Editorial da Revista EXIT! nº 12, Novembro de 2014

Para todos os que acompanham o presente desenrolar da crise do mundo globalizado da sociedade da mercadoria, erigido pelo capitalismo contemporâneo, a Revista Exit é um espaço imprescindível de pesquisa e avaliação, pois através dos artigos publicados por sua equipe podemos ter acesso às formulações mais atuais da intensa luta teórica que se trava no meio daqueles têm o marxismo como instrumento analítico da história da humanidade .

À partir da compreensão do capitalismo como um modo de produção que desenvolve a lógica da apropriação da mais valia , através da dimensão ideológica da conexão da forma social, que vai para além das classes e das nações , objetivada  em termos históricos através do trabalho abstrato , do valor, da forma da mercadoria, do dinheiro , da produção em regime de economia empresarial, do mercado mundial e do Estado , a Revista Exit tem produzido um material teórico de imenso valor, através de seus artigos , que nos ajudam a compreender a dimensão real da crise em que todos estamos imersos , companheiros que somos da jornada iniciada pela humanidade a cerca de 3000 anos atrás .

Ê por isto que neste blog, além de nos focarmos nos reflexos da crise em todos os setores da organização social, tanto no Brasil como no mundo, através de ensaios e textos que apontem para uma sociedade emancipada , preocupamos-nos em reproduzir para língua portuguesa o pensamento teórico da crítica radical do valor , expressão como pode ser reconhecida esta corrente de interpretação marxista do qual a revista Exit tem um importante papel .

Nesse sentido convidamos a vocês que nos acompanhem na leitura do Editorial da recente edição da Revista Exit , de novembro de 2014, e através do presente link conheçam o resumo dos artigos publicados naquela edição . Tenham uma boa leitura.

Arlindenor Pedro 

Editorial

A crise que se manifestou com o crash de 2008 há muito tempo que não é uma mera crise económica, se é que alguma vez o foi. O declínio da relação social constituída pelo capital não pode deixar de afectar nenhum dos seus subsistemas, ainda que os actores que neles agem gostem de se imaginar independentes da totalidade social.

O Estado burguês está tão próximo da dissolução como a política e o direito civil. Parece que a crise vai desembocar num massacre geral a nível mundial, ainda que os centros capitalistas até agora tenham sido poupados a isso. Esta tendência em desenvolvimento também já é coberta pelas estatísticas burguesas e é tema de pronunciamentos oficiais.

Nunca houve mais guerras e conflitos armados desde o fim da II Guerra Mundial do que em 2013. O Instituto Heidelberg para a Pesquisa de Conflitos Internacionais, no seu Barómetro de Conflitos, conta a nível mundial 20 guerras, 25 “guerras limitadas”, além de 176 “crises violentas”, ou seja, conflitos sociais violentos e decididos pela força das armas. Não são afectados por isso – abstraindo de algumas, pequenas excepções – apenas os países capitalistas centrais: Europa (excluindo a Rússia), América do Norte, Austrália e Japão.

Mais insegura ainda se apresenta a situação no Índice de Estados Falhados, ou seja, a lista de Estados que não estão em condições de exercer as suas funções básicas ou de as exercer plenamente. Com plena funcionalidade já são apenas reconhecidos o norte da Europa, o Canadá e a Austrália, estando ainda os outros países capitalistas centrais em grande parte estáveis, apesar de tudo, enquanto todos os outros já são considerados falhados ou em risco disso.

Ora, como sempre em pesquisas empíricas deste tipo, pode seguramente discutir-se sobre a sua metodologia de base, e pode supor-se à partida que esses estudos também contêm resultados parciais questionáveis. Mas a tendência é clara: Apesar de a crise ter vindo dos centros capitalistas, quem tem de suportar as suas consequências em primeiro lugar são aqueles à custa dos quais o desenvolvimento capitalista se fez sempre.

