O médio oriente e a síndrome do anti-semitismo – Robert Kurz

Um novo formato de guerra e de mundo

Capítulo 4 do Livro “A GUERRA DE ORDENAMENTO MUNDIAL” Robert Kurz, Janeiro 2003

No processo de barbarização e autodestruição do sistema mundial dominante, existe um foco de tensão em que se enredam de um modo singular a destrutiva globalização capitalista, a história e a constituição ideológica do mundo moderno, nos seus limites sistémicos históricos – é o Médio Oriente, com Israel e o chamado conflito palestiniano ao centro. À primeira vista parece tratar-se, antes de mais, do campo mais importante do imperialismo ocidental do petróleo. O que, naturalmente, é certo, tendo em conta o bruto interesse da cultura de combustão capitalista. Mas o conflito não se circunscreve de modo nenhum a esse aspecto; pelo contrário, inclui ainda outra dimensão essencial, completamente diferente, que é a lógica do anti-semitismo, como ideologia de crise capitalista central, e a constituição do estado de Israel a ela associada, estado este que por isso mesmo não é um estado como os outros.

 

A religião de combustão capitalista e os regimes do petróleo

Ainda assim, o quadro seria incompleto e enganador se deixássemos totalmente de parte o pano de fundo dos interesses do imperialismo ocidental do petróleo, relativamente ao conflito do Médio Oriente. Como o Médio Oriente, devido a motivos naturais e geográficos que se prendem com a localização das jazidas, é e continua a ser a fonte principal de combustível da máquina mundial capitalista, também tem de se concentrar aqui a intervenção do “imperialista global ideal” como polícia mundial. Este é um aspecto não despiciendo da definição culturalista do inimigo contra o Islão; pois é precisamente junto às sacrossantas fontes da religião de combustão capitalista, onde o fim em si irracional da “valorização do valor” por assim dizer se materializa em termos energéticos, que os produtos islâmicos da barbarização induzida pela globalização são forçosamente sentidos como especialmente “perturbadores” e perigosos (muito mais do que, por exemplo, no Paquistão ou na Indonésia).

Como em qualquer outro aspecto, também e especialmente neste terreno específico da globalização e da intervenção policial mundial o “imperialismo global ideal” se envolve em contradições insolúveis, que deixam transparecer, por detrás do pragmatismo da racionalidade do objectivo, a loucura objectivada do sistema e dos seus protagonistas.

É o caso, antes de mais, do posicionamento face ao próprio mundo árabe e muçulmano. Uma ditadura ocidental manifesta sobre todo o espaço central da extracção de petróleo seria um estado de emergência dificilmente sustentável por muito tempo, e que teria muito provavelmente repercussões catastróficas sobre a frágil construção babélica do capital financeiro transnacional nas nuvens. Por isso, a polícia mundial do imperialismo global tem de envidar todos os esforços, segundo um padrão bem tradicional, para atrair à sua esfera de influência os regimes autóctones da região, a fim de os utilizar como sub-soberanos legitimatórios, “porta-aviões” e xerifes auxiliares militares.

No caldeirão fervilhante de um espaço em que vivem centenas de milhões de pessoas, das quais todos os anos cada vez mais são socialmente esmagadas sob o rolo compressor da globalização capitalista, tal estratégia de policiamento mundial só pode acabar por dar maus resultados. A riqueza do petróleo, que, devido ao seu estatuto especial na estrutura do sistema mundial, é um objecto especulativo materializado a um nível de preços correspondentemente sujeito a oscilações intempestivas, tem um carácter extremamente propício à exclusão: a esmagadora maioria dos árabes é empurrada para o nível da pobreza e da miséria, ao passo que a minúscula classe superior da riqueza energética de crise se apresenta com uma obscenidade até no Terceiro Mundo excepcional. Os “projectos de desenvolvimento” da economia interna dos diversos regimes petrolíferos árabes, com especial destaque para os da região do Golfo, que contam de longe com os maiores níveis de extracção e de reservas, em grande medida não passaram das palavras e da cosmética, apesar da sua imensa capacidade financeira; a maior parte dos “petrodólares” tem sido e vai sendo bombeada sem delongas para os mercados financeiros transnacionais, em vez de ser aplicada em investimentos reais, constituindo um segmento do “capital fictício”, na superstrutura financeira especulativa da terceira revolução industrial.

Ainda assim, vistos em conjunto, os regimes petrolíferos do Médio Oriente, incluindo os países árabes e o Irão, subdividem-se em duas formas diferentes, ainda hoje visíveis, embora já mitigadas, e que remetem para pontos de partida diametralmente opostos. Por um lado, temos os antigos regimes de modernização atrasada, com projectos de industrialização entretanto todos eles falhados, mas que em tempos foram prosseguidos com toda a seriedade, os quais apresentam uma constituição republicana e um ditatorial “culto do líder”, de que Saddam Hussein e Khaddafi são exemplos. Por outro lado, há as monarquias formalmente arcaicas, que exercem regimes de terror clericais-feudais, e que parecem saídas de uma versão hollywoodesca das “trevas medievais”, ou da fantasia pubertária de um Karl May. Se os regimes de modernização republicanos e ditatoriais, como no Egipto, no Iraque, na Algéria etc., foram em regra laicos, as monarquias (todas elas sunitas), os sultanatos, emiratos etc., com suas bizarras linhas de príncipes, constituíram desde o início “teocracias” sintéticas, com uma legitimação islamista arqui-reaccionária, cuja expressão religiosa não remonta de modo nenhum ao Islão pré-moderno, resultando pelo contrário da sua inserção absurda e intrinsecamente contraditória na modernidade e no mercado mundial capitalistas.

Isto aplica-se especialmente ao regime do deserto saudita, que apenas no século XX surgiu sob a sua forma estatal actual. A dinastia saudita deriva do movimento sunita dos wahhabitas, fundado no século XVIII pelo líder de uma seita religiosa chamado Abd-al-Wahhab, e ao qual aderiu o xeque do deserto Ibn Saud. Os wahhabitas empenharam-se desde o início no “regresso” reaccionário a uma fantasmagórica “forma original” do Islão, entendida como interpretação rudemente literal das escrituras e associada a aspectos exteriores rituais extremamente rígidos, a uma dominação de carrascos especialmente draconiana e a uma opressão exacerbada das mulheres. Sob a forma da monarquia saudita, esta louca construção religiosa – uma versão muçulmana precoce das seitas mais ou menos político-religiosas, que hoje se expandem globalmente e em grande quantidade, no âmbito do processo de desagregação pós-moderno – assumiu a forma exterior de um Estado moderno, insuflado pela riqueza do petróleo proporcionada pelo capitalismo.

Uma posição intermédia, entre os regimes de modernização laicos falhados e as teocracias monárquicas reaccionárias, que desde o início apenas constituíram formas de nicho político-religiosas e ao mesmo tempo um segmento tudo menos independente do capitalismo financeiro global, é a do regime do islamismo xiita no Irão, saído da deposição violenta da monarquia do Xá (1979): aqui entrecruzam-se tentativas de modernização sob a forma de projectos industriais com uma teocracia retrógrada, assim como um regime formalmente republicano com uma constituição quase religiosa, o que impediu (deixando de parte a iconização, mais religiosa que política, da figura de Khomeini) a formação de um culto do líder, como no caso das ditaduras laicas.

Ora, no processo de crise da globalização, também no Médio Oriente as tentativas de modernização independente foram entretanto tão completamente arruinadas e arrasadas que em todos os regimes da região se iniciou um processo de asselvajamento e de reconversão. Os últimos ditadores-dinossauros da industrialização falhada, que simultaneamente já não podem agora oscilar entre as superpotências, como durante a Guerra Fria, tornam-se imprevisíveis e prestam-se a aventuras fantasmagóricas, como por exemplo Saddam Hussein; sob as fachadas caducas das formas do Estado, como no resto do mundo, vai-se estabelecendo o domínio dos clãs e dos bandos armados; e o momento ideológico da universalidade social vai-se deslocando cada vez mais para a forma da loucura pseudo-religiosa militante.

Neste contexto, na base da produção de mercadorias capitalista e do mercado mundial, a religião não pode voltar a ser a constituição reprodutiva da sociedade, como nas sociedades agrárias pré-modernas, nem pode substituir-se à política moderna; antes se converte, no Médio Oriente de forma mais extremada do que noutro lado qualquer, numa ideologia de crise destrutiva e assassina que, longe de superar o insustentável regime das relações de concorrência capitalistas, o exacerba numa configuração fantasmática, dando expressão à pulsão de morte da razão moderna no momento da sua falência mundial. Uma vez que o Médio Oriente sob muitos aspectos constitui um foco das contradições do capitalismo mundial actual, também é ali que a manifesta pulsão de morte assume proporções sociais especialmente drásticas. Neste sentido todos os países muçulmanos do Médio Oriente, mesmo os que até à data têm sido laicos, resvalam para um processo de decomposição islamista e carregam-se de ideias de ódio pseudo-religiosas.

É eloquente o facto de o imperialismo do petróleo e da segurança de todo o Ocidente, sob a égide dos EUA, ter desde o início tentado cimentar o seu domínio sobre este espaço eminentemente estratégico apoiando-se em primeira linha nas teocracias monárquicas reaccionárias. Para sub-representantes autóctones, não se deu preferência aos regimes laicos de modernização, que à primeira vista eram muito mais próximos do modo de vida ocidental, mas sim aos regimes de pesadelo político-clericais da monarquia saudita, dos sultanatos, emiratos e reinos da tortura, perfeitamente disfuncionais quanto à modernização; e assim aconteceu, não apesar de, mas precisamente porque, na sua essência, se apresentam como especialmente sinistros e, ao mesmo tempo, absolutamente incapazes de independência económica ou militar. E não foi de modo nenhum por acaso que, por outro lado, estados como o Iraque, a Líbia e a república islâmica xiita do Irão foram declarados “estados vilãos”, embora esteja comprovado que nesses países, por exemplo, ainda hoje a posição da mulher é relativamente melhor do que nas monarquias teocráticas reaccionárias.

O “imperialismo global ideal” tem escolhido para “potências amigas” da região petrolífera central, com uma pontaria infalível, os regimes de loucura e terror mais instáveis e mais absurdos, como que saídos de um conto de fadas sanguinolento. Indirecta e involuntariamente, trata-se de uma dupla confissão: em primeiro lugar, de que a pretensão ocidental de dominação é ela própria na sua essência maligna e irracional; e, em segundo lugar, que o “desenvolvimento” e a “modernização” na realidade nunca estiveram especialmente previstos para a região mais importante de extracção do petróleo, ao contrário da ideologia oficial. Foram necessários pactos diabólicos com os piores e mais reaccionários monstros feudais, caracterizados desde o início pela hipocrisia islâmica e pelo reinado do terror de uma “charia” interpretada de modo arcaico, para proteger as costas do reles e pseudo-racional materialismo dos interesses da cultura de combustão capitalista na região petrolífera central. Quanto mais países o Ocidente define como “Estados vilãos”, mais os seus próprios amigos e ajudantes nas regiões de crise se assemelham a patifes hollywoodescos, ou a figuras nascidas da imaginação de Hieronymus Bosch.

A Némesis desta espécie de monstros com legitimação imperial não se fez rogada. Nas rupturas e abalos da globalização, que desestabilizaram as bases socioeconómicas de todos os regimes do Médio Oriente ou até já as varreram, os regimes clericais-feudais amigos do Ocidente constituem precisamente o seio de onde brotam os demónios do islamismo “anti-ocidental”, sem qualquer perspectiva de vida emancipatória. À semelhança do que ocorre em todo o mundo e no seu próprio interior, também aqui são sobretudo as próprias criaturas do “imperialismo global ideal” que, perante a nova qualidade dos processos de decomposição social, escapam dos seus laboratórios politico-estratégicos, para errarem através do império do petróleo com especial intensidade, como “factores de perturbação” que espalham um terror cego.

Não é de modo nenhum por acaso que justamente a versão wahhabita do Islão, um credo sectário especialmente primitivo e brutal, que ao mesmo tempo constitui a religião de estado do reino saudita, se tornou o terreno de onde brotou grande parte do submundo do terrorismo islâmico e das suas várias correntes. Os príncipes do terror, encabeçados pelo tristemente famoso Osama bin Laden, os seus ideólogos e colaboradores mais próximos, são a noventa por cento descendentes dos mesmos clãs clericais-feudais em que o Ocidente se apoia, por as suas figuras de horror melhor se adequarem à própria pretensão de domínio imperial. No decorrer da crise socioeconómica, porém, que cada vez mais escapa a qualquer controlo, os demónios de criação própria rapidamente se tornam muito mais imprevisíveis e perigosos do que os dinossauros remanescentes dos regimes da modernização falhada. O Ocidente recebe das sociedades secretas do terror, wahhabitas e afins, não só o que merece, mas também o que ele próprio alimentou e educou.

 

O anti-imperialismo e a ideologia de crise anti-semita

Uma vez que os regimes petrolíferos, de modo completamente anacrónico clericais-feudais e simultaneamente do capitalismo financeiro, sempre foram um apoio demasiado inseguro, houve necessidade de uma segunda e diferente potência da segurança na região petrolífera central; e não é segredo que o estado de Israel, como preço amargo da sua existência, em grande medida, embora não sem contradições, tem de exercer a função de cacete do “imperialismo global ideal” ocidental apontado aos lugar-tenentes inseguros dos regimes árabes, ameaçados nos seus países pelos ressentimentos anti-ocidentais. Só por isso é que Israel foi protegido pelos EUA, recebeu quantidades generosas de armamentos de alta tecnologia e apoio material maciço dos estados ocidentais. Por si só Israel ainda hoje não seria economicamente viável, ou em todo o caso não o seria no nível de vida actual, que se destaca flagrantemente dos países árabes circundantes, com elevados padrões à moda ocidental (embora com as mesmas disparidades internas entre ricos e pobres, entretanto também existentes no Ocidente).

Estes factos económicos e político-militares foram e continuam a ser aduzidos vezes sem conta contra Israel, com mostras de uma agressividade furiosa, a partir de posições tradicionais da esquerda “anti-imperialista”; uma identificação do inimigo que radica no contexto do paradigma, ele próprio há muito falido, da “libertação nacional”, como forma da modernização atrasada na periferia Sul do mercado mundial. Até hoje, em todo o Terceiro Mundo Israel é tido na conta de um algoz do imperialismo e de um “estado ilegal”, que no fundo nem sequer deveria existir. Os interesses próprios defendidos por Israel neste contexto são percebidos como uma mera pretensão sub-imperial, ou quase colonial; o nacionalismo de Israel e o seu expansionismo, por via do movimento dos colonatos e da conquista militar, são considerados quase que a encarnação do nacionalismo puro e duro, ao passo que a autodefinição etno-religiosa do estado de Israel (incluindo a discriminação oficial e jurídica dos cidadãos não judeus) é encarada como a encarnação do racismo no seu pior.

