Quem é o Big Brother ? George Orwell e a crítica da modernidade – Robert Kurz

 

Sempre houve na história da literatura certos “livros universais” ou “livros do século” que conferiram a épocas inteiras uma figura exemplar, obtendo assim um grande efeito, cujo eco perdura até hoje. Não por acaso, a forma literária dessas obras é frequentemente a parábola. Essa forma permite expor idéias filosóficas fundamentais de tal modo que podem ser lidas ao mesmo tempo como histórias coloridas e envolventes. Essa dupla natureza da exposição diz à pessoa culta algo cognitivamente diferente do que à criança ou ao jovem, e, no entanto, ambos podem devorar o mesmo livro com igual voracidade. É justamente disso que se nutre a impressão profunda que tais obras deixam na consciência do mundo, penetrando os “topoi” do pensamento cotidiano e da imaginação social.

No século 18, foram as grandes parábolas de Daniel Defoe e Jonathan Swift que vieram a ser paradigmas literários do mundo alvorecente da modernidade capitalista. O “Robinson” de Defoe tornou-se o protótipo do homem branco burguês, diligente, otimista e racional, que, como administrador de sua alma e de sua existência na ilha “selvagem” do mundo terreno, cria do nada um lugar confortável e, além disso, passa a purificar os homens de cor “subdesenvolvidos” por meio do “trabalho”, dotando-os de modos de comportamento magnificamente civilizados. Em contrapartida, o “Gulliver” de Swift erra por mundos fabulosos, bizarros e assustadores, nos quais a modernização capitalista se reflete como sátira mordaz e paródia às “virtudes do homem burguês” de Defoe.

Poderíamos entender o “Gulliver” de Swift como a primeira utopia negativa da modernidade, repleta de pressentimentos. Enquanto esse gênero sumiu de cena no século 19, positivista e crente no progresso, no século 20 ele vivenciou uma florescência imprevista. Um primeiro precursor foi o romance “A Máquina do Tempo”, de H.G. Wells, já do ano de 1895. Encontramos em Wells uma espécie de prolongamento da sociedade de classes da era vitoriana até o estágio de sua degeneração completa, no qual os descendentes dos capitalistas de outrora vivem na superfície da terra como anões afáveis, mas tolos e pueris, ao passo que os descendentes da classe operária de outrora se transformaram em seres do mundo subterrâneo, que se cevam canibalisticamente de seus antípodas.

Sob a impressão causada por guerras mundiais, grandes crises econômicas e ditaduras industriais, o gênero da utopia negativa não só se aprimora, mas também seu conteúdo acaba se deslocando da sociologia das oposições de classe à visão de um sistema totalitário homogêneo. As parábolas sombrias de Franz Kafka pertencem a esse contexto tanto quanto as obras de uma ficção científica negativa e popular. Tornaram-se célebres os romances “Nós”, de Ievguêni Zamiátin, escrito em 1920 e só publicado em inglês cinco anos depois, “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, do ano de 1932, mas sobretudo os dois livros correspondentes de George Orwell, cujo centenário de nascimento se completa agora: “A Revolução dos Bichos”, de 1945, e “1984”, talvez a mais conhecida de todas as utopias negativas, publicado em 1949.

É fácil estimar de que modo a obra de Orwell será “louvada” pelos encomiastas conformistas por ocasião desse jubileu no mundo presente do capitalismo globalizado.

Reconhecer-se-á em Orwell um grande admonitor e um vigilante democrático diante do horror totalitário, como o que se manifestou nas ditaduras de Stálin e Hitler. E todos lhe serão gratos, afirmando que suas famosas parábolas teriam contribuído para conduzir a humanidade a um futuro de liberdade, de democracia e de economia de mercado, hoje já quase alcançado. Por fim se dirá que a obra de Orwell nos incita a estar alerta contra as tentações do totalitarismo, que sempre podem irradiar dos “maus” desse mundo e assolar a humanidade. E haverá então referências ao fundamentalismo islâmico e a Saddam Hussein ou a Slobodan Milosevic. Mas dificilmente algum desses oradores democráticos, dedicados a reverenciar Orwell, chegará a uma certa constatação, a saber: que sua utopia negativa há muito tempo se tornou realidade e que vivemos hoje no mais totalitário de todos os sistemas, cujo centro é formado pelo próprio Ocidente democrático.

Seguramente o próprio Orwell não pensou desse modo. É óbvio que ele, da perspectiva dos anos 40 do século passado, quando escreveu suas parábolas, não tinha em vista realmente outra coisa que a experiência imediata do nazismo e do stalinismo; aliás de maneira análoga à filósofa Hannah Arendt, em suas principais obras do anos 50. As grandes obras filosóficas e as grandes parábolas literárias se caracterizam por dizer muitas vezes mais que seus próprios autores sabiam e por lançar uma luz surpreendente sobre as condições posteriores, que na época do surgimento dessas obras não podiam ainda ser levadas em conta.