Isso também é evidente no aumento cada vez maior do número de refugiados. De acordo com um relatório da Agência da ONU para os Refugiados, ACNUR, nunca desde o fim da II Guerra Mundial houve tantas pessoas em fuga como em 2013, ou seja, cerca de 51 milhões, 6 milhões mais do que no ano anterior. Tanto os menores como o sexo feminino constituem a maioria. Os homens adultos, como parece daí decorrer, estão na guerra ou já morreram. Dois terços dos fugitivos são deslocados internos, em fuga de guerras civis para outras partes dos seus Estados em desagregação; um terço teve que deixar seu país natal. 86 por cento foram parar a outros países da periferia capitalista, que por sua vez estão marcados por processos de dissolução e crescentes conflitos semelhantes a guerras civis, de modo que não se pode esperar que eles possam ficar lá permanentemente.

“Estas massas humanas desesperadas e exaustas de um sistema capitalista mundial em agonia não terão qualquer outra opção a não ser fugir para os poucos centros que ainda não se afundam na anomia. A miséria global crescente dos refugiados é o produto final da crise mundial do capital que – em colapso nas suas contradições internas e externas – produz uma humanidade literalmente supérflua.” (Tomasz Konicz: O mundo em guerra civil)

Embora os países capitalistas centrais até agora apenas tenham recebido uma pequena parte dos refugiados, a sua resposta à “ameaça” que aqui emerge é clara: Assim como nas sociedades capitalistas os poucos ricos estão cada vez mais protegidos por seguranças privados, fechados nos seus guetos, assim também os poucos países relativamente ricos apertam as regras de imigração e aplicam-nas, se necessário, violentamente: na América do Norte, através de uma “cortina de ferro” estabelecida na fronteira entre o México e os Estados Unidos; na UE, através da agência de fronteiras especialmente criada para o efeito, Frontex, que pretende apanhar os refugiados ilegais logo no Mediterrâneo, com o argumento cínico de assim evitar que se afoguem.

Esta tentativa de barramento, no entanto, terá provavelmente tão pouco sucesso a longo prazo como a tentativa, que entretanto se tem de considerar fracassada, de impor a “nova ordem mundial” por meios militares.

Perante as consequências da crise, cujo elenco acaba de ser esboçado, é mais que aventureiro interpretar a crise não como crise (económica) mundial, mas apenas como crise do “capitalismo tradicional nos Estados Unidos, Europa e Japão”, como faz Rainer Trampert na revista Konkret 07/14.

Em comparação “meio mundo estaria a caminho da industrialização mais colossal de todos os tempos”. Em última análise, apenas a Europa permaneceria como “região de crise do capitalismo mundial”. Os Estados Unidos, por sua vez, estariam em vias de saneamento em breve, graças à redução para metade dos custos da energia por meio do fracking e a uma pausa militar, enquanto uma parte do resto do mundo teria desencadeado um aumento na produção de mercadorias “que em 12 anos triplicou a movimentação de contentores para 600 milhões de unidades por ano”.

Neste contexto ele apela aos “teóricos do fim dos tempos” de um declínio global “para darem uma chance à realidade”. Está tudo dito.

JustIn Monday com razão acentuou na sua resposta a Trampert, na Konkret 08/14, que a crise afecta o contexto económico global. Isto parece ser algo que Trampert não quer ou não consegue pensar. Para ele, há apenas um sistema de economias nacionais concorrentes entre si, mas não uma totalidade abrangente do mercado mundial. Ora, para tal ponto de vista, fica claro à partida que só pode haver sempre vencedores e perdedores (relativos), mas não um declínio geral.

Uma outra e importante dificuldade em lidar com a crítica do capitalismo à la Trampert é que esta ignora a diferença entre valor de uso, valor e preço, ou nem sabe o que isso é e, portanto – tal como a economia política académica – tem de cavalgar nos fenómenos superficiais do modo de produção capitalista.

Quem, com Marx, pelo contrário insiste na importância das grandezas não-empíricas, como a massa de valor ou de mais-valia social global, para avaliar a evolução do capitalismo, é acusado de “esoterismo”. Isto, no entanto, já tem uma tradição de mais de vinte anos. (1) Claro que não vamos voltar a ela. Resta apenas deixar clara a diferença, para nós importante, em alguns exemplos:

O que significa o triplicar da movimentação de contentores em 12 anos? Na verdade, só que os fluxos comerciais têm crescido em conformidade. Mas isso não é surpreendente, se a produção industrial é deslocada para países de baixos salários, mas o consumo das mercadorias aí produzidas continua a ser predominantemente nos países capitalistas centrais.

