A contribuição do povo judeu na superação da crise do Antropoceno – Arlindenor Pedro

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Recentemente a ASA – Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação , tradicional entidade da colônia judaica no Rio de Janeiro , conhecida por suas posições progressistas  , através de sua diretoria , emitiu nota pública repudiando a afirmação de um candidato, de um partido de esquerda, que publicamente defendeu a extinção, a liquidação , do Estado de Israel .

Na verdade esta questão não é nova junto a esquerda no Brasil e no mundo : existe uma unanimidade na linha política desses partidos, que assimilaram as propostas da OLP e dos Estados Árabes . E, esta proposta tomou mais força ainda , quando das recentes manifestações que aconteceram globalmente – manifestações de repúdio aos massacres na Faixa de Gaza , perpetrado pelo governo israelense.

Penso que tratar- se-ia, neste caso , de um equívoco, e mesmo um erro histórico por parte das esquerdas, por desconhecer o caráter libertário da formação do Estado de Israel pela ONU , após a segunda guerra – um Estado peculiar , que surge no cenário mundial como refúgio a um povo que durante séculos vinha sofrendo discriminação e risco de total extinção entre os seres humanos .

Nesse sentido , a sua formação é o corolário de uma luta progressista, e como tal recebeu a ampla aprovação da comunidade internacional , como uma solução de emergência para a alocação dos refugiados judeus , recebendo inclusive o amplo apoio do Estado que na época se colocava como porta voz das esquerdas : a antiga União Soviética .

O fato é que, quando os partidos de esquerda tomam esta posição liquidacionista , acabam fortalecendo o anti-semitismo da burguesia , do grande capital, que sempre teve no povo judeu um elemento de manobra para a imputação de responsabilidade das crises constantes do sistema.

Dentro de tal raciocínio , o Judeu seria, então, o mau capitalista – aquele que reformaria as qualidades do sistema, pela sua insaciável propensão ao lucro, a todo o custo, levando a sociedade ao julgo de um capitalismo selvagem , sem limites . Tornaram -se , então, a representação negativa do capitalismo financeiro “improdutivo” e a encarnação de todas as manifestações destrutivas da moderna sociedade produtora de mercadorias- o mau judeu !

Em lugar da crítica das formas reais e transversais às classes do sistema produtor de mercadorias surgiu assim a culpabilização maliciosa imputada a um grupo de sujeitos específico, definido pela “raça”. Segundo este mote: o “trabalho”, o valor, o dinheiro e a forma do capital seriam maravilhosos e uma benção . Apenas isto não ocorre devido aos judeus E a sua inata ganância !

Isto se faz porque a lógica capitalista ( da apropriação da mais valia que se faz através da dimensão ideológica da conexão da forma social, que vai para além das classes e das nações e é objectivada em termos históricos através do trabalho abstrato , do valor, da forma da mercadoria, do dinheiro, da produção em regime de economia empresarial, do mercado mundial e do Estado ) , necessita em momentos de crise de objetivar um sujeito, o causador ( pela sua existência) dos males que afligem a sociedade. E esta busca pelo culpado sempre ocorreu ,desde a Antiguidade (Babilonia, Egito, Roma,etc) até a Modernidade ( onde o holocausto nazista se destaca), por tempos imemoriais.

Fica evidente , então , que a ” visão de mundo ” da burguesia liberal, sua ideologia, formada pelos legados do ideário do Iluminismo e do protestantismo calvinista , que servem para legitimar o sistema produtor de mercadorias, influenciou tão profundamente a esquerda do movimento operário e marxista, tal como mais ainda a esquerda radical (e não menos a esquerda anarquista), que estas nem sequer se aperceberam de que elas próprias tinham assumido positivamente partes essenciais de um ideário que não era seu , incluindo-se aí o seu caráter anti-semita.

Juntando-se a esta lógica cega , proposta pelas oligarquias feudais e religiosas dos Estados Árabes e do fascismo do Hesbolat e do Hamas, estas organizações nada mais são do que forças auxiliares do obscurantismo , pois a ação fascista do atual governo de Israel, país hoje dominado pelo sionismo ultranacionalista de direita e pelos grupos religiosos fundamentalistas , não justifica em nada a proposta de sua liquidação .

Mas, ao ler a comunicação de repúdio a esta política feita pela diretora da ASA , percebo , com tristeza, que ali não está uma clara compreensão do problema, pois a critica se faz dentro dos mesmos parâmetros que levaram o criticado a querer a extinção do Estado de Israel- parâmetros de um pensamento moldado pelo Iluminismo positivista .

Sobre tal questão , Robert Kurz, pensador alemão , recentemente falecido , em 2003 publicou o livro : “ A Guerra de Ordenamento Mundial“, e no seu capítulo IV, ” O Oriente Próximo e Síndrome do Anti-Semitismo ” , faz uma reflexão sobre o entendimento do Estado de Israel e seu caráter peculiar no âmbito das nações , onde não abrindo mão de acentuar o seu atual caráter fascista , lamenta a submissão das forças das esquerdas a política anti-semita , racista e excludente desenvolvida pelos países mercantilistas e capitalistas em relação ao povo judeu.

