Uma conversa com Roswitha Scholz

Entrevista a Roswitha Scholz (2021) sobre o desenvolvimento da crítica da dissociação-valor

Todas as perguntas foram formuladas por Marcos Barreira e Taylisi Leite e traduzidas para o Alemão por Luiz Felipe Osório.

Nascida em 1959, em Nuremberg, Roswitha Scholz faz parte, desde
o início dos anos 1990, do círculo de autores que desenvolveram a
corrente de pensamento alemã denominada crítica do valor (Wertkritik).


Essa abordagem deu seus primeiros passos em 1984, com a criação
da Initiative Marxistische Kritik, ou Iniciativa Crítica Marxista (ICM),
e, dois anos depois, com o primeiro número da revista Marxistische
Kritik. Fora do âmbito universitário e próxima das formas associativas
da esquerda alternativa, a ICM partia de uma interpretação original da
obra de Marx que retirava a ênfase marxista tradicional no primado
da política e nas formas imediatas e subjetivas de dominação para
se concentrar nas relações de base do capitalismo, isto é, na socialização pelo valor e nas relações mercadoria-dinheiro. Insistia-se,
sobretudo, em que tanto a análise da “política revolucionária” quanto
a da dominação direta têm de ser mediadas pelas formas abstratas
e impessoais de dominação do sistema do capital. Outro aspecto dessa abordagem é a tese de que a dinâmica cega e contraditória da
valorização, na sequência da Terceira Revolução Industrial, conduz a
uma crise fundamental do capitalismo e que, quanto a isso, as teorias
marxistas tradicionais não têm como reagir de modo adequado, pois
permanecem presas a uma teoria positiva do valor e a uma errônea
ontologia do trabalho. A “crítica fundamental do valor”, como então
era chamada, visava, a partir desse quadro de crise sistêmica, uma redefinição do objetivo socialista, em contraste com a velha visão de
mundo do marxismo doutrinário e com um neomarxismo acadêmico
cada vez mais reformista e que recusa a priori qualquer teoria da crise.


Em 1992, com “O valor é o homem: teses sobre a socialização pelo
valor e as relações de gênero”, Roswitha Scholz dá uma contribuição
fundamental para o debate feminista da crítica do valor na revista Krisis, que substituiu o periódico anterior. Suas “teses” foram publicadas no número 12, dedicado às relações de gênero na sociedade produtora de mercadorias. Até então, as contribuições da revista se limitavam (não sem o mérito de desbravar novos caminhos e superar velhas posições) a estabelecer a relação entre o desenvolvimento do valor como fundamento da socialização capitalista e os conceitos burgueses de “igualdade” e “democracia”. Estes representavam não a antítese do capitalismo, mas a sua realização. A “questão da mulher”, porém, permanecia subordinada a uma estrutura sistêmica geral, e, consequentemente, reproduzia-se na crítica do valor, com uma constelação teórica diferente, o mesmo tratamento de “contradição secundária” que o marxismo tradicional dava às relações de gênero. De acordo com Scholz, o valor não é uma totalidade fechada. Ainda que a sua lógica tenda à universalização por meio do impulso fetichista de subordinação dos seres humanos e da natureza, a socialização pelo valor, baseada no “trabalho abstrato”, nunca abrange o conjunto da reprodução social. Há sempre uma parte cindida do valor, na qual se desenvolvem atividades de reprodução social (no ambiente privado-doméstico) que não se relacionam com a totalidade social por meio do trabalho. Tais atividades, por sua vez, são conotadas como femininas e, na maioria das vezes, são delegadas às mulheres. O mesmo ocorre com as diferentes atividades de “cuidado”, que permanecem, em geral, como
profissões economicamente secundárias, ocupadas pelas mulheres. A
compreensão dessa cisão estrntural do valor, portanto, faz com que
as modernas relações de produção já não sejam vistas como neutras
em termos de gênero, mas como um princípio masculino, e isso abre
caminho para uma redefinição fundamental da relação entre capitalismo e patriarcado. Essa posição não se contrapõe apenas a uma
deficiência da crítica do valor anterior; ela também parte de uma crítica ao feminismo marxista, que reivindica para as atividades femininas “cindidas” um reconhecimento da sua condição como “trabalho” e como atividade produtiva em um sentido ontológico-afirmativo. Reencontramos, então, em um nível de mediação mais elaborado, a recusa de uma crítica do capitalismo que, de modo contraditório, almeja a realização dos ideais de igualdade da sociedade burguesa.

Em vez disso, a crítica do valor adotou uma posição de crítica ao trabalho e de seu domínio patricarcal. Em 2004, após a divisão do contexto teórico da Krisis, Roswitha Scholz, Robert Kurz e outros integrantes da antiga redação criaram uma nova associação e a revista Exit!, na qual a elaboração teórica de Scholz assumiria um papel cada vez mais central. A crítica do valor apresenta-se, a partir de então, como crítica do valor-cisão (Wert- -Abspaltungs-Kritik). Mais do que uma mudança de rótulo para fins de construção identitária (de grupo) ou uma simples “acentuação” pessoal, essa mudança revelou, em muitos aspectos, uma reorientação e uma abertura para novos temas para além do feminismo. Os numerosos ensaios de Scholz na revista Exit! expressam essa reorientação e o seu ambicioso programa teórico-crítico, com ênfase na tensão entre o geral e o particular, entre a lógica do valor-cisão e o problema das diferenças, recusando tanto um conceito de valor que permanece geral e neutro em termos de gênero/”raça” quanto o fetichismo das diferenças, que perde a mediação com a totalidade social. Essa relação entre o contexto de socialização geral do valor-cisão e as “diferenças” segue em sua crítica do aprisionamento da compreensão das mudanças recentes do capitalismo – que a autora interpreta em termos de pós-modernidade, globalização e individualização – nas categorias sociológicas modernas (incluindo as do marxismo tradicional). Ela sugere, então, que as disparidades e hierarquias sociais, bem como as atuais dinâmicas de conflito social, assumem uma configuração inteiramente nova, que diz respeito a uma época marcada não mais pela ascensão das formas e categorias da modernidade, mas pelo processo de “colapso da modernização” (Robert Kurz). Seus escritos* tentam apreender as múltiplas facetas dessas dinâmicas em um plano categorial e sistemático, corno se pode ver nesta entrevista; eles oferecem, assim, a possibilidade de pensar a crítica do patriarcado capitalista, com todas as suas tensões e conflitos cada vez mais explosivos, à luz do atual processo de crise fundamental, o que também implica dizer para além das velhas identidades tradicionais da esquerda.

Nesta longa entrevista à Margem Esquerda, Scholz aborda momentos-chave de sua trajetória intelectual, desde a militância de juventude
até a criação dos grupos Krisis e Exit! e a publicação de alguns de seus
ensaios mais importantes. Além de reconstituir as origens e elaborações da crítica do valor-cisão, ela demonstra o poder analítico dessa teoria diante de f enôrnenos contemporâneos corno a intensificação do antissemitismo, do racismo e do machismo no contexto da corrosão interna do patriarcado capitalista indissociável do colapso da modernização.

Sem poupar críticas aos discursos e práticas da esquerda contemporânea, das correntes mais ortodoxas às tendências identitárias recentes, a pensadora oferece urna interpretação original da ascensão do fascismo e da extrema direita no mundo, bem corno das implicações da pandemia de covid-19. Scholz conversou com a revista via e-mail respondendo às questões formuladas pelos professores Marcos Barreira e Taylisi Leite, leitores e interlocutores de sua obra no Brasil.

Colhida em Revista Margem Esquerda – Ed. Boitempo

I – No início desta entrevista, gostaríamos de falar sobre o seu desenvolvimento académico e intelectual. Noutra entrevista contou que sempre leu muito desde jovem, principalmente textos existencialistas, e que os seus primeiros contactos com o marxismo vieram de leituras da Europa de Leste, que não lhe pareceram convincentes. Nessa altura estavam a florescer os feminismos da segunda onda e a nova esquerda alemã. Esteve politicamente empenhada, mas disse que se sentia como uma personagem completamente deslocada. Pode contar-nos um pouco mais sobre essa experiência com o marxismo e com o feminismo?

R.S. Basicamente eu já disse o essencial na entrevista a Clara Navarro Ruiz. Considerei o marxismo dogmático e entendi-me como uma feminista autónoma de esquerda, num quadro anti-autoritário espontâneo. Para mim o marxismo soviético e os grupos K representavam a lealdade e a disciplina partidária: tu não és nada, o partido e a correspondente ideologia marxista são tudo. Isso afastou-me desde o início. Daí que não prestei muita atenção à literatura relevante sobre o assunto.

