Como construir uma alternativa ao capitalismo?


Por um manifesto da emancipação humana*

Após 165 anos do Manifesto Comunista surgiu uma oportunidade histórica para irmos para além dele e do capitalismo.Uma ruptura ronda o capitalismo – a ruptura antifetichista. A crítica radical captou a lógica do sistema. A prática emancipatória desfetichizará a sociedade.

Essa nova revolução volta o gume para os fundamentos do capitalismo. Ela é transcendente. Ao não fazerem isso as revoluções anteriores fracassaram.

Tal ruptura é proposta num momento em que o sistema apresenta a crise do seu deus-fetiche-dinheiro. Por isso, essa crise é também a crise do ser humano, a crise do sujeito. Afinal, fomos formatados por essa matrix fetichista. Em razão disso nós, seres humanos, que fomos os criadores desse sistema, vivemos uma crise inusitada.

Não há mais respostas nos marcos do capitalismo para esta crise. Hoje, diante dos nossos olhos, o sistema assumiu a sua face autodestrutiva.

Autodestruiremo-nos também? Apostamos que não!

Mas, para isso a substituição do capitalismo entra na ordem do dia. Esse impensável já floresce em vários países. E o que era considerado até aqui como impossível ensaia seus primeiros passos.
Por causa disso, os que interpretam e querem inaugurar uma nova prática que suplante o capitalismo são chamados para exporem abertamente, ao mundo inteiro, o conteúdo da sua crítica e o que propõem para irmos além do sistema.

No entanto, todos os poderes da terra se juntaram para a defesa do sistema: o Papa e Obama, Merkel e Dilma, Netanyahu e Ahmadinejad, Xi Jinping e Castro, Putin e Maduro, Manoel Barroso e Kim Jong-un, Al Qaeda e Hizbollah, mercado e estado, FMI e bancos centrais, empresários e sindicalistas, mídia e partidos políticos. Seus acordos e disputas têm um ponto em comum: a manutenção do capitalismo.

Esse posicionamento tornou-se, porém, inconsistente. O sistema vive um momento histórico bem diferente dos anteriores. Seus impasses indicam que ele se defronta com uma crise não transitória. Suas barreiras econômicas e ambientais estão à vista. Os recursos naturais estão se esgotando. A redução drástica do trabalho produtivo pela microeletrônica dessubstancializou fortemente o capital. O fim do trabalho anuncia o fim do capitalismo. Com isso, o capitalismo perdeu sua dinâmica. Alcançou seu limite. Entrou em colapso. Seu fundamento afunda. Sua lógica ficou insustentável.

Porém, a agonia do sistema não é resultado do protesto dos movimentos sociais ou de algum movimento revolucionário. Os que o defendem e os que insistem em modernizá-lo mendigando suas migalhas não querem admitir que a bancarrota provém de seus próprios fundamentos.
A demora em suplantar essa excrescência histórica contribuiu para que o capitalismo se transformasse nessa catástrofe que devasta a humanidade e o planeta.

O que devemos fazer para deixarmos de ser prisioneiros de uma inconsciência que responde por 95% da nossa capacidade cognitiva?