Kurz nos faz pensar na crise mundial do sistema produtor de mercadoria e na falência dos Estados Nacionais que não sobreviverão a catástrofe da dissolução da atual ordem mundial. Mas, ao mesmo tempo, nos adverte da característica peculiar do Estado Nacional Judeu na época da sua fundação : um Estado que surge como forma de defesa ( anti- liquidacionista) de um povo que insiste em sobreviver no âmbito da humanidade.

“Certamente também ao Estado de Israel, que é evidentemente parte integrante da economia mundial capitalista, pode ser atribuída a forma do Estado moderno e do sistema produtor de mercadorias moderno com todos os seus atributos negativos. Mas, devido ao seu carácter singular, já que constitui em última instância um produto involuntário dos nazis e da lógica de aniquilação da subjectividade capitalista na sua derradeira agudização, este Estado é o primeiro, o último e o único a conter um momento decisivo de justificação que aliás faltou desde o início a todos os Estados revolucionários nacionais do terceiro mundo (os quais, afinal, todos muito rapidamente começaram a assumir expressões bem feias). Trata-se de um Estado capitalista que é assim expressão da forma de sujeito capitalista, mas que simultaneamente e de modo paradoxalmente articulado representa a extrema necessidade e a última legítima defesa contra essa mesma forma de sujeito ( kurz, in “A Guerra de Ordenamento Mundial”).

Ao abandonar esta ultima característica, que no início foi libertária, Israel atola-se nos infortúnios dos demais Estados contemporâneos – afunda-se na corrupção , no totalitarismo e na insanidade radical religiosa, apresentando -se meramente como vanguarda dos interesses do capital nesta área estratégica , tornando-se , por seu dispendioso modo de vida, próprio da sociedade da mercadoria , um país inviável economicamente ( a não ser pela ajuda externa do grande capital que atua na região). Rompe , então com o antigo ideário socialista que existia a época de sua fundação .

Desta forma , tanto a política belicosa de Israel quanto o reacionarismo medieval das oligarquias árabes , aparecem para nós como faces de uma mesma moeda : frutos da manipulação dos grandes grupos financeiros internacionais, que movimentam seus cordéis de acordo com seus interesses. Dentro desta lógica , não seria impossível imaginar, inclusive, que o próprio Estado de Israel , mais adiante, pudesse ser abandonado à própria sorte , cessada a sua importância no tabuleiro da política internacional

Fica claro , então , que a principal ameaça a existência de Israel não viria de fora, da ameaça das oligarquias religiosas árabes, mas de dentro da sua sociedade , da hegemonia de sua política pelos segmentos ultra-nacionalistas e grupos religiosos fundamentalistas , que têm levado o país ao isolamento , transformando o num paria internacional , contribuído decisivamente para o fortalecimento do anti-semitismo no mundo e colocando novamente em perigo o seu povo .

A emancipação do povo judeu só poderá ser realizada dentro do quadro de emancipação de toda a humanidade e Israel pode e deve ser o centro desta emancipação, ultrapassando Estado Nação e construindo uma sociedade multirracial, de plena liberdade religiosa e solidária , onde todos os povos da região possam ser plenamente integrados .

A humanidade vive hoje o perigo da sua própria extinção por força dos erros cometidos no Antropoceno e no tipo de sociedade erigida pela burguesia liberal -a sociedade da mercadoria – que tem levado o planeta a sua exaustão .

Isto exige uma atitude por parte dos povos mais antigos e experientes no sentido de guiar a humanidade a uma outra forma de se viver , pois o capitalismo transformou – se em um inimigo da raça humana que precisa ser vencido e extirpado.

Propugnar a hoje a existência de dois Estados na Palestina em nada contribuirá para resolver os impasses da guerra, num momento de falência dos estados Nacionais , com o mundo sendo redesenhado , com o desaparecimento de países e o aparecimento de novos .

Objetivamente, a verdade é que o Estado Palestino em discussão já tornou-se inviável antes mesmo de existir , no seu nascedouro .

Que Estado será este ? O do fundamentalismo medieval e obscurantista do Hamas ou o da burocracia corrupta da Cisjordânia ?

Paradoxalmente , tal situação é melhor para o povo palestino, pois pode superar esta etapa, a do Estado Nacional, e integrar-se num novo momento de reconciliação e integração de uma nova sociedade – libertária e emancipada – fruto da junção dos diversos povos do crescente fértil .

Superar as amarras teóricas do Iluminismo positivista, pensado além do que a sociedade erigida pela burguesia propõe , é o mínimo que se espera dos intelectuais judeus , que tanto contribuíram para o avanço da humanidade.

Serra da Mantiqueira , agosto de 2014
Arlindenor Pedro

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