A contrapotência mundial soviética, que agregava os retardatários históricos da periferia do mercado mundial com uma ideologia de legitimação “marxista”, sempre se esforçou por forjar uma aliança com os regimes de modernização laicos árabes e construiu, sob a sigla do “sionismo”, uma imagem do inimigo anti-israelita, que reflectia a aliança de Israel com o capitalismo e imperialismo ocidental – “Israel foi, ao longo da Guerra Fria, um aliado militar estimado (dos EUA), as suas forças armadas testaram-lhes os sistemas de armamento, e os seus serviços secretos estavam disponíveis para operações que a CIA não podia levar a cabo” (Birnbaum 2002). Na época da Guerra Fria, a maior parte da esquerda política de todo o mundo adoptou esta imagem do inimigo, sob a palavra de ordem do “anti-sionismo”. Israel foi inteiramente subsumido à constelação do conflito então prevalecente, dos movimentos anti-imperialistas “revolucionários nacionais” do Terceiro Mundo contra o império ocidental da Pax Americana. O preço que Israel teve de pagar ao imperialismo pela sua existência foi convertido em argumento “anti-imperialista” contra essa mesma existência.

Assim, no entanto, ficaram necessariamente ofuscados um aspecto completamente diferente e uma dimensão muito mais essencial do desenvolvimento do capitalismo mundial, que o anti-imperialismo tradicional, com a sua perspectiva redutora, não pôde nem quis perceber. O que escapava a esse modo de ver o mundo era o papel decisivo do anti-semitismo no contexto da constituição ideológica burguesa e, com isso, um plano de contradição central do próprio imperialismo. Embora a esquerda sempre tivesse assinalado Auschwitz e o Holocausto como um grande crime dos nazis, ela sempre tendeu a minimizar o papel do anti-semitismo, e nunca o quis compreender com elemento essencial ou constituinte do nacional-socialismo em particular e do capitalismo em geral.

Esta falta específica de compreensão, por outro lado, explica-se em última instância pelo deficit geral de que padecem as esquerdas marxistas, do movimento operário e anti-imperialista, tanto no centro como na periferia, e que consiste em terem permanecido circunscritas às categorias sociais da relação de capital (do moderno sistema produtor de mercadorias): ou seja, precisamente à opção por uma equiparação, participação e cogovernação jurídico-política da “classe operária” e das suas instituições como cidadãos do Estado, por um lado; e à opção pela modernização atrasada e pela participação independente no mercado mundial, como sujeito económico nacional e estatal nacional, por outro. Sob esta perspectiva, na qual um limite e uma crise objectivos das categorias sociais capitalistas se afiguravam impensáveis (tanto para os sociais-democratas como para os leninistas), a atenção teve de se centrar no conteúdo e no horizonte do interesse socioeconómico e político, aparentemente racional, das elaborações ideológicas. Por outras palavras: a ideologia era associada ao conteúdo do interesse dos sujeitos do sistema produtor de mercadorias – a “classe operária” contra a “classe capitalista”, a “libertação nacional” contra o “imperialismo”.

O anti-semitismo moderno pôde assim, quando muito, ser entendido como uma espécie de manobra de diversão ideológica secundária da “classe dominante”, ou como uma ideologia de interesse concorrente específica da “pequena burguesia”, que teria por fim distrair a “classe operária” ou os “povos oprimidos” dos seus reais interesses (teoria da manipulação). O que mais uma vez ficou completamente de fora foi a dimensão ideológica do contexto da forma social, que vai para além das classes e das nações e é objectivada em termos históricos, de trabalho abstracto, valor, forma da mercadoria, dinheiro, produção em regime de economia empresarial, mercado (mundial) e Estado. Pelo contrário, este contexto formal apresentava-se, quer em termos teóricos quer em termos práticos, como fundamento ontológico intransponível de qualquer vida em sociedade.

Assim teve de permanecer incompreendido que não só o moderno sistema produtor de mercadorias disfarça e reveste nessa forma “interesses” aparente e superficialmente divergentes, mas, das contradições e crises da constituição formal moderna comum, abrangente de todas as categorias sociais, também surgem criações ideológicas comuns, transversais às classes, que são muito mais essenciais e perigosas do que a transparente e superficial legitimação de “interesses” formados pelo capitalismo das várias classes, camadas sociais e funcionários. Todos os momentos de “mundividência”, padrões explicativos e ideias condutoras da acção que não pareciam dedutíveis da sociologia das classes, foram assim mal entendidos no seu alcance e desdenhados como meras manobras de diversão.

Assim, a esquerda do movimento operário e marxista, tal como mais ainda a esquerda radical (e não menos a esquerda anarquista), nem sequer se aperceberam de que elas próprias tinham assumido positivamente partes essenciais da ideologia burguesa, como “legado” da história ideológica e intelectual protestante e iluminista na formação do sistema produtor de mercadorias. Incluindo em especial a canonização da abstracção “trabalho” que, com o seu carácter de fim em si repressivo, tinha passado directamente do ideário do protestantismo e do chamado iluminismo do século XVIII para a ideologia do movimento operário. Ao invocar precisamente o “trabalho” como ponto de referência central, pretensamente oposto ao capital, a esquerda mais não fez que jogar um estado de agregação do capital contra outro. Deste modo, o “trabalho” não se apresentava como aquilo que de facto é, ou seja, a forma de actividade especificamente capitalista (o “trabalho abstracto” em Marx), portanto um conceito inteiramente pertencente ao capital e uma relação real correspondente, mas como uma categoria ontológica da humanidade.

Desta comunhão ideológica central com o capital, definido como adversário de modo meramente superficial e sociologicamente redutor, tiveram forçosamente de nascer, por um lado, outros interesses comuns inconfessados, assim como, por outro lado, essa total subestimação das ideologias de crise e de destruição, que são o racismo e o anti-semitismo. Uma vez que o movimento operário ocidental, os regimes de modernização atrasada do Leste e os “movimentos de libertação nacional” do Sul se limitaram a actuar no âmbito das formas sociais comuns do capital, afirmando com o “trabalho” a forma de actividade capitalista, apenas foram capazes de formular uma crítica redutora da relação de capital, que ficou para trás da concepção de Marx do capital como relação fetichista irracional. Em parte, lamentava-se apenas a falta de capacidade de regulação estatal do sistema produtor de mercadorias pela sua representação burguesa, em parte, criticava-se a subordinação do “trabalho produtivo” ao “capital financeiro”, sem se dar conta da ligação intrínseca, mediada (e crescentemente de crise) entre o “trabalho produtivo” e o “capital financeiro” (capital monetário que rende de juros e especulativo).

Esta crítica do capitalismo notoriamente redutora sempre apresentou pontos de contacto com a ideologia anti-semita. Pois o anti-semitismo pôde ascender ao estatuto de uma poderosa ideologia de crise da modernidade precisamente pelo facto de exteriorizar e naturalizar em termos sociobiológicos as contradições internas da sociedade constituída à maneira capitalista e de todos os seus sujeitos: “os judeus” tornaram-se a representação negativa do capitalismo financeiro “improdutivo” e a encarnação de todas as manifestações destrutivas da moderna sociedade produtora de mercadorias, entroncando em atribuições desse género oriundas já da Idade Média e dos primórdios da modernidade (como fora o caso, por exemplo, das tiradas de agitação anti-semita de Martinho Lutero). Ao que se devia contrapor, como pólo oposto e positivo, o “trabalho honesto” e o “capital produtivo”; no caso dos nazis, tal acontecia, como é sabido, sob a forma da contraposição do capital “rapace” (“judeu”) ao capital “criador” (“alemão” ou “nacional”). Em lugar da crítica das formas reais e transversais às classes do sistema produtor de mercadorias, surge assim a culpabilização maliciosa imputada a um grupo de sujeitos específico, definido pela “raça”, segundo o mote: o “trabalho”, o valor, o dinheiro e a forma do capital seriam maravilhosos e uma bênção se não fossem os judeus. Esta atribuição, que fingia “explicar” a relação sistémica, em si irracional, com recurso a uma dimensão adicional de irracionalidade, ascendeu ao estatuto de explicação do mundo ideologicamente assassina por excelência.

É verdade que a ideologia do movimento operário e dos “movimentos de libertação nacional” anti-coloniais sempre se demarcou das correntes abertamente anti-semitas, invocando, em vez da fantasmática “oposição das raças”, a oposição social entre as classes e a oposição nacional de interesses entre as economias ou os Estados nacionais, coloniais ou pós-coloniais, e o imperialismo ocidental.

No entanto, em primeiro lugar, também esta “ideologia de libertação” social, aparentemente mais racional, se deteve, de modo semelhante ao do anti-semitismo, no plano subjectivo das meras relações de vontade e de poder, sem aflorar o plano da constituição desses sujeitos (ou seja, o modo como estes são formatados pelas categorias do sistema produtor de mercadorias). Não foi a negatividade da relação formal comum, ou seja, também da própria forma de sujeito, o que passou a ser o alvo da crítica, mas apenas o “poder” negativo dos “sujeitos contrários”: no caso dos anti-semitas, o poder subjectivo e a maldade atribuídos à “contra-raça judia”; no caso do movimento operário, o poder subjectivo e o suposto “poder de disposição” da “contraclasse social”; no caso dos “movimentos de libertação nacional”, o poder subjectivo e o poder de intervenção global das potências centrais imperiais.

Uma vez que ficaram parados, tal como o anti-semitismo, no mesmo plano lógico de uma subjectividade da vontade apenas “estabelecida” por definição e não derivada do relacionamento da forma social, plano esse resultante de uma crítica do capitalismo redutora semelhante (embora não idêntica), o movimento operário, o “movimento de libertação nacional” e a esquerda radical não conseguiam aperceber-se dos seus pontos de contacto implícitos com o anti-semitismo. O mesmo se aplicava, por maioria de razão, à ontologização e adoração do “trabalho produtivo”, que igualmente partilhavam com os anti-semitas.

Com isso, porém, e em segundo lugar, também teve de permanecer incompreendida a perigosidade transversal às classes da ideologia anti-semita. A redução ao horizonte sociológico das classes da forma do interesse constituída no capitalismo e a ontologia supra-histórica do “trabalho” deram azo à ilusão de que a “classe operária” e os “povos oprimidos”, devido aos seus interesses impostos pelo capitalismo e à sua ontologia existencial, já seriam “em si” (independentemente da sua consciência real) forças transcendentes, cuja potência suposta como “objectivamente” suplantadora do sistema apenas precisava de ser canalizada através das “lutas” sociais. A forma da concorrência, inerente à sua forma constituída de sujeito, parecia ser apenas um comportamento imposto de fora pelo “contrapoder” subjectivo, “não autêntico”, no fundo alheio; assim sendo, também o anti-semitismo se afigurava ser uma ideologia “estranha à classe”, simplesmente imposta por erro ou manipulação.

Tinha de passar completamente ao lado deste pensamento que a emancipação social da relação de capital, embora seja possível em princípio, de modo algum se encontra prefigurada “em si” pela posição “objectiva” de determinadas classes, ou de outros sujeitos modernos, na estrutura do sistema produtor de mercadorias; trata-se aqui de uma ilusão objectivista, que também Marx ainda tinha formulado, em contraposição à sua própria teoria crítica da modernidade como uma relação social fetichista. Pelo contrário, todos os sujeitos deste sistema sem excepção, ou seja, mesmo a “classe operária” e os “povos oprimidos” etc. encontram-se, devido à sua própria forma constituída pelo sistema (forma de reprodução e de sujeito), igualmente bem longe da passagem para a emancipação desta forma social negativa. A formação de uma consciência radicalmente crítica contra essa forma (consciência essa de que a esquerda radical até hoje não se aproximou, e muito menos os movimentos sociais) é possível; mas apenas a partir da assimilação negativa das experiências de sofrimento e impertinência nesta forma, e não devido a alguma base ontológica positiva. Não existe nenhuma determinação ontológica supostamente “fora” ou “abaixo” do sistema (por exemplo, na forma do trabalho) e que assim pudesse servir de alavanca objectiva para derrubar a relação social repressiva e destrutiva.

Por isso, as “lutas” sociais e outras não são per se à partida emancipatórias, nem mesmo as “lutas” da classe operária, de grupos e minorias oprimidos etc. Pelo contrário, a “luta”, sob a forma da concorrência, é a forma geral de movimento do próprio sistema capitalista. O mesmo se aplica também às diversas formas de continuação da concorrência por outros meios, particularmente à violência imediata.

Ir além da forma da concorrência, ou seja, ir também além da própria forma de sujeito exige – como uma vez se expressou Marx – uma “consciência enorme”, coisa que de modo nenhum é sugerida pelo próprio estado das coisas. Pelo contrário, o que se desenvolve espontaneamente é a concorrência até às últimas consequências, no âmbito da forma de sujeito constituída comum. Neste contexto, a concorrência entre trabalhadores assalariados e entidades representantes do capital (administração, associações patronais, etc.) constitui apenas um plano das multifacetadas formas de desenvolvimento da concorrência. Aqui enquadra-se, evidentemente, a própria concorrência entre os vários capitais, entre os vários ramos, entre as facções e os agrupamentos dos trabalhadores assalariados, entre as economias e os Estados nacionais etc; mas também as conotações “étnicas” e racistas das relações de concorrência e, por fim (como reacção extrema), a sua transcendência aparente no anti-semitismo.

É precisamente este contexto de uma rede complexa de múltiplas linhas da concorrência que não tem de modo nenhum uma base subjectiva e manipuladora, mas sim uma base objectiva na forma geral de sujeito do sistema produtor de mercadorias, por intermédio do trabalho, do dinheiro e do Estado, enquanto a ruptura emancipatória da “jaula de ferro” dessa mesma forma não pode ser objectiva, no sentido de uma determinação do comportamento. Uma vez pressuposto o sistema produtor de mercadorias e a sua forma de actuação abstracta e irracional como definição ontológica inultrapassável, pode muito bem ser do interesse “objectivo” de trabalhadores assalariados prover a concorrência de uma conotação nacionalista, racista etc., ou querer subtrair-se fantasmaticamente a ela, recorrendo à ideologia anti-semita.

É certo que na história do movimento operário também existiu algo como um desejo transcendente de libertação do jugo da concorrência, desejo de uma sociedade solidária, para além do sistema moderno. No entanto, estes momentos extravagantes tiveram de ficar sem resposta, precisamente porque os movimentos sociais da modernidade até à data não conseguiram chegar a um conceito dessa transcendência, nem portanto a um agir correspondente.

A crítica redutora do capitalismo no âmbito das formas do próprio capital também se atolou necessariamente nas formas de desenvolvimento da concorrência. A chacina mútua dos trabalhadores assalariados nas guerras mundiais não foi por isso uma traição, nem um comportamento contrário à sua natureza ontológica, mas sim a consequência da sua própria forma de sujeito, afirmada em vez de criticada. Nem os partidos políticos operários, nem os sindicatos (só esta divisão em representação política e representação social já remete para a forma de constituição burguesa do movimento operário) conseguiram alguma vez desenvolver uma força solidária que fosse além das relações de concorrência. A superação da concorrência permanecia parcial e limitada ao motivo da igualdade burguesa, ao passo que a inserção nas relações de concorrência continuava a ser universal.