As minhas experiências com o movimento autónomo de mulheres e a esquerda não dogmática, no entanto, desapontaram-me mais uma vez. Aqui, exactamente ao contrário, pretendia-se que um ego abstracto chegasse ao seu pleno desenvolvimento,através de grupos de auto-ajuda, terapia, organização conjunta em projectos alternativos sem chefe etc., que queriam antecipar uma sociedade diferente já no aqui e agora. Mais tarde, verificou-se que ajudavam um “eu empresarial” (Ulrich Bröckling) e um “novo espírito do capitalismo” (Boltanki/Chiapello) no neoliberalismo. Muitos aspectos da imagem do ser humano na nova esquerda entraram nas ideologias de gestão.

Em retrospectiva, vejo que a ditadura do ego da nova esquerda não era menos repressiva do que o dogmático marxismo tradicional. É necessário sair de ambos para chegar a novas margens emancipatórias. A propósito, ambos partilham uma paixão pela abstracção, e ambos se caracterizam por uma “falsa imediatidade”; não existe um metanível, também no que diz respeito ao próprio agir. Mas deste modo uma esquerda anti-autoritária, que ainda hoje existe ou volta a existir (economia solidária, economia do bem comum etc.), também não encontrava ou não encontra o seu próprio ego, a sua própria emoção e experiência, que não podem mesmo ser definidas em abstracto, mas que são social e societariamente condicionadas. Neste processo, tais momentos e exigências tornam-se também presas fáceis para “aquisições hostis” da ideologia capitalista.

Especialmente no feminismo da “nova feminilidade”, falava-se muito de preocupação e de um generalizado tomar partido pelas mulheres; tal feminismo tornou-se cada vez mais proeminente em meados dos anos setenta. Devido a esta situação difícil, acabei por recorrer à teoria crítica, que rejeitava tanto um marxismo tradicional como uma falsa imediatidade (não só na nova esquerda).

II – Como conheceu Robert Kurz e encontrou a Initiative Marxistische Kritik? Como é que ambos os acontecimentos influenciaram a sua relação com a prática do movimento feminista desde então?

R.S. Conheci Robert Kurz nessa altura, porque logo se tornou claro para mim que os escritos da Escola de Frankfurt não podiam ser compreendidos sem um conhecimento fundamental de Marx. Robert Kurz e a “Initiative Marxistische Kritik”, em cuja fundação ele desempenhou um papel importante, ofereciam na primeira metade dos anos oitenta cursos de introdução a Marx, o que era uma raridade na altura, porque os novos movimentos sociais então hegemónicos estavam em grande parte a despedir-se de Marx, que tinha estado no topo da agenda desde “68” e nos anos setenta. Kurz – embora vindo dos grupos K (ele tinha deixado um desses grupos num escândalo, porque fora considerado um “intelectual” que deveria escrever uma autocrítica) –  nessa altura estava como eu farto da ausência de teoria, bem como de uma falsa imediatidade (também no sentido de agitação da classe operária e de “proletcult”) e de um sentimento contra a teoria e a reflexão. Denunciou ambos os lados, tanto a esquerda tradicional como a nova esquerda, em artigos que publicou; deste modo, conhecemo-nos num curso de introdução ao marxismo. Eu estava céptica quanto a uma práxis do feminismo mesmo antes de ter conhecido Robert Kurz, como já expliquei acima. No entanto, na “práxis”, neste caso no grupo Krisis, não se pode evitar discutir o comportamento sexista. Às mulheres em geral é negada a capacidade de teoria e de abstracção. Este é também o caso da Krisis. Aqui não se consegue nada sem luta e discussão. A crítica da dissociação-valor é (também) uma síntese de tudo isto, pois consiste sempre em incluir a totalidade concreta e a experiência como dimensões indispensáveis da crítica social. É por isso que nunca diria que algo que digo é verdade porque sou mulher, mas digo-o porque é verdade, como Simone de Beauvoir disse uma vez.

III – Na mesma entrevista acima mencionada, afirma que no início da sua relação com Robert houve muitas disputas sobre questões de género, mas que surpreendentemente, ao longo do tempo, o convenceu da dissociação-valor. Como foi esta experiência? Poderia, por favor, dizer-nos mais sobre a sua relação com Robert?

R.S. Como podem imaginar, fiquei muito aliviada quando ele concordou com a minha ideia de que “o valor é o homem”. Quando apresentei pela primeira vez esta tese a Kurz, ele opôs-se maciçamente e chamou-a de “estúpida” (literalmente, nas palavras de Kurz). Mas eu já tinha feito notar que ele estava a ficar sem argumentos e a este respeito tinha sido atingido – figurativamente falando – no plexo solar. Alguns dias depois, num jantar no „Griechen“, disse então por sua iniciativa que a ideia é boa, que a socialização do valor e a “dissociação do feminino” pertencem necessariamente uma à outra. E que eu devia escrever um texto sobre isso. Foi assim que surgiu o ensaio “O valor é o homem”, que por acaso as pessoas na Krisis afirmaram que tinha sido escrito pelo próprio Kurz. Do mesmo modo, algumas pessoas da Krisis atribuíram o facto de ele ter mudado de opinião sobre o feminismo ao receio de Kurz de que a nossa relação pudesse desmoronar-se se ele continuasse a tomar uma atitude rígida perante as exigências feministas da minha parte. De acordo com o lema: não é possível a uma mulher aduzir argumentos racionais convincentes, tem de haver algo mais, algo psicológico, por detrás da mudança de Kurz. As mulheres não são capazes de tal coisa. Quando depois promoveu a tese da dissociação-valor como “leader of the gang” no contexto da Krisis, a resistência foi muito forte, em contraste com outras inovações que Kurz tinha introduzido até esse momento.

IV – O ensaio O Valor é o Homem, escrito em 1992, está na origem de uma reorientação teórica na chamada “crítica de valor”. Na revista Krisis, a maioria estava satisfeita com o facto de a crítica estabelecer uma relação entre os conceitos de “igualdade” e “forma do valor”. Você introduziu algo novo. As suas teses, pelo contrário, colocam a diferença de género a um nível estrutural. Quais são as ideias centrais desta importante abordagem?

R.S. Hoje não escreveria o texto “O valor é o homem” do mesmo modo. É por isso que lhe introduzi uma nota prévia na homepage da Exit:

“Este texto foi publicado em 1992. Foi a primeira aproximação à teoria da dissociação-valor. Desde então, continuei a desenvolver essa teoria no livro ‘O sexo do capitalismo. Teorias feministas e a metamorfose pós-moderna do patriarcado’ e em vários ensaios na revista teórica ‘EXIT! Crise e crítica da sociedade das mercadorias’. Do ponto de vista actual, este ensaio apresenta deficiências, por exemplo, hoje não colocaria centralmente, como lógica estrutural, a separação de esferas em público e privado. Em vez disso, a dissociação-valor deve ser vista como o contexto basilar do patriarcado capitalista, em que a separação de esferas representa apenas um nível mais concreto da análise. Também a referência ao tempo de então deve ser tida em conta. Por isso não basta de modo nenhum usar este texto para entender o núcleo da teoria da dissociação-valor. Esta teoria é muito mais complexa e, para compreendê-la, não se pode deixar de consultar o livro referido e outros desenvolvimentos em textos depois publicados.

Neste contexto, esboçaria a teoria – e a crítica – da dissociação-valor como segue:

Assumo que não é apenas o valor como sujeito automático que constitui a totalidade, mas que é preciso ter em igual conta a “circunstância” de que no capitalismo também existem actividades reprodutivas que são realizadas principalmente por mulheres. Neste contexto, “dissociação-valor” significa que, na essência, as actividades reprodutivas específicas das mulheres, mas também os sentimentos, características e atitudes conexas (sensibilidade, emocionalidade, cuidado etc.) são dissociados do valor/mais-valia. As actividades reprodutivas femininas no capitalismo têm assim um carácter diferente do trabalho abstracto. É por isso que não podem ser subsumidas sob este conceito sem mais; são um lado da sociedade capitalista que não pode ser apreendido pelo sistema conceptual marxiano. Este lado está junto com o valor/mais-valia, pertence-lhe necessariamente, mas no entanto está fora dele, sendo ainda assim a sua condição prévia. Valor (mais-valia) e dissociação estão assim numa relação dialéctica entre si. Um não pode ser derivado do outro, mas ambos emergem um do outro. Esta lógica também dá origem à “heterossexualidade compulsiva” (Adrienne Rich), uma vez que outras formas de desejo sexual são per se excluídas e perseguidas como desviantes. A este respeito, a dissociação-valor pode também ser entendida como uma metalógica que se sobrepõe às categorias internas da economia.

