Robert Kurz “O  colapso da modernização ” – 15 anos depois 

Interessante e oportuna entrevista do teórico da Critica do Valor , o alemão Robert Kurz , à Revista Reportagem , em 2004 , onde ele, além de nos falar um pouco da sua trajetória político-teórica e dos elementos centrais do livro que tinha publicado , ” O Colapso da Modernização  , nos descreve a origem da cisão da Revista Krissis que motivou o nascimento da nova revista teórica : a Revista Exit .

Arlindenor Pedro 

Entrevista à Revista “Reportagem”, São Paulo, Outubro de 200

Quando caiu o muro de Berlim em 1989, tu pertencias há anos a um grupo que elaborava uma teoria crítica radical. Pouco depois surgiu o teu livro “O Colapso da Modernização”. Em que contexto social foi por vós elaborada a crítica do valor na moderna sociedade produtora de mercadorias?

O nosso ponto de partida não foi académico. Éramos todos activistas de movimentos sociais de esquerda. No início da década de 1980, tínhamos a impressão de que as ideias da chamada “nova esquerda” estavam esgotadas desde 1968. Existia no grupo um ímpeto de reelaborar criticamente a própria história. Não queríamos participar mais no que víamos como uma espécie de “ciclo maníaco-depressivo” das campanhas políticas. Achávamos que a teoria não devia continuar imediatamente ligada à prática política, devia perder o seu carácter “legitimatório” e ser levada a sério na sua autonomia. Isso significava um distanciamento da esquerda política.

A “nova esquerda”, apesar de toda a crítica ao estalinismo, não questionara sistematicamente o carácter socialista e pós-capitalista da União Soviética. Os poucos teóricos que falaram em “capitalismo de Estado”, por exemplo, orientaram-se em geral pelo maoísmo chinês e não foram além de uma teoria sociológica de curto alcance sobre o “poder da burocracia”. Uma análise mais profunda constatava que o verdadeiro problema do chamado “socialismo real” era outro: as ordens sociais que resultaram da Revolução Russa e dos movimentos de libertação anticolonial continuaróam sendo “modos de produção baseados no valor” (Marx). A forma social do moderno sistema produtor de mercadorias não pôde ser suplantada. Todas as categorias do capital foram mantidas, devendo apenas ser moderadas e controladas político-estatalmente na forma nacional. As pessoas foram subordinadas ao sistema do “trabalho abstracto” (Marx) do mesmo modo que no Ocidente. Não ocorreu uma transformação no sentido de “além do capitalismo”, mas sim uma mudança para dentro do capitalismo. Isso correspondia à situação histórica real dos países do Leste e do Sul. Essas sociedades não tinham chegado ao limite do desenvolvimento capitalista, pelo contrário, claudicavam em busca desse desenvolvimento na periferia do mercado mundial. Assim, as revoluções do Leste e do Sul, apesar da sua nomenclatura anticapitalista e marxista, foram na realidade revoluções burguesas de países historicamente atrasados, delas surgindo regimes de modernização atrasada. No fundo repetiram-se com outras roupagens ideológicas os fenómenos que já tinham caracterizado a proto-história absolutista e burguesa-revolucionária do capitalismo do século XVI ao século XIX.

 As últimas décadas do século XX trouxeram, por um lado, uma crise qualitativamente nova que abriu espaço para a crítica do reformismo tradicional e do neoliberalismo. Num primeiro momento esta levou antes de mais à crítica do “trabalho abstracto”, como categoria central da reprodução do moderno sistema produtor de mercadorias, pois a crise era a expressão dum “limite interno” em que a sociedade do trabalho esbarrava. Por outro lado, depois da ressaca do marxismo estruturalista e do triunfo do pensamento pós-moderno na universidade, qualquer análise ligada a Marx era acusada de economicista. Nestes termos como é que vocês pegaram criticamente nas categorias económicas do marxismo tradicional, e em que medida é que a vossa nova teoria da crise se distingue dessa análise?