A DUPLA NATUREZA DA CRÍTICA AO CAPITALISMO

Já faz um certo tempo que se descobriu que a libertação só pode ser do trabalho e não no trabalho. No trabalho ninguém se liberta. Além do mais, não se deve confundir trabalho com atividade humana. O ser humano sempre teve e sempre terá atividades. Já o trabalho é uma construção histórica que foi imposta aos seres humanos. E imposta por meio de uma repressão sangrenta. Pois, foi através da invenção e do uso das armas de fogo que foi implantada a economia mercantil. Evidentemente as pessoas não se deixaram levar de livre e espontânea vontade pelas exigências do trabalho na nova economia armamentista e financeira. Foi a repressão que transformou os pequenos produtores das formas de domínio pré-capitalista em trabalhadores. Para isso eles foram expulsos de suas terras e tiveram cortados seus direitos à caça, à pesca e à lenha. A finalidade dessas medidas era exatamente forçá-los a venderem a única coisa que ainda lhes restava – a sua capacidade de trabalho. A própria raiz latina da palavra, «tripalium», «três paus» refere-se a uma espécie de canga utilizada para tortura e castigo dos escravos e outros não livres. Apesar disso, os defensores do trabalho insistem em ignorar sua crítica.
Hoje, essa defesa se reveste de um caráter reacionário. Porque contrasta fortemente com o momento histórico que nos possibilita não só superarmos o trabalho, mas também os seus sistemas, tanto capitalista como socialista. Afinal, estamos diante de uma possibilidade de eliminarmos o sofrimento, parte dele causado pelo trabalho, cujas origens e impasse atual residem na história das relações fetichistas.
Quando percebemos essa possibilidade fomos considerados profetas do caos. Agora que ela chegou, nos dizem que não há saída. E perguntamos: por que? Nos respondem: porque o capitalismo é como fênix, renasce das cinzas, sempre encontra uma maneira para continuar. Mas como ele vai continuar se a natureza da crise atual é do seu fundamento?
Para nós, a configuração dessa realidade demorou a se aproximar do pensamento crítico radical.
Agora se aproximou. Com isso, irrompe uma conjugação histórica para suplantarmos o moderno sistema patriarcal produtor de mercadorias. Podemos afirmar a você com segurança que capitalismo, trabalho e suas demais categorias e o sofrimento daí advindos já não têm motivo nenhum para continuarem.
A microeletrônica, ao ser utilizada como força produtiva, levou ao absurdo a razão de ser do trabalho. Com isso, a visão transistórica, ontológica, natural do trabalho não se sustenta. E por quê? Porque o próprio capitalismo começou a dispensar o ser humano do trabalho.
Assim, ficam desmentidos não só o cristianismo, o protestantismo, o marxismo, mas o próprio capitalismo. Consequentemente, a revolução não pode se fundamentar num conceito positivo de trabalho.
Faz muitos anos que se captou o valor como fundamento da produção burguesa e o trabalho como a substância do capital, a substância formadora do valor que se expressa no dinheiro. Esta crítica, já no seu início, apanhava as formas básicas da sociedade capitalista que tem no valor o negativo central da sociedade moderna.
Porém, a crítica social inaugurada pela modernidade originou duas críticas sociais antagônicas.
Uma, que ensaiava a crítica radical das formas básicas desta sociedade. Outra, que criticava a insuficiência e subdesenvolvimento da mesma. A primeira, que no início permaneceu oculta e durante um bom tempo reprimida, só recentemente foi (re)descoberta e por isso só agora dá os seus primeiros passos. Passos que poderão nos conduzir ao quarto onde estão guardados os segredos mais importantes da humanidade. A segunda sobreviveu e se desenvolveu até agora como uma reflexão imanente ao capitalismo. Sua fundamentação está baseada na teoria da modernização capitalista que colapsou.

