memórias de tempos vividos! superando o que-já-se-efetivou com a Esperança do que-ainda-não-veio-a-ser ( reflexões ao estilo Ernesth Bloch)

A verdade do Torturador

Banalidade do mal é uma expressão criada por Hannah Arendt, teórica política alemã, de origem judaica , falecida em 1975, em seu livro Eichmann em Jerusalém, cujo subtítulo é “um relato sobre a banalidade do mal”.

Arendt, morando nos Estados Unidos, após a derrota do regime nazista, cobriu o processo de Eichmann, que havia sido sequestrado pelas forças de segurança de Israel em 1960 na Argentina ( para onde tinha fugido após o final da guerra ), numa série de cinco artigos para a revista The New Yorker.

Transformado- os em um livro, que publicou em 1963, obteve um grande sucesso devido ao tema que pôs em destaque : a banalidade de atitudes eminentemente desumanas, como por exemplo, o holocausto do povo judeu efetuado pelo Estado Nazista .

Segundo o seu relato nos artigos , para surpresa de muitos, e a oposição das autoridades judaicas durante o processo, em vez do monstro sanguinário que todos esperavam, viu emergir a figura de um mero funcionário, um simples burocrata, que diz para os que o julgam que tudo o que fez foi para cumprir a lei, a ordem estabelecida pelo regime nazista .

Numa mescla brilhante de jornalismo político e reflexão filosófica, Arendt nos mostra , através das ações de Eichmann , a capacidade que tem o Estado de igualar o exercício da violência homicida ao mero cumprimento da atividade burocrática.E é justamente aí que descobre a banalidade do mal , que se repete em qualquer Estado , que funciona como opressor dos homens .

Diariamente vemos a prova disto , imersos nas nossas obrigações de cidadãos , tornado-nos cada vez mais insensíveis num mundo onde a banalidade do mal se faz presente com uma crescente intensidade , na nossa ânsia pela sobrevivência .

Mesmo que olhemos com horror as tropas fanáticas de fundamentalistas muçulmanos a cortar cabeças de seus inimigos , no outro lado do mundo , fechamos os olhos, aqui no nosso país , ao extermínio constante de pobres na periferia , por ser uma pratica cotidiana a ela ter-se tornado banal na nossa existência de relação com o Estado . Meramente, seguimos com nossas obrigações !

Creio que tal pensamento é recorrente quando assistimos ao depoimento prestado à Comissão Nacional da Verdade pelo Coronel do Exército Brasileiro Paulo Malhães , que atuou com destaque na repressão aos opositores da Ditadura Militar de 1964, e que trazemos em vídeo para vocês que nos acompanham neste blog .

Enganam-se aqueles que esperam , como esperava a opinião pública com Eichmann , encontrar um homem monstruoso , um ser disforme que não sabia o que estava fazendo . Pelo contrário , vão encontrar um ser inteligente , articulado, com família, filhos , que fez uma carreira brilhante no Exército .

Vocês verão que em diversos momentos do depoimento , perguntado pelo representante da Comissão se sentia algum arrependimento pelo que fez , ele repete sempre : não , apenas cumpri com o meu dever como membro do Exército ! Reparem : ele não se escudou no fato de cumprir ordens ! Ele achava que suas ações , os sequestros , as torturas , as mortes , faziam parte de um contexto – eram necessárias !

Desta forma, anula-se ai o homem, o ser livre , pretensamente dotado de livre arbítrio . Emerge então o burocrata , o ser que sustenta a máquina de um sistema impessoal , que vai além dele ,transformando-o em mero executor racional de um processo onde o que importa é a sua manutenção, sem qualquer contestação aos meios empregados.

Como Eichmann , Malhães se vê como um injustiçado : como condenar um funcionário público, honesto e obediente, cumpridor de metas, que não fizera mais do que agir conforme a ordem legal vigente na Alemanha daquela época? Na verdade , era isto o que o povo alemão esperava dele, dizia o funcionário nazista !

Como perseguir e criticar um oficial do Exército , graduado com as melhores notas em todos os curso , detentor de várias medalhas, que se posicionou contra os guerrilheiros que queriam dividir o país ? Ele apenas queria cumprir da melhor forma possível o seu papel de defensor da ordem estabelecida , nos diz candidamente o coronel , no vídeo da Comissão da Verdade !

No dia 24 de abril de 2014 o coronel reformado Paulo Malhães, torturador e assassino confesso, foi morto, asfixiado , em sua casa em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro , em um crime que até hoje não foi esclarecido . Ele vinha sofrendo ameaças, e o crime ocorreu logo após aos seus depoimentos, que foram estampados na midia .

Com ele se foram as respostas que a Comissão queria para trazer à tona a verdade dos dias sombrios da ditadura . Mas ficou este depoimento : um importante material de reflexão da transformação do homem em fera !

Serra da Mantiqueira, novembro de 2014
Arlindenor Pedro

Parte 1

Parte 2

One Response to “A verdade do Torturador”

  1. Vitor Hugo Piangers

    Triste episódio na vida de nosso País. Não era necessária tanta violência para conter os então “guerrilheiros”. Era apenas necessária cassar-lhes os direitos políticos e preservar-lhes o direito à vida. Se necessário fosse que ficassem presos mas jamais mortos. A pena de morte é prevista em nosso CPM em casos de traição à Pátria que tenha resultado em perdas insubstituíveis, Ora, os revoltosos apenas queriam ter seu espaço na esfera política e apesar dos crimes que cometeram o fizeram baseadas num princípio legal da quebra do poder constitucional. Erraram feio os militares da época, apesar de seus longos discursos justificativos.

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