A importância da crítica do valor e da crítica da dissociação-valor para a ciência da história – Klaus Kempter

 

Lá se vão 5 anos sem a presença entre nós de Kurz ! Podemos dizer sem ter dúvidas : uma grande falta, mormente nestes dias de aprofundamento da crise que ele tão bem sentiu, estudou e compreendeu.

Logo que soubemos de sua morte, em 18 de julho de 2012, escrevemos um texto que foi publicado no Jornal Outras Palavras , onde manifestávamos o nosso pesar e já ali dizíamos que seu pensamento nos faria muita falta . E é exatamente isto o que ocorre !

Num momento de agudização da crise carece a esquerda marxista de uma compreensão dos verdadeiros contornos deste tempo crucial que vive a humanidade, sob o jugo da economia capitalista que apresenta claros sinais de exaustão .

Fica claro, portanto, que por não compreendê-la é então incapaz de formular uma teoria de superação; teoria que possa levar a nossa espécie por caminhos libertários onde encontre a sua emancipação impedindo o processo de barbarização que nos levará a extinção neste planeta .

Robert Kurz, no breve momento em que produziu teoricamente foi capaz de apresentar ideias originais  onde a característica da crise foi desvendada e pensou propostas que certamente terão um grande papel na formulação de uma teoria abrangente que possa nos tirar da crise .

Durante estes cinco anos em nosso blogue privilegiamos estas ideias e reproduzimos aqui muitos de seus textos , invariavelmente publicados na revista que fundou, a Exit, e nas publicações em português de O Beco.

Para registramos este momento de ausência de Kurz trouxemos aqui para vocês o artigo de Klaus Kempter onde é feito uma exposição do pensamento kurtiano e o sua importância como elemento crítico da Sociedade da Mercadoria .

Esperamos que ele seja útil e possa contribuir para uma melhor compreensão do pensamento de um dos maiores teóricos do marxismo  contemporâneo .

Arlindenor Pedro

 

A importância da crítica do valor e da crítica da dissociação-valor para a ciência da história

 

Sobre a relevância persistente de Karl Marx

O texto que segue foi escrito com a intenção de introduzir as ideias teóricas e históricas fundamentais de Robert Kurz na historiografia académica e torná-las fecundas em pesquisas futuras. É óbvio que a prestação da crítica do valor e da crítica da dissociação-valor tem de superar obstáculos significativos na comunidade científica.

Afinal as chamadas linhas de uma nova teoria crítica desenvolveram-se longe das formas académicas convencionais, e a ciência da história, se de algum modo orientada para a teoria social, já na década de 1970 se desligou do discurso marxista e se virou para o pós-estruturalismo. Consequentemente, entre a crítica da dissociação-valor e a ciência da história – bem como as ciências sociais académicas em geral – vigora até hoje a completa ausência de relacionamento.

Os esforços para a publicação deste artigo numa revista especializada de ciência da história só em parte foram coroados de sucesso: Uma versão muito reduzida acabou por ser publicada sob o título de Robert Kurz, a “crítica do valor” e a teoria social radical ou É Karl Marx ainda relevante para a história?

Na revista WerkstattGeschichte nº 72, 2016, pp. 65-76.
 

Depois de o “socialismo realmente existente” ter perecido de repente em 1989-1991, parecia ter entrado definitivamente no museu das ideias perdidas a visão do mundo do materialismo histórico, do marxismo-leninismo e não só. Também as numerosas ideias desviadas de Karl Marx nos círculos social-democratas, socialistas de esquerda ou marxistas heterodoxos do Ocidente liberal de repente foram consideradas tão obsoletas, até mesmo para os membros desses grupos, como a crença bíblica na criação em face da revolução darwiniana. No campo das ciências sociais, onde tinha havido uma tradição de “marxismo ocidental” na realidade marginal, embora respeitada, pouco influenciada pela política quotidiana – pense-se da Escola de Frankfurt e seus derivados, mas também para a recepção do pensamento de Antonio Gramsci – as “abordagens” que se referiam a Marx desapareceram quase completamente do discurso. Claro que continua a haver um certo número de filósofos, cientistas sociais, geógrafos e antropólogos – e maîtres penseurs actuais como Alain Badiou e Slavoj Žižek – que vêem em Marx um pensador ainda fecundo. (1)

Na ciência da história académica, o confronto com as ideias de Marx parece não apenas marginal, mas completamente desaparecido. Se antes havia historiadores de renome que explicitamente se reconheciam na tradição marxista, hoje é difícil encontrar alguém que reconheça às concepções de Marx pelo menos um potencial de estímulo. Eric Hobsbawm, que se considerou até ao fim da sua longa vida como um marxista – quando mesmo nas suas declarações políticas se aproximava cada vez mais de um reformismo social-democrata de aparência pouco radical – não teve nenhum sucessor, e por isso o teórico do sistema mundial Immanuel Wallerstein deverá ser provavelmente o último representante bem conhecido na historiografia de uma tradição científica quase totalmente afundada.

Na melhor das hipóteses, ainda existem vestígios do antigo marxismo historiográfico nos postcolonial studies: debates sobre a hegemonia gramsciana, conceitos como o de “subalterno”, a introdução de concepções que lidam com o racismo, o sexismo e os colonizados – bem como os teoremas do “empire” e da “multitude” do pós-operaismo e a maioria das contribuições teóricas pós-marxistas em geral – representam desenvolvimentos e desdogmatizações do discurso das classes. No entanto, com a sua abertura do campo de visão meramente a estudos geográficos, sociológicos e da ciência cultural e a negligência decididamente anti-economicista das categorias básicas de Marx estão a privar-se do potencial teórico possivelmente decisivo.

A instabilidade permanente e o desenvolvimento crítico da economia mundial que persiste desde 2008 colocou Marx e a sua crítica do capitalismo de novo na agenda do debate político e jornalístico. Várias publicações lembram desde então o Padre da Igreja da crítica do capitalismo e perguntam-se se ele estava certo, e, a ser assim, porquê e onde exactamente. (2)

Nos Estados Unidos, centro do sistema mundial, jovens intelectuais lançaram revistas radicais como The Jacobin ou n+1, em que se lida com instrumentos conceptuais marxianos. (3)

Fizeram furor um manifesto activista de inspiração marxista sobre A Insurreição que vem e outro que se dá por filosófico sobre a “ultrapassagem aceleracionista” do capitalismo. (4)

Em qualquer caso, o uso agora sem preconceitos da palavra antes estimulante “capitalismo” permite, por vezes, esperar um renascimento de Marx. Mas a ciência da história parece não ser afectada por isso. Porquê?

Uma suspeita óbvia se impõe: Talvez essas ideias de Marx, que tinham função de orientação na pesquisa histórica marxista anterior, tenham passado de moda, ou tenham sido mesmo inaptas desde sempre. Por exemplo, a ideia de que a chamada base económica das sociedades existentes deve ser sempre o ponto de partida da sua penetração historiográfica; o dogma de que toda a história seria a história das lutas de classes, de que se teria de procurar sempre interesses materiais divergentes e conflituantes para ir para o terreno da história real, não se devendo deixar distrair pelos reflexos meramente ideológicos na cultura e ideologia; a ideia de que o Estado moderno nada mais seria do que o comité de gestão de negócios da classe burguesa, todos estes pressupostos, que estão subjacentes na historiografia marxista nas suas variantes mais grosseiras e também em algumas mais subtis, desapareceram completamente do debate historiográfico, e com razão.