Mas as categorias da economia política também são insuficientes noutro aspecto; a dissociação-valor também tem de ser entendida como uma relação psicossocial específica. Certas qualidades inferiores (sensibilidade, emocionalidade, fraqueza de carácter etc.) são separadas do sujeito masculino e projectadas na mulher. Tais atribuições específicas de género caracterizam essencialmente a ordem simbólica do patriarcado capitalista. No caso das relações capitalistas de género, é portanto necessário considerar tanto a dimensão psicossocial como a dimensão cultural-simbólica, para além do elemento da reprodução material. É precisamente nestes níveis que o patriarcado capitalista se revela uma totalidade social. Na dissociação-valor, entendida como contexto social basilar, é crucial que não se trata de uma estrutura rígida, como em alguns modelos sociológicos estruturalistas, mas sim de um processo.

Pode assumir-se que uma contradição entre matéria (produtos) e forma (valor) é, num certo sentido, a lei da teoria da crise, que em última análise conduz a crises de reprodução e à desintegração/colapso do capitalismo. Esquematicamente falando, a massa de valor por produto individual torna-se cada vez menor. O resultado é uma abundância de produtos, situação em que a massa de valor se derrete no conjunto da sociedade. O factor decisivo aqui é o desenvolvimento das forças produtivas, que por sua vez está ligado à formação e aplicação das ciências (naturais). Com a revolução microelectrónica (culminando hoje na “Indústria 4.0”), o trabalho abstracto está agora a tornar-se obsoleto, em contraste com a era fordista, em que a produção de mais-valia relativa era compensada pela necessidade adicional de força de trabalho para gerar mais-valia. O resultado é uma desvalorização do valor e um colapso da relação de valor (mais-valia), sendo que Robert Kurz já escreveu 1986 que este colapso não deve ser imaginado como um acto isolado, ainda que ocorram colapsos súbitos, por exemplo, colapsos de bancos, falências em massa que certamente farão parte dele, mas sim como um processo histórico, toda uma época, talvez de várias décadas, em que a economia mundial capitalista deixará de conseguir escapar ao turbilhão da crise e dos processos de desvalorização, de crescente desemprego em massa etc. Hoje em dia, há muito se tornou claro não só que a impossibilidade de obter retornos através da extracção de mais-valia, mediada por este mesmo processo, levou a um desvio para o nível especulativo, mas também que a dinâmica conexa levou à decadência do capitalismo.

No entanto, esta estrutura e dinâmica têm agora de ser modificadas de acordo com a crítica da dissociação-valor. A dissociação não é uma grandeza estática, representando a lógica do valor o elemento dinâmico, mas está ela própria, ao mesmo tempo, a montante dessa lógica de maneira dialéctica, e apenas ela torna possível a contradição em processo, razão pela qual também tem de ser assumida uma lógica de dissociação-valor em processo. A dissociação está assim profundamente envolvida na eliminação do trabalho vivo. Neste processo também se altera a si própria.

Especialmente nas ciências naturais, cuja aplicação no processo de produção constitui o desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo, mas também no desenvolvimento da ciência do trabalho, que trata do aumento óptimo da eficiência e da organização racional do processo de produção (palavra-chave Taylorismo), a dissociação do feminino e as correspondentes imagens das mulheres foram francamente a condição psicossocial tácita da sua existência, que também encontra expressão a nível simbólico-cultural (as mulheres são menos racionais, piores nas matemáticas e nas ciências naturais do que os homens etc.). Mas não é apenas nos discursos científicos, filosóficos, teológicos etc. desde a era moderna que é evidente a dissociação do feminino; pelo contrário, esta atribuição foi realizada e materializada na própria fase fordista, condicionada pela dissociação do feminino, na medida em que o homem se torna então o ganha-pão da família e a mulher dona de casa na família nuclear imposta, pelo menos idealmente. Quanto mais as relações sociais se tornavam objectivas, mais uma dicotomia hierárquica de género se tornava evidente. Tal dissociação do feminino é assim um pré-requisito para o desenvolvimento das forças produtivas, que é o fundamento do patriarcado capitalista com a sua “contradição em processo” e, como tal, traz o seu desenvolvimento, ou seja, é uma condição decisiva para a produção de mais-valia relativa, e para que o fosso entre a riqueza material e a forma do valor acabe por aumentar cada vez mais. De um ponto de vista do processo histórico, a objectivação e a formação de relações hierárquicas de género são mutuamente dependentes e não contraditórias. Esta dissociação do feminino, como pré-requisito para o desenvolvimento das forças produtivas, acabou por conduzir à revolução microelectrónica, que tornou absurdo não só o trabalho abstracto, mas também o padrão de género clássico-moderno e a dona de casa.

A expansão das actividades de reprodução, de assistência e de cuidados, anteriormente realizadas a título privado e agora transferidas para a esfera profissional, é, de um ponto de vista económico, uma componente da crise, uma vez que teria de ser redistribuída a massa de mais-valia para as financiar, mas, no contexto da contradição em processo e de um capitalismo que atingiu os seus limites, tal possibilidade já não existe. Assim, há também um défice da reprodução quando as mulheres já não podem realizar tais actividades porque estão duplamente sobrecarregadas, ou seja, igualmente responsáveis pela família e pela profissão. As actividades profissionais de prestação de cuidados e bem-estar também chegam a limites qualitativos, uma vez que resistem largamente a considerações de eficiência, ainda que acabem muitas vezes por ir parar profissionalmente no sector dos cuidados ou em ramos de serviços semelhantes. Em princípio, as mulheres hoje em dia devem aceitar trabalho de todos os tipos, incluindo trabalho que até agora tinha uma conotação masculina, mesmo que ainda sejam de facto responsáveis pelo domínio dos cuidados, incluindo na esfera privada.

Assim a dissociação não desapareceu de modo nenhum, o que também se reflecte, por exemplo, em menores oportunidades de vencimento e de promoção para as mulheres. É de salientar que a dissociação-valor não se situa nas esferas dissociadas privada e pública, sendo as mulheres atribuídas à esfera privada e os homens à esfera pública (política, economia, ciência etc.). Pelo contrário, a dissociação-valor passa por todos os níveis e esferas, incluindo os da esfera pública; ela determina toda a sociedade como um contexto basilar. Isto pode ser visto, entre outras coisas, no facto de as mulheres ganharem frequentemente menos do que os homens, mesmo que façam o mesmo trabalho e sejam hoje, em média, mais instruídas do que os homens.

Por outro lado, quando o trabalho abstracto se torna obsoleto, há também tendências para os homens serem tratados como donas de casa. Ocorre um asselvajamento do patriarcado, quando as instituições da família e do trabalho remunerado estão a sofrer erosão face às crescentes tendências de crise e empobrecimento, sem que as estruturas e hierarquias patriarcais tenham desaparecido fundamentalmente. Hoje em dia as mulheres são obrigadas à actividade profissional pela simples sobrevivência. Nas favelas do chamado Terceiro Mundo, são as mulheres que iniciam grupos de auto-ajuda e se tornam administradoras da crise. Ao mesmo tempo, no entanto, também devem assumir funções de reparação nos altos comandos da economia e da política nos centros ocidentais, quando a situação está péssima na crise fundamental.

A dissociação-valor, como contexto basilar historicamente dinâmico, combinado com o desenvolvimento de forças produtivas nela baseado, socava assim o seu próprio fundamento, as actividades de cuidados realizadas na esfera privada. O que é central aqui é que as mudanças – não apenas nas relações de género, mas nas relações sociais como um todo – devem ser compreendidas a partir dos mecanismos e estruturas da dissociação-valor, na sua própria dinâmica em processo histórico, e não podem ser compreendidas apenas a partir do “valor”, como já foi dito.

Em termos teóricos, a relação hierárquica de género deve assim ser limitada à modernidade e pós-modernidade. Isto não significa que esta relação não tenha uma história pré-moderna; no entanto, ela assumiu uma qualidade completamente nova sob o capitalismo. As mulheres deveriam agora ser as principais responsáveis pela esfera privada menos valorizada, os homens pela esfera capitalista da produção e pela esfera pública. Isto contradiz os pontos de vista que vêem a relação de género patriarcal capitalista como um resto pré-capitalista. A família nuclear, por exemplo, só surgiu no século XVIII, e as esferas pública e privada, tais como as conhecemos, desenvolveram-se na era moderna.

A crítica da dissociação-valor assume não apenas que é insuficiente a crítica do valor, mas que esta crítica é com ela elevada a um nível qualitativo completamente novo.

V – O mesmo texto fala também de “um profundo mal-estar em relação ao trabalho teórico sobre a chamada ‘questão da mulher’”. Qual foi a reacção à perspectiva de dissociação-valor dentro do grupo Krisis?

