O planeta  doente – Guy Debord 

Escrito em 1971 por Guy  Debord, para aparecer no nº 13 da revista Internacional Situacionista, este artigo permaneceu inédito até recentemente, quando foi publicado, junto com dois outros textos do mesmo autor, em La Planète malade (Paris, Gallimard, 2004, pp. 77-94). 


 

Tradução  de Emiliano Aquino 

A “poluição” está na moda hoje em dia, exatamente da mesma maneira que a revolução: ela se apossa de toda a vida da sociedade, e ela é representada ilusoriamente no espetáculo. Ela é a ladainha que incomoda em uma multidão de escritos e de discursos errados e mistificadores, que arrasta todos aos fatos pelo pescoço. Ela se expõe em todo lugar enquanto ideologia e ganha terreno enquanto processo real. Esses dois movimentos antagônicos que são o estado supremo da produção de mercadorias e o projeto de sua negação total, igualmente ricos em contradições em si mesmos, crescem juntos. Eles são os dois lados pelos quais se manifesta um mesmo momento histórico há muito tempo esperado, e frequentemente previsto sob figuras parciais e inadequadas: a impossibilidade da continuação do funcionamento do capitalismo.

A época que tem todos os meios técnicos para alterar absolutamente as condições de vida sobre toda a Terra é igualmente a época que, pelo mesmo desenvolvimento técnico e científico separado, dispõe de todos os meios de controle e de previsão matematicamente indubitável para medir exatamente de antemão aonde leva – e para a que data – o crescimento automático das forças produtivas alienadas da sociedade de classes: quer dizer, para medir a degradação rápida das condições mesmas da sobrevivência, no sentido mais geral e mais trivial do termo.

 

Enquanto os amantes imbecis do passado dissertam ainda sobre, e contra, uma crítica estética de tudo isto e creem se mostrar lúcidos e modernos fingindo esposar seu século, proclamando que a autoestrada ou Sarcelles tem sua beleza – que deveríamos preferir ao desconforto dos “pitorescos” bairros antigos – ou fazendo notar seriamente que o conjunto da população come melhor a despeito dos nostálgicos da boa cozinha, o problema da degradação da totalidade do ambiente natural e humano já cessou completamente de se colocar sobre o plano da pretensa qualidade antiga, estética ou outra, para se tornar radicalmente o problema mesmo da possibilidade material da existência do mundo que persegue um tal movimento. A impossibilidade já é, de fato, perfeitamente demonstrada por todo o conhecimento científico separado, que não discute mais do que o fracasso; e os paliativos que poderiam, se os aplicássemos resolutamente, o fazer recuar ligeiramente. Uma tal ciência não pode mais do que nos acompanhar rumo a destruição do mundo que a produziu e que a mantém; mas ela é forçada a fazê-lo com os olhos abertos. Ela mostra, assim, em um grau caricatural, a inutilidade do conhecimento sem uso.

Medimos e extrapolamos com uma precisão excelente o aumento rápido da poluição química da atmosfera respirável; da água dos rios, lagos e oceanos, e o aumento irreversível da radioatividade acumulada pelo desenvolvimento pacífico da energia nuclear; dos efeitos dos ruídos; da invasão do espaço pelos produtos em matérias plásticas que podem sustentar uma eternidade de entulho universal; da natalidade louca; da falsificação sem sentido dos alimentos; da lepra urbanística que se espalha sempre mais no lugar do que foram a cidade e o campo; assim como das doenças mentais – inclusive os medos neuróticos e as alucinações que não poderiam deixar de se multiplicar logo sobre o próprio tema da poluição, da qual apontamos em todo lugar uma imagem alarmante – e do suicídio, cujas taxas de expansão já recortam exatamente aquela da edificação de um tal ambiente (para não dizer nada sobre os efeitos da guerra atômica ou bacteriológica, com seus meios sempre prontos a agir como a espada de Dâmocles, mas que permanecem evidentemente evitáveis).

