Ainda o Livro de Kurz- Roberto Schwarz – o livro que estou lendo

Poderíamos dizer que o pensamento , as ideias , do alemão Robert Kurz ficaram mais conhecidas do público brasileiro a partir do artigo de Roberto Schwarz , publicado na Folha de São Paulo , que nos fala sobre a publicação, em 1991 , do livro “O Colapso da Modernização -da derrocada do socialismo de caserna a …” 
Embora o livro de Robert Kurz não tenha sido bem recebido pela chamada ” inteligência ” brasileira , tornou-se muito procurado pelos estudiosos da teoria marxista , fazendo com que o seu autor passasse a ser convidado para ciclos de palestras em várias Universidades , recebendo convite para contribuir com artigos no Jornal A Folha de São Paulo, levando -o a visitar o nosso país diversas vezes antes da sua morte repentina em 2012.

Este artigo de Roberto Schwarz, que teve o nome de ” Um Livro Audacioso “, publicado em 1992, chamava a atenção para peculiaridade das ideias de Kurz , a respeito do debacle do chamado socialismo real , que ocorreu na antiga União Soviética, e nos países do leste europeu , classificando- o como parte importante da crise da economia capitalista. Logo no seu início , assim nos fustigar o articulista :

“Como entender a derrocada dos países socialistas? Embora chegasse de surpresa, ela deu lugar a mais certezas do que duvidas, e pareceu de fácil compreensão. Segundo a voz geral trata-se: a) da vitória do capitalismo, e b) da refutação do prognóstico histórico de Marx; ou ainda, da derrota do estatismo pelas sociedades de mercado. Pois bem, para desmanchar a unanimidade acaba de sair na Alemanha um livro inteligente e incisiivo, de Robert Kurz, que arrisca uma leitura inesperada dos fatos. A mencionada débâcle representaria, nada menos e pelo contrário, o início da crise do próprio sistema capitalista, bem como a confirmação do argumento básico de O capital.”

Como, logo após a publicação do artigo criou-se uma intensa celeuma nos meios acadêmicos a propósito das ideias ali contidas , Schwarz , sentiu-se na obrigação de voltar ao tema, publicando um outro artista tigo , que divulgamos a seguir , que tem o nome de “Ainda o livro de Kurz,” onde procura aprofundar questões , que entende são importantes para a compreensão não só das características do desmoronamento do bloco soviético , bem como dos contornos da crise que assola a economia capitalista , mormente após 1988.

 No momento , estamos às voltas com um novo livro de Robert Kurz, um livro póstumo, que foi publicando a poucos meses pela Editora Antigona, de Portugal, com o nome de “Dinheiro sem valor , linhas gerais para uma transformação da crítica da economia política “, obra que sem dúvidas terá um intensa repercussão entre os marxistas , dada a profundidade dos temas trazidos pelo autor .

A leitura do artigo de Schwarz , acredito, trará importantes subsídios para a leitura deste novo livro de Kurz , pois ambos os temas ai tratados têm um interesse direto para aqueles que se preocupam com os caminhos a serem trilhados pelo Estado brasileiro nos próximos anos , temas esses, ligados às características do nosso desenvolvimento , que estiveram presentes nas propostas dos principais partidos que chegaram ao segundo turno das eleições de 2014 : o PT e o PSDB.
 

Arlindenor Pedro 

 

 

AINDA O LIVRO DE KURZ – Roberto Schwarz 

Respondendo a resenhas publicadas no no 36 de Novos Estudos, Roberto Schwarz procura apontar o interesse e a oportunidade do livro de Robert Kurz sobre O colapso da moderniza- ção (São Paulo: Paz e Terra, 1992).

O número passado de Novos Estudos publicou três apreciações arrasadoras de O colapso da modernização, escritas por L.C. Bresser Pereira, J.A. Giannotti e Francisco de Oliveira. Como o livro me havia impressionado vivamente, fiquei pensativo. Não sendo especialista, não vou discutir com os três críticos, que conhecem a matéria melhor do que eu. Mas tentarei indicar o que a meu ver empresta interesse àquele trabalho. O argumento de Kurz diante da derrocada do campo socialista é dos mais inesperados. Em lugar de entendê-la como o triunfo do capitalismo, vê nela um episódio da progressiva crise deste. A tese naturalmente pode não passar de outro exemplo de obnubilação esquerdista. Se o curso da exposição entretanto lhe conferir alguma verossimilhança, como penso que é o caso, fica difícil não lhe reconhecer a independência intelectual e o engenho consideráveis. No ponto de partida está o estrago que a globalização do mercado e as novas tecnologias causaram no mundo socialista, que em pouco tempo parou de funcionar. Esta observação, que é do domínio comum, costuma ser apresentada no quadro da comparação abstrata entre sistemas sociais, apontando a superioridade do capitalismo sobre o comunismo, da democracia sobre a ditadura, do mercado sobre o plano etc.

