memórias de tempos vividos! superando o que-já-se-efetivou com a Esperança do que-ainda-não-veio-a-ser ( reflexões ao estilo Ernesth Bloch)

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Ensaios sobre cinema

Reflexões sobre a Melancolia -Arlindenor Pedro

Refletir, pensar , saber o por quê : eis aí uma das características marcantes dos seres humanos – características próprias que se acentuam em alguns, noutros menos.

Sentir, provar, viver intensamente o que se apresenta, eis também aí uma outra característica, que também se acentua em uns, em outros não tanto.

Ser melancólico e saber o que é melancolia, creio, sempre acompanhou o homem em sua tragetória pela terra. Melancolia, então, tornou- se um grande enigma : por uns vivido, por outros pretensamente desvendado .

Embora presente em todas as culturas foi entre os gregos da antiguidade que se destacou a sua racionalização, ou seja, a real compreensão do que poderia ser.

Enigma presente para muitos pensadores da época foi em Aristoteles que conseguimos ter uma sistematizacão para ela, que chegou até nós após ter influenciado várias sociedades.Ele faz então uma clara associação da melancolia à criatividade!



“Por que razão todos os que foram homens de exceção, no que concerne à filosofia, à ciência do Estado, à poesia ou às artes, são manifestamente melancólicos, e alguns a ponto de serem tomados por males dos quais a bile negra é a origem (…)?” (Aristóteles, O Problema XXX, 953 a, 10).

Talvez guiados por tal pergunta , artistas procuraram retratar tal comportamento , cientistas em buscar suas causas, e naturalmente, melancólicos em vivê-la na sua intensidade, como na Renascenca e no Romantismo , onde era a ” doença bem-vinda ” pois enriquecia a alma.

Certamente, a gravura ‘Mellancolia de Albrecht Durer produzida neste período , seja a obra mais conhecida sobre o tema, atravessando os tempos e nos colocando frente à frente com tal enigma.

No nascimento da era industrial, através de Freud  com seu texto “Luto e Melancolia” parece que nos aproximamos mais do momento de desvenda- la . Para Freud, a melancolia é um estado emocional semelhante ao processo de luto ( semelhante, e não igual) pois não há a perda que o caracteriza. A melancolia pode ocorrer sem haver uma causa definida ( sic).

Mas na sociedade moderna, principalmente nos dias da contemporaneidade, constatamos que a melancolia não é mais bem-vinda, pois se choca com o espírito endonista necessário a um “bem-viver” e de uma padronização normótica.

No início do século XX, Edward Bernays, sobrinho de Freud que vivia nos Estados Unidos, apropriou-se dos estudos do renomado cientista, que via no interior da mente humana áreas ainda não conhecidas, a que chamou de inconsciente ,   onde existiriam forças que moldavam o seu  comportamento.  Observou, então, que essas forças podiam ser controladas e desenvolveu através de técnicas da psicanálise e de conselhos de seu tio, mecanismos que pudessem induzir ao consumo de bens, mesmo fora das reais necessidades do pretenso consumidor .

Em Bernays vemos a gênese do que foram as técnicas de propaganda e controle da mente que resultaram para humanidade tanto as grandes ações de propaganda do nazi-fascismo e do “socialismo real” da terceira internacional  quanto as campanhas de massa do agressivo capitalismo americano: aquilo que Guy Debord chamou de “espetáculo concentrado”, contidas nas sociedades totalitárias e no “espetáculo difuso das sociedades ditas democráticas ( in, “A Sociedade do Espetáculo “).

Após apropriar-se da força de trabalho do homem o capital parte então , através das técnicas de propaganda ( da qual E.Bernays é pioneiro) para o contrôle e manipulação do que poderia ser seus gostos, sentimentos, desejos …enfim: a sua alma.

É por demais conhecido o estudo de caso da campanha de marketing criada por Bernays no início do século passado, que levou as mulheres americanas ao hábito de fumar em público (coisa até então inimaginável ) .

Ocorre que a melancolia se apresenta como necessária de ser controlada , por todos os meios disponíveis criados pela psicologia, psicanálise e psiquiatria.