A nova interpretação da história da modernização no século XX trouxe o problema de como era possível em geral proceder “ao arrepio” do marxismo. Porque há que exigir sempre às inovações da teoria social que sejam capazes de explicar-se a si mesmas. Inicia-se aqui uma nova teoria da crise: até então, a teoria marxista tinha analisado as crises como interrupções passageiras da acumulação capitalista, isto é, como crises conjunturais ou rupturas estruturais na transição para um novo modelo de acumulação. A teoria da crise, assim como a ideia e a praxis do socialismo político-estatal, ficou presa ao horizonte do trabalho abstracto e às formas sociais do sistema produtor de mercadorias. Não se considerou possível um limite interno absoluto da acumulação ou, nas poucas excepções que houve (como no caso de Henryk Grossmann), não se relacionou esse limite com o “trabalho abstracto”, enquanto “substância do capital” (Marx). A nossa nova teoria da crise, pelo contrário, esboçou a tese de que a “dessubstancialização” do capital levada a cabo pela terceira revolução industrial da microelectrónica representa um limite interno absoluto do processo de acumulação. Pela primeira vez na história capitalista, realiza-se uma racionalização que torna dispensável a força de trabalho de modo mais rápido (e em volume maior) do que a ampliação dos mercados possibilitada pelo barateamento dos produtos. Assim se esvai o mecanismo de compensação das crises vigente até então. O capital foge da acumulação real para o “capital fictício” (Marx) em bolhas financeiras que em última instância têm que estourar, não apenas conjunturalmente, mas estruturalmente. Na medida em que se demonstra, nesta crise qualitativamente nova, o limite histórico da acumulação do “modo de produção baseado no valor” (Marx) torna-se obsoleto o sistema produtor de mercadorias, o “trabalho abstracto” e, com eles, a ontologia marxista do trabalho.

Assim, a própria posição histórica da nova e mais fundamental crítica do capitalismo foi determinada a partir da teoria da crise. Mas só n’ “O Colapso da Modernização” puderam ser articuladas sistematicamente essa nova teoria da crise e uma crítica conceptual do socialismo baseado no “trabalho abstracto” e na produção de mercadorias. A crise das formas básicas comuns do sistema produtor de mercadorias tornou-se manifesta primeiramente entre os retardatários históricos, avançando em seguida até os centros do capital ocidental. O fim da “modernização atrasada” é o início do fim da modernidade e de seu “trabalho abstracto”, ou seja, também o fim da política, como forma de regulação, e o fim da nação, como espaço relacional do sistema produtor de mercadorias, como comprova na prática o processo da globalização. Todas as interpretações que pretendiam compreender a queda da União Soviética e o fim do socialismo como “vitória” do capitalismo ocidental se tornaram sem sentido. Coloca-se para o século XXI a tarefa de formular uma nova crítica social radical, isto é, transformar a crítica ao “trabalho abstracto”, à forma do valor, à produção de mercadorias, à regulação política e à limitação nacional numa crítica e suplantação conscientes desta conexão formal da sociedade moderna.

 Assim, trata-se de uma teoria que já não se refere exclusivamente à categoria do trabalho. Pelo contrário, torna-se claro como perante a crise tanto as formas de pensar como a praxis, sejam elas de índole social, económica ou política, se agarram à ontologia moderna sem dar-se conta da potência da negatividade que se expressa nesta crise. No Brasil, por exemplo, nas primeiras discussões de “O Colapso da Modernização” surgiram expressões como “diabruras metafísicas”, “passo em falso” e “catastrofismo”. Que impacto teve a tua análise na chamada “opinião pública” em geral e como foi a recepção na esquerda tradicional em particular?

O surgimento destas novas análise e crítica causou espanto na medida em que se opunham completamente às opiniões então dominantes. Por outro lado, intelectuais lúcidos como Hans Magnus Enzensberger, na Alemanha, e Roberto Schwarz, no Brasil, consideraram que a nova teoria crítica merecia ser dada a conhecer a um público mais vasto. Sem essa avaliação o livro não teria sido editado, nem sequer traduzido. A recepção no grande público e na esquerda foi muito dividida. Para uns, ele era uma explicação coerente do colapso oriental e da crise ocidental, consideradas em conjunto; particularmente para muitos intelectuais da Alemanha Oriental, que tinham caído em depressão depois da reunificação alemã, a explicação pareceu uma espécie de salvadora luz ao fundo do túnel, pois oferecia-lhes a possibilidade teórica de digerir o fim do “seu” socialismo sem uma aceitação incondicional do capitalismo ocidental. Para outros, esta nova teoria e interpretação da realidade da sociedade mundial era completamente desacertada, “esotérica” e mais ou menos “amalucada”; especialmente a teoria radical da crise foi denunciada como quase “apocalipse”.