Em suma, se a magnitude e a realidade dos “terrores do Ano Mil” ainda é um assunto controverso entre os historiadores, o terror do Ano Dois Mil é tão óbvio quanto bem-fundado; ele é desde agora certeza científica. No entanto, o que se passa não é nada de novo em ultima instancia: é apenas o forçoso fim de um processo antigo. Uma sociedade sempre doente, mas sempre mais poderosa, recriou em todo lugar concretamente o mundo como ambiente e decoração de sua doença, enquanto planeta doente. Uma sociedade que não se tornou ainda homogênea e que não é determinada por si mesma, mas sempre por uma parte de si mesma que se coloca acima dela, que lhe é exterior, desenvolveu um movimento de dominação da natureza que não se dominou a si mesmo. O capitalismo trouxe por seu próprio movimento, afinal, a prova de que não pode mais desenvolver as forças produtivas; e isto não quantitativamente, como muitos teriam acreditado compreender, mas qualitativamente.

No entanto, para o pensamento burguês, apenas o quantitativo é o sério, o mensurável, o efetivo; e o qualitativo não é mais do que a incerta decoração subjetiva ou artística do verdadeiro real estimado em seu verdadeiro peso. Para o pensamento dialético, ao contrário, e, portanto, para a história e para o proletariado, o qualitativo é a dimensão mais decisiva do movimento real. Eis o que, o capitalismo e nós, teríamos acabado por demonstrar.

Os mestres da sociedade são obrigados agora a falar da poluição, para a combater (porque eles vivem, afinal, no mesmo planeta que nós; eis o único sentido em que podemos admitir que o desenvolvimento do capitalismo realizou efetivamente uma certa fusão das classes) e para a dissimular: porque a simples verdade dos incômodos e riscos presentes basta para constituir um imenso fator de revolta, uma exigência materialista dos explorados, tão vital quanto foi a luta dos proletários do século XIX pela possibilidade de comer. Depois do fracasso fundamental de todos os reformismos do passado – que, todos, aspiravam à solução definitiva do problema das classes –, um novo reformismo se esboça, obedecendo às mesmas necessidades que os precedentes: lubrificar a máquina e abrir novas ocasiões de lucro às empresas de ponta. O setor mais moderno da indústria se lança sobre os diferentes paliativos da poluição, como sobre uma nova saída, tanto mais rentável quanto mais uma boa parte do capital monopolizado pelo Estado é nela empregada e manobrada. Mas se este novo reformismo tem logo de saída a garantia de seu fracasso, exatamente pelas mesmas razões que os reformismos passados, ele mantém com eles a diferença radical de que não tem mais tempo diante de si.

O desenvolvimento da produção se verificou inteiramente até aqui enquanto realização “da economia política”: desenvolvimento da miséria que invadiu e abismou o meio mesmo da vida. A sociedade em que os produtores se matam no trabalho e só tem que contemplar seu resultado, lhes dá francamente a ver e a respirar o resultado geral do trabalho alienado enquanto resultado de morte. Na sociedade da economia superdesenvolvida, tudo entrou na esfera dos bens econômicos, mesmo a água das fontes e o ar das cidades; quer dizer, tudo se tornou o mal econômico, “negação realizada do homem” que atinge agora sua perfeita conclusão material. O conflito das forças produtivas modernas e das relações de produção, burguesas ou burocráticas, da sociedade capitalista entrou em sua fase última. A produção da não-vida prosseguiu cada vez mais rápido seu processo linear e cumulativo; vindo realizar um último limite em seu progresso, ela agora produz diretamente a morte.