Tal como já na luta de interesses quotidiana regulada institucionalmente os movimentos sociais eram perpassados pela lógica da concorrência, o mesmo se passou na explosão de violência das guerras mundiais entre as potências imperiais nacionais. Nesse quadro, o risco social da concorrência universal tornou-se imediatamente manifesto como risco de morte, e com isso se tornou evidente a consequência última da forma de sujeito geral da modernidade. O mesmo se pode dizer sobre o poder do anti-semitismo, e sobre a derrota do movimento operário europeu face ao fascismo e ao nacional-socialismo. Também esta catástrofe foi consequência do envolvimento no sistema da concorrência internacional. Existe até uma relação directa entre a continuação da concorrência pelas guerras mundiais e a continuação da concorrência pelo surgimento do anti-semitismo em todas as classes e camadas sociais.

Os sindicatos, os partidos marxistas e mesmo a esquerda radical apenas foram concebidos para resolver o conflito de interesses supostamente “racional”, no invólucro formal do sistema produtor de mercadorias. Mesmo a agudização militante da luta nunca saiu do espaço da racionalidade burguesa. A esquerda fechou-se no carácter em si irracional do sistema e, por isso, nas crises foi regularmente cilindrada pela erupção poderosa dessa irracionalidade. Enquanto a esquerda, mesmo no meio das crises mais graves, queria manter de pé o “interesse racional” já não realizável da forma burguesa, apesar da derrocada temporária objectiva dessa forma, o anti-semitismo afirmava a própria irracionalidade do interesse, como vontade de exclusão e de aniquilação, e por isso mesmo obtinha um poderoso efeito social.

O anti-semitismo não é (contrariamente ao racismo comum) uma figura da concorrência entre outras, mas sim a ultima ratio da concorrência, numa situação em que a resolução imanente e aparentemente racional da concorrência deixa de ser viável. Em tal situação, a própria forma de sujeito burguesa geral ameaça quebrar-se. O anti-semitismo promete uma saída sem pôr em causa esta forma de sujeito comum do sistema, ao externalizar o problema de um modo irracional e assassino. É assim que ele, apesar e precisamente por causa do seu carácter intelectualmente primário, pode exercer uma atracção transversal às classes sobre uma grande massa de indivíduos constituídos pelo capitalismo, do desempregado ao gestor, do agricultor sem terra do Terceiro Mundo ao príncipe do petróleo, do serralheiro mecânico ao banqueiro de investimento, da mãe solteira à modelo, do aluno do ensino especial ao intelectual com formação académica.

Por outras palavras: a síndrome anti-semita constitui a última e extrema reserva da ideologia de crise do sistema produtor de mercadorias moderno. O anti-semitismo espreita na própria forma de sujeito burguesa geral; ele é invocado regularmente quando a crise irrompe, e é-o de um modo tanto mais maciço quanto mais violentamente se manifesta a crise. Assim, a era das guerras mundiais e da grande crise económica mundial foi acompanhada por uma onda de anti-semitismo sem precedentes. Na Alemanha, que, na história específica da sua constituição capitalista como nação, tinha chocado uma versão especialmente agressiva e eliminatória da síndrome anti-semita, com particular efeito de profundidade social, esta onda submergiu as próprias instituições do Estado: aqui, o anti-semitismo, na situação de crise económica mundial, não só foi aproveitado como válvula para a agressividade social acumulada das relações de concorrência, mas foi elevado a doutrina de Estado e realizado sob a forma do crime contra a Humanidade do Holocausto.

Não foi de modo nenhum por acaso que o nacional-socialismo alemão constituiu, ao mesmo tempo, uma formação social em que a pulsão de morte da forma vazia da subjectividade capitalista se manifestou numa dimensão até aí nunca vista. É que a lógica do anti-semitismo e a pulsão de morte e aniquilação da subjectividade capitalista que lhe é inerente estão estreitamente próximas uma da outra; o latente e irracional desejo de destruição do mundo, no vazio metafísico do valor e do seu movimento de valorização como fim em si, exprime-se na agudização extrema como desejo de aniquilação dirigido contra os judeus e, simultaneamente, como desejo de auto-aniquilação, como desejo da destruição de qualquer existência física em geral.

Em termos puramente exteriores, militares e de poder político, os nazis perderam a Segunda Guerra Mundial; mas, na realização até hoje mais extensa do desejo de aniquilação do mundo que espreita no âmago do capital, eles tiveram um enorme êxito, na identificação da aniquilação industrializada dos judeus com a auto-aniquilação organizada. A esquerda, agarrada à racionalidade burguesa superficial, e que não conseguiu chegar à crítica das formas fundamentais do capitalismo, nem portanto também à crítica nem ao abandono da sua própria forma de sujeito constituída de modo capitalista, teve assim de passar necessariamente ao lado do vazio dessa forma, do potencial demoníaco de pura irracionalidade que lhe é inerente e das suas consequências destruidoras, e daí também ao lado da essência do anti-semitismo moderno.

O reverso deste deficit catastrófico foi, depois da Segunda Guerra Mundial, o igualmente deficitário e alegre anti-sionismo da esquerda, que não quis reconhecer a dimensão do Estado judaico como consequência do anti-semitismo moderno na história mundial e no capitalismo mundial, mas subsumiu Israel no paradigma anti-imperialista dos movimentos revolucionários nacionais do Terceiro Mundo, cuja crítica do capitalismo era ainda muito mais pesadamente redutora que a do movimento operário ocidental.

 

O estado de Israel e o seu estatuto paradoxal no mundo capitalista

Certamente também ao estado de Israel, que é evidentemente parte integrante da economia mundial capitalista, podem ser atribuídos, dada a sua forma, todos os atributos negativos da estatalidade moderna e do moderno sistema produtor de mercadorias. Mas, devido ao seu carácter singular, já que constitui em última instância um produto involuntário dos nazis e da lógica de aniquilação da subjectividade capitalista na sua extrema agudização, este estado é o primeiro, o último e o único a conter um momento decisivo de justificação, que aliás faltou desde o início a todos os estados revolucionários nacionais do Terceiro Mundo (os quais, afinal, todos começaram muito rapidamente a assumir expressões bem feias). Trata-se de um estado capitalista que é expressão da forma de sujeito capitalista, mas que, simultaneamente e numa articulação paradoxal, representa a necessidade e a legítima defesa extremas contra essa mesma forma de sujeito.

E evidentemente que pode apresentar-se em princípio contra o sionismo – que foi afinal, ao nível das ideias, um produto da formação nacionalista europeia do século XIX e do início do século XX – o mesmo tipo de crítica que contra o nacionalismo moderno em geral; no entanto isso só é possível se ignorarmos o contexto específico da sua génese e o analisarmos de modo perfeitamente abstracto e isolado, como apenas mais um nacionalismo ao lado de tantos outros. Ora o sionismo não estava no mesmo plano dos restantes nacionalismos. Pelo contrário, era eminentemente um produto secundário da experiência do grande sofrimento judaico, com especial relevo para a exclusão sentida na Alemanha e na Áustria, dado que as nações europeias não tinham vontade nem capacidade de integrar os judeus, antes necessitavam do anti-semitismo como constructo do “outro” (da alteridade), para poderem definir-se a si próprias como identidade nacional positiva.

Esta definição da alteridade também assumia outras expressões, tais como o racismo colonial e a delimitação culturalista das nações europeias entre si; mas o anti-semitismo constituía a sua expressão mais extrema. Assim, o que é válido para o estado judaico enquanto Estado também se aplica ao nacionalismo sionista enquanto nacionalismo: como legítima defesa contra o próprio nacionalismo europeu primordial e a forma como este definiu a alteridade, ele apenas pode ser aquilo que é numa articulação paradoxal com a sua própria negação.

O mesmo se aplica às componentes socialistas do sionismo, componentes essas que são insuficientes, uma vez que não transcendem decisivamente o moderno sistema produtor de mercadorias. Estas, evidentemente, permaneceram igualmente redutoras e integradas no sistema de referência do estado-nação, tal como a crítica do capitalismo do movimento operário ocidental (a cujo ideário os elementos socialistas do sionismo foram afinal beber) e, muito mais ainda, a dos movimentos de libertação nacional do Terceiro Mundo. Em associação com o aparelho de Estado e com o pathos nacional, o socialismo sionista, tal como os partidos operários do resto do mundo, teve de se aproximar dessa tendência de regulamentação social que acompanhava a constituição das nacionalidades europeias e que, desde os finais do século XIX até à Segunda Guerra Mundial, determinou a história geral do desenvolvimento dos centros capitalistas; assim aconteceu, por exemplo, sob a forma do estado social de Bismarck e das participações tardias da social-democracia no governo e, de um modo geral, na formação das burocracias do trabalho e sociais, do Estado-providência, etc. – desenvolvimento este que, como é do conhecimento geral, também caracterizou, em protoformas de regulação fordista, o fascismo e o nacional-socialismo. É, no entanto, uma deturpação pérfida recriminar especialmente ao sionismo a sua quota-parte específica num desenvolvimento estrutural geral e abrangente, associando ao mesmo tempo o momento socialista redutor ao socialismo nacional dos assassinos nazis.

Tudo isto passa a fazer sentido se for encarado precisamente na perspectiva inversa. Com respeito à qualidade socialista do sionismo (ou melhor: do chamado sionismo trabalhista) até pode constatar-se-lhe, em termos empíricos, um aspecto emancipatório particular: é que, sob a forma dos kibutzim, este momento em Israel acabou por não assumir uma forma capitalista de Estado e repressiva, como aconteceu por toda a parte, mas assumiu uma forma cooperativa e de autogestão, que em mais lado nenhum do mundo pôde adquirir um significado semelhante. Evidentemente que também esta forma ainda continuava amarrada ao sistema produtor de mercadorias; no entanto, continha um elemento que remete para além dele, mesmo que associado a uma ideologia comunitária sob muitos aspectos mesquinha, ao pretender uma relação interna não na forma da mercadoria, para além do dinheiro e do Estado nos seus aspectos da reprodução.

Deste modo, tudo o que pode dizer-se contra o nacionalismo de um modo geral apenas se aplica ao sionismo de um modo condicional e paradoxalmente articulado com o seu contrário. Apesar das suas relações quase-coloniais na região mundial do Médio Oriente, Israel não é um projecto essencialmente colonial, como tantas vezes foi designado pelo discurso revolucionário nacional dos movimentos terceiro-mundistas, ele próprio há muito falido; antes é, no essencial, um projecto de emergência e de salvamento, perante a síndrome anti-semita associada à forma de sujeito moderna.

É por isso que, de um ponto de vista emancipatório, também não se pode instaurar o processo a Israel, pelo facto de dever realmente tanto a sua fundação como a sua existência e segurança militar ao imperialismo do petróleo ocidental. Justamente ao contrário, é preciso dizer que é vergonhoso e deprimente que o direito à existência de Israel não tenha outra garantia senão esta garantia infame; vergonhosa precisamente para a esquerda do mundo inteiro, que nunca foi capaz de conceder a este direito à existência uma garantia melhor, ou mesmo apenas um apoio, sendo que até se furtou sempre a reconhecer por princípio esse direito à existência. A crítica redutora do capitalismo formulada pelo movimento operário, pelos movimentos de libertação nacional e pelo radicalismo de esquerda até hoje, apenas superficial, actuando de modo irreflectido no interior da forma do sujeito e do interesse capitalista, constitui ela própria uma condição histórica para que Israel não tivesse outra escolha senão alcançar o seu direito à existência encostando-se ao imperialismo do petróleo ocidental.

No entanto, é precisamente uma garantia deste tipo que é extremamente contraditória e, por isso, insegura. O “imperialismo global ideal” do Ocidente não apoia a existência de Israel com base numa consciência da verdadeira ligação entre o anti-semitismo e o sionismo, que aliás lhe é perfeitamente indiferente. Mais ainda: uma vez que o anti-semitismo constitui simultaneamente a última reserva ideológica do sistema, a motivação do imperialismo do petróleo, por um lado, e a motivação da “administração da crise” para a ideologia via tolerância da síndrome anti-semita ou até desencadeamento da mesma, por outro, entram numa contradição que não pode ser mediada.

Numa situação mundial agudizada, não é de modo nenhum impensável (embora na actualidade nada para aí aponte) que o “imperialismo global ideal” deixe cair Israel e abra a válvula do anti-semitismo, tendo em vista as suas contradições internas. De resto, na mesma medida em que a atenção ocidental se vira para as reservas petrolíferas do Mar Cáspio, também neste plano do reles interesse a precária garantia do direito à existência de Israel corre o risco de caducar. Outra variante do abandono de Israel poderia consistir em o Ocidente, no caso de uma crise petrolífera que ameaçasse o capitalismo mundial na sua existência (por exemplo, por uma desestabilização aguda e ameaça de derrube das monarquias do petróleo), atirar Israel aos monstros feudais do capital financeiro árabes, a fim de salvar a sua economia mundial.

 

O fim dos “movimentos de libertação nacional” e o fantasma da fundação do estado palestiniano

A crítica de esquerda e anti-imperialista do sionismo (no fundo, o conceito de crítica é aqui descabido; trata-se mais de um ódio a refogar em lume brando, que talvez se alimente também da intuição do carácter duvidoso das próprias motivações) teve assim de passar completamente ao largo da verdadeira natureza do problema. Tudo o que os chamados movimentos de libertação revolucionários nacionais do Terceiro Mundo foram capazes de apresentar em argumentos contra o sionismo aplicava-se em primeiro lugar a eles próprios de forma potenciada; e, em segundo lugar, faltava-lhes por completo essa dimensão mais profunda de justificação, que para o sionismo decorria necessariamente do potencial anti-semita do capitalismo mundial, especialmente do crime alemão contra a humanidade. A legitimação – de resto ilusória, como há muito está comprovado – de uma participação autónoma, enquanto sujeito como economia nacional e como Estado-nação no mercado mundial, não só foi muito mais fraca do que a invocada pelo sionismo, como andou associada desde o início e por todo o Terceiro Mundo (independentemente do colorido ideológico) às situações repressivas do capitalismo de Estado e aos extremos profundamente anti-emancipatórios do culto do “líder”.

Depois de o paradigma da “libertação nacional” anti-imperialista ter ficado sem efeito, nas condições da terceira revolução industrial e da globalização, e depois de os próprios regimes ou movimentos correspondentes há muito terem resvalado para processos de decomposição bárbaros, também o discurso de esquerda e marxista correspondente perdeu a razão de ser, ou então assume traços abertamente anti-semitas em relação ao sionismo e à crítica do capitalismo, afastando-se de vez das intenções emancipatórias originais: desenvolvimento este que, no entanto, desde sempre esteve latente no entendimento categorialmente redutor e negativamente imanente do pensamento anti-imperialista e socialista, e que agora, na hora da sua falência, se torna manifesto.

O fim inglório do paradigma da revolução nacional anti-imperialista na era da globalização é assinalado pelas múltiplas manifestações de embrutecimento moral e barbarização dos regimes desenvolvimentistas fracassados no mercado mundial, pela transformação dos líderes remanescentes de uma guerrilha que em tempos se reclamara dos ideais de esquerda em vulgares senhores da guerra da economia de saque, em barões da droga, sequestradores em busca de resgates, etc. Onde a pretensão de constituir um Estado com base numa revolução nacional ficou por cumprir, mas apesar de tudo é mantida, embora o desenvolvimento do capitalismo mundial já há muito a tivesse ultrapassado, o asselvajamento e embrutecimento dessa pretensão absurda assumem formas especialmente drásticas e hediondas.