Mas este antigo marxismo – e também qualquer um novo – não é todo o Marx. Na mina gigantesca do pensamento de Marx, escavando suficientemente fundo, encontram-se veios que valem bem a pena o esforço. As considerações seguintes são um apelo para assumir esse esforço, para dar à historiografia um novo impulso, e assim afastar tanto a reserva académica convencional contra a historiografia fundada na teoria social como a aversão pós-moderna às grandes narrativas que se torna cada vez mais estéril. Para compreender o mundo de hoje e a sua evolução no decurso de dois e meio a cinco séculos de modernidade capitalista, dependendo da abordagem, o recurso a Marx continua a ser essencial – naturalmente não ao
Marx trans-histórico da luta de classes, do Manifesto Comunista e do progresso social imparável, ainda que em formas de desenvolvimento dialéctico; mas ao Marx que analisou as sociedades “em que domina o modo de produção capitalista” (5), ou seja, ao teórico do mecanismo social fundamental da valorização do valor, do processar cego do capital como “sujeito automático” do mundo moderno. Propõe-se aqui que a ciência da história se ocupe não com o marxismo, nem mesmo com o “ocidental”, mas com o relativamente desconhecido Marx “esotérico”, como o entendeu o teórico e historiador Robert Kurz pouco lido nos círculos académicos, e que ponha à prova a questão de saber se o trabalho de Kurz inspirado em Marx pode prestar uma profunda contribuição para a compreensão da história moderna. (6)

Robert Kurz e a crítica do valor

Robert Kurz (1943-2012) foi um dos muitos activistas que se juntaram na “década vermelha”, após a revolta estudantil ocidental de 1968, a uma das seitas de esquerda radical recém-surgidas, tentando durante vários anos iniciar a revolução nos “centros capitalistas.” No final dos anos setenta, ele rompeu com este por ele mais tarde chamado “politicismo”, para se assegurar dos fundamentos teóricos da prática política de esquerda, com um grupo de pessoas com a mesma ideia. Na década seguinte, este círculo teórico de Nuremberga ocupou-se com Marx e o marxismo, e isto especialmente sob o signo da teoria da crise. Desde 1986 Kurz e alguns companheiros de luta publicaram o órgão teórico Marxistische Kritik [Crítica Marxista]. Em 1990, a revista adoptou o novo nome de Krisis – programaticamente, não só por causa do foco temático identificado, mas também como despedida do marxismo, não implicando, porém, nenhum adeus a Marx. Kurz foi o seu principal autor até à divisão da redacção em 2004 e à fundação da nova revista teórica Exit! Crise e crítica da sociedade da mercadoria. O seu ensaio de 1986 A crise do valor de troca (7), é o documento fundador de uma nova teoria crítica, que o grupo de Nuremberga chamou “crítica do valor” com referência às categorias de base marxianas. E desde o início dos anos noventa Kurz publicou várias monografias maiores e menores, das quais sobretudo O livro negro do capitalismo (1999) teve ampla divulgação. Com o crescente nível de notoriedade alargaram-se as suas oportunidades de publicação. Desde meados dos anos noventa escreveu para o jornal brasileiro Folha de São Paulo, teve a partir de 2002 uma coluna de política económica no jornal Neues Deutschland e publicou artigos no semanário Freitag. Kurz procurou também intervir como orador e conferencista, naturalmente mais uma vez quase exclusivamente nos círculos políticos de esquerda. A sua vida era assim muito longe dos fóruns académicos, onde geralmente se sugere, processa e continua a desenvolver a “ciência”. Por isso a obra de Kurz desempenha tão pouco um papel nas discussões dos círculos eruditos como nos registos académicos habituais. Textos científicos académicos e obras panorâmicas professorais desenvolvem-se até hoje sem referência a Kurz – mesmo quando se trata de questões por ele abordadas em detalhe e de modo muito estimulante. Recentemente, ainda assim, alguns dos seus ensaios foram publicados em Inglês, juntamente com os de outros “críticos de valor”, numa coleção de textos básicos de crítica do valor. (8) O futuro mostrará se isso pode promover a recepção internacional, e não só junto de tardomarxistas e pós-marxistas. As conclusões de Kurz – formuladas evitando intencionalmente a “preocupação e equilíbrio” da prosa académica (9) – são demasiado originais e relevantes, especialmente no estudo da história, para serem deixadas aos círculos políticos de esquerda, como deve ficar claro a partir do seguinte.

O ponto de partida de Kurz foi sem dúvida eminentemente político, como se referiu: a preocupação contemporânea com a crise das sociedades industriais nos anos setenta e oitenta, na formulação do discurso académico, que para Kurz apontava para o esgotamento definitivo das energias do modo de produção capitalista. Este esgotamento repercutiu-se na história mundial, primeiro como colapso do “socialismo de caserna” da União Soviética e dos seus Estados satélites.

O colapso da modernização e a historicidade do capitalismo

O facto de Kurz e os críticos do valor de Nuremberga, tal como os representantes seus contemporâneos da teoria de convergência “burguesa”, não verem qualquer diferença “categorial” entre as sociedades industriais da economia de mercado ocidental e o socialismo Estado do Leste poderá inicialmente ter sido devido à origem no maoismo, mas foi depois também teoricamente justificado em detalhe. Em seu primeiro livro de 1991, O colapso da modernização, Kurz explicou, antes de submeter a uma análise as fraquezas sistémicas do “mercado planeado” do socialismo real, o que ele pensava que era o lugar histórico dos regimes de produção soviético e do Leste europeu, desde 1917 ou desde 1945 (10). Com referência a pensadores do início da modernidade, como Fichte e Tocqueville, atribuíu ao socialismo de Estado a função histórica de compensar, nas sociedades retardatárias da periferia capitalista, o atraso na reprodução económica pela via da economia de comando estatal. Como observa Kurz, Fichte já havia esboçado, no seu escrito O Estado comercial fechado (1800), uma produção de mercadorias planeada pelo Estado, lançando assim uma base ideológica fundamental para o bem conhecido estatismo alemão (e não só) em termos de teoria e política económica. Segundo Kurz, a contribuição de Tocqueville, como analista dos acontecimentos revolucionários na França em L’Ancien Régime et la Révolution, foi ter evidenciado, de modo nada sentimental nem idealista, que a mudança das formas políticas de governo da monarquia para a república parlamentar foi secundária perante a imposição do Estado moderno em geral, e que a revolução francesa terá sido uma luta não tanto por direitos civis e soberania popular, mas sobretudo em torno da herança do Estado nacional e do mercado já criados pelo absolutismo e da sua colocação ao serviço dos objectivos capitalistas privados. A Revolução Russa de Outubro e o subsequente estabelecimento dos chamados Estados e economias socialistas estavam, segundo Kurz, nesta tradição de uma agora indubitavelmente “modernização atrasada” estatistamente controlada. De modo nenhum representaram, portanto, uma tentativa de extrair as consequências da crítica radical de Marx à produção capitalista de mercadorias, pelo contrário, assumiram em primeiro lugar implementar este modo de produção, sob gestão estatal em vez de gestão privada.

E quando este “capitalismo do Leste” sob comando do Estado entrou em colapso no final da década de 1980, Kurz e os seus colegas não ficaram surpreendidos nem tristes. Pelo contrário, eles já tinham descrito há anos a inconsistência do socialismo de caserna, o absurdo dos seus mercados planeados e das suas relações de concorrência “secundárias”. (11)

Mas a visão de Kurz, contra o espírito do tempo do início dos anos de 1990, rejeitava simultaneamente que o colapso do socialismo do bloco de Leste de algum modo significasse a vitória histórico-mundial da democracia e da economia de mercado e o “fim da história” diagnosticado por Francis Fukuyama. (12) O triunfalismo do Ocidente parecia-lhe inteiramente despropositado. Os antigos centros da modernização não tinha vencido; eles simplesmente tinham permanecido, após a queda da periferia menos desenvolvida. A crise geral do capitalismo, de que tinha sido vítima, na realidade, a concorrência do Leste, também já os tinha atingido, como Kurz procurara mostrar já no seu primeiro artigo empírico-teórico fundamental de 1986.

Em que consiste esta crise do capitalismo, que não é uma crise habitual e cíclica e nem sequer uma das raras que puseram em perigo a sua existência, historicamente pelo menos uma vez – no início dos anos 1930 –, mas indica o atingir do “limite interno” absoluto do modo de produção capitalista? Robert Kurz e a crítica do valor seguem aqui algumas observações bastante erráticos de Marx, tais como as do chamado “Fragmento das máquinas” do extenso manuscrito sobre crítica da economia política escrito em 1857-1858 e só publicado pela primeira vez no final dos anos de 1930 sob o título Grundrisse: “O próprio capital é a contradição em processo, porque procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza”, (13) para estabelecer a base da sua hipótese de que, a partir de um determinado nível de aumento da produtividade, a única potência criadora de valor, a força de trabalho humana, é afastada do processo de produção numa escala tão elevada que o modo de produção no seu conjunto não pode continuar a existir. Este limite interno, de acordo com a análise da crítica do valor, foi atingido desde os anos de 1970 e 1980, com o uso da tecnologia informática, da automação, da informatização e digitalização, isto é, com a terceira revolução industrial, a revolução microeletrónica. Desde então, o regime de produção moderno encontra-se num declínio inexorável. (14)

Partindo deste diagnóstico da crise contemporânea e seguindo a correspondente indicação de Marx, Kurz submeteu a um exame, no decorrer da década de 1990, não apenas o capitalismo actualmente existente – incluindo vários escritos polémicos, por exemplo, sobre os problemas da reunificação alemã (15) – mas toda a formação histórica. Ele empreendeu a tentativa (que distingue a sua narrativa fundamentalmente de todas as interpretações históricas académicas, bem como das extra-universitárias e do “marxismo residual”) de escrever toda a história do capitalismo em face do seu fim iminente – como história por assim dizer “de fora”, com um olhar tudo menos frio ou neutro, mas um olhar à distância. Ele partiu, portanto, do pressuposto de que o fim à vista da economia de mercado capitalista implica que esta também tem um começo historicamente identificável, uma “história da constituição” e uma “história da imposição”, e um posterior desenvolvimento progressivo “em processo”, e não repousa de certa maneira em si mesma na eternidade, como constante ontologicamente solidificada,  ainda que entendida em evolução.