A função última, confessa, essencial, da economia desenvolvida de hoje, no mundo inteiro em que reina o trabalho-mercadoria, que assegura todo o poder a seus patrões, é a “produção dos empregos”. Estamos bem longe das ideias progressistas do século precedente sobre a diminuição possível do trabalho humano pela multiplicação científica e técnica da produtividade, que se julgava poder assegurar sempre mais facilmente a satisfação das necessidades “anteriormente reconhecidas por todos como reais”, e sem a “alteração fundamental” da qualidade mesma dos bens que se encontrariam disponíveis. No momento, é para produzir empregos, até nos campos esvaziados de camponeses, ou seja, para utilizar trabalho humano enquanto trabalho alienado, enquanto assalariado, que fazemos “todo o resto”; e então ameaçamos estupidamente as bases, atualmente mais frágeis do que o pensamento de um Kennedy ou de um Brejnev, da vida da espécie.

O velho oceano é em si mesmo indiferente à poluição, mas a história não é. Ela só pode ser salva pela abolição do trabalho-mercadoria. E jamais a consciência histórica teve tanta necessidade de controlar com toda urgência seu mundo, porque o inimigo que está a sua porta não é mais a ilusão, mas sua morte. 

Quando os pobres mestres da sociedade da qual vemos a deplorável realização, bem pior do que todas as condenações que poderiam laçar em outros tempos os mais radicais utopistas, devem agora confessar que nosso ambiente se tornou social; que a gestão de tudo se tornou um assunto diretamente político, até a erva dos campos e a possibilidade de beber, até a possibilidade de dormir sem muitos soníferos ou de se lavar sem sofrer com alergias, em um tal momento também vemos bem que a velha política especializada deve confessar que ela está completamente acabada.

Ela está acabada na forma suprema de seu voluntarismo: o poder burocrático totalitário dos regimes ditos socialistas, porque os burocratas no poder não se mostraram nem mesmo capazes de gerar o estado anterior da economia capitalista. Se eles poluem muito menos – só os Estados Unidos produzem 50% da poluição mundial –, é porque eles são muito mais pobres. Eles só podem, como no caso da China, nisso bloqueando uma parte desproporcional de seu orçamento de miséria, pagar pela parte prestigiosa da poluição das potências pobres; algumas redescobertas e aperfeiçoamentos nas técnicas da guerra termonuclear, ou, mais exatamente, de seu espetáculo ameaçador. Tanta pobreza, material e mental, sustentada por tanto terrorismo, condena as burocracias ao poder. E o que condena o poder burguês mais modernizado é o resultado insuportável de tanta riqueza efetivamente envenenada. A gestão dita democrática do capitalismo, em qualquer país que seja, não oferece mais do que suas eleições-demissões que, nós sempre vimos, nunca mudavam nada no conjunto, e mesmo muito pouco no detalhe, em uma sociedade de classes que imaginava poder durar indefinidamente. Ela não muda mais nada no momento em que esta gestão mesma se enlouquece e finge sustentar, para intervir em alguns problemas secundários mas urgentes, algumas vagas diretivas do eleitorado alienado e cretinisado (EUA, Itália, Inglaterra, França). Todos os observadores especializados sempre revelaram – sem muito se constranger ao explicar – o fato de que o eleitor não muda quase nunca de “opinião”: é justamente porque ele é o eleitor, aquele que assume, por um breve instante, o papel abstrato que é precisamente destinado a impedi-lo de ser por si mesmo e de mudar (o mecanismo foi desmontado cem vezes, tanto pela análise política desmistificada quanto pelas explicações da psicanálise revolucionária). O eleitor não muda mais quando o mundo muda sempre mais precipitadamente ao redor dele e, enquanto eleitor, ele não mudaria mesmo ao amanhecer do fim do mundo. Todo sistema representativo é essencialmente conservador, enquanto as condições de existência da sociedade capitalista não puderam jamais ser conservadas: elas se modificam sem interrupção, e sempre mais rápido, mas a decisão – que é sempre finalmente a decisão de deixar fazer o próprio processo da produção de mercadorias – é inteiramente deixada a especialistas publicitários; quer eles estejam sozinhos na corrida ou bem em concorrência com aqueles que vão fazer a mesma coisa, e, aliás, o anunciam em altos brados. No entanto, o homem que vem votar “livremente” para os gaullistas ou o PCF, tanto quanto o homem que acaba de votar, constrangido e forçado, para um Gomulka, é capaz de mostrar o que ele é verdadeiramente, na semana seguinte, participando de uma greve selvagem ou de uma insurreição.

