Mitigar os efeitos do confinamento domiciliar nas crianças durante o surto de COVID-19

Guanghai Wang, Yunting Zhang, Jin Zhao, Jun Zhang, Fan Jiang
Publicado: 04/03/2020.

Link: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30547-X

Traduzido por Vitória Teixeira e Joana Loureiro


Em resposta ao surto de coronavírus (COVID-19), o governo chinês ordenou um plano nacional de fechamento das escolas como uma medida emergencial para evitar a propagação da infecção. Atividades públicas são desencorajadas. O Ministério da Educação da China estima que mais de 220 milhões crianças e adolescentes estão confinados em suas casas; isso inclui 180 milhões de alunos do ensino fundamental e médio e 47 milhões de crianças em idade pré-escolar (1). Graças ao forte sistema administrativo da China, o plano emergencial de educação a distância foi rigorosamente implementado (2). Esforços maciços estão sendo feitos por escolas e professores de todas as etapas para criar cursos on-line e encaminhá-los através de transmissões de TV e internet em tempo recorde. O novo semestre virtual se iniciou em muitas partes do país e vários cursos são oferecidos on-line de maneira bem organizada. Estas ações estão ajudando a aliviar muitas preocupações dos pais sobre a escolarização dos filhos, garantindo que a aprendizagem escolar seja, em grande parte, ininterrupta.


Apesar dessas medidas e esforços serem altamente louváveis e necessários, há razões para se preocupar, pois o prolongamento do fechamento das escolas e o confinamento domiciliar durante o surto da doença podem ter efeitos negativos na saúde física e mental das crianças (3,4). As evidências sugerem que quando as crianças estão fora da escola (por exemplo, nos finais de semana e férias escolares), elas são fisicamente menos ativas, têm muito mais tempo de exposição a telas, padrões irregulares de sono e dietas menos favoráveis, resultando em ganho de peso e perda de aptidão cardiorrespiratória (3,5). Tais efeitos negativos sobre a saúde serão provavelmente muito piores quando as crianças estiverem confinadas em suas casas, sem atividades ao ar livre e sem interação com amigos da mesma faixa etária durante o surto.


Talvez uma das questões mais importantes, mas facilmente negligenciada, é o impacto nas crianças e adolescentes. Estressores como a duração prolongada da quarentena, medo de infecção, frustração e tédio, informações inadequadas, falta de contato pessoal com colegas, amigos e professores, falta de espaço pessoal em casa e a perda financeira da família podem ter efeitos ainda mais problemáticos e persistentes em crianças e adolescentes (4). Por exemplo, Sprang e Silman (6) mostraram que a média dos escores de estresse pós-traumático foi quatro vezes maior em crianças que ficaram em quarentena do que nas que não ficaram em quarentena. Além disso, a interação entre mudanças de estilo de vida e o estresse psicossocial causado pelo confinamento domiciliar pode agravar ainda mais os efeitos prejudiciais sobre a saúde física e mental da criança, o que poderia causar um círculo vicioso. Para mitigar as consequências do confinamento em casa, o governo, as organizações não-governamentais (ONGs), a comunidade, a escola e os pais precisam estar cientes da desvantagem da situação e fazer mais para resolver com eficiência esses problemas imediatamente. Experiências aprendidas com surtos anteriores podem ser valiosas para desenhar um novo programa apto a resolver esses problemas na China (7).


O governo chinês precisa aumentar a conscientização sobre os possíveis impactos à saúde física e mental do confinamento em casa durante esse período incomum. O governo também deve fornecer diretrizes e princípios sobre aprendizado on-line eficaz e garantir que o conteúdo dos cursos atenda aos requisitos educacionais. No entanto, também é importante não sobrecarregar os estudantes. O governo pode mobilizar os recursos existentes, talvez envolvendo ONGs, e criar uma plataforma para reunir os melhores cursos de educação on-line sobre estilo de vida saudável e programas de apoio psicossocial disponíveis para as escolas poderem escolher. Por exemplo, além de cursos inovadores para uma melhor experiência de aprendizado, os vídeos promocionais podem ser úteis para motivar as crianças a ter um estilo de vida saudável em casa, aumentando as atividades físicas, tendo uma dieta balanceada, um sono regular e uma boa higiene pessoal (8). Para tornar esses materiais educacionais realmente eficazes, eles devem ser apropriados à idade e atraentes. Eles exigem experiência profissional e recursos reais para serem criados.


As comunidades podem servir como valiosos recursos na gestão de dificuldades de assuntos familiares. Por exemplo, os comitês de pais podem trabalhar juntos para suprir as necessidades dos alunos com os requisitos da escola e na defesa dos direitos das crianças por um estilo de vida saudável. Psicólogas e psicólogos podem fornecer serviços on-line para lidar com os problemas de saúde mental causados por conflitos domésticos, tensão com os pais, e o medo de se infectar (7). Assistentes sociais podem ter um papel ativo em ajudar os pais a lidar com os problemas familiares decorrentes da situação, quando necessário. Esta rede de segurança social pode ser particularmente útil para famílias desfavorecidas ou monoparentais (9), mas é necessário ação para torná la acessível a elas.