R.S. Como disse acima, houve muita resistência. As questões feministas não desempenham um papel importante na Krisis até hoje e só aparecem de vez em quando – na sua maioria como apartes – ou em artigos raros, que parecem perdidos. É revelador a este respeito que Lohoff/Galow-Bergemann, por exemplo, apenas vejam a crise climática, a questão habitacional e a questão da redução do horário de trabalho como novos campos a serem ocupados. Não conseguem aqui ver que estes campos coincidem em grande parte com o domínio da reprodução conotado como feminino, e não é só isso. Para eles, um movimento de mulheres recentemente reforçado e o movimento “Black Lives Matter” também não desempenham qualquer papel. A questão climática, em particular, está intimamente ligada à questão da dominação da natureza, que por sua vez está ligada ao facto de as mulheres terem sido desde a idade moderna equiparadas à natureza, que é preciso dominar. Nos anos noventa um membro da Krisis – obviamente masculino – deu-me uma vez uma bofetada na cara, para minha completa surpresa. Parece-me que ele fez isto por toda a tripulação Krisis até hoje. Também as reflexões sobre uma “socialidade associal” (Norbert Trenkle) são aqui problemáticas – da maneira habitual, um indivíduo do sexo masculino é aqui o ponto de referência (cf. para os artigos de Galow-Bergemann/Lohoff e Trenkle aqui abordados: www.krisis.org).

VI – Em contraste com as tendências marxistas, que tentam incorporar progressivamente a “questão da mulher” nas concepções de “sociedade de classes” e de luta de classes, você supõe que a “questão da mulher” só pode ser correctamente percebida se se observar como a dinâmica histórica da socialização do valor tem minado o paradigma das classes. Como é que isto aconteceu exactamente?

R.S. Entretanto acontece que à esquerda, após o crash financeiro de 2008, o marxismo da luta de classes também teve um renascimento. Isto também se aplica ao feminismo, após uma fase desconstrucionista, que está principalmente ligada ao nome de Judith Butler.

As classes em Marx eram essencialmente determinadas pela sua posição no processo de produção. Mas eu penso que o conceito de classe e de luta de classes está ultrapassado do ponto de vista da crítica da dissociação-valor. No decurso do desenvolvimento das forças produtivas, da ciência do trabalho etc., o “trabalhador foi formado num contexto fordista-taylorista, num amplo quadro social global. Mesmo assim, estas tendências foram acompanhadas pela emergência de novas classes médias na administração, no direito, nos cuidados de saúde, nos media etc., em contraste com as antigas classes médias (comerciantes, artesãos etc.). A educação e o conhecimento (não a propriedade do capital) eram agora os recursos centrais destes novos estratos, que aumentaram no decurso do século XX. O movimento de 68 foi o resultado deste desenvolvimento, na transição para o pós-fordismo. Este desenvolvimento culminou primeiro na revolução microelectrónica e depois na Indústria 4.0. Actualmente, as actividades na esfera da produção foram largamente dizimadas. As que ainda existem são externalizadas para a China, por exemplo, ou são muitas vezes feitas por migrantes nos centros, mas mesmo estes estão frequentemente no sector dos serviços (restauração, limpeza etc.).

Este desenvolvimento tem muito a ver com aquilo a que Marx chamou a “contradição em processo”. A quota de valor (mais-valia) diminui, através de processos de racionalização, enquanto que a produção de bens aumenta constantemente. Esta tendência acaba por conduzir à desintegração do capitalismo e à obsolescência do trabalho abstracto, juntamente com políticas de financeirização, bolhas financeiras e seu rebentamento etc. Ao mesmo tempo os bancos “relevantes para o sistema” tiveram de ser apoiados por pacotes estatais de salvamento, na sequência do crash financeiro de 2008. Este processo leva também a um colapso ainda maior das classes médias, que foram criadas sobretudo através do patrocínio estatal, por exemplo, no sector social. O Estado está agora virado para outro lado, e as suas fontes estão a secar. A pandemia de coronavírus exacerbou esta crise e está de novo a aumentar a dívida pública a grande altura. São precisamente as novas classes médias e o auto-empreendedorismo nas esferas social e cultural que estão a ficar pelo caminho, ou seja, todos aqueles que foram incitados ou praticamente forçados a tornar-se auto-empreendedores e a criar empresas em nome individual na era do neoliberalismo estão agora ainda mais ameaçados pelo crash, apesar dos subsídios estatais.

Em vez de colocarem no centro da análise as tendências de degradação, desclassificação e de tornar-se supérfluo, e verem o actual processo de decadência, e que a estrutura clássica de estratificação do capitalismo está a decair, e com consequências ainda mais dramáticas a nível global do que na estrutura fordista “normal” das classes nos centros, grandes partes da esquerda regressam ao remédio do antigo marxismo para explicar esta situação. Por exemplo, todos os dependentes do salário são agora sumariamente transformados em trabalhadores, sem se querer perceber a obsolescência do trabalho abstracto. Neste processo, migrantes, gays, mulheres etc. são frequentemente contados como parte da classe trabalhadora sem mais delongas, ou então o racismo, o sexismo e a homofobia são reconduzidos de novo a um fundamento nas classes, que seria o verdadeiro, e transformados em contradições secundárias, em vez de se ter em conta a lógica própria das várias dimensões da desigualdade. Mas a sociedade de classes está hoje irremediavelmente acabada. Tentar compreender as desigualdades sociais actuais com um antigo conceito de classe é tão inadequado como se a burguesia tivesse sido simplesmente acrescentada à antiga sociedade estamental e definida a partir daí, em vez de se ver que deveria ser colocada no novo quadro de referência de uma sociedade de classes.

No entanto, não basta simplesmente tornar o valor e a contradição em processo responsáveis por este desenvolvimento e pela queda da classe média, como tenho feito até agora por razões de exposição, mas este desenvolvimento e a contradição em processo são eles próprios induzidos em termos de dissociação-valor, como já deixei claro acima. Neste contexto, o “proletariado” torna-se tanto mais obsoleto quanto mais o fosso entre ricos e pobres se alarga. Desde 2008, o mais tardar, pode ser assumido um novo impulso do colapso da modernização após a queda do bloco de Leste, com a crise do coronavírus a anunciar mais uma nova fase de colapso. O “coronavírus” é assim um componente do declínio da socialização da dissociação-valor, do patriarcado capitalista. Não vem do exterior para derrubá-lo. Uma verdadeira reflexão sobre estas ligações é deixada de fora tanto pelos defensores como pelo opositores das medidas coronavírus na esquerda e no feminismo de esquerda.

As zoonoses também têm muito a ver com a sobreexploração capitalista da natureza. O coronavírus não é, portanto, simplesmente um fenómeno natural, como não o são as alterações climáticas provocadas pelo ser humano.

VII – O número 15 da revista Krisis publicou a sua opinião crítica sobre o movimento feminista e as tendências da esquerda. (1) O seu ponto de vista está menos preocupado com o conteúdo discursivo destes tendências “pós-modernas” do que com a ligação entre o discurso e o contexto social. Como analisa este movimento da teoria feminista em direcção à teoria do discurso e ao desconstrucionismo?

R.S. O artigo “A Máscara da Morte Vermelha” já tem, naturalmente, 26 anos de idade. Nele são por mim citadas várias posições que se opõem à posição de Butler. Nesse artigo foi criticada a ausência de dimensões importantes, como a exclusão do corpo, a negligência do material (económico), e foi feita uma referência ao “capitalismo de casino” (Susan George), uma vez que tanto a desconstrução de Butler como o capitalismo especulativo assumem, a um nível fenomenológico, uma dominação dos signos e da insubstancial relação monetária abstracta, sendo a corporeidade e a substância omitidas.

Uma dimensão importante do contexto social global, por força da qual o desconstrucionismo foi capaz de se tornar hegemónico desde 1990, é algo que só mais tarde formulei, nomeadamente que o capitalismo pós-moderno / o patriarcado pós-moderno já não pode usar os velhos padrões de papéis (de género), e estava/está agora dependente de identidades flexíveis compulsivas. Isto tem a ver sobretudo com a flexibilização das relações laborais e a obsolescência do trabalho abstracto. A mulher como dona de casa e o homem como sustento da família já não estavam de acordo com os tempos. O papel das mulheres diversificou-se, e as mulheres eram agora responsáveis pela família e pela profissão, com mudança biográfica, como já foi mencionado acima. Nessa altura chegou mesmo a tempo uma teoria que explorava uma ontologia da difusidade de género. Isto foi associado a uma maior tolerância (superficial) para com as pessoas LGBTIQ.