Estranho foi que tanto a recepção positiva como a negativa de “O Colapso da Modernização” se restringiram quase exclusivamente ao plano analítico, enquanto os fundamentos teóricos, a crítica do “trabalho abstracto” e da forma da mercadoria, não foram reconhecidos ou foram vistos como uma espécie de “OVNI teórico”. Revelou-se com uma clareza surpreendente quão profundamente a consciência teórica é posta sob a égide da imanência das formas sociais modernas por todo o espectro de posições filosóficas e político-económicas. Neste sentido, a recepção negativa, com a denúncia raivosa do carácter “esotérico” e “apocalíptico” das análises, foi mais longe na compreensão da sua novidade teórica, pois adivinhou que ali era radicalmente questionada a ontologia da modernidade. Isto depressa começou a ficar claro também para parte da esquerda que, de início, aprovara a análise. A inteligentsia alemã oriental, em particular, tornou-se visivelmente mais reservada quando as críticas à ontologia marxista do trabalho, à forma política e à nação se revelaram parte integrante da nova formulação teórica. Na Alemanha, o marxismo tradicional tentou diversas vezes colocar-se contra a nova abordagem da “crítica do valor” (é este o termo que costuma ser usado para a nova teoria crítica), vivenciando-a como uma destruição da própria identidade.

Também parte do público burguês que, a princípio, registara a nova abordagem como um “Jogo de contas de vidro” intelectual [referência ao livro homónimo do escritor alemão Herman Hesse], tornou-se fechada e resistente com o avanço e a efectiva manifestação da crise nos centros ocidentais. Por outro lado, cada vez mais reformadores do mundo, charlatães e sectários de todo tipo tentaram colar-se a esta nova teoria; desde os “reformadores do dinheiro”, na linha de Silvio Gesell, até nacionalistas de direita, antimodernistas reaccionários, que (e à semelhança de muitos marxistas tradicionais) se queixavam da crítica à nação, como se esta não fosse parte indispensável da crítica à ontologia moderna.

Até hoje, nunca uma nova teoria se tornou socialmente operante senão passando pelo endurecimento da consciência dominante, com a defesa veemente de velhas posições tornadas obsoletas pela crítica social, através de recepções parcialmente ecléticas e obscuras, ou mesmo de incompreensões grosseiras. Quando se rompe o pequeno círculo de especialistas, tais fenómenos são inevitáveis. Por isso, a ressonância contraditória do livro serviu como incentivo para o desenvolvimento e concretização da nova teoria num espaço social maior. Para tanto, já existia um número suficiente de mediadores, tradutores e colaboradores intelectuais independentes que agarraram a nova formulação. Formaram-se círculos de discussão da crítica do valor não só na Alemanha e na Áustria, mas também no Brasil, na Itália, em França, Espanha e Portugal.

 Com o desenvolvimento das vossas reflexões foram integrados novos conteúdos na teoria crítica. Esclareceu-se mais quanto a ontologia moderna, apesar da crise, continuava a influenciar na mesma os diversos aspectos do pensamento e da compreensão. Que elementos novos se integraram na teoria crítica e como continuou a ser desenvolvida a crítica do valor?

Inicialmente, a nova teoria concentrou-se no desenvolvimento da crítica da economia política. A teoria da crise e a crítica do sistema produtor de mercadorias, incluindo as formas da política e da nação, eram de facto assuntos novos, mas o pensar desses conteúdos movia-se ainda no espaço do entendimento tradicional da teoria. O carácter abstracto-universalista de toda a elaboracão teórica no mundo moderno, como momento da sua ontologia, permaneceu por reflectir, tal como o conceito de sujeito e a moderna relação entre sexos a ele ligada. A nova abordagem seguia o procedimento “lógico-dedutivo”, de acordo o padrão da filosofia hegeliana, no qual a relação entre essência e aparência se deve resolver como uma equação matemática. Este pensar abstracto-universalista de todas as teorias modernas, que tem as suas raízes na filosofia do Iluminismo, ligava-se a algo irreflectido, permanente na metafísica iluminista da história: tínhamos questionado o futuro do moderno sistema produtor de mercadorias, tendo por base a teoria da crise, mas não questionáramos o seu passado, na medida em que o mesmo era compreendido sem mais como “progresso”, acima dos supostos obscurantismo, naturismo e animalidade do mundo agrário pré-moderno. Seguindo os passos de Marx, a teoria da crítica do valor tinha tematizado de modo inovador o fetichismo de uma modernidade aparentemente racional. Mas, também a exemplo de Marx, analisara essa descoberta tendo por base ainda a filosofia da história ideológica desta falsa racionalidade.