Isto aplica-se, independentemente de quaisquer especificidades nacionais ou diferenças culturais, tanto ao movimento dos curdos como aos rebeldes chechenos ou aos separatistas tamil, para apenas referir alguns exemplos. Tal não pode justificar, nem a repressão bárbara por parte de grandes Estados de passado imperial, como a Turquia e a Rússia, eles próprios perfeitamente instáveis e cilindrados pelo mercado mundial, ou por um regime étnico como o cingalês no Sri Lanka, nem as intervenções não menos bárbaras da nova polícia mundial do imperialismo global. Mas, sob as condições mundiais modificadas, os “movimentos de libertação nacional” já não constituem uma alternativa, nem sequer ilusória, o que apenas quer dizer que já nenhuma “modernização” pode ser portadora de pretensões emancipatórias, uma vez que já não há desenvolvimento possível na base do moderno sistema produtor de mercadorias e do Estado-nação por ele gerado, restando apenas a desintegração social e a barbárie.

Esta situação histórica modificada em nenhum dos irrealizados projectos revolucionários nacionais sobrantes da época antiga se torna tão evidente como no caso palestiniano, que se encontra paradoxalmente ligado a Israel numa intimidade hostil. Se já os Estados realmente fundados na esteira dos movimentos tricontinentais, e que em tempos estiveram carregados de ideais mais burgueses e iluministas do que comunistas, entretanto fracassaram no mercado mundial e na sua própria constituição e forma de sujeito burguesa, o projecto palestiniano, tornado irreal para lá desse horizonte de realização, assume traços a bem dizer horrendos. Trata-se do projecto zombie de uma época defunta, a que já não sobra qualquer momento emancipatório, e que já apenas assombra o mundo como um espírito maligno.

O assombramento da OLP, encarnado em Yasser Arafat como figura trágica de um morto-vivo histórico, remete no entanto para o carácter desde sempre negativo das constituições estatais pretensamente emancipatórias da modernização atrasada. Depois de esta ilusão se ter definitivamente dissipado no decurso da globalização capitalista, também se torna empiricamente manifesto que o “direito a um Estado próprio” ou o “direito a fundar um Estado” representa o preciso oposto da libertação social. Sob as condições do início do século XXI, esta palavra de ordem apenas pôde revelar-se como o “direito” a capitular “autónomamente” perante as leis da lógica da valorização capitalista global, e a “poder” executar pela própria mão o processo da degradação social. Com a mesma lógica poder-se-ia reclamar o “direito a um administrador de falência próprio” ou o “direito a um torcionário próprio”, da mesma carne e sangue étnicos.

Nesta medida, a visão de Estado da OLP constitui realmente um dos últimos redutos da ideologia burguesa do iluminismo, que se revelou até ao reconhecimento do seu teor profundamente repressivo e destrutivo. O que faz falta aos palestinianos não é um “estado próprio”, mas sim o acesso autónomo a recursos materiais, sociais e culturais que hoje são objecto de restrições tão rígidas como desprovidas de sentido impostas pela forma “Estado”, precisamente em nome do terror económico globalizado. A insistência na opção do Estado-nação há muito obsoleta, que no caso dos habitantes da Palestina é o constructo ideológico mais tardio do encobrimento institucional e cultural do sistema produtor de mercadorias, e portanto o mais transparente em termos históricos, assume traços profundamente patológicos.

O estado-fantasma palestiniano, por conseguinte, é o primeiro que já antes da sua fundação oficial entrou em processo de decomposição e apodrecimento. A formação de um Estado e a sua decomposição coincidem aqui de imediato, o que constitui um paradoxo histórico. Ainda antes que pudesse desenvolver-se um aparelho de Estado abrangente, com legitimação e história próprias, tomam o seu lugar estruturas de clã, senhores da guerra e estruturas mafiosas.

Simultaneamente, o estado secular palestiniano é triturado pela islamização pseudo-religiosa, ainda antes da sua fundação. Como resquício dos impulsos no sentido de uma modernização laica, a OLP trava uma luta perdida de antemão. Os movimentos islamistas do Hamas e da Jihad começam a suplantá-la e, vendo-se a OLP constrangida a fazer concessões aos mesmos, o seu projecto de fundação de um Estado vai perdendo cada vez mais a legitimação assente na política de modernização.

O que resta é a irracionalidade pura do ódio cego, sem qualquer perspectiva político-social. O constructo ideológico moderno de “povo”, formado com base em critérios etnopolíticos, encontra na versão palestiniana a sua horrenda desconstrução real: ao refugiar-se no universalismo abstracto da guerra religiosa e ao enviar os seus próprios filhos para “academias suicidárias”, este “povo” construído admite pelos factos que já não tem qualquer esperança de futuro, que já deixou de constituir um potencial “povo de Estado”, para se converter numa massa amorfa de desesperados sem objectivo.

Esta versão palestiniana de uma sociedade pós-moderna em derrocada, e que já nem uma sociedade é, também é perpassada pelas estruturas da violência masculina desenfreada e pelo “asselvajamento do patriarcado”. Por um lado, não deixa de constituir o cúmulo da individualização pós-moderna das “oportunidades” que, entretanto, também uma ou outra palestiniana adolescente já desperdice a sua vida não vivida como bombista suicida (e é o cúmulo do asselvajamento do patriarcado que tenha sido industriada para isso por homens barbudos). Mas, ainda assim, a identidade palestiniana de destruição e autodestruição não deixa de ser essencialmente a da subjectividade concorrencial masculina.

Neste clima de absoluta falta de objectivos e de futuro, além da impossibilidade de pensar a constituição de uma nação, o anti-semitismo que há muito tempo anima o ódio palestiniano (tratados nazis de toda a espécie circulam no “sistema educativo” palestiniano, como o indescritível panfleto e primária falsificação chamado Protocolos dos Sábios de Sião, etc.) também é de natureza diferente do anti-semitismo europeu e alemão. No processo de constituição nacional, que, sobretudo no caso da Alemanha dos inícios do século XIX, atrasada na história, foi acompanhado de uma ideologia etnoculturalista e biologista do “étnico”, que remonta a Herder e Fichte, o anti-semitismo (eliminatório na Alemanha e na Áustria) constituiu o fermento dessa formação “étnica” do Estado-nação, ao construir os judeus como alteridade negativa.

No entanto, este fermento já não pode fazer efeito na versão palestiniana, nem mesmo com uma conotação cultural diferente, porque o parto estatal do constructo nacional palestiniano, na era da globalização e do capitalismo de crise, apenas poderá dar origem a um nado-morto. A formação “étnica” já está a desfazer-se nos seus produtos de decomposição pós-nacionais (no caso vertente, islamistas) antes mesmo de poder ter-se afirmado a nível institucional. O anti-semitismo, na sua versão actual palestiniano-árabe, onde já não reside qualquer força de formação social, torna-se assim directamente, muito mais abertamente do que no caso dos nazis, o momento da pulsão de morte de uma subjectividade capitalista completamente desorientada; por isso se manifesta também imediatamente como obsessão de bombistas suicidas.

A destruição física da infra-estrutura palestiniana, já de si escassa, pela condução da guerra de Sharon poderá contribuir para a criação de lendas de uma “luta heróica”; no entanto, nem sequer foram necessários os crimes de guerra do exército israelita, nem a odiosa política israelita de fragmentação em relação ao território potencialmente palestiniano, para arruinar por completo o estado da Palestina, ainda antes da sua fundação. Já de si, um estado palestiniano, pelas suas próprias forças (leia-se: capacidade de participação no mercado mundial, já nada mais conta) ainda é muito menos capaz de sobreviver que o israelita, mesmo num nível de pobreza árabe médio. Na falta de possibilidades de desenvolvimento reais, o aparelho da OLP desde o início se viu reduzido ao estatuto de recebedor de esmolas da Liga Árabe (como é óbvio, sobretudo dos príncipes do petróleo), da União Europeia, dos EUA, etc. (aproximadamente por esta ordem) e, como tal, a fazer fé em inúmeros testemunhos, está totalmente carcomido pela corrupção. Antes do último capítulo da Intifada, os tiroteios e os assassínios por encomenda entre grupos rivais já eram tão quotidianos como em qualquer outra região em desagregação. Os “acertos de contas” entre palestinianos, executados pelos próprios produtos da barbarização, pouco ou nada ficam a dever à repressão israelita, e só a política de guerra de Sharon os fez passar temporariamente para segundo plano.

O facto de não só os próprios palestinianos mas também a União Europeia, os EUA e o “imperialismo global ideal” do Ocidente, e até mesmo em parte a política israelita insistirem na opção totalmente obsoleta da fundação de um Estado palestiniano só demonstra o grau de desorientação e desfasamento da realidade a que chegou todo o “realismo” oficial. Ninguém quer aceitar como verdadeiro que as velhas fórmulas da emancipação, do “desenvolvimento”, da democracia, etc. ficaram totalmente desvalorizadas e inválidas. Enquanto não surgir um movimento de oposição social qualitativamente novo, radicalmente anticapitalista e, no seu entendimento próprio, à partida transnacional e pós-estatal, a fatalidade dos processos de dissolução e de autodestruição apenas pode seguir o seu percurso; e na Palestina de um modo mais literalmente suicida e sem perspectivas do que em qualquer outro lugar. Os enunciados assustadoramente desamparados e sem ideias dos poucos representantes da inteligência crítica que restam no espaço palestiniano e árabe em nada poderão alterar esta realidade, uma vez que apenas são expressão do facto de até à data nem mesmo a aflição extrema conseguir encorajar o pensamento a libertar-se dos paradigmas obsoletos da época passada.

 

Israel como Alien no mundo capitalista e o novo anti-semitismo árabe

Israel não constitui de modo nenhum uma excepção a este amargo diagnóstico. O que é tanto mais trágico, porque Israel não é exactamente apenas um estado entre Estados e um concorrente do estado palestiniano virtual, mas é ao mesmo tempo um paradigma, referente ao mundo inteiro, contra o anti-semitismo inseparavelmente ligado às formas de reprodução capitalistas – e, com isso, apesar do seu envolvimento na estrutura imperial ocidental, é ao mesmo tempo um potencial de resistência contra a última reserva ideológica de crise do capital mundial. A simples existência de Israel constitui uma espécie de garantia de que a marcha do sistema mundial produtor de mercadorias ainda não pode acabar na barbárie; não porque ao estado de Israel seja imanente uma qualidade metafísica em si especial, mas, precisamente ao contrário, porque a existência real de Israel é inconciliável com as derradeiras consequências da metafísica real capitalista.

Nesta medida, o significado (involuntário) de Israel com respeito à crise mundial capitalista merece uma análise muito mais pormenorizada do que, por exemplo, a sociedade palestiniana, ou qualquer outra sociedade em crise da periferia; é que, no caso do desenvolvimento israelita, se bem que se trate de um processo de crise análogo, este no entanto está carregado de um significado adicional que influencia directamente o destino do mundo inteiro.

Israel, de facto, apenas pode sobreviver como aquilo que é, na sua existência estatal moderna, enquanto não tiver consciência da essência dessa existência no âmbito da história mundial. O paradoxo desta existência encontra a sua base na existência capitalista dos judeus em geral. De um modo tão irreflectido como todas as outras pessoas no quotidiano (ou, no campo do pensamento conceptual: de um modo tão redutor como todos os teóricos modernos), também eles, na sua falsa imediatidade, não querem desde logo outra coisa senão “trabalhar”, “ganhar dinheiro”, “ser cientistas”, etc. e adquirir de qualquer modo uma identidade capitalista normal. Contudo o anti-semitismo profundamente arreigado na modernidade não o permite. Quanto mais normais querem ser os indivíduos judeus, mais cruelmente são contrariados pela definição alheia que os trata como o cúmulo da alteridade. A sua pura vontade de normalidade cruza-se com a pura anormalidade ou monstruosidade da relação de capital.

O conformismo judeu, também na sua forma tornada Estado como membro da hipócrita “comunidade das nações” (ou seja: da comunidade concorrencial e assassina de monstros nacionais e estatais), vê-se já sempre confrontado com o problema de, com todo o seu esforço de adaptação, mesmo sobredeterminado, ser ao mesmo tempo definido a priori como um Alien. Esta representação do judeu como monstro, representando como representa diabolicamente a autocontradição dilacerante da subjectividade capitalista, vai muito além de todas as relações concorrenciais, rivalidades e racismos “normais”, e mesmo da “exotização” cultural colonialista.

Em todas estas relações negativas e definições da alteridade, ainda assim, a humanidade formada no capitalismo reconhece-se, através de todos os conflitos, na sua humanidade burguesa e negativa. O anti-semitismo, porém, é o outro da própria concorrência: ele estabelece uma estranheza absoluta, que não é senão a auto-alienação social do ser produtor de mercadorias, o qual, como sujeito metafísico da forma vazia do valor, não é deste mundo sem deixar de estar neste mundo; e ele exterioriza esta auto-alienação absoluta na figura do judeu, como o absolutamente outro e inconciliavelmente estranho, ou seja, como aquele que também já não pode ser mediado nem pacificado politicamente.

O mesmo se aplica também ao estado de Israel como Estado. Assim, os israelitas apenas podem ser um povo de Estado e um estado entre Estados se ao mesmo tempo representarem para todos os outros o absolutamente outro, como negatividade abstracta, quer queiram quer não. Esta situação tem sido colocada repetidamente e com toda a acuidade por autores judeus, tanto dentro como fora de Israel, como é o caso em Nathan Glaser 1975: “A maior parte do tempo, os judeus têm querido ser como todos os outros. Até a fundação do estado de Israel foi ironicamente fruto do esforço para fazer com que os judeus possam ser iguais a todos os outros: de ora em diante teriam um estado e assim deixariam de ser um estranho povo sem pátria, para serem um povo como todos os outros. Mas não foi isso que aconteceu. Israel reforçou o estatuto especial dos judeus, não o reduziu. Nenhum outro Estado sabe de forma tão definitiva que uma guerra perdida significaria a sua destruição e o seu desaparecimento” (citado segundo: Eisenstadt 1987/1985, 576).

Neste contexto há que distinguir, no entanto, entre o “estatuto especial” dos judeus, no sentido da posição do estado de Israel no âmbito da história e da política mundial, no contexto do anti-semitismo moderno e da sua função social, por um lado, e a relação concorrencial específica e imediatamente hostil para com todos os seus vizinhos árabes, por outro, que de modo algum esteve associada à partida ao anti-semitismo moderno (primariamente ocidental). Por isso a hostilidade árabe para com Israel, pelo menos nos seus começos, não pode ser equiparada de imediato ao “estatuto específico” dos judeus na sociedade mundial, ou porventura ao anti-semitismo eliminatório dos nazis.

