memórias de tempos vividos! superando o que-já-se-efetivou com a Esperança do que-ainda-não-veio-a-ser ( reflexões ao estilo Ernesth Bloch)

Posts from the ‘Ponto de Vista’ category

Textos publicados no Correio do Brasil

O Estado de Exceção é Religioso e Militarizado – Diogo Labrego de Matos Featured

Editado no Blog da Consequência

A origem etimológica do termo “abandono” reside na palavra bando. Com efeito, abandono consistia em uma prática humana primitiva de aplicação das leis em certos grupos sociais, bandos, em que os indivíduos condenados não eram exilados, nem deveriam cumprir alguma pena imediata, ou mesmo se submeter ao rigor direto do líder tribal. Os condenados, contrariamente, permaneceriam acompanhando seu clã, mas não mais sujeitos à aplicação das leis do grupo. Abandonados pelas regras vigentes, tornavam-se passíveis de sofrer qualquer violência por outros componentes. Eles estariam ao mesmo tempo dentro e fora daquele sistema legal, subordinados às leis do grupo por meio da sua exclusão.[i]

Essa origem filológica é resgatada por Giorgio Agamben para teorizar sobre o estado de exceção na sociedade moderna. O autor da trilogia Homo Sacer sentencia que o estado de exceção não necessariamente assume a configuração de uma ditadura nos moldes clássicos. Ele não se forma sob o regime autoritário de um excêntrico velho barbudo de coturno comandando uma república das bananas composta por sujeitos idiotizados. O estado de exceção não é essa caricatura. A realidade é sempre muito mais sutil.

São abundantes as análises atuais que creditam à situação decadente do capitalismo desde a década de 70 o recrudescimento do fascismo e da periclitância da democracia, tendo como reflexos, por exemplo, um descrédito geral dos processos eleitorais e uma participação declinante nos pleitos. [ii] Principalmente no que diz respeito ao Brasil, todavia, há nuances nessa trajetória de quase 50 anos das quais essa explicação geral não pode dar conta completamente.

O primeiro ponto a se notar é que, nas décadas de 60 e 70, a Europa e, em parte, os EUA promoveram uma ampla pesquisa teórica na área dos estudos culturais e o que ficou conhecido mais tarde como a virada linguística, com transbordamentos relevantes para a liberalização sexual e para as lutas minoritárias nos centros do capitalismo mundial. Podemos tomar vários marcos dessa onda de contracultura, mas não seria aleatório citarmos Maio de 68, o movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA, e os levantes de Stonewall como emblemas de tal virada. Seguiu-se nas décadas seguintes nessas comunidades uma gradativa – ainda que geograficamente desigual – assimilação dos discursos promovidos pelas parcelas sociais marginalizadas, desembocando, na última década do século passado, em conquistas legais e institucionais efetivas, como o reconhecimento do casamento homoafetivo em várias nações do velho mundo e a promoção de políticas raciais afirmativas nos EUA. Esses êxitos não se detiveram aí, permeando nos últimos anos toda uma discussão sobre a validade de certas estruturas linguísticas de cunho racistas e discriminações simbólicas e físicas sobre mulheres, negros e homossexuais, dentre outros subgrupos sociais.

Em Pindorama, como costuma acontecer com as ondas teóricas e culturais que se dão nos países centrais, tais discussões chegaram com algumas décadas de atraso, muito por intermédio dos círculos acadêmicos e de toda uma vida político-cultural que desde tempos acontece em torno das universidades públicas. Elas desembarcam aqui, então, com uma característica marcante: estes círculos promovem um debate e pressionam por uma mudança comportamental da sociedade brasileira muito mais acelerada do que nos países centrais, que levaram décadas para deglutir as mesmas questões. Cria-se, assim, a tão afamada bolha das redes sociais: basicamente jovens estudantes e ex-estudantes geralmente das ciências humanas que cresceram no ambiente politicamente desértico da esquerda e do marxismo nos anos 90. Essa parcela da população encontra, nas mídias sociais, meios de debate e de compartilhamento de ideias que reforçam o caráter acelerado desse processo de isolamento – tendência claramente reforçada pelos algoritmos de filtragem de informação pelas mídias -, mas a delimitação e identificação do grupo em si, não podemos dizer que se deu como resultado da internet. Antes, o ambiente virtual apenas concorreu para que acontecesse uma relativa homogeneização em um grupo que já existia antes como nicho social destacado e cujo discurso nunca se infiltrou na grande massa da população. De todo modo, esse é apenas um lado da história da polarização ideológica do Brasil nos últimos anos. Há outra parte dela a ser contada.