Com isto ele virou-se contra as ideias a-históricas e anti-históricas generalizadas de estados de equilíbrio e processos cíclicos da economia de mercado. Notoriamente que é óbvio e, portanto, conhecido por todos, dentro e fora das ciências económicas, que a economia moderna trouxe o contínuo aumento da produção de bens, maior estoque de capital, inovação tecnológica, expansão do círculo de consumidores, etc., mas isso normalmente não conduz à consideração histórico-evolutiva dos eventos económicos.

Em vez disso, os mais diferentes analistas da economia moderna permanecem presos a um pensamento circular a-histórico, que marcou a ciência económica desde os seus começos. Repetidamente são forçadas analogias médicas, mecânicas ou cosmológicas para constatar o eterno retorno do sempre igual (perante a milagrosamente aumentada riqueza de bens) e pintar idílios de mercado. Na economia política académica, apenas Schumpeter constitui uma excepção dos principais teóricos com a sua “Teoria do desenvolvimento económico”, a ideia muito citada da “destruição criativa” e o desenvolvimento do processo de inovação e imitação. No entanto, a adaptação que se pode ver nele e noutros das “ondas longas” de Kondratieff acaba também em ideias de ciclos, ainda que de muito maior dimensão do que os utilizados na teoria conjuntural de curto prazo.

Contra as ideias estáticas de equilíbrio e de ciclos da ciência económica, de proveniência tanto neoclássica como keynesiana, mas também do marxismo, na forma de crises de super-acumulação e limpeza continuamente recorrentes, se bem que “em escala mais elevada”, ou da tese de que “o capital” tende para a guerra, para destruir a riqueza existente em bens e instalações produtivas e começar de novo com a acumulação, empreendeu Kurz desde os anos de 1980 o esforço para expor a teoria da crise, que surge em muitos pontos da obra de Marx sem no entanto ser exposta sistematicamente, e que permaneceu afinal fragmentária – uma tentativa cujos resultados não podem ser apreciados aqui. Ele tornou-se simultaneamente um historiador do capitalismo e um eminente pensador da história.

A história do capitalismo I: Constituição e imposição da economia de mercado industrial

Quando Kurz no final dos anos de 1990 publicou a sua principal obra historiográfica, O livro negro do capitalismo, com o subtítulo Um canto de despedida da economia de mercado, (16) o seu modo de exposição resultou da conclusão de que “processos estruturais cegos e reflexão apologética constituem em conjunto o processo histórico real.” (17) O Livro Negro como “exposição integrada” das três revoluções industriais descreve assim, por um lado, os processos estruturais em parte quase naturais e em parte politicamente implementados desde o final do século XVIII: o desenvolvimento de grandes indústrias na Inglaterra e nos países seguintes da Europa Ocidental, ligado à coerção terrorista que foi exercida desde o início sobre as massas de população camponesa, para treiná-las como “bois de carga” do processo de valorização do capital abstracto – aqui partilha Kurz, de forma original e desenvolvida, as exposições de Marx e Foucault sobre a “acumulação original”. (18) Por outro lado, ele recua ao comentário e à conceptualização ideológicos dessas mudanças e documenta in extenso o papel afirmativo da filosofia da idade moderna – o pensamento iluminista, o idealismo alemão, o utilitarismo inglês etc. – para a génese e implementação do capitalismo, da economia de mercado, da modernidade. Kurz usa os escritos da filosofia burguesa e do pensamento económico inicial – por exemplo, de Mandeville e Adam Smith, mas também de Kant – para mostrar que, a partir de um movimento do pensamento emancipatório, aspirando à liberdade individual, à igualdade e fraternidade entre todos as pessoas, não se pode falar de uma “história ocidental” de civilização. Pelo contrário, o modelo, numa frente contra a dominação de instâncias pré-modernas religiosamente fundamentadas, foi a concorrência da economia de mercado, incluindo o sujeito universal sem qualidades e afectando todas as manifestações da vida. Kurz apresenta deste modo uma versão surpreendentemente “idealista” da história do capitalismo: a descrição da realização do pensamento iluminista, que, naturalmente, não tem em si nada de ideal, mas – de forma extrema como em de Sade, também ele pertencente aos iluministas, mas também no liberal democrata Jeremy Bentham e no seu Panóptico – é no essencial uma “utopia negra”: um pensar da preparação e treino para a luta de todos contra todos da economia de mercado. O pensamento iluminista esteve ao serviço de um disciplinamento abrangente das pessoas, com o objectivo “de levar ao cúmulo a hostilidade dos indivíduos, a guerra infame da concorrência”, (19) como escreveu o filho dum industrial Friedrich Engels.

Já no Livro Negro de 1999, e muito mais detalhadamente na sua última monografia Dinheiro sem valor (2012), Kurz descreveu a substituição dos regimes de produção das sociedades agrárias pré-capitalistas centradas na religião pela modernidade produtora de mercadorias: ele não a vê como um processo evolutivo, tal como, apesar das referências de Marx ao carácter violento da “acumulação original”, tem sido muitas vezes concebida mesmo em escritos marxistas, não a vê como mudança no conjunto pacífica da nobreza feudal para a burguesia urbana de comerciantes e fabricantes. Pelo contrário, tanto a economia doméstica rural como também o corporativismo urbano, na verdade estático, mas garantindo o equilíbrio social, foram destruídos activamente pelas instâncias estatais absolutistas. Com a abolição dos regulamentos antigos e a criação de relações de mercado em larga escala instalou-se a concorrência universal, impedindo, entre outras coisas, que as inovações técnicas do início da era industrial fossem utilizados para benefício do bem-estar geral e para facilitar o trabalho. Em vez disso, foram usadas como meio de produção de riqueza abstracta, bem como para prender os sem-terra e os desapropriados dos seus bens ao aparelho industrial. (20)

A miséria em massa da industrialização inicial já foi descrita na época, por exemplo por Friedrich Engels, no seu relatório sobre A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (1845), e por Marx em O Capital, (1867) com base nos relatórios de inspecção às fábricas inglesas; no entanto vale a pena ler as descrições poderosas dos Moinhos Satânicos (William Blake) capitalistas no Livro Negro de Kurz. A historiografia académica ocidental, predominantemente da perspectiva das sociedades de consumo desenvolvidas do final do século XX, atribuiu a miséria social e o pauperismo do início do século XIX não à industrialização capitalista, mas justamente ao seu atraso em relação ao crescimento da população que a antecedeu, e quis entender os estados de miséria da industrialização como triste fase de transição, mais ou menos inevitável, da economia de mercado a caminho de um “bom capitalismo” igualitário de Estado-providência. Na narrativa de Robert Kurz ambos os discursos de justificação são rejeitados: por um lado, a miséria não era pré-capitalista, devida a condições tradicionais primitivas medievais, pelo contrário: no final da Idade Média, as condições de vida das pessoas comuns eram muito melhores do que nos tempos posteriores. Isso era verdade tanto para as necessidades materiais, como para as oportunidades de poder determinar o próprio tempo e o próprio quotidiano, e por isso foi a imposição do capitalismo e não o crescimento da população, como explica a “empresa científica academicamente devota do Estado” em “argumentação maltusiana”, que mergulhou grande parte da população europeia na catástrofe social. (21)

Por outro lado, mesmo o capitalismo tardio, até nas regiões de bem-estar da América do Norte e da Europa Ocidental, não foi uma época idílica, pelo contrário, para Kurz foi a utopia negativa, chegada a um objectivo provisório, de uma máquina social que elevou a fim em si o regime do trabalho abstracto, ou seja, da actividade orientada não para “coisas úteis” concretas, mas para o aumento da riqueza monetária. O facto de o capitalismo tardio, pelo menos por algumas décadas, no “curto verão siberiano do milagre económico” após a Segunda Guerra Mundial, ter trazido para uma parte da população mundial uma certa riqueza material não pôde compensar o empobrecimento das massas no século XIX nem a destruição das economias de subsistência do chamado terceiro mundo. E certamente o curto período de prosperidade não poderia iludir sobre os outros graves custos da modernização: o facto de que a humanidade, inicialmente sob coerção brutal, em seguida, cada vez mais, por meio de mecanismos de internalização do autodisciplinamento – praticado, por exemplo, no adestramento taylorista da industrialização acelerada – ter sido levada a submeter-e ao regime automático do “trabalho”, ao dispêndio absurdo de “cérebro, músculo, nervo, mão, etc.” (Marx) (22) com a finalidade de mera “obtenção de lucro”.