A GÊNESE DAS TEORIAS



As duas teorias se voltam para uma mesma base de estudos, o capitalismo. Porém, o capitalismo não ingressou na história em estado puro, mas sim através de uma miscelânea de momentos capitalistas, pré-capitalistas, modernos e pré-modernos. Isso ocasionou uma disparidade entre os vários países continentais da Europa que eram subdesenvolvidos em relação à Inglaterra e também nos demais países do mundo, que eram ainda mais atrasados do que os subdesenvolvidos europeus. Nessa não simultaneidade interna e externa do capitalismo reside a gênese dessas teorias. Dessa contradição emanam o Marx esotérico e o Marx exotérico. Daqui advém suas distintas abordagens, com duas teorias diferentes: uma, a teoria da suplantação do capitalismo; outra, a teoria de sua modernização.
Com o predomínio da teoria da modernização, a crítica se voltou apenas para a mais-valia, ou seja, a quantia não paga do valor produzido pelo trabalhador da qual ele é privado. Aqui, a exploração, a dominação e a luta de classes ocuparam o cenário da crítica. Esse aspecto ensejou a ideia de que a libertação da classe trabalhadora seria no trabalho e não do trabalho. O resultado foi que o trabalho constituiu-se como o fundamento da revolução socialista, com a qual o proletariado iria para além do capitalismo.
Consequência: a crítica ao capitalismo não se dirigiu à qualidade destrutiva da socialização na forma-valor, mas sim, apenas, ao mecanismo quantitativo de distribuição que se encontra sobre essa base cegamente pressuposta. Nesse pressuposto, a revolução socialista só poderia modernizar o capitalismo.
Após a morte de Marx, um vago pressentimento tomou conta de alguns revolucionários marxistas que, mesmo sem ter a dimensão, constataram que nele existiam abordagens diferentes sobre várias questões.
Esse vago pressentimento, no entanto, gerou uma fobia contrária à ideia de um limite interno da valorização do valor, da valorização do dinheiro, levando a que essa ideia permanecesse desvinculada das conjunturas sociais da economia e da política, da crise e da prosperidade, das guerras mundiais, da crise econômica mundial e da era da prosperidade do pós-guerra proporcionada pelo fordismo. Sem dúvida uma questão injustificável, mas compreensível. Afinal, não estávamos perante conjunturas que evidenciassem a fronteira histórica do moderno sistema patriarcal produtor de mercadorias.
Mas, a possibilidade da crítica categorial estar correta diante da dinâmica capitalista gerou incômodos, provocou escândalos e produziu desconfortos na intelectualidade.
Vários e importantes revolucionários ficaram perplexos diante da possibilidade de que pudesse existir nos textos de Marx a ideia de que a classe operária perderia emprego e suas concentrações nas fábricas se reduziriam drasticamente; que se encontrasse neles a negação da classe operária como sujeito histórico; que eles fornecessem elementos para pensar e fazer uma outra revolução que não a socialista e que suas formulações viessem a ser confirmadas por um momento novo da produção capitalista em que praticamente desapareceria o valor e, concomitantemente, a mais-valia.

A CRÍTICA DO TRABALHO E A RUPTURA COM O TRABALHO E O CAPITALISMO HOJE



A nova crise mundial, com a terceira revolução industrial, é exatamente a confirmação da previsão de Marx (Grundrisse). Estamos diante da crise do limite interno da valorização do valor, da valorização do dinheiro. Se, anteriormente, não presenciamos essa situação, agora ela está diariamente na nossa cara. Antes, tratava-se de crises relacionadas com a expansão do sistema.
Hoje, trata-se da crise do limite do capitalismo. Estamos diante do xeque-mate do capitalismo provocado pelo próprio capitalismo. Por causa disso, o desenvolvimento da crítica radical do valor- dissociação que supera a interpretação da história como luta de classes e a substitui pela história das relações fetichistas desdobrou-se no tempo e constitui o fundamento da crítica à nossa época histórica.
O objetivo da produção moderna é transformar dinheiro em mais dinheiro. Isto só foi possível porque, no capitalismo, o dinheiro é a encarnação do trabalho. Com o seu desenvolvimento, surgiram fábricas com mais de 30 mil trabalhadores(as). E surgiram porque no capitalismo o fundamento do sistema é a valorização do dinheiro que surge como uma forma de riqueza constituída pelo dispêndio do trabalho humano direto, tendo por base o tempo de trabalho. Nisto reside o coração do sistema capitalista, a valorização do valor, a valorização do dinheiro. Todos os obstáculos que se ergueram frente a este objetivo, inclusive os revolucionários, foram derrotados pela dinâmica, pela imposição, expansão e modernização do capitalismo.
Hoje a produção passou a depender menos do tempo de trabalho e do montante de trabalho empregado e muito mais das sofisticadas máquinas na produção criadas pela ciência e tecnologia. Fábricas que tinham 30 mil, têm 100 trabalhadores. Produzem mais e bem mais barato. Mas, como sabemos, o capital não pode eliminar totalmente o trabalho vivo do processo de produção da mercadoria. Afinal, é deste trabalho que ele extrai o sobretraballho e de onde ele tira o lucro.
Mas como tem que aumentar a produtividade, em razão da concorrência, com o uso de novas tecnologias, o tempo de trabalho fica cada vez mais reduzido.
Perante o imenso acúmulo de trabalho morto, o trabalho vivo fica reduzido a mera manutenção e supervisão do maquinário técnicocientífico. O aumento incessante da produtividade do trabalho chegou a uma situação tal, que o valor novo adicionado por unidade de produto é tão insignificante e mesquinho que a medição pelo critério do valor se tornou insustentável. Com isso, nem o trabalho e nem o tempo de trabalho são mais as condições principais da produção. O trabalho começou a deixar de ser a fonte principal de riqueza e o tempo de trabalho a sua medida.
A humanidade está diante da eliminação da galinha dos ovos de ouro do capital, o trabalho.

