

Tal como o “capitalismo verde”, elogiado no início da presidência de Obama, também a reversão conservadora anunciada sob Trump não pode levar ao crescimento económico, nem ao anunciado milagre de postos de trabalho. A crise global do capitalismo não pode ser sustida com muros altos, seja quem for que pague a sua construção. Os EUA estão irremediavelmente sobreendividados, pelo menos desde a última crise financeira, não estando, portanto, em posição de gerar crescimento económico artificialmente, por meio de um programa de estabilização neokeynesiano. E também a guerra económica com a China, anunciada por Trump, dificilmente resistiria – a China é não apenas o principal fornecedor de mercadorias, mas também o principal credor do país completamente sobreendividado. E a desregulamentação do sector financeiro, anunciada por Trump logo após a eleição, fará florescer de novo a economia das bolhas, algo limitada por Obama após o último crash. Quando irá estourar a próxima bolha? Com que quer o governo pagar o próximo “resgate bancário”? Está para breve uma inflação galopante?

A continuação da decadência da “moeda mundial” que é o dólar dos EUA, em todo o caso, provavelmente arrastaria também consigo o resto do mundo para o caos económico. A maquinaria global do capitalismo só funciona através do curso incessante de fluxos de mercadorias e fluxos financeiros. Se este circuito é de algum modo perturbado há o risco de parar definitivamente a máquina que já range e arqueja.

Sejam quais forem as formas concretas que a progressão da crise nos EUA possa assumir em breve, Trump não pode cumprir as suas promessas, nem satisfazer as expectativas dos eleitores. E, provavelmente, nem sequer vai tentar.

As rudes ideias de Trump sobre política económica certamente não foram questionadas a sério pela maioria dos seus eleitores. As anteriores elites políticas são culpadas de “fracasso”, por causa do permanente insucesso na gestão da crise. Queria-se, portanto, um presidente mais forte, que também fizesse o país forte novamente. A retoma económica – assim parece ser suposto na lógica enviesada dos suburbanos sacudidos pela crise – viria então quase por si só. Não se percebe aqui que “a política acaba por ser apenas uma esfera derivada e não possui nenhuma capacidade de intervenção autónoma” (3). O que um governo Trump pode comandar (quase) sem limites, no entanto, é a polícia e os militares.

Estarão os EUA agora a entrar numa ditadura fascista? Certamente que não. O fascismo clássico estava ligado a um determinado período histórico que há muito já pertence ao passado. A ditadura dos nazis alemães juntou da forma mais vil e cruel a “suplantação das relíquias estruturais corporativas, pré-modernas, guilherminas” (4) há muito fora de prazo com um programa de estabilização keynesiana barbaramente modificado. A “formação fordista forçada” (5), no entanto, já há muito ocorreu nos EUA; programas keynesianos de estabilização sistémica deixaram enormes montanhas de dívidas, sem conseguirem, afinal, parar o avanço da crise. Assim, no caso (bem possível) da eliminação das instituições democráticas nos EUA, só poderá tratar-se de uma repressiva ditadura de emergência.

A aclamação quase histérica de uma figura como Trump por segmentos da população resulta precisamente desta crise sem solução. E tem a sua lógica que a fanfarronice abertamente racista dele durante a campanha eleitoral tenha sido aceite de bom grado por muitas pessoas. Como Robert Kurz já escreveu, em 1993, “a xenofobia, o racismo e o anti-semitismo irracionais tornaram-se eles próprios uma função de crise do racionalismo democrático da economia de mercado.” (6)

O grande milagre de postos de trabalho, pintado pelo recém-eleito presidente durante a campanha eleitoral, irá falhar de qualquer maneira. E as imagens de simpatizantes de Trump eufóricos, actualmente ainda perseguidas pelos media, deverão muito em breve pertencer ao passado. Pode supor-se que fanáticos religiosos, teóricos da conspiração, anti-semitas e militantes da extrema direita recrutem muitos apoiantes entre o seu eleitorado em breve desiludido. Mas é muito duvidoso que o novo presidente dos Estados Unidos consiga ter sucesso a fazer o génio voltar a entrar na garrafa.

Haverá nos EUA, mais cedo ou mais tarde, uma guerra civil? Isso não está excluído. Lembre-se que já depois de uma primeira onda de desmantelamento de instalações industriais na década de 1990 – também causada pelo fim do rearmamento das forças armadas dos EUA promovido por Ronald Reagan – muitos dos trabalhadores industriais postos de parte e rebaixados como supérfluos sentiram-se traídos pelo seu próprio governo e organizaram-se em milícias armadas. Nessa altura, o movimento diminuiu alguns anos depois. Hoje a crise está consideravelmente mais avançada e atingiu sectores da população ainda mais amplos. E o abastecimento de armas de fogo não constitui problema nos EUA.

Com a erupção da violência que já arde em lume brando, porém, o país iria apenas partilhar o destino de muitas regiões do planeta, em que há muito está em curso a luta entre saqueadores armados pela distribuição dos destroços dos projectos de modernização falhados. A novidade no caso dos EUA, no entanto, seria tratar-se não de um estado periférico, mas sim do centro ideal da economia capitalista. O colapso económico associado a tal guerra civil iria provavelmente arrastar consigo para o abismo toda a economia mundial. E, uma vez que os Estados Unidos têm arsenais inteiros cheios de armas nucleares, uma tal guerra civil também teria consequências ainda mais altamente ruinosas para o resto do mundo.

Sem dúvida que, sob o governo Trump, se vai intensificar a repressão dos restos do aparelho de Estado em dissolução contra as acções desesperadas dos marginalizados. Assim, terá de se reforçar a democracia burguesa – como se divaga agora fantasmáticamente no mundo mediático liberal de esquerda – contra o avanço acelerado da direita radical? Sobre isso escreveu Robert Kurz: “A monstruosa estupidez e maldade do novo radicalismo de direita, porém, não surge por conta própria, mas tem de ser ser debitada exactamente na conta daquela democracia da economia de mercado que tem sido proclamada como forma definitiva da humanidade. […] A democracia é, ela própria, o útero donde isso sai.” (7)

(1) Robert Kurz: Das Weltkapital. Globalisierung und innere Schranken des modernen warenproduzierenden Systems [O capital mundial. Globalização e limites intrínsecos do moderno sistema produtor de mercadorias ], Edition Tiamat, Berlin 2005, p. 59.

(2) Ibid., p. 59.

(3) Robert Kurz: Die Demokratie frisst ihre Kinder [A democracia devora os seus filhos] in: Gruppe Krisis (Hg.) Rosemaries Babies. Die Demokratie und ihre Rechtsradikalen [Rosemaries babies. A democracia e os seus radicais de direita], Horlemann, 1993, p. 63.

(4) Ibid., p. 26.

(5) Ibid., p. 35.

(6) Ibid., p. 45.

(7) Ibid., p. 11.

Original Von der Obamania hin zum letzten Gefecht. Publicado na homepage da revista EXIT! http://www.exit-online.org/ em 14.11.2016. Tradução de Boaventura Antunes

http://www.obeco-online.org/

http://www.exit-online.org/

100 mil visitas ! Estamos orgulhosos ! 

 

Desde o final do ano de 2012 estamos aqui !

Em 2017 entraremos  no nosso quinto ano de existência, período onde fomos amadurecendo e tendo uma melhor compressão da realidade do país e do mundo que nos cerca .

Nesses anos muitas coisas aconteceram .

Após  as ocupações   de logradouros públicos que ao estilo Occupy Wall Street explodiram  em grandes metrópoles do país,   como todos,  fomos surpreendidos pelas extraordinárias jornadas de 2013 que acordaram o gigante Brasil e  que pôs nas ruas as mais variadas correntes sociais,  que até hoje teimam em ser protagonistas da nossa história recente .