Com a crítica do trabalho enquanto tal, como um derivado da actividade não livre e torturante dos escravos, Kurz afasta-se tanto quanto possível não só da economia política convencional da “mão invisível” e da harmonia pré-estabelecida do mercado mas também da ideologia tanto do movimento operário reformista dos sindicatos e dos sociais-democratas como do comunismo revolucionário de todas as “escolas”, sejam elas de denominação leninista, trotskista, estalinista, gramsciana ou comunista reformista. Todas estas posições marxistas e socialistas têm em comum, na perspectiva da crítica do valor fundamental de Kurz, que se movem dentro do paradigma do ‘valor’ e do ‘trabalho abstracto’, se referem a este último mesmo afirmativa e orgulhosamente e apenas combatem dum ponto de vista do trabalho – vivo – o ponto de vista do capital (morto). O marxismo do movimento operário, assim chamado por Kurz, pretendia estabelecer a dominação do trabalho e “afastar os ociosos”, como se dizia na “Internacional”, em vez de ver a emancipação na libertação do trabalho e na obtenção de lazer, como recomendou Kurz, seguindo uma corrente muito minoritária da esquerda.

O próprio Marx não escapou no contexto desta reavaliação da categoria trabalho, que em alguns aspectos podia ser invocada para o seu genro Paul Lafargue (O direito à preguiça). Também o antepassado da crítica do valor se deixou levar repetidamente em elogios ao trabalho e contra o lazer, como já no Manifesto Comunista de 1848, ou na sua polémica contra os inimigos burgueses da Comuna de Paris em A Guerra Civil em França (1871). Robert Kurz, consequentemente, distingue no plano teórico entre este Marx da modernização “exotérico”, vindo do liberalismo e do pensamento iluminista, ao qual todos os comunismos de partido se referiram positivamente, e o Marx “esotérico”, (23) radicalmente crítico da modernidade, que não tematizou a retenção da mais-valia pelos alegados “dominantes”, mas sim o absurdo funcionamento da sociedade moderna em geral, que encerra todas as pessoas, mesmo os “ricos” e os “exploradores”, num invólucro de relações “fetichistas” duro como o aço, onde não passam de material para a autovalorização do valor.

No Livro negro do capitalismo Kurz faz uma divisão semelhante entre os movimentos de resistência e protesto contra o capitalismo, em correntes categoriais e imanentes. O mais novo foi o movimento operário socialista – fosse de disposição revolucionária ou reformista – que havia emergido das uniões operárias de direcção liberal no século XIX, e tinha oferecido, na Comuna de Paris aclamada por Marx, um modelo para os levantamentos revolucionários posteriores. De acordo com Kurz, ele constituiu a corrente virada para a modernização, e participou afinal construtivamente, numa dialéctica imanente, na formação do capitalismo democrático desenvolvido.

O movimento radical mais antigo, com o qual Kurz estabeleceu contacto enfaticamente, foi o dos levantamentos populares contra a imposição do sistema de trabalho abstracto, desde o século XVI. As guerras camponesas, as revoltas sociais durante a Revolução Francesa de 1789 – que, paradoxalmente, contribuíram para a vitória da “razão” capitalista – a destruição das máquinas pelos luditas ingleses, a revolta dos tecelões da Silésia em 1844 e os motins das classes mais baixas durante a revolução europeia de 1848 representaram os verdadeiros movimentos emancipatórios na história do capitalismo. Kurz de modo nenhum os interpreta romanticamente, como expressão da moralidade superior do povo simples. Ele estava consciente de que os impulsos rebeldes poderiam muito facilmente ser desviados para vias reaccionárias, quiçá anti-semitas. No entanto, eles mostraram o potencial do completamente diferente: a rejeição fundamental da lógica irracional da modernidade, a que o marxismo convencional, como herdeiro do liberalismo iluminista, nunca conseguiu dedicar-se. (24)

Destes movimentos de oposição perderam-se depois até os rastos históricos na história da ascensão do capitalismo, com a imposição definitiva do sistema industrial. O que restou foi o movimento operário socialista e marxista, que, mesmo nas suas variantes politicamente radicais, como a de Rosa Luxemburgo, permaneceu preso às categorias de modernização capitalista.

A história do capitalismo II: crises, guerras, barbárie

A ortodoxia marxista traduziu geralmente a contradição referida por Marx entre forças produtivas e relações de produção numa interpretação simplista: a contradição entre produção social e apropriação privada. Ela viu a luta de classes pelo produto do trabalho como a característica essencial da história de crise capitalista, e encontrou no proletariado o agente do progresso histórico, o “coveiro” do capitalismo.

Para a crítica do valor de Kurz, como vimos, o contexto histórico não se produz neste plano “sociologístico”, mas nas categorias do sujeito histórico identificado por Marx, que não é um actor humano, mas uma máquina social inconsciente: o mecanismo da valorização do valor, movido pela concorrência. Deste ponto de vista, as crises não são simplesmente efeito da má distribuição e da concentração de recursos, de lutas pela distribuição ou de conflitos em torno do poder político. Elas são o resultado da contradição em processo acima referida, entre a necessidade de utilizar cada vez mais trabalho vivo, porque é o único produtor de valor, e a coerção, resultante da concorrência no mercado, para eliminar esse trabalho pela racionalização do processo de produção. Com o aumento do nível de capitalização da sociedade tais crises desenvolvem um efeito cada vez mais marcante. Em regra elas encontravam uma saída com a expansão da produção e do comércio, a introdução de novos produtos e o desenvolvimento de mercados adicionais.

No entanto, esta solução vai-se, por assim dizer, congestionando repetidamente, não se abrem quaisquer novas áreas onde seja possível a expansão, não surge temporariamente nenhum sector de produção inovador, capaz de atrair a si grandes quantidades de capital monetário e o correspondente grande emprego de trabalho. A consequência pode ser o desviar do capital monetário para os mercados financeiros, crashes na bolsa e subsequentes períodos de estagnação prolongada, como depois das “grandes crises” desde 1873, bem como amplos colapsos de economias nacionais, com a subsequente depressão profunda e duradoura, como nos anos da crise económica mundial após a sexta-feira negra de 1929

A saída da Great Depression só foi encontrada com a Segunda Guerra Mundial. O boom do pós-guerra, a golden age (Eric Hobsbawm), os trente glorieuses (Jean Fourastié) até meados dos anos de 1970 são muitas vezes atribuídos ao processo de reconstrução e recuperação que teve de seguir-se às destruições da guerra. No entanto, Robert Kurz identifica a base do milagre económico mundial nas novas linhas de produtos, que hoje conquistaram os mercados: os electrodomésticos de linha branca e castanha para as cozinhas e salas de estar das massas de consumidores, mas sobretudo a automobilização abrangente das sociedades industriais. A produção em massa fordista-taylorista e a expansão do consumo em massa, com o automóvel como produto líder, apresentam a assinatura da longa segunda revolução industrial, no fim da qual o capitalismo, dois séculos após o início da sua fase industrial, tinha finalmente destruído e absorvido completamente o velho mundo pré-capitalista e não-capitalista. (25)

No caminho para esta idade do ouro, no entanto, as sociedades capitalistas provocaram os maiores desastres da história da humanidade, as duas guerras mundiais e milhões de assassinatos em massa, incluindo particularmente o extermínio dos judeus europeus. Para Kurz, estes cataclismos não foram desenvolvimentos políticos independentes, para além da lógica capitalista, não eram de facto inevitáveis, mas também não eram resultados improváveis do processar do moderno modo de produção. Eles não representaram nenhum desvio da política ou das ideias da “História do Ocidente”, mas foram uma consequência tanto do processo cego de valorização do capital como também do desenvolvimento ideológico do pensamento iluminista e do liberalismo, que sempre foi um pensamento nas categorias da concorrência, e portanto de isolamento, desvalorização e hierarquização. Ao contrário das habituais grandes narrativas, Kurz considerou a “biologização da sociedade mundial” (26), o darwinismo social e o racismo na segunda metade do século XIX, não como uma aberração do espírito ocidental virado para a liberdade, a igualdade e a emancipação, mas como seus legítimos sucessores.

