Da Superstição à Crença Científica – Tomasz Konicz

A nova “Marcha pela Ciência” também revela

como a regressão social  está adiantada no capitalismo tardio

O saber que é poder não conhece barreira alguma, nem na escravização da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo.

Dialéctica do Iluminismo (1)

 

No final de Abril, houve uma onda de protestos da comunidade científica mundial, dirigida principalmente contra as políticas anticiência do presidente dos EUA, Donald Trump (Science March Os cientistas são confrontados com uma hostilidade cada vez maior para com a ciência. Foi o caso, acima de tudo, em relação ao consenso científico sobre as alterações climáticas, que foi o principal objecto do ataque dos novos movimentos populistas de direita.

No entanto, os protestos apresentam um notório enviesamento, em que é omitida qualquer auto-reflexão crítica da ciência. A crítica expressada em relaçãà investigação e ao ensino, foi apenas em relaçãàs condições de trabalho na comunidade científica sendo a função social contraditória da ciência no capitalismo quase completamente ignorada .

A nova “Marcha pela Ciência” recai, assim, numa noção acrítica de ciência, que foi popular no século XIX. Mesmo os clássicos da literatura crítica da ciência parecem não ter deixado vestígios na comunidade científica. E, de facto, o mundo pode ser tão lindamente simples  se se acreditar na ciência o suficiente. Por um lado, há os cientistas esclarecidos que querem comprometer-se com a pesquisa objectiva e com o ensino, na forma da comunidade científica mundial. O outro lado será dominado pelas forças das trevas irracionais, da estupidez, da superstição e dos interesses particulares.

Quase poderia parecer que a dominação no capitalismo ainda seria baseada em rudes superstições, ou no terror da Inquisição. E, de facto, nãé imaginação que a ciência também nas metrópoles está a ser confrontada com cada vez maior cepticismo, às vezes com hostilidade aberta. Há um movimento bárbaro amplo, global, que mergulha em mitos e em ideias delirantes, cujos expoentes variam no grau de militância e na ideologia concreta: do lobby económico de negadores das alterações climáticas até à AfD, de Donald Trump aos Talibãs, do Boko Haram ao Estado Islâmico.

E, no entanto, esta descrição da situação não explica nada. De onde vem este ódio enraivecido à ciência, que está ganhando força, mesmo nos centros do sistema mundial capitalista tardio? Os grupos de lobby e os políticos populistas que polemizam contra a ciência na questão do clima, por exemplo, articulam-se com um amplo estado de espírito na população. A hostilidade à ciência, o populismo e o extremismo florescem não só na periferia “subdesenvolvida” (como o mundo árabe), mas especialmente nos centros (sobretudo nos EUA), que foram submetidos a um processo de racionalização de longo prazo.

Como se transforma , de repente, o esclarecimento científico, a quase completa racionalização capitalista das sociedades metropolitanas, em irracionalidade, precisamente nos actuais tempos de crise?

Esta nãé uma pergunta nova. A Teoria Crítica já colocou essa questão, em reacçãàs consequências bárbaras da última grande crise do sistema capitalista da década de 1930. Como poderiam  na forma da Alemanha nazi  triunfar no coração da Europa “civilizada” e racionalizada, na pátria do Iluminismo, a barbárie e o mito? A resposta a esta questão, que suscita nova urgência perante a actual dinâmica populista, aponta para o processo de esclarecimento propriamente dito.

É o unilateral processo do esclarecimento, do iluminismo, cego em relação a si mesmo, que se transforma em mito, constataram Adorno e Horkheimer em sua famosa Dialéctica do Iluminismo. O mundo capitalista “totalmente esclarecido” resplandecia sob o “signo de uma calamidade triunfal”, embora o Iluminismo quisesse livrar os seres humanos do medo, e investi-los “na posição de senhores”, dizia-se no clássico da Teoria Crítica, publicado em 1944. O estado de impotência e medo do capitalismo tardio, no qual cresce o mito na sequência dos surtos de crise, é devido precisamente à racionalidade instrumental, cega e positivista, que o processo do Iluminismo estabeleceu:

O casamento feliz entre o entendimento humano e a natureza das coisas … é patriarcal: o entendimento que vence a superstição deve imperar sobre a natureza desencantada. O saber que é poder não conhece barreira alguma, nem na escravização da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo. Do mesmo modo que está ao serviço de todos os fins da economia burguesa na fábrica e no campo de batalha, assim também está à disposição dos empresários, não importa a sua origem. Os reis não controlam a técnica mais directamente do que os comerciantes: ela é tão democrática quanto o sistema económico com o qual se desenvolve. A técnica é a essência desse saber, que não visa conceitos e imagens, nem o prazer do discernimento, mas o método, a utilização do trabalho de outros, o capital … O que os homens querem aprender da natureza é como empregá-la para dominar completamente a ela e aos homens. Nada mais importa. Sem a menor consideração consigo mesmo, o esclarecimento eliminou com seu cautério o último resto de sua própria autoconsciência. Só o pensamento que se faz violência a si mesmo é suficientemente duro para destruir os mitos.