A ascensão relevante dos grupos protestantes neopentecostais remonta aos anos 80, tendo se acelerado a partir da década de 90, até chegar à proporção de 22,2% da população brasileira no censo de 2010. Tais números, porém, não revelam a estrutura dessas organizações que leva a que tenham um poder de representação ideológica muito maior do que sua presença quantitativa no país. Esse processo de crescimento aconteceu quando os grupos evangélicos modificaram sua abordagem de pregação, que antes se pautava em um fundamentalismo puro e que desde o início apresentava viés proselitista, mas com compromisso teológico basicamente baseado na salvação, para o que se convencionou chamar “teologia da prosperidade”: a ideia de que a contribuição dizimária, a conversão de novos membros e a observância prática de uma leitura específica da bíblia (marcado por um extremo conservadorismo comportamental, em confronto direto com o discurso daquele nicho extra-acadêmico) levaria à prosperidade ainda em vida.

O casamento dessa cosmovisão religiosa com uma organização hierarquizada orientada para ocupar espaços de poder – em seu sentido mais amplo, como a mídia, as organizações e a vida comunitárias, os partidos políticos, a ocupação do espaço público, vasta produção de mercadorias culturais etc.- gestou uma estrutura coesa que amplificou o seu poder de representação ideológica em comparação com a relevância quantitativa dos evangélicos no Brasil. De fato, o que houve nessas instituições foi uma dinâmica de reforço mútuo entre o crescimento das estruturas de poder e o aparato econômico em si, erigindo um bloco social com técnicas de autodefesa e expedientes de pressão pública só comparável aos maiores grupos midiáticos do país, que agora se viam com um concorrente à altura. Some-se a isso o fato de que o perfil social dos evangélicos extrapolou parcialmente a sua presença para além da parcela pobre periférica e temos, então, montado no teatro o palco da polarização, em que só faltaria a entrada triunfal do ator principal, o Partido dos Trabalhadores.

Vários indícios apontam para o fato de que a ascensão do extremismo de direita no Brasil está em conexão visceral com o avanço das instituições evangélicas e da propagação do seu discurso conservador.

Para embasar esta ideia, podemos inicialmente evocar o fato de que parte da classe jurídica que moveu mundos contra o petismo era declaradamente evangélica e motivada por fundamentos religiosos. Se não for suficiente, cite-se o mote propagado nessas eleições e que se tornou onipresente: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Para que não reste dúvida, veja-se o gráfico abaixo, em que se enumera o percentual de intenções de voto em Bolsonaro no primeiro turno[iii] (em vermelho) e a proporção de evangélicos em cada estado do país[iv] (em branco ou preto parece forte a relação positiva entre a presença de evangélicos nos estados da federação e as intenções de voto no candidato extremista. Tal relação fica muito clara quando observamos que em estados pobres como o Acre e Roraima, a intenção de votos chega à faixa dos 50%, o que não acontece nos estados do Nordeste, em que a presença da instituição evangélica é muito menos acentuada. A mesma tendência é verificada nos outros estados da região, como o Amazonas e Rondônia, o que torna o dado relevante se compararmos com os estados do Nordeste, também desprivilegiados economicamente. Assim, cairia por terra a ideia de que os votos no Brasil foram comprados há longa data com benesses paternalistas do Partido dos Trabalhadores.

Com os resultados das urnas do primeiro turno, é impossível negar o avanço do autoritarismo no Brasil, aliado ao cunho religioso dos candidatos eleitos. Acima de tudo, é importante ressaltar que essa construção paulatina de um poder quase invisível, porque alicerçado em convicções de uma parcela também invisível da população brasileira, teve a complacência da esquerda, que continua órfã do seu sujeito revolucionário subalternizado e não consegue ver que, no momento atual, são eles que têm o poder, e isso não é nada bom, principalmente para a democracia. A esquerda brasileira tomou uma postura diante do crescimento dos evangélicos que sempre oscilou entre as vistas grossas em relação ao caráter conservador e a condescendência com a ignorância, por eles serem supostamente manipulados, ignorando a base popular na qual o fascismo sempre se apoiou.

