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Dois livros – dois pontos de vista  – Ernst Lohoff

Recentemente públicamos aqui, na nossa seção ” o livro que estou lendo”, um texto de Bernd Czorny, colaborador da Revista Exit  com o título ” Ernst Lohoff e o individualismo metodológico – uma análise crítica “.

Tratava-se ali de uma abordagem crítica sobre o último livro de Ernst Lohoff e Norbert Trenk , “A Grande Desvalorização ” , obra que , aliás já tinha recebido a atenção do professor Eleuterio Prado através do artigo “A agonia da relação de capital” e também do professor Marcos Barreira que preocupou- se em divulgar a tradução da Introdução do referido livro, textos que podem ser facilmente encontrados no nosso blogue .

Devido a importância das questões abordadas pelos articulistas e também porque no âmago deste debate estava presente muitos dos conceitos trazidos até nos por Robert Kurz no seu último livro ” Dinheiro sem valor ” , que aqui também mereceu a nossa atenção com a publicação de inúmeros artigos que a ele fazem referências, não poderíamos nos furtar em publicar o texto de Ernst Lohof , traduzido por Marcos Barreira, onde este refuta as críticas a ele dirigida por Bernd Czorny.

Sem dúvidas um bom debate !

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Uma nota preliminar sobre o caráter deste texto

​No ano passado, apareceu no sítio da web do grupo “Exit” um texto de Bernd Czorny com o título “Ernst Lohoff e o individualismo metodológico”, que pretende realizar uma crítica da teoria da formação do capital fictício que descrevi no livro A grande desvalorização e que representa uma mudança fundamental de perspectiva frente a anterior teoria de crise da crítica do valor. Czorny afere minha análise a partir das diretrizes metodológicas feitas por Robert Kurz em Dinheiro sem valor e chega à conclusão original de que minha análise categorial levaria ao empirismo nu e seria em grande parte inútil em termos teóricos. Essa afirmação repercutiu prontamente em um grupo de crítica do valor da região de Karlsruhe, que avaliava de outro modo nosso livro e escreveu uma resposta a Czorny, na qual se defendia A grande desvalorização. Por mais gratificante que fosse essa intervenção, também tinha um inconveniente: de acordo com ela, a avaliação de Czorny era falsa, enquanto a teoria do capital fictício representada em nosso livro coincide em grande parte com a posição de Robert Kurz; existiriam certas diferenças de conteúdo em relação ao Dinheiro sem valor, mas essas seriam de natureza secundária.

​Isso, no entanto, não coincide com minha própria visão. Pelo contrário, considero que o padrão que Bernd Czorny aplica com Dinheiro sem valor à nossa teoria é o problema principal – e não que ele aplique erroneamente esse padrão. Com seu último livro, Robert Kurz deixou um legado teórico altamente questionável, que não só está em acentuada oposição à nova teoria da crise no campo da crítica da economia política em geral e da teoria da crise em particular, mas, em última instância, invalida as bases da elaboração conjunta da crítica do valor. A discussão entre Bernd Czorny e o Grupo de Karlsruhe evidenciou novamente que isso, pelo visto, é tudo menos transparente para o nosso entorno mais próximo e mais amplo. Este texto surgiu para lançar mais luz a este respeito.

1. Uma bifurcação teórica

​Em 2012, foram publicados dois livros, um pouco após o outro, que reivindicam elevar a teoria da crítica do valor no campo da crítica da economia política a um novo patamar. Dinheiro sem valor, de Robert Kurz, e A grande desvalorização, de Norbert Trenkle e meu, marcam uma espécie de bifurcação no processo de formação da teoria da crítica do valor. Naturalmente, ambas as publicações têm um ponto de partida semelhante, na medida em que querem superar as deficiências da anterior argumentação da crítica do valor e clarificar o enfoque da teoria, mas as direções em que marcham as teorias são diametralmente opostas. Sem apontar explicitamente, ambas as publicações realizam reformulações de grande alcance na construção teórica da crítica do valor: a segunda parte de A grande desvalorização reformula a compreensão da categoria de capital fictício presente na discussão anterior da crítica do valor e, com a teoria das mercadorias de segunda ordem, estabelece um novo fundamento teórico para a ideia antiga da crítica do valor de que o capitalismo baseia-se em produção de valor futuro. Robert Kurz faz uma revisão muito mais ampla. Em Dinheiro sem valor, ele abandona um princípio teórico básico, até agora considerado obvio para os representantes da abordagem da crítica do valor no campo da crítica da economia política. Desde os primórdios do grupo Krisis, sempre fomos guiados pelo método da ascensão sucessiva do abstrato ao concreto, cuja fonte vem dos escritos de crítica econômica de Marx. (Cf. MEW 42, p. 34 e ss. [78]).

2. A importância do capital fictício na teoria da crise nos inícios da crítica do valor

​Mantenhamo-nos inicialmente no problema do capital fictício. Torna-se mais clara a maneira como a teoria das mercadorias de segunda ordem se insere na teoria da acumulação e da crise da crítica do valor se primeiramente lembrarmos o estado anterior da teoria. Eis aqui então uma breve exposição da história do desenvolvimento da abordagem da crítica do valor que recapitula a função da referência à dinâmica da formação de capital fictício na nossa argumentação teórico-crítica inicial e a maneira como foi compreendido o conceito de capital fictício.

​Desde o seu início, a abordagem da crítica do valor se esforçou por compreender as categorias fundamentais da sociedade capitalista enquanto historicamente transitórias e autodestrutivas. Consequentemente, a nossa teoria da crise e da acumulação focava-se também na fundamentação analítica e categorial da tese de uma crise fundamental da valorização do valor. Segundo o núcleo da teoria da crise do Krisis, com a Terceira Revolução Industrial o capitalismo enquanto sistema de valorização do valor tinha atingido sua barreira histórica e entrava em uma crise fundamental. No entanto, essa tese levanta um problema básico: quem afirma que a base da valorização, a massa de valor e mais-valia produzida, tem encolhido por causa do deslocamento do trabalho vivo no processo de produção, deve ter uma explicação plausível à mão do porque este processo não fez a acumulação de capital sucumbir. Essa brecha entre a empiria (a continuação da acumulação capitalista nas décadas de 1980 e 1990) e a tese central da teoria da crise da crítica do valor (crise fundamental da valorização do valor) foi fechada com a teoria adicional de que nesse período o aumento do capital social total teria sido mantido não com base na valorização real, mas sobretudo pela antecipação de valor futuro na forma de capital fictício. Somente pela explosiva expansão da superestrutura financeira pode o processo de acumulação continuar seu curso, a despeito da perda da base de valorização.

​Esse argumento teve desde então uma evidência empírica muito forte. Por um lado, o inchaço da esfera financeira talvez seja a característica do capitalismo contemporâneo que mais chama atenção. Para dar suporte à tese central da sua teoria da crise, a crítica do valor não podia, portanto, se refugiar em um aspecto secundário do desenvolvimento real, mas tinha que se referir diretamente à característica principal da época. Por outro lado, tal crescimento foi dramático demais para que se atribua esse desenvolvimento a uma mera distribuição e mobilização de mais-valia já acumulada. É evidente que a esfera financeira tem a capacidade de produzir, de alguma maneira, uma forma peculiar de multiplicação de capital que permite substituir transitoriamente a acumulação de mais-valia.

3. Um conceito restrito de capital fictício

Constatar a existência de tal forma de crescimento do capital descolado da acumulação de mais-valia e ser capaz de explicar consistentemente o seu funcionamento são coisas diferentes. A referência ao inchaço da superestrutura financeira tem sido usada classicamente tão só como argumento auxiliar de suporte. Levando em consideração a nossa pretensão de deixar atrás o caráter restrito do marxismo do movimento operário, assim como a clareza categorial com a qual acrise da valorização do valor já foi analisada por parte da crítica do valor, as explicações da categoria “capital fictício” permanecem deficitárias. Temos enfrentado essa noção, até agora extremamente negligenciada na discussão marxista, mas em uma interpretação ambivalente em relação à essência da teoria marxista tradicional da acumulação. O marxismo obsoleto basicamente só conhece a acumulação de capital baseada na acumulação de valor, e considera os acontecimentos do mercado financeiro em última instância como um jogo de soma zero, que tem como resultado a mera redistribuição da riqueza capitalista já existente. Ao insistir na abordagem da crítica do valor segundo a qual o capital fictício tem substituído há anos a valorização do valor enquanto força motriz da acumulação do capital, foi dada uma importância intrínseca aos acontecimentos do mercado financeiro no processo de acumulação, algo dificilmente compatível com o entendimento tradicional marxista. No entanto, a diferença essencial entre a formação de capital fictício e a acumulação de capital baseada na valorização de valor foi fundamentada de uma forma tal que essa ruptura ficou nomeio do caminho. Para esclarecer o caráter precário da criação de capital fictício, foram usadas expressões como “acumulação aparente” que, em lugar de esclarecer qualquer coisa, apelam a um preconceito de “autenticidade metafísica” segundo o qual somente a economia real conta verdadeiramente, enquanto a esfera financeira simplesmente encobre os vínculos econômicos reais.
Fez parte dessa explicação uma interpretação do termo “capital fictício” que se desvia decisivamente da compreensão de Marx de tal categoria e obscurece sua posição no sistema da crítica da economia política. Embora as exposições do Marx sobre a questão do capital fictício sejam fragmentarias, elas não deixam nenhuma dúvida do que deva ser compreendido com essa categoria. Sob a rubrica capital fictício caem todas as reivindicações monetárias resultantes da venda de capital-dinheiro que existem nas mãos dos credores pelo tempo . Contam, por exemplo, as reivindicações de um banco por amortizações e juros, da mesma forma que também as ações representam capital fictício. O que acontece com o capital-dinheiro concedido nas mãos dos seus compradores, isto é, se é gasto de maneira produtiva ou no consumo, é irrelevante para a distinção conceitual entre capital funcionante e capital fictício. O que é decisivo é que a venda da mercadoria capital-dinheiro proporcionou uma “dupla existência da mesma soma de dinheiro como capital para duas pessoas” (MEW 25, p.366 [1988a, p.251]).

​No entanto, esse fenômeno da duplicação do capital inicial, constitutivo da noção marxiana de capital fictício, permaneceu oculto na interpretação da crítica do valor. Ao contrário, o nível da economia real foi incluído na determinação categorial por parte dos então autores do Grupo Krisis. De acordo com essa argumentação, somente um consumo “incorreto” do capital alheio produziria capital fictício. Assim, o texto “Capital fictício”, elaborado conjuntamente por Norbert Trenkle e Robert Kurz a finais dos anos 1990, explica com o exemplo do crédito, a origem do capital fictício da seguinte maneira: “[…] um crédito não é nada mais do que o adiantamento sobre o valor produzido. Enquanto é utilizado para financiar investimentos nos setores da produção que promove a utilização da força de trabalho vivo, e, portanto, a produção de mais-valia, ele é utilizado ‘corretamente’ no sentido da valorização. Se um crédito é utilizado apenas como mero consumo ou gasto em infraestruturas, portanto utilizado improdutivamente em termos de valor, ou se os investimentos já realizados se provarem improdutivos do ponto de vista do mercado mundial, porque a produção é incapaz de concorrer, então os valores adiantados no crédito são desperdiçados. Como consequência, o pagamento dos juros e dos reembolsos não pode ser feito com os rendimentos gerados pelos investimentos realizados, mas deve ser coberto por outra fonte. O crédito torna-se ‘capital fictício’” (Trenkle / Kurz 1998). No entanto, a crítica da economia política de Marx situa a formação de capital fictício inequivocamente no interior da esfera financeira. O capital fictício surge da relação entre os vendedores e os compradores da mercadoria capital-dinheiro e tem seu nascimento no momento em que um crédito é concedido, uma ação ou um título de dívida é emitido de maneira bem-sucedida (Cf. MEW 25, p. 494 [1988b, p 13]).

​Ao identificá-la com as despesas de consumo “incorretas”, a interpretação clássica da crítica do valor adiou a emergência do capital fictício a um momento posterior, e ao mesmo tempo deslocou o seu local de nascimento da esfera financeira para a economia real. Dessa maneira, a produção de capital fictício é reduzida logicamente a algo assim como o surgimento ou acumulação de obrigações de pagamento por parte do devedor. Foi sobretudo por essa redução que a falta de precisão conceitual teve consequências também no que diz respeito à avaliação do desenvolvimento real. Não é por acaso que autores da crítica do valor tem repetidamente tomado grandes quebras na acumulação de capital fictício como ocasião para proclamar o colapso final do capitalismo baseado na criação de capital fictício. No entanto, aqueles que operam com uma noção restrita de capital fictício acabam menosprezando a capacidade de acumulação do novo tipo de capitalismo. Para conseguir uma imagem realista da potência de antecipação do sistema capitalista e uma análise categorialmente fundada da história interna do capitalismo atual carregado pela dinâmica do mercado financeiro, é preciso um outro fundamento teórico. Este é proporcionado pela teoria das mercadorias de segunda ordem, que coloca no centro o problema da duplicação do capital-dinheiro nas relações do mercado financeiro.

4. As mudanças no panorama do debate

​Naturalmente, existem razões pelas quais a abordagem crítica do valor ficou durante muito tempo presa na análise do capital fictício da visão marxista tradicional. Isso inclui – como já foi indicado – a lógica interna de desenvolvimento do nosso processo de construção teórica. Enquanto os autores da crítica do valor ainda tinham que se concentrar na formulação do núcleo da teoria da acumulação e da crise, havia pouca margem para uma elaboração categorialmente fundada da intrincada economia política do capital fictício. Ao menos tão importante, no entanto, era o ambiente discursivo no qual a teoria da crise da crítica do valor devia inicialmente se afirmar. Pelo menos até o colapso da nova economia, nós estávamos totalmente sozinhos na nossa visão segundo a qual o modo de produção capitalista caminha diretamente para uma crise fundamental. Tendo em vista a alta da economia mundial nas décadas de 1980 e 1990, o diagnóstico de crise parecia em grande parte absurdo e empiricamente refutado; continuamente se assumindo como evidente que os impulsos de crescimento tinham um sólido “fundamento econômico real”. Há vinte anos, quase ninguém pensaria que a dinâmica do mercado financeiro sozinha conduziria ao boom, muito menos quais as consequências disso para a perspectiva de desenvolvimento futuro do sistema capitalista. Em tal ambiente discursivo, os representantes da crítica do valor, ao enfatizarem a dependência da acumulação em relação à dinâmica do capital fictício, tiveram que insistir no caráter precário desse tipo de acumulação. Mas isso foi o mais fácil, pois se recorria a um “preconceito de autenticidade metafísica”, até então mantido na sombra, segundo o qual o capital “real” era “mais real”: riqueza capitalista poderia surgir apenas da produção de bens.

​As circunstâncias históricas que pareciam permitir aos autores da crítica do valor uma aproximação superficial e bastante associativa à categoria de capital fictício, entretanto desapareceram. Diante dos graves choques econômicos globais dos últimos anos, a negação das crises está saindo de moda. Os autores da crítica do valor hoje não têm mais que laboriosamente tornar plausível, contra a aparência empírica, o fato de o capitalismo se encontrar em uma crise fundamental. E mesmo o velho ceterum censeo da crítica do valor, de que a acumulação de capital suportada pelos mercados de capitais e dinheiro seria precária, não faz mais a crítica social feita pela crítica do valor se diferenciar fundamentalmente do espírito do tempo apologético. Isso, é claro, inverte a relação de uma maneira fetichista clássica. As ideologias de processamento de crises, que se tornaram hegemônicas o mais tardar desde o colapso de 2008, jogam o “bom capital real” contra o “mau capital financeiro” e perseguem a ilusão do regresso à sociedade da mercadoria orientada pela primazia da economia real. A noção regressiva de que a suposta causa da crise seria a orientação supostamente unilateral da economia para os mercados de dinheiro e capital e o dilatamento destes, obstaculiza hoje a ideia de que a sociedade da mercadoria atingiu um limite histórico e está condenada.

​Em termos de análise real, a situação histórica modificada obriga os representantes da abordagem da crítica do valor a trocar o prognostico da crise por um diagnóstico da crise. Hoje em dia, uma de nossas principais tarefas é analisar mais de perto a forma de desenvolvimento do processo de crise e explicar como a crise da antecipação de valor e a crise da valorização do valor se entrelaçam. Ainda com uma compreensão restrita de capital fictício, a crítica do valor conseguiu tornar plausível que um processo de acumulação baseada na antecipação descoberta de produção de valor futuro, deveria levar mais cedo ou mais tarde a um gigantesco impulso de desvalorização. No entanto, o desenvolvimento interno do sistema de antecipação do valor, só pode ser desdobrado sistematicamente com base em uma crítica da economia política do capital fictício que leve a sério o fenômeno da duplicação do capital dinheiro nas relações com os mercados financeiros. À luz da teoria do capitalismo inverso, surge uma imagem muito mais clara e multifacetada das mudanças sofridas pelo sistema capitalista mundial nas últimas três décadas do que em publicações anteriores de proveniência da crítica do valor.

​E, também, a nova abordagem é muito mais adequada às novas necessidades que surgem no campo da crítica ideológica do que o antigo argumento. Hoje, a crítica do valor tem que se posicionar acima de tudo contra os diferentes tipos do sonho anacrônico de retorno a um capitalismo “sólido” baseado no trabalho honesto. Quem insiste no jargão da metafísica da autenticidade e segue falando da mera “acumulação aparente” na superestrutura financeira é, portanto, confrontado com um problema de delimitação em vista da mudança da paisagem ideológica. Não pode segurar a posição de frente contra o espírito do tempo tão consistentemente como uma crítica do valor que com base na teoria das mercadorias de segunda ordem, não faz nenhuma referência àquelas ideologias da “autenticidade”

5. Como Robert Kurz perpetua a interpretação equivocada da categoria de capital fictício

​Já esboçamos os antigos erros básicos no tratamento da categoria capital fictício: os autores da crítica do valor não analisaram o movimento do capital-dinheiro puro separadamente; a questão da utilização do capital-dinheiro transferido para a economia real tomou o lugar na determinação conceitual do capital fictício. Essa confusão entre a esfera financeira e a economia real não é de modo algum uma má interpretação exclusiva da formação teórica da crítica do valor. Trata-se, antes, da adoção involuntária das reduções provenientes do marxismo do movimento operário. A mesma interpretação equivocada encontra-se já, por exemplo, em Rudolf Hilferding, em cuja obra principal o capital bancário mistura-se com a forma-dinheiro do capital produtivo em uma massa uniforme. “Ao contrário, o capital bancário, o próprio e o alheio, nada mais é que capital de empréstimo, e esse capital de empréstimo na realidade não é outra coisa que a forma-dinheiro do capital produtivo, sendo importante que seja, na sua maior parte, simples forma, isto é, que só exista contabilmente” (Hilferding, 1968, p. 235). Ainda que Hilferding tenha sido um dois poucos teóricos do marxismo tradicional que chegou a falar detalhadamente a respeito do capital fictício, ele só explica este último como um capital existente meramente na imaginação dos atores econômicos envolvidos. Nesse contexto, ele chega a se referir inclusive ao fenômeno da duplicação do capital originário, mas enxerga nisso um fenômeno meramente jurídico. Que a reivindicação meramente jurídica de dinheiro, assim que ela assume a forma de uma mercadoria negociável, deixa de representar capital somente na cabeça e no balanço dos envolvidos, e ganha realidade econômica para o capital considerado num todo, estava totalmente além da imaginação de Hilferding e do marxismo tradicional.

​Sobre a questão do capital fictício, Robert Kurz reproduz em todos os seus escritos posteriores à virada do século a fraqueza fundamental da argumentação original da crítica do valor e mistura categorialmente o movimento do capital fictício e o movimento do capital funcionante. Robert Kurz alegou ter feito uma crítica radical do marxismo do movimento operário – e com razão, considerado ao todo. No entanto, no que respeita ao capital fictício, manteve-se preso no horizonte do marxismo do movimento operário. Isso é particularmente evidente no livro Das Weltkapital, [“O capital mundial”] publicado em 2005. Na seção do livro na qual ele de fato devia ter esboçado a maneira pela qual a antecipação da produção de valor futuro poderia ser pensada desde a crítica da economia política, Robert Kurz, no entanto, apresenta detalhadamente a suposta “insuperável exposição […] do capital financeiro” (Kurz, 2005, p.248), naquela época com quase cem anos, de Rudolf Hilferding. Dessa maneira, ele rasga seda para o que representa uma compreensão do capitalismo incompatível com a abordagem da crítica do valor. Hilferding não somente compreende a “dominação do capital financeiro” de uma maneira sociologista, e a iguala com a sucessiva supressão da concorrência e da lei do valor, que seria substituída supostamente por um cartel geral capitalista controlado pelos bancos. Quanto ao significado dos mercados financeiros para a teoria da acumulação, Hilferding reproduz passo a passo o ponto de vista da economia, sendo os mercados de capital e de dinheiro uma mera coleção de capital cuja função se limita a “transformar dinheiro improdutivo em capital funcionante” (Hilferding, 1968, p.108)

​Era indiscutível no debate interno da Krisis entre nós e Robert Kurz, durante os anos de 1980 e 1990, que a posição de Hilferding era incompatível com a abordagem da crítica do valor. É por isso que o amor tardio que Robert Kurz desenvolveu por esse representante do marxismo tradicional no Das Weltkapital e, antes disso, no texto Die Tücken des Finanzkapitals [“As perfídias do capital financeiro”] (2003) foi um tanto desconcertante. Em efeito, não parece que Robert Kurz tenha se sentido confortável no seu recurso aberto a um dos mais importantes pensadores do marxismo do movimento operário. Seja como for, em Dinheiro sem valor ele toma outro caminho, mais adequado à sua mentalidade como teórico da Tabula rasa: não se apoia ali em Hilferding, mas volta-se contra Marx, e de um modo extremamente curioso. Ele ataca o individualismo metodológico generalizado nas ciências sociais e econômicas e afirma que a forma de exposição na qual se baseia O Capital teria se mantido presa nesse conceito teórico e precisaria portanto de uma correção. Em oposição a isso ele estabelece, como contra-programa, uma ominosa “compreensão dialética da totalidade” (Kurz, 2012, p.63 [59]) que, contrária ao método de Marx, argumente coerentemente com o processo capitalista global e determine as categorias a partir dele. Olhando mais em detalhe para o ponto de vista do Kurz, ele apresenta deficiências fatais. Por um lado, a acusação de individualismo metodológico em relação a Marx é inconsistente. Por outro lado, precisamente sob o rótulo de “compreensão dialética da totalidade” esconde-se fatalmente o procedimento pelo qual o debate da crítica do valor compreendia anteriormente a noção de capital fictício de maneira inadequada. Visto dessa maneira, Dinheiro sem valor transforma um erro parcial que temos tido no tratamento da categoria capital fictício numa sabedoria metodológica de rango superior e num paradigma teórico geral.

6. Individualismo metodológico e historicidade

​O conceito de individualismo metodológico provêm do debate das ciências sociais e da economia, onde é usado comumente no seguinte significado: “ponto de vista metodológico que assume que as instituições e processos sociais devem ser explicados por meio de postulados sobre comportamentos individuais. Segundo essa tese, os componentes fundamentais do mundo social (a sociedade) são indivíduos cujas ações são determinadas pelas suas inclinações e pela compreensão própria da sua situação” (Enciclopédia econômica, 24). Para tornar esse conceito utilizável para seus objetivos, Robert Kurz transforma substancialmente esse entendimento. A primeira redefinição parece-me aceitável: o deslocamento da noção, elaborada de fato para a teoria da ação, para os contextos da análise estrutural. Em Robert Kurz os elementos estruturais isolados tomam o lugar que no entendimento comum ocupam os indivíduos separados. Ele escreve: “O individualismo metodológico consiste, no essencial, em pretender expor e explicar uma lógica abrangente e determinante para um todo com base no caso individual e isolado, que então figura como ‘modelo’” (Kurz, 2012, p.60 [55]). Mas isso não é tudo. Robert Kurz generaliza o conceito a cinco “complexos” (Cf. p. 28 e ss. [27 e ss.]) que, ao partirem do caso individual, não são suficientemente mediados ou não o são em absoluto. Ele transforma a noção de “individualismo metodológico” numa espécie de contrapartida negativa universal da sua própria compreensão da crítica do valor. Então, quase qualquer desvio da compreensão teórica de Kurz pode ser subsumido no conceito exageradamente estendido de “individualismo metodológico”. Para a crítica de Marx feita por Kurz, um alongamento é crucial. Assim que uma abordagem teórica não leva em consideração a “historicidade das categorias” (p. 28 [28]) e vê as categorias subjacentes do modo de produção capitalista já operando em uma forma impura nas sociedades pré-capitalistas, ele faz cair o veredicto de “individualismo metodológico”. Sem dúvida é possível encontrar, na história da teoria, posições que combinam una visão trans-histórica com o “individualismo metodológico”. Adam Smith é um dos clássicos absolutos nesse sentido. Na sua derivação da necessidade do dinheiro, por exemplo, o avô da economia não só parte logicamente dos produtores privados isolados, mas ao mesmo tempo ele projeta no passado a dissolução da sociedade em produtores privados e consequentemente trata o trabalho, o valor e a troca como necessidades sociais naturais eternas. No entanto, isso não significa de maneira alguma que toda interpretação trans-histórica deva forçosamente ao mesmo tempo tomar o caso particular isolado como ponto de partida da construção da teoria. Podem ir juntos, mas não necessariamente. Mas é precisamente isso o que Robert Kurz sugere. Especialmente em Hegel, figura chave da história intelectual, de longe a mais importante para compreender o método de Marx, ambas se encontram absolutamente separadas. Ao tomar o processo mundial num todo como “auto-desenvolvimento do espírito”, Hegel interpretou a história mundial como um único processo geral de vir-a-ser das categorias burguesas. Dessa maneira, ele continua a tradição intelectual trans-histórica do Esclarecimento, que tinha interpretado toda a história anterior como proto-formas imaturas das relações burguesas. Mas ao mesmo tempo Hegel foi o pensador da totalidade por excelência. Ele apenas desprezava um pensamento centrado no indivíduo empírico, e se existe algo como um anti-programa do individualismo metodológico avant la lettre, este é a obra principal de Hegel, A ciência da lógica.

​Robert Kurz constata com razão que Marx não é consistente ao longo dos seus escritos com a historização das categorias específicas do modo de produção capitalista. Pelo menos os Grundrisse, Marx queria realmente reconhecer formas ainda não desenvolvidas do valor e do trabalho abstrato nas sociedades pré-capitalistas. A culpa desses impulsos trans-históricos é sobretudo a separação incompleta do trans-historicismo da filosofia de Hegel. Mas ao mesmo tempo foi precisamente essa proximidade com a abordagem hegeliana que imunizou Marx contra a ideia de que se poderia desdobrar a realidade capitalista a partir do caso individual empírico.

​Não é nenhum segredo que existe uma estreita relação entre o método de Marx e a dialética hegeliana. Em uma carta a Engels, redigida em 1858, enquanto trabalhava na sua obra principal, o próprio Marx menciona que a sua abordagem estava ligada ao método hegeliano: “A propósito, faço bons desenvolvimentos. Por exemplo tenho jogado fora a teoria do lucro, tal como existia até agora. Foi de grande utilidade para o método de elaboração ter voltado a folhar by mere accident […] a ‘Lógica de Hegel’” (MEW 29, p.360). Para compreender a estrutura da obra principal de Marx, deve-se levar a sério essa passagem frequentemente citada na discussão sobre Marx nos anos 1970. Como apontou Roman Rosdolsky no seu trabalho pioneiro sobre a gênese d’O Capital, Marx apresenta a lógica do modo de produção capitalista, seguindo a Hegel, como a elevação sucessiva ao concreto das determinações abstratas e mais gerais das sociedades baseadas na produção de mercadorias. “Marx demonstra aqui, sobretudo, que ‘ir do abstrato ao concreto’ é o único método científico adequado para ‘apropriar-se do concreto, reproduzindo-o como um concreto pensado’. Na Introdução, em uma passagem famosa, ele diz: ‘O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações e, portanto, a unidade do diverso’. Por isso o pensamento só pode compreender plenamente o concreto ‘em um processo de síntese’, ou seja, pela reconstrução progressiva do concreto a partir de suas determinações abstratas mais simples’” (Rosdolsky 1968, S. 43 [39]). Esta “elevação do abstrato ao concreto” (MEW 42, p.35 [78]) é algo totalmente diferente de partir de um indivíduo empírico qualquer ou de um tipo ideal à la Max Weber.

​Quando, ao contrário, Robert Kurz afirma que todo ponto de vista trans-histórico cai também no individualismo metodológico, isso é inadequado não só em relação ao método de Hegel, mas também ao de Marx. Na sua crítica de Marx, Kurz rejeita essencialmente afirmações questionáveis sobre as sociedades pré-capitalistas. Mas com isso de modo algum Kurz dá no centro do método de Marx. Ele ignora que Marx, em contraposição a Hegel, distingue rigorosamente entre a exposição lógica e a histórica e que precisamente a sua obra principal ocupa-se exclusivamente da lógica do modo de produção capitalista. Mas Kurz dissolve isso sistematicamente, o que é especialmente evidente no fato dele usar o conceito histórico de “forma embrionária” e o puramente lógico de “forma elementar” sempre de um fôlego só, como se significassem a mesma coisa. Kurz resume sua crítica a Marx no capítulo 3 do seu livro da seguinte maneira: “Aqui, impelido pela necessidade de presumir a formação capitalista como o apogeu provisório de um desenvolvimento trans-histórico (positivo) e, com ela, as suas categorias em versão ‘menos desenvolvida’ na forma ‘simples’ ou ‘primitiva’, por assim dizer, justamente como ‘formas embrionárias’ ou ‘formas elementares’, já na Antiguidade, também Marx cede à incursão analogizante pela história natural, de que costuma escarnecer nos economistas burgueses” (Kurz, 2012, p.60 [56]). Ao usar as noções de forma elementar e de forma embrionária como sinônimos, Kurz quer fazer os seus leitores acreditarem que com uma crítica da exposição das formas embrionárias, a ideia de que o modo de produção capitalista teria algo assim como uma “forma elementar” seria igualmente enfrentada.

7. A mercadoria empírica e a categoria da mercadoria no livro I d’O Capital

​Com isso, Kurz questiona diretamente a forma de exposição de O Capital. Ele acredita que o erro fundamental está no ponto de partida da análise de Marx: “o problema da exposição em Marx acaba por dever-se ao fato de o ‘começo’ na figura da análise da forma do valor conduzir, mesmo sem querer, à armadilha do individualismo metodológico” (Kurz, 2012, p.169 [152]). Kurz acredita que Marx deveria ter escrito o seguinte: “as determinações elementares da forma do valor da mercadoria enquanto momento do capital nem sequer podem ser desenvolvidas com base na mercadoria individual” (Kurz 2012, p.169 [152]). Kurz supõe aqui que Marx teria tentado desdobrar a lógica capitalista a partir da “mercadoria empírica individual”. Mas o que há de certo nessa acusação? Se considerarmos as duas primeiras frases d’O Capital como completamente isoladas, aderindo ao texto imediato e ignorando tanto as semelhanças metodológicas entre a Ciência da Lógica de Hegel e a principal obra de Marx, como o resto do primeiro capítulo, a acusação parece plausível. Marx escreve: “a riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma ‘imensa coleção de mercadorias’ e a mercadoria individual como sua forma elementar. Nossa investigação começa, portanto, com a análise da mercadoria” (MEW 23. p.49 [45]).