Naquele momento fomos  testemunhas   do pânico que tomou de assalto as elites dirigentes,  que viram  os seus  palácios de governo, as prefeituras e câmaras municipais cercadas pelo povo, na sua maioria jovens, e que fizeram os prefeitos e governadores desorientados recuarem nas suas decisões de aumento  das tarifas de transportes .

Ansiosos, assistimos a  um fato inédito:  a própria presidente do país, em rede de tv,  se dirigiu  à população , oferecendo um pacote de reformas, com o objetivo de tirar das ruas as massas de manifestantes . Vivia, então, o Brasil a sua primavera, à exemplo de outros povos em todo o mundo .

Na ocasião, para nossa surpresa , os protagonistas-organizadores desta histórica explosão, também atônitos com os milhões de cidadãos que acorreram às  nas ruas, não se sentindo  preparados para a continuidade desta luta,  se retiraram das suas direções, deixando os protestantes  decidirem seus próprios rumos .

Infelizmente, tal decisão  fez com que  este movimento a se estilhaçasse em inúmeros outros  movimentos autônomos,  que foram facilmente  dominados pela repressão após serem descaracterizados  pela mídia conservadora do país .

A seguir, como  todos,  fomos testemunhas da mais escandalosa e milionária campanha política de presidente, governadores e deputados  da nossa história  – a campanha de 2014,  onde imperou a mentira e o esforço de dizer aos brasileiros que estávamos imunes  à crise que há muito tempo assolava os países capitalistas,  e que já teríamos  ingressado no  clube fechado de países  capitalistas do  primeiro mundo .

As promessas de reformas feitas nas jornadas de julho 2013 foram então   esquecidas,  e passamos a  viver  um mundo de fantasias criado pelos marqueteiros de plantão !

Porém, num  passar de tempo relâmpago , após a vitória da presidente Dilma, vimos o povo constatar que o que lhes foi dito na campanha era mentira e que o país estava falido e à beira do abismo econômico e social .

Acompanhamos, então, a explosão de grandes massas nas ruas, desta vez com características deferentes das jornadas juvenis de 2013 e  a ruptura da aliança das elites com o governo populista do PT – aliança esta que desde a primeira eleição de Lula, consubstancializada pela ” Carta aos Brasileiros” administrava  o  país.

O Brasil passou  a viver,   então,  o  período do fim da administração da barbárie, que  até então se fazia através da aliança entre o PT  e as forças conservadoras ,  e um novo momento : o aflorar de uma clara disposição das forças reacionárias em  conter o povo e por fim a todas  as  poucas conquistas sociais que foram  possíveis  desde a  Revolução de 30.

Hoje, vivemos um momento onde as classes  dominantes,  após terem se desvencilhado de seus antigos aliados populistas,   se esforçam em  implantar uma política recessiva e de austeridade seletiva, colocando por terra as liberdades democráticas obtidas na Carta de 1988 e as  insuficientes conquistas sociais e econômicas que deram forma   ao país desde meados do século XX . Após a ilusão do lulismo o  tacão  de ferro da elites se abate sobre o povo !

Durante estes períodos os textos publicados pelo nosso blogue procuraram refletir estas mudanças e  servir  como elemento acessório para a formulação de saídas  para a crise estrutural no qual o país está mergulhado .

Mais do que nunca, os conceitos emitidos no seio da Crítica do Valor se mostram para nós  de uma importância vital para a compreensão da realidade que nos cerca,  mormente em relação a caracterização da crise por que passamos entendendo- a como  inserida na profunda crise do colapso da economia capitalista contemporânea.

Tal postura  nos permitiu ver que esta crise  atingiu o seu limite e longe de ser mais uma crise conjuntural  apresenta-se como um processo de colapso  que está redesenhando  o mapa político do globo terrestre , formulando uma nova relação entre as nações onde prepondera o Estado de Exceção, fórmula  político-jurídica encontrada pelo capital para continuar se expandindo no meio da barbárie que vai se instalando no seio da humanidade .

Esperamos nesta nova etapa de nossa existência aprofundar o nosso conhecimento sobre esta nova fase do capital que apresenta-se como inteiramente diferente de suas fases anteriores .

Para nós, salta aos olhos que o capital após executar sua 3 Revolução Industrial pode  através da incorporação das incríveis técnicas obtidas pela micro eletrônica ser  capaz de gerar riquezas prescindindo do trabalho humano , inaugurando  um momento histórico onde imensas massas de seres humanos  passaram a ser descartáveis – massas de viventes sem função econômica,   num mundo onde os Estados Nações se desfazem e se governa através das grandes corporações transnacionais,  numa economia fictícia onde impera o dinheiro sem valor .

Aquilo que era o horrendo destino formulados nas ficções  hollywoodianas vai então tornado-se  realidade, ficando  mais visível ainda com as aceleradas  mudanças climáticas e pela exaustão das reservas energéticas a terra.

Assistimos  horrorizados a humanidade viver um momento onde sua própria existência como espécie correr o risco da extinção . Um sistema econômico e social criado  pelo homem à cerca de 300 anos desenvolveu estruturas abstratas de dominação que através  do fetiche da mercadoria domina a vida e os desejos de bilhões de seres consumistas, que como vírus sem controle exaurem todas as forças vitais do planeta.

Por sua prática predatória o capitalismo tornou-se o principal inimigo da humanidade e nos faz viver um momento decisivo : ou nós o superamos como forma de relação econômica e social ou  penetraremos num estágio profundo de barbárie que nos levará a extinção .

Nosso blogue propõe-se a ser um instrumento de reflexão deste momento e abrir perspectivas para uma nova etapa da nossa história – o começo da nossa emancipação, única forma de escaparmos deste futuro assustador !

Da redação,

Serra da Mantiqueira, setembro de 2016.
A balsa da medusa – quadro de Théodore Géricault.

Faça contato.Preencha e envie o formulário abaixo :

 

 

 

 

 

No olho do furacão – impressões sobre a crise na Grécia – V

QUE ESCOLHA RESTA À GRÉCIA DEPOIS DAS ELEIÇÕES?

Πἁντα ῥεῖ – apenas na Grécia não?

Um artigo de Richard Aabromeit


As posições

“… Foi simplesmente como se ninguém tivesse dito nada”.

Na tradução alemã de uma conversa de Yanis Varoufakis com o New Statesman, reproduzida no Neues Deutschland de 16 de Julho de 2015, o antigo Ministro das Finanças grego exprime o seu espanto com o facto de os/as seus/suas colegas do Eurogrupo, nas negociações sobre a dívida soberana da Grécia e um possível terceiro pacote de resgate para a Grécia, não terem querido ter nenhuma discussão com ele sobre o assunto ou sobre questões económicas e terem ignorado simplesmente as suas observações no resultado final. Todos os seus argumentos e análises foram de certo modo recebidos pela competência e poder reunidos da política financeira europeia, sobretudo pelo Dr. Wolfgang Schäuble, mas mesmo assim efectivamente ignorados. Isso indica quão isolado estava o governo grego do ΣΥΡΙΖΑ (1) e Varoufakis pessoalmente desde o início destas negociações com os outros 18 membros do chamado Eurogrupo (2), com a Comissão Europeia e com o FMI. Este Eurogrupo é uma construção única que, segundo a avaliação de um parecer do parlamento alemão, “fundamentalmente não tem poder para uma decisão independente”. Isto deve ser visto em ligação com a discussão actualmente em curso nos média e entre o público em geral sobre o tema da Grécia e da sua dívida pública, em geral, e sobre as condições para o terceiro pacote de ajuda recentemente aprovado, em especial.