A primeira das parábolas orwellianas, “A Revolução dos Bichos”, já é elucidativa sob esse aspecto. Vista superficialmente, trata-se de uma fábula acerca da vaidade de todas as revoluções sociais, já que a essência da dominação social, a estrutura do “poder”, permanece sempre igual. Esse motivo antecipa uma idéia básica do pensamento pós-moderno de Foucault, o qual pressupõe de maneira análoga uma espécie de “ontologia do poder” positivista. Nesse sentido, Orwell é antes um pessimista antropológico do que um ideólogo cheio de hurras à ordem dominante, ainda que, como todos os pessimistas, ele tenha defendido afinal a sociedade existente, em seu caso a anglo-saxã, como a melhor de todas as possíveis. Não sem razão, Orwell foi frequentemente comparado a Swift. Paródia brilhante à história da Revolução Russa, com os porcos como a elite burocrática e o porco supremo Napoleão no papel de Stálin, “A Revolução dos Bichos” apresenta naturalmente todos os clichês do pensamento burguês acerca da inutilidade e do caráter criminoso da emancipação humana.

Mas a parábola contém também um subtexto bastante distinto, do qual o próprio Orwell manifestamente não tinha consciência. Por um lado, ela pode ser lida no sentido de que o problema não reside na própria idéia de emancipação, mas sim na “revolução traída” (Isaac Deutscher), uma vez que os porcos, sob liderança de Napoleão, traem a igualdade dos bichos. Por outro lado, esse subtexto contém mais uma vez um outro subtexto, no qual não é essa “traição” dos porcos à revolução dos bichos que faz fracassar a emancipação, mas a falsa compreensão da própria repressão, que não é derivada da forma como a revolução se organiza, mas meramente da vontade subjetiva do fazendeiro humano, chamado Jones, de explorar os bichos. Desse modo, as ovelhas sufocam regularmente toda discussão sobre o sentido da ação coletiva, balindo com veemência a cada quarto de hora o slogan “Quadrúpede bom, bípede ruim!”, o que no fim é desmentido, visto que os próprios porcos se transformam em “bípedes”.

Coerção interna

Sem querer, Orwell chega assim em sua parábola à conclusão implícita de que não é a troca sociológica do poder e de seus detentores que constitui a emancipação, e sim a superação da forma social, isto é, do sistema moderno produtor de mercadorias, comum às classes sociais. Com isso transparece até mesmo que o “trabalho” abstrato não é um princípio ontológico e menos ainda um princípio de emancipação, mas, pelo contrário, o princípio do poder repressivo, que submete os animais ao fim em si mesmo irracional do “produzir por amor de produzir”, simbolizado na personagem um tanto estúpida do cavalo de tração Boxer, uma espécie de operário padrão que quer resolver todos os problemas com a divisa “Eu quero e vou trabalhar ainda mais duro!” para acabar sendo vendido por Napoleão aos abatedores de cavalos, depois de desgastado a ponto de não poder mais trabalhar.

O problema da forma comum do nexo social sistêmico, que reside além da “luta de classes” sociológica imanente, torna-se ainda mais claro em “1984”, um livro que lembra muito o romance “Nós”, de Zamiátin (e talvez influenciado por ele). No primeiro plano, tanto em Zamiátin quanto em Orwell, há a figura do líder todo-poderoso e colossal, num caso denominado simplesmente de “Benfeitor”, no outro designado de “Grande Irmão”; naturalmente ambos imitaram as ditaduras políticas totalitárias do entreguerras.

Mas também aqui transparece um subtexto que vai bem além das mensagens explícitas. Atrás do poder personificado, aparece o caráter anônimo, “reificado”, do totalitarismo: o Benfeitor de Zamiátin se revela de fato uma máquina inteligente, e também o Grande Irmão de Orwell pode ser lido facilmente como metáfora de uma matriz anônima de controle sistêmico, que no totalitarismo econômico atual funciona de maneira muito mais coercitiva que nas ditaduras políticas da primeira metade do século 20.

Em “1984”, o sinistro já não é tanto a coerção externa, mas muito mais a interiorização dessa coerção, que acaba aparecendo afinal como imperativo do próprio Eu. O fim em si mesmo irracional da “valorização interminável do valor” por meio do “trabalho” abstrato quer o homem auto-regulador, que reprime a si próprio em nome das leis sistêmicas anônimas. O ideal é a auto-observação e o autocontrole do “empresário individual de si mesmo” por meio de seu superego capitalista: sou produtivo o suficiente, ajustado o suficiente? Estou seguindo a tendência, sou capaz de concorrer? A voz do Grande Irmão é a voz do mercado mundial anônimo; e a “polícia do pensamento” das relações democráticas de concorrência funciona de forma muito mais refinada do que todas as polícias secretas.