O CERNE DA CRÍTICA RADICAL DA CRISE



A troca do trabalho vivo pelo trabalho objetivado se apresenta então, como o último desenvolvimento atual da relação do valor, da produção baseada no valor. Estamos diante de um processo produtivo que altera profundamente o significado de riqueza, tempo e relação social colocando em xeque o trabalho. A barreira histórica do capitalismo se apresenta. A tentativa de superar esse impasse pela especulação financeira, ou seja, dinheiro produzindo dinheiro aguça enormemente a crise atual e exibe as proporções e consequências do colapso mundial.
Computadores sofisticadíssimos, novas mídias e tecnologia de comunicação, bolhas financeiras especulativas com mais de 400 trilhões de dólares nos mercados acionários e imobiliários não conseguem mais ocultar esta realidade. A sociedade sólida do dinheiro corre cada vez mais para se desmanchar no ar.
A dessubstancialização do capital está tão avançada que só é possível uma acumulação apenas aparente, insubstancial, através das bolhas financeiras e do crédito público que atingiram atualmente os seus limites. A conclusão é cristalina: a história da dessubstancialização do valor, ou seja, a desvalorização do dinheiro, apresenta-se como uma questão de redução drástica da quantidade de trabalho. Eis aqui o cerne da teoria crítica radical da crise. Essa dessubstancialização real do capital em curso comprova que o capitalismo está morrendo. Diante disso o chamamento só pode ser um: basta de masoquismo histórico, que morra o capitalismo!

Assim terá vida a humanidade e o planeta.

Anos após a prospecção de Marx, depois da descoberta/insight do Crítica Radical, das formulações bem fundamentadas de Robert Kurz e com a explicitação da crise da fronteira histórica do capitalismo (2008), ressurge uma fobia agora pós-moderna que, ao tentar negar a possibilidade da suplantação do capitalismo, contribui para a configuração de uma subjetividade destrutiva e autodestrutiva, a do sujeito contemporâneo. Mas ela não tem mais condições de conter a radicalidade teórica e prática da crítica categorial ao capitalismo e, por isso, poderemos começar “um certamente difícil processo de transformação prática, desde o próprio comportamento quotidiano até a revolução das instituições sociais”. (Kurz)
Esse processo de transformação tem como um de seus pressupostos a crítica radical ao trabalho. Por suas raízes o trabalho é masculino, branco e ocidental. A isto está vinculada a dissociação sexual, a desvalorização das mulheres. A elas foram impostos todos os momentos da reprodução social separados do trabalho. Sem isto não haveria valorização do valor, valorização do dinheiro.
Por causa disso, o capitalismo não pode ser dimensionado somente como conexão de suas formas categoriais, mas sempre também como processo de dissociação. A dissociação é o valor. O valor é a dissociação. (Scholz)
Ademais, ao código do disciplinamento do trabalho, está também vinculada uma desvalorização das pessoas não brancas. Elas são consideradas insubmissas à razão moderna.
Por outro lado, as crises internas do sistema são atribuídas constantemente a um poder subjetivo alheio, externo, como aconteceu aos judeus na história europeia. Imagine agora, com a crise do fundamento do sistema!
Por esse motivo, já desde a época da filosofia das luzes, o machismo, o sexismo, o racismo e o antissemitismo foram transmitidos juntamente com a positivação do trabalho que está na base e constitui a substância do processo de valorização do valor, do dinheiro. Se esta relação essencial está anunciando que pode ser ultrapassada, pode ser ultrapassada também sua sociedade e as categorias fundantes do capitalismo juntamente com o machismo, o sexismo, a homofobia, o racismo e o antissemitismo.
Para isso, não cabe mais regressar ao Iluminismo, aos mitos da revolução burguesa, ao estado dos trabalhadores(as), a uma pré-modernidade idealizada, ao romantismo agrário, nem continuar aceitando a existência do sujeito formatado pelo fetichismo da mercadoria. Além disso, todos os movimentos sociais que fizeram e fazem parte da história da ascensão, imposição e modernização do sistema patriarcal produtor de mercadorias e de sua metafísica real e que, portanto, não transcenderam a ontologia capitalista, caducaram. E caducaram porque só conseguem pensar a crítica e colocá-la em prática nas categorias fundantes do capitalismo (valor, dissociação, dinheiro, trabalho, sujeito, mercadoria, política, estado, nação, concorrência, fetichismo, democracia…). Isso se manifesta claramente nas performances dos velhos e novos dirigentes políticos do sistema, quer sejam da direita, do centro ou da esquerda.