O não reconhecimento de Israel por parte dos árabes (e sobretudo onde ele é oficial) originalmente refere-se apenas à existência como Estado, e não à existência física ou social dos seres humanos que o compõem. Por outras palavras: aos judeus na Palestina não se reconhece (em inversão do problema palestiniano) o “direito a um estado próprio”, mas não se lhes nega o direito à vida. A ideia é que vivam como cidadãos de um imaginário estado palestino-árabe, pretendendo-se que de um modo tão subalterno e encurralado em “homelands” como é agora o caso dos palestinianos sob a soberania israelita. Tal significaria, evidentemente, que Israel deixaria de existir como local de refúgio para os perseguidos do anti-semitismo global. Mas este aspecto do problema, de qualquer modo, nunca interessou ao lado palestino-árabe. Os representantes palestinianos falam de si próprios, no melhor dos casos, como “vítimas das vítimas”, sem quererem reflectir o contexto da sociedade mundial capitalista e das suas destrutivas contradições.

Mas esta atitude desde logo não é a mesma coisa que o anti-semitismo eliminatório dos nazis, ou que o anti-semitismo ocidental de um modo geral. No espaço árabe, os judeus não se encontram à partida definidos como a alteridade absoluta, no processo nacional de constituição de um Estado e de modernização. Até hoje existem, na maior parte dos países do Médio Oriente, comunidades judaicas com sinagogas e com possibilidade de viverem relativamente sem sobressaltos, mesmo na república islamista do Irão. A pressão migratória em direcção a Israel, que evidentemente existe, não se deve a grandes ondas de perseguições, mas tem a sua origem em outros motivos (culturais e sobretudo sociais). Mesmo no estado actual da escalada do ódio, uma derrota militar de Israel, embora também acarretasse as tradicionais chacinas vingativas, saques e expulsões, o que seria horrível o suficiente, provavelmente não conduziria, para além da perda da sua existência como Estado, a um assassínio em massa dos judeus segundo o padrão dos nazis, que não foi afinal o resultado de um real conflito de interesses moderno típico, na área de confluência e atrito de contradições reais, mas tinha a sua origem directamente nas entranhas da metafísica geral do sujeito capitalista – ou seja, passava-se a um nível de abstracção completamente diferente e, precisamente por isso, foi executado de modo tão extremado e desprovido de sentimentos. A singularidade de Auschwitz não é superada pela hostilidade árabe aos judeus.

Se o potencial de ódio palestino-árabe a Israel entretanto está realmente a carregar-se de momentos de anti-semitismo importado da Europa e do Ocidente, por exemplo nas tiradas de alguns media palestinianos e no “sistema educativo” da autoridade autónoma, isso deve-se menos à contradição real, devida a conflitos de interesses em torno da posse da terra, da água etc., do que à identificação negativa de ambas as partes em conflito com o processo destrutivo da globalização capitalista, que torna a realidade do conflito de interesses irreal ou surreal, e que torna obsoleta a forma de sujeito juntamente com todos os interesses.

Mas, mesmo no que toca ao anti-semitismo moderno, os árabes, como parte integrante do mundo capitalista, de certo modo chegam tarde de mais. Eles já não conseguem mobilizar essa reserva ideológica de crise como processo de formação social, à semelhança dos nazis. Nas condições da globalização, a explicação irracional do mundo e da crise pelo anti-semitismo já não pode em lado nenhum assumir uma forma estatal, como programa de aniquilação organizado à escala social, e muito menos na Palestina. Precisamente por isso é que o impulso eliminatório neste caso é imediatamente auto-agressivo (bombistas suicidas); ele mistura-se, na prática, com as relações de concorrência capitalistas elementares da reprodução material local e, ideologicamente, com os produtos político-religiosos da decomposição da estatalidade: também isto constitui uma diferença em relação aos nazis; sem contar com a diferença entre o primeiro e o Terceiro Mundo, que também se manifesta no espaço formalmente homogéneo da globalização e tinge os padrões ideológicos.

 

Do sionismo à dominação dos ultras: a crise interna da sociedade israelita

Israel, por sua vez, como Estado capitalista entre Estados capitalistas, além de não se livrar da alteridade absoluta, também está sujeito aos mesmos processos de crise que todos os outros Estados no espaço capitalista planetário; e com particulares potenciais de risco em comparação com o Ocidente, devido à sua existência económica subsidiada e precária. Contudo, uma vez que Israel, para poder ser um estado capitalista, não deve conhecer ele próprio a sua verdadeira legitimação, ou só pode conhecê-la em completa superficialidade (positivamente, como lugar de refúgio para os judeus perseguidos pelo anti-semitismo, mas apenas com um entendimento superficial e redutor da natureza deste anti-semitismo), tem que reagir à crise de um modo tão regressivo e perverso como todos os outros, em relação aos quais é definido como alteridade absoluta: a ânsia dos judeus pela normalidade burguesa reproduz-se também negativamente. Israel, estabelecido como alteridade, de facto e como é óbvio não pode mobilizar o anti-semitismo como última reserva interna da subjectividade burguesa, mas na realidade está neste mundo e é deste mundo, sendo parte integrante do seu desenvolvimento, e logo do seu desenvolvimento para a barbárie.

A alteridade imposta não faz de Israel uma alternativa histórico-social positiva, nem dos seres humanos que o integram pessoas diferentes. Se o racismo anti-árabe permanece no Ocidente uma manifestação racista entre outras e, no âmbito da autodestruição iminente do sujeito burguês, não serve como projecção da auto-alienação num objecto exterior, em Israel tem que servir de expediente e substituto para a forma de crise anti-semita da subjectividade capitalista, que aí não é possível. Nesta medida, Israel trilha o seu caminho próprio para a barbárie, que no entanto pouco ou nada se diferencia do dos seus vizinhos inimigos árabes quanto às formas de manifestação.

Tal como por todo o lado no mundo, também em Israel a mobilização político-religiosa reaccionária se revela como genuíno produto do desmoronamento da subjectividade capitalista e do Estado; só que aqui está carregada de projecções anti-árabes. E também em Israel o processo de barbarização subsequente ao processo de globalização tem uma pré-história; mais precisamente: antagonismos internos antigos e aparentemente perdidos no passado são redireccionados e, justamente neste caso especial, são agressivamente amalgamados com os externos. O destacado sociólogo e historiador israelita Shmuel N. Eisenstadt (Universidade Hebraica de Jerusalém) apresentou, em meados dos anos oitenta, uma abrangente investigação sobre “A transformação da sociedade israelita” (Eisenstadt, 1987/1985) que, sob este ponto de vista, pode ser considerada extremamente elucidativa.

Aqui é decisiva a circunstância de o sionismo trabalhista secular ter esbarrado, desde o princípio, com a resistência entrincheirada dos religiosos ortodoxos e ultra-ortodoxos nas comunidades judaicas, tanto nas diversas regiões do mundo como no interior do estado de Israel. De facto, os ultra-ortodoxos (os chamados haredim), que em Israel não constituem de modo nenhum uma pequena minoria, até hoje não reconheceram o estado de Israel, tal como os grupos palestinianos mais militantes e os Estados islâmicos. Este conflito interno judaico vem muito de trás; ele alimentou-se sempre da raiva dos reaccionários clericais contra a secularização moderna e contra a política de interesses intracapitalista – equivalendo de certo modo à versão judaica da “antimodernidade moderna”, ou seja, do contra-iluminismo burguês meramente regressivo e autoritário, sem qualquer momento de crítica emancipatória.

Contudo, diferentemente do mundo ocidental, estas forças autoritárias e reaccionárias em Israel não se integraram simplesmente na política burguesa, como uma corrente radical de direita. De facto constituíram partidos e participaram na política, mas de um modo plenamente exterior e puramente táctico, enquanto se mantinham anti-estatais por princípio. Contudo, naturalmente não anti-estatais num qualquer sentido de emancipação anarquista, mas pura e simplesmente como programa de subordinação directa da vida ao fetichismo especificamente religioso, com mobilização política quase que religiosa.

Como ressalta da investigação de Eisenstadt, no decurso do desenvolvimento israelita os ultra-ortodoxos foram inicialmente considerados como uma espécie de dinossauros do judaísmo, que mais cedo ou mais tarde haviam de se extinguir. Sob a impressão do Holocausto, eles receberam amplas concessões institucionais como imigrantes, de modo a poderem viver em Israel, apesar de o negarem como Estado. Nada disto tinha de parecer grave nem funesto enquanto Israel, apesar da sua posição especial na história mundial e apesar do envolvimento árabe hostil, se pôde desenvolver como Estado capitalista entre Estados capitalistas, no contexto da era de acumulação fordista global. A posição dos ultra-ortodoxos apresenta-se, contudo, de modo completamente diferente no contexto da globalização e da crise capitalista mundial. A cada surto da crise pós-moderna, esta força social reaccionária revela-se crescentemente como fermento de autodestruição social intra-israelita. Longe de se extinguir pouco a pouco, este segmento político-religioso da sociedade israelita, pretensamente apenas grotesco, começou a tomar as proporções de um fundamentalismo religioso pós-moderno típico.

Dois momentos deram a esta tendência uma força particular. Por um lado, os ultra-ortodoxos não tiveram de se inventar a partir do zero, como representantes de um “Estado teocrático”; tal como os wahhabitas da Arábia Saudita, nunca estiveram dispostos a cultivar o seu nicho no espaço da tolerância religiosa burguesa, pelo contrário, estiveram sempre à espera de impor à sociedade secular a sua “lei de Deus” como movimento militante. Por outro lado, tornaram-se cada vez mais capazes de o fazer em termos institucionais, graças às concessões estatais; ao contrário da maioria dos seus irmãos espirituais islâmicos, eles não se viram obrigados – mais uma vez à semelhança do ocorrido na Arábia Saudita – a formar-se a partir da clandestinidade. Sob a protecção do cidadão de boa vontade do Estado ” […] eles insistiram sempre na autoridade superior dos seus estabelecimentos próprios, dos seus centros de estudo e das decisões do seu Conselho de Sábios, perante o qual eram responsáveis os seus deputados no parlamento. Simultaneamente apresentavam ao Estado numerosas exigências, de princípio e de tipo religioso; por um lado, pretendiam que fossem impostas à população tantas limitações religiosas quanto possível, por outro, contudo, exigiram também diversas concessões e subsídios terrenos para as suas próprias necessidades, sobretudo para o seu sistema escolar separado […] Além disso exigiram determinados privilégios e uma espécie de imunidade limitada face a muitas leis estatais […]” (Eisenstadt, ibidem, p. 531).

Por outras palavras: os ultra-ortodoxos constituíram no interior do estado de Israel desde a sua fundação um estado teocrático separado, inimigo por princípio do sionismo secular; uma posição que, nas condições da nova crise mundial capitalista, se presta optimamente a dar início ao processo interno de decomposição estatal e social em produtos de barbarização pós-modernos pós-estatais. O paralelismo com os vizinhos inimigos desta região do mundo não podia ser mais claro e embaraçoso. Para poderem funcionar como fermento deste processo destrutivo, as forças ultra-ortodoxas têm de sair do isolamento sem abandonar as suas pretensões reaccionárias clericais, e passar a misturar-se contraditoriamente com outras tendências sociais que operam na mesma direcção.

Em primeiro lugar ocorreu, ” […] em estreita ligação com a tendência geral na diáspora […] uma forte expansão dos grupos ortodoxos em Israel. Comunidades ultra-ortodoxas e círculos ortodoxos de toda a espécie cresceram em número e tornaram-se mais visíveis” (Eisenstadt, ibidem, p. 533). Tal como no resto do mundo em formas diversas, também em todo o mundo judaico e em Israel cresceram em termos quantitativos as formas político-religiosas e sectárias de lidar com as manifestações de crise social.

Sob esta pressão não tardaram a aparecer rupturas no interior do sionismo fundador do Estado em sua composição anterior. Originariamente o sionismo tinha-se formado com uma ala secular e socialista e outra dita nacional e religiosa. Os nacionalistas religiosos, ao contrário dos ultra-ortodoxos, reconheciam o estado de Israel como tal e, portanto, também a sua manifestação secular; eles funcionavam como força política partidária com vestes ideológicas religiosas, como por exemplo os democratas-cristãos na Europa. Mas, sob a pressão da crise tanto do exterior como do interior e sob a pressão do forte levantamento dos ultra-ortodoxos, a “aliança histórica” dos religiosos nacionalistas com a corrente principal secular do sionismo trabalhista começou a desfazer-se a olhos vistos. Em vez disso, os nacionalistas religiosos foram-se aproximando dos ultra-ortodoxos e vice-versa, o que significou que aos primeiros passou a ser imposto o fanatismo religioso e aos segundos o nacionalismo militante. Já esta convergência sozinha tinha que constituir um detonador da sociedade israelita, com efeito explosivo tanto para o exterior como para o interior.

A isto juntaram-se outros fenómenos destrutivos que vieram na senda da imigração de judeus para Israel. Se os surtos iniciais de imigração, sobretudo no tempo do Holocausto e logo após, foram protagonizados sobretudo por judeus da Europa central e oriental (Asquenazes), na sua maioria com orientação secular e ocidentalizada (o que, afinal, também correspondia à ideologia sionista), pouco a pouco o grosso da imigração passou a ser constituído por imigrantes asiáticos e africanos ditos “orientais” (Sefarditas). A maior parte destes recém-chegados, numa época de acumulação capitalista em arrefecimento global, não tardou a constituir a camada social inferior da sociedade israelita. A contradição social interna daí resultante, contudo, foi crescentemente articulada, não de modo socioeconómico, mas sim “etnopolítico”, tal como é típico do culturalismo pós-moderno. Esta etnicização do social específica do interior de Israel não se ficou por um simples multiculturalismo, mas transformou-se, sob a crescente pressão interna e externa, na tendência de uma militante “orientalização” da sociedade israelita, acompanhada por uma mobilização do ódio contra o sionismo secular europeu: é assim que já no princípio dos anos oitenta se viam, “nos arredores […] a norte de Tel Aviv, muitos graffiti com a palavra ‘Asquenazi’ (uma junção de Asquenaze com nazi) […]” (Eisenstadt, ibidem, p. 783).

Como não podia deixar de acontecer, a reaccionária mobilização político-religiosa, no decurso da fusão entre fanáticos ultra-ortodoxos e ultra-nacionalistas religiosos, também começou a ligar-se com a “orientalização” etnopolítica: uma mistela de fundamentalismo religioso, nacionalismo extremista e etnopolítica numa liga única; a bem dizer, um exemplo paradigmático da actuação destrutiva da política de barbarização em zonas de crise.

No mínimo igualmente problemático é o enriquecimento da sociedade israelita com um segundo potencial racista de motivação diferente, a saber, através da imigração em catadupa vinda da Rússia e dos estados da C.E.I. desde o colapso da União Soviética: “Todos os dias se pode ver no aeroporto Ben Gurion um avião da Aeroflot ou da Transaero a despejar uma carga de imigrantes das camadas mais baixas da ex-União Soviética” (Kampfner, 2002). O carácter “judaico” (de resto um constructo histórico, como todas as outras etnodefinições, e, como o estado de Israel, legitimado apenas pelo anti-semitismo existente em todo o mundo) de muitos destes imigrantes é antes de mais duvidoso; afinal, as condições são de tal modo horrorosas em muitos lugares da sociedade ex-soviética em colapso que até a migração para o ameaçado Israel surge como uma saída social. De acordo com a lei israelita do regresso, os imigrantes têm de “comprovar que têm um avô judeu. Na maioria dos Estados ex-soviéticos, os documentos necessários podem facilmente ser adquiridos em troca de dinheiro” (Kampfner, 2002). Tal como no caso da migração dos chamados russos de ascendência alemã para a RFA, aqui se evidencia o carácter duvidoso e a duplicidade dos critérios “étnicos” em geral; estes são sempre susceptíveis de adquirirem um conteúdo racista de sinal duplo, tanto includente como excludente.