Isso não permite tirar conclusões sobre a quantidade total da produção de mercadorias. Acresce que aqui calculam-se valores de uso, que para o capital apenas têm interesse como portadores de valor e mais-valia (esta constatação, provavelmente, já é considerada como “esoterismo”). Saber se a mais-valia obtida com as mercadorias produzidas e embarcadas nos contentores aumentou ou diminuiu é coisa que fica completamente fora da reflexão de Trampert. Isso exigiria uma teoria com a qual ele não se quer envolver.

Noutro lugar, observa Trampert, que a produção económica anual da Alemanha aumentou de 2000 a 2010 apenas 0,9 por cento. “Ao mesmo tempo, o valor do capital subiu a alturas astronómicas.” Daí conclui ele que houve um “alto grau de formação de capital”. O que realmente atingiu alturas astronómicas neste período foram as cotações das acções.

Obviamente que há aqui uma confusão entre valor e preço. O capital improdutivo, não valorizável por falta de crescimento económico real, ataca nos mercados de acções e imobiliário e aí faz subir os preços (asset inflation [inflação de activos]), mas não o seu valor. Esta formação de bolhas pela especulação resulta da falta de oportunidades de investimento real e, portanto, de acordo com Marx, é uma manifestação da crise. Trampert, no entanto, parece interpretá-la como indício da boa forma do modo de produção capitalista.

É indiscutível que a produção industrial nas últimas décadas foi transferida dos países capitalistas centrais para partes da periferia – a Alemanha é quase a única excepção no que se relaciona com os processos de desindustrialização associados a isso.

Robert Kurz, no seu livro Das Weltkapital [O capital mundial] analisou este processo como parte da globalização da economia empresarial. (2) Mas qual é a consequência? O problema, da perspectiva de uma análise da crítica do valor, não é – como supõe Trampert – que as instalações industriais foram construídas “a crédito”, como já eram há muito tempo, e nisso ele está certo. O problema do capital mundial é, sim, que a situação assim alcançada apenas pode ser mantida através de circuitos de déficit, ou seja, em última instância um fluxo de mercadorias financiado a crédito da periferia para os países centrais, o que a longo prazo não é possível.

Os países periféricos são competitivos apenas por causa de seus salários de fome, o que Trampert também parece saber de alguma forma, quando vê a sua vantagem sobre os países centrais no facto de estes estarem “democraticamente constituídos e equipados com sistemas sociais aceitáveis”.

Ora assim o “novo capitalismo” continua dependente das exportações para os países do “capitalismo tradicional”. Qualquer tentativa de substituí-las por um aumento da procura interna prejudicaria imediatamente a sua competitividade no mercado mundial.

A propósito, a China, que após o crash de 2008 lançou um pacote de estímulo económico atrás de outro para manter as taxas de crescimento e assim fez crescer cidade fantasmas inteiras financiadas a crédito, parece agora ter chegado ao fim da picada. Em Julho de 2014 o volume de empréstimos caiu drasticamente e os especialistas agora já prevêem um crash comparável ao de 2008. Não tem de ocorrer no curto prazo, mas esse processo mostra quão frágil é o castelo de cartas que o “novo capitalismo” supostamente suporta.

Perante as muitas e variadas crises nem todos são tão resistente como Rainer Trampert.

O crescente número de falências nacionais e programas de austeridade, os problemas de legitimação do sistema democrático-capitalista que lhes estão associados, a agitação social, a ascensão de partidos de direita e do fundamentalismo islâmico, cenários da guerra civil e o aumento de conflitos armados entre Estados desencadearam na esquerda um debate sobre a transformação.

Embora na Alemanha de Merkel ainda prevaleça uma calma enganadora, ultimamente muitos têm o discurso do declínio do capitalismo na ponta da língua, mesmo que não consigam dizer o que está realmente errado no fundamental.

Procuram-se novas soluções e põe-se o “problema no sistema” que, no entanto, é normalmente respondido com as velhas receitas de esquerda: democracia económica, medidas keynesianas, economia solidária, commons e afins.