Este modus da teoria não foi rompido de dentro, mas de fora, graças a uma intervenção “feminina”. Não por acaso, ao enfoque teórico abstracto-universalista correspondia uma estrutura de associação masculina no grupo central de elaboração teórica da crítica do valor, em que não havia mulheres. Roswitha Scholz, vinda teoria feminista, criticava desde o início da década de 1990 a compreensão hegeliana e universalista da crítica do valor, caracterizando-a como androcêntrica. Com a complexa teoria da dissociação, ela tentou romper a hermética lógica dedutiva aparentemente coerente desse entendimento.

 O ensaio de Roswitha Scholz, “O Valor é o Homem”, publicado no Brasil na revista Novos Estudos Cebrap em 1996, por recomendação de Roberto Schwarz, fundamental para a elaboração da teoria da dissociação, passou aqui surpreendentemente quase de todo despercebido. Gostaríamos que falasses sobre o conceito de dissociação: qual o seu estatuto teórico em relação à crítica da forma da mercadoria e que significado tem a dissociação para a crítica do valor e para a crítica do sujeito?

A dissociação significa, segundo o seu teorema, que a estrutura do valor (da forma da mercadoria), enquanto forma fundamental do processo de valorização, pretendia abarcar a totalidade, mas na realidade grande parte dessa reprodução social, tanto no aspecto material (“trabalho doméstico”, assistência, educação dos filhos, etc.) como na perspectiva socio-psicológica e cultural-simbólica (“amor”, empatia, doação, etc.) não podia ser abarcada pelas formas do valor e do “trabalho abstracto”. Esses momentos foram dissociados da sociabilidade oficial e imputados histórica e socialmente às mulheres. Para usar um termo do debate feminista, as mulheres são “duplamente socializadas”: por um lado, elas pertencem (via actividade profissional, forma dinheiro, etc.) à conexão formal oficial, e, por outro, elas são estruturalmente responsáveis por todos os momentos da vida que não cabem naquela. Como estes momentos não pertencem ao “trabalho abstracto” nem à forma do valor / forma do dinheiro, eles são considerados inferiores do ponto de vista da forma social dominante; também o estatuto das mulheres é estruturalmente inferior no moderno sistema produtor de mercadorias. Em regra, elas são pior remuneradas, assumem menos posições de liderança que os homens, são consideradas “irracionais”, com menos capacidade de se impor e, muitas vezes, como meros apêndices dos homens. O dissociado não é uma “área” separada, rigorosamente delimitável, mas perpassa todas as esferas da sociedade. Se é verdade que no processo de desenvolvimento capitalista determinadas partes dissociadas foram integradas no universo oficial da forma da mercadoria, através da comercialização ou da estatização, também é verdade que várias relações e dimensões da vida não podem ser abarcadas pelo dinheiro nem pelo Estado, e que, em tempos de crise, muitos momentos necessários à vida são expulsos da lógica da forma da mercadoria e re-delegados na relação de dissociação conotada como feminina. A relação de valor não pode ser pensada sem uma simultânea relação de dissociação; por isso, os conceitos de ambos os lados da sociedade moderna encontram-se num mesmo alto nível de abstracção teórica e formam, em conjunto, como relação de valor-dissociação, o conceito essencial (e contraditório) da modernidade.

À luz da teoria da dissociação, o universo aparentemente neutro do “trabalho abstracto” e da forma da mercadoria revela-se estruturalmente determinado como “masculino”. A ilusão óptica de um universalismo abstracto é gerada ao limitar-se a reflexão à esfera da circulação, onde aparentemente todos os gatos são pardos. Não limitando a análise à superfície da circulação (a assim chamada “abstracção da troca”), torna-se visível que a relação de dissociação engloba todo o processo de reprodução social. À escala global também caem fora do falso universalismo grandes parcelas da humanidade não-ocidental. O sujeito aparentemente neutro da modernidade é, na verdade, o sujeito masculino e branco ocidental (abreviado: MBO).