Os imigrados russos com ascendência judaica real ou falsa, na maioria originários da camada inferior russa dos chamados “sovs”, mudaram ainda mais o perfil da sociedade israelita: “Hoje constituem um sexto da população total. Marcados durante gerações pela ditadura soviética e mentalmente condicionados em conformidade, estes sovs pouco sabem sobre Israel e muito menos sobre os árabes. Enquanto antes odiavam os “negros” das repúblicas soviéticas do Sul da Ásia Central e da Transcaucásia, agora viram o seu ódio contra os palestinianos e contra os países muçulmanos que rodeiam Israel […] Os únicos sovs que têm contactos regulares com os palestinianos são os membros do crime organizado, que se dedicam a actividades tão lucrativas como receptação de carros roubados, ou tráfico de armas para a Margem Ocidental do Jordão e para a Faixa de Gaza. As armas obtêm-nas de soldados israelitas que assim financiam o consumo de drogas” (Kampfner 2002).

Quase todos os imigrados “sovs” são de orientação firmemente secular e nada têm a ver com a alucinação religiosa dos ultra-ortodoxos. Mas eles de modo nenhum modificaram a parte secular dos israelitas no sentido emancipatório. Pois o que eles trazem consigo e reorientam é o reles racismo secular das camadas inferiores do capitalismo, que se funde contraditoriamente com o racismo de motivação religiosa: “Não é a religião que os move. A maioria dos sovs não tem religião nenhuma. Eles constituem com outros grupos da sociedade israelita uma aliança casual e nada santa que mudou profundamente a paisagem política” (Kampfner, 2002).

Agravante adicional foi necessariamente o facto de Israel, como parte integrante da sociedade mundial capitalista, estar evidentemente ao mesmo tempo submetido às suas tendências económicas e ideológicas mainstream. Sob a égide global do neoliberalismo, com os seus princípios fundamentais de privatização, desregulamentação e globalização, todos os momentos socialistas do sionismo tiveram de perder a sua força aglutinante. Particularmente a ideia dos Kibutzim não foi renovada de acordo com os tempos, nem em termos intelectuais, nem em termos práticos, mas sofreu um declínio quantitativo e substancial. À ideologia acanhada da comunidade não se seguiu nenhuma crítica avançada da forma de sujeito capitalista, mas sim, como por todo o mundo, a progressiva capitulação perante ambas as manifestações pós-modernas estreitamente interligadas, que são a individualização abstracta pela coerção do mercado e da concorrência, por um lado, e o culturalismo religioso ou étnico militante, por outro.

Do ponto de vista superficialmente político, todos estes desenvolvimentos não tardaram muito a conduzir a uma completa reviravolta nas relações de poder em Israel: o sionismo trabalhista secular foi cada vez mais encostado à parede; ocorreu uma “subida, inicialmente lenta, mas continuada do Gachal, que mais tarde daria origem ao bloco Likud” (Eisenstadt, ibidem, p. 526), o centro político da tendência de barbarização reaccionária, com toda uma cauda de cometa de partidos ultra-religiosos, ultranacionalistas e etnopolíticos, grupos resultantes de cisões, seitas e organizações fanáticas de luta, que hoje constituem, no mínimo, o fiel da balança para a constituição do governo: “O governo Likud de Ariel Sharon apoia-se em imigrantes soviéticos, judeus sefarditas e ultra-ortodoxos” (Kampfner 2002).

Estes factos do desenvolvimento político-social de Israel por maioria de razão lançam uma luz forte sobre a assombrosa ignorância do “anti-imperialismo” tradicional da esquerda: enquanto este continua a gritar as suas palavras de ordem “anti-sionistas” (desde sempre com uma carga anti-semita, que hoje se torna óbvia), na realidade já há muito que o sionismo trabalhista secular foi cilindrado pelas próprias forças reaccionárias anti-sionistas e anticivilizatórias pós-modernas de Israel. Também sob este ponto de vista, o anti-imperialismo “revolucionário nacional” já é meramente anacrónico. A subida do bloco Likud foi acompanhada por uma deslegitimação sistemática do pensamento sionista original e equivaleu em larga medida a um processo de erosão da sociedade israelita, orientado tanto para o exterior como para o interior.

No que diz respeito à orientação para o exterior, a postura defensiva face aos árabes converteu-se em hostilidade militante, arrogância culturalista e ideias agressivas de conquista. Esta orientação ideológica dos ultras, a ganharem influência a olhos vistos, repercutiu-se na prática num programa de colonização novo, formado por extremistas de direita. O Gush Emunim (“Bloco dos crentes”), fundado em 1974, pregou um novo ideal de “pioneirismo”, já não socialista, mas religioso e nacionalista, com o objectivo de expulsar os residentes árabes e, em última instância, incorporar em Israel as áreas ocupadas: “A política dos colonatos na Judeia e Samaria enveredou de facto numa nova direcção, após a chegada ao poder do governo Likud […] O processo de colonização sob o governo Likud apresentou algumas características típicas. A primeira foi a sua enorme dimensão. Enquanto entre 1967 e 1977 foram fundados cerca de quarenta novos colonatos, entre 1976 e 1983 surgiu quase o dobro […] A segunda característica do processo de colonização sob os governos do Likud diz respeito à localização dos novos colonatos. Nos tempos do bloco trabalhista, os colonatos tinham sido estabelecidos em áreas sem residentes árabes ou com muito poucos […] A escolha do local para novos colonatos mudou profundamente sob o governo Likud. O objectivo agora era conseguir o máximo de presença judaica em todas as partes da margem ocidental. Em vez de se pouparem as regiões com densa população árabe, preferiam-se precisamente estas áreas para a fundação de colonatos, e até se estabeleciam colonatos nas grandes cidades árabes como Nablus, Ramallah e Hebron. A localização exacta dos novos colonatos orientava-se pela identificação de uma determinada localização com uma povoação bíblica […]” (Eisenstadt, ibidem, p. 754s.).

Esta colonização já não obedeceu a qualquer ideal universal, como o sionismo trabalhista, portanto já nem sequer à exigência implícita de que haja um lugar para todos os perseguidos e que, além disso, todos os seres humanos se possam instalar em qualquer lado, desde que não seja à custa de outrem. Bem pelo contrário, o Gush Emunim representa uma política de “limpeza” e expropriação etnopolítica, com um fundamento de legitimação totalmente irracional (bíblico). O actual chefe do governo israelita destacou-se aqui já no princípio dos anos oitenta: “A política geral da colonização […] esteve sob a dinâmica direcção de Ariel Sharon […]” (Eisenstadt, ibidem, p. 757). Por isso não foi por acaso que, sob a direcção de Sharon como ministro da defesa, em 1982 foi conduzida a incursão ao Líbano, pela primeira vez puramente agressiva e não imposta do exterior, que culminou no famigerado massacre de Sabra e Chatila, próximo de Beirute: aí as milícias cristãs, aliadas de Israel, assassinaram mais de 800 civis palestinianos, à vista do exército israelita e com evidente aprovação tácita de Sharon.

Quanto à orientação para o interior, como em qualquer outra parte do mundo, a viragem à direita da sociedade israelita foi acompanhada em grau crescente por casos de corrupção, e sobretudo por uma inconciliável cisão, que já nos anos 80 conduzia uma retórica de violência cada vez mais agressiva da direita contra a esquerda israelita: “Estas tendências de cisão associaram-se numa medida considerável a uma violência pelo menos verbal e ilegalidades a diversos níveis, que […] em muitas áreas da vida iriam prolongar-se no tempo. Isso manifestava-se nas relações do dia-a-dia, no trânsito rodoviário e na alta taxa de sinistralidade. Em estreita ligação com esta violência estava a crescente intolerância contra os adversários, incluindo a tendência a cobri-los com designações extremamente depreciativas […] Estes sentimentos de discórdia e hostilidade, que eram expressos com veemência, encontravam-se sobretudo nos grupos próximos do Likud” (Eisenstadt, ibidem, p. 745s.).

A deslegitimação do sionismo trabalhista não poupou nenhum aspecto, desde os Kibutzim à Central Sindical Histadrut: “De particular importância foram as tiradas de ódio repentinas […] contra os Kibutzim, esse símbolo central do modelo sionista […]” (Eisenstadt, ibidem, p. 735). Tal como os Kibutzim, também o movimento sindical sofria sob a dupla pressão da crise capitalista e da globalização neoliberal, por um lado, e do ódio político-religioso dos radicais de direita, por outro: “De um modo geral, a Histadrut foi perdendo cada vez mais o seu lugar, como parceiro do governo na formulação da política económica. Muitas vezes foi marginalizada […]” (Eisenstadt, ibidem, p. 771). Nem sequer o papel histórico da Haganá sionista, o núcleo militar da fundação do estado de Israel, foi poupado neste processo de deslegitimação: “Mesmo a história da luta contra os ingleses e pela independência foi reescrita – sobretudo com o objectivo de minimizar o papel da Haganá em todo este processo” (Eisenstadt, ibidem, p. 767).

No fim da sua investigação, Eisenstadt manifesta a esperança de que Israel, apesar deste desenvolvimento, possa chegar a um novo “equilíbrio dinâmico” e superar as tendências para a autodestruição. Infelizmente os anos noventa revelaram exactamente o contrário. O assassínio do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, em Novembro de 1995, por um jovem fanático judeu nacionalista-religioso constitui apenas a ponta do iceberg com que Israel ameaça soçobrar, devido à sua própria barbarização fundamentalista. Neste sentido, a investigação de Michael Karpin e Ina Friedman de 1998 Murder in the name of God. Plot To Kill Yitzhak Rabin [Assassínio em nome de Deus. A conspiração para matar Yitzhak Rabin]”, lê-se como um funesto prosseguimento da análise de Eisenstadt. Karpin e Friedman, que são dos mais conhecidos jornalistas israelitas, mostram com corajoso desassombro quanto progrediu entretanto a destruição fundamentalista religiosa e nacionalista radical de direita da sociedade israelita, e uma vez mais tanto para o exterior como para o interior. O facto de com Yitzhak Rabin ter chegado novamente ao poder um governo secular-sionista podia ser atribuído à vontade de paz e de conciliação da maioria dos israelitas; mas o fim sangrento desta política, que ficou como mero episódio, remete para o poder já amadurecido da tendência fundamentalista.

Tanto antes como depois do assassínio de Rabin era visível um reforço, que se prolonga até hoje, da política de colonização e expropriação militante contra a população árabe, numa dimensão que assustou frequentemente até os negociadores norte-americanos. Já Eisenstadt se referiu, na última parte da sua investigação, ao carácter racista da ideologia de colonização e ao seu apoio nas altas esferas da sociedade israelita; como ele escreve, “alguns grupos religiosos até justificavam um comportamento extremamente xenófobo que invocava as acusações bíblicas contra Amalek” (Eisenstadt, ibidem, p. 787). O primeiro-ministro do governo Likud, Begin, desumanizara publicamente os palestinianos como “animais de duas patas”; e, na mesma medida em que a maioria dos rabinos ortodoxos em Israel cada vez mais abertamente propagandeava o “Estado teocrático” judaico, também este racismo subia de tom. O rabino Yitzhak Ginsburg, um dos extremistas da linha dura, publicou um decreto “segundo o qual ‘sangue judeu e sangue não judeu não são idênticos’” (Karpin/Friedman, 1998, p. 18). E o célebre rabino Meir Kahane, um dos ideólogos da direita fundamentalista, ele próprio assassinado em 1990 numa aparição pública em Nova Iorque, “designou […] todos os árabes como ‘uma epidemia de bactérias que nos envenenam’ […]” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 69).

Já há mais de dez anos que gente desta era tão “marginalizada” em Israel mais ou menos como Jörg Haider na Áustria; para o funeral de Kahane, em Jerusalém, “vieram mais de 15.000 convidados e o discurso fúnebre foi pronunciado por ninguém menor que o rabino-mor de Israel, Mordechai Eliyahu […] Entre os que vieram prestar a última homenagem a Kahane incluíam-se também dois ministros e uma série de deputados da direita ao Knesset” (Karpin/Friedman, 1998, p. 70).

A motivação racista tornou-se o propulsor para uma série infindável de actos de violência dos colonos israelitas. Foi o caso, para dar apenas um exemplo dos primeiros, do assalto no Verão de 1983 de um grupo de extremistas mascarados à Universidade de Hebron, que mataram três palestinianos e feriram muitos outros, com tiros de espingardas e granadas. No seguimento, foi perpetrado um sem-número de atentados à bomba contra presidentes de câmara árabes. Foram planeados grandes atentados contra a mesquita Al-Aksa em Jerusalém e outros símbolos islâmicos, ainda que evitados a tempo. Até conhecidos líderes políticos da direita participaram pessoalmente nos actos de violência, como é o caso do membro da “central de acção” da direita contra Rabin, Gadi Ben-Zimra. No quotidiano foram precisamente os grupos de colonos mais expostos, frequentemente minúsculos, que, sob protecção do exército, aterrorizaram os vizinhos palestinianos, derrubaram as suas vendas de legumes, alvejaram as suas casas, destruíram os seus carros, etc. Assustador foi o atentado suicida do médico Dr. Baruch Goldstein, do célebre colonato Kiryat Arba, próximo de Hebron, que em 25 de Fevereiro de 1994 matou 30 palestinianos com uma espingarda automática durante a oração da manhã e acabou ele próprio linchado pelos sobreviventes enraivecidos. Goldstein alcançou o estatuto de “mártir” em amplos círculos ortodoxos e nacionalistas, pelos quais chegou a ser designado como “vítima do terror árabe”, e mesmo “equiparado às vítimas do Holocausto nazi” (Karpin/Friedman, ibidem, pp. 104, 177).

Todas estas violentas erupções de ódio racista-nacionalista e de alucinação religiosa foram organizadas e não actos isolados. Os colonos constituíram milícias privadas próprias, com armas fornecidas pelo exército a mando do governo Likud, que rapidamente começaram a autonomizar-se, mesmo da administração Likud, e a agir ilegal e arbitrariamente, como “resistência clandestina armada”: mais uma vez, assim aconteceu em flagrante paralelo com os seus vizinhos inimigos árabes e palestinianos. Com isto, a destruição interna de Israel já atingira o nível dos senhores da guerra. Assim, a imprensa laica israelita não tardou a designar “os focos da violência dos colonos como ‘margem do oeste selvagem’ […]” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 64).