Embora o SYRIZA se tenha imposto claramente de novo nas eleições de 20 de Setembro, nada de decisivo vai mudar, a não ser Alexis Zipras a revelar-se definitivamente como o Gerard Schröder grego, continuando a aplicar-se que a situação na zona euro, sobre o tema da Grécia e também em geral, é antes de mais marcada essencialmente por duas posições à primeira vista fundamentalmente diferentes: de um lado estão os que, partindo de ideias neoliberais ou economicamente conservadoras, consideram a política de austeridade adequada e promissora. As suas posições e exigências prevaleceram até agora no essencial, como era esperado: a privatização das empresas públicas (e lucrativas) tais como portos e aeroportos deve ser promovida; o orçamento de Estado deve apresentar a médio prazo um excedente primário (3) de 3,5%, o que só pode ser alcançado através de cortes, especialmente na área social; a reformulação do sistema de pensões deve garantir que a idade de reforma é aumentada para 67 anos e que a reforma antecipada será significativamente penalizada; o IVA será aumentado de 13% para 23%; as regras para a contratação colectiva dos salários serão revistas.

Do outro lado estão aqueles que rejeitam estas medidas de austeridade penalizadoras da maioria da população e favoráveis às instituições de crédito da Grécia. Aqui pertencem em primeira linha todos aqueles que em sentido amplo se enquadram nas posições do jornal TAZ, isto é, pessoas e grupos que insistem em defender posições solidárias, críticas do crescimento e difusamente anti-capitalistas. Como exemplo podem ser aqui apresentados comentários publicados pelo TAZ no seu site (taz.de) em 06.09.2015: “Ao mesmo tempo, a crise também obriga a encontrar novas formas de viver e trabalhar juntos e aumenta os espaços onde são testadas. Projectos que há anos vêm sendo promovidos por grupos anarquistas, anti-fascistas e de solidariedade ganham agora grande adesão, surgem novas ideias. Há espaços de auto-gestão e projectos de vizinhança, clínicas de solidariedade, ilhas sem economia monetária, lojas gratuitas, economia de troca, cooperativas, oficinas e projectos de auto-ajuda. Modelos de base democrática com decisões consensuais e trabalho colectivo tornam-se mais conhecidos e familiares. Alguns gregos são, portanto, obrigados a juntar-se para construir uma sociedade solidária e pacífica a partir de baixo.” Os neo-keynesianos, cujo pensar é puramente do espectro político convencional, também lhe pertenceriam; como, porém, do seu lado, para além da exigência de um extenso mas não especificado programa de investimentos, bem como do aumento da despesa pública, pouco houve que se ouvisse, principalmente na área social, por isso mesmo vou deixá-los subsumidos indiferenciadamente na posição de economia solidária do TAZ.

Uma terceira posição que surge mais marginal, arqueomarxista de cima a baixo, pode ler-se na Junge Welt de 18/19 de Julho de 2015: “Uma vez que tanto os interesses das classes dominantes como os das classes dominadas são contraditórios e a luta de classes pode desenvolver-se sempre em direcções diferentes, de modo nenhum estava claro desde o início como terminaria o processo de negociação entre o governo grego e os credores.”

Outra argumentação mais periférica, construída com base na pura política de poder, afirma que a postura intransigente e de linha-dura da Troika e, em particular, do Ministro das Finanças alemão só tinha dois objectivos: em primeiro lugar, a rejeição clara do primeiro governo de esquerda radical da UE, e, em segundo lugar, a prevenção de um precedente. No entanto, podem-se reconhecer fragmentos desta última posição mais ou menos atenuados em quase em todas as posições.

Em resumo e ligeiramente simplificado, portanto, em primeira linha estão os defensores de uma férrea política de austeridade, grandes privatizações e ajustamentos estruturais drásticos, contra aqueles que defendem um aumento da despesa pública, um amplo perdão da dívida e o início de um programa de investimentos, bem como a exploração de oportunidades de métodos alternativos de gestão para medidas mais eficientes. Nem os/as marxistas da luta de classes nem quaisquer outros/as apresentaram propostas – sequer – que tivessem de ser discutidas a sério. A última das posições acima, ou seja, a da política de poder, quase parecendo de teoria da conspiração, está difundida em doses mais ou menos fortes um pouco por todos os outros pontos de vista e além disso é dificilmente perceptível, de modo que gostaria de me concentrar aqui nas duas primeiras. Uma vez que nenhum dos peritos que aparecem na esfera pública insistiu afinal no tema “Grexit”, também não vou focar este tema; de facto ele acaba por ser de importância secundária, o que também se deduz da minha argumentação.

 O que estas posições esquecem

As semelhanças entre os pontos de vista acima brevemente delineados muito provavelmente não são reconhecidas pelos respectivos representantes, sendo que as discussões sobre as medidas a tomar e sobre as razões para as desgraças gregas são por vezes tão violentas que fica a impressão de diferenças irreconciliáveis. Essas semelhanças podem ser resumidas dizendo que em toda a parte se toma uma situação actual por puramente estática (ver abaixo) e se a considera má, mas as razões para isso, incluindo a história cronológica da formação desta miséria, são ignoradas por uma questão de simplicidade. Também a negação ou recalcamento dos principais conjuntos de problemas com que a Grécia se confrontou cada vez mais desde a sua entrada no Eurogrupo, ou seja, o seu forte atraso na produtividade do capital e do trabalho de acordo com os critérios da economia política – para não falar de critérios marxistas – aglutina involuntariamente a grande maioria dos comentários e exigências. Assim, as diferentes propostas para melhorar a situação da Grécia não se baseiam na percepção dos problemas reais, nem mesmo na consideração de todos os dados empíricos relevantes, mas unicamente no ponto de vista político de cada um dos participantes na discussão.

Repetidamente se pode ver em quase todos os comentários, relatórios e debates sobre o tema da Grécia uma incrível falta de reconhecimento dos factos – real ou simulada –, a adesão aos velhos preconceitos e a criação de novos, e muitas vezes também uma simples projecção de situações experimentadas cá na terra sobre a situação na Grécia. Acrescem ainda nalguns casos ressentimentos patéticos e muita demagogia de conversa de café. A pergunta seria: será isto um processo de recalcamento e de negação, sendo isso realmente incrível, e será isso uma conduta dos média com a qual temos de nos acostumar a partir de agora – se é que não o fizemos já há muito tempo? Talvez os/as representantes dos média não possam ou não queiram “relatar” de modo diferente, porque se não eles teriam de descrever e explicar uma situação muito complicada nos seus jornais, blogs e emissões, o que iria possivelmente aborrecer ou exigir demais aos/às consumidores/as destes meios e poderia assim arruinar a edição, o número de cliques ou a audiência. Pois é bastante mais simples, mais promissor e não em último lugar mais rentável denunciar generalizadamente e corroborar com um par de episódios a alegada preguiça e/ou a suposta manha de todo um povo, ou, em alternativa, flagelar a suposta falta de firmeza do ex-Primeiro-Ministro Alexis Tsipras.

Mas, independentemente de se preferir a política de austeridade repressiva completamente falhada ou a política do postulado neo-keynesiano completamente desesperado junta com umas ideias ilusórias de economia solidária, de ambos os lados alguns factos realmente complicados, mas bastante óbvios, não são abordados ou pelo menos não são abordados suficientemente. Como brincadeira mais recente, é de notar que de algum modo todas as partes existentes no espectro da esquerda favorecem secretamente uma espécie de Grexit (4) de esquerda – à semelhança do que também Schäuble faz – ou pelo menos têm-no em consideração, como recentemente Tom Strohschneider no Neues Deutschland de 14.08.2015: “Grexit de esquerda?”

A situação

Mesmo a comparação de princípio não expressa e muitas vezes negligente, seja consciente ou inconscientemente, da economia grega com as de nações industriais tradicionais, como a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda, ou a França, e mesmo com a dos EUA e do Japão, mostra claramente que qualquer abordagem diferenciada continua a não ser tida em conta e fora de todas as ideias nos dois pontos de vista principais dos especialistas sobre a Grécia. A partir desta comparação implícita, tira-se em geral a conclusão de que a Grécia de hoje não deveria nem poderia ser, simplesmente e sem penalização, libertada da sua situação complicada. Se a Grécia apresentou uma dívida tão grande, então “os gregos”, se fazem favor, também não devem evitar as consequências e, finalmente, devem tomar a sério a poupança, a auto-regulação, o reembolso etc.