Dialéctica do Iluminismo

O método científico produzido pelo processo de esclarecimento é, portanto, oco, privado de qualquer conteúdo além do objecto de estudo. É um método puro, um meio puro, cego perante os fins que persegue  e é disso que o cientista está tão orgulhoso, na figura da sua objectividade científica.

O conhecimento, que quer ser apenas um meio, torna-se um instrumento de dominação, sobre um mundo que é percebido apenas como objecto. Essa cegueira do método científico para consigo mesmo é, portanto, inerente ao processo de esclarecimento capitalistamente deformado. E aqui já está aplicada toda a barbárie subsequente. Os objectivos mais irracionais e insanos podem ser buscados por meio de métodos racionais, desde a irrupção do Iluminismo. Até agora, o culminar deste desenvolvimento é a fábrica de extermínio de Auschwitz, operada cientificamente.

O pensamento “oco” do Iluminismo visando a dominação, que é apenas um meio, prega o positivismo extremo. Aqui, o Iluminismo é “totalitário”, nas palavras de Adorno e Horkheimer:

No trajeto para a ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela regra e pela probabilidade  Doravante, a matéria deve ser dominada sem o recurso ilusório a forças soberanas ou imanentes, sem a ilusão de qualidades ocultas. O que não se submete ao critério da calculabilidade e da utilidade torna-se suspeito para o esclarecimento.

Dialéctica do Iluminismo

Não há nada que não possa ser medido, que não possa ser contado  essa é a tendência do positivismo científico. Somente os factos contam. Em última análise, o pensamento iluminista desfaz-se num culto absoluto e desolado dos factos e dos números, expressão da reificação da consciência capitalista tardia. As discussões recentes sobre a palavra-chave “pós-verdade” representam precisamente toda a miséria do positivismo capitalista tardio, que ameaça transformar-se em pensamento mítico.

O positivismo é aqui apenas o resultado do movimento real, e afinal irracional, do movimento de reprodução das sociedades capitalistas, do fim em si da acumulação ilimitada de quantidades de capital cada vez maiores  ou seja, de valor abstracto. A proximidade entre positivismo iluminista e ideologia é evidente. Aqui, novamente a Dialéctica do Iluminismo:

A sociedade burguesa está dominada pelo equivalente. Ela torna o heterogéneo comparável, reduzindo-o a grandezas abstractas. Para o esclarecimento, aquilo que não se reduz a números e, por fim, ao uno, passa a ser ilusão: o positivismo moderno remete-o para a literatura.

Dialéctica do Iluminismo

A aparente variedade de sociedades capitalistas é enganadora: tudo no capitalismo é mercadoria, e qualquer mercadoria apenas tem importância como portadora de valor abstracto, que deve ser acumulado. No capital, nãé reconhecido nada que não seja valor pelo que, em tempos de crise, prevalece a tendência para homogeneizar toda a sociedade, para a ajustar com a abstração do valor entrada em crise (como raça homogénea, como nação homogénea, como religião homogénea, etc.).

O Iluminismo, na verdade, experimentou a sua irrupção histórica  o saber-poder, que não conhece limites na “complacência em face dos senhores do mundo”  devido à colaboração com o domínio no absolutismo, quando o mundo feudal entrou em plena dissolução e o capitalismo se pôs em marcha. Os senhores absolutistas “esclarecidos” do século XVIII, traficantes de escravos do feudalismo tardio, que procuravam espremer seus súbditos de modo cada vez mais eficiente, reconheceram os benefícios de uma dominação esclarecida e “racional” que lhes dava vantagem competitiva na eterna guerra europeia.

Desde o absolutismo, a dominação constrói crescentemente na base da razão instrumental, permitindo que a exploração e o controlo do material humano sejam aperfeiçoados cada vez mais. Este processo chegou de certo modo ao seu fim lógico na era do constrangimento objectivo. A dominação, portanto, enfrenta os prisioneiros do capitalismo tardio, que foram degradados em objectos, com a máscara da razão instrumental. E mesmo essa degradação tem uma espécie de método científico objectivo, como observaram Adorno e Horkheimer:

O esclarecimento comporta-se com as coisas como o ditador se comporta com os homens. Este conhece-os na medida em que pode manipulá-los. O homem de ciência conhece as coisas na medida em que pode fazê-las. É assim que seu em-si torna para-ele. Nessa metamorfose, a essência das coisas revela-se como sempre a mesma, como substrato da dominação.

Dialéctica do Iluminismo

Pois qual é a natureza da dominação no capitalismo? Não há mais senhores absolutistas, cujas máquinas militares, com sua fome insaciável de dinheiro, proporcionaram uma importante ignição inicial para a descolagem do capital. No capitalismo, prevalece a relação de capital como uma abstração real social  assim, a dominação no capitalismo tardio é sem sujeito.