Também é preciso ter em conta que este foi um período em que o bloco de Leste entrou em colapso e com ele os marxismos de todas as cores entraram em dificuldades. Falava-se do “fim da história” (Fukuyama), e a liberdade sob o neoliberalismo parecia quase ilimitada. Falava-se de uma sociedade da diversão, e a festa era quase um estado social primordial – esse era o estado de espírito geral na altura. Uma teoria desconstrucionista, que assumia que a masculinidade e a feminilidade poderiam ser radicalmente desacreditadas através de repetitivos actos performativos no espectáculo travesti, encaixava bem no clima social prevalecente.

Havia o perigo de que os gays em particular fossem frequentemente imaginados pelo público em geral como estando constantemente num obscuro “milieu de fiesta“, mesmo que não fosse essa a intenção de Butler & Cª, que queriam desconstruir mesmo o ser gay e lésbica.

Mas veio o que tinha de vir. Já a partir de 2005, mas especialmente após o colapso financeiro de 2008, a realidade tornou-se cada vez mais perceptível, o que foi expresso em slogans como o de Nancy Fraser “Mulheres, pensai economicamente!” Este período também assistiu ao início da reconstrução, após um período de desconstrução. Mas isso aconteceu diferentemente de antes, pois cada indivíduo podia agora reclamar várias discriminações para a sua identidade concreta, no decurso de uma viragem no feminismo para a interseccionalidade, que tomava como ponto de partida a raça, a classe, o sexo, a idade e a deficiência, exigindo que fossem tidas em conta. Da negação da identidade, voltou-se assim à afirmação da identidade sob um novo disfarce. Neste contexto, há um debate na Alemanha dentro da própria cena queer sobre o grau de propagação de tendências autoritárias dentro dela, que se mostram nos tribunais, por exemplo, quando alguém não adere aos regulamentos linguísticos e a um certo código de conduta. Por outro lado, no entanto, desde então tem havido também um retrocesso no feminismo, de regresso aos pressupostos marxistas vulgares, que pretendem tomar a “classe” novamente como ponto de partida, também para a análise de classe, raça, homofobia etc. (ver acima).

Mas que fique claro: Quando critiquei as teorias desconstrucionistas de Butler e outras acima, isto não significa que a teoria do discurso de Foucault deva ser completamente descartada pela crítica da dissociação-valor. Na minha opinião ela é um elemento importante, que mostra como a masculinidade e a feminilidade, mas também a “raça” e outras disparidades sociais são discursivamente “produzidas”. Na minha opinião, contudo, ela não pode ser a base absoluta da teoria feminista, mas deve ser tornada frutuosa para a crítica da dissociação-valor – em dialéctica negativa – na sua autonomia, tal como a psicanálise, sendo que tanto deve ser vista a mediação destas teorias entre si como também devem poder existir como separadas, porque lidam com diferentes objectos, níveis e conteúdos. É impossível lidar com a totalidade fracturada da sociedade da dissociação-valor com instrumentos conceptuais exclusivamente marxistas, especialmente hoje em dia.

VIII – Andreas Urban utilizou a teoria da dissociação-valor para discutir a discriminação com base na idade. (2) Você já lidou com o racismo, o anticiganismo e também com o anti-semitismo em livros e ensaios. No Brasil, a questão da raça é central, devido à escravidão africana. Poderá a sua perspectiva teórica explicar outros processos de opressão na sociedade das mercadorias, tais como o racismo?

R.S. Para esclarecer isso, é preciso saber que a crítica de dissociação-valor está intimamente ligada à “dialéctica negativa” de Adorno e à crítica da lógica da identidade. Um pensamento identificador, ou seja, o desvanecimento do particular, do indivíduo, do diferente e afins, está teoricamente relacionado com a dissociação do feminino do valor, e não da relação de troca, como pensava Adorno. A dissociação-valor é assim, por um lado, o contexto basilar da sociedade patriarcal capitalista. No entanto, por outro lado, não se pode estabelecer como tal sem mais; nem tudo pode ser derivado delacomo acontece com uma crítica androcêntrica do valor que explica tudo a partir do valor. (A teoria da dissociação-valor aqui formulada difere assim essencialmente da crítica do valor da Krisis, mesmo se esta última afirma hoje, por exemplo, que o indivíduo não pode simplesmente ser derivado do valor. Ela permanece androcêntrica e não conhece nenhum não idêntico).

Por outras palavras, tal como a dissociação não pode ser derivada do valor, também tudo o resto não pode ser derivado da dissociação-valor. Uma vez que o sujeito (epistemológico), que assenta na dissociação do feminino, é forçado a reconhecer por si próprio que não é autónomo, não pode depois comportar-se como tal, mas é forçado a permitir o particular, o individual, o diferente, o não-simultâneo etc. na sua própria qualidade, bem como nas suas contradições e rupturas, sem conceder a supremacia do conceito geral. A necessidade de trazer a relação hierárquica de género para o conceito – e isto é uma necessidade absoluta, uma vez que as mulheres e o feminino são entendidos como não conceptuais – e ao mesmo tempo ter em conta o que não está incluído no conceito – é disso que tem de se tratar. A qualidade e o conteúdo estão em primeiro plano na crítica da dissociação-valor, e não como no pensamento identificador o quantitativo e o formal, sem que este possa ser simplesmente negado em abstracto.

Consequentemente, de acordo com a teoria da dissociação-valor, também outras formas de discriminação como sexismo, racismo, anti-semitismo, anticiganismo (mas também velhice, deficiência, homofobia etc.) devem ser examinadas na sua própria qualidade e lógica (sendo que o exame da deficiência e da homofobia é um desiderato na crítica da dissociação-valor. Estes problemas ainda têm de ser explicitamente expostos no futuro).

É verdade que em termos definitórios se pode constatar, por exemplo, no racismo, que as características biológicas recebem um significado que vai de par com uma avaliação negativa. No entanto, não se ganha muito com isto. Antes de mais, esta definição é abstracta e vazia. É preciso ter em conta que existem, por exemplo, diferentes racismos e conteúdos racistas. Por exemplo, o anti-semitismo é dirigido contra os super-homens super-civilizados, sendo os judeus associados ao poder, à selva de asfalto, ao capital (financeiro), à conspiração mundial e coisas do género, razão pela qual também não pode ser simplesmente apelidado de “racismo”. Em contraste, o racismo contra os “negros” caracteriza-se pelo facto de serem vistos como libidinosos, irracionais etc., e como não estando ao nível da civilização ocidental. Por sua vez também é diferente o racismo contra os polacos na Alemanha ou contra os chineses. O “cigano” representa aqui o medo do “associal”, o medo da queda do sujeito burguês na própria cultura e sociedade em que se vive, em que a discriminação social e a racista andam de mãos dadas, o que o distingue de outras exclusões racistas e anti-semitas. Não posso entrar aqui em detalhe em todas as determinações de conteúdo; isso seria uma questão para investigação concreta. Neste contexto, o pensamento crítico da identidade também tem de ter em conta as mudanças históricas, por exemplo, o racismo cultural substituiu hoje o racismo biologista.

Do mesmo modo, têm de ser estabelecidas diferenças entre os contextos específicos de cada país. A tradição racista em França, por exemplo, com a sua história colonial, é diferente da que existe na Alemanha. Contudo, a Alemanha, com o Holocausto, é única no mundo. E, claro, a discriminação racista também tem de ser analisada na sua especificidade em países baseados na colonização, por exemplo, a história da escravatura no Brasil, com a sua específica história de modernização. Esta é uma análise que não posso fazer aqui. Teria de ser tratada em separado.

Ao mesmo tempo, a crítica da dissociação-valor, como teoria do princípio da forma do patriarcado capitalista, se não quiser proceder na lógica da identidade, também tem de reconhecer que o desenvolvimento patriarcal-capitalista tem ocorrido desigualmente nas diferentes regiões do mundo, até às sociedades (anteriormente) com simetria de género, em que as modernas ideias ocidentais de género não foram ou não foram inteiramente adoptadas até hoje.

Contudo, de acordo com a teoria da dissociação-valor, estas disparidades, diferenças e especificidades não podem simplesmente ser colocadas em abstracto umas ao lado das outras, mas têm de ser à partida relacionadas “essencialmente” umas com as outras. Ao fazê-lo, a teoria da dissociação-valor, como já foi mencionado, sabe das suas limitações. Assim, não se coloca num nível sobrejacente absolutomas está ciente da verdade própria dos níveis e momentos particulares, assim se tornando consciente da diferença entre conceito e coisa.

IX – Do seu ponto de vista, o capitalismo está a passar por um processo de crise de tipo novo, que ameaça os próprios alicerces da sua reprodução. Em que medida irá a pandemia de Covid-19 acelerar este processo? Existe a possibilidade de países capitalistas centrais, como a Alemanha, reanimarem o Estado social declarado morto pelo neoliberalismo?