​Se lermos as palavras introdutórias em seu contexto crítico do fetichismo, parece, no entanto, que Marx não fala de modo algum no primeiro capítulo de seu livro de qualquer mercadoria empírica. Em vez disso, ele usa o termo “mercadoria” em um sentido completamente diferente do que ela significa popularmente. O objeto da análise do primeiro capítulo d’O Capital é determinado da seguinte forma: “apenas produtos de trabalhos privados autônomos e independentes entre si confrontam-se como mercadorias” (MEW 23, p.57 [50]).

​Essa declaração central documentaria o seu analfabetismo teórico, se Marx falasse aqui da mercadoria na superficialidade empírica. Naturalmente, ele sabe bem que, sob o modo de produção capitalista, tudo assume potencialmente a forma de mercadoria, não só os produtos do trabalho privado. Nem a mercadoria força de trabalho representa um produto “separado, autônomo, de um trabalho privados operado independentemente”, nem tampouco a terra e outros recursos naturais – para não mencionar a mercadoria capital-dinheiro; nem os produtos do chamado “setor primário” (mineração, agricultura etc.) estão confinados nessa determinação essencial, porque em sua produção entra um elemento de apropriação da natureza sem trabalho e a transformação de uma dada natureza em mercadoria segue sua própria lógica. No primeiro capítulo d’O Capital, Marx estreita o conceito de mercadoria para a mercadoria enquanto representação do valor, a fim de que ela encarne a estrutura capitalista central. É somente no decorrer da apresentação, na medida em que a análise do modo de produção capitalista se desenvolve além das determinações abstratas mais gerais, que Marx introduz gradualmente todos os tipos de mercadorias de cuja existência ele inicialmente fez abstração. No primeiro livro d’O Capital, o processo de concretização só chega à análise da mercadoria força de trabalho. As demais mercadorias só são encontrados pelo leitor no terceiro livro, quando finalmente a reconstrução da totalidade capitalista atinge um estágio em que o conceito seletivo de mercadoria pode ser abandonado. Não é por acaso que Marx, no primeiro capítulo de sua obra principal, desenvolve as “sutilezas metafísicas e artimanhas teológicas” da mercadoria, no exemplo do vestido e a tela, deixando de lado a agricultura, de longe o ramo mais importante da produção de riqueza de seu tempo. Era necessário restringir o conceito de mercadoria de tal forma que só se levasse em consideração a estrutura básica da sociedade capitalista: a socialização por meio dos produtos do trabalho privado. A dissolução da produção social no trabalho privado, no entanto, não é nada mais do que a determinação mais abstrata do modo de produção capitalista, sua totalidade ainda não inteiramente desenvolvida, sua totalidade in nuce. A mercadoria, que está no início d’O Capital, é tão não-empírica quanto a categoria de “ser” com a qual Hegel inicia sua Ciência da lógica.

​Se dermos crédito a Robert Kurz, então o suposto individualismo metodológico de Marx encontraria sua continuidade no tratamento do capital (Kurz, 2012, p.169 [152]). Mas também a afirmação de que Marx analisou o ciclo do capital a partir do capital individual empírico é insustentável. A categoria de capital individual desempenha um papel apenas na análise da interação de muitos capitais, isto é, no terceiro volume da sua principal obra. Até então, a apresentação se move logicamente no plano do “capital em geral” (ver Rosdolsky 1968, p.61 e ss.), uma categoria cuja existência foi significativamente suprimida por Kurz.

​A noção de que Marx orientou-se para a mercadoria empírica e o capital individual empírico não é nova. Tal interpretação estava já difundida no marxismo tradicional, embora não como uma censura e sim como interpretação positiva. Foi o grande mérito dos primórdios da Nova Leitura de Marx e seus precursores esclarecer essa leitura reduzida e tornar clara a diferença qualitativa entre a crítica da economia política e a doutrina econômica burguesa – mesmo que posteriormente eles tenham apagado em grande medida essa diferença (ver Lewed, 2016). É claro que Robert Kurz estava ao menos tão familiarizado com todos esses debates quanto eu. É tanto mais notável e necessário explicar por que, em Dinheiro sem valor, ele trata tudo isso como algo inexistente, repudiando assim a forma de exposição de Marx. Por que Robert Kurz se esqueceu, em seu último livro, aquilo que anteriormente era evidente para ele? Por que se dirigiu ao beco sem saída de uma nova metodologia que fala permanentemente da totalidade do modo de produção capitalista, precisamente para interditar justamente o método que permitiria a sua reconstrução?

8. Individualismo metodológico e substância do trabalho

​Uma das razões transluz-se nas omissões de Bernd Czorny sobre A grande desvalorização. O kurziano confesso combinou a acusação de “individualismo metodológico” de forma totalmente automática com uma segunda acusação: eu supostamente adotaria também um “conceito contraditório de substância” (Czorny, 2016). E, de fato, existe uma íntima relação entre essas duas questões.

​Nos escritos de crítica da economia de Marx, duas versões diferentes da categoria de substância de trabalho são encontradas lado a lado: um conceito naturalista-fisiológico que provem originalmente da academia burguesa do século XIX, e um genuinamente crítico do fetichismo. Os críticos de valor que se atêm ao primeiro, lidam com um enorme problema analítico a respeito do capitalismo contemporâneo. Um conceito naturalista-fisiológico da substância do trabalho torna impossível explicar nas categorias da crítica da economia política como o sistema de produção de riqueza capitalista pode antecipar e capitalizar de antemão produção de valor futuro. O segredo fundamental da economia política da formação do capital fictício, a inversão temporal na relação entre o dispêndio do valor e a formação de capital, só pode ser revelado com base em um conceito de substância crítico do fetichismo. Robert Kurz não queria abandonar a ideia de uma substância fisiológica pseudo-sensível. Desse modo, ele foi obrigado a continuar com o suporte da contraposição entre riqueza sem substância e riqueza substancial. Em Dinheiro sem valor, ele o faz mediante a substituição da noção de trabalho fisiológico das mercadorias particulares e a sua elevação ao plano do processo capitalista global: “[…] a energia humana abstrata não se ‘infiltra’ de imediato na mercadoria individual produzida em cada caso, mas é objetivamente agregada, por detrás das costas dos agentes individuais da produção, a uma massa total da substância do valor socialmente produzido” (Kurz, 2012, p.179 [160]).

​Vivemos em uma época em que a maioria dos publicistas não querem nem são capazes de pensar três frases seguidas. Robert Kurz representou o programa de oposição total. Seu trabalho teórico era motivado pelo impulso desenfreado de conduzir cada ideia até o seu fim lógico. Seu último livro também documenta, a seu modo, essa característica básica da formação teórica de Kurz. Em Dinheiro sem valor, Robert Kurz desenvolveu em um sistema fechado duas debilidades do início da crítica do valor. Com o ominoso “pensamento dialético da totalidade” ele eleva a apressada confusão dos planos de análise em uma nova metateoria. Na ideia obscura de um fundo de energia social global, que representa a produção de valor total, e deve representar algo como o conteúdo da totalidade capitalista, sobre a qual, no entanto, Kurz encontra quanto muito declarações metafóricas (ver Kurz, 2012, p.204 [183]), a idéia de uma substância naturalista do trabalho chega à maior consagração teórica.

​Roman Rosdolsky já no final dos anos 1950 havia mostrado certeiramente a inconsistência no pensamento de Marx, e comparado o Marx “exotérico” orientado pelo paradigma da luta de classes com o “Marx esotérico” crítico do fetichismo. Robert Kurz retomou essa ideia décadas mais tarde e introduziu-a no debate crítico do valor com o teorema do “duplo Marx” (Kurz, 1991, p.16). O contraste entre o Robert Kurz de Dinheiro sem valor e a minha posição pode ser entendido como um jogo de espelho para determinar mais precisamente a linha divisória entre o Marx esotérico e exotérico, a fim de continuar a desenvolver ainda mais a crítica da economia política.

​O método no qual Marx se baseou em sua obra principal, a ascensão gradual da determinação mais abstrata do modo de produção capitalista até a totalidade desenvolvida, é ainda revolucionário e indispensável como modo de exposição da totalidade capitalista. Por outro lado, o uso supra-histórico do conceito de trabalho e a derivação naturalizante da substância de trabalho como substrato fisiológico afastam-se do núcleo da crítica do fetichismo da argumentação de Marx. Ele obscurece a oposição entre o conceito de valor historicamente específico e negativo da crítica da economia política, por um lado, e o conceito supra-histórico afirmativo do valor-trabalho da economia clássica, por outro. Mas Robert Kurz aferrou-se na infeliz confusão da crítica do fetichismo da mercadoria com uma noção de substância do trabalho mecânico-fisiológica, e meteu-se, ao contrário, com a metodologia de Marx. O resultado é devastador. Quem, como Robert Kurz em seu último livro, finge ser capaz de captar a totalidade sem dissolvê-la em um todo articulado, inevitavelmente termina em um argumento circular (ver também Samol, 2013, p.12 e ss.). Ou ele deve pressupor o que quer provar ou retorna secretamente ao caminho que condenou como um suposto “individualismo metodológico”. Uma “compreensão dialética da totalidade” na qual a reconstrução da totalidade social já não é o resultado da ascensão do abstrato ao concreto, mas o processo global desenvolvido torna-se pressuposto de cada determinação categorial, torna impossível qualquer determinação categorial merecedora desse nome.

​​Robert Kurz, como se sabe, tendia a exagerar formulações. Se seguirmos esse modelo, então a importância de seu último livro para a abordagem da crítica do valor pode ser resumida em uma frase. Em Dinheiro sem valor, Robert Kurz destrói tudo o que ele e outros construíram a muito custo durante décadas.

Bibliografia

Bernd Czorny (2016): Ernst Lohoff und der methologische Individualismus. http://www.exit-online.org/druck.php?tabelle=autoren&posnr=560

[Ernst Lohoff e o individualismo metodológico.

Disponível em: http://www.obeco-online.org/bernd_czorny.htm%5D
G.W.F. Hegel (1975): Wissenschaft der Logik. [Ciência da Lógica] Hamburg
Rudolf Hilferding (1968): Das Finanzkapital. [O capital financeiro] Frankfurt am Main
Robert Kurz (1991): Die verlorene Ehre der Arbeit [A honra perdida do trabalho]. In: Krisis 10, Erlangen
Robert Kurz (2003): Die Tücken des Finanzkapitals [As perfídias do capital financeiro]. Streifzüge 3/2003
Robert Kurz (2005): Das Weltkapital [O capital mundial]. Berlin
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[Kurz, Robert. Dinheiro sem valor. Linhas gerais para uma transformação da crítica da economia política. Lisboa: Antígona, 2014]
Karl-Heinz Lewed (2016): Rekonstruktion oder Dekonstruktion?. [Reconstrução ou desconstrução?] Krisis/Beitrag 3/2016 http://www.krisis.org/2016/rekonstruktion-oder-dekonstruktion-krisis-32016/
Ernst Lohoff/ Norbert Trenkle (2012): Die große Entwertung [A grande desvalorização]. Münster.
Ernst Lohoff (2014): Kapitalakkumulation ohne Wertakkumulation. Der Fetischcharakter der Kapitalmarktwaren und sein Geheimnis. [Acumulação capitalista sem acumulação de valor] Krisis-Beitrag 1/2014, krisis.org/2014/kapitalakkumulation-ohne-wertakkumulation/
Ernst Lohoff (2016): Die letzten Tage des Weltkapitals. [Os últimos dias do capital mundial] Krisis/Beitrag 5/2016, http://www.krisis.org/2016/die-letzten-tage-des-weltkapitals/
Marx, Karl: Grundrisse. MEW 42, Berlin 1983

[Grundrisse. Rio de Janeiro: Ed.UFRJ/Boitempo, 2011]
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[O Capital. Livro I. São Paulo: Nova Cultural, 1985]​​​​​​
Marx, Karl: Das Kapital. MEW 25, Berlin 1965

[O Capital. Livro III. Volume IV. 3a. Edição. São Paulo: Nova Cultural, 1988a]

[O Capital. Livro III. Volume V. 3a. Edição. São Paulo: Nova Cultural, 1988b]
Marx, Karl: Briefwechsel. MEW 29, Berlin 1978
Norbert Trenkle; Robert Kurz: Fiktives Kapital [Capital fictício]. 1998 http://www.krisis.org/1998/fiktives-kapital/
Roman Rosdolsky (1968): Zur Entstehungsgeschichte des Marxschen Kapital. Frankfurt.

[Rosdolsky, Roman. Gênese e estrutura de O capital de Karl Marx. Rio de Janeiro: Eduerj: Contraponto, 2001]
Wirtschaftslexikon 24:http://www.wirtschaftslexikon24.com/d/methodologischer-individualismus/methodologischer-individualismus.htm
Peter Samol (2013): Ein theoretischer Holzweg. [Um equívoco teórico] Krisis Beitrag 4/2013, http://www.krisis.org/2013/ein-theoretischer-holzweg/

Título original: Zwei Bücher – zwei Standpunkte. Zur Diskussion um Die große Entwertung und Geld ohne Wert. 19.04.2017

Elogio da Razão Sensível – Michel Mafesoli – o livro que estou lendo 

Michel Maffesoli é um pensador que olha para o que está no mundo. Olha para os fenômenos contemporâneos. Preocupa-se em compreendê-los. E, seguindo o percurso de Weber, Simmel e Heidegger, nos convida a olhar fenomenologicamente para o viver social contemporâneo e a exercitar uma compreensão que seja capaz de retirar o julgamento moral de nossas análises sociológicas.

Sua vasta obra, que se iniciou em 1976 com A Lógica da dominação, seguida em 1979 por A violência totalitária, passando por A sombra de Dionísio (1985) e Tempo das tribos (1987) entre outros, oferece um material teórico-epistemológico diferenciado, no mínimo ousado, diante de sociologia produzida pelos pensadores da Modernidade. Não seria demais dizer que Michel Maffesoli inaugura uma sociologia  da sensibilidade. Uma sociologia que não despreza todos os sentidos e sentimentos que compõem o viver social. Uma sociologia que busca compreender as experiências coletivas e as relações intersubjetivas, considerando suas facetas lúdicas, rotineiras, ou ainda “perversas”. Uma sociologia que está preocupada não somente com a razão instrumental (conforme os frankfurtianos), mas também com a razão sensível.

Elogio da Razão Sensivel, um dos mais importantes livro escrito por este  sociólogo francês,  se propõe exercitar um método de compreensão do mundo fora dos padrões determinados pelo racionalismo moldado pelo Esclarecimento,  e por isto, dada ao seu peculiar método proposto,  resolvemos trazê-lo através do fichamento exposto no blogue Boteco universitário (compartilhamento de fichamentos,resenhas e resumos)  nesta nossa seção de resenhas : o livro que estou lendo.


Fichamento elogio da razão sensível-Michel Maffesoli

MAFFESOLI, M . Elogio da razão sensível. Petrópolis: Vozes, 1998.

No primeiro capítulo, o autor conceitua o itinerário a ser percorrido, ao falar de um saber sensível como método, ou seja, Maffesoli propõe o que denomina uma sociologia “da caricia” (1998, p.22) que substitui a representação racional das coisas por uma contemplação apaixonada do mundo. O sensível seria assim parte integrante do mundo, modo de compreender e principalmente vivenciar os fenômenos sociais. É possível aproximar-se de uma metáfora (que posteriormente será observada sob o foco maffesoliano) presente na musica de Vinicius de Moraes e toquinho ” a vida tem sempre razão”, ao dizerem “que nada adianta postar-se de fora”.

Assim como Maffesoli irá valorizar a forma e o pensar interno, coletivo, da experiência social, a experiência com o CPT deve ser verificada do lado de dentro, por seus participantes, através dos relatos presentes nas entrevistas realizadas.Somente assim, para o autor e para este estudo, é possível tangenciar a experiência sensível em sua totalidade e distintas nuances.

I- DEONTOLOGIA

• Sabedoria relativista: Quando já não se tem quaisquer garantias, ideológicas, religiosas, institucionais, políticas, talvez seja preciso saber apostar na sabedoria relativista. Esta “sabe”, por um saber incorporado, que nada é absoluto, que não há verdade geral, mas que todas as verdades parciais podem entrar em relação umas com as outras. P.11

• Sensibilidade generosa, que não se choque ou espante com nada, mas que seja capaz de compreender o crescimento específico e a vitalidade própria de cada coisa. P.12

• O saber ligado à “razão instrumental”: é um saber ligado ao poder. P14

• Apego ao ordinário: É estando desapegado em relação aos diversos ideais impositivos e universais, é estando enraizado no ordinário, que o conhecimento responde melhor à sua vocação: a libido sciendi. Por que não dizer: um saber erótico que ama o mundo que descreve. Assim, pela purgação do geral, da verdade, daquilo que é tido como correto, pode encarar-se o plausível e os possíveis das situações humanas. P.14

• Temática do sensível: bem poderia ser a marca da pós-modernidade. P.18

• Proposta metodológica: propus pôr em ação um pensamento de acompanhamento, uma “metanóia” (que pensa ao lado), por oposição à “paranoia” (que pensa de um modo impositivo) próprio da modernidade. Algo como uma sociologia da carícia, sem mais nada a ver com o arranhão conceptual. P.22

• Representação x apresentação: substituição da representação pela apresentação das coisas. p.23

• Apresentação das coisas: se contenta em deixar ser aquilo que é, e se empenha em fazer sobressair a riqueza, o dinamismo e a vitalidade deste “mundo-aí”. p.24

• Criação do mundo: interação entre a criação social e a de um autor. E aquele que estiver atento à beleza do mundo, às suas expressões específicas, participa do esforço criativo deste. p.24

• A elevação do sensível ao inteligível: Entendendo-se que tal “elevação” reconhece o sensível como parte integrante da natureza humana e, evidentemente, os efeitos sociais que isso pressupõe. p.27

• Maravilhar-se: É na dor e no sangue que se nasce para a existência. Mas é no maravilhar-se que é possível, bem ou mal, ir vivendo. É integrando tudo isso que se saberá ser o menos infiel possível à efervescência existencial característica da socialidade contemporânea. p.29

II. Razão abstrata

Ao tentar compreender a razão abstrata, o autor efetua uma cisão entre o pensamento moderno, focado na separação e o pensamento erótico, contemporâneo, que observa amorosamente “a vida em sua integralidade” (1998 p.60). Logo, entender que a observação do social não deve ser feita “do lado de fora”, mas por intelectuais orgânicos, como pensara anteriormente Gramsci, intrinsecamente imbricados com os fenômenos sociais. a razão não deve vir assim, a priori, mas será uma consequência posteriori da contemplação sensível do mundo, feita de empatia e sensibilidade com que se pode experimentar e observar o mundo.

O cotidiano contemporâneo estaria dessa forma formado de socialidade, a qual por um lado, está impregnada de comunicação verbal, a partir da qual é possível elaborar algumas leis gerais, mas, por outro lado, comporta também aquilo que chamamos de comunicação não verbal, coisa bem delicada de apreender com precisão. É o domínio do sensível (MAFFESOLI, 1998, p.60).

• Sobre o desenvolvimento cientifico: à barbárie artesanal dos séculos anteriores sucede a sofisticação dos meios propiciados pelo avanço tecnológico e pelo desenvolvimento científico. p.34

• Vida: vida é um movimento perpétuo onde se exprime a União dos contrários. p.37

• Crítica ao nacionalismo: o que está, essencialmente, em questão no nacionalismo é bem isto: um extraordinário fechamento sobre si mesmo, uma energia que é dispensada e empregada de maneira unicamente interna. p40

• O trabalho da razão é um perpétuo recomeço, que em nada se pode enclausurar a realidade, esta que sempre está em vantagem sobre o pensamento que dela se pode ter. p.47

Diálogo: Edgar Morin e o pensamento ecológico. p.4

• A sociedade contemporânea:

1. Pelo próprio fato de estar apegada ao cotidiano, à “proxemia”, não consegue mais acomodar-se a uma divisão estrita entre aquilo que seria da ordem da razão, e aquilo que pertenceria à da paixão. p.52
2. Identidades, classes, categorias socioprofissionais, filiações partidárias, ideológicas ou religiosas, tudo isso tende, progressivamente, a dar lugar a um vasto sincretismo de contornos pouco delimitados, onde cada qual é chamado a desempenhar papéis diversos, no jogo sem fim das aparências. p.52

• Sobre separação (pensamento moderno):

1. Freud: o poder separador que constitui a arma essencial do pesquisador, esse “cavaleiro do ódio”. p.53
2. De Adorno, passando por Durkheim, uma mesma sensibilidade se exprime: a da separação, a de uma razão abstrata que não consegue, não sabe, perceber as afinidades profundas, as sutis e complexas correspondências que constituem a existência natural e social. p.60

• Esquecimento progressivo do pensamento “erótico”: isto é, de um pensamento amoroso da vida em sua integralidade, tende a favorecer uma atitude normativa e justificativa. p.62
• Intelectuais orgânicos: cada  sociedade precisa de intelectuais orgânicos e não unicamente de intelectuais críticos, ou partidários do statu quo. É quando esse pólo orgânico vem a faltar que se entra num processo de decadência, isto é, de incapacidade, para um dado corpo, de ajustar sua maneira de ser e seu modo de pensar. p.63  (conexão com Gramsci)

• Razão e compreensão:

Mais do que uma razão a priori, convém pôr em ação uma compreensão a posteriori, que se apoie sobre uma descrição.• Rigorosa feita de conivência e de empatia (Einfühlung). Esta última, em particular, é de capital. p.66

.Vida: A vida não se deixa enclausurar. p.67

• Ciência: a ciência não é senão a cristalização de um “saber disperso na vida, através do mundo cotidiano”. p.67

Socialidade: Esta, por um lado, está impregnada de comunicação verbal, a partir da qual é possível elaborar algumas leis gerais, mas, por outro lado, comporta também aquilo que chamamos de comunicação não verbal, coisa bem delicada de apreender com precisão. É o domínio do sensível. p.69

III. A razão interna

Mas o que seria afinal a razão sensível, interna ao sujeito e que perpassa o corpo social, formando-o?

Para o autor a razão sensível seria da ordem do afeto, ou “alavanca metodológica que pode” servir à reflexão epistemológica, e são plenamente operatórias para explicar os múltiplos fenômenos sociais, que, sem isso, permaneceriam totalmente incompreensíveis.(MAFFESOLI,1998, p.72).

Este é o ponto e onde partir para compreender o fenômeno em sua essência,permitindo chegar até o que o autor denomina o “grund”, a razão interna,que expressa uma cultura ou um conjunto de fenômenos sociais historicamente localizado.Toda análise social deve fundamentar-se na busca do

“procurar o fundamento, e não a simples causa, de todo ato, de toda representação, de todo fenômeno, a fim de perceber-lhe a razão interna, ainda que esta deva contrapor-se à razão funcional ou instrumental à qual nos habituamos. “(MAFFESOLI,1998, p.86).

Dessa forma, as razoes de um fenômeno como o CPT por exemplo, consistem não somente na observação externa dos fenômenos, mas no mergulho nas experiências vivenciadas, na lógica interna dos fenômenos e dos sujeitos em interação e na matéria que forma a própria comunidade de aprendizagem. Sem tocar minimamente nesta essência, torna-se impossível descrever a contento o objeto escolhido.

• O afeto:

O afeto, o emocional, o afetual, coisas que são da ordem da paixão, não estão mais separados em um domínio à parte, bem confinados na esfera da vida privada, não são mais unicamente explicáveis a partir de categorias psicológicas, mas vão tornar-se alavancas metodológicas que podem servir à reflexão epistemológica, e são plenamente operatórias para explicar os múltiplos fenômenos sociais, que, sem isso, permaneceriam totalmente incompreensíveis. p.72

• “ideias força”: elas percebem o estado nascente dos fenômenos sociais em sua globalidade. p.80
• Razão interna:Pequena razão própria causa e efeito de um compartilhamento de valores entre alguns poucos. Nesse sentido, a razão interna é a expressão de uma cultura específica. p.81

• Razão e sentimento: o próprio das emoções, dos sentimentos, das culturas comuns, é que eles repousam numa vida compartilhada; todo o trabalho intelectual consistindo, portanto, em perceber a vida que os anima. Entendendo-se que essa vida tem suas razões que, com muita frequência, a razão desconhece, ou não deseja conhecer. p.82

• Análise social: procurar  o fundamento, e não a simples causa, de todo ato, de toda representação, de todo fenômeno, a fim de perceber-lhe a razão interna, ainda que esta deva contrapor-se à razão funcional ou instrumental à qual nos habituamos. p.86

Grund: fundamento, razão interna; p.88.

• Raciovitalismo:uma entidade, seja ela qual for, encontra sua razão de ser em si mesma, é causa e efeito de si mesma, é seu próprio fundamento (Grund). p.89

.Matéria e alma:“Pela matéria, em cada um de nós, é parcialmente a história inteira do Mundo que é repercutida. Por mais autônoma que seja a nossa alma, ela herda uma existência que foi prodigiosamente trabalhada, antes dela, pelo conjunto de todas as energias terrestres”. p.90

• Raízes de uma comunidade:As raízes de um ser, e as de uma comunidade, são uma mistura de passado, presente e futuro, mas não podem ser compreendidas de um modo externo; é preciso ir buscar sua lógica no próprio interior das mesmas, sob pena de obter uma visão abstrata desencarnada e, de cada vez, superficial. p.90 ( USAR NA COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM)

• Convergência: o mundo das formas, o mundo da forma, apanágio do poeta, não faz mais do que cristalizar o que se poderia chamar de desejo de unicidade que anima todas as coisas. Para além da fragmentação, inerente à vida mundana, há uma aspiração à convergência que a exigência poética personifica com perfeição. p.98

• Todo: o todo, por mais paradoxal que isso possa parecer, é bem anterior às partes que o compõem. E o que é mais importante: a compreensão das partes nos é, antes de mais nada, dada pelo todo”. p.104

.• O “raciovitalismo”: reconhece um ponto de vista epistemológico das correspondências existenciais que marcam a vida do dia-a-dia. p111

IV. Do Formismo

Como proposta de vislumbrar a face dos fatos sociais, Maffesoli propõe o conceito de forma como parte fundamental das sociedades, matriz que gera os fenômenos sociais na cultura pos-moderna. a forma, para o autor “é fazedora de sociedade” (MAFFESOLI,1998,p.122).

A forma é cheia de dúvidas,contenta-se em apresentar e não prima pela separação racionalista do objeto como meio de compreendê-lo. Em contrário:  parece-nos que na lógica da razão sensível, meramente se desenha a forma social, apresentando-lhe a essência,diante da qual o pesquisador deve se postar com o olhar sensível, deixando-se penetrar de suas nuances, para poder compreender mais intimamente o fenômeno pretendido.Para isto, o autor se aproxima do conceito yunguiano de arquétipo:

Eis o que a forma arquetípica pode nos ajudar a compreender: há resíduos arcaicos, imagens primordiais que fazem com que a vida seja o que é que a modelam enquanto tal e por aquilo que ela é. (MAFFESOLI,1998,p.149).

Neste conceito, há, em diálogo com o francês, um caminho a seguir, de modo a compreender a integração humana, a forma como os sujeitos se relacionam e a essência deste conjunto que se convencionou chamar humanidade, conjunto de sonhos coletivos, dos mitos e dos arquétipos que integra o sujeito “em um conjunto mais amplo do qual ele é parte integrante. (idem, ibidem, p.152).

• Sociedade e imagem: nossas sociedades são animadas, de modo orgânico, pelo jogo das imagens. p.115

• A forma:

1. é de fato a matriz que gera todos os fenômenos estéticos que delimitam a cultura pós-moderna. p.118

2. Forma: sem deixar de valorizar o corpo, as imagens, a aparência, ela é “formante”, isto é, ela forma o corpo social; em outras palavras, ela é fazedora de sociedade. p.122

3. A forma, ou a sua expressão filosófica – o formismo –contenta-se em levantar problemas, fornecendo “condições de possibilidade” para responder a eles caso a caso e não de maneira abstrata. É nesse sentido que a forma é cheia de dúvidas, e faz destas uma força inegável no processo de conhecimento. p.126

4. Essência na forma: sou a partir de uma essência – eu diria uma forma – que a vida pode existir, e que se pode pensá-la. p.128

5. A forma agrega, agrupa, modela uma unicidade, deixando a cada elemento sua própria autonomia, sem deixar de constituir uma inegável organicidade. p13

• Unicidade. Esta, por oposição à unidade que exclui, mantém, de maneira contraditória, a coesão de todos os elementos fragmentados do dado mundano. p.121
• Arquétipos: arquétipos:

1. importa agora apreciar-lhes as consequências sociais. P.148

2. Eis o que a forma arquetípica pode nos ajudar a compreender: há Resíduos arcaicos, imagens primordiais que fazem com que a vida seja o que é que a modelam enquanto tal e por aquilo que ela é. p.149

3. Através dos sonhos coletivos, dos mitos e dos arquétipos, é toda a pré-história da humanidade que continua a exprimir-se. Trata-se de algo de transpessoal, que ultrapassa cada indivíduo e que o integra em um conjunto mais amplo do qual ele é parte integrante. p.15

• A força da forma: impondo uma emoção coletiva ela orienta as vontades individuais e assim, “faz” sociedade. p.153
• Bildung: A Bildung designa igualmente a abertura à graça divina, isto é, uma iniciação que nos leva a participar da plenitude da perfeição. P.154

• Indivíduo x pessoa:Indivíduo, que possui uma identidade precisa, faz sua própria história e participa, pelo contato com outros indivíduos, da história geral, e pessoa, que tem identificações múltiplas no âmbito de uma teatralidade global. O indivíduo tem uma função racional, a pessoa desempenha papéis emocionais. P.160

V Fenomenologia

Detalhando seu processo metodológico, Maffesoli recorre à fenomenologia como outro modo de pensar o mundo, unindo a razão instrumental à razão sensível, que opõe o “porque” moderno ao “como” pós-moderno, que não fala pelo objeto, mas através dele, dialogando intelecto x alma. è preciso neste dialogar,dar a devida importância a intuição, como a percepção individual de um saber coletivo,cotidiano, que advém de uma interação entre os sujeitos no mundo, ou ” “saber incorporado” que, em cada grupo social e, portanto, em cada indivíduo, constitui-se. (MAFFESOLI,1998,p.194) como vinculo.

Esta ligação não será somente racional, mas também não lógica, daí a importância da intuição e da metáfora. Esta ultima é para o autor um instrumento privilegiado, pois, contentando-se com descrever aquilo que é, buscando a lógica interna que move as coisas e as pessoas, reconhecendo a parcela de imaginário que as impregna, ela leva em conta o “dado”, reconhece-o como tal e respeita suas Coibições”. (idem,ibidem, p.232)

São as imagens construídas de imaginário e experiências individuais que vão descrever os fenômenos sociais e permitir a compreensão de sua razão interna e de seu sentido.

Aqui cabe mais uma vez ilustrar o raciocínio com o exemplo do filme “o carteiro e o poeta”, na sequencia em que o personagem que representa o poeta Pablo Neruda ensina o carteiro sobre a importância da metáfora na observação do mundo.ante o olhar maravilhado do seu interlocutor enquanto os dois contemplam uma praia.

“Neruda ” define a metáfora como a substancia a partir da qual é possível escrever poesias.mais do que isso, compreender o mundo .parece-nos ser esta cena muito representativa do método maffesoliano: através da imagem percebida do cotidiano,do que se observa ao redor,é possível sensibilizar-se e iniciar um caminho me busca da percepção acerca de si e do mundo.são as imagens construídas não somente pela visão,mas pela sensibilidade constituída pelo sujeito e pelo imaginário coletivo que o percebem as componentes fundamentais segundo as quais é possível tanto escrever uma poesia quanto realizar uma pesquisa social,sendo ao mesmo tempo “transporte” do sentido” e mobilizadora da energia social.