Kurz encara os fatos por outro lado, e nota que a quebra do socialismo se deu no terreno capitalista da rentabilidade e da concorrência, que portanto não lhe era estranho na prática. Esta sugestão, trazida pela crise, tem implicações retrospectivas. O Autor conclui que, a despeito das doutrinas e sem duvidar da convicção dos revolucionários da primeira hora, as sociedades socialistas foram, como não podiam deixar de ser, esforços gigantescos e tardios de industrialização nacional. Não haveria, com efeito, como escapar à produção de mercadorias e à disposição sobre trabalho abstrato, cujo ciclo nem de longe estava esgotado. Assim, a guerra entre comunismo e capitalismo não teria correspondido ao que as palavras de ordem indicavam, e tinha como substância efetiva a luta entre diferentes patamares de industrialização. O nexo interior entre economias avançadas e retardatárias, bem como a feição em parte monstruosa desenvolvida pelas últimas, se devem analisar no bojo de uma história geral do sistema de produção de mercadorias, de cuja lógica fazem parte. O aspecto relevante para esta perspectiva é a escalada implacável da produtividade a que a concorrência econômica obriga. Os requisitos em qualificação, organização, infra-estrutura, tecnologia e ciência se tornam cada vez maiores, ou, também, cada vez menos acessíveis aos recém- ingressados na corrida.

Para suprir o que lhes faltava na matéria, e ainda assim poderem competir, os países que aspiravam à industrialização apelaram para medidas excepcionais — a antítese da auto-regulação e da “naturalidade” do mercado. A disposição ditatorial sobre a força de trabalho e sobre os bens foi um modo de compensar o ponto de partida desvantajoso. Ou seja, a supressão ou o controle estatista da concorrência interna, assim como o protecionismo, que em grau maior ou menor desembocavam nalgo como uma economia de guerra, atendiam às dificuldades com a concorrência do exterior, que era o inescapável referencial. Isso posto, a disparada recente e extraordinária da produtividade do capital firmou um padrão novo, de custo proibitivo, que levou a débâcles sucessivas as industrializações protegidas do Terceiro Mundo e do socialis- mo. Seria, do ângulo doutrinário, a vitória definitiva do mercado e de seus mecanismos; do ângulo histórico, pelo contrário — segundo Kurz —, trata- se da inviabilização de imensos esforços de integração à modernidade, postos fora de combate pelos rigores da concorrência global, ou seja, pela própria lógica do sistema de produção de mercadorias, que passou à autodestruição. Impossíveis de generalizar, os avanços daquele padrão começam a ser inalcançáveis, a passar da conta para os próprios países ricos, onde o desemprego ligado à nova rentabilidade vai criando manchas terceiro-mundistas, agora a céu aberto. A modernização — termo que designa a utilização empresarial de trabalho abstrato — toca o seu limite e entra em colapso quando prospera até o ponto de perder a capacidade de absorver mão-de-obra e quando deixa de ser uma perspectiva praticável para fatias crescentes da atividade econômica mundial, derrubadas e expulsas pela competição, a que não têm como voltar. Ao contrário do que a ideologia afirma, o mercado não é a solução, mas o problema. Este encadeamento dos desastres será plausível? O recuo da industrialização latino-americana, a quebra da União Soviética, a desativação de regiões industriais inglesas e a miséria nas metrópoles norte-americanas serão mesmo passos de um só processo — para não dizer progresso — em curso? A este propósito, note-se que a ligação entre um ou outro desses momentos, em forma de observação solta, não constitui novidade. A semelhança entre as dificuldades da URSS e do Brasil, entre as cidades do Terceiro Mundo e os bairros pobres das capitais americanas é praticamente um lugar-comum de turistas atentos. Também as novas tendências exploradas no livro, tais como o curso devastador da concorrência globalizada, ou as implicações da nova tecnologia para o desemprego, ou o papel mudado da ciência na economia, são conhecidas de todo leitor de jornal. O engenho de Kurz consistiu em rearticular esta informação comum de modo desconcertante, muito cheio de implicações críticas. Em lugar dos méritos abstratos do mercado, vem à frente a sua especificação no tempo: um desenvolvimento longo, unificado e consistente no essencial, com forte verossimilhança, embora contradizendo a fundo a consciência de si que tiveram os últimos 150 anos. Se a obra fosse de ficção, o imprevisto e a evidência da solução mereceriam palmas, e a crítica materialista lhes sondaria a verdade histórica. Tratando-se de um diagnóstico do presente, é natural que haja menos desapego, e os especialistas dirão se as tendências são mesmo estas.