R.S. O facto é que, na crise do coronavírus, os empréstimos governamentais continuarão a ser contraídos, o que, por sua vez, levará a bolhas financeiras que ameaçam rebentar; será posta a trabalhar a emissão monetária e haverá choques de desvalorização. Acredito que depois, por maioria de razão, a cornucópia já não será derramada, mas que se seguirão medidas drásticas de austeridade. Afinal, a crise e as medidas correspondentes têm de ser pagas de algum modo, e pelo famigerado “contribuinte”, mesmo que este montante exorbitantemente elevado de dívida nunca possa, de facto, ser reembolsado. A este respeito, não acredito que um renascimento do Estado social seja possível a longo prazo e que possa ser operado com meios keynesianos, como foi o caso no desbotado fordismo. Essa fase está irremediavelmente terminada. É mais provável que as actividades de cuidados sejam de novo transferidas para a esfera privada e delegadas nas mulheres. Pode muito bem acontecer que os cuidados de saúde nos países capitalistas centrais se tornem também piores e mais caros, tendendo mesmo a entrar em colapso por completo. Mesmo antes disso, a economia neoliberal levou a enormes perdas de qualidade no sistema de saúde, uma vez que o foco era cada vez menos nas pessoas reais, e mais na poupança e nos lucros das empresas.

O coronavírus e as medidas para conter o vírus também estão a levar muitos à falência (comércio de retalho, gastronomia, projectos artísticos e culturais etc.), especialmente as chamadas empresas zombie, que até agora só conseguiram sobreviver através de empréstimos, o que, por sua vez, está a causar problemas aos bancos. Já antes do coronavírus alguns economistas alertaram para uma próxima recessão, e para a aproximação de uma enorme crise económica e financeira, que possivelmente já não poderá ser absorvida politicamente. Diz-se que a economia global teve em 2020 uma queda como nunca antes.

Tudo isto tem de ser considerado também em conjunto com a Indústria 4.0. Mesmo que sejam inicialmente criados postos de trabalho com as medidas de racionalização (tais como peritos em TI na indústria e no sector dos serviços etc.), este processo conduz ao aumento do desemprego em massa. Mas isto também significa que o Estado cobra menos impostos para patrocinar o Estado social. A Covid-19 também é um acelerador da digitalização (escritório em casa, contacto sobretudo digital através de videoconferência, também entre privados etc.). O coronavírus reforça assim o processo de crise e desigualdade social; nem todos têm os recursos, o hardware e o know-how para utilizar realmente estas inovações, o que também reduz as oportunidades de participar no ensino doméstico, por exemplo. O fosso entre ricos e pobres irá alargar-se ainda mais. Haverá mais tensões sociais. No processo, o coronavírus já está a alimentar ideologias de conspiração generalizada. Bill Gates, as corporações de alta tecnologia, Amazon & Cª, companhias aéreas (que já antes estavam em dificuldades financeiras e agora são subsidiadas pelo Estado sob as condições do coronavírus) lucraram com a crise do coronavírus, e teriam dado origem a uma ideologia coronavírus correspondente, ou a teriam explorado para fazer dela capital. A velha superstição da conspiração mundial judaica está também a ressurgir. Mas o facto de os capitais individuais e as empresas tentarem fazer lucro com tudo o que podem é normal e é parte indispensável da estrutura do capitalismo com os seus mecanismos de concorrência. Em vez disso, é necessário explicar mais profundamente o capitalismo e a actual crise fundamental a partir das categorias de mercadoria, capital, valor (mais-valia), trabalho abstracto, dissociação, e dos processos histórico-sociais que as acompanham e que correspondem à dominação anónimaainda que estas relações sejam produzidas pelos indivíduos. O facto de os confrontarem como entidades autonomizadas constitui o carácter fetichista do patriarcado capitalista. A contradição em processo entre matéria e forma (que, contudo, terá de ser entendida em termos da teoria da dissociação-valor – ver acima) é uma contradição fundamental da socialização patriarcal capitalista.

X – Ao ler o ensaio clássico de Robert Kurz A democracia devora seus filhos (livro) no seu ensaio “A democracia continua a devorar os seus filhos – hoje ainda mais!” (3) afirmou: “Kurz em seu ensaio vira-se contra a ideia de que a democracia e o fascismo/nacional-socialismo são opostos”. Assim, democracia e fascismo seriam duas fases diferentes do mesmo processo de modernização, que está agora a chegar ao fim. Como vê a democracia em condições capitalistas? Pensa que na actual crise pode desenvolver-se uma nova forma de fascismo do século XXI, especialmente na periferia do capitalismo, como no caso do Brasil?

R.S. É de esperar que as medidas de contenção do coronavírus sejam mantidas para além do coronavírus como estado de excepção, porque se enquadram numa administração da crise cada vez mais apertada. No entanto, o autoritarismo das condições sociais (mundiais) já começou antes do coronavírus (Trump, Bolsonaro, Duterte, Orban etc., ainda que eles se oponham às restrições do coronavírus). Em tempos precários, aumenta a necessidade de estabilidade e ordem. Com a derrota eleitoral de Trump este problema está longe de ter terminado.

Antes de abordar a vossa última questão, sobre o que isto significa em certa medida para a periferia, como no caso do Brasil, gostaria de pegar na sua questão sobre o que constitui o carácter da democracia no capitalismo, e depois esclarecer a ligação entre democracia e estado de excepção.

A democracia é a forma de governo/organização de uma sociedade determinada por mercadoria, dinheiro, valor (mais-valia), capital, trabalho abstracto e dissociação. As necessidades e relações humanas são aqui secundárias ou devem ser sujeitas a condições patriarcais capitalistas. No processo, tudo deve satisfazer a lógica do mercado, mesmo aquilo que não se satisfaz com ele, como assistência, amor, actividades de cuidados etc. Isto dá então origem a problemas especiais: Os cuidados não podem ser racionalizados e racionados, como se tenta fazer, por exemplo, nos lares de idosos. A liberdade democrática burguesa é portanto a liberdade do mercado, do dinheiro, e a liberdade de poder vender a sua força de trabalho, bem como a liberdade de concordar com a delegação das actividades dissociadas nas mulheres. Esta ligação formal é geralmente assumida sem reflexão, e também leva a que as mulheres (mas também alguns homens) sejam subsumidas sob estereótipos de género, mesmo não lhes correspondendo.

As exigências da esquerda também se mantêm normalmente dentro deste quadro. Muitas vezes, apenas se movem segundo vias social-democratas radicais. O foco do raciocínio é geralmente, em termos sociologistas, a disposição dos meios de produção e a apropriação de mais-valia pelo capitalista, em vez de ver que tanto os trabalhadores como os capitalistas fazem parte das relações fetichistas, em que as instituições políticas também se tornaram independentes dos indivíduos que agem. Ao que corresponde uma forma jurídica, com leis, regulamentos etc. correspondentes. A “liberdade” sempre foi, portanto, liberdade dentro de um contexto coercivo fetichista; algo semelhante se aplica à igualdade e à “fraternidade” (ou solidariedade, se se preferir). O seu fundamento é uma contraditória dissociação-valor como contexto basilar da socialização patriarcal capitalista. Por um lado, o Estado tem de seguir os requisitos dos imperativos de valorização/dissociação, por outro lado, tem de satisfazer o eleitorado. Neste contexto contraditório, preocupa-se principalmente com a “administração dos seres humanos”, como constata certeiramente Robert Kurz; daí as constantes contorções verbais dos políticos, que estão, naturalmente, sempre comprometidos com o humano. Isto também define, naturalmente, o carácter androcêntrico da democracia, do Estado e da política. Não é por acaso que as mulheres só foram catapultadas para as esferas livres e iguais nas últimas décadas, ou seja, numa fase em que a ordem dos livres e iguais está cada vez mais a rebentar pelas costuras no decurso do “colapso da modernização”, o que mostra que elas nunca serão capazes de atingir o estatuto a que aspiram.

A emancipação, contudo, teria de ser entendida de maneira completamente diferente, nomeadamente poder produzir e viver sem os constrangimentos da valorização, em que teriam de estar no centro os seres humanos e a natureza e os requisitos materiais e de conteúdo, ou seja, tratar-se-ia de uma constituição social, em que as pessoas pudessem ser simplesmente seres humanos. Isto significaria também a abolição do trabalho remunerado e a socialização das actividades de cuidados. Os critérios teriam de ser completamente diferentes da racionalidade e eficiência formais. Em vez disso, a democracia é sacrossanta mesmo entre a esquerda – na realidade uma ideologia da mais pura água. Esta ideologia esconde o facto de que a luta de todos contra todos e a concorrência são os princípios básicos da ordem existente, sugerindo que todos têm o mesmo direito a participar e a tomar decisões. Este fenómeno é mais visível hoje do que no passado, quando o Estado social (ou mesmo a ilusão dele), que era suposto compensar e esconder este dilema, se desmorona devido aos processos descritos. A democracia não é assim uma “associação de pessoas livres” (Marx), mas sim a dominação do imperativo da valorização.

