No estômago do monstro: a segunda rodada da CoronaCrise – Maurilio Lima Botelho

Um rali nos mercados financeiros criou um otimismo em torno da retomada econômicanas últimas semanas: os índices das bolsas em quase todo o mundo subiram vertiginosamente, numa velocidade só ultrapassada pela curva da covid-19 no Brasil. A euforia fez brotar uma série de análises apontando para uma recuperação mais rápida do que o esperado. O coronavírus é encarado como uma ameaça meramente externa aos mecanismos econômicos, então seu abrupto impacto seria seguido de uma rápida elevação logo que os agentes econômicos voltassem à ativa. A imagem de uma recessão profunda e duradoura foi trocada pela seta apontando para o alto: a imagem de uma retomada em V se banalizou.

Até o fim da semana passada, esse curto ciclo econômico da pandemia parecia confirmado: um relatório da secretaria de trabalho dos EUA (Bureau of Labor Statistics) divulgou a criação de 2,5 milhões de empregos em maio. O número provavelmente foi resultado de um erro de aferição, como apontou o New York Times, mas como os agentes financeiros esperavam um acréscimo de 8 milhões de desempregados, a surpresa provocou ainda mais euforia, alimentando uma alta significativa nas ações e no barril do petróleo.

Até essa segunda-feira, dia 8, o mercado estava em êxtase. O que para o senso comum parecia desconectado da realidade de tragédia sanitária, desemprego amplo e Estados com contas cada vez mais apertadas, para os analistas era parte da própria dinâmica do mercado de “antever” os passos econômicos seguintes, ajustando o comportamento financeiro atual às possibilidades abertas pela retomada econômica em boa parte do mundo. Essa expectativa aparecia nos números da aceleração financeira. O pregão bateu um recorde histórico na bolsa de tecnologia americana essa semana: o Nasdaq atingiu pela primeira vez os 10 mil pontos. O índice Dow Jones esteve muito próximo de voltar ao patamar recorde de fevereiro. Entretanto, o mais impressionante desse contexto de otimismo foi o índice S&P 500, que abarca as principais corporações listadas em Wall Street: em menos de 3 meses apresentou alta superior a 40 %, saindo do fundo no fim de março. O ritmo da aparente retomada só é comparável ao rali apresentado no fim dos anos 90, quando foi erguida a maior bolha acionária de todos os tempos com a maciça entrada de empresas de tecnologia na bolsa – o que ficou conhecido como a “bolha da nova economia” ou das “ponto-com”. Até o mercado financeiro brasileiro, no momento mais grave da pandemia, teve um desempenho histórico: ajustado ao dólar, o Ibovespa teve a maior alta, em trinta dias, entre as principais bolsas mundiais.

Para quem estava sendo arrastado pela vaga do otimismo bursátil, os ventos mudaram radicalmente nos últimos dois dias: as bolsas despencaram em todo o mundo com um tremor que começa cada vez mais a se parecer com a histeria de fevereiro e março. Algumas bolsas europeias já acumulam uma queda de 10 % em dois dias; o preço do barril do petróleo despencou quase 10 % apenas ontem e os índices norte-americanos sofreram uma “correção” brusca. A explicação, segundo o noticiário econômico, é que uma nova rodada de crise pode vir com a segunda onda do coronavírus:

“Você está vendo a psicologia no mercado ser testada novamente hoje”,

enquanto os traders avaliam o recente aumento nas hospitalizações por coronavírus e uma perspectiva sombria do banco central dos EUA, disse Dan Deming, diretor da KKM Financial.

“O sentido é que talvez o mercado tenha se antecipado, o que faz sentido, pois chegamos tão longe muito rápido. A realidade é que essa coisa vai demorar mais do que provavelmente o mercado já tinha passado”

(Stocks suffer their worst day since March, withthe Dow plunging more than 1,800 points, CNBC, 10/06/2020).

Evidentemente, essa explicação padrão não conta a totalidade do problema. Ela se prende demais ao “psicologismo econômico” por acreditar que a confiança dos mercados foi abalada simplesmente pela preocupação com a persistência do coronavírus. É evidente que o risco de um novo fechamento das atividades comerciais e produtivas, com a explosão de novos casos nos países que já começaram a reabertura, incide sobre a avaliação dos agentes econômicos. Embora o mercado financeiro siga por natureza a lógica especulativa, isto é, a “antecipação do futuro”, há algo mais grave aí do que a mera projeção que virou para o pessimismo.

Se os mercados financeiros estão sempre à frente e o Fed anunciou — mais para melhorar os ânimos do que baseado em evidências — que em 2021 a economia norte-americana deve crescer mais de 5 %, então o problema é mais profundo do que a projeção de um futuro imediato rebaixado. O cerne da segunda rodada de declínio dos mercados está na falta do alimento básico para a capitalização financeira, isto é, capital fictício.