As escolas têm um papel crítico, não apenas no fornecimento de material educacional para as crianças, mas também em oferecer aos alunos uma oportunidade de interagir com os professores e obter aconselhamento psicológico. As escolas podem promover ativamente um cronograma de saúde, boa higiene pessoal, incentivar atividades físicas, dieta adequada e bons hábitos de sono, e integrar esses materiais de promoção da saúde no currículo escolar (3).


Em caso de confinamento em casa, os pais costumam ser o melhor e mais próximo canal para as crianças buscarem por ajuda. Uma comunicação próxima e aberta com as crianças é a chave para identificar quaisquer problemas físicos e psicológicos e para confortá-las no isolamento prolongado. Os pais são frequentemente modelos importantes para o comportamento saudável das crianças. Boas habilidades parentais se tornam particularmente cruciais quando as crianças ficam confinadas em casa. Além de monitorar o desempenho e o comportamento da criança, os pais também precisam respeitar suas identidades e necessidades, e precisam ajudá-las a desenvolver habilidades de autodisciplina. As crianças são constantemente expostas a notícias relacionadas a epidemias, portanto, ter conversas diretas com elas sobre esses problemas pode aliviar sua ansiedade e evitar o pânico (10,11). O confinamento em casa pode oferecer uma boa oportunidade para melhorar a interação entre pais e filhos, envolver crianças em atividades familiares e melhorar suas habilidades de autossuficiência. Com as abordagens parentais corretas, os laços familiares podem ser fortalecidos e as necessidades psicológicas da criança são atendidas (12).


Como a epidemia da COVID-19 não está mais restrita à China (13), questões relacionadas ao fechamento de escolas e confinamento em casa também se tornam relevantes em outros países afetados. Como as crianças são vulneráveis a riscos ambientais e sua saúde física, saúde mental e produtividade na vida adulta estão profundamente enraizadas nos primeiros anos de vida (14), muita atenção e grandes esforços são necessários para resolver esses problemas emergenciais de maneira eficaz e evitar consequências a longo prazo. Qualquer programa sustentável deve envolver profissionais locais para adaptar culturalmente as intervenções ao sistema administrativo e ao ambiente regional e comunitário, e deve desenvolver material contextualmente relevante para as crianças e adolescentes. Enfim, as crianças têm poucas vozes para defender suas necessidades. A mais recente Comissão OMS-UNICEF-Lancet (14) sobre o futuro das crianças de todo o mundo pede uma estratégia holística ao preparar para a incerteza que todas elas enfrentam. É de responsabilidade e grande interesse de todas as partes interessadas, dos governos aos pais, garantir que os impactos físicos e mentais da epidemia da COVID-19 em crianças e adolescentes sejam mínimos.


Ações imediatas são necessárias.


Referências

  1. CCTV News. Ministry of Education: national elementary and middle school network cloud platform opens for free use today.
    http://www.chinanews.com/sh/2020/02-17/9094648.shtml. Date: Feb 17, 2020. Date accessed: March 3, 2020. ([in Chinese]).
  2. Ministry of Education of China. Ministry of Industry and Information Technology of China. Notice of arrangement for “suspension of school does not stop learning” during the postponement for the opening of primary and secondary schools. http://www.moe.gov.cn/srcsite/A06/s3321/202002/t20200212_420435.html. Date: Feb 12, 2020. Date accessed: February 29, 2020. ([in Chinese]).
  3. Brazendale K, Beets MW, Weaver RG, et al. Understanding differences between summer vs. school obesogenic behaviors of children: the structured days hypothesis. Int J Behav Nutr Phys Act. 2017; 14: 100. https://doi.org/10.1186/s12966-017-0555-2
  4. Brooks SK, Webster RK, Smith LE, et al. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Lancet. 2020; (published online Feb 19.) https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30077-8
  5. Wang G, Zhang J, Lam SP, et al. Ten-year secular trends in sleep/wake patterns in Shanghai and Hong Kong school-aged children: a tale of two cities. J Clin Sleep Med. 2019; 15: 1495-1502. https://doi.org/10.5664/jcsm.7984
  6. Sprang G, Silman M. Posttraumatic stress disorder in parents and youth after health-related disasters. Disaster Med Public Health Prep. 2013; 7: 105-110. https://doi.org/10.1017/dmp.2013.22
  7. Decosimo CA, Hanson J, Quinn M, Badu P, Smith EG. Playing to live: outcome evaluation of a community-based psychosocial expressive arts program for children during the Liberian Ebola epidemic. Glob Ment Health (Camb). 2019; 6: e3. https://doi.org/10.1017/gmh.2019.1
  8. Mason F, Farley A, Pallan M, et al. Effectiveness of a brief
    behavioural intervention to prevent weight gain over the Christmas holiday period: randomised controlled trial. BMJ. 2018; 363k4867. https://doi.org/10.1136/bmj.k4867
  9. Liu S, Yang L, Zhang C et al. Online mental health services in China during the COVID-19 outbreak. Lancet Psychiatry. 2020; (published online Feb 19.) https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30077-8
  10. National Health Commission of the People’s Republic of China.
    Guideline for psychological crisis intervention during 2019-nCoV.

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