Fato é que, se juntarmos os dois lados da polarização política do Brasil esboçada aqui – obviamente muito esquemática e com interseções inúmeras -, chegamos ao tão afamado arquétipo do homem de bem, construído com a contrapartida de um outro arquétipo, esse demonizado, do indivíduo moralmente degenerado (abortista, homossexual, feminista, bandido etc.). E a construção desse arquétipo, retomando a ideia de Agamben, serve agora justamente para sedimentar um tipo de sujeito ideal e estigmatizar uma parcela da população que justamente deve ter prioridade em ser abandonada à violência por uma sociedade demoradamente decadente.

Alguns poderiam argumentar que a descrição feita aqui não bate com o fato de que os opressores são precisamente uma boa parcela da população que será afetada pelo extremismo de direita, a periferia urbana marginalizada. No que eu me esforço para completar a ideia com a seguinte afirmação: não há autoritarismo sem um discurso das massas sobre si mesmas, ou seja, sem que uma parcela marginalizada construa o tal arquétipo das vidas desimportantes mesmo que ela, em boa parte, se inclua nessa marginalidade. Isso é uma parte do processo de (auto)abandono que referenda o estado de exceção do fascismo.

Qualquer estado de exceção no Brasil – autoritário ou não, a depender dos resultados das urnas no segundo turno -, será do tipo militar-religioso. A esquerda precisa lidar com esse fato e parar de olhar para a nossa realidade apenas pelas lentes de obras elaboradas na Alemanha de quase oito décadas atrás, com toda a importância que elas têm. O mundo mudou, o fanatismo religioso ganhou novas roupagens no mundo inteiro e o país não ficou de fora da tendência. O que torna completamente insuficientes as análises de que o PT foi responsável pelo momento atual, como se as causalidades históricas fossem completamente inequívocas, dado que a tendência de declínio econômico acentuada na última década, por essas abordagens, não pudesse ser contra-restada de nenhuma forma. O discurso generalista da decadência do capitalismo é negligente com as particularidades do Brasil e trata a ascensão do fascismo como resultado inevitável contra o qual só resta a luta emancipatória radical, quando esta não é capaz sequer de amealhar um punhado de gente para promover ações socialmente coesas.

Por fim, me retomo afirmando que veremos cada vez mais estados de emergência que irão referendar ações violentas contra os abandonados. Porque, e essa foi a maior contribuição de Agamben, a violência é a ação por excelência contra aqueles cujo estatuto jurídico é seletivamente suspenso, e a polarização dos anos recentes no Brasil caminha para interditar simbólica e fisicamente o direito de uma parcela marginalizada – pobres, negros, gays e mulheres, cada um com suas particularidades – o direito de se defenderem da agressão direta da sociedade civil e do Estado. Quando a sociedade do trabalho entra em crise, mesmo que ele seja sua própria vítima, o próprio trabalhador pode tornar-se uma ameaça, porque é capaz de lutar a qualquer custo para resgatar um passado idealizado. Uma jangada de pedra se descolou da América do Sul e está mais próxima do que nunca do Oriente Médio.

Diogo Labrego de Matos é doutorando em Filosofia Moderna e Contemporânea pela UERJ

[i] cf. AGAMBEN, G., Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012. 1ª reimpressão

[ii] Wolfgang Streeck cita que, desde a década de 60, a participação nas eleições nos países centrais do capitalismo declinou de 84,1% para 72,5% entre 2000 e 2011 (STREECK, W. Tempo comprado: a crise adiada do capitalismo democrático. São Paulo: Boitempo, 2018).

[iii] Pesquisa do IBOPE de 26/9. Não foram divulgados números para o estado do Espírito Santo.

[iv] Censo do IBGE de 2010.

A Carne podre e a essência do capitalismo – Arlindenor Pedro

Existem momentos em que a realidade se aproxima totalmente da teoria !