A escalada da bolsa de Nova York já era uma demonstração óbvia de que o rali das últimas semanas não passava de uma bolha. O índice Shiller PE para o S&P500 é um barômetro da pressão colocada nos mercados financeiros, uma média comparando o preço de cada ação com os rendimentos que gera para seus portadores. Quanto maior a razão, maior a alavancagem acionária e, portanto, o exagero dos preços dos ativos em comparação à “economia real”. No dia 8 de junho, o índice apresentava uma ratio de 31 – o retorno do preço da ação em rendimentos demoraria 31 anos. A média histórica do índice é 15 e seu ponto mais elevado foi em dezembro de 1999, quando chegou a 44, apontando a maior bolha acionária de todos os tempos. Isso significa que, medido por esse indicador, estávamos, até o início dessa semana, debaixo da segunda maior bolha acionária da história, com uma massa proporcionalmente inflada acima de 2007 e até mesmo de 1929.

O mais impressionante é que isso ocorria no meio de uma pandemia histórica e de uma retração gigantesca de ganhos das empresas, com muitas corporações atrasando o pagamento dos rendimentos aos acionistas. Ou seja, a discrepância entre a economia financeira e o chão pode ser tomada como a mais gritante de todos os tempos por esse critério de fuga da realidade. Então o que poderia explicar o autismo no altismo das bolsas? A chave é a alimentação monetária até então ministrada aos mercados.

A euforia não decorreu de uma antecipação do futuro, como comumente explica o “psicologismo econômico”, mas dos recursos disponibilizados pelos bancos centrais em todo mundo. Desde o início da pandemia, os EUA já injetaram algo em torno de 3trilhões de dólares no sistema financeiro, o banco europeu mais de um trilhão de euro na economia e essa montanha de recursos se multiplica através de injeções gigantescas também no Japão, China e até mesmo em países frágeis como Bangladesh – no total, essa expansão monetária global alcança algo como 35 trilhões de reais.

Todo esse dinheiro vai para a compra de ativos financeiros de todos os tipos, desde hipotecas que correm o risco de inadimplência, linhas de financiamento estudantil ou de veículos que não estão sendo quitados e até mesmo ações das corporações – o que os bancos estatais fazem é incorporar em seus balanços o “lixo tóxico” do sistema financeiro e assim garantir que as empresas não quebrem de uma vez.

Só que o capital fictício – essa forma estranha e aparentemente absurda da dinâmica circulatória do mercado – segue em linhas gerais os princípios básicos de toda forma de capital. Como uma lógica econômica autonomizada, o capital fictício só existe sob a prerrogativa de se multiplicar – como todo capital, seu objetivo é fazer de dinheiro mais dinheiro, ainda que não precise passar pelos circuitos produtivos da “economia real”. O impressionante volume monetário injetado pelos bancos centrais – que em poucos meses já superou os volumes adicionados durante anos após a crise do subprime – serviu exatamente para manter essa lógica da multiplicação de dinheiro em funcionando: a bolha acionária que já existia, aparentemente furada palas espículas de proteína do coronavírus em fevereiro, foi reinflada pelas iniciativas conjuntas dos bancos centrais. 

Meses de engorda só aumentaram a distância entre o universo elevado das finanças e a tragédia do cotidiano capitalista. O acúmulo progressivo de más notícias finalmente trouxe a realidade para dentro dos pregões – só nessa semana tivemos o anúncio de uma queda de 24 % na exportação alemã em abril, declínio de 20 % na produção industrial francesa, contração de 20 % do PIB do Reino Unido, recuo nas exportações chinesas e previsão do FMI de queda mundial de 5 % (podendo chegar a 8 % num “cenário negativo”). Mas hoje foi anunciada talvez a mais importante dessas informações: o Federal Reserve apontou um aumento de 11,7 % na dívida total americana (não-financeira) nos três primeiros meses do ano. Isso significa uma explosão brutal de endividamento estatal, familiar e comercial num momento em que o patrimônio privado e público foi corroído — apenas a dívida comercial saltou 18,8 % e a dívida pública federal dos EUA passou para 26 trilhões de dólares. 

Aqui se revela o buraco sem fim da máquina de produção de capital fictício: para que a dinâmica dessa forma de capital continue a “funcionar” é preciso entrar cada vez mais recursos monetários, mas isso vai se tornando uma impossibilidade objetiva à medida que a base monetária é cada vez mais ampla e o buraco de dívidas cada vez maior. Trata-se do problema da “superacumulação de capital” (Marx) que também age sobre a sua forma ficcionalizada: quanto maior o capital acumulado (mesmo que apenas sob a forma de papéis, ativos e moedas sem lastro), maior a necessidade de novo capital a ser criado para manter a roda girando. Para que a segunda rodada da crise financeira deste ano não termine num imenso crash, mais capital fictício terá que ser criado nesse curto período, diante de nossos olhos, do que em qualquer outro momento da história humana. E isso ainda é mais difícil se pensarmos que não é apenas a bolha acionária que precisa ser alimentada: sobre os ombros da economia norte-americana se eleva também a maior bolha imobiliária da história – uma comentarista financeira da CNBC alertou essa semana que um “apocalipse habitacional está chegando”. 

O estômago do monstro capitalista inchou de tal modo que sua fome só pode ser abreviada com volumes cada vez maiores de ração monetária. Mas não há cirurgia bariátrica que dê conta disso — estamos próximos de uma catástrofe financeira inédita.

Maurilio Lima Botelho é professor de Geografia Urbana da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

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