• Feminização do mundo:o retorno de outro modo de referir-se ao mundo, de outra maneira de ver a criação. Algo que não tenha a brutalidade da razão instrumental,mas se contente com acompanhar aquilo que cresce lentamente em função de uma razão interna. P.171
• Modus operandi fenomenológico: O fenômeno faz sentido em si mesmo, não precisa ser relacionado a um além de si. Mesmo, qualquer que seja: profano, religioso ou político. p173

• Em vez do porque o como: “como”, o que quer dizer que este é vetor de conhecimento, conhecimento tanto mais primordial por apresentar coisas que são como elas são. p176

• Intelecto x alma: De preferência ao exercício de um intelecto que está sempre a se dizer não, é preciso saber pôr em jogo as molas de uma alma que esteja emcorrespondência com a alma do mundo. P.180

• Descrição do objeto social: Como observa Ernst Jünger,“não se fala do objeto, mas sim através dele”. P.187

• As ciências sociais: não fazem,propriamente falando, descobertas. A sociologia bem compreendida visa, em vez disso, aprofundar a compreensão de fenômenos que muitos já conhecem”. P.193

• Intuição:

1. É oriunda de um tipo de sedimentação da experiência ancestral, que ela exprime o que propus chamar de “saber incorporado” que, em cada grupo social e, portanto, em cada indivíduo, constitui-se sem que se dê-lhe muita atenção. P.194-195.

2. É isto que constitui o próprio da intuição ativa: perceber em toda a sua concretude os valores cotidianos que partilhamos, com outros, no âmbito de um ideal comunitário. p223
• Sentido: o sentido não é imposto do exterior, mas, isto sim,procede de uma verdadeira interação entre o quadro e o observador. p.230

• Vínculo social: O vínculo social não é mais unicamente contratual, racional,simplesmente utilitário ou funcional, mas que integra uma boa parte de não-racional, de não lógico, e exprime isso em efervescências de toda ordem quePodem ser ritualizadas (esporte, música, canto) ou, de modo mais geral são totalmente espontâneas. P.205

• Estética: Deve-se entender estética,aqui, em seu sentido mais simples: vibrar em comum, sentir em uníssono, experimentar coletivamente coisas que permitem a cada um, movido pelo ideal comunitário, sentir-se deste mundo e em casa neste.Mundo. P.207

• Razão:a razão, não importa o que pensem os defensores do nacionalismo é construída a partir de uma intuição inteligente.p212

• a metáfora:

1. é um instrumento privilegiado, pois, contentando-se com descrever aquilo que é, buscando a lógica interna que move as coisas e as pessoas, reconhecendo a parcela de imaginário que as impregna, ela leva em conta o “dado”, reconhece-o como tal e respeita suas Coibições.p.232 (no texto,fazer referencia ao filme carteiro e o poeta,quando Neruda ensina o carteiro o poder da metáfora)

2. pelas imagens, aquilo que descreve, o sociólogo vai, pela utilização das metáforas, fazer sobressair à vitalidade e a dinâmica do vivente.p238

3. Ao mesmo tempo em que o jogo das imagens transporta a emoção coletiva e o prazer dos sentidos, a metáfora, tomada em seu sentido etimológico, permitecompreender o “transporte” do sentido. Ela exerce, assim, o mesmo papel que o ritual nas sociedades primitivas: o de mobilizar a energia social.p240

VI. A experiência

• Senso comum:

1. algo que tem sua validade em si, como uma maneira de ser e de pensar que basta a si própria e que não carece, quanto a isso, de nenhum mundo preconcebido, fosse qual fosse, que lhe desse sentido e respeitabilidade.A intuição e o uso da metáfora são, justamente,expressões desse senso comum. Empenham-se em ultrapassar as mediações para alcançar, diretamente, o próprio coração das coisas.p.246.

2. O senso comum está fundado aí. Ele põe em jogo, de modo global, os cinco sentidos do humano, sem hierarquizá-los, e sem submetê-los à preeminência do espírito.p247

3. o senso comum é a expressão de um presenteísmo que serve de pivô entre passado e futuro. Dei a isso o nome de “enraizamento dinâmico.p251

4. senso comum, que é totalmente estranho à compartimentação ou, ainda, ao recorte da realidade em rodelas.p255

5. É esse inconsciente coletivo, cujo descrédito ainda é de bom tom proclamar, que constitui a ossatura do senso comum. Ele é como um tipo de substrato mítico que transpira, de diversas maneiras, por todos os poros do corpo social. Ele constitui a experiência do vivente que se enraíza longe na memória da humanidade.p.261

6. Tipo de “buraco negro” onde se concentra uma energia social que escapa às diversas imposições políticas, econômicas e morais que são o próprio do poder. É assim que o senso comum pode ser visto como uma forma de resistência que assegura o perdurar societal na longa duração.p264

• os pequenos rituais cotidianos: confortam o sentimento de pertença, a impressão de fazer parte de uma comunidade.p269.
• saber de “tipo Sul”:Um saber que não violenta, de modo prometéico, o mundo social e natural, que não conceituaria, sem precauções, aquilo que é observado, mas, ao contrário, que se contenta em levar em conta, de um modo acariciaste, o dado mundano enquanto tal.p.246.

• vida social: a vida social é fundamentalmente politeísta; quaisquer que sejam as diversas legitimações ou racionalizações de que se sirva, ou com as quais sejaguarnecida, sua prática é, antes de mais nada, plural.p257

• o pensamento orgânico:saber incorporado que, de geração em geração, vai constituir um substrato que assegura a perduração societal.p251-252

• sociologia: as grandes obras sociológicas ou antropológicas são, justamente,aquelas que atentam para o aspecto concreto e empírico da existência. É assim que podem ser compreendidas as diversas interações que constituem a trama da vida.p.254Obs:todo o saber é fundado no ser pensante.

• concreto e socialidade: o concreto constitui o terriço, o solo nutriente de toda socialidade.p.255

• a vivência :não é assunto individual.p.270

A vivência

É preciso voltar à face da ciência novamente ao senso comum, como expressão do presente,que “põe em jogo, de modo global, os cinco sentidos do humano, sem hierarquizá-los, e sem submetê-los à preeminência do espírito.” (MAFFESOLI, 1998, p.247),inconsciente coletivo que traz no plural da humanidade,repositório dos rituais cotidianos que constituem o ser em comum,cuja vida não é apenas individual,mas coletiva.ater-se a vivencia,ao cotidiano e ao senso comum é, para o autor: “É recusar a separação, o famoso “corte epistemológico” que supostamente marcava a qualidade científica de uma reflexão. É, por fim, reconhecer que, assim como a paixão está em ação na vida social, também tem seu lugar na análise que pretende compreender esta última.p272.

A observação sociológica deve fundamentalmente “referir-se à vivência daqueles que são seus protagonistas de base, do que às teorias codificadas que indicam, a priori, o que esse fenômeno é ou deve ser.p.283.baseada neste fato,foi feita a escolha por dar voz aos que experienciaram as oficinas do CPT como modo de dar vida ao fenômeno através dos que vivenciaram-no.Da mesma forma era impossível analisar o fenômeno sem extrair minha própria experiência com o lugar e com as pessoas envolvidas no projeto,como modo de colocar também na analise minhas próprias vivencias com o projeto,na observação mas também na fruição. segundo Maffesoli ”

Não é possível mover as coisas, a não ser estando-se, de modo orgânico, ligado à própria natureza das mesmas.p.301 .

• Ater-se a vivência:É recusar a separação, o famoso “corte epistemológico” que supostamente marcava a qualidade científica de uma reflexão. É, por fim, reconhecer que, assim como a paixão está em ação na vida social, também tem seu lugar na análise que pretende compreender esta última.p.272
• “sociosofia”, : uma disciplina que saiba integrar e compreender a “mística do estar-junto”.p272

• busca da vida: “procuremos a vida onde a vida está”, isto é, não nos códigos mortíferos das diversas instituições, mas na agregação comunitária que é sua causa e efeito.p.281

• método e justificativa: para perceber a especificidade e a novidade de um fenômeno social, convém mais referir-se à vivência daqueles que são seus protagonistas de base, do que às teorias codificadas que indicam, a priori, o que esse fenômeno é ou deve ser.p.283. (POR ISSO,ESCOLHI USAR OS RELATOS ATRAVÉS DOS FORMULARIOS E ENTREVISTAS)

• corpo social: o corpo social repousa, antes de mais nada, sobre a colocação dos corpos individuais em relação, e, igualmente, sobre o fato de que essa colocação dos corpos em relação secreta uma aura específica, um imaginário específico que é o cimento essencial de toda vida em sociedade.p.287

• vivência:Deixando fluir a metáfora, pode-se dizer que é a vivência que, em suas formas paroxísmicas, irradia as diversas manifestações da existência do dia-a-dia.p.290

VII iluminação pelos sentidos

• A verdadeira vida :não esta mais no saber e poder.p295(citação indireta)
• Experiência dos sentidos: existe uma dialética entre o conhecimento e a experiência dos sentidos. Mas, à diferença do “sensualismo” do século XIX, tal dialética não é apenas um processo individual, mas tem uma forte carga social.p.297

• a perda do senso estético : um erro epistemológico.p.298

• Saber “dionisíaco” :é aquele que reconhece essa ambiência emocional, descreve seus contornos, participando, assim, de uma hermenêutica social que desperta em cada um de nós o sentido que ficou sedimentado na memória coletiva.p299

• ensinar e fruir: Ensinar e fruir são os motores da compreensão e da ação. Não é possível mover as coisas, a não ser estando-se, de modo orgânico, ligado à própria natureza das mesmas.p.301

• a experiência sensível espontânea :é a marca da vida- cotidiana.p.304

Postado por Tatiane (tatunha@gmail.com) 

A grande desvalorização: Introdução- Marcos Barreira – o livro que estou lendo 

Em 2012, Ernst Lohoff e Norbert Trenkle publicaram na Alemanha “A grande desvalorização. Porque a especulação e a dívida do Estado não são as causas da crise”. O livro, dividido em três partes, aborda os limites da valorização do capital na era da Terceira Revolução Industrial, o conceito de “capital fictício” e o seu desenvolvimento histórico atual:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Na crise financeira global são descarregadas as contradições da sociedade capitalista. Ainda que as crises agudas estejam começando nos mercados financeiros, as causas são mais profundas. Nada é tão errado como a lenda popular da “punhalada pelas costas”, na qual uma economia real saudável teria caído vítima da ganância ilimitada de uns poucos banqueiros e especuladores (…)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“A ascensão historicamente sem precedentes da superestrutura financeira nas últimas três décadas foi, ele próprio, a forma da progressão e do adiamento provisório de uma crise fundamental da sociedade capitalista”.

Trouxemos aqui a introdução desta obra para a leitura de vocês .

INTRODUÇÃO
“A economia é nosso destino”: raramente esta sentença, pronunciada há quase um século pelo político alemão Walther Rathenau, ressoou de forma tão ameaçadora quanto atualmente. A economia, o santo dos santos da nossa sociedade, que é também o eixo e o ponto de fixação, está fora de controle. Ainda recentemente, ela era vista como o refúgio de uma razão superior, mas qualquer pessoa dotada de um pouco de bom senso tem hoje o sentimento, lendo a imprensa econômica, de se encontrar em um asilo de loucos. Desde o outono de 2008, quando a crise dos subprimes conduziu o conjunto dos mercados financeiros à beira do precipício, a conjuntura mundial só pôde se estabilizar de maneira precária. Bastava os líderes políticos e os oráculos que lhes servem de economistas – num acesso de otimismo – anunciarem “o fim da crise” para que surgissem novas noticias, ainda mais lúgubres, sobre a situação económica mundial. Era só apagar um foco de incêndio com rios de dinheiro fresco que o fogo já ameaçava dois ou três outros lugares do sistema capitalista mundial. Certamente, os governos e os Bancos Centrais conseguiram, a princípio, evitar o colapso da economia mundial graças à nacionalização urgente de créditos podres, assim como à política de dinheiro barato e ao aumento rápido do endividamento dos Estados. Mas dessa forma, eles apenas prepararam o próximo e ainda maior impulso à crise. Agora é a explosão das bolhas financeiras dos Estados que ameaça precipitar a economia mundial no abismo.

Essa barulhenta cacofonia acompanha um proceso dramático. São estratégias tiradas dos livros de receitas para explicar ao público em qual momento “nossa economia” se desviou do caminho correto do mercado e quais remédios lhe permitiriam recobrar a razão. Os autores da presente obra não têm nenhuma parte nesse negócio. O que eles entendem por essencialmente errado é o pressuposto mesmo que se encontra no fundamento do atual debate. Pressuposto segundo o qual se poderia resolver a crise atual no enquadramento do modo de produção capitalista. A pretendida “degeneração” da gloriosa economia de mercado, que se torna responsável pelo desastre econômico mundial, deve ser, na realidade, considerada como um processo de desvelamento. Pode-se observar que o modo de produção capitalista constitui uma forma de produção de riqueza absolutamente irracional, programada para a autodestruição. A explosão dos mercados financeiros, a especulação, o endividamento desmedido dos Estados ou tudo que é apresentado no mercado de opiniões como a causa da crise atual são, na verdade, os sintomas de um processo de crise muito mais profundo. O que está em causa hoje não diz respeito a um “defeito” que poderia ser resolvido, mas aos fundamentos do sistema capitalista mundial em via de desagregação.

Esta visão de coisas é tabu no debate público. Não a despeito da “crítica do capitalismo” ensurdecedora que nos é infligida por todas as mídias, mas precisamente em razão dela. Pois essa última se limita, essencialmente, a uma reprimenda sem conseqüência endereçada aos mercados financeiros – alinhada, vezes mais, vezes menos, com difamações que personificam os “banqueiros e especuladores” – que, por esta razão, precisamente, impede de compreender que é o sistema de produção de riqueza capitalista em si mesmo que é insustentável. A realidade pressiona a encarar uma crise fundamental, mas a consciência dominante recusa essa realidade com todas as suas forças. É claro, reina o medo de uma grande catástrofe. Mas ele permanece difuso e canalizado contra fantasmas esotéricos do fim do mundo, como aquele da pretensa profecia Maia, ou as fantasias conspirativas antissemitas e tentativas individuais de fugir para fora da vida cotidiana; ou é suprimido por charlatões notórios que minimizam a crise distribuindo soníferos.

O pano de fundo silencioso desse estado esquizofrênico é sem nenhuma dúvida a preparação psicossocial do indivíduo moderno após trinta anos de uma penetração radical da economia em todos os domínios da vida, que tornou impossível imaginar uma organização da vida social que não passe pela mercadoria, pelo dispêndio abstrato da força de trabalho e pelo dinheiro. Se junta a isso o colapso do “socialismo real”, que conferiu ao dogma da ausência de toda alternativa oposta ao capitalismo a força de uma evidência. Certamente, o “socialismo real” nunca foi outra coisa que uma variante autoritária da modernização capitalista, sustentada pela ideologia singular da “ditadura do proletariado”, e ele não constituía de forma alguma uma perspectiva para a emancipação social; mas sua existência aparecia para muitos como a prova de que existia outra opção face ao alinhamento de todas as relações sociais ao princípio da racionalidade econômica. É por isso que seu colapso não alargou o horizonte do pensamento emancipatório, mas ao contrário, reforçou o sentimento de que o modo de vida e de produção da economia capitalista é o único possível. Como mera possibilidade de superação do capitalismo era varrida como fantasia irreal de sonhadores e retrógrados inveterados, a ideia de uma crise fundamental do sistema tornou-se implicitamente um tabu. Pois essa crise não é analisada como crise de um modo de produção historicamente específico que se tornou obsoleto: ela aparece como um processo apocalíptico, como uma guerra atômica mundial ou a queda de um meteorito gigante – daí a oscilação entre histeria e recalcamento. Capitalismo ou barbárie: eis o slogan implícito da propaganda que se espalha nas mídias. Ou esta crise significa o fim de toda a civilização ou se consegue retomar um curso normal para a reprodução capitalista. E é exatamente assim que se deve compreender o discurso apocalíptico sustentado por certas frações da classe política, como o bravo “comissário do rigor” socialdemocrata alemão Peer Steinbrück que, sob o choque da quebra dos mercados financeiros, declarou que estávamos “à beira do precipício”. Talvez se tratasse da expressão de susto frente às consequências dos seus próprios atos, mas, em última análise, esse tipo de afirmação serve para legitimar as medidas de austeridade drásticas e os sacrifícios exigidos à população como condição para controlar a turbulência econômica. O vocabulário apocalíptico serve aqui como variante do funesto “Princípio TINA”: There is no alternative. Nunca esta fórmula foi citada tantas vezes e com tanta convicção quanto depois do estouro da bolha imobiliária e das ondas de choque que se seguiram. Quando a ameaça é o fim do mundo, é inútil ser delicado.

Os gurus da crise, que se multiplicaram desde o outono de 2008, se inscrevem igualmente nesse esquema. O sucesso deles repousa sobre o fato de que esse alarmismo responde a um clima social subterrâneo e, ao contrário das fileiras de curandeiros e apaziguadores, eles pintam nos muros imagens de protestos violentos. Mas, apesar disso, compartilham o consenso social segundo o qual não há uma crise fundamental do sistema e que é possível resolvê-la com decisões políticas firmes e medidas de poupança reforçadas. A ideia de que o modo de produção capitalista levado ao absurdo torna-se insustentável lhes continua totalmente estranha. Com os olhos fixados na superfície da crise, polemizam contra pretensos “erros” como o “imenso endividamento dos Estados”, a “expectativa de rentabilidade excessiva” ou uma “especulação descarada”, erros que deveriam ser detidos para que a sociedade não mergulhasse no abismo. Para os gurus da crise, restabelecer um capitalismo são e próspero é apenas uma questão de vontade política e social. Nesse sentido, eles contribuem com eficiência, minimizando o fenômeno.

Representante mais exitoso dessa confraria, o economista alemão Max Otte propõe explicitamente que se considere a “crise como uma oportunidade” (Otte, 2006, p. 193) – naturalmente, não como a ocasião para o desenvolvimento de uma prática de oposição à atual loucura, mas, como oportunidade, individual e coletiva, de um novo posicionamento vitorioso na competição capitalista. Segundo ele, a Europa tem à sua frente a chance de melhorar de maneira decisiva sua posição nos mercados mundiais e um investidor inteligente veria abrir para si oportunidades formidáveis de multiplicações dos lucros mesmo em um mercado em baixa. Assim o último terço da obra de Otte é unicamente constituída de indicações de investimentos, permitindo colocar em prática seus conselhos. A despeito de todas as falhas econômicas atuais, não se pode, segundo Otte, imaginar que as fundações da ordem capitalista estejam abaladas. O mercado mundial continuará a funcionar até o fim dos tempos e jamais deixará de estar disponível para a determinação mais sagrada da existência humana: a otimização do próprio patrimônio pessoal segue sendo possível e permanece o centro de todo o esforço sobre a Terra.

Claro, as predições e diagnósticos de diversos gurus da crise apresentam nuances. Assim, em seu livro escrito justo antes do crash de 2008, Otte interpreta a crise primeiramente como uma crise de deflação, na qual o curso das ações cai e os títulos de dívida se transformam em dejetos. Outros autores fazem soar o alarme diante da possibilidade de afundamento do sistema monetário mundial e da hiperinflação. Em si, este medo não é sem fundamento. Em seu desenvolvimento, o processo da crise atual deve desemborcar em uma crise do dinheiro e da ordem monetária – como mostraremos na segunda e na terceira parte deste livro. Mas qualquer que seja a forma tomada por esse desenvolvimento, a atual ordem monetária – apoiada no Dólar como moeda mundial e no Euro como segunda moeda de referência – não poderá ser mantida por muito tempo. Há muito que essa tendência se anunciava (ver Lohoff, 1995; Lohoff e Trenkle, 1996), uma vez que é um segredo por todos conhecido. O negócio torna-se escandaloso, no entanto, quando os gurus da crise não podem mais olhar no túnel escuro sem enxergar o brilho dourado do outro lado. Assim é a receita que Nathan Lewis apresenta no livro Ouro: a moeda do futuro (Lewis, 2008), que é igualmente muito apreciado por outros gurus da crise, grandes e pequenos neoliberais e antiestatistas. De acordo com Lewis, os Estados deveriam abandonar todo endividamento e retornar a um sistema monetário com base no ouro: assim, segundo ele, seria estabelecido o fundamento monetário de uma economia mundial renovada, sólida e próspera.

Essas propostas só podem ser feitas quando se perde todo senso do desenvolvimento lógico e histórico do sistema de produção da riqueza capitalista. Não é um acaso, se este, no curso dos decênios, se emancipou da moeda-ouro. Isto não resulta de uma decisão equivocada de políticos mal aconselhados e que poderia ser revertida, como pensam Lewis e seus colegas. É antes o resultado e, ao mesmo tempo, o pressuposto da enorme expansão da produção capitalista em sua marcha triunfal sobre o globo. Com base apenas no “metal bárbaro” (Keynes) o qual, devido à sua forma material, está sujeito a limites naturais, as últimas décadas de desenvolvimento capitalista não teriam sido possíveis. A transição para a pura moeda de crédito era indispensável. Certamente, pode-se imaginar que em um último estágio da queda da economia mundial e da decomposição da moeda, tente-se novamente, de algum modo, atrelar as moedas nacionais ao ouro, mas tais reformas monetárias seriam claramente o resultado e a forma decorrente do processo devastador de encolhimento do sistema de produção de riqueza capitalista. Elas seriam tão promissoras quanto a aparição espontânea de uma moeda constituída de cigarros depois da Segunda Guerra Mundial. Os ortopedistas amadores apaixonados pelo ouro prescrevem ao capitalismo réplicas de sapatos com os quais ele aprendeu a andar, e fazem do ouro as botas de sete léguas para uma nova grande marcha em direção à acumulação capitalista. Mas, na realidade, são apenas sapatos fornecidos pelos administradores da miséria.

Mas duvidosos gurus como Otte e Lewis não são os únicos incapazes de compreender o caráter fundamental do atual processo de crise. Se a maior parte do debate público permanece limitada à superfície dos acontecimentos e se os sintomas da crise tais como a autonomização do movimento dos mercados financeiros ou a explosão das dividas dos Estados são desconectados de suas causas, isso não é somente devido ao encolher de medo ante a escalada monstruosa da crise do sistema capitalista. A isto se soma o fato de todas as escolas da doutrina econômica que competem entre si serem incapazes, em razão mesmo de seus pressupostos teóricos e de seus paradigmas, de pensar uma crise fundamental – e de terem se imunizado contra ela.

Desde a época de Adam Smih e de Jean-Baptiste Say, os economistas estão quase todos em guerra contra a ideia de que o capitalismo engendraria crises a partir de sua lógica interna. Ainda que seja óbvio que a dinâmica do capitalismo cause desequilíbrios e disfunções permanentes sempre resolvidas e superadas de maneira provisória pelas crises, a doutrina econômica, em sua versão clássica, assim como na versão neoclássica, reconhece no mercado, desde sua origem, a garantia confiável de situações de equilíbrio. Nesse sentido, as crises econômicas não podem ter uma causa econômica interna. Por definição, elas podem ser apenas o resultado de fatores exógenos – quer dizer, extra-econômicos, como catástrofes naturais, guerras e erros políticos. É assim que todas as crises que acompanharam o desenvolvimento do capitalismo foram ideologicamente desrealizadas, e as contradições internas do capitalismo, que produzem de modo inevitável falhas recorrentes, são eliminadas por princípio.

É certo que, perante a crise mundial dos anos 1930, o keynesianismo originou-se como a primeira escola econômica que suavizou parcialmente esse dogma, mas apenas para continuá-lo de outra forma. De acordo com Keynes, preferir o dinheiro a outras formas de riqueza (“preferência pela liquidez”) pode prejudicar a produção do equilíbrio econômico e engendrar um subemprego estrutural; no entanto, esta fonte potencial de desequilíbrio poderia, segundo ele, ser eliminada por medidas políticas monetárias e fiscais adequadas. Desta forma, o Estado aparece como um ator econômico importante, cuja tarefa principal é intervir para estabelecer o originalmente harmonioso poder do mercado quando ele é anulado por perturbações transitórias.

Como todas as crises anteriores foram minimizadas com sucesso, não surpreende que uma crise fundamental seja tão impensável para a doutrina econômica que esta nem mesmo precise se justificar. As definições e os conceitos econômicos fundamentais desenvolvidos no curso dos dois últimos séculos não permitem a formulação de tal pensamento. Enquanto eles se entendem, as defesas imunológicas estão seguras, qualquer que seja a imagem empírica do sistema capitalista mundial. Certamente, nos últimos anos, em vista do vigor da crise, alguns representantes ilustres da doutrina econômica se permitiram discutir o “fim do capitalismo”, mas olhando mais de perto, esse discurso – que não se distingue daquele dos duvidosos gurus da crise – se refere apenas a um pretenso “descarrilamento” da “economia de mercado” e bastaria simplesmente recolocá-lo no caminho correto. O capitalismo é mau, a economia de mercado é boa, eis o credo que denuncia como “capitalismo” apenas a “especulação desenfreada” nos mercados financeiros. Mesmo os liberais linha dura, como o propagandista do imposto fixo Paul Kirchhof, se uniram a essa leitura. Este último defende, na série Kapitalismus – Kaputt? do jornal Die Zeit, uma “economia de mercado responsável” e lança o apelo: “não deveríamos nos deixar acuar por um mercado financeiro que se tornou selvagem” (Kirchhof, 2011).

A distinção entre “economia de mercado” e “capitalismo” tem uma tradição. Já na época da guerra fria, era o coração da ideologia de legitimação do Ocidente que vendia sua “economia social de mercado”[1] como uma terceira via entre capitalismo e comunismo. Na época do capitalismo de crise, essa ideologia adquire um novo significado como defesa face à ideia ameaçadora segundo a qual todo o sistema poderia estar em jogo. Mas as raízes dessa imunização de base são mais profundas. Elas surgem da ideia que a doutrina econômica faz de si mesma, que é certamente o produto do modo de produção capitalista, mas que não pode encarar esta forma historicamente específica de socialização sem mistificá-la como modo de vida dos homens em geral. Enquanto, na realidade capitalista, dificilmente se pode ignorar que a valorização do capital – o abstrato fim em si de fazer do dinheiro mais dinheiro – é o eixo do processo econômico e que a produção de mercadorias é somente um meio subordinado a tal fim, a doutrina econômica quer vê-la como uma inocente “produção de bens”, como algo que sempre existiu desde que os ancestrais do Homo Sapiens desceram das árvores. Todos os manuais de economia começam pelo axioma inquestionável segundo o qual o objetivo da economia é fornecer coisas úteis aos homens, e a produção de mercadorias, o dinheiro e o mercado constituiriam apenas meios particularmente refinados para atingir esta finalidade, para a organização da divisão social do trabalho e a “alocação ótima de recursos”. Desta forma, não se apaga somente a inversão dos meios e do fim, inerente ao caráter historicamente específico do modo de produção capitalista mas também as suas contradições internas, tornando inútil uma crise resultante delas.

Se, portanto, as análises da crise dos economistas especializados resultam superficiais e desorientadas, como efetivamente o são, não há como responsabilizar qualquer incompetência particular da geração atual de economistas. O problema não é o domínio insuficiente dos instrumentos de análise econômica, mas a sua estrutura básica. Nenhuma escola de desenho propõe a borracha como o único instrumento para esboçar um retrato. Mas a doutrina econômica faz exatamente essa loucura em todos os âmbitos quando se trata de compreender o que está por trás do processo de crise atual. Assim, quem quiser explicitar de maneira aprofundada esse processo deve adotar outro sistema de referências teóricas, algo que rompa com os harmoniosos pressupostos da doutrina econômica e apreenda as características historicamente específicas do modo de produção capitalista.

Os fundamentos de tal sistema teórico foram estabelecidas há mais de 150 anos por um certo Karl Marx. Partindo de uma crítica da produção de mercadorias e de suas contradições internas, ele decifrou o modo de produção capitalista como um sistema fetichista altamente irracional submetido à uma dinâmica histórica incontrolável que, em última análise, deve levá-lo à autodestruição, caso a humanidade não seja capaz de superá-lo. Entretanto, é surpreendente que essa concepção não tenha desempenhado até o momento quase nenhum papel no debate sobre a crise. Assistimos nos últimos anos a um “renascimento de Marx”, ou, pelo menos, a combinação de letras M-A-R-X surge sempre de tempos em tempos como uma espécie de artifício em polêmicas sobre as questões sociais, mas é sem dúvida porque as ridículas acrobacias do capitalismo de crise e os sacrifícios sempre novos impostos à sociedade suscitam a nostalgia de uma crítica fundamental da sociedade na qual o nome de Marx permanece um tipo de senha. No entanto, a verdadeira pertinência e atualidade da crítica de Marx à economia política é mais abafada do que revelada por tais reminiscências.

Alguns invocam o retorno da luta de classes e assim reativam precisamente a parte da teoria de Marx que teve no passado um grande impacto ideológico e político, pois ela permaneceu presa à imanência do movimento de modernização capitalista, tornando-se definitivamente ultrapassada nos dias de hoje (ver, para essa crítica, Kurz e Lohoff, 1989; Trenkle, 2005; Lohoff, 2006; Schandl, 1997). Então, Marx é novamente convocado como principal testemunha para uma crítica truncada do capitalismo financeiro, acusado de explorar de maneira excessiva a “economia real” e que, por essa razão, deveria ser contido. É como se, em seu tempo, Marx não tivesse zombado das fantasias pequeno-burguesas de um mundo capitalista ideal. Finalmente, existem aqueles, principalmente os universitários, que se esforçam para reduzir o pensamento de Marx ao sistema de referências teóricas da economia, esvaziando sua substância crítica, como se ele fosse uma espécie de precursor de Keynes, ou impõe a ele a concepção subjetiva de valor dos neoclássicos. Mas a parte da teoria de Marx que tem hoje toda a sua pertinência, a crítica fundamental da mercadoria, do trabalho, do valor e do dinheiro, além da teoria da crise que decorre dela, permanece quase completamente oculta.

Retomando essa linha teórica e a desenvolvendo, o capitalismo e a sua propensão à crise aparecem sob outra luz que não os modelos axiomáticos e ahistóricos de harmonia postulados pela doutrina econômica. As crises históricas que permanecem inexplicáveis no enquadramento de tais modelos não indicam somente o caráter irracional e auto-contraditório do modo de produção dominante, mas constituem os impulsionadores nesse longo caminho que o leva à barreira interna[2]. Acontece que o tacanho fim em si mesmo da valorização do capital não é compatível, no longo prazo, com os imensos potenciais de produção de riqueza material que ele mesmo faz surgir, porque o processo vai de par com uma incessante redução do tempo de trabalho necessário à produção de mercadorias. Em outras condições sociais, esse potencial poderia ser utilizado para ajudar todas as pessoas a levarem uma boa vida, sem a destruição das condições naturais da vida; em condições capitalistas, no entanto, o crescimento incessante da produtividade mina a produção de valor e, assim, o fundamento mesmo da valorização do capital. Cedo ou tarde, deve ser alcançado o ponto em que o nível das forças produtivas se torna incompatível com a forma da riqueza capitalista.