Desde o século XIX a literatura marxista sabe que a  única função do capital é a sua eterna reprodução . Num  movimento  incessante o capital projeta-se na busca do lucro numa operação   automática  intermediada  pela mercadoria . Isto ocorre por que os homens criaram  estruturas (“leis econômicas”, “imperativos tecnológicos”, etc ) que acabaram por dominá-los, da mesma forma como na religião. Portanto,  o único sujeito real na sociedade capitalista seria o valor. Marx chamou a isto  de “Sujeito Automático ” . O valor asseguraria  que a sociedade humana existisse apenas para garantir que a sua acumulação nunca termine. Na verdade os homens se tornaram escravos de seus próprios poderes alienados !

No recente episódio do escândalo das carnes podres não chegaremos a lugar algum se mantivermos o nosso foco apenas na falta de caráter dos empresários que adulteram a qualidade dos produtos, ou mesmo na corrupção dos agentes do governo que permitiram que estes produtos chegassem ao mercado, ou ainda na existência de um pretenso plano maquiavélico das forças do imperialismo que almejam  destruir os empresários  nacionais que vendem para o exterior, a famosa burguesia nacional,  que neste momento  deveria ser defendida pela pátria ameaçada .

Sem minimizar as responsabilidades pessoais destes personagens avançaríamos muito se entendêssemos a questão a luz da própria essência do capitalismo que é transformar dinheiro em mais dinheiro .  Nesse sentido, os operadores deste sistema não estariam nem  aí se a carne está vencida, ou simplesmente está podre . O que importa é vender, derrotar a concorrência .

Os analistas de plantão fariam muito bem, neste momento onde através desta tragédia fica  claro o que acontece, onde a teoria se aproximava realidade, de mostrarem ao público a real face do sistema capitalista, um sistema que desfigura os homens transformando – os em feras, bárbaros que oprimem o próprio semelhante. Um sistema que precisa ser banido para que o homem possa ter um encontro com a sua humanidade .

 Da Obamania ao último combate – Gerd Bedszent

Comentários a uma vitória eleitoral não tão completamente surpreendente

Publicado na Revista Êxit

Uma estridente gritaria de horror domina os grandes media alemães perante o resultado das recentes eleições presidenciais nos EUA. Dos radicais de mercado de linha dura até às esquerdas que restam, toda a gente está de acordo que o presidente recém-eleito é um desastre. E, naturalmente, também não falta a acusação de que a esquerda é a culpada da vitória eleitoral do candidato presidencial republicano. O que, naturalmente, é um disparate, pois no fim até o (pequeno) Partido Comunista dos EUA apelara ao voto na neoliberal declarada Hillary Clinton. Significativamente, a vitória eleitoral do republicano arquiconservador Trump é aclamada na Alemanha apenas pela direita radical e pela ala direita dos partidos da coligação.

Donald John Trump, filho de um empresário dos EUA, é, sem dúvida, um contemporâneo extremamente desagradável; os seus ataques abertamente racistas e misóginos não precisam de ser aqui novamente comentados. Nem mesmo a sua biografia – apenas o que se diz na Wikipedia sobre as múltiplas falências e o actor falhado só por si seria suficiente para uma pessoa se rebolar a rir. Em público, o empresário aparece como multimilionário; se o é, de facto, é posto em dúvida por analistas económicos. O actual presidente é um camaleão político entrado pela porta dos fundos, que no passado mudou muitas vezes de pontos de vista e de filiação partidária.

Claro que Trump não é a primeira figura estranha trazida à presidência pelo boletim de voto, mas é provavelmente uma dos mais desagradáveis. A sua descarada manipulação de slogans de café da direita é um marco no processo de crescente decadência da política burguesa e integra-se no fenómeno pan-europeu da ascensão de partidos duvidosos dissidentes da direita, bem como na instalação de ditaduras presidenciais repressivas consumada em vários estados europeus. Esta decadência da política, por sua vez, resulta da crise da economia política burguesa.

Comércio livre e refugiados – com estes dois temas Trump conseguiu conquistar eleitores em massa. Ele anunciou que vai fortalecer a economia dos EUA por via da protecção estatal maciça; com a imposição de tarifas alfandegárias punitivas, as empresas seriam obrigadas a trazer de volta as instalações industriais deslocalizadas para o exterior. Além disso também favorece uma política de isolamento rigorosa e a expulsão em massa de migrantes ilegais. Para milhões de cidadãos norte-americanos atormentados pelo medo da queda, a sua promessa de criar empregos desta maneira foi provavelmente a famosa última réstia de esperança a que se agarraram.