De igual modo, a elaboração teórica da modernidade abstractamente universalista e seguindo a lógica da dedução relaciona-se na realidade desde o Iluminismo, apenas com a estrutura interna da forma da mercadoria, determinada de modo masculino e branco ocidental. O dissociado é reprimido e não tem conceito. A teoria da dissociação parte aqui da crítica de Adorno ao conceito moderno de teoria. O conceito não funciona como uma equação, há que reflectir nele na sua fragmentação. A crítica do valor, da mercadoria e do “trabalho abstracto” precisa de ser alargada à crítica da dissociação. Nesse sentido, o dissociado não é, por exemplo, a “metade melhor”, ou o que não tem a forma valor entendido positivamente, mas apenas o reverso negativo da mesma medalha. A suplantação emancipatória do moderno sistema produtor de mercadorias inclui a suplantação da relação de dissociação, na qual as mulheres (e também a humanidade não-ocidental) são colocadas como inferiores. Não se trata de revalorizar ideologicamente esta inferiorização mas de aboli-la juntamente com a relação de valor.

Mas esta abordagem não foi aceite em uníssono e sem contestação pela totalidade do grupo Krisis…

A teoria da dissociação, no contexto da crítica do valor, que até então era uma elaboração teórica androcêntrica-universalista estruturada á maneira de associação masculina, só foi levada em consideração depois de grandes resistências e não foi integrada de forma generalizada. Mas ela estava na base do texto “Dominação sem Sujeito” (1993) no qual, pela primeira vez, a crise e a crítica do sistema produtor de mercadorias foi definida também teoricamente como crise e crítica do sujeito moderno e do seu conceito positivo; e isto sem ter nada a ver com os pouco entusiasmantes intentos pós-modernos, que não tinham nenhum conceito de “trabalho abstracto” nem de forma da mercadoria. Essa abordagem foi ampliada e ganhou base empírica no “Livro Negro do Capitalismo” (1999), uma grande análise histórica feita para fundamentar a crítica do Iluminismo e da sua filosofia da história. Pela primeira vez no contexto da elaboração teórica da crítica do valor, o moderno sistema produtor de mercadorias já não aparecia como “progresso”, mesmo em relação ao passado. Esta crítica, ao mesmo tempo, distanciava-se enfaticamente de qualquer romantização das sociedades agrárias pré-modernas. Não se tratava de uma evocação reaccionária de condições passadas, mas de uma crítica radical do pensamento ontológico. A teoria da crise foi ampliada a fim de abranger a crise do sujeito masculino e branco ocidental (MBO), levando, de uma crítica até aí meramente implícita e reduzida à economia política, a uma crítica explícita da ontologia moderna e da ontologia das relações de fetiche em geral. Mas este alargamento ficou no essencial limitado à reflexão teórica de determinadas pessoas e trabalhos individuais, não sendo assumido em todo o âmbito e por todos os participantes da originária elaboração teórica da crítica do valor, sem que a dissensão em preparação surgisse abertamente.

 Que papel desempenhou nesse momento de híbrido estado ambíguo de “integração não integrada” da teoria da dissociação a publicação do “Manifesto Contra o Trabalho” na sedimentação da relação na Krisis ou na eventual assunção interna de diferentes perspectivas individuais?

Durante a coexistência de posições encobertamente já em oposição, a crítica do “trabalho abstracto” também foi formulada num projecto conjunto, agora num patamar já não puramente teórico. O debate social sobre a “crise da sociedade do trabalho”, as medidas socialmente repressivas da administração capitalista da crise e os primeiros indicadores de um novo movimento social sugeriram a divulgação da “dica secreta” teórica da crítica do valor para um público maior. O resultado dessas reflexões foi o “Manifesto Contra o Trabalho” (1999) que em pouco tempo causou sensação, teve grandes tiragens e foi traduzido em várias línguas – um sucesso que surpreendeu os próprios autores. Foi um balão de ensaio e, aparentemente, tocou num nervo exposto da sociedade em crise, expressando o que em geral era sentido mas não tinha voz.

A elaboração do Manifesto não ocorreu, porém, sem conflitos. Não era apenas a forma estilística não habitual, que obrigou a diversas reformulações. Não por acaso o ponto sobre a relação de entre sexos só foi acrescentado posteriormente. Houve divergência principalmente a respeito das expectativas em torno da função do Manifesto. Para uns, tratava-se de uma realização pontual, na qual a crítica do valor e da dissociação recebia uma formulação literária capaz de apresentá-la a um público mais amplo, além de estimular a reflexão teórica de activistas que se viam às voltas com os problemas da crise da sociedade do trabalho; para estes, o processo de elaboração teórica deveria continuar se interrupção, sem se preocupar com as chamadas exigências práticas. Para outros, pelo contrário, o Manifesto significava já o ponto culminante e de viragem para a praxis social: com o Manifesto queriam chegar a uma reorientação fundamental da actividade da crítica do valor, centrando-se na crítica do trabalho e integrando-se assim directamente nos novos movimentos sociais com carácter “anti-político” e jornalístico.