Em todo caso, o escândalo da construção está no equívoco sistemático e estarrecedor dos sujeitos sociais em luta, atados pelo processo que corre às suas costas; no ponto de fuga catastrófico, destoante num momento de triunfo liberal; e na velocidade crescente do movimento em direção da inviabilidade.

Contudo, bem ponderadas as coisas, estas linhas evolutivas serão mesmo tão estranhas ao que a história recente nos tem ensinado? O livro de Kurz procura adivinhar e construir o movimento do mundo contemporâneo, o qual trata de colocar em forma narrativa. Como no romance moderno, esta depende de operações intelectuais díspares, sem nada de épico em si mesmas, de que entretanto depende a força do andamento de conjunto. Assim, a exposição combina observações avulsas, glosas do bate-boca ideológico mundial, uma tese a contracorrente sobre a dinâmica geral da atualidade, revisões críticas de noções do establishment, à direita e à esquerda, análises econômicas, rápidos excursos históricos, e um panorama — este vertiginoso, de verossimilhança notável — da devastação planetária trazida pelo progresso recente do capital.

O leitor de Marx terá notado algo da composição do 18 Brumário, com a sua grandeza acintosamente cacofônica, seus âmbitos e ritmos muito heterogêneos, tudo em função das revelações do presente, entendido como novidade histórica. Por um lado, a multiplicidade dos procedimentos, cada qual dependente de disciplina intelectual e estilo literário próprios, atende a esta noção de um presente complexo. Por outro, ela configura a promiscuidade (no bom sentido) do jornalista, do filósofo, do economista, do historiador, do literato, do agitador etc. no sujeito que busca fazer frente à experiência do tempo, por escrito e para uso do próximo. Diferentemente da epopéia de Marx, que saudava a abertura de um ciclo, a de Kurz é inspirada pelo seu presumido encerramento. Se em Marx assistimos ao aprofundamento da luta de classes, onde as sucessivas derrotas do jovem proletariado são outros tantos anúncios de seu reerguimento mais consciente e colossal, em Kurz, 150 anos depois, o antagonismo de classe perdeu a virtualidade da solução, e com ela a substância heróica. A dinâmica e a unidade são ditadas pela mercadoria fetichizada — o anti-herói absoluto — cujo processo infernal escapa ao entendimento de burguesia e proletariado, que enquanto tais não o enfrentam. A história esboçada por Kurz é uma gênese do presente, entendido como o período da mercadoria e concorrência globais. Esta perspectiva relativiza a história nacional e suscita categorizações novas, de evidente interesse. Vou me limitar à paráfrase sumária de algumas delas. Postas em xeque pelo novo patamar das forças produtivas, as nações que se haviam lançado à industrialização tardia perdem as condições de coesão e tornam- se sociedades pós-catastróficas, nas quais o desmantelamento já ocorreu e a normalidade é um verniz. Com isto o Autor quer dizer que o projeto de modernização, no que ele tinha de substantivo, ou seja, no que dizia respeito a todos, ficou para trás. Para estes países, a reprodução coerente no espaço da concorrência global deixou de ser um horizonte efetivo, e predomina a tendência à desagregação. Noutras palavras, a generalização do salariato e da cidadania está mais distante. Assim, o desenvolvimentismo liberou e arrancou as populações de seu enquadramento antigo, para as reenquadrar num esforço de industrialização nacional, que a certa altura, impossibilitado de prosseguir competindo, as abandona sem terem para onde voltar, na qualidade de sujeitos monetários sem dinheiro, ou de ex- proletários virtuais, agora disponíveis para a criminalidade e os fanatismos nacionalistas ou religiosos. À parte a verossimilhança, estas caracterizações de classe têm o mérito da historicidade: capital e trabalho determinam-se reciprocamente na sua feição contemporânea, distante daquela prevista nos manuais. Noutro pólo da sociedade segmentada está o conglomerado daqueles a quem a modernização, ou seja, a inserção no mercado global continua a reservar vantagens, a despeito da dificuldade de conviver com os excluídos. Notem-se também aqui a realidade e o interesse das distinções. Etc. Considerado no conjunto e em movimento, o sistema de produção de mercadorias chama atenção para conexões que fogem à ótica nacional. Esta, inevitavelmente particularista, tem de buscar a viabilidade do país e a sua inserção vantajosa (mais para uns, menos para outros) na competição internacional, tratando de empurrar os ônus do atraso e da derrota para o concorrente, quando então lhes esquece a realidade. Daí a superstição progressista tão incrível e disseminada de uma concorrência da qual todos possam sair ganhadores. Ora, basta adotar o prisma global para ver que os atuais desenvolvimentos da produtividade, com a sua integração superior de investimento, organização e ciência, trazem como contrapartida a desqualificação histórica das populações que não têm como os acompa- nhar.