Um caso especial do pensamento anti-humano que radica no iluminismo foi para Kurz também o anti-semitismo, cuja consequência prática, a Shoah, se manteve em última análise tão inexplicável para o marxismo, ele próprio profundamente preso ao iluminismo, ao racionalismo e à narrativa do progresso, como para o pensamento afirmativo liberal-democrata e idealista, que a partir da sua aporia procurou refúgio em fórmulas tais como as do “caminho especial” alemão, da “singularidade” e da “ruptura civilizacional”. Geralmente não é contestado pelos representantes da tese da ruptura civilizacional que a história desta civilização tenha trazido consigo imensos crimes, por exemplo nas colónias. No entanto, fazendo notar que o extermínio dos nativos americanos ou a exploração da população negra no heart of darkness congolês seguia uma racionalidade entre meio e fim movida por interesses materiais, eles acentuam, por um lado, uma diferença categorial relativamente ao extermínio nacional-socialista dos judeus europeus, que surge como puro fim em si, separado de qualquer ligação racional. Por outro lado, sugere-se que os crimes “normais” da modernidade capitalista seriam em última análise contrários a uma racionalidade ética superior da civilização ocidental, e que seriam cercados por esta até à tendência de tais crimes serem cada vez mais removidos e acabarem possivelmente por desaparecer no decurso do progresso histórico. A guerra dos EUA contra a Alemanha nacional-socialista confirmou neste ponto de vista a oposição diametral entre civilizações capitalistas desenvolvidos “normais” e o caso especial alemão, antiocidental, antidemocrático, e de certo modo mesmo “anticapitalista”.

Kurz, no entanto, também insistiu que o nacional-socialismo alemão foi marcado por uma “barbárie singular” e resultante de uma história nacional especial. Mas não o separou do contexto geral da civilização moderna. Ainda que corresponda a particularidades do desenvolvimento nacional – que foi mais estatista e, do ponto de vista ideológico, também mais culturalista e biologista do que na Inglaterra ou nos Estados Unidos, por exemplo – o nacional-socialismo foi uma parte integrante da história da modernização: a “versão alemã da transformação para o nível de desenvolvimento fordista”. (27) O facto de nessa fase de transição e de crise o anti-semitismo também ter feito das suas na América capitalista liberal, bem como na União Soviética capitalista de Estado – ora como abominação do capital financeiro “rapace”, ora como o ressentimento contra o intelectualismo abstracto – indica que não se tratava aqui apenas de particularidades nacionais. Outros indícios de tendências de barbarização desde sempre inerentes à civilização moderna, mas especialmente na era fordista da sociedade do trabalho que se tornava total, viu Kurz na invenção do campo de concentração no final do século XIX pelas potências coloniais e na adopção dessa forma moderna de administração de pessoas no sistema do Gulag soviético. Também a exclusão da ‘vida indigna de viver”, ou seja, daquelas pessoas que não poderiam dar lucro no processo de valorização do capital ou perturbavam mesmo activamente este processo, e a psiquiatrização daí resultante dos dissidentes políticos ou a esterilização forçada das pessoas com deficiência foram por ele consideradas como consequências da lógica da valorização da modernidade, seja ela rotulada de democrática, socialista ou fascista. “Os nazis”, concluiu Kurz, “não vieram de outro planeta, eles eram carne da carne da história da modernização.” (28)

A caracterização nacional-socialista dos judeus como anti-raça foi consequência da sua posição secular como estrangeiros par excellence na história europeia. Ao mesmo tempo, representava o resultado da identificação dos judeus com o dinheiro, o capital abstracto estranho, que era considerado um princípio contrário ao bom capital industrial concreto, criador de valor. De acordo com Kurz, que aqui se baseia em estudos do sociólogo canadiano Moishe Postone, os judeus incarnam no pensamento nacional-socialista aqueles poderes modernos que provocam crises e catástrofes sociais, que modelam anonimamente o desenvolvimento da sociedade por trás das costas dos sujeitos, sem realmente a dirigir. (29) E Auschwitz “produto autêntico da civilização ocidental” (30), representou, numa formulação incisiva, uma “fábrica negativa” capitalistamente anticapitalista para “destruir valor”. (31)

O extermínio dos judeus da Alemanha como resultado da história nacional específica, mas também como consequência de uma loucura geral da civilização moderna, uma “pulsão de morte” do capital que já tinha descarregado a sua fúria nas casas de trabalho do início da idade moderna, bem como nos massacres da colonização: especialmente no contexto da discussão alemã, esta posição poderia ser deslocada com ligeireza para a vizinhança de um revisionismo histórico que trabalha com equiparações relativizadoras. Apesar de tais tentativas de tabuização, é mais que tempo de analisar com seriedade o nexo de causalidade mencionado por Kurz e a daí resultante historicização e desmitificação do Holocausto na ciência da história académica. A conversa irrefletida sobre “ruptura civilizacional” – um pendant soando a erudito para as ocas frases de preocupação em discursos-memorial dos políticos – tornar-se-ia assim desnecessária; a consternação perante os assassinatos em massa alemães seria mantida. (32)

A “pulsão de morte do capital” não foi definitivamente satisfeita com o crepúsculo dos deuses nacional-socialista alemão. Nos anos dourados após o fim da era das guerras mundiais, no entanto, a barbárie aberta foi empurrada para segundo plano. É verdade que Kurz também menciona para este período, ao contrário dos keynesianos e dos velhos sociais-democratas nostálgicos do “bom capitalismo” (33), especialmente os danos ligados à transição bem sucedida para a automobilização, o fordismo e o consumo de massas – ele viu aí a vitória da totalidade da economia de mercado, da subjectividade jurídica abstracta e da democracia – mas eles eram qualitativamente diferentes das configurações anteriores, bem como das seguintes.

Os anos após o boom representam um tempo de crise geral, e nem as estratégias que foram usadas contra o derretimento da substância do trabalho, ou seja, a financeirização, o aumento da acumulação de capital puramente fictício – como Marx lhe tinha chamado no terceiro volume de O Capital –, por um lado, nem a “globalização” da chamada decomposição das cadeias de produção e do seu agrupamento de acordo com as vantagens de custo oferecidas por um mercado mundial aberto, por outro lado, foram capazes de inverter esta tendência. Em sua monografia O Capital Mundial Kurz mostrou que já não poderia haver mais nenhum novo grande surto de acumulação de valor na sequência da terceira revolução industrial da microeletrónica; tratava-se apenas de deslocalizar para uma periferia de miséria global, que se torna cada vez maior, a tendência do trabalho a tornar-se supérfluo. (34)

Com isto a barbárie voltou obviamente a levantar a cabeça em muitos lugares. No livro A guerra de ordenamento mundial (35) Kurz analisou as chamadas intervenções militares humanitárias do Ocidente – Iraque, Jugoslávia, Afeganistão – como tentativas de manter em cheque com força superior os monstros produzidos pela modernidade capitalista, as ditaduras de modernização nacionalista falhadas e os seus produtos de decomposição em forma de bandos, ora islâmicos, ora etnonacionalistas, ora criminosos (droga), e assim, por um lado, garantir o acesso às matérias-primas, e, por outro lado, canalizar o fluxo de refugiados necessariamente resultante da deterioração da periferia. O quadro pintado por Kurz da sociedade mundial no longo momento da sua possível destruição – Estados falhados, privatização das instâncias da violência, aumento dos senhores da guerra, asselvajamento, anomia, “economia de saque” – mostra o regresso de diversas manifestações da infância do capitalismo e do Estado moderno, da guerra do início da idade moderna de todos contra todos. Em seu último livro, publicado em 2012, o longo ensaio Dinheiro sem valor, Kurz recuou no tempo, para trás da época da industrialização inicial descrita no Livro Negro, e virou-se intensamente para a fase inicial da modernidade. Seu interesse foi de novo principalmente de natureza teórica – o subtítulo Linhas gerais para a transformação da crítica da economia política mostra a sua vontade de corrigir Marx e ir além dele – sendo a argumentação novamente saturada com empiria histórica. (36)