A auto-proclamada “luta contra a poluição”, por seu lado estatizante e regulamentar, vai em primeiro lugar criar novas especializações, serviços ministeriais, postos de trabalho, avançamento burocrático. E sua eficácia estará perfeitamente à altura de seus meios. Ela só pode se tornar uma vontade real transformando o sistema produtivo atual em suas próprias raízes. E ela só pode ser aplicada verdadeiramente no instante em que todas as suas decisões, tomadas democraticamente em pleno conhecimento de causa pelos produtores, forem a todo instante controladas e executadas pelos próprios produtores (por exemplo, os navios derramarão inevitavelmente seu petróleo no mar enquanto não estiverem sob a autoridade real dos conselhos [soviets] de marinheiros). Para decidir e executar tudo isso, é preciso que os produtores se tornem adultos: é preciso que se apoderem todos do poder.

O otimismo científico do século XIX desmoronou em três pontos essenciais. Primeiramente, a pretensão de garantir a revolução como resolução feliz dos conflitos existentes (era a ilusão hegeliano-esquerdista e marxista; a menos sentida na inteligência burguesa, mas a mais rica, e finalmente a menos ilusória). Em segundo lugar, a visão coerente do universo, e mesmo simplesmente da matéria. Em terceiro lugar, o sentimento eufórico e linear do desenvolvimento das forças produtivas. Se dominarmos o primeiro ponto, teremos resolvido o terceiro; e saberemos bem mais tarde fazer do secundo nosso interesse e nossa atividade. Não é preciso tratar dos sintomas mas da doença mesma. Hoje o medo está em todo lugar, só sairemos dele confiando em nossas próprias forças, em nossa capacidade de destruir toda alienação existente e toda imagem do poder que nos escapou. Remetendo tudo, exceto a nós mesmos, ao poder dos Conselhos dos Trabalhadores possuindo e reconstruindo a todo instante a totalidade do mundo, quer dizer, a racionalidade verdadeira, em uma legitimidade nova.

Em matéria de ambiente “natural” e construído, de natalidade, de biologia, de produção, de “loucura”, não será mais preciso escolher entre a festa e a infelicidade, mas conscientemente e a cada encruzilhada entre mil possibilidades felizes ou desastrosas, relativamente corrigíveis, e, do outro lado, o nada. As escolhas terríveis do futuro próximo deixam apenas esta alternativa: democracia total ou burocracia total. Aqueles que duvidam da democracia total devem fazer esforços para prová-la a si mesmos, lhe dando a chance de se provar no caminho; ou bem não lhes resta mais do que comprar seus caixões à vontade, porque “a autoridade, nós a vimos agir, e suas obras a condenam” (Joseph Déjacque).

A revolução ou a morte”, este slogan não é mais a expresão lírica de uma consciência revoltada, é a última palavra do pensamento científico de nosso século. Isto se aplica aos perigos da espécie como a impossibilidade de adesão para os indivíduos. Nesta sociedade em que o suicídio progride como sabemos, os especialistas tiveram de reconhecer, com certo despeito, que ela havia sido reduzida a quase nada em maio de 68. Esta primavera obteve também, sem precisamente mostrá-lo no ataque, um belo céu, porque alguns carros queimaram e a todos os outros faltava gasolina para poluir. Quando “chove” , quando existem falsas nuvens sobre Paris, não esqueçam jamais de que é culpa do governo. A produção industrial alienada faz a chuva. A revolução faz o tempo bom.

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