O que prevalece com o capital é uma dinâmica social global, gerada inconscientemente pelos sujeitos do mercado, que os enfrenta sob a forma de um poder estranho, quase “natural” e cego de raiva. Dinheiro que quer tornar-se mais dinheiro  este processo contraditório de acumulação ilimitada de valores monetários abstractos destrói o mundo muito concreto. E isso acontece com uma precisão científica. A rede de dominação sem sujeito e mediada, que se está a fechar cada vez mais apertada no capitalismo tardio, foi tecida por meio da aplicação de métodos científicos  e não contra eles. O fim em si irracional de uma acumulação de capital ilimitada e louca é aperfeiçoado pela ciência cega do Iluminismo. A razão iluminista é um meio de dominação.

É claro, portanto, o que desencadeia o ressentimento capitalista tardio contra a ciência. É uma rebelião reaccionária e oportunista contra os meios científicos da dominação capitalista, uma vez que é proibido criticar o fim em si irracional. O capital, na verdade, já não pode ser posto em questão. A relação de capital há muito que foi sedimentada ideologicamente como a “ordem natural”, cuja imposição o Iluminismo propagava  enquanto as suas contradições são credivelmente externalizadas ou personificadas. Isso ocorre principalmente através da apresentação de bodes expiatórios.

ódio de muitos partidários de Trump contra a actividade científica nãé apenas soprado por lobbies económicos apropriados  como os negadores do clima. Também resulta das experiências cotidianas incompreendidas, quando, por exemplo, as inovações científicas destroem postos de trabalho. O absurdo de uma formação social anacrónica, na qual o aumento da eficiência leva à crescente miséria, nãé reconhecido pelos seguidores populistas de Trump. Em vez disso, instala-se uma espécie de pós-moderna mentalidade de destruidores de máquinas, onde o ódio à ciência emparelha com o desejo reacionário de reindustrialização, de retorno à boa e velha sociedade industrial.

ódio à ciência é, em última instância, o ódio às consequências de um progresso científico deformado pelo capitalismo, que transforma o ser humano num mero apêndice de um processo de reprodução capitalista autonomizado, contraditório e irracional. Quanto mais a revolução científica impulsiona o processo de racionalização capitalista, tanto mais o ser humano se torna descartável na esfera económica.

É precisamente da supressão crescente da força de trabalho na esfera da produção de mercadorias que surge o carácter contraditório do progresso científico no capitalismo: por um lado, como potencial da emancipação pós-capitalista e, por outro, como uma fatalidade concreta do capitalismo tardio, desindustrializando regiões inteiras dos EUA. Uma actividade científica mutilada pelo capitalismo, que é incapaz de reflectir criticamente sobre sua própria posição no processo de reprodução capitalista, contribui para o surgimento das forças irracionais que se viram contra a ciência como tal.

Mas, enquanto não for tentada a evasão para fora da prisão conceptual capitalista, qualquer inovação científica numa indústria só pode levar ao receio pelo posto de trabalho. No ressentimento contra a ciência, que se concentra em particular nos seguidores de movimentos populistas, como o de Trump, exprime-se, em última análise, o pressentimento irreflectido da própria superfluidade no capitalismo tardio.

 

(1) Nota do tradutor: As citações de Adorno/Horkheimer seguem de perto a tradução de Guido Antonio de Almeida (Dialética do Esclarecimento, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1985)

 

 

Original Vom Aberglauben zum Wissenschaftsglauben. Wie weit die gesellschaftliche Regression im Spätkapitalismus vorangeschritten ist, offenbart auch die neue Wissenschaftsbewegung in www.exit-online.orgPublicado pela primeira vez na revista Telepolis em 07.05.2017. Tradução de Boaventura Antunes

 

http://www.obeco-online.org/

http://www.exit-online.org/

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3 comentários sobre “Da Superstição à Crença Científica – Tomasz Konicz

  1. Sugiro aos demais leitores (e ao autor também, por que não?) a leitura de Masanobu Fukuoka. Ao menos da biografia deste.
    Para Fukuoka, a ciência ocidental moderna é uma forma de conhecimento que, dentre outros defeitos, precisa matar seu “objeto” de conhecimento para analisá-lo (por exemplo, o estudo dos seres vivos é feito matando-os e dissecando-os).
    Quando a Syngenta ou a Monsanto criam um agrotóxico “ultra-moderno”, elas só querem saber se ele mata o “inseto alvo”, pouco se importando com as consequências para o meio-ambiente.
    Agradeço ao autor e ao Arlindenor por partilharem esse texto e lembrar-nos dessa grande obra que é a Dialektik der Aufklärung. Até hoje, a obra é pouco compreendida, a despeito de sua lucidez e profundidade.
    Um grande abraço e peço ao Arlindenor que poste artigos com mais frequência.

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