ANTI-SUJEITO PRA SUPERAR A HISTÓRIA DAS RELAÇÕES FETICHISTAS

A história de todas as sociedades que existiram até aqui não é a história da luta de classes, mas a história das relações fetichistas. O conceito de luta de classes é imanente ao sistema. Não capta a essência do capitalismo. Apenas a aparência.

O conceito de fetichismo constitui aqui a chave para entrarmos no quarto proibido. Através dele compreenderemos o desenrolar histórico do início aos dias atuais. A distinção entre a primeira e a segunda natureza constitui o ponto decisivo.
A segunda natureza (constituída pelo fetichismo e codificada simbolicamente) significa que a sociabilidade dos seres humanos constitui-se e apresenta-se de maneira análoga à primeira natureza (biológica). Mas analogia não é uma identidade, isto é, primeira e segunda natureza não se equiparam.
A constituição sem sujeito da segunda natureza não advém como resultado natural, mas histórico.
A constituição sem sujeito da primeira natureza advém da transformação biológica e natural. A distinção entre a primeira e a segunda natureza e o seu dimensionamento através da crítica radical do fetichismo fornece os fundamentos indispensáveis à humanidade para a sua libertação.
O ser social surgido e não criado vem à luz como inconsciente de si mesmo e essa inconsciência advém da própria forma de consciência e reprodução inconscientemente constituída.
Mas o ser social surgido não seria plasmado à segunda natureza, sem recorrer a um sistema simbólico (códigos) que forma a sua estruturação humana. Aqui reside o cerne da constituição da matrix fetichista!

Os conceitos de fetiche e de segunda natureza apontam para o fato de que existe “algo” que não se resolve no dualismo sujeito-objeto e que não é nem sujeito e nem objeto, embora constitua essa relação.
O ponto decisivo é que tem de haver um plano no interior da constituição humana e social, e, portanto, também no interior de cada ser humano isolado, plano esse situado além do dualismo entre sujeito e objeto.
O conceito chave para a compreensão desse plano só pode ser o conceito de inconsciente (Freud).
Mas o inconsciente freudiano não constitui um passo fundamental tanto na elaboração crítica para a ausência do sujeito (estruturalismo) quanto para a crítica da superação do sujeito (iluminista). Freud circunscreveu o conceito de inconsciente sobretudo ao aspecto individual e psicológico e não enfrentou o problema da constituição social do inconsciente. Com isso ontologizou sua descoberta e atrelou o inconsciente diretamente à primeira natureza (impulso sexual). Através de uma dedução pessimista interpretou que as contradições ontologizadas de impulsos inconscientes e produtos culturais seriam insuperáveis (pulsão da morte)
Marx, ao contrário, chega através de Hegel a uma historicização da história da forma que ele expõe como história das formações (político-econômicas) da sociedade. Com isso, ele enfrenta o problema da forma universal da consciência que ele aborda historicamente como constituição do fetiche. Ele não deixa dúvidas que se trata aqui de formas de consciência universais e invertidas.
Se ele não aprofunda a análise sobre a forma universal da consciência do sistema produtor de mercadorias constituída pelo fetiche, isso ocorre porque seu pensamento defronta-se aqui com um limite: a referência ao trabalho (ontologia do trabalho). Isso coloca seu pensamento numa jaula de ferro. O ponto de vista de classes e do operariado caminha para uma simplista abordagem dualista e antagônica que cai nas malhas de uma visão reducionista e sociologista de dominação. Ao se impedir que a forma universal da consciência seja posta claramente, cria-se para ela um limite que a mantém presa apenas à aparência. Com isso os objetivos, a vontade e a ação subjetiva das pessoas refletem os desdobramentos da forma fetiche que constitui todos os sujeitos na medida em que somos resultado de uma predeterminação inconsciente.
A compreensão generalizada de que o pensar e o fazer autônomos são características do sujeito constitui, portanto, um erro. E a interpretação de que o sujeito da classe tem uma missão histórica, ou seja, um papel revolucionário, constitui um duplo erro. Por outro lado, o estruturalismo ou a teoria dos sistemas e o pensamento iluminista e seus sucedâneos pós-modernos possuem uma identidade interna que os torna incapazes de uma crítica da forma-mercadoria. Além disso, o pensamento iluminista permanece incapaz para compreender a verdadeira constituição fetichista sem sujeito. O estruturalismo e a teoria dos sistemas e seus desdobramentos pós-modernistas/hipermodernista abrem mão do propósito de captar a constituição sem sujeito. Anti-sujeito, então, para a superação do sujeito