Uma vista de olhos aos números da econometria já nos revela algumas diferenças em relação aos centros capitalistas dos países plenamente industrializados: o sector terciário grego, ou seja, o sector de serviços, representa actualmente cerca de 71% do PIB, só o sector do turismo contribui com 16%, sem comparação com qualquer outro país da UE em termos de percentagem do PIB. O sector secundário, isto é, a indústria, contribui na Grécia com cerca de 16%, o primário (extractivo), ou seja, em especial agricultura e pescas, ainda assim com cerca de 6%, mais uma vez sem comparação com qualquer outro país da UE. Isto significa: a agricultura e o turismo constituem quase um quarto do PIB; agora se tivermos em conta uma parte do sector secundário, ou seja, a transformação industrial de produtos agrícolas produzidos no país, então aproximamo-nos de um terço do PIB que não tem nada a ver com a indústria clássica; mas é apenas aqui que ocorrem os ganhos de produtividade relevantes e por isso ainda se criam – embora numa escala menor que nunca – novos postos de trabalho. Para já não falar do atraso da economia grega no tema da produtividade industrial no seu conjunto; o nível desta produtividade é uma categoria global e exige a todos os que desejam participar no mercado mundial ou no mercado europeu que atinjam pelo menos este nível. É justamente aqui que a Grécia tem o seu problema central. É verdade que os dados da econometria burguesa dão somente informações limitadas e, principalmente, apenas indirectas sobre a realidade económica; mas, como primeira evidência empírica, eles servem com certeza: Enquanto os/as gregos/as trabalham em média 2.034 horas por ano, em comparação na Alemanha trabalha-se apenas 1.393 horas por ano; no entanto durante este tempo na Grécia produz-se um PIB por hora trabalhada de somente cerca de US $ 36; em comparação, a média na UE é de cerca de US $ 50 e na Alemanha de US $ 62. Assim se refuta o preconceito dos gregos “preguiçosos”, mas também se mostra que os problemas estruturais na Grécia estão de facto essencialmente na quase irrecuperável baixa produtividade da economia. É apenas uma ilusão acreditar que esta situação pode mudar para melhor com poupanças e privatizações.

A dívida pública da Grécia ascende actualmente a mais de 310 mil milhões de €, ou seja, cerca de 177% do PIB, que atingiu em 2013 cerca de 182 mil milhões de €. Em comparação, em 2007, ou seja, pouco antes do crash global, o rácio da dívida pública grega era apenas um pouco mais de 100% do PIB, em 1987 apenas cerca de 50%. O aumento acentuado particularmente depois de 2007 é devido ao grande esforço do Estado grego e das instituições (BCE, FMI, Comissão Europeia) para o resgate dos bancos (privados) gregos e não à extravagância ou devassidão desse Estado. Com o resgate dos bancos em 2010, as dívidas antes privadas (dos bancos privados gregos) foram em grande parte nacionalizadas (5) – e agora é exatamente essa censura que é feita ao mesmo Estado. Em comparação, na Alemanha o mesmo rácio da dívida pública em função do PIB ascendeu, também em 2013, a cerca de 78%, nos EUA a cerca de 100%, em Espanha quase 85%, na China ainda apenas cerca de 25%. A taxa de desemprego na Grécia em Março de 2015 foi de 26%, em Espanha quase 25% – em qualquer outro lugar na UE (NB: incluindo Portugal) significativamente menor. Estes dados serão analisados em mais detalhe abaixo.

Quem quer que olhe para estes números com razoável atenção e os interprete com um pouco de conhecimento de causa sabe que a Grécia nunca vai conseguir pagar as dívidas (6) e até mesmo o serviço dos juros é pouco provável que se mantenha sem permanentes reestruturações e diferimentos. Com o terceiro programa de ajuda recentemente adoptado, em que mais medidas de austeridade constituem alegremente a tónica principal, isso também não estará em vias de mudança. Estranhamente, o peso da dívida na Grécia, de facto, foi quase completamente nacionalizado, e os governos de Tsipras tinham começado as primeiras acções no âmbito dos requisitos de austeridade – no entanto: as dívidas praticamente não diminuíram. Ainda assim, os neoliberais dizem teimosamente que apenas é preciso esperar até que se mostrem os efeitos benéficos das suas medidas!

Apesar de ser mínima a probabilidade do pagamento da dívida da Grécia, mais implícita que explicitamente há ou tem de haver como que um consenso entre todos os participantes no debate, dos arruaceiros neoliberais passando pelos covardes neo-keynesianos e pelos sonhadores da economia solidária até aos espertalhões arqueomarxistas, em toda a parte se procedendo como se a Grécia tivesse de, ou seja, os seus/suas contribuintes (seja lá isso o que for concretamente, sendo que o pagamento dos impostos devidos pressupõe supostamente algum tipo de livre vontade) devessem/pudessem/tivessem de efectuar realmente este pagamento alguma vez de algum modo. Só assim se poderá entender mais ou menos por que é que a rigidez de Schäuble e da “Troika” assume tais proporções e neste ponto permanece sem resistência apreciável. E naturalmente: se se (i. e., o resto de Eurolândia) mostrasse tolerância para com a Grécia, em seguida também todos os outros países com problemas viriam rapidamente a correr e também quereriam qualquer alívio ou ajuda (financeira)!

Agora é preciso aqui insistir vigorosamente de novo em que os dados e comentários anteriores (e também os que seguem) assentam exclusivamente nos números burgueses da econometria. Se tivermos em consideração o facto de entre 1986 e Junho de 2010 ter havido na Grécia apenas um instituto de estatística, na dependência do Ministério da Economia e Finanças (ou seja, politicamente influenciável de imediato) e de somente em Julho de 2010 ter sido criado um instituto de estatística independente do governo, haverá certamente dúvidas sobre a validade dos números. (7) Mas o que, apesar de tudo, decorre da situação incerta dos dados é duplo: em primeiro lugar, a Grécia, por causa do peso dos juros e reembolsos, não vai dispor de nenhuma margem de manobra para qualquer desenvolvimento económico no futuro previsível. Em segundo lugar, o atraso da Grécia no que respeita à produtividade industrial em relação aos outros países da UE e da zona euro é demasiado grande para poder ser colmatado a médio ou menos ainda a curto prazo. Por outro lado, e isto em geral não é realmente silenciado, mas é pouco referido, a situação social de uma grande parte da população grega não é apenas de miséria, mas cada ano é ainda mais miserável devido às medidas introduzidas com a crise económica ocorrida em 2008. Por exemplo, o PIB na Grécia caiu em termos reais em mais de um quarto do seu valor entre 2008 e 2013. As consequências da crise económica e financeira e das medidas impostas são devastadoras, como sublinham a título de exemplo alguns números (8):

  •  – De 2011 a 2013 cerca de 70.000 empresas entraram com pedido de insolvência, estando em risco de falência um número estimado de mais de 180.000;
  •  – O rendimento médio caiu cerca de 22% entre 2009 e 2013; juntamente com o aumento dos preços em mais de 10% durante o mesmo período, isso resulta numa perda de poder de compra da maioria da população de quase um terço em quatro anos;
  •  – Quase metade dos pensionistas recebem no máximo 500 € por mês;
  •  – 38% dos gregos e das gregas vivem abaixo do limiar da pobreza;
  •  – Quase dois terços das pessoas com menos de 25 anos estão desempregadas;
  • – Cerca de 800 mil pessoas (em cerca de 11 milhões, ou seja, sete por cento da população grega, incluindo lactentes e crianças) já não têm acesso ao serviço de saúde.