Visto dessa maneira, a atual crise da economia mundial não é de forma alguma o resultado da especulação ou do endividamento excessivo que agora deve ser pago. Ao contrário, a formação de enormes bolhas financeiras expressa em si mesma o fato de que, desde o início da Terceira Revolução Industrial – que introduziu uma mudança fundamental nas estruturas de produção e que tornou “supérflua” a força de trabalho nos setores centrais da valorização capitalista – há uma queda absoluta da produção de valor. A crise estrutural decorrente disso, que se faz perceptível já desde os anos 1970 como uma “crise do trabalho”, só pôde ser disfarçada e adiada por meio de um colossal empilhamento de “capital fictício” nos mercados financeiros. O preço a pagar foi a acumulação de enormes montanhas de letras de cambio descobertas a futuro, que jamais serão resgatadas e cuja desvalorização pende agora sobre o mundo inteiro como uma espada de Dâmocles. Portanto, os alertas superficiais sobre a crise tem tanto sentido quanto as profecias pessimistas dos gurus da crise, que apelam a um retorno da “economia de mercado saudável” e são tão errados quanto todas as exigências de “controle dos mercados financeiros”. É possível que a crise estrutural fundamental seja uma vez mais adiada, por meio de uma nova bolha de capital fictício e das diversas medidas de urgência, mas ela não poderá ser resolvida no interior da lógica capitalista. A manutenção forçada dessa lógica é, na realidade, uma grande ameaça de catástrofe, à medida que a crise se agrava. Só se pode evitá-la se desenvolvermos em escala mundial uma alternativa social para além da produção de mercadorias.

***

A construção deste livro segue a estrutura argumentativa que vamos esboçar aqui em algumas linhas. A primeira parte – redigida por Norbert Trenkle – enuncia os conceitos fundamentais para a compreensão da dinâmica histórica do capitalismo e da sua contradição interna Em seguida, examinamos como essa contradição foi, a princípio, com o boomeconômico do pós-guerra, um possante motor para a imposição do capitalismo, antes de se transformar – no curso da Terceira Revolução Industrial – em uma força interna da crise estrutural. Nós mostraremos porque, no nível atingido pela produtividade social, um impulso autossustentável da valorização capitalista não é mais possível, e como a crise estrutural fundamental foi adiada através do inchaço da superestrutura financeira.

 

 A segunda e a terceira partes do livro – redigidas por Ernest Lohoff – são consagradas a um exame aprofundado do capital fictício. A segunda parte desenvolve inicialmente os fundamentos teóricos para compreender esse tipo de capital e sua função no processo de acumulação capitalista. Ela mostra que os títulos de propriedade sobre os quais se compõe o capital fictício são uma categoria particular de mercadoria, as “mercadorias de segunda ordem” cujo valor de uso particular é representar um valor futuro. São examinadas se e em quais circunstâncias essa antecipação poderá ser resgatada e quais são os limites lógicos desse movimento.

 

A terceira parte analisa o lugar e a função que ocupa o capital fictício no processo histórico de desenvolvimento do modo de produção capitalista. Se seu significado era secundário na época da Revolução Industrial, tornou-se muito importante na época do fordismo, enquanto gerador de impulso e motor de arranque da acumulação, pois os enormes investimentos necessários na produção industrial em massa só podiam ser financiados pela antecipação do futuro. Mas enquanto essa antecipação ainda podia ser coberta por uma produção de valor real, isso já não é possível na era da Terceira Revolução Industrial. O capital fictício se transformou no motor da acumulação que, no entanto, só pode ser mantida graças a uma antecipação ainda maior do futuro. Mas quando os limites desta antecipação são atingidos, deve ocorrer uma gigantesca desvalorização do capital fictício que não só vai revelar a crise estrutural, mas deve também se manifestar sobre a forma de uma desvalorização da mediação monetária.

 

A conclusão deste livro, finalmente, elenca algumas teses sobre as perspectivas da emancipação social diante da crise. Argumentamos que a alegada “austeridade” evocada em referência à Dona de Casa da Suábia [2] é um completo absurdo que somente é o resultado da lógica insensata de um sistema que não produz jamais a riqueza social senão como subproduto da valorização do capital e a produção permanece condicionada à “rentabilidade” e à “viabilidade financeira.” Se nos libertamos deste constrangimento, de modo algum parecerá que vivemos “além de nossos meios”, ao contrário, há muito tempo a sociedade é demasiado rica para a forma estreita e limitada da produção de riqueza capitalista. É apenas quando tivermos o sucesso de eliminar esta forma que poderíamos utilizar de maneira judiciosa e racional os atuais potenciais da produtividade, a fim de tornar possível para todos os homens uma vida boa e de conservar duravelmente os fundamentos naturais da vida.

[1] “Economia social de mercado” (Soziale Markwirtschaft) foi a doutrina econômica oficial da República Federal da Alemanha após a Segunda Guerra mundial.

[2] “Dona de Casa da Suábia” é a figura ideológica que representa uma forma quase frugal de administração económica do lar. Significa gastar apenas o que se tem, sem contrair dívidas. Essa figura ideológica é regularmente apresentada na imprensa alemã como modelo para o manejo do orçamento público.

 

 

 

Comprando tempo diante da crise do capitalismo – resenha de Maurilio Lima Botelho – o livro que estou lendo

Resenha de Tempo Comprado – a crise adiada do capitalismo democrático, de Wolfgang Streeck. Lisboa: Actual Editora, 2013. Tradução: Marian Toldy e Teresa Toldy. Edição digital (epub)

Até a década de 1970, os principais autores da chamada Escola de Frankfurt elaboraram suas obras em torno de uma crítica da racionalidade, da ciência, da filosofia e da cultura modernas. Ao contrário de uma leitura muito popular, não se pode dizer que as relações econômicas foram substituídas, nesse “marxismo tardio” (Fredric Jameson), por uma crítica da cultura ou da razão, já que os principais frankfurtianos haviam asseverado que o fetiche da mercadoria “se espalhou como uma paralisia sobre a vida da sociedade em todos os seus aspectos” (Adorno e Hokheimer, 1985: 40). Nos anos 70, entretanto, ocorreu uma grande mudança no foco das análises: a chamada “segunda geração” da Escola de Frankfurt mudou radicalmente suas atenções teóricas, voltando para a análise política, para a teoria do Estado (Claus Offe) e mesmo abandonando a crítica baseada na forma da mercadoria para uma compreensão da sociedade fundada na linguagem (Jürgen Habermas). Nesse momento, a teoria do capitalismo parecia ter rompido de vez com os fundamentos da “crítica da economia política” (Marx), já que até mesmo as crises eram agora prioritariamente compreendidas como crises políticas ou mais precisamente “crises de legitimação”.

É em virtude dessa mudança que um livro publicado recentemente na Alemanha, com edição portuguesa de 2013, tem uma importância fundamental para a trajetória da chamada Teoria Crítica. De autoria de Wolfgang Streeck, sociólogo e cientista político alemão, diretor do reconhecido Instituto Max Planck para Estudos da Sociedade, o livro Tempo Comprado – a crise adiada do capitalismo democrático é o resultado das chamadas Lições Adorno realizadas em Frankfurt em 2012 – renomado ciclo de palestras que convida anualmente figuras destacadas da teoria social contemporânea.

A obra tem por motivo inicial uma discussão sobre a mudança no caráter da crise operado na Escola de Frankfurt. Resultado de discussões entre os autores do antigo Instituto de Pesquisa Socia, a tese de que o capitalismo do pós-guerra teria suplantado politicamente a instabilidade crônica do capitalismo foi defendida por Friedrich Pollock e teria atestado que
o surgimento das grandes empresas e de instrumentos de planeamento estatal cada vez mais desenvolvidos pôs termo definitivamente ao tempo do laissez faire, transformando o capitalismo avançado num sistema económico regulado pela política e, em princípio, não sujeito a crises (Streeck, 2013).1

Essa formulação foi compartilhada por vários autores frankfurtianos e teria inclusive servido de referência para alguns desdobramentos teóricos mais amplos, como o conceito de “mundo administrado” de Adorno ou mesmo de “sociedade unidimensional” de Marcuse. No fundo, uma ideia comum de que o “primado da política” significava um nível tão elevado de capacidade de administração social e burocratização que tanto o mercado quanto vários outros momentos da vida cotidiana, e mesmo a consciência individual, foram transformados em objeto de controle e planejamento especializado.

Com a virada na década de 1970, Habermas e Offe colocaram o foco de uma nova teoria da crise não mais nos fundamentos econômicos do capitalismo avançado, mas em seu núcleo político. A crença num “capitalismo organizado” não faria mais sentido, pois a realidade daquele momento mostraria exatamente que a instabilidade agora derivava da incapacidade de legitimação política do capitalismo. A teoria da crise de legitimação do Estado surgiu como transformação da Teoria Crítica em crítica da política – ainda que Offe fizesse todo o esforço para fundar o funcionamento do Estado na “lei do valor”2 –, ou mais precisamente em teoria política convencional, já que Habermas se tornou o defensor de uma nova forma de sociabilidade capaz de assegurar as estruturas democráticas amparando-as numa “ação comunicativa”.

Entretanto, a crise de legitimação que Habermas e Offe faziam referência pontuava a incapacidade do próprio Estado em atender o conjunto de demandas ampliadas pela democratização, o caráter desestabilizador de camadas sociais cada vez mais desvinculadas do exercício político democrático ou mesmo indiferentes às eleições, os grupos juvenis descontentes com os rumos da sociedade burocratizada e o surgimento de grupos alheios aos partidos e ao Estado que enveredavam para a ação armada. Na avaliação atual de Wolfgang Streeck, a crise de legitimação que veríamos se aprofundar daí em diante não se devia exatamente aos trabalhadores, mas ao capital propriamente dito:

As teorias neomarxistas da crise, de Frankfurt, reconheceram há quatro décadas, de forma diferente e mais perfeita de que a maioria das outras teorias do capitalismo social da época, a fragilidade interna do mesmo. Mas não avaliaram corretamente as suas causas e, portanto, também o rumo e a dinâmica de mudança histórica iminente. A abordagem destas teorias excluía a possibilidade de ser o capital e não o trabalho a retirar legitimidade ao capitalismo democrático, tal como este se tinha desenvolvido nos trente glorieuses. Na realidade, a história do capitalismo posterior aos anos 70 do século XX, incluindo as sucessivas crises económicas ocorridas neste período, é a história de evasão do capital à regulação social que lhe foi imposta após 1945, mas que ele próprio nunca desejou (2013).

Foi a elite do sistema econômico que abandonou os acordos, estruturas e promessas adotadas voluntaria ou involuntariamente com o keynesianismo e o Estado do Bem-Estar Social. Isso levou a uma desestabilização política gigantesca que avança até os dias de hoje e transformou em peça de história o envolvimento entre capitalismo e democracia. As dificuldades econômicas acumuladas, brotando de modo impetuoso a partir da década de 1970, ofereceram como opção ao capital abandonar o curto período democrático com o qual se envolveu:

Retrospetivamente, a história da crise do capitalismo tardio desde os anos 70 afigura-se como um desenvolvimento da tensão, muito antiga e fundamental, entre o capitalismo e a democracia – como dissolução progressiva de um casamento forçado, arranjado entre ambos depois da Segunda Guerra Mundial. Ao transformarem-se em problemas de acumulação, os problemas de legitimação do capitalismo democrático perante o capital exigiram como condição para a sua solução que a economia capitalista se libertasse cada vez mais da intervenção democrática (2012).

Aqui fica evidente a importância do livro: se o caminho trilhado pela Teoria Critica foi um deslize em direção à centralidade política na reflexão teórica, a obra de Streeck demonstra que, assim como a hipostasia democrática, o “primado da política” não passou de um breve período histórico ou, no limite, uma formulação ideológica do capitalismo de Estado. Como expressou em um artigo publicado no Le Monde, em 2012, “dia após dia, os episódios que marcam a crise atual do capitalismo mostram que os ‘mercados’ são os que ditam as leis aos Estados” (Streeck, 2015).3

Não deixa de soar estranho que um autor apresentado como “cientista político” tenha se voltado à discussão econômica e à demonstração dos vínculos que limitam a atuação estatal na sociedade contemporânea.4 Mas Streeck não está preocupado com limites disciplinares ou com ordem de prioridades lógicas: sua intenção é realizar uma reflexão sobre o caráter da crise econômica e da crise estatal, apontando como os vínculos cada vez mais estreitos entre Estado e Mercado tornam o panorama atual complexo e dramático.

Esse é o ponto de partida em suas lições – apesar de não ter sido formado, ser um herdeiro ou discípulo frankfurtiano, o diálogo é estabelecido desde o princípio com a herança da Escola de Frankfurt5 e principalmente com essa alteração fundamental na crise de legitimação do capitalismo que fez nascer a “revolução neoliberal”. Aliás, uma das principais contribuições do texto é exatamente a cuidadosa análise realizada que mostra como o neoliberalismo, longe de ser uma nova era da política moderna, foi na verdade uma (fracassada) estratégia político-econômica criada para enfrentar a crise. O sucessivo fracasso do neoliberalismo, contudo, não significou o seu abandono, pelo contrário, a cada etapa de aprofundamento da crise capitalista iniciada na década de 1970, novas técnicas são adotadas para tentar dar fôlego ao mercado. Assim, o neoliberalismo é um fiasco ininterrupto que não deixa nunca de ser oferecido como remédio que agrava ainda mais a doença. No desdobramento teórico dessa trajetória, o livro de Streeck se transforma numa das melhores análises do neoliberalismo.

Em primeiro lugar, a crise desencadeada em 2008 não é uma crise entre outras na história da economia capitalista, mas a expressão aprofundada do esgotamento do ciclo de forte crescimento do pós-guerra. A crise atual, portanto, não é uma entre outras, mas a continuidade de uma longa trajetória crítica: “a crise diagnosticada nos anos 70 se desenvolveu de facto, assumindo configurações sempre novas ao longo do tempo, até chegar, em 2008, à sua forma atual” (Streeck, 2013). Quais são as configurações que a crise assumiu ao longo do tempo?

Na avaliação de Tempo Comprado, a crise econômica que colocava em risco todo o equilíbrio político criado no boom do pós-guerra foi inicialmente enfrentada com medidas inflacionárias. A liquidação de Bretton Woods permitiu o uso de mecanismos de introdução de recursos monetários na economia sem nenhuma contrapartida real, portanto, criando meios de financiamento do Estado, reduzindo as dívidas através da desvalorização da moeda e permitindo assim conter os conflitos que haviam surgido em fim dos anos 60 e que ameaçavam a ordem política. Até mesmo os trabalhadores, naquele momento organizados em sindicatos que exigiram políticas de indexação dos salários diante da inflação, não viam na inflação imediatamente um problema grave, o que criou uma ilusão baseada no reajuste monetário:

A inflação causou um aumento aparente, mas não real, do bolo a distribuir, mas isso, a curto prazo, não fez necessariamente diferença; criou a ilusão, tanto junto de trabalhadores como de empregadores – uma «ilusão monetária» em termos keynesianos –, de um aumento da prosperidade que permitia um novo consumismo (Streeck, 2013).

É evidente que essa política de afrouxo monetário não poderia durar muito tempo e a estagflação que se abateu sobre as principais economias mundiais, na metade da década de 1970, anunciou o fim dessa primeira estratégia de imprimir dinheiro para resolver problemas fiscais de um Estado cada vez mais ampliado devido às exigências democráticas. O fim dessa política abriu caminho para os ataques ao “peso” do Estado e o início propriamente dito da era neoliberal: na virada da década, tanto nos EUA quanto na Inglaterra, o compromisso político de manutenção do pleno emprego foi superado. Com a nova agenda política implementada por Reagan e Thatcher, o desemprego não apenas deixava de ser encarado como problema, mas a sua ampliação podia representar economia nas instituições e empresas públicas – começava a era da austeridade.

A inflação descontrolada foi tratada com um problema tão sério – substituindo o desemprego como a principal meta a ser enfrentada –, que a primeira grande técnica para combatê-la foi a ampliação das taxas de juros pelas autoridades monetárias. A ideia, como se sabe, é conter o nível de demanda, encarecendo o empréstimo de dinheiro, mas o efeito logo sentido foi a ampliação vertiginosa do endividamento público: juros mais elevados multiplicavam o volume da dívida contraída pelos governos, que, numa trajetória quase irreversível de crise fiscal, baixo crescimento econômico e desemprego crescente, era agora a fonte mais segura de financiamento estatal.

O endividamento público, tal como a inflação, permite a um governo utilizar, para a pacificação de conflitos sociais, recursos financeiros que na realidade ainda não existem – neste caso, os recursos que ainda têm de ser criados pelos cidadãos e retirados aos mesmos pelo Estado, na forma de impostos. Recorre-se novamente ao sistema monetário, neste caso não à impressão de dinheiro, mas sim às instituições privadas de crédito, que pré-financiam as futuras receitas fiscais do Estado (Streeck, 2013).

Esse processou ativou a montanha-russa de endividamento estatal que varreu o mundo na década de 1980: as taxas de juros elevadas nos EUA, país da moeda hegemônica, forçaram uma alta geral dos juros nos demais países, para concorrer com a segurança dos empréstimos oferecidos ao centro do capitalismo. A quebra de algumas nações deu o tom da chamada “década perdida”. Assim, o neoliberalismo demonstrou de partida uma de suas contradições principais: de um lado, produz uma ladainha sobre a redução do Estado e alívio das contas públicas, de outro, amplia vertiginosamente o “peso” do Estado na economia, mas através da crescente dívida.

Novamente, esse processo não poderia perdurar pelas suas limitações intrínsecas e pela terra arrasada de crises financeiras que deixava em seu rastro. No início da década de 1990, uma nova maneira de contornar a crise econômica e fiscal foi implementada. A partir do governo Clinton, sobretudo, começa a política de “consolidação orçamentária”, isto é, a tentativa de resolver o problema de endividamento através de redução de despesas e eliminação do déficit de arrecadação. A onda de privatização da década anterior é seguida por uma significativa e sistemática política de cortes nas despesas sociais, cujo resultado imediato, juntando-se ao desemprego cada vez mais elevado, é a queda do nível de vida das camadas mais pobres da população e dos trabalhadores. O neoliberalismo, como é óbvio hoje, realiza uma redistribuição de riqueza para aqueles que detém patrimônio, principalmente os possuidores de títulos da dívida soberana.

O nexo político entre o endividamento do Estado e a distribuição da riqueza só se torna patente quando o financiamento das dívidas dos Estados no período de viragem neoliberal é encarado como consequência de uma tributação demasiado baixa das camadas da população que possuem património. Quanto menos o sistema fiscal exigir da propriedade dos mais abastados e dos seus herdeiros, em prol da comunidade, tanto mais desigual será a distribuição da riqueza, o que se manifesta, entre outras coisas, numa taxa de poupança mais elevada na faixa superior da sociedade. (Streeck, 2013).

Nesse momento, Streeck recorre à teoria econômica para tratar da tese da estagnação: o quadro de uma economia de baixo crescimento se agrava diante da redução salarial, dos direitos sociais, das políticas compensatórias, enfim, do empobrecimento de parcelas crescentes da sociedade. Como resolver essa situação? O Estado neoliberal amplia ainda mais as medidas de desregulamentação econômica, tornando-a política sistemática, ampliando o que já vinha sendo praticado desde a década de 1980. A desregulamentação do mercado financeiro, dessa maneira, permite uma multiplicação das oportunidades especulativas e do acesso ao crédito, portanto, de realização de consumo corrente com pagamentos no futuro. Substitui-se a política de endividamento público pela possibilidade do generalizado endividamento privado: o que nosso autor chama de “keynesianismo privatizado”.

O keynesianismo privatizado substitui o endividamento público pelo endividamento privado como mecanismo de aumento da reserva da economia política no que diz respeito a recursos distribuíveis. Trata-se da terceira e, até à data, última versão do preenchimento da lacuna das promessas do capitalismo tardio do pós-guerra através de uma antecipação do poder de compra. Nesta versão, o Estado – através da política reguladora correspondente – limita-se a permitir aos agregados familiares que se endividem por sua conta e risco, para compensar as perdas dos rendimentos provenientes da atividade remunerada e das prestações sociais do Estado (Streeck, 2013).

Novamente, numa repetição histórica de curto prazo, essa ciranda financeira e de dívidas tem por imediato resultado o surgimento de bolhas especulativas e suas sucessivas explosões. Por motivos diversos, mas sempre com a mesma encenação, a crise iniciada há quarenta anos se estende por meio de irrupções catastróficas periódicas. Aqui se justifica o título da obra: a sistemática (1) política inflacionista da década de 1970, o (2) endividamento público dos anos de 1980 e o (3) endividamento privado da última década do século não passam de artimanhas para contornar uma crise muito mais profunda; limitam-se a métodos paliativos, a postergar a solução estrutural para a crise, enfim, compra de tempo, uma “fuga para a frente” sem nenhum objetivo concreto.

Nessa altura, três comentários podem ser dirigidos ao cerne da obra. O primeiro, de caráter mais expositivo, é a evidente esquematização proposital utilizada por Streeck: esses três meios de “comprar tempo” são mais nítidos nos EUA, onde operam quase que de modo sucessivo, mas são mais complexos em outros países. Na Europa, por exemplo, esses expedientes por vezes aparecem amalgamados, tratando-se de uma opção argumentativa por parte do autor a sua separação. Aliás, a partir do grande abismo aberto em 2008, com a quebra do mercado do subprime e a crise financeira global, essas estratégias são implementadas ao mesmo tempo, particularmente na “Eurolândia”.6

O segundo comentário, voltado aos fundamentos teóricos da sua análise, é o fato de que, sob vários aspectos, apesar de todo trato com a herança franfkurtiana, falta o momento de elaboração essencial em torno do caráter da economia de mercado, isto é, da própria forma social capitalista enquanto tal. Ao amparar-se na tese de Karl Polayni das três mercadorias fictícias (terra, trabalho e dinheiro), Streeck perde a contribuição mais importante da Teoria Crítica em seu auge, o fundamento da socialização burguesa na forma da mercadoria. Suas observações sobre o “mundo governado pelas forças do mercado” (citando Alan Greenspan) ou sobre a lógica de “maximização do capital” acabam por ficar na superficialidade da troca, sem problematizar a forma da produção burguesa.

Por fim, e resultado dessa observação mais de fundo, a própria natureza da crise não fica precisamente determinada. É claro que sua obra é ímpar pela descrição da natureza múltipla e complexa da crise, mostrando os vínculos estreitos entre a “crise tripla” que enfrentamos atualmente: crise financeira (dos bancos), crise orçamentária (dos Estados) e crise de crescimento (da produção de mercadorias). Mas ainda assim permanece obscura a natureza fundamental da crise – compra-se tempo para evitar exatamente o quê?

Para não entrarmos na complexa discussão do evidente subconsumismo presente em sua abordagem, ressaltemos apenas que há uma perspectiva ainda de salvar a democracia presente nesse texto de 2012. Uma ampla reforma política e econômica poderia reatar o vínculo rompido entre capitalismo e democracia – é essa a impressão que se tem principalmente na reflexão sobre o futuro da União Europeia e sobre a tentativa de salvação da justiça social diante da justiça do mercado (veja a seção “Capitalismo ou democracia”). Há aqui, apesar de todo o pessimismo diante do cada vez mais presente “modelo social hayekiano da ditadura de uma economia de mercado capitalista” (Streeck, 2013), um tom ainda de esperança na recomposição de instituições democráticas desfeitas nos últimos quarenta anos.7

Entretanto, ao que parece, os caminhos da reflexão de Streeck se aprofundaram posteriormente. Nessa obra de 2012, o limite da reflexão é a “crise do capitalismo democrático”, o fim da era que havia se iniciado com o Estado de proteção social e com a economia política keynesiana. Em artigos recentes, seu horizonte de análise se ampliou ainda mais e suas conclusões do que representa o longo período de crise que vivemos avançam sobre a própria natureza do capitalismo enquanto tal. Em um artigo de grande repercussão publicado na New Left Review (traduzido em português nas páginas da Revista Piauí), essa mudança é indicada com uma clareza maior sobre a natureza estrutural da crise:
a crise de 2008 foi apenas a mais recente de uma longa sequência iniciada em meados da década de 70, com o fim da prosperidade do pós-guerra. Cada crise mostrou-se mais grave do que a anterior, alastrando-se mais ampla e rapidamente por toda a economia global, cada vez mais interligada. O surto de inflação dos anos 70 foi seguido pelo aumento da dívida pública nos anos 80, e o ajuste fiscal dos anos 90 se fez acompanhar por um acentuado aumento da dívida do setor privado. Já faz quatro décadas que o desequilíbrio tem sido mais ou menos a condição normal do mundo industrial avançado, tanto em nível nacional como global. (…)

Os historiadores nos informam que as crises não são uma novidade para o capitalismo, e podem até ser necessárias para sua saúde em longo prazo. Mas eles estão falando de movimentos cíclicos ou choques aleatórios, após os quais as economias conseguem um novo estado de equilíbrio, pelo menos temporário. O que estamos vendo, porém, parece ser um processo contínuo de decadência gradual, lento mas aparentemente inexorável (2014).

Como aponta o título do texto, o que se trata é da própria possibilidade de pensar o fim do capitalismo, pois a série infindável de tentativas de administrar ou resolver a crise econômica e a crise fiscal, há quatro décadas, não apresentaram nenhum indício de acerto. Ao contrário, complicaram ainda mais a situação que buscavam contornar. A possibilidade desse processo representar a decadência do sistema econômico não pode ser descartada, mas para isso é preciso abandonar o preconceito de que o fim do capitalismo deveria ser um “evento” – algo que acontece de uma vez, facilmente datado e demarcado em termos históricos. Se vivemos numa crise terminal desse sistema, então isso deve ser encarado com um “processo”, longo e incontrolável:

Hoje, diferentemente da década de 30, não há no horizonte nenhuma fórmula político-econômica, à esquerda ou à direita, capaz de fornecer às sociedades capitalistas um novo regime coerente de regulação.

O mais provável é que, com o passar do tempo, ocorra um acúmulo de disfunções pequenas e não tão pequenas – nenhuma necessariamente fatal, porém a maioria sem conserto (e, conforme se multiplicarem, será impossível lidar com cada uma delas individualmente). Nesse processo, as partes do todo vão se encaixar cada vez menos; atritos de todo tipo vão se propagar; consequências inesperadas vão se disseminar, por razões cada vez mais difíceis de serem determinadas. Incertezas vão proliferar; crises de todo tipo – de legitimidade, de produtividade ou ambas – vão se suceder, enquanto diminuirão ainda mais a previsibilidade e a governabilidade (como vem acontecendo há décadas). Por fim, a miríade de correções provisórias concebidas para gerir crises no curto prazo vai entrar em colapso sob o peso dos desastres diários produzidos por uma ordem social em profunda instabilidade e anomia (2014).

Diante de uma visão sombria e assustadora como essa, o pensamento tende a se deter, sob o risco das grandes conclusões. A ciência oficial, por seu turno, tende a ser mais refratária a esse tipo de reflexão: é quase uma exigência para o procedimento científico que ele seja propositivo, que apresente soluções para o problema que enfrenta teoricamente – e a tese de um limite histórico e absoluto para o capitalismo implica exatamente a incapacidade de formular qualquer solução para conter a desagregação social. Streeck não concorda que essa deva ser uma obrigação do pensamento teórico.8 Talvez o primeiro e mais comum comportamento diante da tese do “desmantelo crônico” do capitalismo seja a recusa irônica e a repetição litúrgica de que mais de uma vez na história foi anunciado erradamente o fim dos tempos. Esse tipo de reflexo condicionado já de antemão está preparado para a rejeição, portanto, não se preocupa muito com a reflexão. Mas Wolfgang Streeck tem uma resposta para essa aborrecida recusa da morte do capitalismo:

Na verdade, todos os principais teóricos já previram seu fim iminente desde que o conceito passou a ser usado, em meados do século XIX – não apenas por críticos radicais como Karl Marx ou Karl Polanyi, mas também por teóricos burgueses como Max Weber, Joseph Schumpeter, Werner Sombart e o próprio Keynes. (Se a história provar que estou errado, pelo menos estarei em boa companhia) (2013).

Notas

1 Utilizo uma edição eletrônica do livro (formato epub), portanto, sem numeração fixa das páginas. Também respeito a grafia da tradução de Portugal.

2 “A forma-mercadoria pode (…) ser encarada como o ‘ponto de equilíbrio geral’ do Estado capitalista” (Offe, 1984: 126).

3 Devido à grande repercussão dessa obra, uma resposta elaborada por Habermas aceitava incialmente esse diagnóstico apresentado por Streeck, principalmente seu giro na teoria da crise: “O ponto de partida é uma justa crítica da teoria da crise desenvolvida por Claus Offe e por mim em princípios dos anos 70. O otimismo que reinava então em torno do controle keynesiano nos havia levado a supor que os potenciais econômicos da crise, politicamente dominados, se deslocavam para as imposições contraditórias erguidas ao aparato estatal acima de suas possibilidades e até para ‘contradições culturais do capitalismo’ (como o formulara Daniel Bell alguns anos depois) e que se expressariam em forma de crise de legitimação. Hoje não estamos (entretanto) diante de uma crise de legitimação, mas sim diante de uma dura crise econômica” (Habermas, 2013: 33).

4 “Elaborar uma teoria macrossociológica da crise e uma teoria social da democracia sem referência à economia enquanto atividade político social tem de parecer absolutamente errado, tal como o pareceria qualquer conceção de economia na política e na sociedade que ignorasse a sua organização capitalista atual. Ninguém pode – depois daquilo que aconteceu desde 2008 – compreender a política e as instituições políticas sem as pôr numa estreita relação com os mercados e os interesses económicos, assim como com as estruturas de classe e os conflitos que dela resultam” (Streeck, 2013).

5 Em certo sentido, ainda que os fundamentos teóricos sejam bem diversos, o fato de não pertencer à linhagem da Escola de Frankfurt o torna mais apto a avaliar e rejuvenescer parte de seu legado. Como expressou Helmut Dubiel em livro sobre a herança frankfurtiana, talvez hoje a Teoria Crítica deva ser mais dignamente mantida se não significar uma manutenção invariável de suas teses: “Creio que não tem nenhum sentido tratar de defender a todo custo o “lugar” de Franfkurt. Isto não faz sentido. A Escola de Frankfurt nem sequer existe mais em Frankfurt. Emigrou para Hanover e até Lûneburg” (2000: 133).

6 Uma das contribuições do livro de Streeck é sua análise do projeto de integração europeia como um grande concerto neoliberal para escapar ainda mais das obrigações democráticas, criando instâncias supranacionais que não respondem a ninguém. A União Europeia, assim, ao contrário de todo o discurso de paz e unificação entre nacionalidades diferentes, não passa de uma estratégia sistemática de “economia política hayekiana” (2013).

7 Tem razão Habermas ao apontar uma “opção nostálgica” (2013: 35) presente na obra de Streeck, mas cujo pessimismo acaba predominando sobre o desejo de “regressar ao entricheiramento nacional-estatista dos anos 60 e 70)” (Habermas, 2013: 35). Diante do fato de que a opção mais otimista de Habermas é o avanço de uma verdadeira democracia supranacional (porém, supraestatal) para contrabalançar as forças econômicas integradas globalmente, resulta um maior realismo no pessimismo de Streeck. Todas as tentativas de erguer aparatos institucionais supranacionais reguladores fracassaram, a não ser os arranjos políticos e alianças militares que construíram instituições repressivas regionais que servem exatamente para defender as leis do mercado global.

8 “… considero incorreto exigir a alguém que descreve um problema que apresente uma solução juntamente com a análise do mesmo” (Streeck, 2013).

Referências bibliográficas

Adorno, Theodor; Horkheimer, Max. Dialética do esclarecimento (fragmentos filosóficos). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

Dubiel, Helmut. La teria crítica: ayer y hoy. Ciudad de Mexico: UNAM/Instituto Goethe, 2000.