No mundo racional, onde tudo é previsível, a melancolia não tem lugar. Tem que ser substituída por atitudes onde todos julguem que têm o contrôle.As emoções serão então contidas dando lugar à relações humanas totalmente reificadas.

Mas será que este controle se dá na sua totalidade? Ou, deve a humanidade reagir a tal desígnio traçada por um sistema sem sujeitos? Mais ainda: a melancolia deve ser extirpada e tratada como uma doença hostil ao homem?

Na ação concreta da obra de arte o artista exercita claramente a sua liberdade livrando- se das amarras a ele imposta . A obra que apresenta ao mundo, e que a partir dai não mais lhe pertencerá, torna-se um instrumento de libertação, onde cada um fará de acordo com seu senso estético, suas considerações . Tocar a sensibilidade , chegar até a alma , eis aí o caminho do artista.

No seu filme Melancolia, o cineasta dinamarquês Lars Von Trier nos coloca diante da temática da euforia e do sofrimento através de um filme onde não existe saída, e onde o final não é feliz. Tenta desta forma tocar a nossa alma com um tema onde no passado debruçaram-se tantos pensadores .

Trata-se de um filme cheio de simbolismos de uma atmosfera onde o espectador escolherá qual a melhor identificação com seus personagens, numa situação limite de um fim próximo – não de um ser individualmente, mas da totalidade do mundo onde vivemos, com suas cidades, florestas, animais, etc.

Vemos então o embate entre os diversos personagens , com suas posturas perante o mundo, porém destacando – se a relação entre duas irmãs  com visões diametralmente opostas perante a vida e também perante ao fim que se aproxima.

Para horror de muitos Von Trier nos faz refletir sobre a morte ( no sentido da extinção da espécie ) e do sofrimento, que tanto queremos afastar de nós. Apresenta-nos um planeta com uma trajetória de colisão pré  determinada , sem possibilidades de mudanças : o que fazer em um momento que não há nada a fazer ?

Ao desespero de sua irmã perante tal questão Justine , a personagem afetada pela melancolia , vê como perfeitamente lógico o desfechar trágico de suas vidas. Como se fosse o esperado : afinal, isto não fará nenhuma importância no Universo!

Trazendo este tema para a nossa reflexão , Von Trier nos mostra a sensibilidade e o desajuste com o mundo real dos melancólicos. E ao mesmo tempo a necessidade do equilíbrio entre a razão e o sentimento , em mundo racional onde o deus Apólo  reina absoluto afastando os sentimentos dionisíacos da humanidade .

Talvez não estejam errados os que veem no planeta que aparece no filme , que chamam Melancolia, e que irá se chocar com a Terra, uma alusão aos perigos que rodam a nossa e outras espécies em um mundo erigido pelo capitalismo  com sua devastação ambiental. Salta aos olhos de todos que o planeta está em perigo ! E nesse sentido, os melancólicos são mais conhecedores do perigo que corremos . Por flertarem sempre com os limites ( coisas que os ditos normais procuram se afastar ) compreendem melhor o medo, tão constante nos dias de hoje .

Não restam dúvidas que o homem contemporâneo aprisionado por um sistema que não o permite ver a totalidade do mundo em que vive tornou-se limitado e regrediu na sua capacidade de observar e sentir a realidade. Muito,  por ter combatido e afastado a melancolia da sua existência  tornou pobre a sua alma. Ao contrário do homem da renascença e do romantismo , este um ser mais completo por não temer esta forma de ser e o medo contido na existência. Afinal, para ele a melancolia era um doença bem-vinda, pois sua tristeza enriquecia a alma!.



Serra da Mantiqueira, 6 de novembro de 2013

Arlindenor Pedro

O mundo global visto do lado de cá – Milton Santos por Silvio Tendler




 

Um pensador à frente do seu tempo,

Milton Santos foi um geógrafo brasileiro, considerado por muitos como o maior pensador da história da Geografia no Brasil e um dos maiores do mundo. Destacou-se por escrever e abordar sobre inúmeros temas, como a epistemologia da Geografia, a globalização, o espaço urbano, entre outros.