Paradoxalmente, os haredim e os ultra-nacionalistas, na mesma medida em que esvaziaram e destruíram a autoridade e as instituições do estado de Israel, reinterpretaram radicalmente o fundamento legitimatório deste Estado: enquanto o seu activismo fundamentalista destruía o Estado no interior, este devia assumir para o exterior a desproporcionada dimensão de um “grande Israel”. De lugar de refúgio secular dos sionistas, transformou-se em lugar biblicamente mistificado de uma promessa de salvação nacionalista religiosa; e, deste ponto de vista de uma “antipolítica” fundamentalista religiosa dos radicais de direita, o estabelecimento das fronteiras não pode sequer ser o resultado de negociações. Em vez disso, a crença fanática afirma que “só há uma directiva para fixar as fronteiras: a promessa de Deus ao patriarca Abraão [!]: ‘Darei aos teus descendentes a terra que vai do rio do Egipto até ao grande rio Eufrates’ (Moisés I, 15,18). Tais fronteiras abrangem hoje a maior parte do Médio Oriente, do Egipto até ao Iraque [!] […]” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 15).

No processo de fusão de fundamentalismo religioso, nacionalismo secular, racismo e política étnica, a doutrina da salvação pelo Messias transformou-se num constructo pós-político, que a si mesmo se definiu como “revolucionamento” político-religioso da sociedade israelita: “A ‘revolução neo-messiânica’ foi comandada pelas sinagogas e estabelecimentos de ensino. As sinagogas já não eram lugares de oração, mas centros de doutrinação política, as escolas talmúdicas já não eram lugares de erudição, mas forjas de quadros do movimento do grande Israel […] Foi construído um enorme aparelho de propaganda, sob a aparência de associações supostamente apolíticas, agraciadas com isenção de impostos […] Um ‘despertar’ desta dimensão não ocorria no mundo judaico desde a ascensão do sionismo um século antes […]” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 291).

O movimento teocrático neomessiânico em prol de um grande Israel fantasmático agiu para o interior com a mesma violência crescente, legitimada na teologia talmúdica, que para o exterior. Também esta violência interna, dirigida sobretudo contra a esquerda secular, começou cedo, em paralelo com a violência racista dos colonos nas zonas ocupadas. O tiro de partida foi dado por um incidente em Fevereiro de 1983: “Yonah Abrushmi, um jovem azedo movido pela retórica desenfreada da direita, lançou junto à sede da presidência do conselho de ministros uma granada de mão contra uma multidão de manifestantes do movimento ‘Paz agora’. Neste atentado morreu um homem, Emil Grunzweig, e onze outras pessoas ficaram feridas” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 155).

A violência e a retórica da violência da direita teocrática e/ou nacionalista, em formas em parte explícitas, em parte subliminares, não abrandaram desde então. O assassínio de Rabin foi precedido de uma longa campanha de agitação, em que por várias vezes a sua morte foi exigida publicamente; durante dias seguidos, “turbas fantasmáticas” de rabinos fundamentalistas amaldiçoaram-no de modo pseudomedieval, frente à sede do seu governo, de acordo com a chamada Din Rodef, a sentença de morte talmúdica para os judeus traidores. E, por uma percentagem já assustadoramente grande da sociedade israelita, este assassínio foi em parte aceite passivamente, em parte motivo de um júbilo disfarçado e em muitos casos até aberto. O assassino, Jigal Amir, foi considerado “herói” por muitos teenagers, recebeu correio de fãs em massa, etc. E a aprovação mais ou menos tácita ou, no mínimo, a banalização deste homicídio penetra profundamente nos mais altos círculos da direita política: “Quase dois anos após o assassínio, Sharon, como ministro do governo de Netanyahu, repetiu a afirmação dos radicais de direita e dos rabinos extremistas: culpou Yitzhak Rabin da própria morte, que seria devida à sua teimosia” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 301).

Em analogia com a cultura global de amoque, com a sua amálgama de agressão e auto-aniquilamento, a direita nacionalista teocrática de Israel também elaborou as mesmas justificações do atentado suicida que os islamistas, para o que o caso do assassínio em massa de Goldstein constituiu um precedente. E, tal como no caso dos islamistas, a reinterpretação militante dos conceitos religiosos serviu esta empresa: “Kidush ha-Shem, antes de ser associado ao fervor messiânico dos colonos da Gush-Emunim, era um auto-sacrificado, que teria escolhido a morte em vez da conversão forçada […] A transformação agressiva deste auto-sacrifício operada por Goldstein foi rapidamente sancionada pelos fanáticos judeus […] Num livro com o título Baruch ha-Gever (‘Abençoado Homem’) elogiaram o seu auto-sacrifício como a mais elevada expressão de convicção religiosa e exortaram outros a imitá-lo. O rabino Elitzur Selga […] escreveu que os santos rabinos nunca tinham condenado o modelo de missão suicida de Goldstein. ‘Evidentemente que uma morte ainda mais certa, por exemplo quando uma pessoa se faz explodir juntamente com os seus inimigos com recurso a uma granada, é igualmente sancionada como um acto nobre’…” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 67). Não se podia dizer com mais clareza que a aguda e manifesta pulsão de morte da razão capitalista pode revestir-se de qualquer roupagem ideológica.

Também do ponto de vista cultural e político-social se agudizou nos anos noventa a pretensão teocrática radical face à sociedade israelita e contra a esquerda secular; e tal ocorreu de novo numa embaraçosa afinidade com os seus vizinhos árabes inimigos. Tal como os wahhabitas e todos os outros islamistas, as forças ultra-ortodoxas e nacionalistas religiosas hoje em dia não só fulminam verbalmente “a cultura vazia do Ocidente” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 23), o materialismo moderno, a erosão dos valores patriarcais, etc., mas querem submeter a sociedade aos seus mandamentos irracionais mais do que nunca. Precisamente como entre os islamistas, surge aqui em primeiro lugar uma hostilidade militante face à sexualidade. Mesmo os ortodoxos moderados estão aterrados com a pressão institucional que os haredim puritanos conseguem entretanto exercer neste sentido. Assim citava em 1997, por exemplo, o professor Jehuda Friedländer, reitor da Universidade Bar-Ilan, “exemplos das mudanças no seu próprio círculo familiar […] ‘É estritamente observada a etiqueta externa; assim proíbe-se simplesmente às raparigas andar de meias curtas […] O comprimento da saia e a altura da racha são rigorosamente vigiados […]’ Foi proibido aos pais irem à festa de fim de ano escolar das filhas porque aí actuava um coro de raparigas […] O reitor da escola básica do seu filho proibiu o jovem de frequentar no Verão um campo de férias científico organizado pela Universidade Hebraica […] Há cem anos ainda não remexiam (nos assuntos particulares), hoje atiram-se às mais pequenas minudências, por muito pessoais que sejam’ […]” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 73s.).

O poder institucional da ortodoxia e da ultra-ortodoxia dos rabinos domina amplos sectores do direito civil, porque os mesmos nunca foram secularizados. Este poder traz maçadas insuportáveis à vida pessoal, mesmo daqueles que não têm nada a ver com a religião: “Para os judeus de Israel, isso significa serem controlados pelo establishment religioso ortodoxo e que, com o passar dos anos, esta regulamentação tem tido um efeito devastador sobre os direitos cívicos de inúmeros cidadãos. Devido à asfixia pelos clérigos ortodoxos, nenhum judeu israelita, nem sequer o ateu mais consolidado, se pode casar fora da sua ‘fé’ […] A milhares de crianças israelitas que foram adoptadas no estrangeiro é vedada a conversão ao judaísmo, porque os seus pais não professam o estilo de vida ortodoxo. É estritamente proibido às mulheres deporem perante o tribunal rabínico, ao qual tem que se recorrer para o divórcio […]” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 76).

Também o desprezo e a repressão das mulheres pelos rabinos ortodoxos são completamente iguais aos dos islamistas (e naturalmente também aos dos cristãos tradicionais e, em geral, aos patriarcais e neo-patriarcais da ideologia de crise em todo o mundo). Nas comunidades estritamente ortodoxas o comportamento misógino é a lei prática do dia-a-dia, que cai como gelo sobre as relações amorosas dos indivíduos, como mostra por exemplo o angustiante filme de Amos Gitai, “Kadosh”. E esta lei quotidiana pseudo-arcaica da repressão das mulheres estende-se de múltiplas maneiras, por intermédio do poder institucional, sobre a vida secular israelita.

O mesmo se diga quanto ao desprezo e à perseguição dos gays, que lhe estão estreitamente associados, difundidos tanto pelos crentes ultra-ortodoxos como pelos racistas seculares dos “sovs”. Os ataques de ódio a Rabin, antes do seu assassínio político, incluíam regularmente o slogan “Rabin é gay” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 113). A mesma homofobia militante que entre os islamistas encontra-se não só entre os ultras israelitas, como igualmente entre os seus apoiantes e mentores na diáspora judaica, não em último lugar nos EUA, onde os gays são abertamente considerados duvidosos. Foi assim que o rabino radical de Nova Iorque, Abraham Hecht (um herói também para a direita israelita), apoiou com demagógicas tiradas antigays a eleição do Mayor Giuliani, que mais tarde ganharia notoriedade pelas medidas draconianas contra os pobres. “Quando ele apoiou Giuliani, em 1989, anunciava que o seu candidato limparia finalmente uma cidade corrompida por males como o sexo antes do casamento, os abortos e os crimes de homossexualidade [!], e apoiou (tal como a secção local do Ku-Klux-Klan) a pena leve dada a um assassino por um juiz do Texas, porque as vítimas eram ‘apaneleiradas’, segundo as palavras do juiz” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 220).

A ideologia neo-arcaica, agudizada pelo racismo e pelo nacionalismo, é acompanhada de um comportamento ritual compulsivo, mais uma vez como no islamismo e nas seitas sincretistas ocidentais. Por exemplo, após os devastadores atentados suicidas palestinianos, os fanáticos ultra-ortodoxos procuram separar “etnicamente” os restos dos corpos, para que nenhum bocado do corpo do suicida de outra “raça” possa por engano ser enterrado junto com membros judeus. Contra a vontade da população secular, são impostos pela direita religiosa cada vez mais constrangimentos religiosos à vida quotidiana, os quais entretanto extravasam de longe a imediata competência institucional dos ultra-ortodoxos. A face de Israel vai mudando a cada nova concessão aos partidos religiosos, com a técnica da política de coligação. Por um lado, quanto ao seu sistema político o país é uma democracia capitalista de cunho ocidental, que contudo, como já se disse, nunca foi reconhecida pelos haredim; por outro lado, o quotidiano israelita iguala já sob muitos aspectos o de um Estado teocrático, segundo o padrão dos talibans.

É perfeitamente claro que aqui se prepara um catastrófico confronto decisivo entre dois projectos de mundo e de vida mutuamente excludentes. Se Eisenstadt, na sua análise socio-histórica de 1984, ainda concluía com a esperança de um compromisso interno, já a avaliação do estado interno de Israel por Karpin/Friedman, 14 anos mais tarde, é escura como breu: “Os israelitas vêem o país cada vez mais como um barril de pólvora com a mecha acesa. A maior ameaça para eles não é o terrorismo fundamentalista, nem a guerra com os vizinhos, mas a dissolução a partir do interior […] Quando, numa sondagem Gallup para o jornal Maariv, no segundo aniversário do atentado, se perguntou se o país estaria mais perto da unidade ou da guerra civil, mais do dobro dos israelitas (56 contra 21 por cento) responderam que estaria mais próximo o assassínio fratricida nacional do que a paz interna” (Karpin/Friedman, ibidem, p. 427).

Se a iminente descarga violenta das contradições internas até agora foi sendo adiada em Israel, tal é de atribuir em primeira linha à agudização do conflito externo com os palestinianos, desde o começo da chamada Intifada de Al-Aqsa. As tiradas de ódio anti-semita, os atentados suicidas e as formações quase militares de milícias de senhores da guerra palestinianos não só trouxeram de novo para primeiro plano as contradições externas, mas também desviaram para o exterior, por enquanto, a própria energia racista, fundamentalista e nacionalista da direita israelita, tanto mais que esta direita entretanto constitui o mainstream social e tem firmemente na mão o leme institucional.

Também o proceder do exército israelita nos territórios ocupados sob o governo de Sharon é correspondente, e já não pode ser interpretado como acto de autodefesa de um poder largamente superior em termos técnico-militares. Naturalmente, tal como em todo o mundo, as tendências ultradireitistas da sociedade implantaram-se com mais força no exército. Quando os relatórios de jornalistas ocidentais, assim como de grupos oposicionistas e de organizações humanitárias israelitas, entretanto relatam toda uma série de crimes de guerra do exército israelita, não se trata só de desinformação da propaganda palestiniana.

Assim, foram destruídos deliberadamente casas privadas, monumentos históricos e alvos sem qualquer interesse militar: “Em Ramallah os soldados devastaram o centro de saúde da União Europeia, destruíram a secção de óptica, o gabinete de aluguer de equipamento médico e o centro de juventude […] O Ministério da Cultura em Ramallah […] só foi evacuado pelos ocupantes em 2 de Maio. Deixaram atrás de si gabinetes devastados, sujos e cheios de terra, computadores destruídos e estantes vazias […] até as loiças das casas de banho foram destruídas. Na administração da cidade de Ramallah, os soldados rebentaram o cofre-forte das finanças locais e arrancaram todos os discos rígidos dos computadores. No Ministério da Educação […] fizeram desaparecer os documentos para os próximos exames finais e os carimbos de validação dos certificados de exame; para concluir a sua obra, lavraram o jardim com os seus tanques de lagartas. Segundo informação do ministro da educação Abderabboh, os soldados roubaram todos os documentos do registo predial sobre a propriedade da terra, o que seria uma amarga perda, à luz da crescente expropriação em prol de colonatos judeus […] Segundo numerosos depoimentos […] os soldados também causaram destruições e desviaram objectos de valor e dinheiro em escolas e em muitas residências privadas” (Neue Zürcher Zeitung, 8.5.2002).

Os relatos sobre buscas e pilhagens em grandes centros comerciais, não só em Ramallah, sobre assaltos a civis, etc., são tão numerosos e concordantes que podem considerar-se verdadeiros. Diz-se assim sobre as tripulações de blindados israelitas que estes “pararam à frente de lojas, ourivesarias, bancos e casas de computadores e as pilharam” (Wieland/Schäfer 2002). A pretexto de busca de armas, estudantes foram desapossados das carteiras. Parte do exército israelita comporta-se na “terra do inimigo étnico” correspondendo perfeitamente a todo o desenvolvimento global; o procedimento nas zonas palestinianas começa a tornar-se parte da economia de saque global.

Mas não se ficou apenas pelo roubo e pilhagem. Em Abril de 2002, porta-vozes de oito grupos internacionais de direitos humanos apresentaram, numa conferência de imprensa em Jerusalém, relatórios sobre execuções extra-judiciais e torturas levadas a cabo por soldados israelitas. “Ouviu-se falar de um grupo de dez mulheres que se arriscaram à rua após um tiroteio: de braços no ar, imploraram aos soldados para assistir os feridos desamparados. A sua líder, a médica Dra. Kadah, foi abatida a tiro, as outras mulheres foram gravemente feridas” (Neue Zürcher Zeitung, 17.4.2002).