A redução da crítica do capitalismo que aqui se exprime está – dito de forma algo generalizada – em que o capital não é entendido como uma relação social abrangente, mas como um subsistema entre muitos (a “economia”), que de algum modo se tornou abusador (“capitalismo predatório”) e por isso é preciso recuperar e amansar.

Que os seus próprios subsistemas (política, partidos, sindicatos, universidades, etc.) fazem igualmente parte do capitalismo e, portanto, são parte do problema e não da sua solução é coisa que não lhes entra na cabeça.

O resultado é que as análises críticas e as propostas de solução são despercebidamente viradas para trás nas suas próprias estruturas .

Isso permite, por exemplo, fazer novamente carreira científica com a crítica do capitalismo, sendo preciso, no entanto, cumprir as regras que vigoram no trabalho científico. Em particular, a própria ciência não deve ser questionada, com o que, é claro, se constrói desde o início uma abordagem abrangente. Correspondentemente, os conceitos discutidos dentro do subsistema político vão sempre no sentido de restaurar o “primado da política” sobre a economia.

Que a própria política tenha de ser ultrapassada com o capitalismo é coisa que não pode ser pensada.

Completamente fora da percepção permanece, finalmente, a medida em que os indivíduos, como forma burguesa de sujeito, são afectados pela sociedade a que pertencem.

O capitalismo é considerado externo a eles, como se fosse possível ser abolido podendo os sujeitos da mercadoria e do dinheiro permanecer como estão. Isso resulta em conceitos que podem tornar a transformação desejada num automatismo.

Segundo eles, por exemplo, o desenvolvimento das forças produtivas e o desaparecimento associado com ele do trabalho da produção já é considerado suficiente para a passagem à nova sociedade, que se consuma por si mesma; (3) ou então – esta é a versão tradicional bem conhecida – assume-se que as contradições objectivas do capitalismo e o sofrimento das pessoas nestas condições sociais levariam necessariamente a uma consciência revolucionária.

Assim se deixa de ver, com optimismo, que os indivíduos realmente existentes na maioria reagem de forma diferente ao facto de se tornarem supérfluos, ou seja, com a formação de ideologia reacionária, com a organização, especialmente dos concorrentes do sexo masculino, em actividades mafiosas ou fascistóides – que em alguns lugares e não apenas na periferia incluem também a polícia – e com o virar da guerra burguesa de todos contra todos, até aqui ainda mantida sob o controlo da legalidade, em violência aberta.

Uma vez que o derrube do capitalismo não é um processo objectivo, mas sim “uma tarefa da acção humana” (Robert Kurz), a questão de saber que saída assume a decadência da sociedade burguesa será decidida, em última instância, em saber se e até que ponto conseguem os indivíduos livrar-se da sua orientação de sujeitos da mercadoria e do dinheiro.

Para a crítica da dissociação-valor, isto significa que nós precisamos mais que nunca de nos virarmos para as devastações que a sociedade burguesa causa no interior dos seus membros.

É justamente a substituição feita pelo iluminismo das coerções externas por princípios de coação ancorados nos indivíduos que torna tão difícil a saída do “jaula de ferro” (Max Weber) do capitalismo para os que estão presos nele.


Assim também o tema central deste número da revista é sobre a crítica do “lado subjectivo” da sociedade burguesa e as distorções ideológicas surgidas no curso do seu declínio.

Quando, no século XVII, figuras como Francis Bacon, Galileu e Descartes formularam o programa e as primeiras versões dum novo conhecimento da natureza na forma de leis e da correspondente filosofia mecanicista, as atrocidades patriarcais da caça às bruxas atingiam o seu auge na Europa.

Johannes Bareuther reflecte sobre esta coincidência histórica marcante no texto O ANDROCENTRISMO DA RAZÃO DOMINADORA DA NATUREZA. Revela-se que, na realidade, a ciência mecânica da natureza fica a dever-se essencialmente à socialização do valor que se impôs ao mesmo tempo, como já Eske Bockelmann demonstrou. Além disso, porém, também podem ser apontados os vestígios do crime fundador do patriarcado produtor de mercadorias, por assim dizer da “dissociação sexual original”, nas categorias e figuras da nova concepção da natureza.