 No teu livro “O Colapso da Modernização”, publicado em 1991, antecipas-te ao atentado do 11 de Setembro uns 10 anos quando escreves que o fundamentalismo e a “ideologia secundária islâmica” geram “… empresas kamikaze e de comandos”. Depois do 11 de Setembro há que constatar uma acentuação de aspectos conservadores na esquerda europeia que provavelmente também acentuou os conflitos internos da redacção da Krisis. Como se desenrolaram estes conflitos e que papel tiveram naquele momento a crítica da dissociação e a crítica do sujeito?

Mesmo na escala mais reduzida as contradições internas são aceleradas por grandes “acontecimentos históricos” exteriores. O terror do 11 de Setembro de 2001 em Nova York estremeceu os centros ocidentais até à medula num sentido social-psicológico. Nas grandes zonas de crise e de colapso da periferia, o 11 de Setembro não se percebeu com a mesma intensidade, talvez porque aí há muito que a barbárie se converteu no pão de cada dia. Para os EUA e a Europa Ocidental, pelo contrário, os ataques terroristas foram um choque e um fanal, mostrando que o actual modo de vida está chegando ao fim e que a voragem da crise também começa a alcançar com incalculável violência a sua vida quotidiana. Esta percepção simbólica a todos os níveis sociais desencadeou muitos conflitos soterrados ou reprimidos, tanto em correntes políticas e grupos teóricos como nas relações pessoais. A esquerda polarizou-se como não se via há décadas. Perante as ameaças obscuras a inteligentsia descobriu de repente os “valores ocidentais” e parte da esquerda evocou a suposta “promessa burguesa de felicidade” que haveria que defender contra a “barbárie do Terceiro Mundo”. A metafísica iluminista da história irrompeu como um flato mental.

Até então a nova formulação teórica da crítica do valor e da crítica da dissociação tinha-se concentrado na revista “Krisis”que se tornara conhecida internacionalmente. O agitado clima ideológico e socio-psicológico pós-11 de Setembro, no entanto, fez vir à baila as contradições internas do grupo. A teoria da dissociação, em sua definição sociológica de géneros e cultural-simbólica, não tinha sido adoptada por todos os membros de igual modo, mas sim apenas cortejada e tolerada por alguns. Era sobretudo inaceitável para os homens da teoria, há muito rodados, que os conceitos de forma do valor e de dissociação ficassem ao mesmo nível de abstracção e tivessem a mesma importância. Se a temática da dissociação era assumida, aparecia em diferentes graus como um “sector” subordinado à “verdadeira” totalidade do sistema produtor de mercadorias, em vez de se conceber a própria dissociação como categoria da totalidade (junto com a forma do valor ou da mercadoria) dentro do que era uma aproximação nova, fragmentada, longe do antigo entendimento hegeliano. Nos textos em causa, a relação de dissociação é até hoje em geral apreendida como um “fenómeno” histórico-empírico e como uma “esfera” supostamente delimitável e subordinada (em vez de um momento do conceito de essência) e assim teoricamente reduzida. Deste modo também a crítica do sujeito, da forma de sujeito masculino e branco ocidental (MBO), fica igualmente reduzida. Aberta ou encapotadamente pensa-se que é “necessário” levar determinados elementos desse sujeito para uma futura sociedade emancipada. Deste modo não se critica consequentemente a ontologia moderna, mantêm-se ainda restos da metafísica iluminista da história. Esta perspectiva, tal como no caso de Adorno, está estreitamente ligada a um conceito difuso de “abstracção da troca”, em que o “trabalho abstracto”, tal como a dissociação, aparecem como os resultantes desta mesma “abstracção da troca”. Ou seja: não são o “trabalho abstracto” e a dissociação que representam as categorias essenciais e abrangentes, mas a circulação aparentemente “neutral”. Ora é um conceito equivocado de circulação, como suposta essência e conexão abrangente da sociedade, que constitui a fonte principal de toda a ideologia iluminista burguesa.