Governado pela forma mercantil, o progresso vem adquirindo destrutividade mais virulenta, agora manifestada nas desindustrializações da América Latina e do ex-bloco socialista, na desativação de economias africanas etc. Ao colocar em foco estas complementaridades calamitosas, que do ângulo da reflexão liberal exemplificam o atraso merecido dos que não assimilaram os mecanismos de mercado, Kurz mostra o avesso do avanço contemporâneo. Outro exemplo da realidade desta cena ampliada ou planetária está no seu repertório de ironias históricas próprias, indicadas por Kurz: nos países do bloco socialista, a luta contra os impasses da modernização se trava com os olhos postos na prosperidade das sociedades de mercado, ao passo que no Sul os mesmos impasses mandavam buscar inspiração na planificação socialista. Enquanto isto, a modernização põe por terra a uns e outros. A perspectiva armada por Kurz tem interesse para o fundo do debate intelectual brasileiro. Desde a Independência, este se inspira na tarefa ainda inconclusa da formação nacional, a que se liga certo imperativo de participar da modernidade — mediante um tanto de superação e um tanto de conservação das malformações (ou superioridades, dependendo do gosto) herdadas da Colônia. Com o ciclo desenvolvimentista, a questão adquire os traços de hoje: trata-se de industrializar o país, trazendo a população a formas incompletas de trabalho assalariado e cidadania, ao consumo e à cultura atuais, para emparelharmos com o progresso do mundo.

A reflexão a respeito costuma ter caráter diferencial: em quais pontos e por que razões — que mais adiante com certeza iremos superar — o país se distancia da norma civilizada? De certo modo, a despeito dos obstáculos, o correspondente sentimento da modernidade é pacífico, pois esta última parece à mão e estável, além de encarnada nos países que nos servem de modelo. Já trocamos o escravismo pelo trabalho mais ou menos livre, e nada impede que a elite se auto-reforme e passe do clientelismo para a conduta racional, do coronelismo para a cidadania, da corrupção para a honestidade, do protecionismo para a concorrência, quando então formaría- mos dignamente no concerto das nações evoluídas. Ora, ao historicizar a modernização, ao tomá-la como processo mundial efetivo, em vias de afunilamento, e não como coleção de normas abstratas, o livro de Kurz desestabiliza este quadro de certezas, pacato e provinciano em última análise, para o qual o problema não está na marcha do mundo, que nos dispensamos de ponderar, mas apenas em nossa posição diferencial dentro dela. Se for verdade que a modernização entrou por um rumo que não está ao alcance de nosso bolso, além de não criar o emprego e a cidadania prometidos, como ficamos? O que vamos pensar dela? O mito da convergência providencial entre progresso e sociedade brasileira em formação já não convence. E se o aspecto da modernização que nos coube, assim como a outros, for o desmanche ora em curso, fora e dentro de nós? E quem seríamos nós neste processo? “Restaria lembrar que Profeta não tem a obrigação de acertar, sua função é profetizar”, notava Paulo Emílio Salles Gomes, a propósito do cinema de Glauber Rocha.

 

 

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