A história do capitalismo III: uma nova perspectiva sobre a sua génese

Já no título do seu ensaio, Kurz estabelece a ligação entre a actual época do capitalismo, por ele diagnosticada de decadência, e a sua história inicial: Se Dinheiro sem valor significa hoje, devido ao derretimento da substância de trabalho, que também a forma geral do valor, o dinheiro, perde a sua substância, e se torna literalmente sem valor, essa fórmula significa, para a pré-história do capitalismo, que havia de facto nos nichos da reprodução material algo que mais tarde parecia semelhante ao dinheiro, mas que não tinha a função de suporte do “valor”. Com isto Kurz virou-se tanto contra as histórias do dinheiro que argumentam em termos antropológicos e naturais ou trans-históricos, como contra a ideia marxista tradicional, alimentada pelo próprio Marx, de que o capitalismo inicial tinha podido recorrer a uma forma de dinheiro desenvolvida há séculos. O dinheiro nas sociedades pré-capitalistas era, como ele acreditava poder mostrar com referência ao teórico do dinheiro heterodoxo Bernhard Laum e ao medievalista Jacques Le Goff, não um meio de troca, mas uma “objectualidade de sacrifício” sacral simbólica.

Essa objectualidade chegou à pré-modernidade como um “achado histórico”. A diferença decisiva entre o mundo moderno e as sociedades pré-capitalistas, segundo Kurz, é percebida em regra de modo apenas superficialmente fenomenológico, tanto pela ciência da história como pelo marxismo. O carácter “estranho, diferente” destes mundos não capitalistas está, segundo ele, em que não existiam as categorias básicas da socialização de hoje: não havia dinheiro moderno, nem “valor”, nem mercadorias, nem troca de mercadorias, nem sequer “economia”. Mesmo um pensador não convencional como Karl Polanyi, que tinha visto uma transformação fundamental da socialização no facto de a economia na modernidade ter sido desvinculada do contexto social global que a envolve (37), não foi ainda capaz de reconhecer que a ruptura foi muito mais profunda, e que o próprio termo “economia” era anacrónico para as sociedades pré-modernas

Karl Marx tinha realmente descoberto, como historiador da fase inicial do capitalismo, que tinha ocorrido um revolucionamento fundamental entre o velho mundo e o início da era moderna, e que este revolucionamento tinha sido um acto violento (“escorrendo sangue e sujeira”) (38), mas ele tinha concebido a “chamada acumulação original” simplesmente como separação dos produtores dos seus meios de produção, como expropriação da propriedade da terra dos camponeses pelos senhores nobres, como expulsão dos camponeses livres e perseguição das massas de camponeses pauperizados resultantes da destruição da velha ordem na Inglaterra pré-industrial. A sua narrativa descreve como foi criada uma massa de gente sem propriedade obrigada ao trabalho assalariado, como pré-requisito essencial do capitalismo, mas não mostra como surgiu o próprio capitalismo, o ciclo da valorização. Kurz procurou preencher esta lacuna historiográfica eminente na exposição de Marx descrevendo a transformação funcional do dinheiro: Como surgiu, a partir do achado histórico, da antiga oferenda sacrificial sacral, o equivalente geral, a expressão para o cerne do sistema económico capitalista, o valor?

Kurz identifica o mecanismo decisivo, e também isso distingue a sua visão tanto do marxismo como da historiografia académica convencional, não no desenvolvimento de interesses lucrativos privados, na expansão do comércio ou da “usura” do capital, mas na combinação de um surto de desenvolvimento tecnológico com os processos de formação do Estado do início da modernidade. (39) Deste modo, o ponto de partida da futuramente determinante produção de valor foi a chamada  military revolution  (Geoffrey Parker), a implementação das armas de fogo – canhões e mosquetes – e das correspondentes fortalezas defensivas, bem como o equipamento de grandes exércitos permanentes de mercenários. Os Estados territoriais em formação no início da idade moderna viram-se obrigados a manter uma extremamente dispendiosa corrida aos armamentos na Europa. Para este fim, aumentaram-se os impostos, criaram-se mercados e não só isso: criou-se pela primeira vez a circulação de mercadorias e de dinheiro, para se conseguir os meios necessários à construção de uma infra-estrutura militar, um “complexo militar-protoindustrial” sem precedentes. O Estado dos canhões, dos impostos e da burocracia, de certo modo equiprimordial com a economia monetária, impôs a conversão dos antigos impostos, tributos, serviços e “ofertas” feudais em pagamentos monetários. Num passo subsequente, a máquina de obtenção de dinheiro desligou-se da sua finalidade original e começou a dominar a produção de todos os bens de uso, e a impor a estes objectos a forma de mercadoria conforme ao mercado. Assim veio ao mundo, de acordo com o esboço histórico de Kurz, o capital como valor que se valoriza a si mesmo. Os horrores descritos por Marx e Foucault da expropriação e desenraizamento de grandes partes da população e do maltratar de partes da população excedente em prisões, casas de trabalho e manicómios foram consequências deste original pôr o dinheiro a valorizar, como parte da revolução militar que eles ainda não tematizaram.

Sangrenta e repressivamente – como se pode ver na caça às “bruxas” que durou séculos – decorreu um segundo processo fundamental equiprimordial do início da modernidade, que não foi adequadamente abordado, nem conceptualmente nem historiográfico-descritivamente, no marxismo tradicional: a produção das relações assimétricas de género que acompanham os séculos seguintes, a “dissociação” de um domínio da reprodução social, caracterizado como feminino, da relação de valor capitalista que se estava a estabelecer. Durante os anos de 1990, o grupo Krisis tinha-se aproximado de abordagens feministas e contestado a mera continuidade das relações patriarcais tradicionais na idade moderna com o teorema da “dissociação” desenvolvido por Roswitha Scholz – a dissociação sexual foi uma forma nova, especificamente moderna, de tornar as mulheres subservientes.
Além disso, ela constatou que não se trata aqui de uma “contradição secundária” do capitalismo, ou de um “subsistema” social, mas de uma ordenação fundamental da sociedade moderna, no mesmo plano categorial que a relação de valor. (40) O capitalismo poderia, portanto, ser traduzido por patriarcado produtor de mercadorias.

O Marx esotérico, Robert Kurz e a história: um paradigma para a historiografia da época capitalista?

Os nossos tempos pós-modernos são pluralistas, antiteóricos, avessos às master narratives, virados para o particular, diferente, micro-histórico e compreensível de forma narrativamente divertida. Más condições para uma concepção da história moderna ambiciosa, teoricamente coerente, que privilegia o sistémico contra o individual, o objectivo contra o subjectivo, que considera os supostos “actores” muitas vezes como meras “máscaras de personagens”.

Justamente no actual contexto de crise económica, social, cultural e política global, que dificilmente pode ser negado desde a crise económica de 2008, talvez se ofereça no entanto a oportunidade de mais uma vez ter em conta o todo, e não o dissolver à partida em diferenciações detalhadas. Se por uma vez tentarmos na história contemporânea partir da hipótese, que já não é totalmente abstrusa, de que as diferentes manifestações de crise estão numa conexão interna, então não estaremos longe da abordagem, igualmente em tentativa, de experimentar seriamente pela primeira vez as categorias da totalidade do Marx “esotérico”, e na verdade para toda a história das “sociedades em que domina o modo de produção capitalista”. Robert Kurz fez isso com plausibilidade sempre admiravelmente maior. Mencionemos aqui, para concluir, as potencialidades do seu pensamento “crítico do valor” para o estudo da ciência da história, para além dos conhecimentos isolados até aqui expostos.

Em primeiro lugar, a fundamentação teórico-social de tal historiografia. É verdade que escolas anteriores, principalmente histórico-sociais, se apresentaram com uma pretensão similar – dando obviamente preferência ao decidido ecletismo na teoria da modernização, contra um qualquer monismo relacionado com Marx – mas desde então ocorreu, por um lado, na sequência da linguistic turn, da nova história cultural etc. uma pluralização terminológico-conceptual no nível meso teórico, por outro lado, um retorno à narrativa convencional. Ambos têm vantagens. O que pode não ser satisfatório a prazo, especialmente perante novas crises sociais e, portanto, também no interior da ciência.