Vestígios que serão apresentados ao longo do texto, em conexão conceptual com a dialéctica entre a dominação interna e externa da natureza e a correspondente dinâmica do sujeito burguês masculino, podendo a dissociação sexual ser assim reconhecida como condição constitutiva da ciência moderna.

O fragmento póstumo de Robert Kurz “A LUTA PELA VERDADE” é dirigido contra o mandamento pós-moderno de relativismo na teoria crítica da sociedade.

Este mandamento é identificado como resultado da incerteza transitória, no final da época burguesa, em que também o campo de crítica do capitalismo legitimado com as ideias de Marx se apresenta muitas vezes como uma espécie de labirinto para quem está de fora.

A resposta pós-moderna a esta situação consiste agora em viver a “perda de todas as certezas” não porventura como problemática, mas em elevá-la a dogma, a nova garantia de salvação, cuja promessa de felicidade consiste em já não ter de se comprometer com nada e deixar tudo em aberto.

Qualquer posição determinada, que desde logo não reconheça também o seu contrário, é acerbamente criticada por este dogma. Mas essa imprecisão e ambiguidade não podem ser mantidas por tempo ilimitado porque a própria gravidade da situação de crise está a obrigar a uma definição.

O pensamento pós-moderno, ao rejeitar uma nova clareza ou definição de conteúdo e pretendendo ver justamente nessa rejeição o novo em geral, está apenas a apelar ao potencial de barbárie nele adormecido, sendo apanhado de surpresa pela sua própria decisão infundamentada.

No seu texto “VIVA O FETICHE! Sobre a dialéctica da crítica do fetichismo no actual processo de ‘Colapso da modernização’. Ou: quanto establishment pode suportar a crítica social radical?” Roswitha Scholz examina em que medida a crítica do fetichismo no actual capitalismo em colapso não constitui ela própria o pano de fundo da ideologia de crise.

Se outrora a crítica do fetichismo foi determinada por existências de bastidores, hoje ela existe nas mais diversas cores e formas. Não apenas está infiltrada no discurso da esquerda, mas ocupa mesmo círculos burgueses. E corre cada vez mais o risco de se tornar parte da administração da crise e dum novo entrepreneurship (empreendedorismo).

O/a crítico/a do fetiche há muito se move num novo contexto de rede oportunista no declínio do capitalismo, o que ele/ela no fundo também sabe. Em vez disso, será bom ganhar distância em relação à própria história teórica, insistir numa dialéctica de crítica do fetiche e continuar “loucamente” a intervir no sentido do reconhecimento intransigente de uma necessária “ruptura categorial ou ontológica” (Robert Kurz). Por isso é preciso olhar com desconfiança as soluções simples, em termos de uma crítica da dissociação-valor rebaixada, tanto no contexto do seu tratamento científico como também na forma de pseudo-concepções práticas.

Na segunda parte da sua “CRÍTICA DA FORMA E DA IDEOLOGIA DOS PRIMEIROS SISTEMAS DE HEGEL” Daniel Späth expõe o “System des Sittlichkeit” [Sistema da eticidade] no qual Hegel dá testemunho detalhado da sua compreensão da dialéctica. O presente texto trata do primeiro sistema deste escrito hegeliano, o “Natursystem” [sistema da natureza].

Depois da relação entre intuição e conceito, desenvolvida por Kant na sua “filosofia transcendental”, trata-se de elaborar as ligações epistemológicas entre Kant e Hegel, a fim de classificar tanto a “filosofia transcendental” como a “filosofia do espírito” no que respeita à ruptura categorial entre filosofia do sujeito e crítica do fetiche, entre dialéctica positiva e negativa.

Perante este pano de fundo torna-se depois possível uma reflexão detalhada sobre a dialéctica hegeliana, que não em último lugar examina o seu ponto de referência social, assim se evidenciando já nesta primeira parte a parcialidade categorial de Hegel, no interior duma filosofia do sujeito baseada na lógica da identidade.