Se Angela Merkel e Wolfgang Schäuble queriam realmente estabelecer a Grécia como exemplo, custe o que custar (9), então exactamente isso já foi muito bem conseguido até hoje – só que a situação não tem melhorado desde então nem vai melhorar no futuro. Apenas não se agravou (ainda?) dramaticamente porque na Grécia as famílias e clãs (precisamente por causa das suas relações sociais tradicionais, ou seja, do ponto de vista dos centros capitalistas, atrasadas) ainda são capazes não só de livrar da ruína final os necessitados (desempregados, pobres, viúvas, jovens, idosos etc.) e mantê-los no círculo dos socialmente ainda reconhecidos, mas também de considerá-los com toda a naturalidade.

As razões

As razões para a miséria na Grécia são muito referidas por todos os lados; a maioria das vezes servem para justificar que a Grécia tem de se confrontar com a sua situação actual, mas infelizmente estão cheias de calculismo, de preconceitos e de medo. Das duas posições principais sobre a crise da Grécia acima mencionadas, ou seja, a neo-liberal e a neo-keynesiana / da economia solidária, foram de facto lançadas para discussão algumas propostas para remediar esta crise (ver acima); mas, no que respeita às razões para o surgimento da crise, pouco se pode daí aproveitar além de banalidades. Ora quase ninguém quer tomar nota a sério destas razões no quadro da problemática da Grécia. Estas razões, de facto, já podem ser lidas nas estatísticas e relatórios conhecidos; mas só podem ser entendidas (quase heuristicamente) com a ajuda de uma reflexão razoavelmente intensiva e com base em todos os dados, portanto não apenas com base nos aprazíveis dados empíricos. A quem conseguir desencadear este processo de reflexão de forma propositada e consistente não lhe escapará que o desenvolvimento de crise do capitalismo contemporâneo leva a problemas enormes mesmo nos centros do processo de valorização (10); nas extremidades dos centros, por exemplo na Grécia, estes problemas já se mostram de forma claramente agravada; da situação da periferia (11) não vamos falar aqui. Ora esta propensão para a crise consiste em que durante cerca de 50 anos globalmente foram vítimas do aumento da produtividade mais trabalhadores do que os que foram procurados de novo graças à expansão dos mercados, a novos produtos, ou devido à redução dos custos do trabalho. Se isto já nos centros levou a efeitos secundários muito desagradáveis, por exemplo, na Alemanha, a relações de trabalho cada vez mais precárias, em países à partida economicamente muito mais fracos, como Grécia, o mesmo mecanismo de acção só poderia levar a consequências ainda piores. Infelizmente, e isso simplesmente não é notado nem tomado em consideração pela chamada esquerda ou pelos progressistas, as correntes principais acima mencionados (neoliberais e neo-keynesianos / defensores da economia solidária) a este respeito não diferem nada entre si. Mas eles ainda lutam entre si com muita força – eu pergunto-me: com que propósito?

Qual deve ser a direção?

Medidas políticas significativas não podem visar medidas estruturais ou de austeridade pseudo-realistas, uma vez que de qualquer maneira não conseguem fazer nada, excepto aumentar o sofrimento de uma grande parte da população helénica. Pelo contrário, elas teriam de assumir um carácter que aceitasse a afirmação da formação social existente, em que com quaisquer outras medidas a curto ou a médio prazo na Grécia nada pode ser alterado na valorização do capital, ali ou em outro lugar, ou até mesmo globalmente. Portanto, medidas significativas e bem sucedidas devem ser escolhidas exclusivamente com a finalidade de aliviar o sofrimento de cerca de um terço da população grega, e simultaneamente mostrar a todos aqueles que ainda acreditam no milagre grego ou europeu que tais medidas são a única coisa que resta ser feita pelas pessoas que não reúnem a coragem para pôr em questão o todo, a totalidade social.

Conclusão

A verdadeira conclusão pode ser apresentada de certo modo breve e vertida num formato de tabela simples, que contém apenas sete pontos e pode representar um exemplo de outro tipo:

1. A Grécia não poderá pagar o serviço da sua dívida a médio e longo prazo sem um prejuízo económico e social ainda mais maciço;

2. A Grécia é o país da zona euro que tem mostrado a menor produtividade económica;

 3. A Grécia é o país da zona euro em que podem ser sentidos mais claramente os efeitos da crise geral e global, especialmente na “população média”;

 4. No quadro da valorização do valor capitalista, não há qualquer possibilidade de oferecer à Grécia uma perspectiva satisfatória de melhoria sustentável da situação, seja no domínio económico, seja no domínio social;

 5. Só a melhoria da situação social e financeira dos mais afectados pode ser um objectivo razoável das propostas políticas de pessoas que se julgam críticas da sociedade;

 6. De tudo o que foi dito decorre que uma redução geral ou uma moratória da dívida e a preparação de um pacote social para a terceira parte mais necessitada dos residentes na Grécia seria a única exigência realista para não sucumbir a quaisquer fantasmagorias neo-liberais ou neo-keynesianas ou até mesmo de economia solidária.

É preciso deixar bem claro que as posições neoliberais-conservadoras (palavra-chave: austeridade) têm de ser de facto criticadas por causa das suas consequências profundamente anti-sociais; e também temos de esclarecer que as exigências neo-keynesianas (palavra-chave: programas de investimento) não podem deixar de permanecer tão irrealistas como desesperadas e ineficazes; não em último lugar devemos realçar particularmente que as possibilidades apontadas pelos/as representantes da economia solidária (palavra-chave: auto-gestão e projectos de vizinhança) não representam nenhuma contribuição para o problema global, por isso sendo classificadas pelos afectados como cínicas e arrogantes. De qualquer modo não resta à Grécia nenhuma escolha depois das recentes eleições …

Quem na discussão do problema Grécia for suposto acalentar fantasias grandiosas, no que diz respeito à transformação ou mesmo ao derrube do capitalismo, deve tomar nota que a melhoria da situação dos desfavorecidos deve de facto ser saudada como humanitária e também aqui merece ser apoiada, mas não está em posição de contribuir absolutamente nada para suplantar a nossa formação social!

(1) Συνασπισμὀς Ριζοσπαστικἠς Αριστερἁς, em Português: Coligação da Esquerda Radical (“SYRIZA” de forma abreviada nos média).

(2) O chamado eurogrupo é constituído pelos seguintes países: Bélgica, Alemanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Holanda, Áustria, Portugal, Eslováquia, Eslovénia, Espanha e Chipre.

(3) Isto é, sem o serviço da dívida.

(4) Ou seja, a saída da Grécia do euro, que seria apoiada também justamente pelos partidos de esquerda…

(5) Os bancos e companhias de seguros privados contribuíram para o efeito, renunciando a cerca de 37 mil milhões de euros dos seus empréstimos em 2011 – podendo, porém, transferir as respectivas responsabilidades para o Estado grego.

(6) Em rigor isto aplica-se a muitos países em todo o mundo!

(7) Uma ideia verdadeiramente horrorosa para os/as estatísticos/as e construtores/as civis, bem como para os/as funcionários/as do fisco na Alemanha: apenas até 2020 terá de haver na Grécia um registo predial – por outras palavras, até lá, nada!

(8) Todos os números relativos às consequências sociais são tirados de: http://www.zeit.de/wirtschaft/2013-07/griechenland-sparen-krise/seite-2; acesso em 01.09.2015; DIE ZEIT refere-se aí ao especialista da ONU para a pobreza, Cefas Lumina, a Dimitris Asimakopulos, presidente da Associação de Pequenos Empresários Gregos, à Associação Grega da Câmara de Comércio e Indústria, bem como à própria pesquisa.

(9) Mais ou menos isso presumia DIE ZEIT em Julho de 2013.