A CRÍTICA DA HISTÓRIA E A HISTÓRIA DA CRÍTICA

O pensamento pré-moderno acrítico só era possível sob a condição de que a sociedade repousasse estaticamente sobre si mesma e o pensamento reflexivo se reportasse, não ao vazio, mas a uma ordem divina. Não há mais volta a esta situação.
pensamento moderno, tendo por base a filosofia iluminista burguesa e a teoria econômica a ela vinculada e praticada, realizou uma grande façanha, ao vender o contexto da forma social capitalista, antes totalmente inexistente, como uma lei natural da convivência humana. Este êxito contou com uma destacada contribuição da crítica imanente ao capitalismo. Enquanto o capitalismo tinha horizontes pela frente, ficou fácil projetar para toda a história da humanidade a necessidade das relações sociais capitalistas. Mas, agora, a crise mundial atual escancara os limites do sistema. E a teoria imanente ao capitalismo esvai-se junto com ele. Daí só pode advir uma razão, a razão que quer desesperadamente justificar a administração da barbárie.

O pensamento pós-moderno constitui a crítica social fragmentada no estado terminal do sistema e se coloca contra toda teoria que examina o conjunto da sociedade. Trata-se de uma reflexão teórica que cada vez mais se fragmenta porque a dinâmica social a ela subjacente extinguiu-se. As gerações pós-modernas, portanto, já não compreendem os conceitos de reflexão. Elas são o que são e mais nada. São perfeitamente idênticas a seus atos banais, quanto mais absurdos forem estes atos.

O pensamento DE SAÍDA compreende o capitalismo não somente como conexão das suas formas categoriais, mas sempre também como processo de dissociação sexual, onde o fetichismo não é apenas uma representação invertida da realidade, mas uma inversão da própria realidade. Com base nessa fundamentação desenvolve a crítica categorial ao capitalismo, às suas raízes, como crítica à irracionalidade do moderno sistema de produção de mercadorias, ou seja, repudia as classificações ontológicas básicas do capitalismo: trabalho, valor, dissociação, mercadoria, dinheiro, mercado, Estado, nação, política, democracia, direito, economia (solidária ou verde), etc.

Ele examina o modo de produção capitalista fundamentalmente em suas formas político-econômicas elementares e suas correspondentes formas sociais dissociadas que abrangem todos os grupos, classes e camadas sociais que formam o sistema coletivo de referência dos conflitos sociais intercapitalistas.

