Todos os posts de arlindenor pedro

Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .

Karl Marx e o Cinema Alemão – Arlindenor Pedro


Separei este último final de semana para assistir em DVD a obra de Alexandre Kluge, que no Brasil tomou o nome de “Noticias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein e o Capital”.

Em mais de oito horas de duração, distribuídos em 3 DVDs , esta obra do genial diretor alemão, realizada em 2008, no auge da crise financeira mundial, nos faz mergulhar no universo criativo do diretor russo Serguei Eisenstein, do Encouraçado Potemkin, e as ideias de um dos mais importantes pensadores da humanidade: Karl Marx, articulando-as com a realidade do mundo moderno.

Uma bela iniciativa da distribuidora Versátil, em parceria com o Instituto de Tecnologia Social (ITS), o Goethe-Institut São Paulo e o SESC. Obra original, um documentário com expressivas inovações estéticas, que merece ser vista e comentada.

Tudo parte da idéia que teve Eisenstein de, após terminar as filmagens de “Outubro”, lançar-se na aventura de filmar a maior obra de Marx: O Capital. À partir da leitura que ele, Eisenstein, tinha feito de Ulisses, de James Joyce, e dos reflexos da quebra da Bolsa de Nova York, em1929, queria mostrar, a exemplo do personagem de Joyce, em apenas um dia, todos os meandros do sistema capitalista – sua engrenagem avassaladora.

E uma das suas notas, encontradas após a sua morte, dá a dimensão da tarefa a que se propôs: – “A decisão está tomada: irei filmar O Capital, segundo roteiro de K.Marx-esta é a única saída possível”.

E é aí que a filme de Alexandre Kluge se torna interessante, pois reunindo uma série de pensadores, poetas, escritores, atores, maestros, e conhecedores, tanto da obra, de Eisenstein, Joyce e Marx, quanto das principais questões levantadas por Marx na sua obra principal: “O Capital”, faz um exercício, imaginando como seria o filme do cineasta russo que, como todos sabem, não foi realizado.

Aparece-nos, então, um Marx diferente do que é usualmente mostrado, sem os conceitos reducionistas do marxismo positivista que imperou durante todo o século passado.

Sua obra toma uma dimensão grandiosa, com um pensador abrindo o caminho para o entendimento do capitalismo na sua mais completa forma existencial, o que nos dias de hoje podemos entender claramente.

Através do relato e do debate com convidados, o filme nos mostra o mundo da mercadoria, suas transformações no modo de produção capitalista que abriu para ela o grande teatro da existência, nos dando elementos de entendimento do mundo do mercado globalizado da sociedade contemporânea e o império do fetiche, que nos encanta num mundo desencantado.

Através de uma estética peculiar, o filme desfila o pensamento de alemães, tais como o filosofo Peter Sloterdijk, o escritor Hans Magnus Enzensberger, o poeta Durs Grubein, o cineasta Tom Tykwer, e muitos outros intelectuais e artistas. Em alguns momentos, parece que estamos dentro de um outro filme, pequenos curtas, entrelaçados no mesmo objetivo: as ideias contidas na obra de Marx.

Muito bem documentado e com imagens impressionantes, conhecemos algumas curiosidades como, por exemplo, saber que o túmulo de Marx, visitado por todos no cemitério de Highgate, em Londres, na verdade é apenas um monumento, feito pelos soviéticos em homenagem ao grande escritor alemão, pois na verdade o seu corpo está depositado na parte judia do cemitério, em um lugar modesto, abandonado e mal cuidado-longe do público.

Outra curiosidade, dentre inúmeras, é saber que em plena crise do debacle financeiro do mundo capitalista em 1929, o Comitê Central da União Soviética tomou a decisão de “comprar” ativos do mundo ocidental, emprestando, inclusive dinheiro aos capitalistas aterrorizados, com obras de arte e riquezas do antigo império tzarista ,com a estratégia de fazê-los devedores do poder soviético, numa situação similar a da China nos dias atuais. Tal empreitada não foi à frente devida à carência de quadros comunistas no ocidente que dominassem a arte da negociação financeira nas grandes praças capitalistas.

Para mim, de todas as questões deixadas pelo filme, inclusive pelos “extras” que são verdadeiros filmes dentro do filme, a exemplo da entrevista com o cineasta francês Jean-Luc Godard, é a constatação de que ele navega nos mesmos mares dos marxistas que não fazem uma leitura de Marx dentro dos cânones do stalinismo e do marxismo oficial que imperou a partir da 3ºInternacional.

Pensamentos e citações de cientistas ligados a Escola de Frankfurt, como Walter Benjamin e também Adorno e Horkheimer com a obra “A Dialética do Esclarecimento”, jogam importante papel na leitura de um Marx que abre caminhos para entender a sociedade da mercadoria em que vivemos.

Ao polemizar, inclusive com o próprio Marx, a respeito de sua conhecida frase de que “a revolução é a locomotiva da historia”, Walter Benjamim diz que ao contrário, “a revolução é o freio de emergência que serve para travar o trem que caminha para a desgraça”.Isto é: ela serve para fazer retornar os acontecimentos à historia.

No caso da Revolução Francesa, e mesmo das guerras napoleônicas, seus lideres tiveram a visão de que o avanço do capitalismo, com mudanças no modo de produção, exigia um novo olhar sobre a sociedade, coisa que os lideres da aristocracia não podiam ter. Desta forma, retomaram o rumo da historia; põem abaixo a sociedade feudal, instaurando um novo regime. -um freio no trem caminhava para o abismo, para crise.

O marxismo, dito oficial, sempre teve uma visão linear da historia, com os modos de produção se sucedendo, sempre em direção ao progresso. Desta forma entendiam o comunismo como o final dos tempos, assim como os milenaristas do 5º Império de Portugal.

É caso de se perguntar: na verdade os movimentos socialistas do século passado não foram os avalizadores da atual mundo contemporâneo, dando uma cara mais “humana” ao capitalismo selvagem dos primeiros tempos, sem regras, com a exploração levada aos limites da vida?

Dentro da sua visão “progressista”, ao importar-se somente com o sistema de produção e o seu domínio sobre os bens de produção, substituindo os capitães do capitalismo pelos capitães industriais do socialismo, não desviaram -se do elemento central que era o mercado e a própria mercadoria, exaustivamente apontado pelo próprio Marx?

Será que não deveríamos voltar a Marx e pensar uma nova sociedade onde a questão central estivesse na erradicação do próprio mercado e da mercadoria como valor de troca, equilibrando-a perante o seu valor de uso?Creio que é esta a principal Utopia que o legado de Marx nos deixa: o reencontro do homem com sua própria história, retirando o elemento que o impede de viver plenamente: o reino da mercadoria.

Um pouco sobre o fetiche da mercadoria…

Serra da Mantiqueira, outubro de 2011

Arlindenor Pedro

O cinema pedagógico de Rossellini- Arlindenor Pedro

20131004-174131.jpg

Os alemães ainda não tinham retirado suas tropas da Itália e mesmo assim Roberto Rossellini filmava pelo país sua obra mais eloquente: Roma, Cidade Aberta.

De forma clandestina, imagens eram geradas para este filme, que deu o primeiro passo para uma das escolas de cinema mais importantes do pós-guerra: o neo realismo italiano. Após anos de uma cinematografia de propaganda da sociedade fascista fez- se, através das obras daqueles cineastas, um contraponto ao seu moralismo positivista, propugnando-se  em mostrar, através da força das imagens e dos roteiros, a realidade nos seus mínimos detalhes, decantando-a, retirando dela o seu glamour, o seu luxo, deixando-a desnuda.

Influenciados pelo realismo poético francês de antes da guerra, que colocara o trabalho dos roteiristas num primeiro plano — evidentemente calcado nas novas características técnicas do cinema, onde o som se mesclava com as imagens – diretores geniais como Rossellini, Luchino Visconti e Vitorio De Sicca criaram verdadeiras obras primas. Alí o realismo casava-se com elementos de ficção, em alguns momentos aproximando-se mesmo do filme documentário, mas, diferentemente dele, desenvolvendo uma obra poética intensa, com atores amadores ou mesmo pessoas do povo interpretando personagens numa performance dramática da força da vida-vivida.

Roma, Cidade Aberta é um clássico e, sem dúvidas, inicia uma escola que até hoje influencia muitas formas de cinema, como, por exemplo, o atual cinema iraniano, tão aclamado pela critica.

Vários movimentos cinematográficos beberam na sua visão estética e na forma de fazer cinema intuitivo, o cinema de autor — o cinema a serviço de uma coletividade- onde poderemos destacar : a junção de populares italianos com o clima opressivo da cidade ocupada; os conflitos dos personagens e suas escolhas perante os problemas que se apresentam ( de viver ou não viver, ou mesmo de como continuar vivendo e convivendo com a traição) ; a questão da entrega da vida no acreditar de uma causa, não importando questões ideológicas, mas puramente no sentimento de liberdade, são elementos próprios da natureza humana, que se repetem no dia a dia, mas certamente são acentuados em períodos de crise, como o da guerra. Isso cativou cineastas posteriores, como na Nouvelle Vague francesa e o Cinema Novo no Brasil.

Rossellini, antes da guerra, tinha filmado para o Estado fascista, mas soube romper com ele após o desencantamento com seu determinismo racionalista que impedia o fluxo da criação.

Tendo participado com outros jovens cineastas, como Visconti, De Sanctis e Antoniani da Revista Cinema, que era dirigida pelo filho do il Duce, Vitorio Mussolini, um amante do cinema, viveu o ambiente inquieto da cultura italiana dos anos 1938 e 40. De certa forma, contribuiu ali para o desmoronamento interno das certezas do regime fascista.

Durante o governo de Mussolini, fez vários filmes, como, por exemplo, Un Pilota Retorna, com roteiro de Michelangelo Antonioni. Já ali desenvolve a sua concepção própria de cinema, ao tratar a guerra não só do ponto de vista do herói militar, e sim como uma situação impar no processo histórico, que envolve a todos — combatentes e não combatentes, crianças, velhos, num drama de natureza abrangente.

Nos anos 60 ele faz uma nova ruptura: corajosamente, no auge de sua carreira, resolve abandonar a própria estrutura cinematográfica, observando que o cinema italiano e europeu tinha se tornado prisioneiro da lógica de mercado, fazendo concessões que implicavam na morte do processo criativo.

Afasta-se do cinema comercial que para ele tinha enveredado pelos caminhos da ficção, concentrada no individuo, na visão do ator como produto comercial de identificação do público e no argumento como base do filme.

Ele via o cinema, assim como outros meios audiovisuais, essencialmente como uma correia de transmissão para suas ideias.E, nesse sentido, os filmes que fazia tinham um componente forte de destruição de todo o sistema tradicional da dramaturgia. Neles, a vida era apresentada como uma longa espera por uma revelação que poderia mudar o rumo dos personagens. A estética servia ao que se queria dizer.

Não se enquadrava, pois, ao vedetismo de fora das lentes, onde os festivais e o luxo dos astros se sobrepunham à própria arte cinematográfica — e que passaram a ser um elemento determinante do cinema italiano e europeu.

Apaixona-se, então pela TV, essa nova mídia que crescera em todo o mundo apoiada essencialmente, até aquele momento, pelo Estado, e não ainda na propriedade privada, falando para milhões de pessoas, e viu nela a oportunidade de desenvolver um novo tipo de cinema.

Para ele, a arte era, antes de tudo, essencialmente um meio de comunicação que para chegar aos seus fins deveria renunciar aos conceitos estéticos da tradição romântica e colocar-se à serviço do homem.

A indústria cinematográfica italiana não iria por esses caminhos. Nem mesmo o cinema em outros países, como o cinema americano, que fez a ele várias propostas, o seduziram. Ele não queria ser aprisionado naquilo que chamava “prisão dourada”! O cinema estava morto! Iria utilizar a TV para suas utopias. Surge então o conceito rosselliniano de cinema didático.

Nesta fase, procura colocar em prática o projeto de educar o público de telespectadores com filmes sobre a história da humanidade, principalmente no seu processo de aprendizagem histórica. Seus filmes mostrarão o conflito central entre a filosofia, religião e ciência. Através desse conflito, mostraria pelas figuras de pensadores que viveram essa problemática — filósofos , artistas, líderes políticos e religiosos — a busca da essência da vida, o significado da existência.

Indubitavelmente, suas maiores obras nessa fase são os filmes que fez para rede de televisão italiana RAI, entre os anos de 1970 e 1973, que ficaram conhecidos como os quatro filósofos: Sócrates, Santo Agostinho, René Descartes e Blaise Pascal, isto é, dois grandes pensadores da Antiguidade e Idade Média e dois grandes pensadores do período moderno ( originalmente o projeto abrangeria também o pensamento de Karl Marx, centrando o roteiro na relação do pensador com seu amigo Friedrich Engels e o trabalhar pela humanidade, mas isto não se concretizou).

Parece-nos que em cada um desses filósofos Rossellini colocou as suas próprias dúvidas existenciais, mas, certamente, Sócrates era o personagem com quem ele mais se identificava, certamente pela influência que teve na formação do pensamento da sociedade ocidental.

Mas, na verdade, sabemos pouco sobre Sócrates, embora exista uma vasta literatura sobre os seus pensamentos.

O que chegou de sua época até nós, veio, principalmente, através dos escritos de Xenofontes, Platão e Aristóteles, dado que Sócrates tinha a postura de não escrever nada do que pensava.

Sabemos que ele fazia a apologia da oratória, embora se contrapusesse aos sofistas. Seu método interrogativo levava à aporia, onde as perguntas eram feitas num processo que conduziam o oponente a um beco sem saída. O episódio do seu julgamento e da sua morte, inclusive, o transformaram em um ícone político na defesa de ideias, sendo esse episódio um dos mais importantes da história, a altura do julgamento de Cristo na Palestina, onde o martírio foi usado como arma contra a intolerância. E é o episódio do julgamento que tem maior destaque no filme sobre Sócrates feito por Rossellini.

Após ter filmado O Messias, com sua interpretação sobre Cristo, Rossellini tinha um projeto de filmes reflexivos sobre a ética e a ciência. Naquela ocasião, ele afirmou que “achava que era possível a ciência e moral caminharem juntas, porque o maior dom da natureza, ou Deus, como cada uma achar melhor, é o nosso cérebro, nossa inteligência, a possibilidade de ser inteligente — temos o instrumento, mas não sabemos usá-lo. Quais são então as possibilidades para o nosso futuro? Uma delas é a mídia. Se ela for usada adequadamente, podemos fazer o nosso tipo de operação.”

Em um momento de crise da sociedade contemporânea, depois dela ter passado pela tentativa de implantação de diversas utopias — tal como o socialismo real da União Soviética e o bloco socialista, do socialismo eugênico da Alemanha nazista, do fascismo italiano e japonês — vemos que todas essas experiências tiveram sua origem no pensamento racional iluminista herdado, em ultima instância, do pensamento socrático-platonico. O conceito da apologia da ciência como última instancia da humanidade prevaleceu em todas elas. E, nesse sentido, a ciência nunca caminhou junta com a ética. E muito menos a mídia, que sempre foi um instrumento dessas sociedades.

A sociedade da mercadoria, erigida pela burguesia liberal, com sua “visão de mundo” do fim da história, levou às ultimas consequências a construção do império da razão onde a existência de um homem com múltiplas facetas, como era a forma de pensar de Rossellini, não tem mais lugar.

Talvez a resposta que deu Alfred Hitchcock, quando da polêmica afirmação de Rossellini — “o cinema está morto” — dizendo que “o cinema de Rossellini é que morreu”, faça mais sentido, pois a lógica de mercado e os conceitos de seu maior ídolo, Sócrates, construíram um mundo onde ele e outros utopistas, como Glauber Rocha, por exemplo, não têm mais lugar, pois a forma como viam a arte tornou-se incompreendida para o público em geral, que vive a “visão de mundo” da sociedade da mercadoria.

Serra da Mantiqueira – Novembro de 2011

Arlindenor Pedro

Trouxemos aqui uma palestra e debate  proferida na Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro que trata, através do filme sobre Socrates de Rossellini,  do famoso julgamento daquele filósofo . Uma excelente oportunidade para melhor conhecermos suas ideias .

 

 

 

Glauber Rocha – Utopia, Cinema e Revolução – Arlindenor Pedro




 

Geralmente, quando ouvimos a palavra utopia logo a associamos ao conhecido conceito de Thomaz Morus que a traduz como uma realidade inalcançável, ou seja: um desejo irrealizável. Foi assim, por exemplo, que F.Engel a definiu, na sua conhecida obra “Do socialismo Utópico ao Socialismo Científico”, traçando uma linha divisória entre os conceitos que ele dizia ingênuos dos socialistas que o precederam e o socialismo científico de Marx.

O pensador húngaro Karl Mannheim, criador da metodologia conhecida como “Sociologia do Conhecimento”, também se ocupou do tema no seu livro “Ideologia e Utopia”, na década de 50, e que teve ampla aceitação na Universidade Brasileira, numa época em que a Universidade ainda discutia os rumos do país.

Ali, de forma diferente de Engels, via a Utopia como uma forma de ser, um comportamento, que estaria em incongruência com uma dada realidade. Poderíamos, então nos referir como utópicas aquelas orientações que, transcendendo a realidade, tendem a se transformar em condutas a abalar, seja parcial ou totalmente, a ordem das coisas que prevalecem no momento.

Desta forma, ele ao limitar o conceito de “utopia” ao tipo de orientação que transcende a realidade e que, ao mesmo tempo, rompe as amarras da ordem existente, passa a estabelecer uma distinção entre o estado de espírito utópico e estado de espírito ideológico, pois este segundo conceito iria se contrapor ao anterior, dado que o ideologia se calca numa situação onde o inconsciente coletivo de certos grupos obscurece a condição real da sociedade ( tanto para ele como para os demais ), lutando para estabilizá-la.

Os grandes líderes, aqueles que fizeram a história, seriam então utópicos por excelência !

20131004-172227.jpg

Poderíamos, portanto, dizer que Glauber Rocha, pelo seu comportamento em relação à sociedade brasileira, e ao cinema, era um ser utópico, estando em incongruência com a realidade que viveu, postando-se como um revolucionário que queria através de sua arte subverter as condições estabelecidas.

E era assim que ele se definia: “sou um revolucionário e uso o cinema para ajudar o povo a fazer as transformações que o Brasil precisa”.

Inquieto e genial, com sua forma de ser. Amado por uma geração, embora incompreendido muitas das vezes, esse baiano de Vitória da Conquista ( sertão nordestino ) no seu curto tempo de vida, pois morreu aos 42 anos, incendiou o cenário cultural e político brasileiro, sendo uma peça-chave do movimento do “Cinema Novo”, deixando-nos obras singulares onde a política e o cinema fundiam-se, com elementos estéticos de vanguarda e com o claro objetivo de alterar a ordem social do país.

Admirador de Castro Alves, condoreiro e barroco como ele, apocalíptico e profético, num delírio dionisíaco, levou às últimas conseqüências o seu conceito de arte, entregando sua vida a esse fim, desenvolvendo um cinema poético e revolucionário.

Ela achava que o caminho da felicidade era o viver revolucionário e viveu esse sonho de uma forma acelerada, luminosa e trágica. Dizia que a função do artista é violentar o público com sua arte, e desta forma, não compactuava de forma nenhuma com o cinema como produto industrial.

Embora tenha recebido convites para produzir cinema em grandes mercados, como Hollywood, sempre recusou, pois só fazia filmes onde tivesse o controle absoluto de sua obra.

Uma de suas afirmações, já profetizando o domínio do mercado sobre o cinema era: – “É preciso romper agora, antes que surja na porta de um cinema uma frase mais ao menos assim: hoje em cinemascope e totalmente colorido o magnífico espetáculo de nossa miséria”.

Após a sua morte, consternado, como muito dos seus amigos, o cineasta Silvio Tendler produziu um documentário, que teve o nome de:“Glauber, o filme- labirinto do Brasil”, ainda pouco conhecido, com depoimentos de amigos e companheiros que conviveram mais de perto com Glauber.

Num estilo próprio dos documentários, através de um labirinto que representa o Brasil, ele nos conduz através da obra de Glauber Rocha, tendo as impressionantes imagens do seu enterro no Rio de Janeiro como ponto de referencia ( imagens essas, circundadas por uma trilha sonora de estrema beleza, onde a música de Villa Lobos se destaca).

Interessante é que a obra nos faz lembrar, por sinal, às gravações que Glauber fez no enterro do seu amigo Di Cavalcanti, que resultou em um explosivo documentário, premiado no Festival de Cannes em 1976 e infelizmente ainda não acessível ao público, devido a interdição por iniciativa da família do pintor, que não deu autorização para sua exibição.

Poetas, escritores, políticos, artistas, produtores, amigos em geral, vão desfilando histórias sobre Glauber Rocha, e, num ponto alto do documentário, o cineasta Arnaldo Jabor afirma que: “Glauber não suportaria viver no mundo de hoje, um mundo sem utopias, o mundo de mercadorias, sem grandezas heróicas”.

Mannheim também nos fala nisto no seu livro: para ele o mundo atual, forjado pela burguesia liberal, criou um mundo onde não existem espaços para as utopias, pois as últimas- nacional socialismo; fascismo; comunismo e o socialismo- foram derrotadas pela visão de mundo da burguesia liberal, o mundo da mercadoria.

Vitoriosa, através do mercado globalizado e da revolução tecnológica, que aplicada à produção nos leva a antever, inclusive, um futuro onde o trabalho seja dispensável, a burguesia nos faz viver uma realidade diferente daquela que ainda viveu Glauber: um Brasil que se desencantou e se racionalizou, alterando aquilo lhe era mais caro: o sonho de um povo que foi forjado através de utopias.

Em troca passamos viver em uma sociedade de relações cada vez mais reificadas ,onde tudo se torna descartável e com uma busca incessante por objetos, partindo-se da equação que diz que ter esses objetos é sinônimo da felicidade.

E neste mundo racional, movido pela visão de mundo do capital que chega as suas ultimas fronteiras conquistando a alma do homem contemporâneo, certamente um artista utópico como Glauber e sua arte não poderiam sobreviver.

Talvez venha daí a urgência que tinha em manifestar até o limite a sua arte.

No seu enterro, o psicanalista Helio Peregrino afirmou:-” Glauber era uma vela que se consumia dos dois lados, por isso sua morte prematura ”

Ao analisarmos o conjunto de sua obra: 15 filmes, inúmeros ensaios, romances e peças teatrais, à exemplo de outros artistas geniais, como Vicent Van Gogh, assistimos a tragédia da evolução do seu interior contrapondo-se cada vez mais com a realidade do mundo exterior, principalmente nos seus últimos dias de vida.

O último e incompreendido filme “A Idade da Terra”,que ele considerava a sua obra mais revolucionaria, é um exemplo disso.

Como sempre Silvio Tendler nos brindou com uma bela obra cinematográfica, para ver e refletir.

Serra da Mantiqueira – outubro de 2011

Arlindenor Pedro

 



 

Um dos grandes momentos do documentário foi o discurso de despedida ao Glauber feito por Darcy Ribeiro. Assistam.

 




 

 

O Ponto de Mutação – Arlindenor Pedro

O filme Mindwalk, do diretor Bernt Capra — baseado em O Ponto de Mutação, livro de seu irmão, o físico austríaco Fritjof Capra — é uma excelente oportunidade para quem deseja refletir um pouco mais sobre o mundo em que vivemos, e qual a melhor forma de interpretá-lo.

Quem conhece as ideias de Capra já está acostumado com o seu modo interessante de perceber o mundo e explicar a realidade. Trata-se de um pensamento holístico, que leva ao entendimento de que somos parte de uma teia universal, totalmente interligada, de inseparáveis relações.

Resumidamente, a chamada “Visão Sistêmica”, proposta por Capra, opõe-se à ideia de que, para entender o todo, é preciso fragmentá-lo, indo do particular ao geral. Os sistemas seriam totalidades integradas, e, por isso, temos de pensar em termos de redes, devendo sempre ver as conexões entre as coisas. Deveríamos, pois, pensar em processos, e não em estruturas.

A base de tal forma de pensamento estaria na física subatómica, ou o que conhecemos como física quântica. É a área da física que tomou desenvolvimento com as experiências e descobertas do início do século XX, principalmente à partir de Marx Planck e sua teoria quântica de 1910.

Esquecida durante certo tempo, foi retomada por outras gerações, tais como Werner Heisenberg, polêmico físico-chefe do programa nuclear alemão da II guerra, com sua “Teoria da Incerteza”; o dinamarquês Niels Borh; Otto Hanh, um dos descobridores da fissão nuclear; Erneth Rutherford, descobridor do núcleo do átomo e todos aqueles que, de alguma forma, contrapuseram-se aos princípios da inércia newtoniana.

O Ponto de Mutação, lançado por Capra em 1962, representa um marco no desenvolvimento desta nova forma de olhar mundo, precursora da linha de pensamento denominada Nova Era. Está afinado com as teorias ecológicas do presente século, como a Teoria de Gaia, do inglês James Lovelock.

O filme é uma obra sobre estas ideias, Desenvolve-se ao longo de um roteiro em que os personagens se apresentam com a clara finalidade de expor as teorias de Capra, numa criação cinematográfica que nos lembra os filmes didáticos de Rossellini, na sua fase pós-neo-realismo.

Ele tem Liv Ullmann (a grande atriz dos filmes de Ingmar Bergman) no elenco, como a cientista Sonia Hoffmann ( a personagem é um tipo de alter ego de Fritjof Capra). Os dois outros personagens principais são o político americano Jack Edwards, interpretado por Sam Waterston, e o poeta Thomas Harriman, vivido por John Heard.A atmosfera reflete as grandiosas estruturas góticas do Mont Saint-Michel, abadia medieval situada no lado francês do Canal da Mancha, encravada em um espetacular rochedo, tomado todos os dias pela maré e contra maré, que espraia areais que chegam a 20 quilômetros. Os personagens desenvolvem diálogos longos e densos, acompanhados por uma câmera que alterna suas perguntas e respostas com belos planos-sequências.

Acompanhados por musica, procuram vencer suas incompatibilidades e incompreensões com a contemporaneidade reavaliando suas ideias. Sônia, moradora das cercanias, apresenta, então, a visão sistémica de Capra aos visitantes do rochedo, Jack e a Thomas, e os três discutem, durante uma tarde, política, ecologia, tecnologia e arte.

No livro, Fritjjov Capra constata que a crise que marca a sociedade contemporânea deriva do esgotamento de três grandes elementos que sustentaram a nossa civilização : o esgotamento iminente de todas as fontes não renováveis de energia – petróleo, gás, carvão – e mesmo da água, o que obriga o redesenhar dos mapas estratégicos e induz a guerras por controle territorial. O declínio do sistema patriarcal, que foi a base da construção das sociedades humanas desde a sua fixação que lança a sociedade numa crise de valores e costumes. E, finalmente, a falência dos preceitos oriundos do iluminismo, notadamente da física cartesiana-newtoniana, que não mais podem explicar os fenômenos físicos.

Torna-se necessário, pois, um novo olhar sobre a realidade, capaz de gerar fórmulas que retirem a humanidade desse impasse.E esse olhar tem que ser inovador, fora das concepções em vigor na sociedade contemporânea. Como ele diz: uma mudança de paradigmas!

No filme, o roteiro segue por esses caminhos: em uma cena de forte valor simbólico, os três personagens dirigem-se a um recinto do castelo onde está exposto um relógio medieval. Sônia usa-o como exemplo, para criticar a visão mecanicista da compreensão do todo por meio de sua fragmentação em unidades básicas. Dirigindo-se a Jack, afirma: “Perdoem-me, mas vocês, políticos, dificultam as coisas. As ideias da maioria de vocês, de direita ou de esquerda, parecem-me antiquadas e mecânicas como um relógio. É como se a natureza funcionasse feito um relógio. Vocês a desmontam, reduzem-na a um monte de peças simples e fáceis de entender, analisam-nas e, aí, pensam que entendem o todo”.

Sônia está se referindo ao pensamento de Descartes, à sua visão mecanicista da vida, vendo o universo como um imenso relógio, que precisa apenas, para funcionar, seguir as leis racionais de seu projeto original. Caberia à sociedade, portanto, conhecê-las, interpretá-las e aplicá-las, num eterno processo mecânico. Ela afirma, então, que esse pensamento tornou-se predominante e moldou uma sociedade extremamente racional, onde o todo não é levado em consideração e o que importa é o aqui e o agora. Em dado momento critica, inclusive, o Brasil, por sua postura de desmatamento e extermínio das sociedades indígenas e agrícolas.

Tal visão de mundo confronta-se com a vida de Jack, recém-saído da campanha em que postulou a presidência dos Estados Unidos, e em preparativos para uma reeleição ao Senado.

Embora sabedor da catástrofe que se avizinha, ele não consegue propor novos caminhos para os americanos, pois isto o levaria a perder seus eleitores: nova política de saúde, nova forma de alimentação, postura anti-bélica, política radicalmente ecológica são posturas inaceitáveis! Ele sabe que a Utopia, por muito tempo um elemento determinante na prática política, foi afastada como matriz de comportamento e ação dos atores políticos na América e no mundo.

Na realidade, a política, tal como é apresentada hoje, foi tomada pela economia. Ao invés de ser espaço de grandes confrontos de ideias, sujeita-se aos ditames das relações de mercado, e seus principais protagonistas, os políticos, por força da lógica desta situação, foram reduzidos a meros produtos, para serem consumidos e descartados.

Na outra ponta, também por força desta mesma lógica, os cidadãos-eleitores ficaram reduzidos à figura de consumidores, que escolhem suas preferências de acordo com o que dita o marketing político: a melhor postura, melhor imagem, apelos emocionais, etc.

Desta forma, pouco importaria o conteúdo das mensagens e sim a forma como elas são ditas-transmitidas. O debate passou,então, a ser travado no campo da administração, destacando-se os candidato capazes convencer o eleitor de que são os mais preparados para efetuar choques de gestão na máquina pública.

Ao mesmo tempo, ficou claro que as corporações dominaram o parlamento: as votações invariavelmente se dão em torno dos interesses corporativos, ficando para segundo plano os interesses de segmentos sociais fora desses parâmetros, tais como movimentos de minorias étnicas, em defesa do meio-ambiente, etc.

Poder-se-ia dizer, portanto, que a política tornou-se um negócio, sujeito, como tantos outros, às leis do mercado. Para sobreviver o político teria que incorporar a figura de um personagem, à semelhança dos atores – com a cruel diferença que os atores só o fazem durante a peça, e ele viveria aprisionado por toda a sua vida.

Também Sonia vive o seu problema, desiludida da política e da própria ciência, que tanto ama!

Recentemente, viu suas descobertas no campo da energia laser serem desvirtuadas pelas autoridades militares, que as incorporaram ao projeto bélico “Guerra nas Estrelas”. Sentiu na carne que a ciência é dominada pelos interesses econômicos, políticos e militares, à exemplo do que aconteceu com as descobertas na área do átomo que resultaram na bomba de Hiroxima.

Como o poeta Thomaz – amargurado em um mundo que cada vez menos lê poesias –, ela almeja momentos de reflexão. Quer aproveitar o ambiente de Mont Saint-Michel nas poucas horas possíveis, fora do turbilhão de turistas e do comércio que explora o lugar.

Com a maré – que chega rapidamente aos 15 metros – dominando e cercando a Abadia, os personagens se despedem e voltam à sua vida real, onde o mercado e as relações cada vez mais reificadas entre os homens os empurrarão para o dia a dia.

Os momentos aprazíveis de descobertas que tiveram naquela tarde ficarão então cada vez mais distantes.

Serra da Mantiqueira, novembro de 2011.

Arlindenor Pedro

Assista ao filme e reflita…