Guy Debord, um autor como os outros ? Anselm Jappe

Comemoramos neste ano o cinquentenário de publicação de um dos mais importantes livros de interpretação da sociedade moderna, o livro do francês Guy  Debord,” A Sociedade do Espetáculo ” . 

Desde o início deste nosso blogue dedicamos a este autor, cineasta, ativista político, uma grande parte de nosso espaço, com a publicação de inúmeros textos sobre sua vasta obra e também de análises de seu pensamento político . Certamente suas ideias balizam nossas publicações e não temos nenhum problema em admitir que procuramos sempre nas suas obras  e mesmo no seu comportamento a matriz do entendimento do mundo em que vivemos: a sociedade da mercadoria .

Durante este ano, por ser a data que nos lembra a publicação da Sociedade do Espetáculo,  procuraremos  trazer para vocês  opiniões, conceitos e textos sobre Guy Debord,  com o intuito de divulgar ainda mais o seu pensamento nos círculos por onde circulam nossas publicações . 

Desta forma, iniciamos esta empreitada com um pequeno texto de Anselm Jappe, autor de  um estudo  sobre ele, que publicou com o nome   Debord, onde o autor  se debruça sobre o pensamento deste homem extraordinário  , dissecando- o e nos mostrando a sua importância teórica para o aprimoramento das ideias marxistas. O texto foi  traduzido por Marcos Barreiro e recomendo como leitura . 

Arlindenor Pedro 


O Ser  – O Ter – O Parecer 
Escrevi meu estudo sobre Guy Debord, o primeiro no gênero, antes da publicação de suas obras completas pela Gallimard em fins de 1992. O nome de Debord era apenas reconhecível entre iniciados. Seria espantoso encontrar numa enciclopédia ou num texto universitário alguma referência a ele ou aos situacionistas. E mesmo imaginando que essa conspiração do silêncio terminaria um dia, era difícil prever que, em apenas alguns anos, falar-se-ia abertamente sobre Debord nos grandes jornais sem que fosse necessário apresentá-lo. Era igualmente difícil imaginar que encontraríamos pelo menos cinco volumosas biografias suas nas prateleiras das livrarias, que seus filmes seriam projetados no festival de Veneza e que ele seria citado pelos políticos tradicionais.

Debord foi finalmente “recuperado”, como temiam seus partidários mais ortodoxos, ou como esperavam aqueles a quem parecia insuportável a idéia de que uma pessoa pudesse se subtrair do “espetáculo” durante toda a sua vida. O certo é que Guy Debord já não é um autor “clandestino”, longe disso. Transformaram-no em um autor “como os outros”, mas tiveram êxito ao fecha-lo no falso pantheon dos “clássicos modernos”? Nada é menos certo. Com efeito, para impedir que a paz reine entre Debord e a “sociedade do espetáculo”, há, por um lado, o seu marxismo. É quase unânime que se decidiu ultimamente classificar Debord como um autor de estilo notável, abstraindo-se o conteúdo dos seus textos. Mesmo que a maior parte de sua obra (aquela parte ligada às atividades situacionistas) seja reduzida a um simples exercício de estilo, não se poderá negar futuramente que a análise do espetáculo realizada por Debord baseia-se na redescoberta de certas categorias marxistas fundamentais como a mercadoria, o valor e o fetichismo.

Por outro lado, ainda que se considere apenas suas obras mais “poéticas” e mais “pessoais” (admitindo-se que tal distinção tenha algum significado), como o filme In girium… ou sua autobiografia Panegírico, não estaríamos equivocados ao ver em Debord um autor para todos os gostos, que poderíamos dispor ao lado de um Gide ou de um Mauriac. Provavelmente, em cinqüenta ou cem anos, Debord também aparecerá como um autor que seremos forçados a admirar por seu estilo, sua verve e suas observações justas, mas que, no fundo, detestamos.