(10) Esses centros são: América do Norte, Japão, China Oriental, Taiwan, Singapura, Coreia do Sul, Reino Unido, França, Benelux, Alemanha, Áustria, Suíça, Norte da Itália, Escandinávia.

(11) Por periferia entendo: África, grande parte da Ásia Ocidental e Central, América do Sul sem o Brasil.

Original Vor welcher Wahl steht Griechenland nach der Wahl? Πἁντα ῥεῖ – nur in Griechenland nicht? em http://www.exit-online.org em 25.09.2015

http://obeco.planetaclix.pt/

 http://www.exit-online.org/

No olho do furacão – impressões  sobre a crise na Grécia  – IV 

Apocalipse grego: Versalhes ou Brest-Litovsk?- Um texto de Slavoj Zizek*

Slavoj  Zizek , philosophe slovene, auteur du livre  " Bienvenue dans le des    ert du reel" PARIS, FRANCE , 29/11/2005

Quando o breve ensaio “A coragem da desesperança”, sobre a Grécia pós referendo, foi reproduzido pelo In These Times, mudaram o título para “Como Alexis Tsipras e o Syriza ganharam a partida contra Angela Merkel e os eurocratas “.

Embora eu efetivamente acredite que a aceitação das condições da União Europeia (UE) não foi uma simples derrota, estou longe de uma visão tão otimista. Abdicar do NÃO no referendo para dar um SIM às exigências de Bruxelas representou uma comoção verdadeiramente devastadora, uma dolorosa e frustrante catástrofe. Para ser mais preciso, foi um apocalipse nos dois sentidos da palavra, a habitual (catástrofe) e a original literal (descobrimento, revelação): o antagonismo básico da situação, o beco sem saída ficou claramente exposto.

Muitos comentaristas de esquerda se equivocaram ao ler o conflito entre a UE e a Grécia como o conflito entre a tecnocracia e a política: o tratamento da UE à Grécia não é tecnocracia, e sim política, em seu estado mais puro, uma política que age contra os interesses econômicos – como ficou estabelecido claramente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), um autêntico representante da fria racionalidade econômica, que declarou o plano de resgate inviável).

 

Em todo caso, foi a Grécia que representou a racionalidade econômica e a UE a que representou a paixão político-ideológica. Depois que reabriram os bancos e a bolsa do país, se produziu uma tremenda fuga de capitais e uma queda das reservas, que não foram simplesmente um sinal de desconfiança com o governo do Syriza, e sim de desconfiança com as medidas impostas pela UE, uma mensagem descarnadamente clara de que (tal como estamos acostumados a dizer) o próprio capital não acredita no plano de resgate da UE – e, aliás, a maior parte do dinheiro emprestado à Grécia irá aos bancos privados ocidentais, o que significa que a Alemanha e outras potências da UE estão gastando o dinheiro dos contribuintes para salvar a seus próprios bancos, que cometeram o erro de conceder empréstimos impossíveis de cobrar, para não falar do fato de que a Alemanha se beneficiou bastante da fuga de capital grego da Grécia à Alemanha.

Quando Varoufakis justificou seu voto contra as medidas impostas por Bruxelas, comparou o acordo com o Tratado de Versalhes, que era injusto e que levava em seu seio uma nova guerra. Embora o paralelo seja correto, eu preferiria fazê-lo com o Tratado de Brest-Litovsk, entre a Rússia soviética e a Alemanha, nos princípios de 1918, no qual, para consternação de muitos de seus partidários, o governo bolchevique cedeu às exorbitantes demandas da Alemanha. Certo, se retiraram, mas isso lhes deu um respiro para fortalecer seu poder e esperar. O mesmo acontece com a Grécia hoje em dia: não estamos no final, a retirada grega não é a última palavra, pela simples razão de que a crise vai voltar, em dois anos mais, ou antes, e não só na Grécia. A missão do governo do Syriza é se preparar para esse momento, para ocupar posições e planejar as opções pacientemente. Manter o poder político nessas condições impossíveis, porém, oferece um espaço mínimo para preparar o terreno para a ação futura, e para a educação política.

Aí está o paradoxo da situação: se, por um lado, o plano de resgate não vai a funcionar, não há porque perder os nervos e sair correndo, mas sim segui-lo até a próxima explosão. Por que? Por causa da evidente falta de preparação da Grécia para o grexit (uma saída da Zona Euro). Não há um plano B para esta dificílima e complexa operação. Até agora, o governo do Syriza funcionou sem controlar realmente o aparato do Estado, com seus dois milhões de funcionários: a polícia e o poder judiciário pertencem, em sua maioria, à direita política, a administração é parte integrante da corrompida máquina clientelista, etc. E terá que depender precisamente dessa vasta máquina estatal no caso de ter que enfrentar o enorme desafio do grexit (definamos que o grexit era o plano do inimigo, inclusive há rumores de que Schäuble (ministro da Fazenda alemão) ofereceu cinquenta bilhões de euros à Grécia para abandonar a Zona Euro). O que torna esse governo tão irritante é o fato de ser de um país da Zona Euro: “a veemência com a que se opõem se deve precisamente à presença da Grécia no euro. Realmente, a quem lhe importaria se chegasse ao poder num pequeno país, com o dracma como divisa?”.

Que espaço de manobra o Syriza tem, se aceita se reduzir a promulgar a política do seu inimigo? Deveria se demitir e convocar novas eleições, em vez de promulgar a política que se opõe diretamente ao seu programa? Uma decisão assim é muito fácil e, em última instância, é uma nova versão do que Hegel chamava de “a beleza do espírito”. Como explica Étienne Balibar, antes de tudo, o Syriza necessita ganhar tempo, e as potências da UE estão fazendo todo o possível para privar o Syriza de tempo, tratando de colocar o partido contra as cordas, de forçá-lo a uma decisão rápida: ou a rendição total (sua demissão) ou o grexit. Tempo, para que? Não só para se preparar para a próxima crise. Devemos lembrar sempre que a meta básica do governo do Syriza não é nem o euro nem a exigência de saldar suas contas com a UE, mas sim, sobretudo, a reorganização radical das instituições sociais e políticas corruptas da Grécia a longo prazo: “O mais complicado problema do Syriza, que não foi enfrentado por nenhum outro partido político no governo, é o de modificar as estruturas institucionais internas, em condições de assalto institucional externo” (como fez a Alemanha, no começo do Século XIX, sob a ocupação francesa).

O problema que a Grécia está enfrentando agora é o da “governabilidade da esquerda”: a dura realidade do que significa para a esquerda radical governar no mundo do capitalismo global. Que opções terá o governo? As alternativas óbvias (a simples social democratização, o socialismo de Estado, a retirada do Estado e a dependência dos movimentos sociais) não são suficientes, evidentemente. A verdadeira novidade do governo do Syriza é que supõe um acontecimento de governo: é a primeira vez que uma esquerda radical ocidental (não o velho estilo comunista) chega ao poder do Estado.

Toda essa retórica de atuar distanciando-se do Estado, tão querida pela nova esquerda, não pode se impor sobre um elemento central: é preciso assumir heroicamente toda a responsabilidade pelo bem-estar de toda a população e deixar para trás a atitude crítica básica da esquerda, de encontrar uma perversa satisfação em proporcionar explicações sofisticadas sobre porque as coisas tiveram que tomar um rumo equivocado.

O dilema ao que o governo grego se enfrenta é uma difícil escolha, que deve ser abordada em termos pragmáticos, não é uma questão de princípios entre a ação real (de governo) e a traição oportunista. As acusações de “traição” dirigidas ao governo do Syriza se formulam para evitar a pergunta realmente importante: como enfrentar o capital em sua forma atual? Como governar, como fazer um Estado funcionar “com gente”? É muito fácil dizer que o Syriza não é simplesmente um partido de governo, mas sim tem suas raízes na mobilização popular e nos movimentos sociais: o Syriza “é uma coalizão pouco rígida, contraditória em si mesma e internamente antagônica, de pensamento e prática esquerdistas, enormemente dependente da capacidade dos movimentos sociais de todos os tipos, totalmente descentralizada e impulsada pelo ativismo de redes de solidariedade num amplo campo de ação, através de linhas de conflito de classe, de ativismo de gênero e de sexualidade, de questões de imigração, de movimentos antiglobalização, de defesa dos direitos civis e humanos, etc”. Entretanto, a pergunta continua de pé: como essa dependência da auto-organização popular afeta, ou como deveria afetar, a direção de um governo?

