Em busca da maturidade dos movimentos juvenis – Arlindenor Pedro

Existe relação entre um fato social , como por exemplo, o movimento de contestação juvenil na França em 1968 e outros fatos sociais,  como as jornadas de junho de 2013 no Brasil,  ou mesmo as recentes ocupações de escolas por secundaristas em São Paulo   e Goiás ? Por que, quase que instintivamente fazemos a ligação entre esses movimentos, separados entre si no tempo e no espaço, como se reconhecêssemos entre eles um DNA comum que os fizessem integrantes de uma mesma família ?

Afinal, por que não misturamos estes fatos sociais com as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma , ou mesmo com as marchas dos governista contra o seu afastamento ? Bem que poderíamos dizer : ora, são todos movimentos de massas, que articulam pessoas, onde elas extravasam seus sentimentos e colocá-las no mesmo saco .

Acontece que, na atualidade , os movimentos de ruas  que se desenvolvem por aspectos próprios do poder político, por exemplo, aqueles voltados  para a condução institucional do país, têm tido fôlego curto e tendem a se consumir rapidamente . Começam com um aspecto amplo de participação e rapidamente vão se esvaziando e  em pouco tempo vão reduzindo-se, isolando-se, ficando restrito apenas a uma militância de caráter mais ideológico .

O fato é que os  líderes desses movimentos a cada dia que passa perdem sua legitimidade e não conseguem apresentar propostas que apontem para a resolução dos problemas que afligem e desesperam as pessoas. Vão deixando claro a sua fragilidade e  sua inépcia para conduzir as grandes massas para um confronto contra a ordem instituída, ou mesmo para maiores mobilizações para a garantia do governo . Na verdade, com o passar do tempo, fica claro que o centro de decisões para suas reivindicações não será as ruas mas o Congresso, e outras instituições do Estado, dentro da lógica institucional .

Poderíamos dizer,  então, que foi isto o que aconteceu recentemente com o esvaziamento nas ruas dos dois movimentos antípodas : os dos que querem o impeachment e os que se opõem a isto, classificando isto como um golpe – simplesmente um putsch.

Porque    suas ações inserem-se em um universo, que em última instância é contestado na sua essência – a política institucional, ou memo sua pauta não comporte questões como o aquecimento da terra, a violência do Estado, o racismo, a liberação feminina, etc, rapidamente se manifesta nestes movimentos a sensação de que nada irá mudar  se for vencedora uma ou outra posição doutrinária . Advém daí, entã,  um comportamento blasé, um afastamento pela inutilidade de estar seguindo estes  líderes .

O fato é que paira no ar um sentimento difuso de mudanças que não consegue ser captado pelas pretensas lideranças  que reduzem o movimento à luta por controle , por poder .Na verdade, existe um cansaço generalizado com o mundo, com o seu estilo, com a vida vazia e fútil,  da sociedade consumista que todos percebem tornar-se cada dia mais irracional, perigosa, destituída de valores e sem um futuro muito nítido , e isto se manifesta principalmente no conjunto da juventude .

Se olharmos com mais aguidade,  veremos que o perfil dos manifestantes que ainda resistem nos dois tipos de manifestações ( governista e anti governista ) não é a de jovens ativistas,  que não lhe dá a sua forma e nem mesmo o seu conteúdo : no geral são grupos  de família de classe média ( no caso da oposição )   ou da militância  saída dos  sindicatos e partidos políticos da base governista ( no caso da situação ). Isto é, não encontraremos aí o DNA a que me referi no início, que estava presente nas contestações de 1968 e nas manifestações da contemporaneidade das “ primaveras” européias e árabes, bem como dos movimentos de ocupação .

Quem observou as jornadas de junho de 2013 sabe disto . Eram outros os tipos de participantes : jovens em geral , ativistas sociais , irreverentes, corajosos, despojados e generosos . A forma de organização proposta também era diferente : horizontal, sem lideranças pré definidas, sem o empoderamento dos carros de som , com performances culturais e artísticas.Aparentemente difusas, suas reivindicações, no geral, pautavam-se por exigir um mundo melhor, diferente do que o que vivemos hoje . Embora ainda que não chegassem a uma contestação da totalidade do mundo capitalista , certamente o seu desejo era de chegar lá – uma sociedade pós capitalista : sem trabalho, sem Estado, sem dinheiro, sem diferenças de classe, cor , preferenciais sexuais, religiosas, etc.

Também ,a exemplo dos movimentos sociais que classificarei aqui como “ institucionais”, esses movimentos contestatórios, próprios da juventude, apresentam momentos de sístole e diástole , ou de refluxo e expansão . Mas ,como não estão presos à camisa de força da luta institucional , aparecem em momentos inusitados , apanhado os governantes , ou mesmo os setores conservadores ,   de surpresa . Seu desenvolvimento ou pode ser dá por uma manifestação pela redução das tarifas de passagem, evoluindo para uma luta mais ampla por “catraca livre “ , por protestos pelos gastos da Copa do Mundo , ou mesmo por ocupações de escolas secundárias , como estamos vendo em São Paulo e Goiás .

Invariavelmente eles tomam as ruas e acabam se confrontando com as forças policiais do Estado, que não os tratam com a mesma condescendência que tem com as manifestações dentro do campo   “institucional “ . Com a força da repressão sobre eles. ( espancamentos, prisões , processos , sequestros, etc ) , opera-se  o  recuo , mas com a certeza  de que ele ressurgirá com novas formas .

Após os ensinamentos do movimento de ocupação das escolas em São Paulo, com um grau de maturidade pouca vezes visto , preparamo-nos para entrar no ano de 2016 com a expectativa de que novos movimentos com este DNA eclodam e possam elevar as lutas populares por uma nova sociedade a um novo patamar de consciência, pois é sabido que no campo das lutas institucionais isto não se fará .  Aquardemos, pois, o que as ruas têm a nos dizer !


Serra da Mantiqueira, janeiro de 2016 

Arlindenor Pedro




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