Leitura comentada da Introdução dos Grundrisse – Larissa Costa Murad 

Imagem de Igor Morski

Os Grundrisse desnudam inquietações acerca de questões fundamentais para a compreensão da sociedade burguesa em seu processo de desenvolvimento e mudança. Na Introdução é possível observar o modo de construção do pensamento de Marx, a forma pela qual o autor constrói seu raciocínio a partir da construção de categorias e do desvelamento de suas múltiplas determinações.

Marx começa explicitando que o objeto é primeiramente a produção material (p.39). A partir daí, trava um diálogo constante com os autores da economia política clássica e seu método de conhecer o mundo. Marx desvela algumas contradições da sociedade burguesa que se reproduzem no pensamento desses autores.

Somente no século XVIII, com a ‘sociedade burguesa’, as diversas formas de conexão social confrontam o indivíduo como simples meio para seus fins privados, como necessidade exterior. Mas a época que produz esse ponto de vista, o ponto de vista do indivíduo isolado, é justamente a época das relações sociais (universais desde esse ponto de vista) mais desenvolvidas até o presente (MARX, 2011:40).

A produção material implica na produção de indivíduos sociais. Na sociedade burguesa os indivíduos se relacionam através de laços abstratos, consequência do predomínio da forma mercadoria como mediação nas relações humanas. A contradição é que os indivíduos aparecem então isolados justamente na época em que as relações sociais são mais desenvolvidas, o que supõe dependência mútua.

Os produtores devêm isolados em uma forma social onde a divisão do trabalho se complexificou, aumentando a dependência na realização das necessidades – tanto do homem quanto do capital, considerando principalmente a assertiva de Marx segundo a qual capital e trabalho só se produzem em relação um com o outro.

A primeira tese de Marx refere-se então à produção ser necessariamente social e histórica. A idéia de indivíduo isolado, típica do pensamento iluminista, se reproduz entre o pensamento econômico, onde o homem isolado é considerado o ponto de partida da análise. Essa reprodução no âmbito das idéias devém da real cisão homem x sociedade experimentada na sociedade moderna; bem como da separação da vida humana em esferas, de onde se origina a própria economia como disciplina apartada.

Marx, nesse primeiro momento, se apropria do conceito de produção em geral como abstração necessária à compreensão das determinações em comum, presentes nas diversas formas históricas de organização social. Para o autor há dois equívocos paralelos no pensamento clássico que embaçam a compreensão dessa forma social em seu aspecto sistêmico: abstrair as determinações comuns que revelam a inserção da parte (isolada pelo pensamento) no todo; tornar tais determinações leis naturais eternas, borrando as diferenças de cada momento histórico, assim como as mediações que particularizam as esferas que compõem a totalidade.

Por exemplo, a produção forja indivíduos sociais e também relações de poder:

(…) toda forma de produção forja suas próprias relações jurídicas, forma de governo etc. A insipiência e o desentendimento consistem precisamente em relacionar o que é organicamente conectado, em reduzi-lo a uma mera conexão da reflexão. Os economistas burgueses têm em mente apenas que se produz melhor com a polícia moderna do que, por exemplo, com o direito do mais forte. Só esquecem que o direito do mais forte também é um direito, e que o direito do mais forte subsiste sob outra forma em seu ‘estado de direito’ (MARX, 2011:43).  

Ou seja, há determinações comuns ao Estado e à produção capitalista na medida em que estes conformam uma unidade, estando organicamente conectados conforme indica o autor. Há ainda determinações comuns aos diferentes modos históricos de produção, porém assumir somente essas determinações e universalizá-las seria obliviar as mediações que as particularizam, naturalizando-as.