Conquistou, em 1994, o Prêmio Vautrin Lud, o Nobel de Geografia, sendo o único brasileiro a conquistar esse prêmio e o único geógrafo fora do mundo Anglo-Saxão a realizar tal feito. Além dessa premiação, destaca-se também o prêmio Jabuti de 1997 para o melhor livro de ciências humanas, com “A Natureza do Espaço”. Foi professor da Universidade de São Paulo, mas lecionou também em inúmeros países, com destaque para a França.

A obra de Milton Santos caracterizou-se por apresentar um posicionamento crítico ao sistema capitalista e aos pressupostos teóricos predominantes na ciência geográfica de seu tempo. Em seu livro “Por uma Geografia Nova”, em linhas gerais, o autor criticou a corrente de pensamento Nova Geografia, marcada pela predominância do pensamento neopositivista e da utilização de técnicas estatísticas.

Diante desse pensamento, propôs – fazendo eco a outros pensadores de seu tempo – a concretização de uma “Geografia Nova”, marcada pela crítica ao poder e pela predominância do pensamento marxista. Nessa obra, defendia também o caráter social do espaço, que deveria ser o principal enfoque do geógrafo.

Um dos conceitos mais difundidos e explorados por esse geógrafo foi a noção de “meio técnico-científico informacional”, que seria a transformação do espaço natural realizada pelo homem através do uso das técnicas, que difundiram graças ao processo de globalização e a propagação de novas tecnologias.

Sobre a globalização, Milton Santos era um de seus críticos mais ferrenhos. Em uma de suas mais célebres frases, ele afirmava que “Essa globalização não vai durar. Primeiro, ela não é a única possível. Segundo, não vai durar como está porque como está é monstruosa, perversa. Não vai durar porque não tem finalidade”.

Em uma das suas obras mais difundidas pelo mundo – Por uma outra globalização –, muito lida por “não geógrafos”, Milton Santos dividiu o mundo em “globalização como fábula” (como ela nos é contada), “globalização como perversidade” (como ela realmente acontece) e “globalização como possibilidade”, explorando a ideia de uma outra globalização.

Além disso, o geógrafo proporcionou uma fecunda análise a respeito do território brasileiro, abordando as suas principais características e inserindo a produção do espaço no Brasil sob a lógica da Globalização. Nessa obra, de mais de 500 páginas, propôs, inclusive, uma nova regionalização do Brasil, dividido em quatro grandes regiões.

Milton Santos faleceu em 24 de junho de 2001, vítima de complicações proporcionadas por um câncer, aos 75 anos. Deixou uma vasta obra, com dezenas de livros e uma infinidade de textos, artigos e capítulos. Seu pensamento ainda é considerado atual e muitas das críticas dos movimentos antiglobalização fundamentam-se em suas ideias.


Nos anos finais do século XX , de repente o brasileiro percebeu que o mundo está globalizado.

Com as mudanças nas leis de telecomunicação, com as privatizações em várias áreas de infra-estrutura , um mundo que ficava distante chega ao dia-a-dia de todos. As antenas parabólicas, os celulares, o fim da reserva na área da informática, a chegada de grande montadoras e redes de super mercado muda substancialmente os hábito de consumo dos brasileiros. A palavra globalização passa a fazer parte do vocabulário nacional. Mesmo os acontecimentos internacionais, como o fim da União Soviética, a queda do Muro de Berlim, o redesenho internacional com uma nova OTAN e Mercado Comum Europeu são novas questões que deixam muitos perplexos.

Um dos poucos intelectuais que entendeu perfeitamente o o que acontecia e as suas consequências para o povo brasileiro foi o geógrafo Milton Santos, um dos grandes pensadores marxistas , perseguido pela ditadura militar por suas opiniões sobre a nossa cultura, economia e política, sempre advogando a construção de um pais independente e dirigido pelo povo.

Silvio Tendler , arguto e buscando nas suas obras contar e mostrar a realidade brasileira entendeu a importância deste intelectual e numa obra primorosa fez um dos mais importantes documentários sobre a globalização, dentro da ótica dos povos periféricos, que tornou- se um clássico da filmografia brasileira. Milton Santos muito cedo nos deixou mas sua voz está presente e muito atual.Talvez por isto este seja um dos documentários mais discutidos nas comunidades em todo o Brasil pelos que buscam entender o que é afinal esta tal de globalização.

Vejam o filme e reflitam !

Arlindenor Pedro




 




 

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