Sobre a Grécia traída, Tariq Ali escreveu: “no começo do mês de julho, estavam celebrando o voto pelo NÃO. Estavam dispostos a fazer mais sacrifícios, a se arriscar a viver fora da Zona Euro. O Syriza lhes deu as costas. A data, 12 de julho de 2015, quando Tsipras aceitou as condições que a UE impôs, chegará a ser tão infame como o 21 de abril de 1967. Os tanques foram substituídos pelos bancos, como expressou Varoufakis, depois de ser nomeado ministro da Fazenda”. Considero convincente esse paralelo entre 2015 e 1967 mas, ao mesmo tempo, profundamente enganoso. É verdade, tanques rimam com bancos em alguns idiomas (em inglês, tanks rima efetivamente com banks), o que significa que a Grécia agora está de fato sob ocupação financeira, com a soberania fortemente restringida, todas as propostas do governo têm que ser aprovadas pela troica antes de se submeter ao Parlamento, não só as decisões financeiras mas inclusive de dados que estão sob controle estrangeiro (Varoufakis não tinha acesso aos dados de seu próprio ministério, e foi acusado de traição por tentar obtê-los) e, o cúmulo dos males, na medida em que o governo democraticamente eleito obedece essas regras, proporciona voluntariamente uma máscara democrática a essa ditadura financeira (enquanto as acusações recentes contra Varoufakis, por traição, são uma mostra de obscenidade em seu estado mais puro: nas últimas décadas, desapareceriam bilhões e o Estado manipulava informes financeiros falsificados, o único acusado foi o jornalista que tornou públicos os nomes dos titulares das contas ilegais nos bancos estrangeiros, contudo, agora Varoufakis é acusado, a partir de um pretexto ridículo. Se houve um herói de verdade em toda a história da crise grega, esse herói é Varoufakis).

Deve se assumir então o risco de um grexit? Nos enfrentamos aqui a uma tentation événementielle, ou seja, à tentação de seguir o curso dos acontecimentos: a tentação, numa situação difícil, de cometer uma loucura, de fazer o impossível, de assumir o risco e sair correndo, quaisquer que sejam os custos, sob a lógica subjacente de que “as coisas não podem estar pior do que estão agora”. O problema é que, com toda a certeza, as coisas podem ir ficar muito pior, até mesmo explodir, numa crise social e humanitária total. A pergunta principal é: houve realmente alguma possibilidade objetiva de um ato autenticamente emancipador que extraísse todas as consequências políticas e econômicas do NÃO no referendo? Quando (o filósofo Alain) Badiou fala de um acontecimento emancipador, sempre enfatiza num fato que não é um ato em si mesmo: só se converte em tal com o carácter retroativo, mediante esforçada e paciente obra de amor de quem luta por ele, que professa fidelidade a ele. A questão da oposição entre o curso normal das cosas e o estado de exceção caracterizado pela fidelidade a um acontecimento que interrompe o curso normal das coisas deveria, portanto, ser abandonada (desconstruída, inclusive). No curso normal das coisas, a vida simplesmente continua por sua própria inércia, estamos absortos em nossas preocupações e rituais diários. Então, algo sucede, um despertar causado por algum acontecimento, uma versão secular de um milagre (uma explosão social emancipadora, um encontro amoroso traumático…), se optamos pela fidelidade a esse acontecimento, toda nossa vida muda, nos dedicamos à obra do amor e nos esforçamos por inscrever o acontecimento em nossa realidade, e depois, em algum momento, a sequência do acontecimento se esgota e voltamos ao fluxo normal das coisas…

E se o verdadeiro poder de um acontecimento deveria se medir precisamente por sua desaparição, quando o acontecimento fica desconectado do seu resultado, da mudança da vida normal? Vejamos um acontecimento sociopolítico: o que fica de suas consequências quando sua energia estática está esgotada e as coisas voltam à normalidade? Até que ponto essa normalidade é diferente da prévia do acontecimento?

Voltando à Grécia, é fácil contar com o gesto heroico de prometer sangue, suor e lágrimas, de repetir el mantra de que a política autêntica significa que não se deve aceitar os limites do possível, e sim se arriscar ao impossível, mas o que seria isso no caso do grexit? Em primeiro lugar, não esqueçamos que o referendo não era nem sobre o euro (75% dos gregos preferem seguir com o euro) nem sobre a permanência ou não na UE. A pergunta era: “Quer que esta situação continue ou não?”, o que significa que o resultado tampouco pode ser lido como um sinal de que o povo grego está disposto a suportar sacrifícios e mais sofrimento para afirmar sua soberania. O NÃO foi um NÃO à sua situação sem saída, que era a situação da austeridade, pobreza, etc. Foi uma demanda de uma vida melhor, não uma disposição a mais sofrimento e sacrifício (em geral, os motivos de uma disposição a um sofrimento exagerado são extremamente problemáticos). Em segundo lugar, no caso do grexit, o Estado grego não se veria obrigado a adotar uma série de medidas (nacionalização dos bancos, impostos mais altos, etc.) que são simplesmente uma reedição da velha política econômica socialista-estatal-nacional-soberana? Não há nada contra este tipo de política, mas teria sucesso na Grécia de hoje, nas condiciones específicas que o país enfrenta, com seu aparato estatal ineficaz e dentro de uma economia global? Aqui estão os três pontos principais do plano antiausteridade da Plataforma de Esquerda, enumerando medidas “perfeitamente realizáveis”:

“1– A reorganização radical do sistema bancário, sua nacionalização sob controle social e sua reorientação voltada ao crescimento.

2 – A rejeição total da austeridade fiscal (superavits primários e orçamentos equilibrados), para enfrentar a crise humanitária de forma eficaz, cobrindo as necessidades sociais, reconstruir o Estado social e tirar a economia do círculo vicioso da recessão.

3 – A aplicação de procedimentos preliminares que levem a saída do euro e ao cancelamento da maior parte da dívida. Há opções perfeitamente realizáveis que podem conduzir a um novo modelo econômico orientado à produção, ao crescimento e à mudança no equilíbrio social de forças em benefício da classe trabalhadora e da população”.

Além disso, duas especificações adicionais:

“A elaboração de um plano de desenvolvimento baseado no investimento público, permitindo também o investimento privado em paralelo. A Grécia necessita uma relação nova e produtiva entre os setores público e privado, para entrar numa via de desenvolvimento sustentável. A realização desse projeto será possível uma vez que se restabeleça a liquidez, combinada com a capacidade do país economizar.

Retomar o controle do mercado interno, diante da disputa com os produtos importados, revitalizará e reforçará o papel das pequenas e médias empresas, que seguem sendo a coluna vertebral da economia grega. Ao mesmo tempo, as exportações serão estimuladas pela introdução de uma moeda nacional”.

É difícil de ver nisso tudo algo mais que o conjunto habitual de medidas intervencionistas do Estado: retorno à moeda nacional, impressão de dinheiro, financiamento de grandes obras públicas, apoio à indústria nacional… Medidas como essas, adequadamente calibradas, podem funcionar, mas funcionariam na Grécia de hoje, com um enorme endividamento externo de indivíduos e empresas privadas (que não podem ser pagos), com uma economia plenamente integrada à Europa Ocidental e dependente dela, por exemplo, para importar alimentos e produtos industriais e médicos? Em outras palavras, onde, em que outro lugar, a Grécia veria a si mesma? Em que outro lugar da Bielorrússia e de Cuba? Como Paul Krugman escreveu recentemente que é preciso admitir que ninguém sabe realmente quais seriam as consequências do grexit. É um território inexplorado.