Fica evidenciado na exposição de Marx que a abstração é necessária no desvelamento da realidade quando esta se constitui de formas abstratas, porém, é apenas um momento da construção teórica:

(…) para todos os estágios da produção há determinações comuns que são fixadas pelo pensamento como determinações universais; (como por exemplo, toda produção pressupõe consumo, trabalho passado acumulado, etc.) mas as assim chamadas condições universais de toda produção nada mais são do que esses momentos abstratos, com os quais nenhum estágio histórico efetivo da produção pode ser compreendido (MARX, 2011:44)


Nesse sentido, no decorrer de sua crítica da economia política, Marx rejeita o conceito de produção em geral, pois este apontaria para um caráter trans-histórico, naturalizando como consequência esta forma social. Nas páginas seguintes ele expõe a necessidade de outro movimento, da abstração para as determinações que unificam e ao mesmo tempo particularizam as esferas que aparecem na sociedade burguesa como autônomas – produção, consumo, distribuição e troca e circulação. Tais partes, seccionadas também no pensamento econômico, constituem uma totalidade.
Marx pressupõe a produção material como determinante na sociedade burguesa, inclusive no sentido de produção de subjetividade:

(…) não é somente o objeto do consumo que é produzido pela produção, mas também o modo do consumo, não apenas objetiva, mas também subjetivamente. A produção cria, portanto, os consumidores. 3) A produção não apenas fornece à necessidade um material, mas também uma necessidade ao material. (…) A produção, por conseguinte, produz não somente um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto (MARX, 2011:47).

Cabe destacar que para Marx o importante não é demarcar a ordem cronológica de determinação mútua dessas esferas, ou seja, para o autor a produção contém os diferentes momentos que na economia política são vistos como separados; porém eles são vistos assim porque aparecem assim na realidade, daí a necessidade da abstração para apreender a realidade em suas mediações e em suas características particularizadas pelo seu tempo histórico determinado. Ou seja, a sociedade do capital é fantasmagórica porque determinada e ordenada por uma abstração, a qual é naturalizada e por isso se reproduz no pensamento clássico.

Na relação produção e consumo na sociedade burguesa, por exemplo, coisifica-se o homem e personifica-se a coisa por ele criada, a qual ganha forma de coisa autônoma. Daí o argumento do autor segundo o qual

“o consumo também medeia a produção ao criar para os produtos o sujeito para o qual são produtos” (MARX, 2011:46).

 

Cria-se subjetividade então nessa forma social, considerando-se dois aspectos: a coisificação dos homens, transformados em meio para fins privados; e a autonomização das coisas, que passam a dominar seu produtor. Aparece aqui já esboçada a noção de fetichismo do autor.

Marx replica seu raciocínio sobre a relação entre produção e consumo para entender também a relação entre produção e distribuição, troca e circulação.

O resultado a que chegamos não é que produção, distribuição, troca e consumo são idênticos, mas que todos eles são membros de uma totalidade, diferenças dentro de uma unidade. A produção estende-se tanto para além de si mesma na determinação antitética da produção, como sobrepõe-se sobre os outros momentos.

(…) A produção, por sua vez, certamente é também determinada, em sua forma unilateral, pelos outros momentos. (…) Há uma interação entre os diferentes momentos. Esse é o caso em qualquer todo orgânico (MARX, 2011:53).

Sendo a sociedade burguesa uma forma social sistêmica (um todo orgânico), onde as relações sociais são as mais desenvolvidas, trata-se de entender, nas palavras do autor,

“como operam as relações históricas gerais no interior da produção e qual a sua relação com o movimento histórico geral” (MARX, 2011:51).

 

Nesse movimento a abstração é parte do real e o determina, não é somente produto do pensamento.

Nas páginas que se seguem Marx trava um diálogo direto com Hegel. Para alguns comentaristas, o interessante nos Grundrisse é justamente a forma pela qual Marx se apropria de Hegel, superando alguns conceitos, porém mantendo algo da lógica de Hegel. Rosdolsky (2001), por exemplo, indica que para Marx a abstração é um momento necessário, porém não pode ser universalizada e tornada um absoluto – como em Hegel.

O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, portanto, unidade da diversidade. Por essa razão, o concreto aparece no pensamento como processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida efetivo e, em consequência, também o ponto de partida da intuição e da representação. Na primeira via, a representação plena foi volatilizada em uma determinação abstrata; na segunda, as determinações abstratas levam à reprodução do concreto por meio do pensamento. Por isso, Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que sintetiza-se em si, aprofunda-se em si e movimenta-se a partir de si mesmo, enquanto o método de ascender do abstrato ao concreto é somente o modo do pensamento de apropriar-se do concreto, de reproduzi-lo como um concreto mental. Mas de forma alguma é o processo de gênese do próprio concreto (ROSDOLSKY, 2001:55).