No texto “APÓS POSTONE. Sobre a necessidade de transformação da ‘crítica do valor fundamental’. Moishe Postone e Robert Kurz em comparação – e a crítica da dissociação-valor”, Roswitha Scholz põe em destaque as diferenças entre Kurz e Postone do ponto de vista do “individualismo metodológico” (incriminado por Kurz). Expressas em termos esquemáticos, essas diferenças funcionam assim: enquanto Kurz insiste em ler “O Capital” como um todo e só depois observar a forma da mercadoria, situação em que o terceiro volume de “O Capital” assume importância, justamente para o processo das categorias reais de um colapso/decadência do capitalismo hoje observável também empiricamente, Postone agarra-se às primeiras 150 páginas de “O Capital” e desenvolve a partir daí o curso do capitalismo, sem consequências em termos de teoria da crise.

Postone recorre basicamente à forma da mercadoria, Kurz à forma do capital. Ao mesmo tempo, Postone defende implicitamente um ponto de vista que tende a ser ideologicamente complacente com a classe média, não em último lugar porque coloca em primeiro plano sobretudo a ecologia, enquanto Kurz, bem consciente da questão ecológica, desmascara simultaneamente os interesses de classe média como ideologia; em Postone, no fundo, existe um “limite interno” apenas no plano da ecologia, mas não no da economia. Posto isto, Postone e Kurz (pelo menos no seu último livro “Dinheiro sem Valor”) movem-se ambos no plano do capital como processo total.

O plano da “dissociação do feminino” em relação ao valor (mais-valia), entendido em termos de dialéctica negativa, não surge em nenhum deles ou surge apenas secundariamente. Da perspectiva da crítica da dissociação-valor, no entanto, os diferentes planos, o plano material, o cultural-simbólico e – last, but not least – o psicanalítico terão de ser relacionados entre si, em seu entrelaçamento dialéctico e simultânea separação, no seu desenvolvimento processual. Só assim poderá ser suplantada a totalidade negativa, para além do individualismo metodológico androcêntrico, bem como do universalismo androcêntrico, o qual, afinal, apenas ele constitui essencialmente a decadência de crise do patriarcado capitalista.

A rubrica final RECENSÕES – GLOSAS – COMENTÁRIOS contém seis contributos.

No primeiro, com o título “Um velho/novo espectro paira”, Gerd Bedszent comenta a publicação do “Manifesto Comunista” em áudiolivro, lido pelo actor Rolf Becker, cuja leitura em 3 de Março de 2013 provocou uma chuva de aplausos.

Também Gerd Bedszent, no artigo “Fome”, debate-se criticamente com os méritos e déficits de Jean Ziegler e do seu livro “Destruição em Massa – Geopolítica da Fome”.

Udo Winkel comenta em “Libido e sociedade” a nova edição do escrito com o mesmo nome de Helmut Dahmer; em “Viena, os judeus e o anti-semitismo”, o ensaio publicado no 90º aniversário Egon Schwarz na editora Fin de siècle; e em “A I Guerra Mundial”, os muitos livros publicados no ano jubilar de 2014 sobre este assunto.

A rubrica termina com um texto mais longo de Gerd Bedszent concluído em Setembro 2014, “A Ucrânia – dualidade de nacionalismo e falência do Estado”, que aborda a génese histórica da guerra civil desencadeada e assim possibilita uma interpretação mais adequada do chamado “conflito Rússia-Ucrânia” do que a usada no confronto entre os média ocidentais, por um lado, e partes da esquerda, por outro.

Em Outubro de 2014 saiu na editora Horlemann-Verlag o livro de nosso autor Gerd Bedszent Zusammenbruch der Peripherie. Gescheiterte Staaten als Tummelplatz von Drogenbaronen, Warlords und Weltordnungskriegern [Colapso da periferia. Estados falidos como campo de jogos de barões da droga, senhores da guerra e guerreiros do ordenamento mundial].

A redacção e Elmar Flatschart acordaram amigavelmente, por razões de conteúdo e organizacionais, a sua saída da equipe redactorial. No entanto ele continuará por agora ligado ao projecto EXIT colaborando nos conteúdos.

Mais uma vez agradecemos a Angela Aey pelo seu trabalho dedicado no layout da revista.

Claus Peter Ortlieb pela redacção, Setembro de 2014

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