Em segundo lugar, o decidido “historicismo” da crítica do valor deveria ser atraente para os historiadores: Ao contrário das ciências sociais modernas, particularmente a economia e a sociologia, ela está consciente da necessidade de uma abordagem histórica dos fenómenos sociais, que assume que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, pelo menos sob relações capitalistas modernas, porque o capitalismo é sempre progresso, expansão (ou queda), amontoamento e acumulação, de modo que não há ciclos, nem regresso a determinados pontos. Acresce – contra a tacanha filosofia marxista da história – que se verifica uma profunda ruptura entre as sociedades pré-capitalistas agrárias determinadas religiosamente e a modernidade capitalista. Daqui também resulta a historicidade dos fenómenos que apenas na modernidade se desenvolveram real e conceptualmente: não havia “economia” nem “política” como tais, portanto, antes do início da modernização.

Em terceiro lugar, deve ser citado o poder dos desenvolvimentos estruturais, isto num sentido também muito mais radical do que na história social e estrutural anterior: a velha experiência, que já irritava o iluminismo, de que a história não obedece à vontade humana, mas efectua desenvolvimentos “atrás das costas” dos sujeitos, que não são planeados por ninguém e com os quais todos são surpreendidos; que um “espírito do mundo” determina dialecticamente o destino dos humanos (Hegel), que uma “mão invisível” do mercado (A. Smith) governa o curso do mundo e, assim, seria melhor que não fosse perturbada, que “nós somos vividos” (41), tudo isso não leva Kurz de volta a interesses em conflito e à sua resolução na luta, mas sim ao reino do “sujeito automático” descrito por Marx, que é de facto criado pelas pessoas – sem querer, sem o planear –, mas desde então leva a sua vida própria como fetiche e a todos coage com a sua lógica interna inescapável e quase natural.

Em quarto lugar, esta abordagem oferece uma alternativa às bem existentes grandes narrativas da modernidade que têm sucesso sob o rótulo de “Ocidente”. De acordo com estas narrativas populares entre o público, o projeto do Ocidente é uma história de progresso longamente disputada, mas no fim vitoriosa, em que a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a soberania popular, os direitos humanos e o Estado de Direito prevalecem contra ideias de ordenamentos contrários, e também as contestações internas autoritárias, anti-iluministas e antidemocráticas são por sua vez derrotadas. A história do Ocidente que seria preciso escrever, com base na nova leitura feita por Robert Kurz das conclusões de Marx, é totalmente diferente: a história da imposição da lógica do valor em todos os espaços e interstícios do mundo disponível, e do impasse gradual das forças motrizes imanentes ao capital. Seria preciso descrever o desenvolvimento da democracia e do direito moderno no quadro da totalidade determinada pelo valor.

Em quinto lugar, uma teoria de Marx transformada em termos de crítica do valor permite deitar fora alguns dos fardos herdados do marxismo, dogmáticos e inbidores do livre fluxo do pensamento, e abrir uma abordagem da história de facto inspirada pelo espírito universal de Marx, mas não dogmática. O retorno da análise das relações de classe e das lutas de classes, infrutífera e muitas vezes doutrinariamente violenta, o foco unilateral na desigualdade social (42), a historiografia do marxismo baseada nisto e muitas vezes altamente politicista de partido em termos convencionais seriam, de qualquer modo, excluídos numa historiografia orientada para o Marx “esotérico”.

E finalmente, em sexto lugar, com a leitura de Marx feita por Kurz pode ser escrita a história global. Já o jovem Marx não tinha dúvida nenhuma de que o capital, a ser entendido como valor abstracto que se valoriza a si mesmo e não sociologistamente como classes capitalistas com interesses materiais, não se detém em seu processar perante limites internos sociais ou psíquicos, nem perante limites externos, geográficos; e que na modernidade este processar do capital representa o poder histórico decisivamente ofensivo, que em última análise não pode ser contido por tradições particulares. A história é, portanto, na modernidade a priori história universal: como história do mercado mundial e da sociedade mundial – de modo nenhum crescendo juntos harmoniosamente. Uma global history, que com razão se opõe a narrativas-mestras à la “The West and the rest”, (43) não deverá rejeitar todas as grandes exposições teoricamente fundamentadas. A história do valor que se valoriza a si mesmo à escala global, do sujeito automático que manda para o lixo todos os limites naturais e políticos, oferece simultaneamente uma alternativa à teoria do sistema-mundo de inspiração marxista de Immanuel Wallerstein com os seus déficits, não em último lugar a sua falta de compreensão do contexto categorial fundamental do capitalismo. (44)

Uma ciência da história receptiva em termos de crítica social e teóricos pode encontrar nas obras de Robert Kurz uma multiplicidade de sugestões. Deveria aproveitar a oferta.