MOMENTO PARA A SOCIEDADE AUTOCONSCIENTE



Para vários intérpretes da história, o movimento autônomo do capital, a valorização do valor, não decorre da essência, ou seja, do fundamento do sistema, mas de sua aparência. Essa incompreensão está na base da suposição de que nas próprias formas modernas do dinheiro e da mercadoria seria possível uma sociedade humanitária. Como se sabe, isso nos conduziu à devastação humana e ambiental.
Hoje, portanto, estamos diante de uma crise categorial que exige uma crítica radical. Uma crise que se constitui no colapso histórico do sistema e de todas as suas relações sociais correspondentes. Uma crise que ficou evidente em 2008, que não é debelada e que devasta a humanidade e o planeta. Uma crise que se manifesta como crise da sociedade do trabalho, crise ecológica, crise da política e do Estado nacional, bem como crise da relação entre os sexos.
Pensar este desafio é refletirmos sobre a superação da nossa época. Mas não só da história existente até agora. Afinal, não só a Guerra Fria chegou ao fim. Está no fim também a história mundial da modernização. Não apenas essa história especificamente moderna, mas a história mundial das relações de fetiche em geral. O fetichismo nos acompanha desde os primórdios da humanidade. Por causa disso, a nossa história é a história das relações fetichistas. Vale dizer, não só a história contemporânea. Por mais diferentes que as relações sociais tenham sido na história das sociedades até aqui existentes, uma conclusão se impõe: todas elas foram dirigidas por meios fetichistas (Kurz). Nunca existiram, portanto, sociedades autoconscientes que pudessem decidir livremente sobre o emprego de suas possibilidades. O moderno sistema de produção de mercadorias representa apenas a última forma social da dinâmica cega do fetichismo.
Com isso, o mundo capitalista passa, a partir de agora, a ser dimensionado como uma etapa passageira na história da humanidade. E a consanguinidade, o totemismo, a propriedade do solo e o valor passam a ser considerados como etapas mais longas do processo através do qual o ser humano se despregou da natureza, tornando-se um ser relativamente consciente em relação à primeira natureza, mas não ainda em relação à segunda natureza, que é a sua própria conexão social criada por ele mesmo (Jappe).
Em razão disso, pensar sobre a natureza do fetiche e sua crise na atualidade nos possibilita dimensionar um momento histórico imperdível de construirmos já uma sociedade autoconsciente, a sociedade da emancipação humana.

DE ONDE VIRÁ A SAÍDA?

Essa é a questão candente que precisa ser bem dimensionada. Como não temos no capitalismo nenhum grupo social que tenha uma predeterminação ontológica transcendente, entra em pauta agora o anti-sujeito capaz de realizar a desfetichização da sociedade. Esse é o aspecto nodal para sair do labirinto da realidade capitalista constituída pela lógica do valor, da dissociação e demais categorias capitalistas. Portanto, da relação social formatada pela matrix fetichista. Esse ponto decisivo poderá, hoje, ser conquistado na medida em que os seres humanos se coloquem de acordo entre si para construírem uma sociabilidade autoconsciente. Aqui cumprirá um papel fundamental a associação dos indivíduos conscientes e potencialmente livres.
Para essa façanha histórica teremos que saber utilizar criativamente a contradição entre nós, seres humanos, e a forma social na qual todos nós estamos plasmados. Ao captar a tensão entre o sujeito formatado pelo valor e o indivíduo social-sensível, cujo sofrimento permeia a história humana, é decisivo cavarmos cotidianamente brechas que engrandeçam o ser humano. Através dessas brechas acumularemos conquistas importantes na negação do sistema tendo em vista a ruptura. Esse novo caminhar da humanidade poderá permitir a suplantação da história das relações fetichistas assegurando a conquista da emancipação humana.
Diante disso, podemos iniciar já um processo de ruptura com o sistema. Estamos, portanto, perante formulações de uma nova teoria da revolução não só para refletirmos, mas também para suplantarmos o capitalismo. Diante dessa situação que se nos apresenta, pretendemos dar seqüência ao desenvolvimento dessa nova teoria com sua prática emancipatória correspondente e dos novos aspectos teóricos daí advindos em razão da nova prática social em curso. Para isso, continuamos apostando em seres humanos conscientes, coerentes e organizados, solidários à luta imanente, mas que depositem as suas esperanças na luta transcendente ao sistema para erradicarmos total e radicalmente o capitalismo.
A emancipação humana se conquista, não se mendiga. Após 165 anos do Manifesto Comunista surgiu uma oportunidade histórica para irmos para além dele e do capitalismo.

* Publicado pelo Grupo Critica Radical

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