Ao mesmo tempo, o estado de excepção e a democracia também pertencem um ao outro. Não são opostos, como frequentemente se afirma, mesmo que sejam fenomenologicamente diferentes, claro, e por exemplo, a liberdade de expressão seja amplamente permitida na democracia, o que obviamente deve ser evidente, sobretudo do ponto de vista da crítica da dissociação-valor, para além de todos os cálculos de valorização numa ideologia de liberdade, igualdade e fraternidade. No patriarcado capitalista, porém, está inteiramente associada à lógica da valorização e a uma conexa forma de dominação/organização chamada democracia, e as livres expressões de opinião são também correspondentes, ou seja, são ainda, em regra, afirmativas em toda a sua pluralidade. A livre expressão de opinião é assim vazia, um talk show do qual nada se segue.

O estado de excepção não pode ser pensado longe da democracia, como algo completamente diferente que se lhe oporia. A legislação do estado de necessidade, que se coloca fora da democracia com legislação especial, está num certo sentido tanto fora como dentro da democracia. Ambos estão, por assim dizer, numa relação dialéctica entre si. A democracia na Europa foi primeiro um passo em frente, em contraste com as relações feudais e personalizantes. Hoje tem de ser ultrapassada. A democracia e o fascismo estão assim num continuum de modernização; assim o nacional-socialismo na Alemanha, com a sua legislação “extrademocrática”, como soberano que dispõe do estado de excepção, também tinha um lado “progressista”, na medida em que era um continuador do capitalismo numa determinada fase, através de medidas keynesiano-tayloristas. O Holocausto tem de ser visto como inserido na história específica de modernização da Alemanha, pelo que, neste contexto, seria também necessário examinar o que motivou os perpetradores a agirem como o fizeram.

No entanto, isto não deve levar a localizar a dialéctica de democracia e estado de excepção exclusivamente no nacional-socialismo alemão (como eu, como alemã, comecei por fazer aqui). Um estado de excepção nunca foi estranho aos chamados países do Terceiro Mundo, uma vez que estes nunca entraram realmente na esfera da liberdade e igualdade, mesmo que fenomenologicamente também aqui houvesse/haja governos democráticos.

Hoje em dia pode ser observada uma tensão entre o politicamente correcto e orientações autoritárias basicamente em toda a parte. Tudo, incluindo a crise fundamental, é suposto ser resolúvel e controlável na imanência no interior de uma democracia. Entretanto, depois de Trump, é de novo a vez de Biden. Uma ilusão substitui a outra, pelo que já ninguém acredita realmente que algo possa ser controlado aqui. A suposição generalizada nos media de que as teorias da conspiração põem em perigo a democracia mostra assim apenas que a relação entre excepção e democracia é justaposta de modo puramente externo, para acabar a dar vivas à “democracia”. Não se vê que a democracia, à qual as teorias da conspiração nunca foram alheias (nos EUA parecem estar tradicionalmente muito difundidas), se destrói a si própria. Daí também hoje – graças ao coronavírus – a inversão em que os democratas oficiais declaram o estado de excepção e os de direita e populistas insistem ferozmente nas liberdades civis. O caos está a alastrar por baixo da organização oficial (política) e provavelmente também dentro dela. Já nada funciona, desde os caminhos-de-ferro ao serviço postal, ao sistema de saúde etc., cada vez mais também nos países ocidentais. Isto é comparável às condições que sempre existiram na chamada periferia (países do Terceiro Mundo). Neste contexto, valeria a pena examinar até que ponto as ditaduras (militares) no Terceiro Mundo são de algum modo comparáveis com o fascismo e o nacional-socialismo. Mesmo que certos fenómenos se assemelhem uns aos outros, elas encontram-se em contextos diferentes – e, no entanto, também situados numa continuidade de modernização – em que Estados como o Brasil estão num processo de modernização atrasada, embora esta modernização esteja em colapso nos dias de hoje. De certa maneira, poder-se-ia mesmo dizer que a democracia sempre devorou os seus filhos. É de suspeitar que é apenas uma sugestão pensar que Bolsonaro possa controlar toda a sociedade brasileira; pois aqui demasiadas áreas (favelas etc.) já estavam, em certa medida, fora da sociedade capitalista e da possibilidade de controlar a população supérflua, mesmo que ainda vivam na informal gestão de resíduos da mesma. A este respeito, é uma ilusão do fascismo pensar que tudo pode ser realmente controlado. Mais provável é a desintegração de toda a ordem, que se pretende defender autoritariamente, mas sem êxito, e que cada vez mais abre caminho ao aparecimento de pequenos déspotas abaixo da “ordem” oficial e dos seus aparentemente omnipotentes governadoresque já se tornaram eles próprios corruptos. O estado de excepção nunca foi estranho a tais países, uma vez que a plena capitalização nunca foi comum como nos centros e o Estado de direito nem sequer chegava às favelas, que no entanto estavam ligadas à ordem capitalista sob a forma de serviços e redes formais e informais, por exemplo, através da economia informal, gestão de resíduos, mulheres de limpeza das favelas etc. Como disse, a crise do coronavírus acelera este estado de coisas e de modo nenhum o desencadeia, como poderia parecer. A este respeito, pode ser afirmado: A dissociação-valor como princípio contraditório de socialização não esquece ninguém na desintegração do patriarcado capitalista. Neste contexto é preciso combater ao máximo as ideologias fascistas e as conexos pretensos fautores da ordem, que levam ainda mais fundo a uma barbárie pós-pós-moderna.

A esquerda e as feministas teriam de pensar sobre isto e sobre o que fazer então, em vez de se entregarem a pseudo-concepções (open source, economia solidária, economia comunitária, Green New Deal), em que também é popular um romantismo do movimento, seguindo Gramsci, Hardt/Negri e outras concepções operaistas. Teria de haver reflexões de uma maneira emancipatória sobre como o sistema no seu todo e nas suas partes individuais podem continuar a ser trazidos para uma relação com sentido, e isto num contexto de desmantelamento do racismo, sexismo, anti-semitismo, anticiganismo, discriminação por idade e deficiência, que representam o Outro da liberdade e igualdade. Isto teria de ser feito na totalidade, no contexto de uma crítica da dissociação-valor que a si mesma se relativiza, ou seja, em que valor, trabalho abstracto, trabalho doméstico, capital, política, democracia, Estado e uma correspondente forma de sujeito têm simplesmente de ser abolidos (e não apenas superados, como uma simples dialéctica implicaria) se não se tornarem eles próprios obsoletos, como já acontece hojemas de uma forma bárbara. Em vez disso, toma-se a saída fácil, por assim dizer, vulgarmente utópica (no sentido de uma “utopia concreta” – Bloch) e tenta-se sair da miséria, por exemplo, através da economia do bem comum e de um Green New Deal, ou seja, por caminhos que, do ponto de vista da crítica da dissociação-valor, ainda se movem sempre de facto na situação dada. A este respeito, não pode tratar-se de uma realização da promessa burguesa de liberdade e igualdade, que estruturalmente inclui sempre o racismo, o sexismo e afins, ou seja, Outros subalternos, também noutros continentes. Por conseguinte, não pode tratar-se de nada menos do que de ultrapassar a socialização da dissociação-valor como um todo, no sentido de um processo histórico-social global abrangente, para além dos princípios e promessas democráticos.

XI – Diz que o ódio às mulheres está de novo a aumentar. A que atribui este fenómeno? Pensa que movimentos demasiado preocupados com a estética, como as feministas que visam libertar o corpo, ou as tendências queer, não só não conseguem quebrar a opressão (patriarcal, homofóbica etc.), como também “provocam” uma violência ainda mais fascista?