A crítica à reacção ocidental perante o mega-terror e às guerras de ordenamento mundial no Afeganistão e no Iraque, à partida formulada em comum, era apenas superficial; não obstante, nos estratos mais profundos da elaboração teórica já se tinha formado outro entendimento completamente contrário no que se refere à crítica do sujeito, do Iluminismo e da ontologia moderna, que emergiu na atmosfera envenenada do pós-11 de Setembro de forma eruptiva. Quando na Primavera de 2002 se iam publicar, com o título “Razão Sangrenta”, umas teses teoricamente fundamentadas na dissociação e agudamente polémicas a respeito da crítica do Iluminismo e do seu revivalismo ideológico actual nas correntes principais da inteligentsia ocidental, pela primeira vez na história da elaboração da teoria crítica se tentou impedir com expedientes formais a publicação de um texto de um autor central. Em consequência, no início de 2002, o núcleo inicial dividiu-se em dois grupos que, por algum tempo, agiram sob o tecto comum da revista. Esta cisão também foi devida a rupturas pessoais e a fortes motivações concorrenciais e de auto-afirmação pessoal por parte daqueles que, em vários aspectos, ainda que não de forma consistente e homogénea, tinham ficado fixados no antigo modus androcêntrico e universalista de elaboração teórica. À medida que as mulheres entraram no círculo interno alguns homens retiraram-se. Finalmente, em Fevereiro de 2004 os “modelos descontinuados” tomaram para si num golpe de mão a “marca Krisis”, instrumentalizando no plano formal a associação de apoiantes à maneira da política do poder e dos partidos e expulsando a maioria da antiga redacção (incluindo todas as mulheres).

Mas com esta “tomada do poder” puramente formal evidentemente que não se podia recuperar o anterior nível teórico. Agora é a maioria da antiga redacção e novos participantes quem prossegue a elaboração teórica da crítica do valor e da crítica da dissociação na revista teórica “EXIT!”; em redor desta constituiu-se também um novo contexto organizativo. O grupo usurpatório do que resta da “Krisis”, pelo contrário, não tardou em virar-se para transformar a crítica do valor, mantida num “nível de acesso” teórico tornado obsoleto, numa simplificação jornalística e de “praxis” propagandística, ao nível do que já se anunciava desde a publicação do “Manifesto contra o Trabalho”. Actuando dessa maneira, abandonam em grande parte a dimensão da crítica da ideologia para, quase à maneira da esquerda tradicional, ganhar influência nos novos movimentos sociais com menos problemas. A “EXIT!”, pelo contrário, recusa qualquer oportunismo activista e qualquer minimização dos problemas duma crítica truncada do capitalismo; em vez disso põe o acento em intervir com uma crítica da ideologia relativamente aos movimentos sociais e aos projectos que vão brotando, sem os negar como tais.

 A vossa expulsão da redacção de “Krisis”, segundo as tuas palavras devida a divergências prático-teóricas quanto à teoria da dissociação e à crítica do Iluminismo, também pode ser analisada num contexto mais amplo do desenvolvimento da crise da sociedade produtora de mercadorias que se está agravando?

A cisão da ex-“Krisis” situou-se inequivocamente num quadro de agravamento da crise nos centros ocidentais. Já não se trata simplesmente de emitir opiniões e reflexões teóricas “interessantes” no papel de espectador, mas de encarar a existência nua e crua sob as condições da situação de colapso. A precarização atinge também as esferas intelectual, académica, jornalística-mediática e das infraestruras estatais. Depois dos “produtores imediatos” agrários e industriais, também a “nova classe média” está a ser precipitada no turbilhão da crise mundial desencadeada pela terceira revolução industrial. Verifica-se na prática que todos estes sectores não têm uma base económica independente na estrutura da acumulação capitalista, mas dependem da redistribuição da mais-valia proveniente do centro industrial. Essa dependência estrutural, que ficara temporariamente invisível devido à conjuntura de bolhas financeiras, faz-se notar agora de maneira violenta. Deste modo, o conjunto do sistema de ensino e de investigação, bem como dos media, está a ser reorganizado e fundido de maneira negativa, segundo o padrão da crise industrial.

