Uma tragédia mexicana – vamos no mesmo caminho ? Arlindenor Pedro 


Imagem de Igor Morski

Através das redes sociais chegam-nos as notícias de que oito províncias mexicanas declaram – se como províncias autônomas do governo, organizando-se com administrações  próprias  .

Tal fato não é novo pois a já algum tempo  inúmeras províncias estão desligadas do governo central, procurando caminhos próprios, devido à fragilidade do Estado  que não impede a onda de violência do narcotráfico e das milícias fascistas. Estas,  através do controle dos governos provinciais têm provocado um banho de sangue naquele país , perseguindo e assinando ativistas sociais e todos aqueles resistem ao controle dos bandos armados que substituem pouco a pouco o poder da federação . A  província mais conhecida de todas é a de Chiapas, que vive uma experiência de gestão libertária .

Embora o governo negue é um fato que o México pode ser classificado hoje como mais um “Estado Falhado” ou ” Estado Colapsado ” – nível de classificação que a ONU utiliza, através de visível influência do Departamento de Estado americano, para determinar aqueles países onde o governo central não possue mais o controle efetivo sobre os demais agentes que fazem parte da federação .

Desta forma insere – se na lista crescente de países que se expandem na África , no Oriente Médio como a Líbia, Síria, Iraque, etc , no Oriente, como o Paquistão, na América do Sul, como a Colômbia, e até mesmo da Europa , como a Ucrânia – uma característica cada vez mais presente no mapa político do mundo contemporâneo : pouco a pouco Estados Nacionais combalidos dão lugar ao caos e ao vazio de grupos em disputa .

Mesmos gigantes financeiros como a própria Federação Russa sofrem a ameaça deste tipo de estilhaçamento  e se isto não ocorreu até o momento, sem dúvidas, isto se deve ao governo forte de Putin , que consegue manter unido os diversos grupos que disputam a hegemonia dentro do país – poderosas máfias que em aliança com a Igreja controlam a economia e são os senhores da guerra .

No caso do México , tratar – se – ia aqui , então , de uma situação muito grave para o governo americano por ter um país limítrofe com suas fronteiras vivendo este tipo de crise, e por isto já se tornou  comum ouvir- se no parlamento vozes de senadores que propugnam uma imediata invasão do México, para restaurar a ordem .

País periférico da economia central globalizada, o México ressente-se da crise profunda do capitalismo contemporâneo, onde o colapso da economia e da estrutura social caminha a passos largos com a insolvência de um sistema onde o seu núcleo central acentua sua insuficiência dinâmica, não sendo mais capaz de gerar valor que sustente suas riquezas .

Embora tenha vivido momentos de crescimento consideráveis , mormente na década de 70, a economia mexicana hoje está no chão, com a falência de sua indústria, o desemprego galopante e uma crise social que empurra sua mão de obra para aventurar-se em cruzar a vigidiadissima fronteira americana, no sonho de ser triturado como escravo do sistema do comércio informal de serviços das cidades americanas.

Mesmo tendo realizado no início do século XX uma extraordinária revolução camponesa que gerou um partido ( PRI), que durante décadas conseguiu aglutinar a política nacional para si , mantendo a unidade do país, através de uma prática populista e sindical, hoje, com a crise de insolvência do capitalismo globalizado, isto não é mais possível . O México, a exemplo de outros países periféricos, amarga a crise estrutural do capitalismo que avança da periferia para o centro, derrubando como num jogo de dominó, Estado após Estado .

Sem futuro, como economia capitalista, a política gerou então bandos que assaltam o poder e controlam economias de serviços, tais como o turismo e os chamados “ilícitos” que passam a ter um peso considerável na combalida economia mexicana .

Em 2005, o editor da revista Foreign Policy e ex – diretor do Banco Mundial Moisés Nain lançou um livro onde faz um apanhado da situação do comércio dos ” ilícitos” no mundo onde dedicou um parte considerável a situação do México neste investimento globalizado .