Habermas, Jürgen. ¿Democracia o capitalismo? In: Nueva Sociedad, no. 246, jul./ago. 2013, p. 32-46.

Offe, Claus. Problemas estruturais do Estado capitalista. Tempo Brasileiro: Rio de Janeiro, 1984.

Streeck, Wolfgang. A crise de 2008 começou a quarenta anos. Disponível em: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1086. Acesso em: abr. 2015.

________. Tempo Comprado – a crise adiada do capitalismo democrático. Lisboa: Actual Editora, 2013.

________. Como vai acabar o capitalismo? O epílogo de um sistema em desmantelo crônico. Disponível em: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-97/tribuna-livre-da-luta-de-classes/como-vai-acabar-o-capitalismo. Acesso em: dez. 2014.

Maurílio Lima Botelho é Professor de geografia urbana da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e autor do artigo “Crise urbana no Rio de Janeiro: favelização e empreendedorismo dos pobres” que integra também o livro Até o último homem.

O capitalismo tem futuro? Eleuterio S. Prado – o livro que estou lendo 

O capitalismo tem futuro?
Colhido em : eleuterioprado.wordpress.com

 

Diversos autores contemporâneos vêm questionando, sob diversas perspectivas, o futuro do capitalismo. Dentre aqueles que mantêm uma posição cética quanto à sua sobrevivência possível para além do século XXI – ou mesmo para os próximos 30 ou 40 anos – não é possível esquecer de István Mészáros, Immanuel Wallerstein e Robert Kurz. Esta postagem, porém, visa recomendar a leitura de Wolfgang Streeck, um instigante sociólogo alemão, que pensa a partir de Karl Marx, mas, principalmente, de Karl Polanyi. A sua tese central é que o neoliberalismo, ao extremar a competição como modo de vida, ao transformar o indivíduo em empresário de si mesmo, ao mercantilizar todas as esferas da vida social, vem minar inexoravelmente as bases morais e sociais da integração dos humanos em sociedade.

Como a existência do capitalismo depende de tais bases – herdadas das gerações passadas, mas agora violentamente predadas –, a tentativa de salvá-lo por meio da intensificação neoliberal, levará, segundo ele, à sua desintegração progressiva. E esta dissolução poderá vir acompanhada, eventualmente, do fim da própria humanidade. Alguns poucos textos de Wolfgang Streeck foram traduzidos para o português; aqui se recomenda um deles em especial que foi publicado pela revista Piauí, na edição de outubro de 2014: Como vai acabar o capitalismo? Além disso, aqui se fornece uma tradução de um texto que sintetiza a sua intervenção num debate realizado em 2016, no encontro anual da “Society for Advancement of Socio-economics” (SASE) em que diversos autores discutiram a seguinte questão chave: “o capitalismo tem futuro? ”.

O texto traduzido se encontra aqui: Do-futuro-sombrio-do-capitalismo

Verdade tropical: um percurso de nosso tempo –  Roberto Schwarz – o livro que estou lendo 

Prisioneiro do Fetiche ! 

“Verdade tropical: um percurso de nosso tempo” , de Roberto Schwarz é uma leitura imprescindível para aqueles que têm interesse em conhecer a figura enigmática do cantor Caetano Veloso , que nos é mostrada através do seu livro “Verdade Tropical ” , que veio à público no ano de 1997 . 

 Escrito em 2011, ou seja 15 depois, o texto faz uma análise dos caminhos relatados pelo artista nesta quase auto biografia, onde o músico nos mostra a sua concepção do seu amadurecimento artístico, estético ou por que não dizer : político, tendo como pano de fundo o Brasil interiorano dos anos 60 ( o Brasil de antes do golpe militar de 64 ),  até a eclosão do movimento tropicalista e a posterior prisão e exílio do cantor . 

Guiados pelo professor Roberto Schwarz, é possível ir além do relato do artista descobrindo mesmo peculiaridades da sua estruturação de pensamento , que nortearam sua postura pública durante os anos de sua exposição como ser midiático .

Caetano é um ser complexo e deve ser analisado com muita atenção . Antes de ser um personagem ( que é o que conhecemos pela mídia ) é um ser humano,  e portanto passível das tensões do seu tempo . Ou seja, um sujeito da contemporaneidade, sendo moldado pelas forças sociais em choque da sociedade onde vive .

Schwartz tenta nos mostrar o que  ele pensa , e aponta os caminhos que o ser Caetano busca tomar : buscando a liberdade e não querendo se sujeitar a camisa de força do pensamento engessado da chamada ‘ esquerda ” da época se arrisca a pensar ” diferente ” , e neste sentido desenvolve uma luta constante contra os cânones de pensamento da intelectualidade de plantão , notadamente de esquerda .  

O ápice do texto do professor ocorre quando ele nos mostra uma reação que tem Caetano quando vê uma cena do filme de Glauber, “Terra em Transe” , quando então o artista diverge claramente da visão preponderantes dos seus amigos de esquerda e vê ali, naquela cena, um momento de plena emancipação intelectual :

” Assim, quando Caetano faz suas as palavras de Paulo Martins, constatando e saudando através delas a “morte do populismo”, do “próprio respeito que os melhores sentiam pelos homens do povo”, é o começo de um novo tempo que ele deseja marcar, um tempo em que a dívida histórico-social com os de baixo — talvez o motor principal do pensamento crítico brasileiro desde o Abolicionismo — deixou de existir.” ( Schwartz) .

Sabemos que para  o artista, em geral, o seu mundo é a totalidade . E pensando assim,  ele exagera o seu papel e se julga um ser imprescindível para a mudança da realidade social . Isto fica claro, no livro do Caetano, quando da sua prisão onde ele relata os diálogos que travou  com os agentes da repressão. Ele está orgulhoso e julga que o que faz, suas atitudes e obras , são elementos mais importantes, por exemplo, do que as ações políticas, armadas ou não, dos demais insurgentes que lutam contra a ditadura .

E é assim que Caetano norteia sua carreira : esgrimindo sempre contra a esquerda , embora dela não querendo se afastar , busca o seu próprio caminho – um caminho original, único . Sendo assim é  capaz mesmo de aprovar o incêndio do prédio da Une perpetrado pelas ordas do MAC em 1964, tudo para mostrar sua total independência do pensamento de esquerda .

Mas , cabe aqui a pergunta : existe mesmo este caminho, original , que o artista busca alcançar ? Será o artista realmente senhor da sua criação , tento o livre arbítrio , exercendo, pois, na sua plenitude, a liberdade existencial? Ou então : como exercer plenamente esta liberdade dentro da estrutura da indústria cultural, já por demais conhecida e estudada por Adorno ? Responderemos aqui, então , que o artista em questão não conseguiu se livrar deste paradoxo ! 

É claro : ele teve sempre razão em se insurgir contra o pensamento do marxismo oficial, notadamente dos anos 60, que não conseguia dialogar com o diferente, com o os movimentos feministas, raciais , comportamentais, etc, que já tomavam corpo e exigiam serem ouvidos . E era óbvio, também, que as sociedades formadas pelo chamado ” socialismo real ” não correspondiam ao pleno conceito de liberdade humana, não sendo portanto sociedades emancipadores – pelo contrário, eram sociedades opressoras . Desta forma, cabia a sua reação e não sujeição! 

Mas, era óbvio também, que o artista não conseguiu ver a total extensão de dominação da sociedade da mercadoria , espaço onde ele pensava exercer a plena liberdade – onde a sua criação seria livre . Ou mais : não conseguia, ou não queria ver , que ele próprio seria uma mercadoria , exposta para o consumo de um mercado específico . Submetido, como todos, a “visão de mundo ” criado pelo fetiche , não poderia deixar de se comportar como um sujeito próprio da sociedade criada pelo capital , aquilo que Guy Debord chamou de Sociedade do Espetáculo . 

Nas recentes jornadas de 2013, Caetano procurou juntar sua imagem ao modelos de rebeldia que na época estavam em muita evidência , fazendo imagens com os black bloc ( com sua mulher expondo nas mídias sociais posts com designs arrojados de ativistas ) , mas sua participação não passou disto. Ele não tomou posição nem conhecimento das prisões e posteriores processos dos ativistas de ruas . Mesmo mais adiante , se negou a cancelar seus shows em Israel , mesmo sabendo que em todo o mundo existe um movimento de isolamento do Estado de Israel, seguindo o exemplo do que houve com a África do Sul , na época do apartheid.

Na verdade, o texto de Schwartz, ao acompanhar o relato do livro do Caetano, me remete a esta conclusão : a transformação do adolescente utópico do interior baiano em uma mercadoria da indústria cultural – hoje uma figura fora de época, que busca manter um lugar em um espaço midiático onde ele pouco tem a oferecer .

Não sei se o professor no seu texto utilizou a categoria do fetiche como elemento de análise . Nao , acredito que não !

Digo isto, por ter sido ele o primeiro intelectual no Brasil a divulgar as ideias de Robert Kurtz , expoente teórico da escola da Critica do Valor, que utiliza esta categoria analítica , usada por Marx no entendimento da mercadoria e do valor , e que foi desprezada pelo marxismo tradicional até o colapso da União Soviética .

Segundo relatos, foi Roberto Schwartz o primeiro a trazer o livro de Robert Kurtz , “O colapso da modernizaçao: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial”para o Brasil , o que resultou em um texto de sua autoria , que mais tarde serviu de introdução à edição brasileira , e que foi publicado no Jornal A Folha de São Paulo . Texto este, que por sinal, recebeu imensas críticas por parte das cabeças coroadas da inteligência marxista do Brasil . Mas , talvez isto demostre a justeza  do que ele falava sobre o livro naquele momento, e que a crise mundial que estamos vivendo provou   que de fato suas palavras eram proféticas .

Creio que esta é uma lacuna no texto,  pois se utilizada, esta categoria analítica nos daria uma visão melhor do personagem , que procurando fugir de uma prisão teórica, de uma camisa de força que a esquerda nacionalista e  positivista do marxismo vulgar tentava  lhe impor,  acabou  sendo prisioneiro  de uma indústria cultural, instrumento abstrato de dominação do capitalismo contemporâneo .

Arlindenor Pedro 

Após o texto do professor Roberto Schwarz leiam a entrevista de Caetano Veloso ao jornal Folha de São Paulo,  onde ele responde às observações feitas sobre o seu livro .


Verdade tropical: um percurso de nosso tempo – Roberto Schwarz 

De início devo dizer que não sou a pessoa mais indicada para comentar a autobiografia de Caetano Veloso, pois não tenho bom conhecimento de música nem das composições do autor.1 Entretanto gosto muito do livro como literatura. Particularmente os blocos 1 e 2 se leem como um excelente romance de ideias, em que as circunstâncias históricas, o debate da época e a figura do biografado, um herói reflexivo e armado intelectualmente, além de estranho, se entrelaçam em profundidade, fazendo ver uma etapa-chave da vida nacional.

Como sempre na prosa realista, metade da composição é desígnio do autor e metade são conexões mais ou menos latentes na matéria narrada. Quando há química entre as metades, como ocorre aqui, o conjunto conta algo para além dos fatos. As questões levantadas têm generalidade e penso que podem ser discutidas por um leigo em música.

Além de autobiografia de artista, Verdade tropical é uma história do tropicalismo e uma crônica da geração à volta de 1964. A sua matéria são as questões estético-políticas do ofício de pop star nas condições do Terceiro Mundo.2 A intimidade inteligente com a oficina da canção popular, incluídas aí as realidades do show business, coloca o livro em boa posição ao lado dos congêneres literários ilustres, como o Itinerário de Pasárgada de Bandeira e o Observador no escritório de Drummond, ou as memórias de Oswald de Andrade e de Pedro Nava.

Domínio em alto nível de um setor fundamental do presente, até então pouco estudado, avaliações críticas ousadas e certeiras, segredos da cozinha artística sob a ditadura, depoimentos sobre a prisão e o exílio, retratos perspicazes de colegas famosos, circunstâncias pessoais reveladoras, opções intelectuais e formais decisivas, para o bem e para o mal, tudo muito interligado e interessante, compõem um panorama de grande qualidade literária. As correspondências entre vida privada, vida pública e criação artística têm força, dando unidade interior ao conjunto. Sem medo de frases longas e do aspecto melindroso ou sutil das situações, um pouco à maneira substanciosa e flexível de Gilberto Freyre, a prosa de ensaio deve a vitalidade ao gosto pela controvérsia e pela provocação.

A conjugação do músico popular ao intelectual de envergadura não deixa de ser uma novidade. O livro surpreenderia menos se o autor fosse um músico erudito, um poeta, um cineasta ou um arquiteto, ou seja, um membro da faixa dita nobre das artes, cuja abertura para os valores máximos e para a reflexão a respeito é consenso. Como bem observa Caetano, a quem a originalidade de sua posição não escapa,

“a divisão nítida dos músicos em eruditos e populares retira destes últimos o direito (e a obrigação) de responder por questões culturais sérias”.3 

Aliás, ao escrever um ensaio alentado que foge a essa divisão ele não só inova como assinala uma reconfiguração do quadro cultural, chamado a fazer frente às feições peculiares da música pop.

A novidade que o livro recapitula e em certa medida encarna é a emancipação intelectual da música popular brasileira. Na pessoa de um de seus expoentes, esta toma distância de si e passa a se enxergar como parte responsável da cena contemporânea, seja poética, seja musical, seja política, desrespeitando os enquadramentos aceitos do gênero. Ao saturar de reflexão estética e social as opções dos companheiros de ofício e as suas próprias, Caetano puxa a discussão para o patamar desconvencionalizado e autocrítico da arte moderna, sem contudo abandonar o compromisso com o público de massas. O interesse dessa posição difícil, talvez impossível de sustentar, dispensa comentários.

Se o adjetivo “popular” estiver na acepção antiga, que nas circunstâncias brasileiras envolve semianalfabetismo, exclusão social e direitos precários, haveria uma quase impossibilidade de classe nesse passo à frente, ligado a boa cultura literária e teórica. Se estiver na acepção moderna, definida pelo mercado de massas e pela indústria cultural, o avanço deixa de ser impossível para ser apenas improvável, devido às diferenças entre a vida de pop star e a vida de estudos. Note-se que no Brasil, como noutros países periféricos, as duas acepções do popular se sobrepõem, pois as condições antigas não estão superadas, embora as novas sejam vitoriosas, o povo participando das duas esferas.

Exclusão social — o passado? — e mercantilização geral — o progresso? — não são incompatíveis, como supõem os bem-pensantes, e sua coexistência estabilizada e inadmissível (embora admitida) é uma característica estrutural do país até segunda ordem.

Bem mais do que as outras artes, a música popular está imersa nesse descompasso, o que a torna nacionalmente representativa, além de estratégica para a reflexão. Assim, a disposição para pensar trazida por Caetano vem entrelaçada com uma realidade de classes sui generis, cujas projeções estéticas e políticas não se esgotam na ideia geral do pop.

Unindo o que a realidade separa, a aliança de vanguarda estética e cultura popular meio iletrada e socialmente marginal, além de mestiça, é um programa já antigo.

Ensaiada pelo modernismo carioca nos anos 20 do século passado, em rodas boêmias, e retomada pela bossa nova nos anos 1950, ela ganhou corpo e se tornou um movimento social mais amplo, marcadamente de esquerda, nas imediações de 1964.4 Sob o signo da radicalização política, que beirou a pré-revolução, o programa tinha horizonte transformador. Em especial as artes públicas — cinema, teatro e canção — queriam romper com a herança colonial de segregações sociais e culturais, de classe e raça, que o país vinha arrastando e reciclando através dos tempos, e queriam, no mesmo passo, saltar para a linha de frente da arte moderna, fundindo revolução social e estética. Tratava-se por um lado de reconhecer a parte relegada e não burguesa da nação, dando-lhe direito de cidade, e, por outro, de superar as alienações correspondentes a essa exclusão, que empobreciam a vida mental também dos incluídos. Graças ao espírito dialético, que estava em alta, os vexames de nossa malformação social — as feições de ex-colônia, o subdesenvolvimento — mudavam de estatuto. Em vez de varridos para baixo do tapete, eles passavam a ser identificados como interpelações históricas, em que estavam em jogo não só o atraso nacional como o rumo burguês e a desigualdade do mundo. Estimulada pelo avanço da luta de classes e do terceiro-mundismo, uma parte da intelligentsia passava a buscar o seu sentido — e o salto qualitativo em seu trabalho intelectual — na associação às necessidades populares.

Orientada por esse novo eixo e forçando os limites do convencionado, a experimentação avançada com as formas tornava-se parte e metáfora da transformação social iminente, que entretanto viria pela direita e não pela esquerda.

Durante alguns anos, antes e depois de 1964, a invenção artística radical sintonizou com a hipótese da revolução e fez dela o seu critério.

A ligação polêmica e o enriquecimento mútuo entre inovação estética, escolhas políticas e sociedade em movimento conferiam à vida cultural uma luz nova. Como a realidade parecia encaminhar alternativas, o partidarismo da vida artística desvestia o seu aspecto esotérico e mostrava ser o que é de fato, uma tentativa imaginária de intervenção. Passado o tempo, é possível que o saldo do período, avaliado nas suas obras, não sobressaia particularmente, o que entretanto não diminui o acerto das questões levantadas. Explicitado naquela oportunidade, o relacionamento conflitante e produtivo entre as formas estéticas, as deformidades sociais do país e as grandes linhas do presente internacional tornou-se uma pedra de toque durável, que mal ou bem sobreviveu à derrota da esquerda.

Escrito trinta anos depois, Verdade tropical deve muito de seu tino histórico à fidelidade que Caetano guardou àquele momento,

“que só é considerado remoto e datado por aqueles que temiam os desafios surgidos então, e que ainda os temem justamente por os saberem presentes demais em sua nova latência”.5

Dito isso, a altura da visão de Caetano não é estável, sempre ameaçada por descaídas regressivas. Volta e meia a lucidez cede o passo a superstições baratas, à mitificação despropositada do Brasil, à autoindulgência desmedida, ao confusionismo calculado. Em passagens tortuosas e difíceis de tragar, a ditadura que pôs na cadeia o próprio artista, os seus melhores amigos e professores, sem falar no estrago geral causado, é tratada com complacência, por ser ela também parte do Brasil — o que é uma verdade óbvia, mas não uma justificação. O sentimento muito vivo dos conflitos, que confere ao livro a envergadura excepcional, coexiste com o desejo acrítico de conciliação, que empurra para o conformismo e para o kitsch. Entretanto, como num romance realista, o acerto das grandes linhas recupera os maus passos do narrador e os transforma em elementos representativos, aumentando a complexidade da constelação.

* * *

Muito brilhante e felliniana, a crônica da juventude do autor em Santo Amaro — uma cidade pequena, próxima de Salvador — tem como pano de fundo a tendência à americanização, que imprime a seu atraso o selo contemporâneo. A mistura do recesso familiar e da cidade provinciana à corrente geral do mundo moderno é um achado com revelações próprias: nem a província e a infância são tão apartadas da atualidade quanto se supõe, nem esta última é tão estereotipada quanto as generalidades a seu respeito. De entrada assistimos à comédia dos

 “meninos e meninas que se sentiam fascinados pela vida americana da era do rock’n’roll e tentavam imitar as suas aparências”,

com jeans e botas, rabos de cavalo e chiclete. O autor não fazia parte dessa turma nova, em que via, do alto de seus quinze anos, um modelo pouco inteligente e pouco interessante:

“embora fossem exóticos, eram medíocres”. Partilhava “com os santamarenses razoáveis uma atitude crítica condescendente em relação ao que naqueles garotos parecia tão obviamente inautêntico”.6 

Note-se que os motivos de seu desdém não estão onde se espera. Apesar da coincidência com os “santamarenses razoáveis”, o que o incomodava não era o espalhafato da diferença, atraente para ele desde sempre, mas a sua “nítida marca de conformismo”:7 “

[…] o que mais me afastava dessa tendência de americanização era o fato de não ter chegado a mim com nenhum traço de rebeldia”.8

A importação acrítica mas escandalosa da moda internacional, a nota de pseudorrevolta combinada à abdicação da experiência própria, foram sentidas como um problema desde cedo.

Embora usasse um pé de meia de cada cor, o extravagante Caetano se aliava aos santamarenses sensatos — uma categoria pouco sociológica, mas possivelmente real —, para juntos criticarem a moçada que estreava o rock na cidade. A trinca dos protagonistas forma um quadro cheio de ironia, distante dos esquemas batidos em que a consciência pátria dá combate ao imperialismo americano. Em plano imprevisto, são aspectos divertidos e verdadeiros da modernização, ou da americanização, noções que na prática eram difíceis de distinguir. Noutros passos contudo a questão da influência dos Estados Unidos aparecerá em variantes menos risonhas, causando discussões acesas sobre a identidade e a subserviência nacionais, bem como sobre o próprio golpe de Estado que instalou a ditadura, aliás modernizante por sua vez. Entre as escaramuças de gosto na província e o americanismo dos generais golpistas vai uma grande diferença, mas ambos formam parte de um mesmo processo, cuja unidade complexa e cheia de instâncias percorre o livro, dando-lhe consistência literária, amplitude de registro e especificidade histórica.

Desde o começo a posição de Caetano é diferenciada, fugindo às limitações do nacionalismo simplista.

A imitação das novidades americanas não lhe parece inautêntica em si, pois pode ser portadora de inconformismo, quando então adquire autenticidade. O que conta não é a procedência dos modelos culturais, mas a sua funcionalidade para a rebeldia, esta sim indispensável ao país atrasado. Muito esclarecidamente, o autêntico se define por oposição ao conformismo, e não à cópia ou ao estrangeiro. Nem por isso a influência americana deixa de ser um problema, pelo que representa de monopólio e imposição. Como situar-se diante dela sem perder a liberdade, inclusive a liberdade, segundo a circunstância, de aproveitar um modelo interessante e mais adiantado? Retomada sob muitos ângulos, a pergunta — que é vital — reaparece a todo momento, politizando e tornando mais complexa a crônica, cerradamente entretecida com as relações de força do século americano. Assim, evitar a xenofobia não impede de enfrentar as pressões exercidas pelo carro-chefe do imperialismo. São ângulos que coexistem, e trata-se de desautomatizar o juízo a respeito, para torná-lo judicioso e suficientemente complexo ou esperto. Caetano foi precoce na compreensão da política internacional da cultura, em que o influxo estrangeiro — inevitável — tanto pode abafar como trazer liberdade, segundo o seu significado para o jogo estético-político interno, que é o nervo da questão.

Nas grandes linhas, digamos que o capítulo sobre Santo Amaro contrapõe duas atitudes perante a americanização. De um lado, a aceitação açodada e subalterna, que pode caracterizar tanto um roqueiro como um ministro das Relações Exteriores;9 de outro, a rebeldia embebida no contexto local, mas aberta para o mundo. Esta última, que é receptiva sem perder o pé ou sem deixar de ser situada, valoriza a experiência santamarense na hora de avaliar as novidades de fora, assim como recorre às novidades estrangeiras para fazer frente às estreitezas da província. A liberdade descomplexada dessa atitude, que resiste à precedência das metrópoles mas não desconhece as limitações da cidadezinha interiorana, da qual não se envergonha e a qual não quer rifar, é uma proeza intelectual. Em parte, ela se deve à independência de espírito do menino inconformado, que ambiciona tudo e nem por isso abdica de seu primeiro universo.

“Eu, no entanto, atava-me à convicção de que, se queria ver a vida mudada, era preciso vê-la mudada em Santo Amaro — na verdade, a partir de Santo Amaro.”10 

A disposição enraizada desse desejo de mudança, que não aceita jogar fora os preteridos pelo progresso, mais adiante irá contrastar com o progressismo abstrato de parte da esquerda, que fazia tábua rasa da realidade imediata e de seus impulsos em nome de um remoto esquema revolucionário.

A Santo Amaro a ser sacudida — opressiva e amada ao mesmo tempo — é patriarcal, católica, mestiça, conservadora sem fanatismo e com traços de ex-colônia. O menino diferente, que não acredita em Deus, que acha errados os tabus sexuais e as prerrogativas masculinas, que veste meias desemparelhadas, que não se conforma com a pobreza à sua volta, que tem dúvidas metafísicas, que quer interferir na educação de sua irmã menor, que não vê por que as meninas pretas devam espichar o cabelo, que gosta de subir ao palco e cantar fados cheios de arabescos vocais etc. etc., é um portador de inquietação. A rebeldia, ainda que pontual, questiona a ordem no seu todo: as insatisfações formam corpo umas com as outras — questões de raça, gosto, sexo, classe, família, atraso —, ligando-se por dentro e remetendo ao conjunto da formação social. Este o papel de guarda avançada da crítica e da mudança que Caetano desde cedo vê como apropriado à sua pessoa. Era natural portanto que o aspirante a reformador, inicialmente da família, depois da cidade e logo da cultura brasileira, não se quisesse confundir com a garotada cujo desejo maior era participar de concursos de rock e se parecer aos estudantes americanos de high school.

A oposição  fica mais interessante se lembrarmos que pouco tempo depois o mesmo Caetano faria época em programas de auditório, introduzindo a guitarra elétrica, a palavra coca-cola e a parafernália roqueira no terreno resguardado da mpb. Não se tratava de uma inconsistência, ao contrário do que podia parecer. No seu caso, a incorporação da coisa estrangeira vinha em benefício do foco nacional, puxado para a atualidade pelas transgressões bem meditadas, que o questionavam e lhe aumentavam o valor problemático. À maneira da antropofagia oswaldiana, que estava sendo redescoberta por conta própria, a importação das inovações internacionais favorecia o desbloqueio e a ativação histórica das realidades e dos impulsos de um quintal do mundo.

Do ângulo da rebeldia, Santo Amaro parece parada e passada. Vista no conjunto, entretanto, também ela se move e as inquietações de Caetano fazem parte de sua atualização. No dia em que terminou a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o pai do garoto saiu à rua agitando uma bandeira da União Soviética, para indicar simpatias socialistas, compensadas por um retrato de Roosevelt na sala de jantar. Participando também do mundo moderno, uma prima mais velha, cansada da vida tacanha em Santo Amaro, sonha com as liberdades prometidas pelo existencialismo francês. Nos programas de rádio, quem manda é a concorrência internacional, outra figura do presente:

 “a música popular americana encontrou sempre por aqui a competição não apenas da rumba cubana, do tango argentino e do fado português, mas também e sobretudo da música brasileira, que nunca foi vencida no consumo nacional por nenhum produto de importação”.11 

Já nas salas de projeção, Hollywood disputava com fitas francesas, italianas e mexicanas (o cinema nacional não existia), às vezes de grande qualidade. Assim, a política e a cultura estrangeiras faziam parte normal do cotidiano da província e de seu mercado, que nunca foram exclusivamente nacionais, ao contrário do que afirmava a ilusão nacionalista. A oposição efetiva não estava entre o nacional e o de fora, como se fossem entidades estanques, mas entre apropriações vivas e consumo alienador, seja do externo, seja do interno. As boas páginas que descrevem a coexistência da produção americana e europeia nos cinemas de Santo Amaro são instrutivas a esse respeito. A seriedade social dos italianos e a franqueza sexual dos franceses, notadas por alguns santamarenses que se reconheciam nelas, punham em relevo o convencionalismo empobrecedor dos norte-americanos, cujos musicais eram no entanto deslumbrantes. Com simplicidade memorável, a ruminação juvenil sobre a beleza, o valor dos cachês e a força emblemática de Brigitte Bardot, Gina Lollobrigida e Marilyn Monroe, tão diferentes entre si, captava em movimento algo da equação social-estética do período, incluída aí a dimensão de rivalidade geopolítica, de que a cinefilia santamarense fazia uma parte pequena mas real. A graça das comparações depende de certo equilíbrio entre os diferentes Olimpos nacionais, que permitia ao público de Santo Amaro escolher segundo a sua preferência no cardápio do mundo contemporâneo. Sob o signo da diversidade, quer dizer, sem as injunções da hegemonia, a presença de modelos externos tornava-se um fator de autoconhecimento, e não de alienação.

 “Seu Agnelo Rato Grosso, um mulato atarracado e ignorante que era açougueiro e tocava trombone na Lira dos Artistas (uma das duas bandas de música da cidade — a outra se chamava Filhos de Apolo), foi surpreendido por mim, Chico Motta e Dasinho, chorando à saída de I vitelloni, também de Fellini, e, um pouco embaraçado, justificou-se, limpando o nariz na gola da camisa: ‘Esse filme é a vida da gente!’.”12

A busca de um presente mais livre e em dia com os tempos se repete logo adiante em novo patamar. Quando mudam de Santo Amaro para Salvador, a fim de prosseguir nos estudos, Caetano e a irmã têm a sorte de encontrar em marcha um momento histórico de desprovincianização, quase se diria de emancipação. Graças à iniciativa de Edgar Santos, um reitor esclarecido, a Universidade Federal da Bahia acrescentara ao corpo de suas faculdades as escolas de música, dança e teatro, bem como um museu de arte moderna, trazendo para a sua direção

“os mais arrojados experimentalistas em todas estas áreas, oferecendo aos jovens da cidade um amplo repertório erudito”.13

A descrição que o livro dá da ebulição característica do pré-64 é notável. Sem que esteja propriamente discutido, o encontro explosivo — e formador — de experimentalismo artístico sem fronteiras nacionais, subdesenvolvimento, radicalização política, cultura popular onipresente e província, além da hipótese socialista no horizonte, é o contexto de tudo. Com os ajustes do caso, era um microcosmo do Brasil em véspera de mudanças. O que o rádio, os discos e algum cinema haviam feito para abrir a cabeça de Caetano em Santo Amaro, agora seria continuado noutra escala. Propiciado pela universidade que se abria, o contato com as obras revolucionárias da arte moderna de Stravinski, Eisenstein e Brecht até Antonioni e Godard combinava-se à agitação estudantil, ao caráter não burguês das festas populares da Bahia, às esperanças ligadas ao governo popular de Miguel Arraes em Pernambuco, à experimentação esquerdista dos Centros Populares de Cultura.

Paralelamente, a vida a ser mudada já não era apenas a da família e da cidadezinha, mas a do país, com sua configuração de classes indefensável, sua desatualização cultural paralisante e sua submissão ao imperialismo.

Falávamos de literatura, cinema, música popular; falávamos de Salvador, da vida na província, da vida das pessoas que conhecíamos; falávamos de política.

 […] éramos levados a falar frequentemente de política: o país parecia à beira de realizar reformas que transformariam a sua face profundamente injusta — e de alçar-se acima do imperialismo americano. Vimos depois que não estava sequer aproximando-se disso. E hoje nos dão bons motivos para pensar que talvez nada disso fosse propriamente desejável. Mas a ilusão foi vivida com intensidade — e essa intensidade apressou a reação que resultou no golpe.14

Mais adiante voltaremos ao ceticismo, ou ao realinhamento, em que a citação termina. Fiquemos por agora com a convergência entre revolução estética e emancipação social, que animou aquele período e é uma das linhas de força — partidas — do livro.

A certa altura, ainda criança, Caetano decide comunicar à família católica praticante que não acredita em Deus nem nos padres.

“Não o fiz em tom oficial — nem mesmo com tanta clareza — por ouvir de meus irmãos que isso representaria um desgosto terrível para Minha (tia) Ju.”15 

Essa mescla peculiar de ruptura radical com respeito ou apego reaparecerá muitas vezes no livro. Mesmo em momentos de agressividade e escândalo intencionais, já depois de 1964, Caetano confia que tudo terminará bem, que os próprios adversários reconhecerão que nada foi por mal e que no fim de contas a divergência aproveitará a todos. 