R.S. Tenho de admitir que “o ódio às mulheres está de novo a aumentar” é um título escolhido por uma revista que me entrevistou sem o discutir comigo. Penso que a violência contra as mulheres está de facto a aumentar de novo (nas relações, na família, nas ondas de indignação etc.) até e incluindo feminicídios. Isto tem a ver com o facto de as mulheres serem mais visíveis em público, terem também alcançado os homens em termos de educação, e o seu emprego remunerado também ter aumentado nas últimas décadas, apesar de serem simultaneamente responsáveis tanto pela família como pela carreira e ainda escolherem frequentemente profissões tipicamente femininas (cuidados, ensino etc.). Os homens, por outro lado, estão agora igualmente ameaçados por relações de emprego precárias e já não são o ganha-pão nem o chefe da família, como é óbvio. As ofensas daí resultantes podem depois expressar-se em violência contra as mulheres. Isto também pode ter algo a ver com o reforço dos desenvolvimentos de direita, e também com o aumento das condições anómicas na desintegração do patriarcado capitalista (aumento das estruturas de poder informais, como expresso, por exemplo, no domínio da máfia, do crime organizado e da prostituição forçada). Na crise do coronavírus, a violência contra as mulheres está a aumentar devido ao efeito de estufa das restrições de contacto nas relações íntimas e nas famílias, e porque as pessoas estão constantemente postas umas em cima das outras.

É preciso dizer, contudo, que a violência contra as mulheres já existia mesmo antes disso. Especialmente desde os anos noventa, porém, este deixou praticamente de ser um tema de discussão. Com o colapso do bloco de Leste, o neoliberalismo e o capitalismo de casino celebraram os seus triunfos. Isto foi acompanhado pelo conto de fadas do individualismo sem limites. Falou-se também de uma “sociedade multi-opção”. O que também afectou o género; foi amplamente assumido que havia uma confusão entre os sexos. O espírito do tempo de então não queria ter mais nada a ver com opressão e relações violentas. Não admira que o desconstrucionismo tenha sido capaz de prosperar neste clima, sugerindo – em leitura superficial – uma arbitrariedade para mudar de sexo. Os queer preocupavam-se principalmente com o reconhecimento de sexualidades “desviantes”. Hoje vemos novamente que, para além de Marx, também temos de recorrer a Freud para podermos analisar as camadas profundas psicossociais, e explicar porque é que a confusão dos sexos não foi tão longe como se pensava, e porque é que certas atitudes e comportamentos permanecem – ainda que numa forma modificada.

No entanto, para mim o discurso sobre a violência no feminismo é demasiado superficial. Ignora mecanismos subtis da dominação patriarcal. Não foi só uma vez que experimentei como em contextos de esquerda os chamados ‘bonzinhos’ se revelaram ‘machos’, por isso o homem metrossexual (heterossexual), que também sugere ser gay ou bi, foi/é possivelmente também apenas uma fase de trânsito para a barbárie patriarcal pós-pós-moderna, como lubrificante, por assim dizer. Talvez isto devesse ser investigado da mesma maneira que os misóginos ‘celibatários involuntários’ que hoje em dia estão a receber muita atenção.

Assim, também teria de haver maior atenção a considerações psicanalíticas quando se trata de criticar a heterossexualidade compulsiva (Judith Butler mais tarde também remeteu para a psicanálise a este respeito); a referência à língua, ao discurso, à cultura, o tornar queer a economia, a ciência, os media, a política, o direito etc. não é suficiente aqui, mantendo-se ainda no quadro de um heteropatriarcado social. Neste contexto, tem-se frequentemente a impressão de que os proponentes do “queer” não são tanto os afectados por ele, mas sim membros de uma cultura de dominação heterossexual que o utilizam para obter uma justificação ideológica nas relações flexíveis compulsivas que, na realidade, lhes repugnam. Não se trata daqueles que de facto sofrem das condições de heterossexualidade compulsiva e de género compulsivo. A grande atenção dos media para o “sexualmente diferente”, o “queer” também deve provavelmente ser vista neste contexto.

Contra este pano de fundo, teria de haver um escândalo muito mais estridente perante a heterossexualidade compulsiva (ou a “heteronormatividade”, como é tão maravilhosamente chamada no jargão científico queer). A este respeito, não acredito que a política e a teoria queer sejam parcialmente responsáveis pelo reforço da direita. Pelo contrário, a política queer e a teoria queer eram demasiado mansas, demasiado lúdicas, demasiado inofensivas e apaixonadas por particularidades para realmente tirar dos eixos a “heteronormatividade”. Também deveriam ter reflectido sobre o seu carácter ideológico e o seu enquadramento no contexto neoliberal e ter-se colocado a uma distância crítica.

Embora o corpo fosse um ponto de referência central para parte do movimento das mulheres nos anos setenta e oitenta – sobretudo no que diz respeito a um discurso ecológico (com tendências questionáveis para uma naturalização das questões de género) – nos anos noventa havia quase apenas a mulher desencarnada ou o ser humano desencarnado. O corpo era considerado principalmente como um produto do discurso e era percebido como constituído por signos e significados.

Por isso não surpreende que um feminismo ou desconstrucionismo queer também tenha encontrado favor na esfera pop-cultural, por exemplo, Madonna foi durante muito tempo considerada como um ícone do feminismo desconstrucionista com os seus jogos sobre o significado.

Hoje em dia, tendo em conta as catástrofes ecológicas cada vez mais visíveis, penso que é tempo de incluir o corpo sexual na análise da sociedade, mas não de maneira biologista naturalizadora, na forma de uma falsa imediatidade. Apesar de toda a confusão dos géneros e da sua construção, ainda existe um substrato corporal-natural que não se dissolve simplesmente no estar-no-meio do género e na arbitrariedade, e ainda influencia sexualidades “desviantes” e sensações de género, mesmo que esteja sujeito a condições sociais e sócio-históricas, das quais, no entanto, não se pode concluir em termos de esterótipo de género por uma unificação a partir deste substrato. Sem a assunção de tal substrato corporal, que não é simplesmente absorvido pela “construção”, vários outros conceitos e percepções de género também não fariam sentido. A este respeito, também teria de ser repensada uma dialéctica sexo-género-natureza-cultura, que na pós-modernidade foi completamente dissolvida na cultura, e que também seria capaz de ver a transexualidade e a intersexualidade sob uma nova luz, que teria de ser reconhecida como “não-idêntica” para além do “normal”. A partir daqui poderia ser considerada uma certa fluidez de género. Neste contexto (ver acima), considerações da teoria da pulsão também teriam de ser incluídas na crítica da sociedade (sabendo, naturalmente, que “a pulsão” é algo plástico e sujeito a condições históricas e sociais).

Mesmo que o reforço da direita não tenha nada a ver directamente com a teoria queer e a crítica queer – como se viu superficialmente – objectivamente e de um ponto de vista social total eles são no entanto mutuamente dependentes e não formam verdadeiros opostos; pelo contrário, fazem parte de um continuum pós-modernista na decadência do patriarcado capitalista, que se mostra na procura de apoio e segurança, por um lado, e na celebração da alegada liberdade do indivíduo flexível, por outro. Uma teoria social emancipatória teria de reflectir sobre isto, bem como sobre a decadência avançada dos critérios e atribuições correntes hoje em dia. Isto pode ser visto, por exemplo, no facto de que lésbicas e gays, mas também migrantes e judeus podem estar na AfD, mas também em movimentos transversais em geral, nos quais os sentimentos de direita e de esquerda formam uma amálgama. Já houve tais distorções antes, por exemplo na República de Weimar na Alemanha, mas valeria a pena considerar se estas distorções estão hoje a assumir uma nova qualidade e um carácter muito mais geral. Aqui também é importante romper com as populares suposições de localização na esquerda e com um correspondente feminismo interseccional. 

(1) SCHOLZ, Roswitha. “Die Maske des roten Todes. Kasinokapitalismus, Frauenbewegung und DekonstruktionKrisisis n. 15, 1995. Trad, port.: A máscara da morte vermelha: capitalismo de casino, movimento feminista e desconstrução, online: http://www.obeco-online.org/roswitha_scholz27.htm

(2) URBAN, Andreas. Velhice (envelhecimento) e dissociação-valor. Revista Exit!: crise e crítica da sociedade das mercadorias [online]. Lisboa, 2000, não paginado. Disponível em: http://www.obeco-online.org/andreas_urban1.pdf

(3) SCHOLZ, Roswitha. “A democracia continua a devorar os seus filhos – hoje ainda mais!” Revista Exit!: Crise e crítica da sociedade das mercadorias [online]. Lisboa, 2000, não paginado. Disponível em: http://www.obeco-online.org/roswitha_scholz32.htm; Robert Kurz, A democracia devora seus filhos, Rio de Janeiro, Consequência, 2020.

Original “Interview mit Roswitha Scholz (2021) in der brasilianischen Zeitschrift ‘Revista Margem Esquerda – Ed. Boitempo’ zur Entwicklung der Wert-Abspaltungskritik” in: http://www.exit-online.org, 28.02.2022. Tradução de Boaventura Antunes

http://obeco.planetaclix.pt/

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