O resultado da recente eleição nos EUA constitui, por isso, uma resposta equivocada da população à crise. Equivocada porque, embora as consequências desta crise – encerramento das instalações industriais, desemprego em massa, empobrecimento de amplos sectores da população, incluindo da classe média – tenham dominado a campanha eleitoral, contudo não foi abordada por ninguém a sua causa estrutural, o fim em si louco da produção capitalista.

O facto de a crise da economia mundial estar a progredir rapidamente já não é, entretanto, segredo para ninguém. É verdade que nas últimas décadas foi gerada uma breve recuperação em algumas regiões do leste e sudeste asiáticos, com base em baixos salários e legislação repressiva. Outras economias, pelo contrário – principalmente retardatários da modernização capitalista – arrefeceram e chegaram ao colapso económico e político. Vários estados africanos agora já só existem no papel, tendo-se dissolvido numa mistura de senhores da guerra, milícias étnicas, clãs mafiosos e hordas de bandidos vulgares combatendo entre si. Também outros estados – principalmente de regiões antes altamente industrializadas – estão a passar por um processo contínuo de erosão da sua economia nacional. Muitas localizações industriais desmoronaram-se; a produção foi completamente parada ou mudou-se para países de baixos salários. Minas de metal e de carvão foram fechadas porque as importações passaram a ser mais baratas. Robert Kurz falou, neste contexto, de uma “contradição lógica ou estrutural entre economia nacional e mercado mundial.” (1) Em resultado disso antigos trabalhadores da indústria caíram num buraco sem fundo, transformaram-se em sem-abrigo, em beneficiários do apoio social, ou tiveram de se agarrar arduamente a empregos precários para sobreviver.

A redução do poder de compra da população desencadeou, também nos EUA, uma espiral económica descendente, que arrastou consigo partes da classe média. Outras partes da classe média, a maioria pequenos empresários, embora (ainda) não atingidos, entraram mesmo assim em pânico e exigiram do governo a reversão deste processo de qualquer maneira. Exemplo de um tal protesto cívico de direita foi o obscuro movimento chamado “Tea Party”, que há dez anos ainda fazia manchetes em todos os media e hoje está desaparecido no Orco mediático. Mas também as organizações mais de esquerda dos adversários da globalização, que responsabilizam pelas distorções sociais, por eles acertadamente denunciadas, não as leis da fase final da produção capitalista de mercadorias, mas apenas a ganância de banqueiros criminosos, também elas abriram e abrem visivelmente o flanco a obscuros teóricos da conspiração, anti-semitas e racistas.

O facto de o aumento do desemprego em massa em todo o mundo resultar da terceira revolução industrial, ou seja, da substituição de trabalhadores assalariados por programas de computador e robôs industriais, quase não é tematizado. O processo, chamado sobretudo de “globalização” ao longo das últimas décadas, de desintegração das economias nacionais a favor de fluxos de mercadorias e financeiros vagabundeando sem entraves por todo o globo, contribuiu de facto para a situação desastrosa da economia dos EUA, entre outras. Robert Kurz descreveu esta globalização acertadamente como um “processo de escalada da crise, em que o capital […] foge das suas próprias contradições internas, daí resultando apenas que estas se desenvolvem mais acerbamente.” (2) No entanto é irreal pretender fazer este processo andar para trás simplesmente através de decretos estaduais, como anunciou Trump. Antes de mais a globalização já foi uma reacção à crise. E, em segundo lugar, já não há entretanto um “capital nacional”, que pudesse ser subjugado com ameaças de punição. Os emaranhados de filiais de empresas de primeira, segunda e terceira geração, distribuídos por todo globo, poderão facilmente contornar qualquer tipo de disposições nacionais. Também por isso os protestos dos radicais do mercado de linha dura contra o protecionismo anunciado por Trump foram muito limitados – provavelmente eles perceberam que se tratava de puro ruído de campanha eleitoral.