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(1) Ver, por exemplo, os textos da colectânea de Rahel Jaeggi/Daniel Loick (Hg.), Nach Marx. Philosophie, Kritik, Praxis [Depois de Marx. Filosofia, crítica, práxis], Berlin 2013, o livro dos sociólogos de Jena Klaus Dörre/Stephan Lessenich/Hartmut Rosa, Soziologie – Kapitalismus – Kritik. Eine Debatte [Sociologia – Capitalismo – Crítica. Um debate], Frankfurt a. M. 2009, ou as obras de David Harvey e Mike Davis.
(2) Como exemplo de uma literatura em crescendo: Terry Eagleton, Why Marx was right [Porque estava certo Marx], New Haven – London 2011; Fritz Reheis, Wo Marx Recht hat [Onde Marx tem razão], Darmstadt 2012. A mais recente biografia extensa de Marx, pelo contrário, coloca-se totalmente no século XIX e recusa explicitamente referências actuais: Jonathan Sperber, Karl Marx. Sein Leben und sein Jahrhundert [Karl Marx. A sua vida e o seu século], München 2013.
(3) Ver também Benjamin Kunkel, Utopie oder Untergang. Ein Wegweiser für die gegenwärtige Krise [Utopia ou queda. Um guia para a crise atual], Berlin 2014.
(4) Comité invisible, L’insurrection qui vient, Paris 2007; Nick Srnicek/Alex Williams, Beschleunigungsmanifest für eine akzelerationistische Politik (http://akzelerationismus.de/beschleunigungsmanifest.pdf). [original: http://criticallegalthinking.com/2013/05/14/accelerate-manifesto-for-an-accelerationist-politics/%5D
(5) Karl Marx, Das Kapital. Kritik der Politischen Ökonomie, Bd. 1 [O capital. Crítica da economia política, Livro primeiro], primeira frase do primeiro capítulo.
(6) Trata-se aqui de certa maneira do regresso “do marxismo a Marx”, de uma leitura mais ambiciosa, anunciada por Matthias Middell, Marxistische Geschichtswissenschaft [Ciência da história marxista], in: Joachim Eibach/Günther Lottes (Hg.), Kompass der Geschichtswissenschaft. Ein Handbuch [Bússola da ciência da história. Um manual], Göttingen 22006, p. 69-82, aqui p. 82.
(7) Robert Kurz, Die Krise des Tauschwerts. Produktivkraft Wissenschaft, produktive Arbeit und kapitalistische Reproduktion [A crise do valor de troca. Força produtiva ciência, trabalho produtivo e reprodução capitalista], in: Marxistische Kritik, Nr. 1 (1986), p. 7-48.
(8) Marxism and the Critique of Value, hg. v. Neil Larsen et al., Chicago – Alberta 2014. Ver também: http://www.mediationsjournal.org/toc/27_1.
(9) Robert Kurz, Blutige Vernunft. Essays zur emanzipatorischen Kritik des Kapitalismus und ihrer westlichen Werte, Bad Honnef 2004, p. 91. Trad. Port.: Razão sangrenta. Ensaios sobre crítica emancipatória da modernidade capitalista e seus valores ocidentais http://www.obeco-online.org/livro_razao_sangrenta.html
(10) Robert Kurz, Der Kollaps der Modernisierung. Vom Zusammenbruch des Kasernensozialismus zur Krise der Weltökonomie, Frankfurt a. M. 1991. Trad. Port.: O colapso da modernização, Paz e Terra, 1993.
(11) Ver, por exemplo, Robert Kurz, Sozialistisches Ziel und neue Arbeiterbewegung. Zur Kritik der sowjetischen Produktionsweise [O objectivo socialista e o novo movimento operário], in: Gemeinsame Beilage, Jg. 1, 30.11.1984, p. 5-7 (http://www.mao-projekt.de/BRD/VLB/Gemeinsame_Beilage/Gemeinsame_Beilage_1984-11-30.shtml) (acesso 22.11.2014).
(12) Francis Fukuyama, The End of History and the Last Man, New York 1992.
(13) Karl Marx, Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie (Rohentwurf 1857-1858), Berlin (Ost) 1974, S. 593. Trad. Port.: Grundrisse, Boitempo, 2011.
(14) A mais recente teoria do colapso, discutida seriamente nos meios académicos, ao contrário da de Robert Kurz, vem de Wolfgang Streeck (How Will Capitalism End?, in: New Left Review, May/June 87/2014, S. 35-64) e baseia-se essencialmente numa junção de fenómenos de crise graves isolados e sua extrapolação para o futuro.
(15) Em livro: Kurz, Honeckers Rache. Zur politischen Ökonomie des wiedervereinigten Deutschlands, Berlin 1991 [Trad. Port.: A vingança de Honecker, Paz e Terra, 1991]; Potemkins Rückkehr. Attrappen-Kapitalismus und Verteilungskrieg in Deutschland, Berlin 1993. [Trad. Port.: O retorno de Potemkin. Capitalismo de fachada e conflito distributivo na Alemanha, Paz e Terra, 1993]
(16) Primeira edição Frankfurt a. M. 1999, aqui citado na nova edição aumentada de 2009.
(17) Kurz, Blutige Vernunft, p. 111.
(18) Marx, Das Kapital, Bd. 1, Kap. 24: Die sogenannte ursprüngliche Akkumulation [O capital, Livro 1, Cap. 24, A chamada acumulação original]; Michel Foucault, Überwachen und Strafen. Die Geburt des Gefängnisses [Vigiar e punir. O nascimento da prisão], Frankfurt a. M. 1976.
(19) Friedrich Engels, Umrisse zu einer Kritik der Nationalökonomie [Esboço de uma crítica da economia nacional] [1843/44], in: MEW, Bd. 1, Berlin (Ost) 1972, S. 499-524, hier S. 504.
(20) Kurz, Schwarzbuch Kapitalismus [O livro negro do capitalismo], p. 126 ss.
(21) Ibid., p. 174.
(22) Marx/Engels, Werke, Bd. 23, p. 58.
(23) Sobre isso em detalhe Robert Kurz, Marx lesen. Die wichtigsten Texte von Karl Marx für das 21. Jahrhundert, Frankfurt a. M. 22007, S. 13-48. Trad. Port.: Ler Marx. Os textos mais importantes de Karl Marx para o século XXI, http://www.obeco-online.org/rkurz417.htm
(24) Kurz, Schwarzbuch Kapitalismus, p. 174-187.
(25) Ver um texto mais antigo da fase de transição de Kurz do activismo político para a existência teórica: Robert Kurz, Auf der Suche nach dem verlorenen sozialistischen Ziel. Manifest für die Erneuerung revolutionärer Theorie [Em busca do objectivo socialista perdido. Manifesto pela renovação da teoria revolucionária], Erlangen 1988, p. 23.
(26) Kurz, Schwarzbuch Kapitalismus, S. 293.
(27) Robert Kurz, Die antideutsche Ideologie. Vom Antifaschismus zum Krisenimperialismus: Kritik des neuesten linksdeutschen Sektenwesens in seinen theoretischen Propheten [A ideologia anti-alemã. Crítica do novíssimo sectarismo alemão de esquerda nos seus profetas teóricos], Münster 2003, 86. Kurz referia-se neste diagnóstico ao sociólogo liberal Ralf Dahrendorf, Gesellschaft und Demokratie in Deutschland [Sociedade e democracia na Alemanha], München 1965.
(28) Kurz, Schwarzbuch Kapitalismus, p. 508.
(29) Moishe Postone, Antisemitismus und Nationalsozialismus [Anti-semitismo e nacional-socialismo], in:  Deutschland, die Linke und der Nationalsozialismus. Politische Interventionen [A Alemanha, a esquerda e o nacional-socialismo. Intervenções políticas], Freiburg i. Br. 2005, p. 165-194.
(30) Kurz cita aqui em Die antideutsche Ideologie, p. 106, concordando, Enzo Traverso, Moderne und Gewalt. Eine europäische Genealogie des Nazi-Terrors [Modernidade e violência. Genealogia europeia do terror nazi], Köln 2003, p. 155.
(31) Kurz, Schwarzbuch Kapitalismus, p. 498-516.
(32) Saul Friedländer, Den Holocaust beschreiben. Auf dem Weg zu einer integrierten Geschichte [Descrever o holocausto. A caminho de uma história integrada], Göttingen 2007, p. 96ss.
(33) Ver, por exemplo, Tony Judt, Dem Land geht es schlecht. Ein Traktat über unsere Unzufriedenheit, München 2011. Original Ill Fares the Land, 2010. Trad. Port.: Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos, Lisboa, 2010
(34) Robert Kurz, Das Weltkapital. Globalisierung und innere Schranken des modernen warenproduzierenden Systems [O capital mundial. Globalização e limite interno do moderno sistema produtor de mercadorias], Berlin 2005.
(35) Robert Kurz, Weltordnungskrieg. Das Ende der Souveränität und die Wandlungen des Imperialismus im Zeitalter der Globalisierung [A Guerra de Ordenamento Mundial. O Fim da Soberania e as Metamorfoses do Imperialismo na Era da Globalização], Bad Honnef 2003.
(36) Kurz, Geld ohne Wert. Grundrisse zu einer Transformation der Kritik der politischen Ökonomie, Bad Honnef 2012. Trad. Port.: Dinheiro sem valor. Linhas gerais para a transformação da crítica da economia política, Antígona, Lisboa, 2014.
(37) Karl Polanyi, The Great Transformation. Politische und ökonomische Ursprünge von Gesellschaften und Wirtschaftssystemen, Frankfurt a. M. 1978. Trad. Port.: A grande Transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro, 1980.
(38) Marx/Engels, Werke, Bd. 23, Das Kapital, p. 788.
(39) Sobre o que segue, ver Kurz, Geld ohne Wert, Kap. 6.
(40) Roswitha Scholz, Das Geschlecht des Kapitalismus. Feministische Theorien und die postmoderne Metamorphose des Kapitals, Bad Honnef 2000 [Trad. Port. parcial: O sexo do capitalismo. Teorias feministas e a metamorfose pós-moderna do capital in http://www.obeco-online.org/livro_sexo_capitalismo.htm%5D; Der Wert ist der Mann, in: Krisis. Beiträge zur Kritik der Warengesellschaft 12 (1992), p. 19-52 [Trad. Port.:o valor é o homem. Teses sobre a socialização pelo valor e a relação entre os sexos, in http://www.obeco-online.org/rst1.htm%5D. Cf. Kurz, Geld ohne Wert, p. 132-134; Geschlechtsfetischismus. Anmerkungen zur Logik von Männlichkeit und Weiblichkeit [Fetichismo sexual. Notas sobre a lógica de masculinidade e feminilidade], in: Krisis 12, p. 117-169.
(41) Heinz Dieter Kittsteiner, Wir werden gelebt. Formprobleme der Moderne [Nós somos vividos. Problemas da forma da modernidade], Hamburg 2006.
(42) Que o capitalismo produz desigualdade não é de resto contestado pela crítica da dissociação-valor, mas pode ser pode ela explicado. Ver, por exemplo, Roswitha Scholz, Überflüssig sein und „Mittelschichtsangst“, EXIT!, Krise und Kritik der Warengesellschaft 5, p. 58-104. Trad. Port.: O ser-se supérfluo e a “angústia da classe média” in: http://www.obeco-online.org/roswitha_scholz8.htm
(43) Ver, por exemplo, Niall Ferguson, Civilization. The West and the Rest, London 2011.
(44) Ver Cornelius Torp, Die Weltsystemtheorie Immanuel Wallersteins. Eine kritische Analyse [A teoria do sistema mundial de Immanuel Wallerstein. Uma análise crítica], in: Jahrbuch für Wirtschaftsgeschichte 1998/1, p. 217-241, aqui p.. 231ss.
OriginalDie Bedeutung von Wertkritik und Wert-Abspaltungs-Kritik für die Geschichtswissenschaft. Zur fortbestehenden Relevanz von Karl Marxin http://www.exit-online.org.
Tradução de Boaventura Antunes

http://www.obeco-online.org/
 
http://www.exit-online.org/

Um comentário sobre “A importância da crítica do valor e da crítica da dissociação-valor para a ciência da história – Klaus Kempter

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