Terá a mesma sorte que alguém como o duque de Saint-Simon. Esta aproximação com o memorialista não pretende repetir a afirmação, que já se tornou banal, segundo a qual Debord escreve e pensa como os moralistas do Grande Século. Considerando-se a extensão média das frases ou o número de páginas, Debord e Saint-Simon são antípodas um do outro. Mas ambos são, e assim permanecerão, estrangeiros na literatura francesa. É significativo que um dos maiores manuais escolares de literatura francesa consagre a Saint-Simon muito menos importância do que, por exemplo, a um Lamartine, afirmando que “o homem é pouco simpático”, porque vê apenas o lado negativo das coisas. Não devemos nos surpreender: na genealogia da modernidade, supõe-se que todos os autores franceses a partir do século XVII pertencem ao Iluminismo ou aos seus precursores. Saint-Simon é o único grande autor dessa época que definitivamente não se pode incluir em tal esquema. Do mesmo modo, não pode se pode incluí-lo entre os “reacionários”, porque combatia a monarquia absolutista. Enojado pelo novo poder estatal, da mesma maneira que pela nova burguesia, distante de qualquer preocupação “democrática”, esse defensor da antiga feudalidade era a voz de um partido sem partidários. Entre os que hoje admiram as suas frases assassinas não há muitos que poderiam honestamente se identificar com seu ponto de vista ao invés de serem herdeiros daqueles que, tal como Colbert, foram vilipendiados pelo duque. Se Saint-Simon condenou sua época, considerando-a decadente, ele o fez a partir de sua própria situação, muito particular.

Pode-se dizer a mesma coisa a respeito de Guy Debord. Quem, entre os novos leitores de Debord, não deveria se sentir visado pela descrição que é feita dos seus contemporâneos, por exemplo, no início do filme In girium…?. Quem poderia pretender compartilhar a posição a partir da qual Debord escreveu as suas obras “literárias”? Certamente não os que encontram alguma coisa que se possa poupar nas condições existentes, como diria o próprio Debord. E certamente não há nenhuma vantagem para os que atualmente contestam o mundo. Nas suas últimas obras, Debord continua mostrando-se implacável em relação aos poderes dominantes e à situação que criaram, mas já não encontra em parte alguma os revolucionários. Alguns ocultam que, no documentário Guy Debord, sua arte, seu tempo, no qual Debord é também coautor, ele apresenta imagens de escolas do subúrbio apenas sob o signo da decadência do mundo espetacular, e não sob o da contestação e da criação de uma cultura nova. É certo que Debord não apreciava o hip-hop. Ele certamente não era “politicamente correto” e não se inscrevia de forma alguma no conformismo de esquerda. Combateu a guerra da Argélia, mas nunca se referiu ao “antirracismo” ou ao “multiculturalismo” que vigoram nos dias de hoje.

Proclamou e viveu a liberdade dos costumes, mas ficou distante do feminismo e ironizou esse novo crime que seria chamado “homofobia”. Nas obras literárias dos seus quinze últimos anos, aparentemente mais “inofensivas”, ele se permite julgar o mundo a partir do caráter único de sua própria vida. É o que com prazer se chama sua “atitude aristocrática”. Nesse aspecto, Debord assemelha-se ao escritor austríaco Karl Kraus. Kraus também tinha muitos admirados que não podiam estar certos de não figurar entre os seus alvos. Todos os três, Debord, Saint-Simon e Kraus, são testemunhas nos processos contra as suas épocas, mas são aqueles testemunhos que escapam às classificações habituais. Qualificou-se Saint-Simon e Kraus de “reacionários” e começou-se a fazer o mesmo com Debord. Queria-se escrever como eles, ser maldoso como eles, mas não se tem absolutamente o desejo de considerar a natureza dos seus ataques.

Podemos dizer sem temor: Guy Debord não será recuperado para sempre.

Tradução por Marcos Barreira

Título original: Guy Debord, um auteur comme les autres?

Publicado em L”Avant-garde inacceptable. Réflexions sur Guy Debord

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