Hoje, a gestão dos chamados “ilícitos” , que segundo os estudos de Moisés Nain alcança cerca de 20 % do dinheiro circulante , tornou-se um desafio para a economia global que precisa domá-los e integra- los a uma economia combalida , que precisa de todos os recursos possíveis, num momento de clara austeridade .

Recentemente a Rede WikiLeaks revelou um documento do governo dos EUA que mostra como a Lava Jato e os trabalhos do juiz federal Sergio Moro sofreram influência de agentes treinadores daquele país , que capacitam profissionais para o combate a “crimes financeiros e terrorismo”.

O informe diz que os agentes norte-americanos influenciariam brasileiros a criar uma força-tarefa para trabalhar em um caso factual, que receberia assessoria externa em “tempo real”. Evidentemente tal fato apenas demonstra a estratégica dos centros financeiros mundiais que deseja controlar tudo , e neste caso, a corrupção de alta escala que grassa no Brasil não é do interesse do sistema .

Manter a economia brasileira funcionando e evitar o estilhaçamento  da federação , impedindo que grupos autônomos fora do controle da economia global prosperem e controlem faixas do país, a exemplo do México , faz parte dos interesses do grande capital , pelo menos por enquanto .

Mas, também está claro para eles que velha oligarquia política que domina o Brasil a séculos não serve mais para dirigir o país. Seus interesses políticos particulares as levaram a uma aliança com setores populistas do PT que redundou num imenso fracasso e só acentuou a ebulição social do país , que hoje está à beira de uma convulsão e consequentemente corre o perigo de se fracionar  .

É hora, portanto, para os interesses do grande capital , da substituição desses velhos quadros e a ascensão de uma nova classe política, mais moderna que pacifique o país e ponha nos eixos as contas públicas, evitando isto leve o Brasil a fazer parte da crescente lista de Estados Falhados .

Mas a dinâmica da crise parece conspirar contra isto . Só o futuro dirá o que prevaleceu .

Mas , por hora , não custa trazer aqui a reflexão do Prof. Marildo Menegat no seu ensaio.      

” O fim da gestão da barbárie ” : 

 Por certo já é perceptível que estamos descrevendo uma sociedade colapsada. O sistema de produção não permite as condições de realização das necessidades de contingentes crescentes da população. Se não nos prendermos aos dados oficiais, o número de indivíduos da população economicamente ativa (PEA) desempregados, que sequer procuram emprego, é alarmante, mesmo depois do crescimento da economia no último lustro. As populações de algumas regiões do país, como o Nordeste, apenas são rentáveis no atual quadro da concorrência mundial a partir de um comércio de bens de consumo popular financiados por transferência de rendas estatais como o Bolsa Família e trabalhos temporários em alguns ramos fortemente ancorados em atividades precárias, como o corte de cana em São Paulo – aliás já em vias de supressão –, confecções por peças e etc. Há muito tem viralizado em redes sociais da internet declarações de ódio a setores específicos da população, como os nordestinos, os negros ou, mais abstratamente, os pobres. O ex-presidente Fernando Henrique, modelo acabado da estupidez sem freios em que a dialética do iluminismo se realiza, durante a eleição de 2014 foi o arauto de uma destas boutades. A conexão entre o porta-voz e, para voltarmos às manifestações obscurantistas acima comentadas, as classes médias predominantemente brancas, é o início da verbalização de algo que em breve se sedimentará em movimentos com violência crescente: livrar-se fisicamente dos perdedores da competição global.( Menegat )

Para um melhor aprofundamento do contorno da crise nos países latino-americanos vale a pena assistir ao debate realizado no Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), da Universidade Federal de Santa Catarina. entre os professores Waldir Rampinelli e José Martins, redator do jornal Crítica da Economia.

Neste debate é discutida a atual situação econômica, política e social dos três maiores países da América Latina.

O que México, Argentina e Brasil têm em comum nesta atual situação? E o que que terão também em comum nas grandes rebeliões que devem resultar do atual aprofundamento da política imperialista no continente latino-americano e da carnificina social das diversas burguesias desses países sobre a população trabalhadora?

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