O Supremo Tribunal israelita teve que proibir expressamente a tortura de prisioneiros palestinianos, o que equivale a uma confissão de que a tortura em diversos graus já no passado fazia parte do dia-a-dia em Israel, tal como nas ditaduras militares do Terceiro Mundo. Carmi Gillon, embaixador designado de Israel na Dinamarca, provocou protestos quando defendeu publicamente a tortura de prisioneiros palestinianos, mesmo depois desta sentença. O facto de a acusação de tortura ter sido formulada de novo, maciçamente e com detalhes, também no caso da mais recente ofensiva militar israelita, demonstra que estas práticas continuam a ser utilizadas. Sobre o destino de Marwan Barghuti, membro do Conselho Executivo palestiniano, que foi detido pelo exército israelita em Abril de 2002, pôde ler-se em relatos de imprensa: “Barghuti é vítima da tortura do sono aplicada pelo serviço secreto interno israelita Shin Beth […] Além disso é repetidamente atado durante muitas horas a uma cadeira coberta de pregos. Tem os pés e as mãos fixos de tal forma, que não consegue sentar-se direito. Ficou com ferimentos tão graves nas costas e nas mãos que foi levado a uma enfermaria. Foi aí que ocorreu o contacto com os representantes da organização de direitos humanos. Os torturadores tinham ameaçado Barghuti de lhe matar o filho, prisioneiro na cidade israelita de Ashkelon” (Neue Zürcher Zeitung, 25.5.2002).

Acontecimentos como crimes de guerra, torturas etc. não podem ser atribuídos apenas aos agentes, como únicos culpados, tanto mais que estes crimes em regra não são objecto de condenação, ou são-no apenas como “crimes heróicos” (em Israel, tal como na Rússia, no resto da Jugoslávia e noutros lados); estes crimes, pelo contrário, são sempre também o espelho da sociedade de onde provêm. As atrocidades do exército israelita, que não podem ser justificadas com a barbarização da sociedade palestiniana, remetem para a barbarização da própria sociedade israelita, que precisamente neste aspecto é parte integrante da sociedade mundial capitalista.

Se a contradição interna de Israel ainda não rebentou violentamente em grande escala, tal não se deve atribuir apenas à “exportação” da violência e dos potenciais de ódio radicais de direita e teocráticos, através da renovada confrontação externa com os adversários palestinianos complementarmente barbarizados. Um factor adicional é o recuo da esquerda secular e mesmo das simples forças seculares do mundo do dia-a-dia de Israel. Não é para admirar que o partido trabalhista já há muito tempo tenha seguido o rumo de todas as sociais-democracias. O assassínio de Rabin não libertou qualquer potencial de crítica, pelo contrário, empurrou mais para a direita os restos do sionismo trabalhista, há muito enfraquecido; à semelhança da evolução de todas as sociais-democracias no início da Primeira Guerra Mundial. Também então, mesmo que todos os líderes social-democratas tivessem sido mortos a tiro por radicais de direita (o que aconteceu de facto em França com Jean Jaurès), a política de tréguas teria continuado de pedra e cal.

Acresce que a consciência da juventude israelita secularmente orientada, mesmo e precisamente da esquerda, tal como a dos seus contemporâneos europeus e norte-americanos, está fortemente impregnada pela individualização abstracta hedonista do consumo de mercadorias da chamada pós-modernidade, que tem poucos argumentos a opor ao avanço da outra face da mesma tendência, o fundamentalismo etnoculturalista. Uma esquerda, além disso, completamente desarmada de ideias pelas teorias pós-modernas, que torna inofensivos o capitalismo e a barbárie como simples “eventos do discurso”, tem que se tornar ela própria inofensiva, o que naturalmente se revela fatal, particularmente nas regiões de crise, como constata o professor universitário de esquerda israelita, Ren HaCohen: “Estes jovens israelitas consideram-se radicais, orientados para a paz, contra a ocupação e mesmo assim condenados a viver submetidos a fanáticos regressivos. Ao mesmo tempo, porém, a mesma estrutura de consciência possibilita-lhes acomodar-se à ocupação […] A moda intelectual chamada pós-modernismo – no Ocidente já em decadência, mas ainda vivíssima no provinciano Israel – desempenha aqui um papel importante […] Uma vez que não existe verdade nenhuma, também não podemos opor qualquer resistência a nada, nem apoiar nada realmente. As palavras são mais importantes do que os actos. A linguagem é o fundamento de tudo, a análise do discurso é a chave para tudo […] O caso de Israel representa uma impressionante prova de quão perigosa pode ser esta ideologia” (HaCohen 2002).

Sob todas estas circunstâncias e condições é possível, para já, que a exclusão da enfraquecida esquerda secular pela administração de direita se processe a frio. É o que diz, por exemplo, a directora do Instituto Cohn na Universidade de Tel Aviv, Rivka Feldhay, sobre a situação dos intelectuais seculares e de esquerda nas Universidades: “A ministra para as questões da educação de Israel, a ultranacionalista Limor Livnat, procura isolar-nos e boicotar-nos. A investigação e o ensino em Israel são financiados por um conselho para o ensino superior. A nova ministra refez nos últimos meses esta comissão para enfraquecer as universidades em benefício de cientistas próximos do governo. Foi bem sucedida […] Vemo-nos na necessidade de pedir ajuda aos europeus. Não com boicotes. Mas para que coloquem os seus bons nomes no prato da balança para protestar contra a política do governo” (Feldhay 2002).

Mesmo no dia-a-dia, os representantes da esquerda secular têm de contar cada vez mais ser hostilizados e insultados; artistas e intelectuais retiram-se gradualmente de determinados bairros dominados pelos ultra-ortodoxos, em Jerusalém e noutras cidades. Apesar disso, a oposição de esquerda ainda traz centenas de milhares de manifestantes para a rua. Segundo informações da organização Yesh Gvul (“Existe uma fronteira”), fundada em 1982 (como reacção à invasão do Líbano ordenada por Sharon), desde o Outono de 2000 mais de mil soldados israelitas, incluindo oficiais de alta patente, recusaram prestar serviço sob o governo de Sharon nas regiões ocupadas: “Não é a primeira vez que israelitas recusam o serviço armado, contudo nunca tantos membros de unidades de combate – oficiais e soldados na reserva – se pronunciaram publicamente pela objecção de consciência nas zonas ocupadas” (Dachs 2002).

Contudo esta resistência, que ainda se mantém, não muda o facto de que a esquerda secular no seu conjunto está enfraquecida e que deve temer pelo seu futuro social e institucional, e mesmo pela vida, no caso de uma reorientação para o interior dos potenciais de agressão nacionalista e teocrático. A escalada das contradições internas ameaça desencadear-se, não em último lugar através de uma crise económica catastrófica que está à vista. Israel que, em conjunto com a Palestina, como muitas outras regiões do mundo, apesar de todos os apoios já tem grandes dificuldades, devido ao processo da globalização capitalista e à dependência da entrada de capital financeiro transnacional, arruína-se adicionalmente com os enormes custos militares que se repercutem na reprodução social. O governo de Sharon também está sentado sobre um barril de pólvora económico-social. A crise económica, que leva a crises periódicas de governo, coloca inexoravelmente a questão de quais as partes da população israelita que têm de ser socialmente passadas pelas armas. E os partidos dos ultras já tornaram inquestionavelmente claro que devem ser todas as camadas seculares de que eles não gostam; um desígnio que pode ser auxiliado pelo desencadeamento dos potenciais de ódio internos.

O conhecimento deste desenvolvimento consubstancia-se numa “votação com os pés”: centenas de milhares de israelitas seculares emigraram ou pensam fazê-lo: “Nunca houve tanto potencial de emigração na história recente do país de imigração tradicional […] Não só o Canadá, a Austrália e os Estados Unidos atraem muitos israelitas, como um íman: até Vanuatu, antes Novas Hébridas, estado insular republicano no Oceano Pacífico […] Em Tel Aviv […] 2.000 famílias já se inscreveram na sociedade cooperativa ‘Mondragon’ que, por 4.500 dólares, vende parcelas de terreno de 3.000 metros quadrados em Vanuatu. Isto é apenas o começo, pois a ‘Mondragon’ arrendou cerca de 80.000 hectares de terra por 150 anos, para repartir e vender a israelitas desejosos de emigrar. O que dá mais de 50.000 parcelas, ou seja, lugar para mais de um milhão de pessoas” (Landsmann 2001).

Há algo de profundamente deprimente e comovente na forma como cada vez mais judeus seculares viram as costas ao suposto lugar de refúgio e à suposta pátria de Israel, empurrados tanto pelos comandos terroristas palestinianos como pela funesta aliança interna de fanáticos religiosos, ultranacionalistas, políticos etnicistas e racistas seculares. Quanto mais a esquerda secular de Israel se esvai com este trágico êxodo, mais depressa progride necessariamente o desmoronamento e barbarização internos da sociedade israelita.

Naturalmente, coloca-se a questão de como avaliar este triste desenvolvimento social de Israel, tendo em conta o “imperialismo global ideal” do centro capitalista. Em caso algum uma posição emancipatória e anticapitalista pode estar empenhada numa “equidistância” perante israelitas e palestinianos, no sentido de se referir apenas à barbarização complementar das duas sociedades mutuamente entrosadas, no contexto da crise geral da globalização. Isso seria alcançar muito pouco, porque, com tal positivismo de crise, seria ofuscada a função do anti-semitismo a nível mundial e, com ela, o particular significado do estado de Israel.

Israel é sempre ambas as coisas ao mesmo tempo: um estado capitalista periférico sob condições capitalistas numa região de crise central, por um lado; e um produto específico da resistência contra a última reserva anti-semita da ideologia de crise do imperialismo, por outro. Daí que a existência do estado de Israel tenha, como já se referiu, uma qualidade diferente da de todos os outros Estados. Enquanto já não pode estar no horizonte da emancipação social que os palestinianos constituam um estado próprio, pois aqui já se tornou actual a perspectiva pós-estatal de libertação, a existência e defesa do estado de Israel mantém-se, como condição decisiva para flanquear a constituição de um movimento de emancipação global e transnacional de tipo novo, que não deixe perder a ânsia de libertação através da abertura da válvula da ideologia anti-semita. Por outras palavras: de todos os países, Israel é o último a poder abandonar a existência estatal e “nacional”, no quadro de um novo movimento mundial emancipatório.

A existência de Israel de certo modo dupla, como vulgar Estado capitalista de crise e como ponto de referência global da ideologia de crise capitalista, exige uma correspondentemente dupla aproximação da crítica social radical. A defesa da existência de Israel tem que ser incondicional para uma nova crítica do capitalismo; pois esta defesa constitui uma conditio sine qua non para o conteúdo emancipatório da crítica. A defesa incondicional da existência de Israel, simultaneamente, não pode abstrair do desenvolvimento social real de Israel, como região capitalista de crise. Pois a redução do desenvolvimento social à esfera ideológica e, com ela, a redução da crítica à crítica da ideologia, porventura adicionalmente afunilada à síndrome anti-semita, colocaria de pernas para o ar a relação entre a sociedade e a ideologia, e transformaria a própria crítica da ideologia em ideologia.

Nesta medida, na perspectiva da crítica radical, também é erróneo subsumir os acontecimentos no Médio Oriente exclusivamente ao desabrochar da ideologia de crise do anti-semitismo no Ocidente e especialmente na Alemanha, e depois, a pretexto de que a tematização da evolução social em Israel apenas “serve” o anti-semitismo, esconder este desenvolvimento real, ou até pintá-lo cor-de-rosa.

O anti-semitismo não pode ser analisado e combatido independentemente do seu fundamento social, o moderno sistema produtor de mercadorias. Desligada da realidade social, a crítica transforma-se em afirmação, como o demonstra a presente discussão do anti-semitismo reduzida à ideologia, até no interior da esquerda radical. Se a teoria crítica sempre acentuou o nexo interno essencial entre o capitalismo e o anti-semitismo, entre Auschwitz e a história alemã do capitalismo, agora pretende-se, exactamente ao contrário, estigmatizar a crítica radical do capitalismo como tal com a mácula do anti-semitismo, a fim de obrigar a esquerda a calar-se. Uma esquerda que ceda a esta pressão tem que desistir de si mesma: o reducionismo, na crítica da ideologia, de uma total subsunção da crítica social à crítica do anti-semitismo revela-se então como banal defesa do capitalismo mundial imperial global, sob o falso pretexto de uma crítica do anti-semitismo, a qual, precisamente por isso, em si mesma tem que deixar de ser verdadeira.

O papel da teoria crítica não pode ser o de inventar “planos de paz” para o Médio Oriente com base no “realismo” capitalista. Sobre esta base, de qualquer modo, não haverá nunca paz em lado nenhum. O papel da teoria crítica é a análise firme das relações sociais, da qual resulta como consequência imanente a crítica radical destas relações. Neste sentido, relativamente às complexas relações entre a ideologia de crise anti-semita (em todo o mundo, no Ocidente e especialmente também na Alemanha e na Áustria), a evolução social em Israel e o chamado conflito da Palestina, só pode tratar-se de ligar a defesa da existência de Israel ao apoio da esquerda secular israelita e a uma luta comum contra o processo de barbarização do sistema produtor de mercadorias a nível mundial.

Esta necessária ligação tem o seu conteúdo objectivo precisamente na defesa primária de Israel, como existência tornada Estado da resistência contra a síndrome global do anti-semitismo; pois esta existência encontra-se ameaçada, não só a partir do exterior, mas também a partir do interior. Nos anos noventa ocorreu uma ruptura na sociedade israelita, que até coloca fundamentalmente em questão a referência comum à memória do Holocausto. Assim declarava o rabino ultra Chaim Miller: “A nossa intenção é de uma estrita separação entre crentes e não crentes na questão do Holocausto” (cit. de: Der Spiegel 8/1995). O chefe do partido ultra-religioso Agu-dat-Israel, Mosche Feldmann, “exigiu a instituição de um lugar de memória alternativo para os crentes” (ibidem). Esta dissociação ameaça os judeus seculares vítimas dos nazis de serem eliminados até da memória: as “verdadeiras” vítimas já são então apenas os estritamente religiosos, tal como os “verdadeiros” judeus vivos devem ser apenas os ultras. Uma tal deslegitimação interna do projecto sionista põe em questão o lugar histórico de Israel, uma vez que os critérios de inclusão e exclusão são fundamentalmente deslocados e o fundamento (negativo) da legitimação deixa de ser o anti-semitismo global, para o seu lugar ser ocupado por um etnonacionalismo positivo, excluidor da esquerda judaica secular.

Não é de prever que a curto ou médio prazo Israel possa ser vencido militarmente em sentido tradicional pelo mundo árabe, que ficou muito para trás em termos capitalistas. Em vez disso, Israel está a ser posto em causa pela pulsão de morte da razão capitalista, tanto a partir do exterior como do interior; por comandos suicidas, porventura com cargas explosivas atómicas ou biológicas, bem como pela autodestruição teocrática e racista. O calculismo do imperialismo ocidental do petróleo poderia aceitar justamente uma destruição violenta da sociedade israelita a partir de dentro, como pretexto para uma reorganização regional, que simultaneamente deixaria o caminho aberto à ideologia de crise anti-semita no próprio Ocidente.

(Cap. 4 do Livro A GUERRA DE ORDENAMENTO MUNDIAL, Robert Kurz, Janeiro 2003) BIBLIOGRAFIA

http://obeco-online.org/

http://www.exit-online.org/

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