“Muitos dos que eram íntimos tinham se afastado por causa da revolta que lhes inspirava o tropicalismo. […] 

Ouvíamos histórias, mas não nos preocupávamos demasiadamente. Tínhamos certeza de que ninguém sairia diminuído desse episódio. E que, com o tempo, todos perceberiam vantagens gerais advindas do nosso gesto.”16 

Note-se de passagem a tranquilidade, literariamente muito boa, com que o autor concede que as suas iniciativas causavam repulsa. Pois bem, visto o grau das discórdias que figuram no livro, por que supor que em última instância as partes opostas estejam no mesmo campo? Por que a surpresa e a decepção de Caetano quando seus ataques são mal recebidos? O exemplo mais desconcertante dessa sua reação é o tom queixoso que adota quando é preso pela ditadura depois de uma série impressionante de provocações — como se a divisão social não fosse para valer. Seja como for, o seu traço de personalidade muito à vontade no atrito mas avesso ao antagonismo propriamente dito combinava com o momento brasileiro do pré-golpe, quando durante algum tempo pareceu que as contradições do país poderiam avançar até o limite e ainda assim encontrar uma superação harmoniosa, sem trauma, que tiraria o Brasil do atraso e seria a admiração de todos.

Há algo em comum entre a) a família decorosa, que aceita bem as suas crianças excêntricas; b) a Santo Amaro um tanto antiga, respeitadora das tradições, mas também ela simpática aos meninos entusiasmados por causas doidas — e modernas — como a música de João Gilberto, a pintura abstracionista e a ficção de Clarice Lispector; e c) a universidade de província que importa núcleos de vanguardismo artístico para ativar o clima cultural da cidade.

Em todas essas esferas, a despeito da componente de ordem, o salto progressista a uma forma social mais livre e menos injusta ou absurda representava antes uma aspiração que um transtorno. O golpe de Estado em seguida iria demonstrar que esse provincianismo tolerante com a inovação e a reforma, mesmo onde elas tocavam a questão da propriedade, não era a regra geral no país, o que não quer dizer que não existisse.

Tomando distância, digamos que naqueles casos anteriores a licença de experimentar vinha de cima: a família Veloso, Santo Amaro, a Reitoria e, mais longe, o próprio Estado desenvolvimentista, não se identificavam mais à ordem retardatária, que mal ou bem estava com a data vencida. A cor política dessa inesperada abertura para a modernização, que não via com maus olhos o espírito crítico das crianças e as tentativas vanguardistas dos universitários e adjacências, era definidamente anticapitalista, numa veia de pequena classe média, talvez mais moral do que política.

 “No ambiente familiar e nas relações de amizade nada parecia indicar a possibilidade de alguém, em sã consciência, discordar do ideário socializante. A direita só existia por causa de interesses escusos e inconfessáveis.”17 

Esse clima de opinião provinciano e esclarecido, para o qual o socialismo seria razoável e o capitalismo um erro, clima que hoje a muitos parecerá de outro planeta, não chegava a ser majoritário. A sua amplitude entretanto era suficiente para dar a ilusão de que ele representava a tendência real das coisas, enquanto o campo oposto seria um triste anacronismo, em vias de ser superado. Daí certa euforia, que em seguida se provou ingênua, quanto ao rumo do progresso. Daí também a atmosfera quase utópica do capítulo sobre Salvador, em que os estudantes reinventam a vida livremente, segundo os seus contatos com a vida popular e a cultura erudita, entre botecos pobres e instalações públicas modernas, à sombra de autoridades, professores e intelectuais progressistas, e, sobretudo, à distância das pressões do capital. Por razões históricas em que o livro não entra, as quais tinham a ver com o auge e a crise do nacionalismo desenvolvimentista no pré-64, havia simpatias de esquerda espalhadas por todos os níveis da sociedade, inclusive no governo.

Graças a esses apoios, que tinham alcance não só moral como também prático, estava em curso uma recombinação extramercado de forças intelectuais, políticas e institucionais, mal ou bem ensaiando possibilidades socialistas, quase como se o capital não existisse. A hipótese mostrou ser fantasiosa, mas a beleza desses capítulos deve-se a ela e à plenitude de vida que ela prometia e em certa medida facultava.

Os primeiros passos da profissionalização artística de Caetano — a expressão é dele — são ilustrativos nesse sentido. Longe das alienações do show business. eles obedecem a estímulos diversos, todos estimáveis, curiosamente desprovidos de carga negadora maior.

Aí estão as inspirações populares de sua imaginação, as amizades juvenis intensas, a inteligência estética notável, a ânsia de apropriar-se do espírito moderno, o culto à voz da irmã mais moça, a insatisfação — carinhosa — com o estado em que se encontravam a província e o país, o desejo de puxar a arte da canção para o presente, sem romper entretanto com a linha central da música popular brasileira, e, para concluir, a conjunção talvez sartriana de “responsabilidade intelectual e comprometimento existencial”.18 

Seriam passos de profissionalização, mas num sentido pouco escolar e nada comercial, diverso do corrente. Digamos que se tratava das tentativas de um estudante talentoso, que juntamente com a sua geração procurava participar de um momento iluminado de transformação nacional, que a todos permitiria a realização. Algo parecido valeu para boa parte do movimento artístico dos anos 1960, que era jovem e mais próximo da agitação estudantil que das especializações profissionais. A diferença notável do caso é que o clima amador e enturmado não se traduzia pela desambição intelectual, muito pelo contrário. O exemplo característico, verdade que com mais carga de radicalismo e negatividade, seria Glauber Rocha. A dinâmica histórica e a força das discussões revolucionavam por dentro as figuras que logo mais seriam de ponta, as quais passavam por um processo acelerado e intensivo de acumulação e formação em áreas diversas, incluindo o debate internacional, com resultado impressionante. Entravam em liga a cultura especializada do fã, o ambiente cultural movimentado, o engajamento maior ou menor na luta social, tinturas acadêmicas, fidelidade à experiência de vida prévia, além do domínio precário do ofício, que aliás não impedia o experimentalismo e de certo modo até o favorecia. O conjunto sintonizava com a revolução brasileira em esboço, e também, visto em retrospecto, com os prenúncios do que seria 1968 no mundo, tudo num grau de afinidade com que as preparações mais propriamente profissionais não sonhavam.

Caetano, que tinha consciência aguda desses paradoxos, observa que a originalidade de seu primeiro disco “muitas vezes provinha mais de nossas limitações que de nossa inventividade”.19 No mesmo espírito, a propósito do trabalho de um grupo amigo: “O disco, como de hábito, não é bom. Mas em compensação é ótimo”.20 A precariedade da fatura artística mudava de conotação, ou adquiria outra impregnação.

Passava a ter parte com um hipotético salto nacional à frente, de dimensão histórica, e tinha valor nessa condição, em relação à qual as considerações convencionais de métier eram secundárias. Assim, a propósito de Deus e o diabo na terra do sol, Caetano escreve — memoravelmente — que

 “Não era o Brasil tentando fazer direito (e provando que o podia), mas errando e acertando num nível que propunha, a partir de seu próprio ponto de vista, novos critérios para julgar erros e acertos”.21

Lembrando o início de sua educação estética, diz Caetano que se

“sentia num país homogêneo cujos aspectos de inautenticidade — e as versões de rock sem dúvida representavam um deles — resultavam da injustiça social que distribuía a ignorância, e de sua macromanifestação, o imperialismo, que impunha estilos e produtos”.22 

Mesmo que sumariamente, a ordem mundial inaceitável, a desigualdade brasileira e as questões de arte estão interligadas, fixando um patamar dialético para a reflexão. Grosso modo, era a posição do nacionalismo de esquerda da época, ou dos comunistas, com seus méritos e limitações: o latifúndio e o imperialismo causavam inautenticidade cultural (o que certamente era verdade), ao mesmo tempo que permaneciam como que externos ao país, formando corpos estranhos numa nação essencialmente boa e fraterna (o que era uma ingenuidade). Afinado com essa ordem de sentimentos e prolongando-a no plano artístico, o menino Caetano sonhava uma decantação do som, uma recusa da vulgaridade e do tosco: o saxofone, por exemplo, lhe soava grosseiro e a bateria era “uma atração de circo”, sem falar no mau gosto do acordeão.23 No ponto de fuga dessa reforma dos timbres, que era mais que meramente musical, estaria um Brasil verdadeiro, liberto das imposições de fora e da ignorância nativa.

“Apenas radicalizava dentro de mim — como João Gilberto finalmente radicalizou para todos — uma tendência de definição de estilo brasileiro nuclear, predominante.”24 

A radicalização, se ouvirmos bem, nada tinha de esteticismo, do desejo de voltar as costas à realidade degradante ou de romper com ela. Pelo contrário, tratava-se de uma espécie de aperfeiçoamento, de condensação e estilização do país na sua melhor parte, que com sorte puxaria o resto.

“Eu ouvia e aprendia tudo no rádio, mas à medida que, ainda na infância, ia formando um critério, ia deixando de fora uma tralha cuja existência eu mais perdoava que admitia.”25 

Mais outro exemplo da combinação caetanista de ruptura e apego, esse critério que mais perdoa que recusa a tralha das rádios comercial-populares faz parte de um sentimento das coisas ou do país, com prós e contras, que mais adiante e noutros termos será importante para o tropicalismo.

As passagens sobre a bossa nova e João Gilberto são pontos altos do livro, não só pela qualidade da análise, como pela correspondência de fundo com o painel biográfico-social.

Não custa notar que essa dialética entre a invenção artística e o seu momento histórico, além de um raro espetáculo, foi desde sempre o objetivo da crítica de esquerda, aqui realizado por um adversário. A seu modo, a reciprocidade viva entre reflexão estética e crônica dos tempos, ou, ainda, entre prosa de ensaio e prosa narrativa, que vão alternando, é um arranjo formal com feição própria, que solicita a interpretação, como o andamento de um romance. A dialética desdobra-se em vários planos, dando ideia do que seja uma revolução artística, ou, por analogia, uma revolução sem mais. Na boa exposição de Caetano, a inovação técnica da bossa nova responde a um conjunto de impasses, tanto musicais como sociais, achando novas saídas para o presente, abrindo perspectivas para o futuro e redefinindo o próprio passado, que também muda. A nova batida de violão inventada por João Gilberto apoia-se na sua “interpretação muito pessoal e muito penetrante do espírito do samba”, articulada “ao domínio dos procedimentos do cool jazz, então ponta de lança da invenção nos Estados Unidos”. Assim, o artista associava uma tradição brasileira, marcada social e racialmente, a um desenvolvimento de vanguarda, com projeção internacional, que a desprovincianizava, além de viabilizá-la no mercado estrangeiro e junto a novos públicos no país. O resultado é

“um processo radical de mudança de estágio cultural que nos levou a rever o nosso gosto, o nosso acervo e — o que é mais importante — as nossas possibilidades”.

Noutras palavras, a viravolta formal, fruto da ruminação simultânea do samba e do jazz, tem tanto lógica interna como consequências que vão além da forma, rearrumando o campo da música popular brasileira e ensaiando um novo arranjo entre as classes sociais e as raças, além de alcançar um relacionamento mais produtivo com a cultura dominante do tempo.

Caetano toma conhecimento da transformação aos dezessete anos, como “uma sucessão de delícias para a minha inteligência”.26 A versão mais audaciosa, meditada e reivindicativa do elogio vem nas páginas finais, em que o grande cantor popular, pela originalidade da dicção musical que desenvolveu, é dito

 “um redentor da língua portuguesa, como violador da imobilidade social brasileira — da sua desumana e deselegante estratificação —, como desenhador das formas refinadas e escarnecedor das elitizações tolas que apequenam essas formas”.27

Como poucas vezes, a invenção artística e sua força estão ligadas a uma análise de classe sob medida para o país.
No centro da exposição está uma frase de 32 linhas, um verdadeiro olé dialético (e como tal um pouco forçado), em que a sintaxe procura sugerir, ou captar, a complexidade do processo real.28

Pela abrangência da visão, pela sua potência organizadora, pelo teor de paradoxo e pela capacidade de enxergar o presente no tempo, como história, é uma façanha. Assim, a revolução que João Gilberto operou nas relações entre a fala, a linha melódica e a batida de violão 1) tornou possível o desenvolvimento pleno do trabalho de seus companheiros de geração; 2) “abriu um caminho para os mais novos que vinham chegando”; 3) deu sentido às buscas de seus predecessores imediatos, que “vinham tentando uma modernização através da imitação da música americana”; 4) superou-os todos pelo uso que soube fazer do cool jazz, “que lhe permitiu melhor religar-se ao que sabia ser grande na tradição brasileira”, da qual justamente os modernizadores queriam fugir; e 5) “marcou, assim, uma posição em face da feitura e fruição de música popular no Brasil que sugeria programas para o futuro e punha o passado em nova perspectiva — o que chamou a atenção de músicos eruditos, poetas de vanguarda e mestres de bateria de escolas de samba”. 

Como é próprio da escrita dialética, o mesmo sujeito de frase — no caso a revolução musical trazida por João Gilberto — comanda verbos muito díspares, que por sua vez comandam objetos (sujeitos) também eles desiguais, pertencentes a domínios separados e às vezes opostos da realidade, que assim ficam articulados por dentro. Tanto sujeitos como verbos atuam em várias dimensões ao mesmo tempo, as quais refluem sobre o seu ponto de partida, que existe através delas e adquire uma unidade ampliada e imprevista, que é o selo da dialética. Na realidade e na prosa, figuras apartadas pela especialização e pelo abismo das classes sociais, como os músicos eruditos, os poetas de vanguarda e os mestres de bateria de escolas de samba, na bela enumeração de Caetano, são colocadas em movimento associado e produtivo, saindo de seu isolamento. A fluidez se torna vertiginosa quando a inovação não afeta apenas o presente e o futuro, como quer o senso comum, mas abala também o passado, que deixa de ser imutável e se recompõe sob nossos olhos. A viravolta é um micromodelo do alcance total que tem uma revolução, mesmo restrita.

Caetano possui como poucos a capacidade de caracterizar artistas e obras.

Espalhados pelo livro e apimentados pela rivalidade, os retratos de Maria Bethânia, Nara Leão, Elis Regina, Glauber Rocha, Chico Buarque, Raul Seixas, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Augusto Boal, Augusto de Campos, Geraldo Vandré e outros formam uma excelente galeria contemporânea. Deliberadamente ou não, as feições individuais somam, ressoando umas nas outras e configurando com densidade a problemática de uma geração.

Noutro plano, o mesmo golpe de vista estético-social, aberto para a individualidade das obras e para a sua substância coletiva, faz de Caetano um crítico de arte de primeira qualidade. As suas páginas sobre Terra em transe e Alegria, alegria estão entre as boas peças da crítica brasileira, particularmente pela inteligência com que integram descrição formal e circunstância histórica.

Dito isso, as caracterizações devem o seu relevo a mais outro elemento de visão, também ele dialético, ligado à confiança sem reservas no valor histórico da individualização complexa. Com efeito, para Caetano as obras e os artistas não são epifenômenos, mas acontecimentos, pontos de acumulação real, que fazem diferença e têm consequências no campo estético e fora dele. São momentos salientes e significativos de uma história em curso, que não se reduz à dinâmica do mercado, com as suas modas que se sucedem indiferente e indefinidamente, nem aos esquemas prefixados do marxismo vulgar.

Por outro lado, sobretudo numa área tão comercial como a música popular e pensando num momento como aquele, de indústria cultural nascente, o risco de agigantar e mitificar diferenças meramente funcionais para o mercado é grande.

O cacoete de transformar divas em deusas — sem ironia — tem o mérito eventual de sublinhar o aspecto extraordinário que o trabalho artístico pode ter, ao mesmo tempo que contribui talvez para emprestar transcendência a ilusões triviais do estrelato. Até onde vejo, as duas coisas estão presentes no ensaísmo de Caetano.

“Ter tido o rock’n’roll como algo relativamente desprezível durante os anos decisivos da nossa formação — e, em contrapartida, ter tido a bossa nova como trilha sonora de nossa rebeldia — significa, para nós, brasileiros da minha geração, o direito de imaginar uma interferência ambiciosa no futuro do mundo. Direito que passa imediatamente a ser vivido como um dever.”29 

Noutras palavras, a invenção bossa-novista, que reelaborou a hegemonia norte-americana em termos não destrutivos, compatíveis com a nossa linha evolutiva própria, criou um patamar melhor para a geração seguinte, que graças à densidade do ambiente musical-intelectual interno não precisou sofrer a entrada do rock como um esmagamento cultural.

A observação é aguda e aliás resume a aura de revolução benigna ou incruenta que cercou a bossa nova. Nos passos seguintes, contudo, saltando as mediações indispensáveis e o senso das proporções, a relativa autonomia cultural alcançada num lance artístico feliz abre as portas à possibilidade e ao dever de uma geração de brasileiros de influir no futuro do mundo. A satisfação legítima de sair do estado de segregação de uma cultura semicolonial se converte, sem mais aquela, na ambição de fazer e acontecer na arena internacional — em lugar de questionar essas aspirações elas mesmas.

***

O jogo de progressões e retomadas entre Santo Amaro, Salvador, a cultura internacional e a bossa nova, com o Brasil ao fundo, sugeria um percurso democrático de modernização. É como se por um momento (inverossímil) o progresso e a internacionalização se fizessem para o bem de todos, num toma-lá-dá-cá harmonioso, e não à custa dos fracos e atrasados.

A vida popular e a província pareciam ter algo de especial a dizer, que não seria posto de lado pelas transformações que se aproximavam. Retomando o velho desejo de Caetano, a mudança iria se dever também a Santo Amaro. Para uma ideia dessa miragem de modernização feliz e abrangente, veja-se um começo de frase que capta o deslumbramento da época:

“O Caravelle da Cruzeiro do Sul — aeronave cuja modernidade de linhas me encantava como um samba de Jobim ou um prédio de Niemeyer […]”.30 

Associadas na mesma aspiração de elegância, aí estavam a tecnologia francesa, a música popular brasileira e a arquitetura vanguardista de Brasília, como se o país inteiro estivesse a ponto de decolar.

A euforia foi desmanchada em 1964 pelo golpe, um momento estelar da Guerra Fria, quando se uniram contra o ascenso popular e a esquerda, quase sem encontrar resistência, os militares pró-americanos, o capital e o imenso fundo de conservadorismo do país, tudo com ajuda dos próprios americanos.

Como a posição de Caetano iria mudar pouco depois, é interessante citar a sua primeira reação, perfeitamente afinada com a esquerda da época:

 “[…] víamos no golpe a decisão de sustar o processo de superação das horríveis desigualdades sociais brasileiras e, ao mesmo tempo, de manter a dominação norte-americana no hemisfério”.31

Noutras palavras, ficava interrompido um vasto movimento de democratização, que vinha de longe, agora substituído pelo país antissocial, temeroso de mudanças, partidário da repressão, sócio tradicional da opressão e da exploração, que saía da sombra e fora bisonhamente subestimado. As desigualdades internas e a sujeição externa deixavam de ser resíduos anacrônicos, em vias de desaparecimento, para se tornarem a forma deliberada, garantida pela ditadura, do presente e do futuro. No mesmo passo, para uma parte dos brasileiros a realidade acabava de tomar uma feição inaceitável e absurda.

As consequências estéticas tiradas por Caetano, que fizeram dele uma figura incontornável, custaram a aparecer.

Conforme explica ele mesmo, o catalisador foi uma passagem crucial de Terra em transe, o grande filme de Glauber Rocha que lida com o confronto de 64 e com o papel dos intelectuais na ocasião.

O protagonista, Paulo Martins, é um poeta e jornalista originário da oligarquia, agora convertido à revolução social e aliado ao Partido Comunista e ao populismo de esquerda. Exasperado pela duplicidade dos líderes populistas, e também pela passividade pré-política da massa popular, que não é capaz de confrontar os dirigentes que a enganam, Paulo Martins tem uma recaída na truculência oligárquica (verdade que com propósito brechtiano, de distanciamento e provocação). Tapando com a mão a boca de um líder sindical, que o trata de doutor, ele se dirige diretamente ao público:

Estão vendo quem é o povo? Um analfabeto, um imbecil, um despolitizado!”.

Meio sádico, meio autoflagelador, o episódio sublinha entre outras coisas a dubiedade do intelectual que se engaja na causa popular ao mesmo tempo que mantém as avaliações conservadoras — raramente explicitadas como aqui — a respeito do povo.

Ditada pela evidência de que não haveria revolução, a desqualificação dos trabalhadores é um desabafo histórico, que no passo seguinte leva à aventura da luta armada sem apoio social. Do ponto de vista da esquerda, a cena — uma invenção artística de primeira força — era um compêndio de sacrilégios, fazendo uma espécie de chacota dolorosa das certezas ideológicas do período. Os trabalhadores estavam longe de ser revolucionários, a sua relação com os dirigentes pautava-se pelo paternalismo, os políticos populistas se acertavam com o campo adversário, a distância entre as teses marxistas e a realidade social era desanimadora, e os intelectuais confundiam as razões da revolução política e as urgências da realização pessoal. Nem por isso se atenuavam as feições grotescas das camadas dirigentes e da dominação de classe, que continuavam em pé, esplendidamente acentuadas. A revolução não se tornara supérflua, muito pelo contrário: encontrava-se num beco histórico e não dera o necessário passo à frente. A nota geral era de desespero.32

Tão desconcertantes quanto a própria cena, as conclusões de Caetano entravam por um rumo oposto, quase se diria eufórico, dando sequência à recomposição ideológica pós-golpe. Enxergavam oportunidades e saídas onde o filme de Glauber desembocava em frustração nacional, autoexame político e morte. Digamos que elas acatavam sem mais as palavras devastadoras de Paulo Martins, passando por alto os traços problemáticos da personagem, que são essenciais à complexidade artística da situação.

 “Vivi essa cena — e as cenas de reação indignada que ela suscitou em rodas de bar — como o núcleo de um grande acontecimento cujo nome breve que hoje lhe posso dar não me ocorrera com tanta facilidade então (e por isso eu buscava mil maneiras de dizê-lo para mim mesmo e para os outros): a morte do populismo. […] era a própria fé nas forças populares — e o próprio respeito que os melhores sentiam pelos homens do povo — o que aqui era descartado como arma política ou valor ético em si. Essa hecatombe eu estava preparado para enfrentá-la. E excitado para examinar-lhe os fenômenos íntimos e antever-lhe as consequências. Nada do que veio a se chamar de ‘tropicalismo’ teria tido lugar sem esse momento traumático.”33 “Portanto, quando o poeta de Terra em transe decretou a falência da crença nas energias libertadoras do ‘povo’, eu, na plateia, vi, não o fim das possibilidades, mas o anúncio de novas tarefas para mim.”34

Convém notar que “populismo” aqui não está na acepção sociológica usual, latino-americana, de liderança personalista exercida sobre massas urbanas pouco integradas. No sentido que lhe dá Caetano, o termo designa algo de outra ordem.

Trata-se do papel especial reservado ao povo trabalhador nas concepções e esperanças da esquerda, que reconhecem nele a vítima da injustiça social e, por isso mesmo, o sujeito e aliado necessário a uma política libertadora. O respeito que “os melhores” sentiam — e já não sentem? — pelos homens do povo, semiexcluídos e excluídos, em quem contemplavam a dura verdade de nossa sociedade de classes, liga-se a essa convicção. “Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos”, escrevia Drummond em 1940, pensando no operário.35 Assim, quando Caetano faz suas as palavras de Paulo Martins, constatando e saudando através delas a “morte do populismo”, do “próprio respeito que os melhores sentiam pelos homens do povo”, é o começo de um novo tempo que ele deseja marcar, um tempo em que a dívida histórico-social com os de baixo — talvez o motor principal do pensamento crítico brasileiro desde o Abolicionismo — deixou de existir. Dissociava-se dos recém-derrotados de 64, que nessa acepção eram todos populistas. A mudança era considerável e o opunha a seu próprio campo anterior, a socialistas, nacionalistas e cristãos de esquerda, à tradição progressista da literatura brasileira desde as últimas décadas do século xix, e, também, às pessoas simplesmente esclarecidas, para as quais há muito tempo a ligação interna, para não dizer dialética, entre riqueza e pobreza é um dado da consciência moderna. A desilusão de Paulo Martins transformara-se em desobrigação. Esta a ruptura, salvo engano, que está na origem da nova liberdade trazida pelo tropicalismo. Se o povo, como antípoda do privilégio, não é portador virtual de uma nova ordem, esta desaparece do horizonte, o qual se encurta notavelmente.

Faz parte do vigor literário do livro uma certa naturalidade com o atrito ideológico, por momentos azedo e turbulento. Aos olhos da esquerda, que mal ou bem centralizava a resistência à ditadura, descrer da “energia libertadora do povo” era o mesmo que alienar-se e entregar os pontos. Aos olhos de Caetano, era livrar-se de um mito subitamente velho, que cerceava a sua liberdade pessoal, intelectual e artística.

Já do ângulo da evolução ulterior das coisas, que num livro escrito décadas depois é importante, digamos que o artista havia pressentido a inversão da maré histórica no mundo, a qual até segunda ordem deixava sem chão a luta pelo socialismo, como a própria esquerda aos poucos iria notar. Aliás, conforme sugere Nicholas Brown, um estudioso americano do Brasil, da globalização, da bossa nova e do tropicalismo, a vitória da contrarrevolução em 1964-70, com a decorrente supressão das alternativas socialistas, havia propiciado a passagem precoce da situação moderna à pós-moderna no país, entendida esta última como aquela em que o capitalismo não é mais relativizado por um possível horizonte de superação. Em linha com esse esquema, a bossa nova seria um modernismo tardio, e a tropicália um pós-modernismo de primeira hora, nascido já no chão da derrota do socialismo.36

Seja como for, a mudança não fizera de Caetano um conformista. O impulso radicalizador do pré-64 continuava atuando dentro dele e logo em seguida iria se acentuar, através da adoção do figurino ultrarrebelde e polêmico da contracultura e do pop, em diálogo vivo com o momento estético e político nacional. A oposição à ordem estabelecida agora era completa, incluída aí a esquerda convencional — entenda-se o Partido Comunista e os estudantes nacionalistas que frequentavam festivais de música —, a qual falava em anti-imperialismo e socialismo mas era bem-pensante e “nunca discutia temas como sexo e raça, elegância e gosto, amor ou forma”.37

Ambígua ao extremo, a nova posição se queria “à esquerda da esquerda”, simpatizando discretamente com a luta armada de Guevara e Marighella, sem prejuízo de defender a “liberdade econômica” e a “saúde do mercado”. Cultuando divindades antagônicas, Caetano interessava e chocava — outra maneira de interessar — as diversas religiões de seu público, tornando-se uma referência controversa mas obrigatória para todos. O descaso pela coerência era ostensivo e tinha algo de bravata:  Uma política unívoca, palatável e simples não era o que podia sair daí.38 . Paralelamente, o abandono da fé “populista” se traduzia por um notável aumento da irreverência, de certa disposição de pôr para quebrar, que entrava em choque com o já mencionado bom-mocismo dos progressistas e, certamente, com os mínimos de disciplina exigidos pela ação política.

Assim, a posição libertária e transgressora postulada por Caetano rechaçava igualmente — ou quase — os establishments da esquerda e da direita, os quais tratava de abalar ao máximo no plano do escândalo cênico, ressalvando entretanto o mercado. Somando-se à “anarquia comportamental”,39 às roupas e cabeleiras acintosas, concebidas para passar da conta, a provocação chegava ao extremo, em plena ditadura, de exibir no palco a bandeira com que Hélio Oiticica homenageava um bandido morto pela polícia:

“Seja marginal, seja herói”. 

Como era de prever, embora a ideia não fosse essa, terminou tudo em meses de cadeia, por iniciativa de um juiz de direito que assistia ao espetáculo com a namorada.40 Talvez fizesse parte desse quadro uma competição deslocada e suicida com os companheiros de geração que estavam optando pela luta armada, também eles contrários à ditadura e à esclerose histórica do Partido Comunista41. Sem esconder  a satisfação de amor-próprio, Caetano relata a sua cumplicidade com o major que o interrogara na prisão, o qual denunciava “o insidioso poder subversivo de nosso trabalho” e reconhecia “que o que Gil e eu fazíamos era muito mais perigoso [para o regime] do que o que faziam os artistas de protesto explícito e engajamento ostensivo”.42  O atestado de periculosidade passado pelos militares vinha compensar os remoques dos adversários de esquerda, para os quais o tropicalismo dos cabeludos não passava de alienação.

Dito isso, e a despeito do custo alto que muitos pagaram, além da acrimônia, a rivalidade entre contracultura e arte engajada tinha algo de comédia de desencontros, sobretudo porque ela era desnecessária, pois nada obrigava a esquerda (na verdade só uma parte dela) a ser convencional em matéria de estética e costumes, assim como era evidente o impulso antiburguês da contracultura. Por outro lado, a simetria na recusa dos dois establishments não era perfeita, como explica Caetano com sinceridade desarmante. Habituado à hostilização pública por parte da esquerda, que o chamava de alienado e americanizado, além de vaiá-lo em cena, julgava-se por isso mesmo a salvo da repressão policial-militar, que não o veria como inimigo e o deixaria em paz.43

[O movimento tropicalista] “Era também uma tentativa de encarar a coincidência (mera?), nesse país tropical, da onda da contracultura com a voga dos regimes autoritários”44 Que pensar desse cálculo espinhoso e secreto — um imaginário alvará informal, que aliás se provou errado —, vindo de alguém que se queria perigoso para o regime? O fato é que Caetano se sentia duplamente injustiçado, uma vez por ser preso pela direita sem ter feito grande coisa (o juízo é dele, apesar dos juízos contrários noutros momentos)45 e outra por não ser reconhecido como revolucionário pela esquerda.
Geraldo Vandré, uma figura de proa da canção de protesto, a certa altura pede aos tropicalistas que não compitam com ele, pois o mercado só comporta um nome forte de cada vez, e o Brasil da ditadura, para não dizer o socialismo, precisava de conscientização das massas.

Com perspicácia, Caetano observa que talvez se tratasse de um embrião daquele mesmo oficialismo que matava a cultura dos países socialistas em nome da história. Veja-se a ironia duvidosa de seu comentário, que jogava com chavões da Guerra Fria e confluências inaceitáveis para dar forma literária ao caráter envenenado da situação:

“Livres do perigo vermelho desde que nossos inimigos militares tomaram o poder, nós não víamos a mais remota possibilidade de realizar-se esse desejo de Vandré”.46 

Com a irrisão do caso, inclusive autoirrisão, ainda aqui os inimigos de direita pareciam garantir, contra os semicompanheiros de esquerda e de ofício, um certo espaço de liberdade — isso até prova em contrário, que não tardaria. Contra alguns da esquerda, que sonhavam assegurar-se do mercado por meio de alegações políticas, os tropicalistas apostavam “numa pluralidade de estilos concorrendo nas mentes e nas caixas registradoras”.47

O cinismo alegre dessas últimas, funcionando por assim dizer como agentes da democracia e da cultura, em certo plano era menos hipócrita que o enquadramento proposto pelos adversários; noutro plano, entretanto, era pior, pois a ideia de concorrência “nas mentes” calava a presença do Estado policial, que no fim das contas era o fato relevante. Escolhidas a dedo para vexar os socialistas, as “caixas registradoras” explicitavam o aspecto comercial do enfrentamento ideológico-musical nos programas de tv, aspecto que os artistas engajados, por serem anticapitalistas, preferiam passar por alto.48

Isso posto, mesmo que manipulado e explorado pelo show business. o fla-flu artístico-ideológico era um verdadeiro fenômeno social. Transpunha para o espetáculo a nova etapa do confronto com a ditadura, confronto que estava em preparação e pouco adiante terminaria em novo massacre da esquerda.