Isso se aplica também à famosa “linguagem orwelliana”, a “novilíngua”, com sua inversão de significados, que é no fundo, há mais de 200 anos, a língua do liberalismo econômico: quando se diz em nome do Grande Irmão que “liberdade é escravidão”, então isso significa inversamente que “escravidão é liberdade”, ou seja, a auto-submissão alegre às pretensas “leis naturais” da física social da economia de mercado. Isso se aplica também aos outros lemas da “novilíngua”: “Guerra significa paz”, ninguém sabe isso melhor que a Otan e a potência mundial democrática EUA, autodesignada polícia mundial, e “Ignorância é força” -quem em boa consciência subscreveria melhor essa máxima que o consumidor democrático ou o “manager” empresarial, cujo êxito depende da ignorância social? Colocar em questão, ainda que só em pensamento, os critérios desse sistema fechado e louco da “liberdade” economicamente determinada significa já estar “out” ou, como se diz em “1984”, “a crimidéia não acarreta a morte: a crimidéia é a morte”, ou seja, a morte social.

Pode-se sair de uma seita política e, no Estado totalitário, pode-se partir para a “emigração interior”; mas o homem capitalista que se tornou auto-regulador pode se retirar do mercado totalitário tanto quanto pode sair de seu próprio Eu, convertido em “capital humano”. A consciência é reinserida no mecanismo onipresente da concorrência, incessantemente se calculando a si mesma como instrumento de valorização e, ao mesmo tempo, enganando-se com as fórmulas da “novilíngua” econômica neoliberal: “A loucura da produtividade é auto-experiência”, “auto-submissão é auto-realização”, “angústia social é autolibertação” etc. ou, como a divisa da esquizofrenia do homem moderno, formulada por Rimbaud de maneira insuperável já há mais de cem anos: “Eu é um outro”.

“Liberdade” não significa nesse mundo nada mais que saber o que o Grande Irmão ou o Benfeitor, isto é, o mercado totalitário, poderia querer dos homens, nada mais que saber pressenti-lo e obedecê-lo às pressas e sem restrições ou ficar a meio caminho, perder sua existência social e morrer prematuramente. Para que essas sanções se apliquem aos perdedores, não é mais preciso um sistema burocrático de supervisão. Isso providencia por si só o poder anônimo sinistro da máquina social do capital, convertido numa condição do globo inteiro. Esse poder de leis sistêmicas cegas, que violenta os recursos naturais e humanos, emancipou-se de toda vontade social -inclusive da subjetividade do management.

De certo modo, o mundo todo se tornou uma única e gigantesca fazenda de bichos, na qual é indiferente quem comanda, o fazendeiro Jones ou o porco supremo Napoleão, visto que os comandantes subjetivos são de qualquer jeito os órgãos executivos de um mecanismo autonomizado, que não descansará enquanto não fizer do mundo, por meio do trabalho, um deserto sem vida. Nessa fazenda-mundo automática, toda questão crítica acerca do sentido e da finalidade da organização demente inteira é sufocada de imediato porque as ovelhas democráticas prorrompem nos ouvidos o berro atordoante de lemas “reificados”: “Trabalho bom, falta de trabalho ruim”, “Concorrência bom, reivindicações sociais ruim” etc. Se nós lermos as parábolas orwellianas um pouco a contrapelo, poderemos nos reconhecer a nós mesmos como os prisioneiros de um sistema amadurecido, cujo totalitarismo faz “A Revolução dos Bichos” e “1984” parecerem quase inocentes.

1 de Junho de 2003

Publicado na Folha de São Paulo com o titulo “Parábolas do Meio-Irmão”
Robert Kurz é sociólogo e ensaísta alemão, autor de “Os Últimos Combates” (ed. Vozes) e “O Colapso da Modernização” (ed. Paz e Terra). Ele escreve mensalmente na seção “Autores”, do Mais!.

Tradução de Luiz Repa.

Extraído da Revista Exit 

Um comentário sobre “Quem é o Big Brother ? George Orwell e a crítica da modernidade – Robert Kurz

  1. Muito intressante o artigo do Kurz. Como sempre, é para pensar e, neste caso, com as referências estimulantes de Defoe, Swift, mas, principalmente, de Orwel. A questão da “novilíngua” sempre foi um instrumento de análise, interpretação, compreensão e de formulação para mim.
    Orl.

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