A vida social e seus elementos aparecem no pensamento como uma representação caótica. Daí a necessidade de forjar categorias, investigar as determinações múltiplas de um fenômeno transformando intuição em conceitos. Outro pressuposto de Marx, nesse sentido, é o de que somente com as sociedades plenamente desenvolvidas é possível observar melhor suas contradições – daí as categorias construídas serem mutáveis.

O autor oferece o exemplo do dinheiro, o qual já existia na história da humanidade como categoria simples; porém, só passa a permear todas as relações sociais em sua forma de sistema monetário a partir da formação do exército, da sociedade moderna. Ou seja, o dinheiro enquanto metamorfose da forma valor se torna um determinante somente na estruturação da sociedade moderna. Marx demonstra ainda que somente quando o dinheiro se universaliza enquanto forma de riqueza abstrata, o trabalho ganha ares de universalidade abstrata – atividade criadora de riqueza – ganhando então uma característica amórfica.

Com a universalidade abstrata da atividade criadora de riqueza, tem-se agora igualmente a universalidade do objeto determinado como riqueza, o produto em geral, ou ainda o trabalho em geral, mas como trabalho passado, objetivado. (…) Poderia parecer que, com isso, apenas fora descoberta a expressão abstrata para a relação mais simples e mais antiga em que os seres humanos – seja qual for a forma de sociedade – aparecem como produtores. Por um lado, isso é correto. Por outro não. A indiferença diante de um determinado tipo de trabalho pressupõe uma totalidade muito desenvolvida de tipos efetivos de trabalho, nenhum dos quais predomina sobre os demais. (…) A indiferença em relação ao trabalho determinado corresponde a uma forma de sociedade em que os indivíduos passam com facilidade de um trabalho a outro, e em que o tipo determinado do trabalho é para eles contingente e, por conseguinte, indiferente. Nesse caso, o trabalho deveio, não somente enquanto categoria, mas na efetividade, meio para a criação da riqueza em geral e, como determinação, deixou de estar ligado aos indivíduos em uma particularidade. Um tal estado de coisas encontra-se no mais alto grau de desenvolvimento na mais moderna forma de existência da sociedade burguesa – os Estados Unidos. Logo, só nos Estados Unidos a abstração da categoria ‘trabalho’, ‘trabalho em geral’, trabalho puro e simples, o ponto de partida da Economia moderna, devém verdadeira na prática. (…). (MARX, 2011:57, 58).

Apesar das categorias históricas abstratas terem validade universal no constructo do pensamento, justamente por seu caráter abstrato, somente têm validade real no interior das relações determinadas que as criaram, logo, são mutáveis assim como essas relações.

Esse exemplo do trabalho mostra com clareza como as próprias categorias mais abstratas, apesar de sua validade para todas as épocas – justamente por causa de sua abstração –, na determinabilidade dessa própria abstração, são igualmente produtos de relações históricas e têm sua plena validade só para essas relações e no interior delas (MARX, 2011:58).

Nessa perspectiva, é possível indagar: a riqueza se tornou uma abstração na sociedade moderna, visto que baseada no valor-trabalho, conforme indica Marx. Sendo as categorias mutáveis, posto que somente tenham validade no interior das relações sociais que as criaram e estas são históricas e dialéticas; e considerando ainda que a riqueza se generalizou em nossa época como fictícia devido à expulsão do substrato do valor (trabalho vivo) do processo produtivo, qual o destino possível à categoria trabalho quando o próprio capital inicia um movimento inconsciente de fim do trabalho?

Marx aponta ainda o capital como ponto de partida e de chegada de sua análise, nessa perspectiva de tornar concretas as categorias históricas. Segundo Menegat (2013), o silogismo que Marx utiliza na Introdução cumpre o papel de indicar características particulares do capital como forma social sistêmica. Como a autonomização das necessidades, quando o consumo passa a determinar a produção deixando a finalidade do indivíduo de lado; e a universalização da troca enquanto constitutiva do sistema monetário, mediação determinante da produção e, por consequência, da distribuição.