Algo diferentes se apresentam as coisas com as medidas anunciadas por Trump contra migrantes indesejados. Aqui estão pessoas reais. Estas podem ser atingidas pelas balas da polícia, apodrecer nas prisões, ou ser impedidas, com cercas de vários metros de altura, de entrar num país onde até nasceram em certas circunstâncias, ou em que têm vivido há muitos anos. A onda de repressão anunciada contra os migrantes não mudaria obviamente nada no estado desastroso da economia dos EUA. Mas dá sempre jeito poder acicatar a populaça contra os supostos culpados.

A próxima presidência de Donald J. Trump será provavelmente mais uma tentativa, de partes do sector arquiconservador das elites norte-americanas, de – contra toda a lógica – mudar bruscamente de direcção e, à escala nacional, fugir às consequências da crise global por eles próprios também promovida. Tentativa que, naturalmente, apenas pode fracassar.

Neste contexto se explica também a negação supostamente irracional das alterações climáticas feita por Trump. Na lógica enviesada do homem de negócios conservador, em que o próprio Trump também se enquadra, todas as formas de protecção ambiental aparecem apenas como incómodos factores de custo, que distorcem a concorrência, atravessados no caminho de um crescimento económico desenfreado: o capitalismo é uma lei natural. Que temos nós então a ver com isso, se em qualquer lugar as pessoas se vão afogar, morrer de sede ou ser envenenadas…

Tal como o “capitalismo verde”, elogiado no início da presidência de Obama, também a reversão conservadora anunciada sob Trump não pode levar ao crescimento económico, nem ao anunciado milagre de postos de trabalho. A crise global do capitalismo não pode ser sustida com muros altos, seja quem for que pague a sua construção. Os EUA estão irremediavelmente sobreendividados, pelo menos desde a última crise financeira, não estando, portanto, em posição de gerar crescimento económico artificialmente, por meio de um programa de estabilização neokeynesiano. E também a guerra económica com a China, anunciada por Trump, dificilmente resistiria – a China é não apenas o principal fornecedor de mercadorias, mas também o principal credor do país completamente sobreendividado. E a desregulamentação do sector financeiro, anunciada por Trump logo após a eleição, fará florescer de novo a economia das bolhas, algo limitada por Obama após o último crash. Quando irá estourar a próxima bolha? Com que quer o governo pagar o próximo “resgate bancário”? Está para breve uma inflação galopante?

A continuação da decadência da “moeda mundial” que é o dólar dos EUA, em todo o caso, provavelmente arrastaria também consigo o resto do mundo para o caos económico. A maquinaria global do capitalismo só funciona através do curso incessante de fluxos de mercadorias e fluxos financeiros. Se este circuito é de algum modo perturbado há o risco de parar definitivamente a máquina que já range e arqueja.

Sejam quais forem as formas concretas que a progressão da crise nos EUA possa assumir em breve, Trump não pode cumprir as suas promessas, nem satisfazer as expectativas dos eleitores. E, provavelmente, nem sequer vai tentar.

As rudes ideias de Trump sobre política económica certamente não foram questionadas a sério pela maioria dos seus eleitores. As anteriores elites políticas são culpadas de “fracasso”, por causa do permanente insucesso na gestão da crise. Queria-se, portanto, um presidente mais forte, que também fizesse o país forte novamente. A retoma económica – assim parece ser suposto na lógica enviesada dos suburbanos sacudidos pela crise – viria então quase por si só. Não se percebe aqui que “a política acaba por ser apenas uma esfera derivada e não possui nenhuma capacidade de intervenção autónoma” (3). O que um governo Trump pode comandar (quase) sem limites, no entanto, é a polícia e os militares.

Estarão os EUA agora a entrar numa ditadura fascista? Certamente que não. O fascismo clássico estava ligado a um determinado período histórico que há muito já pertence ao passado. A ditadura dos nazis alemães juntou da forma mais vil e cruel a “suplantação das relíquias estruturais corporativas, pré-modernas, guilherminas” (4) há muito fora de prazo com um programa de estabilização keynesiana barbaramente modificado. A “formação fordista forçada” (5), no entanto, já há muito ocorreu nos EUA; programas keynesianos de estabilização sistémica deixaram enormes montanhas de dívidas, sem conseguirem, afinal, parar o avanço da crise. Assim, no caso (bem possível) da eliminação das instituições democráticas nos EUA, só poderá tratar-se de uma repressiva ditadura de emergência.