Digamos que a rivalidade exaltada nas plateias, uma disputa simbólica pela liderança do processo, aludia à luta nas ruas e à realidade do regime, ainda que de maneira indireta e distorcida. Faria parte de um discernimento intelectual mais exigente distinguir entre antagonismos secundários e principais, adversários próximos e inimigos propriamente ditos.

A confusão nessa matéria era grande. A devastação causada pela ditadura, que suspendeu as liberdades civis e desbaratou as organizações populares, seria de mesma ordem que as desfeitas e mesmo agressões do público estudantil ou dos colegas de ofício?

A simples comparação não seria uma falta de juízo? Veja-se a respeito um amigo libertário de Caetano, que não lamentava o incêndio da União Nacional dos Estudantes logo em seguida ao golpe.

“Tremi ao ouvi-lo dizer que o prédio da União Nacional dos Estudantes devia mesmo ter sido queimado. O incêndio da une, um ato violento de grupos de direita que se seguiu imediatamente ao golpe de abril de 64, era motivo de revolta para toda a esquerda, para os liberais assustados e para as boas almas em geral [por que a ironia?]. Rogério [o amigo] expunha com veemência razões pessoais para não afinar com esse coro: a intolerância que a complexidade de suas ideias encontrara entre os membros da une fazia destes uma ameaça à sua liberdade. O estranho júbilo de entender com clareza suas razões, e mesmo de identificar-me com elas, foi maior em mim do que o choque inicial produzido pela afirmação herética. Não tardei a descobrir que Rogério exibiria ainda maior violência contra os reacionários que apoiassem em primeira instância a agressão à une. Isso, que para muitos parecia absurda incoerência, era para mim prova de firmeza e rigor: ele detectava embriões de estruturas opressivas no seio mesmo dos grupos que lutavam contra a opressão, mas nem por isso iria confundir-se com os atuais opressores destes.”49


Em perspectiva histórica, tratava-se da reavaliação do passado recente. O ascenso socializante do pré-64, cujo impulso superador e democrático fazia a beleza dos capítulos sobre Santo Amaro e Salvador, agora era revisto sob luz contrária, como um período incubador de intolerância e ameaça à liberdade. Depois de serem motivo de orgulho, os grupos que se erguiam contra o imperialismo e a injustiça social passavam a ser portadores de “embriões de estruturas opressivas”, contra os quais mesmo um incêndio não seria uma providência descabida. Ainda que imaginemos que o incêndio tenha sido aqui uma flor de retórica, a mudança de posição era radical. Veja-se um exemplo do novo tom, que não ficaria mal em editoriais da imprensa conservadora:

“Hoje são muitas as evidências de que […] qualquer tentativa de não alinhamento com os interesses do Ocidente capitalista resultaria em monstruosas agressões às liberdades fundamentais […]”.50 

Que pensar dessa viravolta, referida a um momento em que as liberdades fundamentais de fato haviam sido canceladas, mas pela direita? Agora é a luta por uma sociedade melhor que é posta sob suspeição. Em termos de consistência literária, de coerência entre as partes da narrativa, que numa autobiografia quase-romance têm valor estético-político, o novo ponto de vista antiesquerda destoa e não encontra apoio na apresentação — tão notável — do período anterior a 64. Conforme o próprio livro, foram anos justamente em que a liberdade de experimentação social e artística brilhou em toda linha, com força talvez inédita no país. Seja dito de passagem que a vitalidade desse experimentalismo se devia em parte ao fato de que o próprio capitalismo estava em jogo, e, com ele, as coordenadas da realidade, num grau que não se repetiria mais. Assim, quando aparece, a insistência no caráter antidemocrático da luta pela democracia é um corpo estranho no relato, de cuja dinâmica interna não parece resultar. Sem maior base no passado, pode entretanto refletir a correlação de forças pós-golpe, que depois de derrubar e proibir as aspirações sociais da fase prévia as pintou com as cores do terror stalinista. É certo que a sombra da União Soviética pesaria sobre qualquer tentativa socializante, mas transformá-la em impedimento absoluto à insatisfação com o capitalismo era e é outra forma de terror ou de paralisação da história. Em plano mais comezinho, o novo antiesquerdismo magnificava desentendimentos antigos, em questões de arte e estilo de vida, que até onde conta Caetano não chegavam a ser incontornáveis.

“Se eu me identifiquei com Rogério logo ao conhecê-lo, foi porque minha situação entre meus colegas de esquerda na Universidade da Bahia fora semelhante à dele entre seus amigos da une no Rio. Sem que desse motivos para confrontos do tipo que ele teve que enfrentar, minha atitude reticente em face das certezas políticas de meus amigos suscitava neles uma irônica desconfiança. Eu era um desses temperamentos artísticos a que os mais responsáveis gostam de chamar de ‘alienados’. Minhas relações com os colegas de esquerda eram até mesmo ternas.”51

O júbilo ante o incêndio da une, uma emoção “estranha” e “herética”, meio inconfessável e meio perversa, é parente do entusiasmo pela cena traumática de Terra em transe.

Também esta foi uma “hecatombe” bem-vinda, que punha abaixo as aspirações da esquerda e, com elas, a crer no novo Caetano, uma prisão mental. Nos dois casos, sob o manto de reações tabu, que requerem certa coragem para se afirmar — embora o campo vencedor as aprove —, assistimos a uma conversão histórica, ou, melhor dizendo. à revelação de que a esquerda, até então estimada, é opressiva e não vale mais que a direita.

Adiante veremos em funcionamento essa equidistância. Seja dito de passagem que iluminações tanto podem esclarecer como obscurecer e que às vezes fazem as duas coisas. Por agora, notemos algumas das razões que fizeram que Caetano festejasse a derrocada da esquerda — mas não a vitória da ditadura — como um momento de libertação. Mal ou bem, é o depoimento de um artista incomum sobre o mal-estar que a própria existência da esquerda, com sua terminologia, suas teses e posições, lhe passara a causar.

O incômodo começava pela linguagem. Por que chamar de proletários os trabalhadores pobres e “miseravelmente desorganizados” do Recôncavo, a quem esse nome não ocorreria e que aliás gostariam muito de usar capacete e de ser assalariados? Na mesma ordem de objeções, não soava descabido e pouco “estimulante”, dadas as circunstâncias, falar em ditadura do proletariado?52 Noutro plano, o socialismo seria mesmo a solução para todos os problemas, como uma panaceia? “A solução única já era conhecida e chegara aqui pronta: alcançar o socialismo.”53

Com sentido comum, Caetano havia notado o desajuste entre a vulgata marxista e a realidade local, bem como certa cegueira correspondente. A pobreza entretanto existia sim, e o desconforto com as palavras não a fazia desaparecer.

 “Claro que as ideias gerais a respeito da necessidade de justiça social me interessavam e eu sentia o entusiasmo de pertencer a uma geração que parecia ter diante de si a oportunidade de mudar profundamente a ordem das coisas.”54 

Afastada a camisa de força do jargão, a sociedade de classes voltava pela janela dos fundos e impunha os seus problemas, cujo horizonte é coletivo. Acresce que a alergia aos esquemas do marxismo tinha ela mesma um viés de classe, passível de crítica — marxista? — por sua vez.

 “Eu sinceramente não achava que os operários da construção civil em Salvador […] — tampouco as massas operárias vistas em filmes e fotografias — pudessem ou devessem decidir quanto ao futuro de minha vida.”55

Como não ver a parte do desdém e da exclusão política nessa formulação, sem falar na fantasia ideológica de um futuro pessoal incondicionado? Acaso as classes dirigentes que nós intelectuais e artistas costumamos tolerar ou adular não influem na nossa vida? E a restrição aos operários seria feita igualmente a empresários, banqueiros, políticos profissionais ou donos de estações de tv?

Depois de haver sido o partido da transformação social, da crítica à ordem burguesa e ao atraso, a esquerda passava a ser considerada, talvez por força da derrota, como um obstáculo à inteligência. Sem ser uma refutação no plano das ideias, a vitória do capital sobre o movimento popular afetava as cotações intelectuais e estimulava a substituição das agendas, com vantagem discutível.

“O golpe no populismo de esquerda [Caetano refere-se à cena central de Terra em transe] libertava a mente para enquadrar o Brasil de uma perspectiva ampla, permitindo miradas críticas de natureza antropológica, mítica, mística, formalista e moral com que nem se sonhava.”56 

As ausências conspícuas nessa lista de perspectivas amplas são a análise de classes, a crítica ao capital e o anti-imperialismo, sem falar no prisma da desmistificação. Assim, salvo engano, a nova liberdade de vistas consistia em deixar de lado os ângulos propriamente modernos ou totalizantes que haviam conquistado o primeiro plano no pré-64, quando teriam sido causa — mas será verdade? — de acanhamento mental.

Repitamos que não é o que o livro conta nos capítulos dedicados ao período, nos quais, ao contrário, se vê um momento inteligente e aberto da vida nacional, notável pelo ascenso popular e muito mais livre do que o que veio depois. Noutras palavras, voltando ao argumento de Caetano, o abalo causado pela viravolta militar e política teria tido também o seu aspecto positivo, abrindo perspectivas intelectuais novas, antes inacessíveis (mas alguém as vedava?), que “procuravam revelar como somos e perguntavam pelo nosso destino”.57

Já um materialista dirá que, longe de ser novidade, a consideração “antropológica, mítica, mística, formalista e moral” do país, bem como a pergunta pelo “nosso destino”, marcava uma volta ao passado, às definições estáticas pelo caráter nacional, pela raça, pela herança religiosa, pelas origens portuguesas, que justamente a visão histórico-social vinha redimensionar e traduzir em termos da complexidade contemporânea. É claro por outro lado que a reconfiguração geral do capitalismo, de que 64 fez parte, exige uma resposta que os socialistas continuam devendo.

A caracterização da esquerda como um bloco maciço, antidemocrático em política e retrógrado em estética, não correspondia à realidade. Embora minoritária, a fina flor da reflexão crítica do período era, além de socializante, antistalinista com conhecimento de causa e amiga do experimentalismo em arte. Basta lembrar Mario Pedrosa, Anatol Rosenfeld, Paulo Emilio Salles Gomes e Antonio Candido.

Com as diferenças de cada caso, algo parecido valia para os artistas de ponta, como Glauber e seus companheiros do Cinema Novo, o grupo da Poesia Concreta, os signatários do manifesto da Música Nova, o pessoal do Teatro de Arena e Oficina, incluindo o próprio Caetano antes da virada.58 Por que então a pressa em abandonar o barco, em que não faltavam aliados?

Arriscando um pouco, digamos que Caetano generalizou para a esquerda o nacionalismo superficial dos estudantes que o vaiavam, bem como a idealização atrasada da vida popular que o Partido Comunista propagava. A generalização errava o alvo e não deixava de surpreender, pois muito do êxito do artista se deveu a setores mais radicalizados da mesma esquerda, que se sentiam representados na linguagem pop, no comportamento transgressivo, nos acordes atonais e, de modo mais geral, na experimentação vanguardista e na atualização internacional.

Assim, até onde vejo, não foi a limitação intelectual da esquerda o que levou Caetano a fazer dela o seu adversário. A razão da hostilidade terá estado simplesmente nas reservas gerais dela ao capitalismo vencedor, na negatividade estraga-prazeres diante da voragem da mercantilização que se anunciava.

Numa passagem inesquecível do livro — também ela um júbilo duvidoso — Caetano desce à rua para ver de perto uma passeata estudantil e sua repressão pelos militares.59 À maneira dos hippies, que então era nova, o artista ostentava uma cabeleira enorme, vestia um capote de general sobre o torso nu e usava jeans e sandálias, além de “um colar índio feito de dentes grandes de animal”. Caminhando na contracorrente da manifestação, enquanto os estudantes fugiam e eram espancados, a estranha figura se toma de uma “ira santa”, com alguma coisa talvez de beato, e interpela os passantes, “protestando contra sua indiferença medrosa (e, quem sabe?, seu apoio íntimo) em face da brutalidade policial”. A cena é intrincada e vale uma discussão.

Os protagonistas centrais naturalmente eram os estudantes e os militares, que disputavam o domínio da rua e o ser-ou-não-ser da ditadura. Caetano não toma partido direto no conflito, não se alinhando com os manifestantes nem falando a eles, afinal de contas a sua gente, nem tampouco se dirigindo aos soldados. Em vez disso inventa para si uma figura de possesso, ou de profeta, e passa a dizer desaforos — “desaforos foi o que ouviram” — às pessoas da rua que não querem saber de nada e só pensam em cair fora o mais rápido possível. “Homens e mulheres apressados tinham medo dos manifestantes, dos soldados e de mim. Eu estava seguro de que, naquela situação, ninguém me tocaria um dedo.” Entre parêntesis, seria interessante, para aprofundar o episódio, conhecer o teor das recriminações. Seja como for, a participação a que o profeta incita os passantes não vale para ele próprio, vestido a caráter, que quer mesmo é invectivar, mais do que ser ouvido. A própria “ira santa” tinha um quê relativo, pois vinha acompanhada de cálculos de segurança pouco irados, que faziam dela um teatro para uso sobretudo particular. “Por outro lado, os soldados dificilmente focariam a sua atenção em mim: eu andava em sentido contrário aos estudantes fugitivos, na verdade tangenciando o olho do furacão, e minha aparência não seria computada como sendo a de um dos manifestantes. Eu falava alto e exaltadamente, mas nenhum soldado se aproximaria de mim o suficiente para me ouvir.” Com ar de doido, desses que as situações de caos e a religiosidade popular fazem aparecer, a personagem sentia-se a salvo da repressão, que não a veria como adversário. Em suma, uma intervenção arriscada mas nem tanto, que no fundo não é uma intervenção, embora criando uma posição fora de concurso, possível na circunstância (para quê?). De inegável interesse, devido sobretudo à complicação dos motivos, o episódio é difícil de classificar. Caetano o tem em alta conta, como happening, teatro político e poesia.

Tão esquisitas quanto a cena são as considerações a seu respeito. No principal, trata-se de valorizá-la como um lance de arte de vanguarda, ou neovanguarda dos anos 1960. As marcas distintivas estão aí: a recusa da separação entre arte e vida prática, a performance improvisada à luz do dia, com dimensão política, envolvendo o cidadão comum, a proposta de um fazer artístico sem obra durável, a poesia totalmente desconvencionalizada, que não se limita ao espaço do poema, e, por fim, a inspiração libertária geral.

“Mas nessa estranha descida à rua, eu me sabia um artista realizando uma peça improvisada de teatro político. De, com licença da palavra, poesia. Eu era o tropicalista, aquele que está livre de amarras políticas tradicionais e por isso pode reagir contra a opressão e a estreiteza com gestos límpidos e criadores. Narciso? Eu me achava nesse momento necessariamente acima de Chico Buarque ou Edu Lobo, de qualquer um dos meus colegas tidos como grandes e profundos.” 

O autoenaltecimento algo cômico desse final, que combina aspirações à genialidade com a vontade meio infantil de estar à frente de colegas muito aplaudidos, dá o tom. É certo que o episódio preenche os requisitos do vanguardismo, com os quais está em dia, mas isso não é tudo, pois há também as suas dissonâncias internas, que o caracterizam noutra linha. A ira santa fingida, o profeta que assusta os assustados, em lugar de esclarecê-los e persuadi-los, a encenação de um happening enquanto os companheiros de geração e resistentes à ditadura apanham, a dúvida — alimentada ao longo do livro inteiro — quanto ao que sejam e de que lado estão a opressão e a estreiteza, a posição superior porém indefinida do tropicalista “livre de amarras políticas tradicionais” (quais?), os dividendos puramente subjetivos da operação vanguardista, despida do sentido transitivo ou explosivo que lhe é próprio, nada disso enfim é límpido, embora haja invenção.

Digamos que a verdade dessa página extraordinária, talvez a culminação do livro, não está onde o seu autor supõe. A riqueza da cena não decorre da integridade de seu gesto central — um ato de poesia? — mas da afinidade deste com a desagregação que se processa à sua volta, representativa do momento, como num romance realista. No começo do capítulo, Gilberto Gil experimenta um chá de auasca e descobre que pode

 “amar, acima do temor e de suas convicções ou inclinações políticas, o mundo em suas manifestações todas, inclusive os militares opressores”.60 

O caráter regressivo do amor aos homens da ditadura dispensa comentários, e aliás não deixa de ser um documento do que pode a droga segundo as circunstâncias. Logo em seguida, confirmando o clima de instabilidade e conversões vertiginosas, a narrativa retoma os dias anteriores ao golpe, quando Caetano ainda era simpático à transformação social, ao método Paulo Freire de alfabetização de adultos e ao cpc, que pouco depois iria abominar a ponto de aplaudir o incêndio da une. Voltando enfim ao presente pós-golpe, tão exaltantes quanto a droga há as situações de multidão nos concursos de auditório e nas manifestações de rua, quando “Deus está solto”,61 com os correspondentes convites à ego trip e ao messianismo, ao heroísmo e ao medo, que são outras tantas viagens.

 “Nesse clima de ânimos exaltados e ruas conflagradas é que a auasca […] fez sua aparição.”62 

No que se refere ao valor literário, que é real, tudo está em perceber a totalidade turbulenta, historicamente particular, composta destas referências tão diversas — planos de conquista da primazia artística, ditadura militar, agitação e militância revolucionária, indiferença dos passantes, clima psicodélico, arte de vanguarda, pancadarias de rua e auditório, celebridade midiática, medo, coordenadas da Guerra Fria etc. —, em que se objetiva com força memorável, sem paralelo talvez na literatura brasileira recente, o custo espiritual da instalação do novo regime.

De maneira metódica, o tropicalismo justapunha traços formais ultramodernos, tomados à linha de frente da moda internacional, e aspectos característicos do subdesenvolvimento do país. A natureza desencontrada e humorística da combinação, com algo de realismo mágico, salta aos olhos. No episódio da passeata, por exemplo, estão reunidos o visual hippie e a exaltação religiosa do pregador popular, o figurino do happening e o colar índio com seus grandes dentes de fera. São elementos com data e proveniência heterogêneas, cujo acoplamento compõe um disparate ostensivo, que reitera descompassos da história real. A incongruência, no entanto — aí a surpresa —, é um achado estético, e não uma deficiência da composição. O contraste estridente entre as partes descombinadas agride o bom gosto, mas ainda assim, ou por isso mesmo, o seu absurdo se mostra funcional como representação da atualidade do Brasil, de cujo desconjuntamento interno, ou modernização precária, passa a ser uma alegoria das mais eficazes. Vinda do campo da arte de consumo, a ambição do projeto, que visava alto, era surpreendente. Em tese, a canção tropicalista programada por Caetano queria conjugar superioridades com órbita diversa: a revolução do canto trazida por João Gilberto, o nível literário dos melhores escritores modernos da língua (João Cabral e Guimarães Rosa), a vasta audiência dos sucessos comerciais, sofisticados ou vulgares (Beatles, Roberto Carlos e Chacrinha), a força de intervenção do pop star, cujas posturas públicas podem fazer diferença (em especial num momento de ditadura), atuando “ sobre o significado das palavras” — tudo de modo a influenciar “imediatamente a arte e a vida diária dos brasileiros”. Em suma,

nós outros tentávamos descobrir uma nova instância para a poesia”63

A intenção revolucionária desse programa, que buscava aliar primazias que as especializações artísticas e as realidades da ordem burguesa mantinham separadas, só não era evidente porque o escândalo a encobria. Estão aí, convincentes ou não, o desconfinamento da poesia, liberta dos “ritos tradicionais do ofício” e interferindo na vida real; a entrada da canção comercial, até então plebeia, para o clube da grande arte; a derrubada das divisórias entre arte exigente e indústria cultural, experimentalismo e tradição popular, que deixariam — mas será certo? — de se repelir; o trânsito livre entre a excelência artística e a vida diária da nação, viabilizado aqui pelos bons serviços do mercado, como se vivêssemos no melhor dos mundos e os mecanismos alienadores do capital não existissem.

Por outro lado, tomando distância, notemos que o desejo de eficácia transformadora e a desenvoltura diante das divisões correntes davam prosseguimento, noutra chave, a tendências sociais e artísticas anteriores a 64. Embora oculta, essa continuidade configurava e problematizava a passagem de um período ao outro, sendo um fator de fundo da força romanesca que o livro tem. Também nos anos de pré-revolução — basta lembrar o capítulo de Caetano sobre Salvador — estiveram na ordem do dia a invenção de novas formas de militância cultural, a exposição das formas artísticas a um debate politizado, a redefinição subversiva das relações entre cultura exigente e cultura popular, a incorporação do repertório erudito e vanguardista, nacional e internacional, às condições peculiares da luta social no país etc. Não obstante, a diferença entre os dois momentos não podia ser maior. Sob o signo do ascenso popular, a convergência entre inovação artística e dessegregação social antecipava, ilusória ou não, alguma forma de superação socialista, que colocava a experimentação estética no campo da busca de uma sociedade nova e melhor.

Já sob o signo contrário, da derrota do campo popular, os mesmos impulsos adquiriam uma nítida nota escarninha, inclusive de autoderrisão, aliás indispensável à verdade do novo quadro. Também este é um resultado artístico forte, que dá figura crítica a um momento da história contemporânea, a saber, o truncamento da revolução social no Brasil. De maneira enviesada, a carnavalização tropicalista aludia à autotransformação que o país ficara devendo.

“A palavra-chave para se entender o tropicalismo é sincretismo”, com as suas implicações antipuristas de heterogeneidade e mistura, ou de integração deficitária.64 

Com efeito, a colagem de elementos que não casam, dissonantes pelos respectivos contextos de origem, é o traço formal distintivo da arte tropicalista, contrária em tudo ao padrão da forma orgânica. A agressão às separações estabelecidas tinha significado ambíguo, expressando tanto o anterior impulso revolucionário quanto a vitória subsequente da comercialização, também ela destradicionalizadora. O procedimento dava figura à mixórdia dos novos tempos em que o país entrava, a que as formas populares tradicionais, com seu universo convencional e circunscrito, não tinham acesso. O passo à frente, em termos de modernização da música popular, de aproximação dela ao vanguardismo estético, era indubitável. As discrepâncias — ou montagens — ocorriam no interior das canções, ou também entre as canções de um mesmo disco. Assim, por exemplo, comentando os planos para um dos primeiros trabalhos de Gal Costa, Caetano observa que se tratava de superar

“tanto a oposição mpb / Jovem Guarda quanto aquela outra oposição, mais profunda, que se dava entre bossa nova e samba tradicional, ou ainda entre música sofisticada moderna (fosse bossa nova, samba-jazz, canção neorregional ou de protesto) e música comercial vulgar de qualquer extração (“versões de tangos argentinos, boleros de prostíbulos, sambas canções sentimentais etc.”).65 

Observe-se o sentido inesperado que tem aqui a ideia de superação. Em todos os casos, ela envolvia algum grau de afronta (“escândalos que eu próprio queria desencadear”),66 pois mesclava gêneros ou rubricas rivais, alfinetando as razões e os preconceitos envolvidos na sua diferença. Em cada uma das oposições lembradas estavam em pauta, como é fácil ver, hostilidades de linha política, ou também de classe ou geração, as quais apimentavam as divergências artísticas. Ao agitar e transformar em tema esse substrato de animosidades estético-sociais, altamente representativas, o tropicalismo inovava e aprofundava o debate. Estava em jogo também o rumo que as coisas iriam tomar: a bossa nova colocava-se adiante do samba tradicional, a vulgaridade comercial ficava aquém da música sofisticada, e a mpb, segundo o ponto de vista, estava à frente ou atrás da Jovem Guarda do iê-iê-iê, questão que por um momento pareceu ter implicações para o futuro do país.

Acentuando o paradoxo, digamos então que as oposições que o tropicalismo projetava superar eram elas mesmas portadoras de ambição superadora, e que nesse sentido era a própria superação que estava sendo superada, ou, ainda, a própria noção de progresso que estava sendo desativada por uma modalidade diferente de modernização.

Assim, a superação tropicalista deixava e não deixava para trás as oposições acima das quais queria planar. A distância tomada era suficiente para permitir que os termos em conflito coexistissem e colaborassem na mesma canção, no mesmo disco e sobretudo num mesmo gosto, mas não tanta que se perdesse a chispa antagônica, sem a qual iria embora o escândalo da mistura, que também era indispensável e devia ser conservado. A seu modo, era uma distância que, embora mudando a paisagem, deixava tudo como antes, com a dinâmica superadora a menos. A mais, havia um ponto de vista superiormente atualizado, acima do bem e do mal, um novo sentimento do Brasil e do presente, que se recusava a tomar partido e que encontrava no impasse o seu elemento vital, reconhecendo valor tanto ao polo adiantado como ao retrógrado, inclusive o mais inconsistente e kitsch. O que se instalava, a despeito do alarido carnavalesco, era a estática, ou, noutras palavras, uma instância literal de revolução conservadora. Veremos que esta não é a palavra final sobre o tropicalismo, ainda que contenha muitas de suas intenções principais.

A figuração do país através de seus contrastes estereotipados, em estado de ready-made, torna-se uma fórmula sarcástica, de conotação vanguardista. Aí estão o mato virgem e a capital hipermoderna, a revolução social e o povo abestalhado, o iê-iê-iê dos roqueiros e a família patriarcal rezando à mesa, o mais que ultrapassado Vicente Celestino e o avançadíssimo João Gilberto, o mau gosto superlativo de Dona Iolanda, a mulher do general-ditador, quando comparada à dignidade de Indira Gandhi, a grande dama terceiro-mundista que nos visitava etc. etc., tudo realçado pelo envoltório pop de última moda.

Longe de ser um defeito, a facilidade da receita era uma força produtiva ao alcance de muitos, que permitiu a uma geração falar de maneira engenhosa e reveladora.                    “da tragicomédia Brasil, da aventura a um tempo frustra e reluzente de ser brasileiro”.67 Com alta dose de ambivalência, a funcionalidade por assim dizer patriótica dessas oposições estacionárias, que não tendiam à resolução, fazia que elas trocassem de sinal. De descompassos e vexames, passavam a retrato assumido e engraçado da nacionalidade, verdadeiros logotipos com toque ufanista, em suma, à revelação festiva, ainda que embaraçosa, do que “somos”.68 Uma ideologia carnavalesca da identidade nacional harmonizava e caucionava os desencontros de nossa formação social, desvestindo-os da negatividade que haviam tido no período anterior, de luta contra o subdesenvolvimento.

Os termos opostos agora existiam alegremente lado a lado, igualmente simpáticos, sem perspectiva de superação. Saltando a outro plano, distante mas correlato, essa acomodação do presente a si mesmo, em todos os seus níveis, sem exclusivas, era a imitação ou assimilação subjetiva — mais satírica do que complacente? — do ponto de vista da programação comercial da cultura. Também as estações de rádio ou de tv trabalham com todas as faixas de interesse do público, do regressivo ao avançado, desde que sejam rentáveis. O mundo cheio de diferenças e sem antagonismos toma a feição de um grande mercado.

Para sugerir algo das diferentes possibilidades envolvidas numa conjuntura como essa, vejam-se duas indicações curiosas sobre “Alegria, alegria”, o primeiro grande êxito de Caetano. Conforme aponta o autor, a canção retoma no título um refrão do Chacrinha e inclui na letra uma formulação de J.-P. Sartre — “nada no bolso e nas mãos” —, colocando juntos o animador clownesco de tv, autoritário e comercial, ídolo das empregadas domésticas, e o filósofo da liberdade, ídolo dos intelectuais.69 A piada passaria despercebida se Caetano, interessado em exemplificar o espírito misturador do tropicalismo, não chamasse atenção para ela. A sua irreverência se pode ler de muitas maneiras, o que só lhe aumenta o interesse. Por um lado o artista deixa claro que a imaginação tropicalista é libérrima e se alimenta onde bem entende, sem respeito à hierarquia (elitista? preconceituosa?) que coloca o grande escritor acima da popularidade televisiva.

Por outro, a inspiração igualitária não convence, pois na associação de Chacrinha e Sartre há também a alegria debochada de nivelar por baixo, sob o signo do poder emergente da indústria cultural, que rebaixa tanto a gente pobre quanto a filosofia, substituindo por outra, não menos opressiva, a hierarquia da fase anterior. Seria o abismo histórico entre cultura erudita e popular que se estaria tornando coisa do passado? Seria a desqualificação do pensamento crítico pelas novas formas de capitalismo que estaria em andamento? Ou seria a força “saneadora” da “imunda” indústria do entretenimento que se fazia sentir?70 O gosto duvidoso que a brincadeira deixa na boca é um sabor do nosso tempo.

Dito isso, a visão 1997 que Caetano propõe do tropicalismo, como um movimento mais positivo que negativo, antes a favor do que do contra, não deixa de surpreender. A despeito do autor, não é isso o que o livro mostra ao fazer a crônica de uma radicalização artística e social vertiginosa, talvez mal calculada, com ponto de fuga na provocação e na morte.

Na última série de programas de tv que antecedeu a prisão, que tinha como título Divino, maravilhoso, a exacerbação já chegava ao limite: o palco estava atrás de grades, os artistas cantavam em jaulas e assistiam ao enterro do movimento, ao passo que Caetano apontava um revólver para a cabeça.71 A afinidade sempre negada com a arte de protesto não podia ser maior. Assim, uma apreciação equilibrada do conjunto deveria ressaltar linhas de força contraditórias. A justaposição crua e estridente de elementos disparatados, inspirada em certo sentimento do Brasil, dava espaço a leituras divergentes. Colocados lado a lado, em estado de inocência mas referidos à pátria, os termos da oposição podem significar um momento favorável, de descompartimentação nacional, de destemor diante da diversidade extravagante e caótica do que somos, a qual por fim começaria a ser assumida num patamar superior de conciliação.

Difícil de compaginar com a ditadura, esse aspecto eufórico existia, embora recoberto por uma ironia que hoje não se adivinha mais. A frequente atitude de orientador cultural adotada por Caetano, voltada para a regeneração da música popular brasileira, liga-se a essa perspectiva. Se entretanto atentarmos para a dimensão temporal que no fim das contas organiza e anima as justaposições, em que o ultranovo e o obsoleto compõem uma aberração constante e inelutável, algo como um destino, o referente passa a ser outro, historicamente mais específico e francamente negativo. Em lugar do Brasil-terra-de-contrastes, amável e pitoresco, entra o Brasil marcado a ferro pela contrarrevolução, com sua combinação esdrúxula e sistemática de modernização capitalista e reposição do atraso social — a oposição atrás das demais oposições —, de que a fórmula tropicalista é a notável transposição estrutural e crítica.

Nesse sentido, sem prejuízo das convicções políticas contrárias do autor, o absurdo tropicalista formaliza e encapsula a experiência histórica da esquerda derrotada em 1964, e sua verdade. Nem sempre as formas dizem o que os artistas pensam.

O paralelo entre o tropicalismo e a poesia antropófaga de Oswald de Andrade, quarenta anos mais velha, é evidente. Esta última canibalizava soluções poéticas do vanguardismo europeu e as combinava a realidades sociais da ex-colônia, cuja data e espírito eram de ordem muito diversa. O resultado, incrivelmente original, era como que uma piada euforizante, que deixava entrever uma saída utópica para o nosso atraso meio delicioso, meio incurável. Nessa hipótese do antropófago risonho, o Brasil saberia casar o seu fundo primitivo à técnica moderna, de modo a saltar por cima do presente burguês, queimando uma etapa triste da história da humanidade.

Analogamente, o tropicalismo conjugava as formas da moda pop internacional a matérias características de nosso subdesenvolvimento, mas agora com efeito contrário, em que predominava a nota grotesca. Esta apontava para a eternização de nosso absurdo desconjuntamento histórico, que acabava de ser reconfirmado pela ditadura militar.