A introdução não se encerra. Conforme João Antonio de Paula (2010), esse foi um dos motivos pelos quais Marx descartou o texto, sua incompletude. Porém as indicações de Marx ao final do texto apontam para questões importantes a serem desenvolvidas:

como relações econômicas – trabalho assalariado, maquinaria – se desenvolveram pela guerra, no exército, antes do que na sociedade burguesa (o que nos remete ao texto de Robert Kurz, “A origem destrutiva do capitalismo”, onde o autor indica a forma pela qual o Estado surge para organizar essas relações); aqui a dialética se sintetiza na seguinte frase de Marx: “a guerra vem antes da paz”.

→ contesta a idéia iluminista de progresso como movimento linear, utilizando o exemplo do desenvolvimento artístico; e novamente relaciona as relações de produção e jurídicas, apontando seu desenvolvimento desigual;

→ indica a história como universal como resultado, novamente se opondo a noção iluminista e ao pensamento econômico, no sentido de entender a história como resultado da ação dos homens em sociedade em condições determinadas;

Cabe destacar que entre os comentaristas dos Grundrisse e da Introdução não há consenso sobre a questão do método de Marx, somente no sentido de que a Introdução tem sido utilizada para travar esse debate. Rosdolsky (2010) aponta claramente a existência de um método dialético em Marx; Dussel (2012) fala em método dialético, com a ressalva de que as reflexões de Marx na Introdução “não são um tratado de metodologia – são, antes, reflexões ‘ao correr da pena’”, as quais apontam um movimento dialético geral (DUSSEL, 2012:55).

Penso que na Introdução Marx apresenta o movimento de apreensão da realidade feito por ele, a partir de alguns pressupostos que aparecerão em sua obra posterior, principalmente a necessidade de compreender a sociedade burguesa como uma forma particular, histórica, que se generalizou. Sendo a realidade dialética, seu pensamento acompanha esse movimento, sendo por isso inovador.

Por fim, cabe ressaltar que, conforme Menegat (2013), toda forma teórica repete algo de uma forma social, sendo por isso datada. Então, sendo essa forma social sistêmica, como não reproduzir um pensamento sistêmico? Um pensamento sistêmico levaria necessariamente a formas de ação sistêmicas e por isso inférteis, no sentido de não terem no horizonte a saída dessa forma social? Daí a necessidade de revisitar o pensamento de Marx preservando o espírito do autor e de sua obra, não a palavra morta.

 

Larissa Costa Murad


Doutoranda em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ/RJ – Brasil

Referências

DE PAULA, João Antonio (org.). O ensaio geral: Marx e a crítica da economia política (1857 – 1858). BH: Autêntica, 2010 (Apresentação e capítulo sobre a Introdução).

DUAYER, M. Apresentação do Grundrisse. In: MARX, K. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857- 1858 – esboços da crítica da economia política. SP: Boitempo; RJ: UFRJ, 2011.

DUSSEL, Enrique. A produção teórica de Marx: um comentário aos Grundrisse. SP: Expressão Popular, 2012 (capítulo 2).

KURZ, R. A origem destrutiva do capitalismo. In: Os últimos combates. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857- 1858 – esboços da crítica da economia política. SP: Boitempo; RJ: UFRJ, 2011 (p. 39 a 64).

MENEGAT, Marildo. Seminário de Tese. Disciplina ministrada em 2013 no PPGSS da ESS – UFRJ.

ROSDOLSKY, Roman. Gênese e estrutura de O Capital de Karl Marx. RJ: EDUERJ: Contraponto, 2001 (Introdução, capítulos 1 e 2 e Apêndices I e II).

 

2 comentários sobre “Leitura comentada da Introdução dos Grundrisse – Larissa Costa Murad 

  1. Texto de alta relevância para a necessária superação de uma leitura metodológica-mecanicista de um dos textos marxianos de grande referência para a compreensão do pensamento do autor. Ainda destacamos as indicações da autora na relação (ou melhor, múltipla determinação) sujeito – objeto; e da universalidade abstrata enquanto momento necessário, mas somente enquanto momento de abstração no processo de apreensão das múltiplas determinações de constituição do concreto pensado.

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