Uma coisa está clara: “O grexit significa uma política de independência nacional”, por isso não é de se estranhar que alguns partidários da Plataforma de Esquerda prefiram inclusive à extremamente problemática e (para mim) totalmente inaceitável definição dessa como “populismo nacional” (por certo, deve-se rejeitar ambos os mitos otimistas, o mito da Plataforma de Esquerda, de que há um claro procedimento racional de empreender um grexit que traga uma nova prosperidade e sua contrapartida – defendida por Jeffrey Frankel, entre outros – de que, ao executar fielmente o plano de resgate, Tsipras pode chegar a se tornar um novo Lula).

Portanto, a eleição já não é simplesmente entre um grexit, a saída da Zona Euro, ou capitulação: o governo do Syriza se encontra numa situação única, obrigado a fazer aquilo ao que se opõe. Persistir numa situação tão difícil e não jogar a toalha é autêntico valor. Neste momento, o inimigo do governo do Syriza não é, em primeiro lugar, a plataforma de esquerda, e sim os que aceitam sinceramente a derrota, e o que na verdade querem é jogar o jogo da UE. Esse perigo parece evidente quando temos em conta o efeito da rendição do Syriza: pelo que Varoufakis m confessou numa conversa privada, “moderou as posições daqueles que ficaram nos ministérios, que ou são incapazes de realizar o projeto original ou não têm nenhum desejo (para não incomodar a troica) de planificar a próxima ruptura. É mais, a troica os usa como cobaias numa roda, fazendo-os correr cada vez mais rápido, para pôr em prática as medidas tóxicas. Foram cooptados em poucos dias, se tornaram incapazes de planejar algo próximo àquilo que foi proposto. Para finalizar esse processo, o movimento decisivo da troica é o de forçar, inteligentemente, que a normativa governamental inclua mais, e consolide alguns feudos próprios dentro do Estado. Assim, por exemplo, as unidades de luta contra a fraude fiscal acabaram sendo absorvidas pela Secretaria Geral de Ingressos Públicos (cuja dependência da troica já foi denunciada), de forma que o governo não conta com instrumentos ao seu alcance para combater a evasão fiscal da oligarquia. O mesmo ocorre com as privatizações. A troica está estabelecendo novos órgãos que controlam totalmente”.

Fica, então, algum resquício de esperança? O verdadeiro milagre da situação, e uma das poucas fontes de moderada esperança, é que, apesar de Bruxelas ter imposto suas exigências, parece que cerca de 70% dos votantes gregos ainda apoiam o governo do Syriza. A explicação é que a maioria percebe que o Syriza está fazendo o que tem que fazer numa situação impossível.

Existe um risco de que a humilhação do Syriza termine levando o partido a ficar sozinho em sua luta, sem conseguir avançar em seu projeto, o que permitirá a reintegração plena de Grécia na UE como um humilde membro em quebra, da mesma forma que há um risco de que um grexit se transforme numa catástrofe em grande escala. Sobre esse ponto não há uma resposta clara a priori, qualquer decisão só se justificará com carácter retroativo, em função de suas consequências. O que há que temer é não só a perspectiva de um maior sofrimento do povo grego, mas também a perspectiva de outro fiasco que desacredite a esquerda para os anos vindouros, enquanto os esquerdistas sobreviventes argumentarão que sua derrota demonstra uma vez mais a perfídia do sistema capitalista…

* Filósofo e crítico cultural esloveno, é professor da European Graduate School, diretor internacional do Birkbeck Institute for the Humanities (Universidade de Londres) e investigador senior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana.

Tradução: Victor Farinelli

Link: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/A-coragem-da-desesperanca/6/34142

No olho do furacão – impressões sobre a crise na Grécia – II

A acelerada construção do despotismo ocidental- Boaventura de Sousa Santos
Publicado em Outras Palavras

IMG_1833A Europa transformou-se num laboratório do futuro. O que nele se experimenta deve causar preocupação a qualquer democrata e, muito mais, a qualquer pessoa de esquerda. Duas experiências estão em curso em ambiente laboratorial, isto é, supostamente controlado. A primeira experiência é um teste de stress à democracia. A hipótese que orienta o teste é a seguinte: a deliberação democrática de um país forte pode sobrepor-se antidemocraticamente à deliberação democrática de um país fraco sem que tal altere a normalidade da vida política europeia. As condições para o êxito desta experiência são três: controlar a opinião pública de modo que os interesses nacionais do país mais forte sejam convertidos no interesse comum da zona euro; dispor de um conjunto de instituições não eleitas (Eurogrupo, BCE, FMI, Comissão Europeia) capazes de neutralizar e punir qualquer deliberação democrática que desobedeça ao diktat do país dominante; demonizar o país mais fraco de modo a que não suscite nenhuma simpatia junto dos eleitores dos restantes países europeus, especialmente junto dos eleitores dos países candidatos a desobedecer.

A Grécia é a cobaia desta tenebrosa experiência. Trata-se do segundo exercício de ocupação colonial do século XXI (o primeiro foi a Missão de Estabilização da ONU no Haiti a partir de 2004), um colonialismo de tipo novo, executado com o consentimento do país ocupado, ainda que sob inaudita chantagem. E, tal como o velho colonialismo, justificado como servindo o melhor interesse do país ocupado. A experiência está em curso e os resultados do teste de stress são incertos. Ao contrário dos laboratórios, as sociedades não são ambientes controlados, por maior que seja a pressão para os controlar. Uma coisa é certa: depois desta experiência, qualquer que seja o seu resultado, a Europa não será mais a Europa da paz, da coesão social e da democracia. Será o epicentro de um novo despotismo ocidental, rivalizando em crueldade com o despotismo oriental estudado por Karl Marx e Max Weber.

A segunda experiência em curso é um exercício sobre a solução final para a esquerda europeia. A hipótese que orienta esta experiência é a seguinte: não há lugar na Europa para a esquerda na medida em que esta reivindicar a existência de uma alternativa às políticas de “austeridade” impostas pelo país dominante.

As condições para o êxito desta experiência são três. A primeira consiste em provocar a derrota preventiva dos partidos de esquerda, punindo de maneira brutal o primeiro que tentar desobedecer. A segunda consiste em criar nos eleitores a ideia de que os partidos de esquerda não os representam. Até agora, a ideia de que “os representantes não nos representam” era uma bandeira do movimento dos indignados e do Occupy, contra os partidos de direita e seus aliados. Depois de o Syriza ser forçado a beber o cálice da cicuta austeritária, apesar do “não” do referendo grego que ele próprio apoiara, os eleitores serão levados a concluir que, afinal, também os partidos de esquerda não os representam. A terceira condição consiste em aprisionar a esquerda em falsas opções entre falsos Planos A e Planos B.

Nos últimos anos, a esquerda dividiu-se entre os que pensam que é melhor permanecer no euro e os que pensam que é melhor sair do euro. Ilusão: nenhum país pode optar por sair ordenadamente do euro, mas, se desobedecer, será expulso e o caos desabará implacavelmente sobre ele. Passa-se o mesmo com a restruturação da dívida que até agora tanto dividiu a esquerda. Ilusão: a restruturação ocorrerá quando tal servir os interesses dos credores e é por isso que mais esta bandeira de alguma esquerda se transforma agora numa política do FMI.

Também os resultados desta experiência são incertos e pelas mesmas razões acima referidas. Uma coisa é certa:

para sobreviver a esta experiência, a esquerda terá de se refundar para além do que é hoje imaginável. Tal envolverá muita coragem, muita audácia e muita criatividade