A aclamação quase histérica de uma figura como Trump por segmentos da população resulta precisamente desta crise sem solução. E tem a sua lógica que a fanfarronice abertamente racista dele durante a campanha eleitoral tenha sido aceite de bom grado por muitas pessoas. Como Robert Kurz já escreveu, em 1993, “a xenofobia, o racismo e o anti-semitismo irracionais tornaram-se eles próprios uma função de crise do racionalismo democrático da economia de mercado.” (6)

O grande milagre de postos de trabalho, pintado pelo recém-eleito presidente durante a campanha eleitoral, irá falhar de qualquer maneira. E as imagens de simpatizantes de Trump eufóricos, actualmente ainda perseguidas pelos media, deverão muito em breve pertencer ao passado. Pode supor-se que fanáticos religiosos, teóricos da conspiração, anti-semitas e militantes da extrema direita recrutem muitos apoiantes entre o seu eleitorado em breve desiludido. Mas é muito duvidoso que o novo presidente dos Estados Unidos consiga ter sucesso a fazer o génio voltar a entrar na garrafa.

Haverá nos EUA, mais cedo ou mais tarde, uma guerra civil? Isso não está excluído. Lembre-se que já depois de uma primeira onda de desmantelamento de instalações industriais na década de 1990 – também causada pelo fim do rearmamento das forças armadas dos EUA promovido por Ronald Reagan – muitos dos trabalhadores industriais postos de parte e rebaixados como supérfluos sentiram-se traídos pelo seu próprio governo e organizaram-se em milícias armadas. Nessa altura, o movimento diminuiu alguns anos depois. Hoje a crise está consideravelmente mais avançada e atingiu sectores da população ainda mais amplos. E o abastecimento de armas de fogo não constitui problema nos EUA.

Com a erupção da violência que já arde em lume brando, porém, o país iria apenas partilhar o destino de muitas regiões do planeta, em que há muito está em curso a luta entre saqueadores armados pela distribuição dos destroços dos projectos de modernização falhados. A novidade no caso dos EUA, no entanto, seria tratar-se não de um estado periférico, mas sim do centro ideal da economia capitalista. O colapso económico associado a tal guerra civil iria provavelmente arrastar consigo para o abismo toda a economia mundial. E, uma vez que os Estados Unidos têm arsenais inteiros cheios de armas nucleares, uma tal guerra civil também teria consequências ainda mais altamente ruinosas para o resto do mundo.

Sem dúvida que, sob o governo Trump, se vai intensificar a repressão dos restos do aparelho de Estado em dissolução contra as acções desesperadas dos marginalizados. Assim, terá de se reforçar a democracia burguesa – como se divaga agora fantasmáticamente no mundo mediático liberal de esquerda – contra o avanço acelerado da direita radical? Sobre isso escreveu Robert Kurz: “A monstruosa estupidez e maldade do novo radicalismo de direita, porém, não surge por conta própria, mas tem de ser ser debitada exactamente na conta daquela democracia da economia de mercado que tem sido proclamada como forma definitiva da humanidade. […] A democracia é, ela própria, o útero donde isso sai.” (7)

(1) Robert Kurz: Das Weltkapital. Globalisierung und innere Schranken des modernen warenproduzierenden Systems [O capital mundial. Globalização e limites intrínsecos do moderno sistema produtor de mercadorias ], Edition Tiamat, Berlin 2005, p. 59.

(2) Ibid., p. 59.

(3) Robert Kurz: Die Demokratie frisst ihre Kinder [A democracia devora os seus filhos] in: Gruppe Krisis (Hg.) Rosemaries Babies. Die Demokratie und ihre Rechtsradikalen [Rosemaries babies. A democracia e os seus radicais de direita], Horlemann, 1993, p. 63.

(4) Ibid., p. 26.

(5) Ibid., p. 35.

(6) Ibid., p. 45.

(7) Ibid., p. 11.

Original Von der Obamania hin zum letzten Gefecht. Publicado na homepage da revista EXIT! http://www.exit-online.org/ em 14.11.2016. Tradução de Boaventura Antunes

http://www.obeco-online.org/

http://www.exit-online.org/

%d blogueiros gostam disto: