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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .

Pesadelo- por Arlindenor Pedro

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Flutuo, pairo no ar. Na leveza de meu corpo danço lentamente no cubículo que ocupo. Passaram-se dias, ou serão apenas horas? Não sei! Há muito que o tempo nada significa para mim. Lá fora ouço o clac-clac- sinal do abrir e fechar da geladeira. Tento voltar ao chão. Inútil, não consigo. Um grande torpor tomou conta de mim. Será a pressão? Mas… minha pressão sempre foi tão boa?! Apalpo-me. Nada sinto. Será que estou inchado? Será que se esqueceram de mim ? Não! Daqui a pouco eu sei que eles virão novamente. Por que demoram tanto? Essa espera me tortura! E esses gritos que não param. Não consigo me acostumar com eles. Não sei se comi. Há tempos que não me alimento. Sinto sede. Acho que isso é bom, meu corpo está reagindo, passo a senti-lo comigo. Dei para ver pássaros, centenas deles. Voam, voam, aos bandos em um imenso céu azul. Fazem grandes algazarras com seus grandes bicos. Abro os olhos. Nada vejo, existe apenas o de sempre… a escuridão, o ruído incessante do exaustor drenado o ar. E o frio, o gelo que tomou meus pés. Lá fora os gritos. Ouço passos. São eles, eu sei que são eles! Quisera acordar do pesadelo.

Presidio Hélio Gomes, dezembro de 1976

Arlindenor Pedro 

Medo – Arlindenor Pedro

De repente abriram a porta da geladeira.

Sinceramente, pensou que era para mais uma sessão de interrogatório. Ele ficava sempre aguardando que viessem busca-lo: o corpo tremia , vinha o pânico. O frio constante que entra através de condutores na geladeira o debilitava : não dormia, começa a ver figuras, imagens…a perda da consciência.

 

Quantos dias estava alí ? Perdera a noção! As vezes pensava que estava em casa. Mas acordava ( acordava?) e só via o escuro. Ficava sentado, agarrando a cabeça, tentando espantar o frio que o consumia.

 

O clarão que vinha da porta aberta só deixou aparecer um braço que balançava insistentemente algo, que aos poucos percebeu ser um cobertor de lã.

 

A voz falou:- toma, cubra-se com esta manta. Pela manhã virei busca-la. Não conte pra ninguém. Anda!…Anda! E, fechou a porta.

 

Cobriu-se mais que rapidamente.. Ah! Que beleza.! Foi a melhor noite da sua vida.

 

Presidio Hélio Gomes, dezembro 1976.
Arlindenor Pedro 

Ode a um amor que virá ou A procura incessante do ideal – por Arlindenor Pedro

Imagem de Igor Morski

Hoje sai novamente a tua procura

Como de outras vezes vaguei sozinho pela
cidade.

Mergulhei na multidão:


olhei os rostos, escutei as vozes.
A todo momento procurava te ver,
reconhecer teu rosto, teu sorriso.

Vã procura!

Será que um dia te encontrarei?

As vezes me surpreendo imaginando tua figura.

Como serás realmente? Serás como imagino?
A cor do bronze, os cabelos do ouro.
A voz da prata ?

Poderás ser para mim tudo o que desejo?
O despertar constante, o ponto de apoio…
o repouso do guerreiro ?

Amanhã sairei novamente pelas ruas.
Mais uma vez andarei, sozinho, pela multidão.
Na busca do ideal verei muitos rostos,
muitos sorrisos.

Como de outras vezes voltarei sozinho,
sem te encontrar.

Poderei até ter cruzado contigo.
Ou pode ser que sempre tenhas estado
comigo.

E eu cego, sem te ver.

Grajaú, 27/11/64

Arlindenor Pedro

O progresso nos faz caminhar para uma vida melhor? – Arlindenor Pedro


Quando coloquei a mão no bolso e vi que o meu Iphone4 não estava mais lá,  e que simplesmente tinha sido pungado, sinceramente: foi como se o mundo tivesse acabado. Nem a música contagiante do Bloco das Carmelitas, que cantava com alegria o que era a dor dos que perderam o Bonde, pode me devolver o bom humor!

 

Definitivamente, o carnaval tinha acabado para mim, naquela tarde, nas calçadas de Sta. Teresa.

 

Como poderia viver sem o meu IPhone de última geração ?(bem que depois eu soube que ele já tinha sido ultrapassado por um bem melhor, o Iphone4S). Como geraria rede WF para o meu IPad2?  Como receberia em tempo real os meus emails?  Tinha agora que ligar para operadora, bloquear o meu chip, bloquear o aparelho e voltar a ser um simples mortal: um sem Iphone. E refleti: como eu me tornei dependente dessa maquininha de comunicação da era digital?

 

Como todos, algumas semanas atrás, tinha tomado ciência e ficado consternado pela morte do fundador da Apple, Steven Jobs, após uma longa luta contra o câncer. Tratava-se, sem dúvidas, pensava eu,  de um personagem importante da minha geração – a geração pós-guerra – e um dos pilares da 3º Revolução Industrial,  a revolução digital,  que preparou o mundo para uma nova forma de ser e viver . Um mundo de bits e bytes: a chamada Era do Conhecimento, que veio a substituir a Era Industrial, dentro do modo de produção capitalista.

 

A morte sempre é um assunto delicado para todos os seres humanos, e, existem muitas pessoas que não entendem como ela ainda pode  acontecer dentro de um quadro com tantos avanços tecnológicos e, segundo eles, com a total submissão da natureza. E isto se deu também com Steven Jobs, que lutou com garras e energias para que a morte não chegasse.

 

Steven Jobs, assim como Bill Gates,  Mark Zuckerberg, Sergey Brin, Larry Page, e outros, fazem parte da galeria de jovens que ao seu tempo deflagraram atitudes para o estabelecimento de uma Nova Era.

 

Enquanto nas ruas havia um processo de mudança de comportamentos – a revolução dos anos sessenta, nas garagens, eles promoviam uma outra revolução – a revolução do computador pessoal. Eles estão para o mundo digital assim como Henri Ford, Henri Fayol e Frederick Taylor estão para era industrial, do século passado.

 

Na verdade, esta relação conflituosa do homem com a morte faz parte da história humana e sempre ocupou a mente dos mais importantes filósofos, desde os profundos confins das “calendas gregas”.

 

Acredito, como alguns deles, que isto faz parte da intrincada relação entre os deuses Dionísio e Apolo, que na Grécia primitiva estavam em equilíbrio. Mas, notadamente após Sócrates, Platão e Aristóteles, pendeu para a construção de um mundo que se transformou no “império da razão”, com o predomínio dos conceitos apolíneos.

 

Desprezo interpretações simplistas acerca dos efeitos maléficos da chamada revolução digital. Não a menosprezo, e sou um entusiasta dos benefícios dos avanços científicos para humanidade, e suponho seja por isso que gostava tanto do meu falecido IPhone4. Portanto, não me comporto como os operários do início  da revolução industrial que quebravam as máquinas, pois as julgavam causadoras da onda de desemprego que o capitalismo criou nos seus primórdios.

 

Mas, em momento algum me oriento para o conceito de que está no domínio absoluto da ciência a panacéia da libertação do homem sobre o seu maior predador – o próprio homem.

 

A vida mostra que isto não é verdade. Pelo contrário! O “esclarecimento” visto aqui como o Iluminismo, não libertou o homem com as luzes do seu conhecimento, como pensava Platão, afastando-o daquilo que o impedia de ver a realidade. Na verdade, apenas substituiu o deus, das religiões primitivas e da Idade Média, para um outro deus, onipotente e infalível – a ciência.

 

Foi criando, então, um mundo mais desigual ainda; mais automatizado, onde todos são meramente consumidores e onde o próprio trabalho, entendido aqui, como o trabalho abstrato, formado no mundo erigido pela burguesia liberal,essência até então da relação entre os possuidores e os despossuidos, abre espaço para uma nova lógica produtiva.

 

Nessa nova logica produtiva, onde assistimos ao casamento entre ciência, tecnologia avançada e grandes investimentos, podemos antever um futuro, um futuro muito próximo, em que este trabalho abstrato será desnecessário, lançando a humanidade em um era de trevas sem precedentes. Como diria o filósofo Roberto Schwarz, comentando o livro do pensador alemão Robert Kurz, ” O colapso da modernização “:

” a mão de obra barata e semiforçada com base na qual o Brasil ou a União Soviética contavam desenvolver uma indústria moderna ficou sem relevância e não terá comprador.Depois de lutar contra a exploração capitalista, os trabalhadores deverão se debater contra a falta dela, que pode não ser melhor.b,Ironicamente a exaltação socialista do herói proletário e do trabalho consagrava um genero de esforço históricamente já obsoleto, de qualidade inferior e pouco vendável, superado pelo capital e não pela revolução.” ( Roberto Schwarz, em artigo na Folha de São Paulo)

Esse conhecido axima da obra de Adorno e Max Horkheimer, “A dialética do Esclarecimento”, resume bem tal situação:


“Num sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar o homem do medo e investi-lo na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal”.


Pergunto, então: por que, dispondo o homem de um conjunto monumental de conhecimento técnico, de instrumentos científicos fantásticos, mantém um mundo desigual, famélico, miserável, instável e sem perspectiva de futuro?

 

Sei que se torna difícil argumentar em um plano de intensas paixões, onde a mídia, que está sempre criando heróis para o consumo midiático, nos embaça os sentidos e nos afasta da realidade.

 

Mas temos que ver a Apple, Windows, Facebook, Google, IBM, etc., todos dentro da lógica do mercado e da necessidade que tem o capitalismo em tentar racionalizar cada vez mais o processo produtivo de mercadorias.Nada de novo sob o sol. Trata-se de ferramentas utilíssimas dentro do quadro capitalista. Servem para o bem ou para o mal (detesto esta comparação maniqueísta, mas… vamos lá!). Torna-se imprescindível, então, saber quem está no controle.

 

E na verdade, todos nós sabemos que os avanços científicos não se têm voltado para o bem estar da humanidade, mas para a perfeição dos instrumentos, que se não surgir uma outra lógica, irão nos levar, como já está levando, à barbárie.

 

Não tem sentido a visão de “progresso” visto apenas dentro do quadro dos avanços científicos.

 

Foi esse “canto de sereia” que seduziu os lideres das Utopias modernas tais como o chamado “socialismo real” da U. Soviética, da Alemanha do Nacional Socialismo e da Itália Fascista, e hoje enche os ouvidos da China oriunda do Maoísmo. Em ultima instancia, diria Guy Debord: tudo acaba se sujeitando ao Império da Mercadoria. Acabam todos reduzidos a animais na busca da felicidade através do consumo desenfreados de bens de consumo, a exemplo das guerras de facções do tráfico no Rio de Janeiro ou nas explosões de ruas dos jovens excluídos, nos guetos de Londres ou Paris.

 

Steven Jobs não cursou até o fim a Universidade. Nesse sentido seguiu um caminho semelhante ao do nosso presidente Lula, que também não precisou de um diploma para obter êxitos na política. Ambos deram maior valor ao espírito intuitivo, que os levou, em suas áreas, à vanguarda de ações práticas.

 

Mas, em determinado momento de suas vidas públlica renderam-se à Coruja Ateniense, recebendo comendas nas grandes catedrais do conhecimento- as Universidades, que na verdade costumam ser as avalistas das trajetórias dos grandes personagens da sociedade em que vivemos. Homenagens àqueles que contribuíram para um chamado “mundo melhor”, segundo a sua perspectiva, fazendo hoje o mesmo papel que o Papa fazia, ou mesmo os reis com suas comendas, nas sociedades passadas.

 

Para melhor conhecer esses personagens sugiro que procurem o filme “Piratas do Vale do Silício”em alguma locadora.

 

Piratas do Vale do Silício] é um filme feito para a televisão, pela TNT, escrito e dirigido por Martyn Burke. Baseado no livro Fire in the Valley: The Making of The Personal Computer, de Paul Freiberger e Michael Swaine, o filme oferece uma versão dramatizada do nascimento da era da informática doméstica, desde o primeiro PC, através da histórica rivalidade entre a Apple e seu Macintosh e a Microsoft, indo desde o Altair 8800 da empresa MITS, passando pelo MS-DOS, pelo IBM PC e terminando no Microsoft Windos.

 

Trata-se de um filme interessante, onde veremos que a logica que impulsionou aqueles jovens está inteiramente calcada no casamento entre ciência,capital e tecnologia , que é o fundamento da sociedade de mercado contemporânea

 

Não está na concepção “progressista” a formula do desenvolvimento da humanidade, que assiste perplexa a volta de atitudes totalmente inumanas com o uso de tecnologias de ponta. Fico aqui com as palavras do filósofo:

 

“A humanidade não representa um desenvolvimento rumo ao melhor ou ao mais forte ou ao mais elevado tal como hoje se acredita. O “progresso” é meramente uma idéia moderna, ou seja, uma idéia errônea. O valor do europeu de hoje fica muito abaixo do europeu da Renascença; não há qualquer relação necessária entre evolução e elevação, intensificação, fortalecimento ( F.Nietzche )


Serra da Mantiqueira, novembro de 2011
Arlindenor Pedro


Tempos Modernos- Uma crítica à Sociedade Industrial – Arlindenor Pedro

Ao meu amigo Eduardo Teixeira ( Dudu )

Quando o filme Tempos Modernos chegou às telas, em 1936, o mundo já convivia com o cinema sonoro há quase 10 anos. Durante todo esse tempo, o “vagabundo”, personagem que conhecemos como Carlitos, criado por Charlie Chaplin — que compartilhou nas primeiras décadas do século XX o infortúnio dos desvalidos, que viam nele uma identificação com suas geniais performances –   ficou  sem aparecer nos cinemas.

No intervalo do seu último filme, Luzes da Cidade e o lançamento de Tempos Modernos, Chaplin amadureceu a ideia de que o “vagabundo” não iria transitar no mundo do cinema sonoro. Decidiu, então, que Tempos Modernos seria o último filme do personagem.

O mundo tinha mudado muito nessa época, já se vivia a tensão de uma nova guerra que estava por vir !

Em 1931, Chaplin tinha feito uma turnê pela Europa e viu que os males que afligiam a economia americana — a recessão e o desemprego — estavam presentes em todo lugar. Viu, também, que os capitalistas europeus, à  exemplo dos americanos, buscavam superar a crise através de alterações no processo produtivo, adaptando-se aos novos tempos, racionalizando cada vez mais a produção. Os conceitos de Henri Fayol e Frederick Taylor, de racionalizar as operações de trabalho , levariam a um considerável ganho de produtividade, reduzindo o custo unitário dos produtos e ampliando a margem de lucro através de implementos que tiveram seu ápice com a linha de montagem fordista. Isso encantava os empresários. A aplicação dessas ideias resultou no desemprego de milhões de pessoas, contribuindo para acelerar o confronto dos países capitalistas através da guerra. O conflito aliviaria as tensões sociais internas e abriria as portas para novos mercados.

Retornando aos Estados Unidos, vivamente sensibilizado com essas questões, Charlie Chaplin tomou a decisão de fazer um novo filme, onde retrataria esse novo mundo. O cineasta sempre teve uma visão diferente daquela que estava sendo construída pelas elites econômicas da burguesia liberal. Sua Utopia era uma sociedade mais justa, com pleno emprego, sem a violência do Estado, com a felicidade ao alcance de todos, sem o racionalismo científico que tirava do ser humano a sua essência humanista, procurando transformá-lo em máquina. Eram ideias que ele procuraria sintetizar mais tarde, na cena final seu próximo filme, lançado já em plena guerra: O Grande Ditador.

Em Tempos Modernos, Chaplin nos mostra o “vagabundo” — antípoda da sociedade moderna racionalizada — às voltas com a linha de montagem fordista, em um ambiente asséptico, científico, controlado e não menos cruel. Numa cena clássica, vemos o nosso herói ser sugado, literalmente, pelas engrenagens das máquinas industriais, sem condições, portanto, de se adaptar a linha de produção, e por isso mesmo, levado a loucura.

Nesses novos tempos, mais do que nunca, a competição econômica forçaria as empresas a buscarem a eficácia, revolucionando o trabalho, a técnica e os produtos, que adiante voltam a competir e a serem revolucionados, em um processo contínuo e infindável. Noutras palavras: estaria na lógica da produção de mercadorias a obrigatoriedade das empresas a racionalizarem o desenvolvimento das suas forças produtivas.

Isso exige, além da técnica, um operário totalmente adaptado a essa nova forma de produção — o que evidentemente não é o caso do nosso “vagabundo”. Por isso, não é sem sentido que Chaplin começe seu filme com a imagem de um rebanho de carneiros em marcha, saindo de uma fábrica: a indústria precisa de máquinas, sem vontade própria, seguindo os ditames da linha de montagem. Quem não se adaptar perde o emprego!

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Os sindicatos se veem obrigados a afrontar diretamente a situação e através das manifestações e das greves buscam melhores condições de trabalho para seus associados. Nesse contexto, nosso herói acaba sendo envolvido pelo turbilhão dos movimentos grevistas: é preso pelas malhas do Estado e dominado pelas forças da burguesia industrial.

Nesse momento, vemos também, que o próprio Estado mudou !

Racionalizando-se e se adaptando aos novos tempos, exige um comportamento da sociedade dentro de parâmetros legais de uma nova ordem. No filme, houve uma cena  (que mais tarde foi retirada ) onde o “vagabundo” causa a maior confusão por não se adaptar à ordem que todos devem ter para atravessar um sinal de trânsito numa esquina super movimentada, confundindo-se com os semáforos que continuamente dão ordem para seguir ou parar. Perseguido pelo guarda, é obrigado a fugir.

Situações como essa vão se repetindo em diversos momentos do filme: o “vagabundo” e sua amada ( interpretada pela jovem Paulette Goddar )  preocupando-se em passar todo o tempo na busca de trabalho e de uma vida melhor, driblam as dificuldades da pobreza, alternando-se em momentos de liberdade ou prisão.

Tempos Modernos mostra também a racionalização do comércio, fazendo com que o casal passe uma noite em uma loja de departamentos ( precursora dos nossos conhecidos shoppings centers ) onde nossa heroína delicia-se em experimentar casacos de vison, acabando por adormecer em uma cama exposta para venda.

No fim, eles conseguem emprego,  quando alguns empresários, observando a forma natural como Paulette dança em plena rua, oferecem-lhe a oportunidade de se transformar em bailarina; que ela aceita, mas com a condição de que também haja emprego para seu companheiro de ruas. Chaplin transforma-se em cantor e bailarino e, num inusitado desempenho, brinda-nos com um número musical impagável, onde pela primeira vez podemos ouvir a voz do “vagabundo”.

Tempos Modernos não somente é uma obra de arte, como é também a obra prima de Charlie Chaplin. Mostra o seu amadurecimento como cineasta dentro de uma vasta galeria de excelentes filmes. No filme, Chaplin já anuncia os rumos que a humanidade irá tomar após o final da II Grande Guerra, com a hegemonia do American way of life, ou seja, a forma de ser do capitalismo americano, que seria implantado no mundo, garantido pela Pax das suas forças armadas.

Seu roteiro nos toca pela clareza e momentos poéticos, mesmo que o retratado seja a crueldade do sistema capitalista, que reduz os homens a simples máquinas para serem consumidas e descartadas. Seus personagens — principalmente o “vagabundo” e a pequena órfã, de Paulette Goddard — mostram-nos um otimismo tocante, num quadro onde a todo o momento tentam esmagá-los e reduzi-los a nada: são as engrenagens de uma sociedade cruel, que gera riquezas mas, ao mesmo tempo, exclui completamente aqueles que foram os seus geradores.

Porém, eles não se deixam abater e seguem em frente na busca da felicidade a que todos os seres humanos têm direito. Trata-se de um filme otimista, que aponta para um futuro de uma vida diferente.

A música ” Smile “, composta por Charlie Chaplin, nos evolve e nos dá a certeza de que a vida-vivida pode existir, mesmo na adversidade. Não é por acaso que o “vagabundo” de Chaplin é cultuado e amado por todas as gerações no mundo inteiro.

Serra da Mantiqueira,dezembro de 2011

Arlindenor Pedro

O Triunfo da Vontade e o Cinema de Leni Riefenstahl – Arlindenor Pedro

Todos aqueles que hoje assistem ao documentário “O Triunfo da Vontade”,  da cineasta alemã Leni Riefenstahl dificilmente deixarão de refletir sob seus diversos aspectos subjacentes. E esta é a sua força, pois estamos diante de uma obra perene, que não se esgota no processo histórico. Pelo contrário: trata-se de um valioso instrumento de reflexão sobre o nosso tempo — e também de parâmetro para tempos vindouros.

Quando Adolf Hitler pediu à jovem cineasta que dirigisse um documentário sobre o VI Congresso do Partido Nacional-Socialista, na cidade de Nuremberg, entre os dias 4 e 10 de setembro de 1934, esperava uma obra grandiosa, que espelhasse política e esteticamente, para Alemanha e o mundo, as ideias do nazismo. Após terem conquistado o poder político no país era a primeira vez que os nazistas realizavam um Congresso nacional,  e para ele a realização de tal filme tinha uma grande importância .

Na época, Leni Riefenstahl já era uma conhecida e prestigiosa atriz do cinema alemão. Começou sua carreira como bailarina, mas desenvolveu-se como atriz em belos filmes ambientados nos Alpes. Invariavelmente, as películas retratavam a vitória da tenacidade humana sob a adversidade da natureza, destacando-se a força física, a beleza e o caráter do povo alemão nas figuras de montanheses e alpinistas,  e isto veio ao encontro das ideias nazistas.

Talvez tenham sido estas característcias que fizeram com que o próprio Fuhrer, após ser apresentado a Leni por Joseph Goebbels, se encantasse com o talento da cineasta, incumbindo- a  da realização do documentário. Para que pudesse comprir com sua tarefa, Hitler abriu-lhe as portas da estrutura do Estado, a despeito da oposição da maioria da cúpula do partido.

Assim, Leni recebeu todos os recursos necessários. O resultado foi a criação do mais importante documentário de propaganda política de todos os tempos, até hoje admirado pelo seu valor técnico e por trazer até os dias atuais a “visão de mundo” dos alemães no pós-guerra de forma direta, sem a interferência dos conceitos dos seus opositores.

Escolhido pelo próprio Fuhrer, o título nietzschiano, Der Triumph des Willens, busca refletir a tarefa a que se propôs o povo alemão: superar todas as barreiras e levar a cabo a utopia da construção de um mundo nacional socialista. O documentário, como numa obra de grandiosidade wagneriana, supervisionado em todos os detalhes pelo seu idealizador, realça, através de 12 grandes quadros, a relação do povo alemão — ali retratado pelos delegados do VI Congresso — com o depositário de suas esperanças: Adolf Hitler.

Numa narrativa cinematográfica em que não existe texto, as imagens falam por si, através de planos que nos lembram o ápice dos triunfos das legiões romanas, desfilando massas de jovens retratados dentro da estética de fisiocultura grega, rendendo homenagens ao seu líder supremo.

Numa integração entre os hinos nazistas e canções tradicionais, o documentário só quebra o seu impressionante ritmo para que possamos ver e ouvir o desempenho oratório do Fuhrer, em discursos variados, onde formula suas concepções políticas, oriundas da obra máxima do ideário nacional socialista: Mein Kampf (Minha Luta), escrito por ele na prisão, após o fracasso do levante de Munique.

Leni Riefenstahl soube traduzir em linguagem cinematográfica as duas vertentes poderosas que se ocultavam por detrás da imagem de Hitler, e que eram muito eficazes junto ao público alemão: a primeira delas vinha da tradição cristã, que, tanto nos Evangelhos como no Livro do Apocalipse, deposita enormes esperanças na chegada de um salvador, de um messias. Num contexto de miséria e humilhação, o líder nazista se encaixava perfeitamente nesse papel.

A outra vertente advinha do herói da mitologia teutônica, Siegfried, o lendário guerreiro que, acompanhado de mil nibelungos, depois de incríveis aventuras e feitos extraordinários, mata o dragão às margens do Rio Reno, livrando os alemães da desgraça. O Fuhrer era o Partido Nacional-Socialista, ele era a Alemanha: sua tarefa era conduzir o povo. Hitler era invencível como Siegfried ! E somente ele reergueria a Alemanha e levaria os alemães a liderar a reorganização do mundo.Essa era a lógica da propaganda nazista .

Um dos maiores méritos dos documentários de Leni Riefenstahl (ela realizou inúmeros para o terceiro Reich, e dentre eles se destaca Olimpia, que encantou as plateias com as imagens altamente inovadoras dos 11° Jogos Olímpicos, realizados na Alemanha) é trazer até nós, na atualidade, uma narrativa essencialmente nazista sobre a Alemanha. São imagens e discursos feitos pelos próprios lideres nazistas — e não através das lentes e interpretações dos vencedores da II Grande Guerra, que satanizaram o Nacional-Socialismo alemão e seus líderes, passando-nos uma versão superficial e maniqueísta da história, onde o bem venceu o mal.

Assim como o italiano Roberto Rossellini, que trabalhou para o fascismo, e Serguei Eisenstein, com seus filmes para o governo Soviético, Leni, como a maioria do povo alemão, acreditou e viveu uma utopia. Foi presa após a guerra e, embora tenha sido libertada pelos Aliados — pois ficou comprovado que nunca tinha participado das decisões políticas do regime —, até a sua morte, em 2003, sofreu com a discriminação por ter realizado filmes para o Estado nazista

Sua vida e obra nos remetem ao debate e reflexão sobre o papel dos artistas, intelectuais e mesmo cientistas perante as utopias e seus engajamentos ideológicos. Remete-nos também à reflexão do que é Arte e Ciência, e qual o seu papel na história.

É um debate difícil, ainda mais se lembrarmos que, passada a ameaça nazista, tanto EUA quanto URSS não tiveram nenhum pudor em contratar os cientistas alemães que desenvolviam o programa nuclear do Fuhrer. Os pesquisadores receberam a cidadania americana ou soviética e em nenhum momento questionou-se seus papéis junto ao terceiro Reich. Mesmo o conceito do que é bem e mal fica abalado, quando vemos o Estado de Israel patrocinar o mesmo tipo de prática desumana e xenófoba que um dia foi utilizado contra os judeus.

Klaus Mann, filho mais velho de Thomas Mann, escreveu o conhecido romance Mephisto, em que retrata a vida de Gustaf Grundgens, um ator alemão que foi casado com sua irmã, Erika Mann, e que, embora mantivesse estreitas relações com comunistas alemães, permaneceu na Alemanha após a ascensão de Adolf Hitler. Gustaf tornou-se uma referência cultural no país ao interpretar o papel de Mefisto na peça Fausto, de Goethe. Os nazistas gostavam muito da encenação, e o romance de Klaus retrata o lado dúbio do personagem, que, segundo ele, vendeu a alma ao regime. Mephisto se defende e diz que ele é um ator e não poderia viver sem representar.

Tal situação retrata o dilema em que vivem os artistas, intelectuais, cientistas etc. quando estão submetidos a regimes como o nazista e se dão conta que seu trabalho é utilizado pelo Estados Militaristas para fins que não compartilham.

Guy Debord e seus amigos da Internacional Situacionista propugnavam que a arte, desde que exista, passa a não ter mais propriedade e serve a todos os propósitos. Dessa forma, aplicavam a técnica do detournement (colagem) sobre as obras de outros artistas e as montavam dentro de suas obras, muitas vezes mudando completamente o seu sentido, para fins revolucionários.

Vemos, por exemplo, muitos filmes de Debord em que o texto transforma o sentido das imagens extraídas de películas as mais diversas.

Só poderemos então compreender aos filmes de Leni Riefenstahl contextualizando-os dentro do espírito em que foram produzidos, na Alemanha nazista, onde praticamente todos acreditavam na utopia propugnada pelo Fuhrer. Afinal, Hitler chegou ao poder pelo voto da maioria esmagadora do povo alemão.

A serpente saiu do ovo!

Serra da Mantiqueira, dezembro de 2011.

Arlindenor Pedro 

Guy Debord e a Sociedade do Espetáculo – Arlindenor Pedro

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“A Sociedade do Espetáculo”
é um filme que não iremos encontrar facilmente nas locadoras.

Para assistirmos essa obra, ou algumas das outras obras cinematográficas do pensador, poeta, cineasta e ativista político Guy Debord, teremos que nos valer da internet, ou mesmo de cópias feitas por integrantes da imensa legião de admiradores que ele tem em todo mundo. Além de seus filmes, também é difícil ter acesso as suas publicações .  Só recentemente uma editora em Paris resolveu publicar suas obras completas, num volume de 2.000 páginas.

Mas, por incrível que pareça, as suas ideias e mesmo sua militância política encontram cada vez mais ressonância no mundo atual.

Segundo o filosofo alemão Anselm Jappe, autor do livro “Guy Debord”, isto se dá devido ao fato de que sua obra como um todo é inaceitável para aqueles que dominam a mídia em todo o globo. E, quando  são divulgadas, suas ideias são banalizadas , como por exemplo, a voz corrente nos bancos escolares e nos estúdios de televisão, sobre o que é a sociedade do espetáculo.

Recorrendo a Anselm Jappe :

 

“devemos lamentar essa desinformação? Quando li Marx pela primeira vez fiquei surpreendido por não ter ouvido falar dele nas escolas. Quando comecei a entender Marx, isso deixou de me surpreender.”

 

Lembremos que  as teorias de Marx também foram deturpadas, ou reduzidas a uma simples doutrina econômica acerca do empobrecimento pretensamente inevitável do proletariado, para em seguida, por que isto não se deu  plenamente, ser denunciada como uma teoria sem valor.

No caso de Debord, o entendimento de sua teoria vai muito além da constatação de ser ele um expoente das vanguardas artísticas, como os integrantes do seu grupo “A Internacional Situacionista” que queriam superar a própria arte através do “detournement” (desvio), ou mesmo da “teoria da deriva”, que se tornou famosa, inclusive, aplicada nas escolas de urbanismo em todo o mundo.

Detournement seria então, um procedimento utilizado na maioria de suas obras, inclusive na “A Sociedade do Espetáculo”, que consistiria na utilização de imagens retiradas de filmes variados, documentários históricos, spots publicitários, que são compartilhados por textos lidos em off, dentro da concepção de que a arte tem um valor universal, não cabendo a privatização de seus elementos por direitos autorais.

Seus filmes não eram comerciais, e tinham claramente um sentido político. Razão que seu amigo Lebovici, que editou a maior parte de sua obra, antes de ser assassinado misteriosamente, chegou, inclusive, a comprar um pequeno cinema no Quartier Latin, onde durante um tempo seriam exibidos somente filmes de Debord.

Dentre muitas experiências nessa área, inclusive com a realização de filmes sem imagens, destaca-se o último de seus filmes que é : In girum imus nocte et consumimur igni , ( movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo), polídromo latino que pode ser lido da mesma forma, da direita para a esquerda.

Para compreendermos a teoria de Guy Debord precisamos saber, preliminarmente, o que é, de fato, aquilo que chamamos de Sociedade do Conhecimento- conceito que é amplamente aceito para nomearem-se as principais características de um tipo de sociedade que vai emergindo e substituindo a sociedade industrial, que conhecemos até então.

Esta sociedade, fruto da revolução tecnológica que tomou força a partir dos anos 50, tem, grosso modo, como principais características:

1. globalização das economias e dos costumes, moldando um mundo cada vez mais igual, onde é reproduzindo o modus viventis da matriz ideológica – a sociedade americana;

2. rápidas mudanças tecnológicas, fazendo com que o tempo útil da mercadoria seja cada vez menor, acentuando nela o seu valor de troca;

3. desmaterialização das mercadorias, aonde o mercado dos intangíveis vai substituindo o dos tangíveis, fazendo com que a imagem do produto tome o lugar dele próprio, como objeto de consumo;

4. customização dos produtos, onde o consumo é cada vez mais dirigido, criando-se tribos definidas para este fim, além, é claro, da estrema concorrência à nível global.

Mas, o conceito de Sociedade do Conhecimento, por si só, não é suficiente para que possamos ter uma compreensão exata do mundo em que vivemos. Para isto teremos que utilizar outros conceitos, mais específicos e menos abrangentes do que o da Sociedade do Conhecimento.

Ora, tornou-se um lugar comum dizer que uma teoria tem caráter científico quando ela é demonstrável e pode ser aplicada numa realidade universal.

Num caso específico da filosofia, e da forma de se observar a sociedade capitalista contemporânea, parece-me que as idéias desenvolvidas por Debord no livro que denominou “Sociedade do Espetáculo”, e que é relatada através do filme do mesmo nome, podem ser plenamente demonstráveis no mundo contemporâneo: ele nos diz que a mercadoria é o nexo que estrutura a sociedade contemporânea – o mundo do presente-vivido, e me parece que este é um conceito concreto, visível a todos, passível de levarmos em consideração.

Vemos nos tempos atuais o capitalismo completar o seu ciclo final, após ter-se globalizado totalmente, banindo da terra outros modos de produção, que ainda insistiam em sobreviver.

Podemos dizer que ele parte agora para um novo momento- seu momento mais importante, o ápice da sua existência: a conquista das almas de todos os seres humanos.

A idéia é a de uma sociedade em que tudo se torna descartável. A busca por objetos é incessante e parte de uma equação que diz que ter esses objetos é sinônimo de felicidade. O consumo, então, acaba por reger nosso modelo de vida atual, definida pelo excesso de ofertas, demandas vorazes e liquidez destes mesmos objetos.

A atualidade seria, então, marcada por uma “cultura das sensações”, na qual imperaria o culto ao corpo e a beleza e certo hedonismo: tendência a querer obter permanentemente o prazer e evitar o sofrimento.

Desta forma, vemos o capitalismo tornar à todos consumidores, com objetos customizados para todos os gostos, com preços plenamente alcançáveis para aqueles que estão dentro do mercado de consumo, onde o conceito de “ter” que antes tinha substituído completamente o conceito de “ser”, dá lugar ao conceito do “parecer”, isto é: não é mais necessário se possuir um produto se uma cópia perfeita pode me dar a mesma sensação de satisfação, dentro do grupo social que freqüento, pois o que importa é a sensação que aquela mercadoria me dá.

Tal característica do capitalismo dá contas então de um dos maiores problemas estruturais de seu modo de produção, que é a existência constante das crises de superprodução. Globalizando os mercados e transformando a humanidade como um todo num exército de consumidores, o capitalismo abriu mão do trabalho como o elemento determinante da sua existência, através do uso continuado e cada vez mais incessante da tecnologia, notadamente da tecnologia digital, sucessora da tecnologia analógica. A descaracterização do trabalho e a transformação de todos em meros consumidores, eis aí a base de entendimento desta nova sociedade.

Regra geral, a observação das características desse tipo de sociedade foram feitas pelo filósofo francês Guy Debord, na década de 60, influenciando os jovens nas barricadas de Paris e em todo mundo.

Naquela ocasião, ele tornou claro que o espetáculo, adjetivo com que nomeava esta nova característica da sociedade contemporânea, seria o resultado e o projeto do modo de produção existente – que entendo eu ser o modo de produção capitalista- erigido para um novo momento da humanidade, uma a visão de mundo ( weltanschauung) da burguesia liberal que, em última instância, desenvolveu até as ultimas conseqüências os preceitos do mundo esclarecido.

Portanto, o espetáculo seria o elemento mais importante da atual sociedade produtora de mercadorias: como todo intercâmbio entre os indivíduos só se realiza por intermédio das mercadorias, então os indivíduos converter-se-iam em espectadores do movimento autônomo das coisas, tornando-se, inclusive, eles próprios mercadorias.

No espetáculo já não predominaria simplesmente a produção mercantil, mas a imagem. A separação, ou alienação do trabalho, consumada no âmbito da produção capitalista retornaria como falsa unidade no plano da imagem.

O espetáculo seria a autonomização das imagens, doravante contempladas passivamente por indivíduos que já não vivem em primeira pessoa. Ali, a imagem não reflete apenas a mercadoria, como numa banal teoria pseudocrítica do consumo, mas o conjunto da relação social capitalista baseada na separação. Por isso, o espetáculo não seria simplesmente um conjunto de imagens, um abuso do mundo visível, e sim um tipo particular de relação social entre pessoas mediada por imagens.

Tratar-se-ia, evidentemente, das relações de produção capitalistas, radicadas na alienação do trabalho, isto é, na total indiferença da produção em relação à vontade e ás necessidades dos produtores. A contemplação passiva das imagens, que foram escolhidas por outros, substituiria o vivido e próprio poder de determinar o futuro do indivíduo. O espetáculo torna-se o capital concentrado a tal ponto que se transforma ele próprio em imagem.

O espetáculo é, portanto, o capital que esgotou a fase de acumulação primitiva – dissolução dos últimos laços pré-capitalistas que ainda restavam como limites exteriores do capitalismo – e passa a reproduzir essa mesma acumulação como seu elemento interior e incessantemente renovado.

A separação dos homens de suas condições de vida foi estendida agora ao mundo todo e completada, não restando ao capital outra saída senão intensificar esta separação, privando do homem dos seus aspectos mais elementares – seus desejos, afetos, seus sonhos. Isolados, separados num mundo onde não tem mais nenhum papel ativo, sucumbe o homem a uma total dominação, invisível e implacável. Seria o racionalismo pleno de um mundo onde até o sonho é previsível e controlado.

Sou da opinião de que esta forma de observar o mundo, este pensamento de Guy Debord, insere-se na vertente das obras iniciadas, no inicio do século XX com os pensadores da Escola de Frankfurt, ou do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade de Frankfurt ,onde eles fazem a crítica do valor, de forma diferenciada da escola marxista oficial, presente principalmente nos partidos comunistas europeus.

Embora em nenhum momento, Debord, tenha comungado abertamente das teses dessa escola, suas idéias, assim como suas atitudes políticas, nos levam a ver similitudes no pensamento de muitos teóricos daquela escola, que acabam revendo os conceitos gerais elaborados pelo iluminismo, que servem de base para o pensamento ocidental da atualidade, e dão suporte para a sociedade da mercadoria.

Uma das obras mais conhecidas desta Escola e que nos leva a repensar esses conceitos é a “A Dialética do Esclarecimento” de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Editada em 1947, em pleno pós-guerra, transformou-se em importante documento de análise filosófica da história humana, e em particular, sobre os conceitos gerais do iluminismo, que aqui eles chamam de esclarecimento.

O resultado de suas obras levava a um caminho diferente do marxismo oficial, profundamente integrado ao pensamento leninista e mais tarde ao estalinismo, que dominava a maioria dos partidos comunistas do mundo. Seus estudos utilizavam-se tantos dos pressupostos teóricos marxistas como da psicanálise freudiana, integração que irá perpetuar-se ao longo da produção teórica da maior parte dos membros do Instituto.

A Dialética do Esclarecimento é uma obra que tem um inestimável valor, por procurar responder as perguntas freqüentes que assolam o homem contemporâneo: por que após o avanço inquestionável da ciência que deu ao homem condições de superar a maioria dos males que afligem a sua existência, como a fome, a desigualdade, o medo e a exploração do homem pelo homem, ao invés de conduzir-se para um mundo de plena emancipação, dá testemunho do curso de uma nova barbárie?

Os autores, num escrito que desenvolveram propositalmente de forma assistemática, num texto complexo e difícil, nos fazem mergulhar nessa problemática, levando-nos para as origens da civilização: vendo nos mitos e na civilização clássica grega a gênese do esclarecimento, colocando-o como uma forma de libertação que o homem encontrou da natureza.

Deixando de abordar a gênese do esclarecimento à partir do pensamento ilustrado dos filósofos do século XVIII, notadamente dos conceitos de Kant, que criou na modernidade as bases racionais da sociedade em que vivemos, Adorno e Horkheimer partem do axioma de que “o mito já é o esclarecimento e esclarecimento acaba por reverter à mitologia”, e por isto o retornar de aspectos da interpretação da Odisséia de Homero, mormente os relacionados ao drama de tipo prometeico entre autoconservação e sacrifício, que de certa forma aborda a racionalidade humana, presente na civilização moderna.

No estudo dos conflitos dos homens com os deuses e na sua luta pela libertação, e condução de sua história, longe das amarras das forças naturais, subjugando-a aos seus propósitos, o texto nos leva a entender que longe de se tornar livre o homem cria para si um novo senhor, que o aprisiona: a lógica cientifica, a forma racional de ver e se relacionar com a natureza, que o afasta do mundo real.

Querendo ser livre o homem torna-se escravo da técnica e cria um mundo reificado aonde os valores humanos vão desaparecendo. O desencanto do mundo na verdade cria um mundo desumano. Para eles o mito converte-se em esclarecimento, e a natureza em mera objetividade. O preço que os homens pagam pelo aumento do seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem o poder.

Debord também se preocupava com esta questão, isto é, a impossibilidade do homem moderno encontrar sua plena existência num mundo de ampla oferta de mercadorias.

Porém, o pensamento de Debord vai mais além do que os estudos dos filósofos da Escola de Frankfurt, pois o aspecto mais atual do seu pensamento está em interpretar esta situação do homem contemporâneo à luz da critica de Marx ao valor, partindo do estudo da visão marxiana desenvolvida na sua Crítica da Economia Política, colocando em relevo o conceito de fetiche da mercadoria.

Em ultima instância, entendemos o pensamento de Marx como uma constatação e uma critica da redução de toda a vida humana, no capitalismo, ao valor, isto é, à economia.

Opondo-se a interpretação dos partidários de Marx, que na sua geração, que viam a questão da exploração econômica como o mal maior do capitalismo e, desta forma, propunham uma nova sociedade onde a economia existiria mas não seria usada para a exploração de uma classe sobre a outra, Debord, remetendo ao próprio Marx, discorda desse conceito e concebe a esfera econômica, como ela própria, oposta a totalidade da vida. E ai está sua originalidade.

Recordando duas conseqüências da critica do fetichismo que Debord soube aprender com grande antecedência, assim nos diz Anselm Jappe :

“em primeiro lugar, a exploração econômica não é o único mal do capitalismo, dado este ser, necessariamente, a negação da própria vida em todas as suas manifestações concretas. Em segundo lugar, nenhuma das inúmeras variantes no interior da economia baseada na mercadoria pode realizar uma mudança decisiva. Por isso é que seria totalmente inútil esperar uma solução positiva do desenvolvimento da economia e da distribuição adequada dos seus benefícios. A alienação e a expropriação constituem o núcleo da economia mercantil que, além do mais, não poderia funcionar de modo diferente, e os progressos da ultima são, necessariamente, os progressos das duas primeiras. Isso constitui uma autêntica redescoberta., considerando que o “marxismo”( refere-se aqui ao “marxismo” dito oficial), a par da ciência burguesa, não fazia “critica da economia política”, mas limitava-se a fazer economia política, levando em conta apenas os aspectos abstratos e quantitativos do trabalho, sem discernir ai a contradição com o seu lado concreto . Este marxismo já não via na subordinação da vida inteira às exigências da economia um dos efeitos mais desprezíveis do desenvolvimento capitalista,mas, pelo contrário,um dado ontológico cuja evidenciação até parecia um fato revolucionário.”

A “imagem” e o espetáculo de que fala Debord devem ser entendidas como um desenvolvimento posterior da forma-mercadoria. Têm em comum a característica de reduzir a multiplicidade do real a uma única forma abstrata e igual. De fato, a imagem e espetáculo ocupam em Debord, o mesmo lugar que a mercadoria e respectivos derivados ocupam na teoria marxiana.

Mas, é importante frisarmos que esses caminhos já tinham sido trilhados por György Lukás, no seu polêmico livro “História e Consciência de Classe, que sem dúvidas, influenciou o pensamento de Debord, pois foi o primeiro dos estudiosos de Marx que retomou o conceito de fetichismo da mercadoria.

Tal conceito que tinha aparecido em Marx na Crítica da Economia Política, foi relegado ao esquecimento pelos marxistas posteriores, tais como Engels Kautsky,Rosa de Luxemburgo, Lenine.E é esse conceito, a base do pensamento de Debord, quando elabora a teoria da Sociedade do Espetáculo.

Num momento em que vemos em todo o mundo uma repulsa de pessoas esclarecidas à “visão de mundo” da burguesia liberal, levar as ideias de Debord para a praça pública, através de seus filmes, importantes instrumentos didáticos para o entendimento das características do mundo contemporâneo, pode ser uma estratégia para aqueles que querem enxergar uma civilização pós capitalista, pois, como disse alguém: “se queremos mudar o mundo, é necessário primeiro entende-lo”.

Assistam ao filme ( legendado em português ) e reflitam sobre suas existências.

Serra da Mantiqueira, novembro de 2011.

Arlindenor Pedro