Digamos que em sua própria ideia a antropofagia e o tropicalismo tinham como pressuposto o atraso nacional e o desejo de superá-lo, ou seja, em termos de hoje, o quadro da modernização retardatária. Num caso, plantado no início do ciclo, a perspectiva é cheia de promessas (“A alegria é a prova dos nove”).72 No outro, suscitado pela derrota do avanço popular, a tônica recaía na persistência ou na renovação da malformação antiga, que portanto não estava em vias de superação como se supunha.

 “Assim, digam o que disserem, nós, os tropicalistas, éramos pessimistas, ou pelo menos namoramos o mais sombrio pessimismo”.73 “[…] de fato, nunca canções disseram tão mal do Brasil quanto as canções tropicalistas, nem antes nem depois.”74 

Com sentidos diferentes, sempre com força e inserção histórica, digamos que tanto a antropofagia quanto o tropicalismo foram programas estéticos do Terceiro Mundo.

* * *


Depois de capítulos sobre a prisão, a liberdade vigiada em Salvador e dois anos e meio de exílio em Londres — um conjunto de punições que não é pequeno —, há a volta ao Brasil.

São páginas cheias de interesse, cujo caráter deliberadamente apolítico entretanto chama a atenção. Afinal de contas não se tratava aqui de um anônimo, mas de uma figura saliente da oposição cultural à ditadura, “com poder sobre a opinião pública” e, por que não dizer, com as responsabilidades correspondentes.75 Em especial a parte sobre a cadeia desconcerta.

Muito literária, atravessada por exercícios proustianos, ela se concentra nas perturbações do sono, da libido, dos humores e da razão causadas pela perda da liberdade. A resposta ao castigo político infligido pela ditadura vem na forma de um longo queixume analítico sobre os sofrimentos da prisão — o que aliás não deixa de ser uma denúncia em registro inesperado.

Nenhuma vontade de resistência, nenhuma ideia sobre a continuidade do movimento oposicionista de que, mal ou bem, mesmo involuntariamente, o artista continuava a ser parte. É claro que a preferência pelo ângulo intimista, às expensas da dimensão coletiva da situação, pode ser um afã de originalidade do escritor. Onde a tradição do gênero manda o prisioneiro político dar um balanço dos acontecimentos passados e das perspectivas futuras, o artista adota o papel anticonvencional de anti-herói e anota outras coisas, não menos importantes, como a incapacidade de chorar ou de se masturbar — lágrimas e sêmen são parentes — acarretada pelo cárcere; ou a precedência invencível da superstição sobre o bom senso quando se trata de especular sobre a eventual libertação.

Em seu momento, três décadas depois, a opção narrativa pela confissão de fraqueza, pela incapacidade de opor resistência, pode ser um heroísmo ao contrário (uma superioridade sobre a estreiteza dos militantes? uma rebeldia em segundo grau?), e penso que é assim que ela se apresenta. Entretanto, é possível também que a longa descida aos infernos não funcione só como depoimento, ou leal rememoração, mas também como desconversa, dispensando o autor de reatar o fio com a posição avançada e guerreira em que se encontrava no momento em que a direita política o atingiu. Comentando o acerto da canção com que Gil se despedia do Brasil, depois da prisão e antes do exílio, “sem sombra de rancor”, “amor e perdão impondo-se sobre a mágoa”, Caetano louva a sua sabedoria: “‘Aquele abraço’ era, nesse sentido, o oposto de meu estado de espírito, e eu entendia comovido, do fundo do poço da depressão, que aquele era o único modo de assumir um tom ‘bola para a frente’ sem forçar nenhuma barra”.76 A lição aplicada pelos militares havia surtido efeito.

A recomposição se completa depois da volta ao país em 1972 — auge da ditadura —, no primeiro carnaval passado na Bahia. Em matéria de melodrama, coincidências mágicas e apoteose, o episódio chega ao grandioso. “Chuva, suor e cerveja”, um frevo composto por Caetano ainda no exílio, estava tendo grande aceitação popular, deixando o artista entre o riso e as lágrimas. A atmosfera de pansexualismo nas ruas, onde se confundiam os foliões fantasiados e os hippies autênticos, os travestis carnavalescos e os gays da revolução sexual em curso, era como que a realização popular do programa tropicalista, que também ele tornava fluidas as fronteiras entre tradicional e moderno, local e cosmopolita, masculino e feminino. Respirava-se “uma sensação de liberdade muito grande”.77 Por coincidência com o título do frevo, a chuva começa a cair assim que o trio elétrico o começa a tocar, enquanto a multidão continua cantando e dançando.

“[…] tudo compunha uma festa completa de recepção para mim por parte do Brasil que me falava direto ao fundo do imaginário”.78

Sobre o caminhão do trio elétrico vinha montado um foguete espacial que trazia a inscrição “Caetanave”. O músico sobe para agradecer a homenagem.

 “Senti alguma coisa bater em meu rosto que não era uma gota de chuva. Aproximei a mão para descobrir o que era. A coisa voou para o meu peito e só aí é que Roberto [um amigo] e eu percebemos que se tratava de uma esperança. Apesar da chuva grossa, essa esperança verde voou na direção das luzes do caminhão e veio pousar em mim. Eu então disse para Roberto: ‘Quer dizer que há esperança?’. Ele respondeu com a alegria tranquila de quem não esperaria por nada menos: ‘Claro!’.”

A Caetanave segue em direção da casa em que Gil estava dormindo. Este, que acreditava em disco voador, leva um momento para se recompor e perceber o que se passava.

“Quando me viu descer do objeto estranho do qual o som trepidante provinha, entendeu antes de tudo que a magia e o ordinário se reafirmavam mutuamente, que o simbólico e o empírico não precisavam ser distinguidos um do outro — que, naquele momento forte, o mito vinha fecundar a realidade. A rejeição que o exílio significara não apenas se dissipava: dava lugar a uma carinhosa compensação.”79

Como num conto de fadas ou numa alegoria carnavalesca, a chuva, os bichinhos alados e o povo da Bahia se unem para dar boas-vindas, em nome do Brasil, ao artista que fora rejeitado e agora voltava. O apelo ao maravilhoso é compreensível como expressão de desejo, embora kitsch. Como explicação do curso das coisas, é regressivo, uma verdadeira abdicação. A personificação mítica do país, que acolhe e repara depois de haver mandado embora, toma o lugar da discriminação sóbria dos fatos, com evidente prejuízo intelectual.

Apagam-se por exemplo a fragilidade e o medo do perseguido político, as consultas aflitas do exilado, que gostaria de voltar mas não de ser preso, os cálculos sórdidos da ditadura, necessitada de alguma legitimidade cultural, enfim, um mundo de negociações inglórias mas reais, que compunha os bastidores de congraçamentos dessa ordem. Sobretudo desaparece o jogo dos conflitos e das alianças de classe que subjazem à invenção estética e à consagração artística, sem o qual a beleza não se compreende socialmente. Como Caetano é mestre na percepção e análise dessas relações, fica mais decepcionante a sua conversão ao mito. Dito isso, o livro seria menos representativo se faltassem esses parágrafos.

Muito estranhas e cheias de fintas, as primeiras páginas de Verdade tropical se comprazem num show de inteligência propositalmente barata, que procura desnortear o leitor esclarecido. Aliás, o uso do mal-estar como um recurso literário problematizador é uma originalidade do livro. Ao tomar posições que não cabem no consenso civilizado (que manda, por exemplo, não aplaudir o incêndio da casa do adversário, não fazer pouco da capacidade política dos trabalhadores, não apresentar-se a si mesmo como personagem de um mito), Caetano faz da relação de leitura um campo de provocações, conflituoso e inseguro, um cabo de guerra característico do vale-tudo dos novos tempos, em que não há por que dar crédito aos autores, mesmo quando são interessantes. A incerteza prende e incomoda, em especial porque não se trata de ficção, mas de um depoimento.

Interessante ela própria, essa relação para-artística talvez seja mais verdadeira ou contemporânea que as certezas cediças que asseguram o acordo literário entre os bem-pensantes. Assim, o livro começa tecendo considerações duvidosas sobre a nossa singularidade nacional.

“No ano 2000 o Brasil comemora, além da passagem do século e do milênio, quinhentos anos do seu descobrimento. […] É um acúmulo de significados para a data não compartilhado com nenhum outro país do mundo.” 

Que pensar dessa nossa exclusividade cheia de promessas? A banalidade meio oficialista da observação, à beira do risível, deixa perplexo o leitor que não tenha a superstição dos números redondos. É claro que já na frase seguinte Caetano vai tomar distância de sua pérola — mas não inteiramente —, atribuindo a superstição aos compatriotas.

“A sobrecarga de presságios desencadeada por uma tal conjunção combina bem com a psicologia de uma nação falhada que encontra razões para envergonhar-se de um dia ter sido chamada de ‘país do futuro’.” 

Ainda aqui, entretanto, se prestarmos atenção, o movimento é dúbio. Presságios combinam bem com a psicologia de nações falhadas, mas não, como seria de esperar, porque estas faltassem com o realismo, mas porque não tiveram a força de acreditar noutros presságios mais favoráveis.M]as a magnitude dessas decepções antevividas revela que — feliz . infelizmente — estamos muito longe de um realismo sensato.”⁸⁰ Em suma, a credulidade do narrador não é dele, mas do país, embora seja dele também, com muita honra.

As idas e vindas são conduzidas com malabarismo e se não chegam a exaltar a superstição da nacionalidade, simpatizam com ela e rebaixam um pouco o bom senso na matéria. A relativização das vantagens e desvantagens respectivas vai se repetindo a propósito de outras polaridades análogas, num procedimento bem dominado, que diz respeito a alternativas abstratas entre imaginação (ou mito, ou sonho, ou superstição) e realismo, Brasil e Estados Unidos, o nome e a coisa, todas mais ou menos paralelas. Dependendo do ponto de vista, são fla-flus bem achados e sugestivos, ou questões passavelmente ocas

“Os Estados Unidos são um país sem nome […], o Brasil é um nome sem país.” O Brasil é o “Outro” dos Estados Unidos: “O duplo, a sombra, o negativo da grande aventura do Novo Mundo”, “[…] esse enorme lugar-nenhum cujo nome arde”.81

Seja como for, são colocações de um patriotismo fantasioso, meio poético e meio mítico, que convida a assumir as nossas debilidades como uma riqueza própria. Em seguida, contudo, o leitor notará que o elogio da insensatez e a licença de ser inconsequente têm função retórica, estabelecendo a ambiência intelectual complacente e furta-cor de que Caetano precisa para falar do golpe de 64, o nervo sensível do capítulo.

Depois de dizer que na adolescência a sua geração sonhara reverter o “legado brutal” das desigualdades brasileiras, vem uma das frases características do livro:

 “Em 64, executando um gesto exigido pela necessidade de perpetuar essas desigualdades que têm se mostrado o único modo de a economia brasileira funcionar (mal, naturalmente) — e, no plano internacional, pela defesa da liberdade de mercado contra a ameaça do bloco comunista (guerra fria) —, os militares tomaram o poder”.82 

É preciso ler devagar, para assimilar os solavancos ideológicos dessa passagem que procura captar — com distanciamento? com sarcasmo? com ânimo justificatório? — o ângulo da direita vencedora.

A sucessão de imperativos contraditórios, alguns claramente injustificados, carrega de tensão social a escrita, além de acender a controvérsia. A tarefa histórica gloriosa de transformar um país deformado pela desigualdade cede o passo à necessidade de… perpetuar a desigualdade. Necessidade por quê? de quem? O uso indevido da palavra, propriamente ideológico, fala por si. O que aconteceu entre o desejo de superar o “legado brutal” e a decisão contrária de reafirmá-lo? Qual foi o ensinamento assimilado? Acresce que executar “um gesto exigido pela necessidade” parece apontar para alguma grandeza trágica, logo desmentida pela baixeza do objetivo. A razão última, também ela um sofisma, embora com tintura materialista, diz que foi tudo por amor da pátria, que sem a desigualdade não funcionaria.

Como saber, se o Brasil menos desigual nunca foi experimentado? Seja como for, a pátria aqui é a pátria dos beneficiários da desigualdade.

Completando o movimento, a ditadura é necessária, no plano internacional da Guerra Fria, para defender a liberdade do mercado contra a ameaça do bloco comunista. Com algo de verdade, que não deixa de ser uma incriminação da liberdade de mercado, as frases dão forma literária — aí o seu mérito — ao horizonte rebaixado e “mau” da contrarrevolução. A hesitação inicial e algo frívola entre mito e realidade — qual seria melhor? — prolonga-se no vaivém quanto às razões da esquerda e da ditadura. As escaramuças prosseguem nos parágrafos seguintes, os quais sugerem que a esquerda, ao contrário do que pensava, não tinha o monopólio dos bons sentimentos, ao passo que a direita era menos má do que se dizia. São retificações morais discutíveis, de uma equidistância obviamente enviesada, que em todo caso passavam longe das realidades brutas da ditadura, ou, no momento anterior, das questões que dividiam o país e diziam respeito à reforma agrária, à reivindicação popular, à incorporação sócio-política da população rural, ao desenvolvimentismo, à política externa independente, ao combate à pobreza, em suma, ao aprofundamento da democracia.

Escrito com distância de três décadas, em plena normalização capitalista do mundo nos anos 1990, Verdade tropical recapitula a memorável efervescência dos anos 1960, em que o tropicalismo figurava com destaque. Bem vistas as coisas, a guerra de atrito com a esquerda não impediu que o movimento fizesse parte do vagalhão estudantil, anticapitalista e internacional que culminou em 1968. Leal ao valor estético de sua rebeldia naquele período, Caetano o valoriza ao máximo. Por outro lado, comprometido também com a vitória da nova situação, para a qual o capitalismo é inquestionável, o memorialista compartilha os pontos de vista e o discurso dos vencedores da Guerra Fria. Constrangedora, a renúncia à negatividade tem ela mesma valor de documento de época. Assim, a melhor maneira de aproveitar este livro incomum talvez inclua uma boa dose de leitura a contrapelo, de modo a fazer dele uma dramatização histórica: de um lado o interesse e a verdade, as promessas e as deficiências do impulso derrotado; do outro, o horizonte rebaixado e inglório do capital vitorioso.
(2011)

Notas :

1. Caetano Veloso, Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
2. Id., ibid., p. 19.
3. Id., ibid., p. 430.
4. Para os anos 1920, José Miguel Wisnik, “Getúlio da Paixão Cearense”, em Enio Squeff e José Miguel Wisnik, Música. São Paulo: Brasiliense, 1982; Davi Arrigucci Jr., “Presença ausente”, em Humildade, paixão e morte: a poesia de Manuel Bandeira. São Paulo, Companhia das Letras, 1990; Humberto Werneck, Santo sujo: a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008. Para a bossa nova, Ruy Castro, Chega de saudade. São Paulo: Companhia das Letras, 1990; Lorenzo Mammi, “João Gilberto e a bossa nova”. Novos Estudos Cebrap, n. 34, nov. 1992; Caetano Veloso, “Elvis e Marilyn”, em op. cit.; Walter Garcia, Bim bom: a contradição sem conflito de João Gilberto. São Paulo: Paz e Terra, 1999. Para 1964, Roberto Schwarz, “Cultura e política 1964-1969”, em O pai de família. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
5. Caetano Veloso, op. cit., p. 19.
6. Id., ibid., p. 23.
7. Id., ibid., p. 24.
8. Id., ibid., pp. 23-4.
9. Caetano refere-se a Juracy Magalhães, o ministro da ditadura, segundo o qual “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Id., ibid., p. 52.
10. Id., ibid., p. 57.

11. Id., ibid., p. 29
12. Id., ibid., pp. 31-2.
13. Id., ibid., p. 58.
14. Id., ibid., pp. 63-4.
15. Id., ibid., p. 28.
16. Id., ibid., p. 263.
17. Id., ibid., p. 15.
18. Id., ibid., p. 63.
19. Id., ibid., p. 156.
20. Id., ibid., p. 183.
21. Id., ibid., p. 101.
22. Id., ibid., p. 254.
23. Id., ibid., pp. 254-5.
24. Id., ibid., p. 255.
25. Id., ibid., p. 254.
26. Id., ibid., pp. 35-6.
27. Id., ibid., p. 502.
28. Id., ibid., pp. 35-6.
29. Id., ibid., pp. 52-3.
30. Id., ibid., p. 277.
31. Id., ibid., p. 177.

32. Para uma ótima análise da figura de Paulo Martins, ver Ismail Xavier, “O intelectual fora do centro”, em Alegorias do subdesenvolvimento. São Paulo: Brasiliense, 1993.
33. Caetano Veloso, op. cit., pp. 104-5.
34. Id., ibid., p. 116.
35. Carlos Drummond de Andrade, “O operário no mar”, em Sentimento do mundo.
36. Nicholas Brown, Utopian generations. Princeton: Princeton University Press, 2005, pp. 176-7.
37. Caetano Veloso, op. cit., p. 116.
38. Id., ibid., p. 446. “No nosso próprio campo, fazíamos as duas coisas: empurrávamos o horizonte do comportamento para cada vez mais longe, experimentando formas e difundindo invenções, ao mesmo tempo que ambicionávamos a elevação do nosso nível de competitividade profissional — e mercadológica — aos padrões dos americanos e dos ingleses.”
39. Id., ibid., p. 418 e também 385-6.
40. Id., ibid., pp. 306-7.
41. “Nós não estávamos de todo inconscientes de que, paralelamente ao fato de que colecionávamos imagens violentas nas letras de nossas canções, sons desagradáveis e ruídos nos nossos arranjos, e atitudes agressivas em relação à vida cultural brasileira nas nossas aparições e declarações públicas, desenvolvia-se o embrião da guerrilha urbana, com a qual sentíamos, de longe, uma espécie de identificação poética.” Id., ibid., pp. 50-1.
42. Id., ibid., p. 401.

43. Id., ibid., p. 349.
44. Id., ibid., p. 17.
45. Id., ibid., pp. 306-7.
46. Id., ibid., p. 282.
47. Id., ibid., p. 281.
48. “As questões de mercado, muitas vezes as únicas decisivas, não pareciam igualmente nobres para entrar nas discussões acaloradas.” Id., ibid., pp. 177-8.
49. Id., ibid., p. 107.
50. Id., ibid., p. 52.
51. Id., ibid., p. 114. “Nós [Gil e Caetano] nos encontrávamos na música […]: saudávamos o surgimento do cpc e da une — embora o que fazíamos fosse radicalmente diferente do que se propunha ali — e amávamos a entrada dos temas sociais nas letras de música, sobretudo o que fazia Vinicius de Moraes com Carlos Lyra.” Id., ibid., p. 288.
52. Id., ibid., p. 115.
53. Id., ibid., p. 87.
54. Id., ibid., p. 115.
55. Id., ibid., p. 116.
56. Id., ibid., p. 105.
57. Id., ibid., p. 105.
58. Ver a respeito a boa documentação reunida em Arte em Revista. n. 1. São Paulo: Kairós, 1981.
59. Caetano Veloso, op. cit., pp. 317-9.
60. Id., ibid., p. 308.
61. Id., ibid., p. 301.
62. Id., ibid., p. 319.
63. Id., ibid., pp. 141-4.
64. Id., ibid., p. 292.
65. Id., ibid., p. 126.

Entrevista de Caetano Veloso ao jornal A Folha de São Paulo após a publicação do ensaio de Roberto Schwartz : ” Verdade  Tropical – um percurso do nosso tempo ” .

Folha – Roberto Schwarz faz um misto de valorização literária e severa crítica ideológica de “Verdade Tropical”, 15 anos depois da publicação. O que retém em sua leitura?

Caetano Veloso – É envaidecedor que Schwarz tenha escrito tanto (e com tanta energia) sobre meu velho livro. Claro que não coincido com o grosso da crítica ideológica. No entanto, retenho a observação de que o argumento desenvolvido a partir da cena central de “Terra em Transe” seja, no livro, um tanto mal concebido.

Por que Schwarz só publica o ensaio 15 anos depois do seu livro?

Não sei. Talvez ele o tenha lido com grande atraso (não 15 anos de atraso, é claro) e demorado muito para decidir-se a discuti-lo publicamente. Talvez ele tenha tardado também em metabolizar o que leu.

Por que o livro renasce agora, com a edição de bolso de um de seus capítulos e a crítica de Schwarz?

Não sei.

Como foi a recepção do livro nos países em que foi publicado?

Foi publicado, em boas traduções, na Itália e na Espanha (e países de língua espanhola). A tradução francesa é horrível. A grega eu não sei ler. De qualquer modo, todas as traduções partem da edição americana (os direitos fora do Brasil e de Portugal são da Knopf), que deformou muito a estrutura do original. Todos os elogios literários que o livro mereceu de Roberto não seriam justificados para quem só lesse as traduções.

Me lembro de que a “New York Times Book Review” deu resenha favorável. Ouço comentários positivos de amigos argentinos, espanhóis e italianos. Também de alguns gregos. Na França parece que, além da tradicional mania francesa de traduzir como quem corrige o original, deram o longo texto a pessoas totalmente desqualificadas intelectualmente: já que se trata de um livro de cantor pop, por que pedir a alguém que saiba ler e escrever para traduzir?

Schwarz vê a relação dos tropicalistas com a esquerda como uma “comédia de desencontros”, na qual haveria mais afinidades do que divergências. Seu livro descreve longamente as divergências, e Schwarz agora as reitera. Ainda é possível falar em afinidades?

Claro que há e sempre houve afinidades. Gil e eu, além de Tom Zé e Rogério Duprat, sempre fomos “de esquerda”. Nossos amigos foram sempre majoritariamente de esquerda. Na altura do tropicalismo deu-se uma virada em mim, e também em Gil, pelo menos, que exigia repensar tudo por conta própria, desfazendo adesões automáticas. O maior inimigo era esse automatismo.

A cena de “Terra em Transe” é positiva porque expõe a quebra do automatismo ideológico a que artistas e intelectuais se viam presos. Quando o protagonista fala, o tom blasfemo revela tratar-se de um momento liberador. Claro que, uma vez olhando as coisas mais livremente, os males da esquerda apareceriam.

O ensaio atribui a você uma “generalização para a esquerda do nacionalismo superficial dos estudantes que o vaiavam” e a visão da “esquerda como obstáculo à inteligência”. Desde então, que renovação você vê na esquerda do ponto de vista cultural?

Toda cartilha ideológica, pode ser -e frequentemente é- obstáculo à inteligência. Eu tinha amigos na extrema esquerda que gostavam do que eu fazia e nada opunham ao tropicalismo.

Já contei em minha coluna no “Globo” como quase dei apoio logístico ao grupo de Marighella, através de minha amiga Lurdinha, uma guerrilheira que foi torturada e a quem [o delegado Sérgio Paranhos] Fleury se refere, numa entrevista, como a pessoa mais corajosa que ele conheceu.

Aliás, Hélio Oiticica, Glauber e Zé Celso eram de esquerda, além de Rubens Gerchman, Zé Agrippino e Rogério Duarte. O “desbunde” foi sobretudo um evento interno ao mundo das esquerdas. Hoje em dia, quando Delfim é defensor de Lula e Dilma e se opõe a FH, gosto da revista “Fevereiro”, de Ruy Fausto, e detesto blogs como o de Paulo Henrique Amorim.

Sempre me pergunto por que Roberto Schwarz ou Marilena Chaui nunca têm nada a dizer sobre o que se passa na Coreia do Norte (não vale dizer que a “grande imprensa já diz”). Por que Lula e Tarso Genro mandaram de volta, num avião venezuelano, os atletas cubanos que tinham pedido asilo político ao Brasil? Isso é admissível? Ninguém na esquerda reclama de nada disso?

Os esforços intelectuais de [Theodor] Adorno para igualar a vida americana ao Terceiro Reich e à União Soviética só servem para provar repetidas vezes que as liberdades nas democracias liberais são suspeitas: a ostensiva falta de liberdade em países comunistas nunca é combatida, nem eloquentemente, nem cedo.

Quando eu era moço, intelectuais de esquerda dizerem-se anti-stalinistas representava um piso mínimo de elegância: quase nunca passava de uma declaração para se poder continuar sendo comunista. Não havia (como Tony Judt mostrou que não havia na França) um esforço crítico, por parte de intelectuais de esquerda, de se opor aos estados policiais.

É interessante notar que Zizek elogia o imperialismo chinês no Tibete e desculpa as paradas fascistas da Coreia do Norte. Nossos elegantes uspianos nada dizem.

Qual foi a novidade em termos de crítica ao tropicalismo no Brasil e no exterior?

Não leio quase nada sobre tropicalismo. Às vezes esse movimento é citado em publicações sobre música popular, às vezes em artigos acadêmicos (de estudos sobre América Latina ou língua portuguesa). Nada me impressiona muito.

Augusto de Campos e Ferreira Gullar polemizaram em torno de acontecimentos dos anos 1950 e 60, o país discute a Comissão da Verdade, torturadores têm sofrido “esculachos” na porta de casa. A conta dos anos 1960 e 70 não fecha?

Que conta fecha? Mas vamos andando. O ser humano é um desequilibrador. Pessoalmente, sou pela Comissão da Verdade. Há um trecho crucial em “Verdade Tropical”, que Schwarz sintomaticamente ignora, em que conto o quanto aprendi sobre a verdade da sociedade brasileira ao ouvir, na cadeia, urros de dor de torturados, os quais não eram nossos companheiros de prisão política. Havia quem dissesse que se tratava de presos políticos vindos de outros quartéis. Mas chegou-se à conclusão de que eram presos comuns, ladrões da Zona Norte, bandidos.

Pois bem, antes da ditadura, durante e depois, esses maus tratos vêm se dando nas delegacias e prisões civis e militares. Se não denunciarmos (e mesmo punirmos) os torturadores que trabalhavam para o Estado, não teremos a saúde social mínima necessária para começar a acabar com isso.

Há um paralelo entre o público dos festivais e os comentaristas de internet e blogueiros de hoje?

Deve haver. Mas não interessa.

O que pensa da Comissão da Verdade e da Lei da Anistia?

Senti que o modelo espanhol da Anistia serviria para o Brasil. Hoje sou totalmente pela Comissão da Verdade e não acho que torturadores devam ser perdoados. Os guerrilheiros foram punidos (inclusive com tortura e morte). É enganoso equiparar os dois tipos de crime.

Você é retratado como um memorialista “comprometido com a vitória da nova situação, para a qual o capitalismo é inquestionável”. Como responde à acusação de “conservadorismo” político?

Deixei de temer palavras como “conservador” ou “de direita”, como se fossem xingamentos que ostracizam, em 1967. Minha teimosia em permanecer no campo da esquerda vem de minha crença na possibilidade de mudar para melhor o jeito de a gente viver sobre a Terra. Não descarto sequer a eventualidade de alguma violência. Mas estou certo de que o que se chama de esquerda também atrapalha muito.

O mito do Brasil e de sua oportunidade de originalidade me põe numa situação em que posso sonhar mais alto, pondo os horrores das revoluções e seus desdobramentos sob crítica. Por essa razão me atraem mais as sugestões de Mangabeira Unger do que as repetições da esquerda uspiana.

Ele abre espaço para a originalidade do Brasil. Para mim isso é fatal: somos originais, seremos originais ou desapareceremos. O capitalismo não é inquestionável: que a gasolina americana tivesse sido enriquecida com chumbo porque isso a fazia mais rentável, e que o empresário que usou essa vantagem tenha mantido em segredo a descoberta de que o chumbo era prejudicial à saúde pública para não ver cair o lucro; e que, depois de essa descoberta ter-se tornado pública, a gasolina americana tenha reduzido gradativamente até zero seu teor de chumbo, mas a brasileira não, por razões de lucro (com todas as implicações de acumulação de capital e de reafirmação de poderes imperialistas), é algo que expõe a que graus de irracionalidade e de desumanidade pode chegar uma organização social que se submeta à exclusiva força da grana. Sou contra.

Mas não quero que os que lutam contra isso possam ganhar poderes autocráticos. Uma revolução feita a partir da originalidade benigna de um Brasil de sonho deveria não precisar ser sangrenta e poderia, de qualquer modo, orientar os serviços que alguém queira prestar à Justiça de um jeito diferente daquele que tem sido desenvolvido pelos movimentos revolucionários da esquerda convencional.

Estes têm levado à autocracia e a Estados policiais. Sou contra.

Além disso, quando se diz “capitalismo” o que é mesmo que se está querendo dizer? O capítulo sobre o conceito no livro de Mangabeira é instigante. E Lacan disse uma vez que “o inconsciente é capitalista”.

Schwarz critica o “amor aos homens da ditadura” expresso por Gilberto Gil ao tomar ayahuasca e comenta os seus elogios à letra de “Aquele Abraço”: “A lição aplicada pelos militares havia surtido efeito”. Como vê essa avaliação severa?

Esse parágrafo de Schwarz é cruel e tolo. A prisão me pôs mais profundamente em inimizade com o projeto dos militares de direita que tomaram o Brasil. A descrição dos solavancos por que passamos não poderia ser desinfetada para agradar aos revolucionários de gabinete. Sou muito franco e apaixonado pela clareza e pela luz.

Gosto mais do esclarecimento do que da Dialética do Esclarecimento, que tanto obscurece. (Aliás, desconfio dessa escolha da palavra “esclarecimento” em lugar de “Iluminismo”.)

A lição aplicada pelos militares surtiu efeito em mim: me fez mais realista, mais conhecedor dos pesos concretos da vida. Foi sob a ditadura, sobretudo na prisão, que aprendi a odiar o odiável em nossa sociedade.

Para o ensaísta, há uma discrepância entre as visões de “Verdade Tropical” sobre o Brasil pré-64: ora é descrito como um “ascenso socializante”, com sua experiência em Santo Amaro e em Salvador, ora como “um período incubador de intolerância e ameaça à liberdade”. Você enxerga essa discrepância?

Eu poderia ter sido um garoto de esquerda, sem desconfianças a respeito sequer do stalinismo. Mas não fui. Me atraiu o livro de Luís Carlos Maciel sobre Beckett, Kafka e Ionesco: a esquerda que eu conhecia era lukacsiana e ninguém falava em Adorno em 1963 em Salvador (embora se falasse muito em Gramsci, o que era pioneiro).

Poderia ter sido um garoto assim e, depois, descoberto que nos países comunistas (não só na URSS e seus satélites, mas na China de Mao, em Cuba, na Coreia do Norte) o Estado desrespeitava oficialmente os mais básicos direitos humanos -e ter me revoltado contra o projeto comunista.

Mas eu era um garoto desconfiado da “ditadura do proletariado”, além de ser um sujeito pacato da baixa classe média que sentia natural horror pelo aspecto violento das revoluções.

Descobrir que a experiência do “socialismo real” era de fazer temer os esboços de implantação do comunismo entre nós não foi uma surpresa assustadora. Foi um gradual reconhecimento da complexidade das coisas. Isso aparece em meu livro com todas as idas e vindas por que minha mente passou. Com as nuances e sem evitar as questões que não ficaram resolvidas dentro de mim.

Não é um livro de propaganda ideológica. É um relato em que as reflexões relembradas -ou as sugeridas pela lembrança- acompanham cada passo.

Você se reconhece na descrição que o crítico faz de seu “traço de personalidade muito à vontade no atrito mas avesso ao antagonismo”?

Gosto de atrito. É a base do sexo. Mas não rejeito o antagonismo.

Sou nitidamente contra o Brasil ter devolvido os atletas cubanos. Sou nitidamente contra o manifesto dos militares reformados. Sou nitidamente contra Lula ter apoiado a eleição de Ahmadinejad antes de o próprio Irã decidir se as eleições tinham sido fraudadas ou não.