Como já há muito tempo acontece nas camadas inferiores, agora também na que foi a “nova classe média” se faz sentir a fragmentação da não suplantada relação de dissociação conotada sexualmente, numa espécie de “transformação do homem em dona de casa” (“Hausfrauisierung des Mannes”, um termo da teoria feminista alemã dos anos 80). Mas também as “mulheres com carreira profissional” e que avançaram na esfera pública (sobretudo no sector académico), definida estruturalmente como “masculina”, se vêm agora expostas às circunstâncias provocadas pela crise. Sobre a base do sistema produtor de mercadorias, a concorrência e a luta pela sobrevivência abrem as comportas do ódio, mesmo nos grupos de elaboração teórica emancipatória radical. Mas a maioria dos que cortam as suas ligações para poder triunfar na sociedade no último momento e aproveitar a ocasião para fazer carreira, na realidade entram em barcos que já se estão a afundar.

No clima social dum optimismo assustado e sob forte pressão, aqui no Brasil, incluindo em parte da esquerda depois da eleição de Lula a presidente, a China tem sido citada com frequência como exemplo de um possível “futuro promissor” do capitalismo ou de supostas “potencialidades de desenvolvimento”. Como avalias essas perspectivas?

Quando a crise estrutural interna chega a um beco sem saída, o “pensamento positivo” agarra-se a sinais externos de uma nova era de acumulação. Depois do Japão e dos “pequenos tigres” asiáticos, agora é invocada a China como a nova portadora do crescimento global e como modelo. Mas essa esperança é tão enganadora como as anteriores. As altas taxas de crescimento chinesas devem-se apenas ao baixo nível de partida. Assim que for alcançado um nível de crescimento intensivo, que depende de enormes investimentos em infra-estruturas e em microeletrónica, as taxas de crescimento cairão à mesma velocidade que no caso dos antigos portadores da esperança. Sem esquecer que o crescimento chinês baseia-se numa industrialização unilateral, que passará ao largo da grande massa da população, detonando a base da reprodução social. Mas mesmo a industrialização minoritária para exportação direcciona-se quase exclusivamente para os EUA, dependendo das estruturas globais de deficit concentradas na última potência mundial. A crise chinesa será mais calamitosa que todas as anteriores.

O limite interno do sistema produtor de mercadorias global é geral, mas incide em situações completamente diferentes de desenvolvimento deste sistema. Em virtude disso cria-se reiteradamente, em especial na periferia, a ilusão de que é possível alcançar um patamar de desenvolvimento que há muito se tornou obsoleto mesmo no Ocidente. Não foi só a “modernização atrasada” que deu com os burros na água – a crise da modernização atinge os países capitalistas centrais e os retardatários já não podem orientar-se por eles. A antiga “não simultaneidade” de desenvolvimento foi nivelada, não positiva, mas negativamente. A nova “simultaneidade” global da crise exige uma nova perspectiva, capaz de mirar, a partir de pontos de partida diferentes, um novo modo de socialização para além da forma do valor e da dissociação. A humanidade não está preparada para isso, mas não tem outra escolha.

Como ficou claro no decurso da nossa conversa, evidentemente que é necessário tomar uma posição teórica que seja nitidamente diferenciada. Encontramo-nos numa crise social e categorial que deixa todos os conceitos relativos à reprodução da modernidade tão obsoletos que não se pode estabelecer uma teoria coerente com novas categorias positivas. Por isso é necessário partir da negatividade. Que significa isso para os diversos movimentos sociais que tomam a sério uma perspectiva de emancipação da sociedade moderna produtora de mercadorias quando a crise se vai agudizando continuamente?

Para a teoria, é importante não perder a cabeça e resistir às contradições, em vez de se entregar a uma realidade falsificada com receitas baratas. No quotidiano dos grupos teóricos é preciso solidariedade e ajuda mútua, sem grandiloquência, mas isso não se deve confundir com a ideologização de um conceito difuso de “vida quotidiana”, com carga pseudo-emancipatória. A suplantação emancipatória do moderno sistema produtor de mercadorias e da respectiva dissociação exige uma intervenção social de alto nível, e uma elaboração da teoria crítica só pode contribuir para isso se se mantiver à distância dos acontecimentos e não ceder à pressão de uma exigência de prática de falsa imediatidade.


Tradução do original DER “KOLLAPS DER MODERNISIERUNG” – 15 JAHRE SPÄTER in www.exit-online.org
O texto publicado em Novembro de 2004 no nº 64 da Revista “Reportagem” de S. Paulo, com o título NOVOS E VELHOS COMBATES, pode ser lido visualizando as páginas da revista em PDF aqui e em español .
http://obeco.planetaclix.pt/
http://www.exit-online.org/

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