Para onde vai Israel – Julia Amalia Heyer


A fundação do estado de Israel foi celebrado após a II Guerra Mundial como um evento decisivo na salvaguarda dos direitos dos judeus perseguidos em todo o mundo e vítimas do Holocausto, e como uma experiência de coletivismo e democracia que seria efetuada pelo então sionismo de esquerda .

Os recentes bombardeios em Gaza nos demonstram que isto não se efetivou, e o país transformou-se em mero apêndice da política militar das grandes potências capitalistas e em um Estado dominado pela elite militar fascista e dos religiosos extremistas, que nada tem haver com os antigos propósitos dos pioneiros da época da sua fundação.

Num momento que renasce um sentimento anti-semita no mundo, sentimento que julgávamos ter sido soterrado após a segunda guerra, cabe aqui a pergunta : afinal , para onde vai este país ? O que acontecerá com Israel ?

Trazemos aqui uma entrevista da renomeada socióloga israelense Eva Illouz , que nos dá algumas dicas sobre a nossa indagação .

Após a entrevista assista ao vídeo Valsa com Bashir , um filme israelita de 2008 escrito e dirigido por Ari Folman.

No formato de documentário animado, o filme retrata as tentativas de Folman, um veterano da Guerra do Líbano de 1982, de recuperar as suas memórias perdidas dos eventos que marcaram o massacre de Sabra e Shatila. O filme foi lançado a 13 de maio de 2008 durante o Festival de Cannes e foi uma das cinco indicadas ao Óscar de melhor filme estrangeiro, além de ter sido escolhido como Melhor Filme do Ano, pela Sociedade Nacional dos Críticos dos Estados Unidos.

O filme retrata de forma sensível o envolvimento do Estado de Israel no massacre, resgatando a participação dos pequenos soldados que lutaram nesta guerra. O trauma gerado pelo massacre ainda é presente no imaginário israelita, e num determinado momento do filme é possível perceber a comparação com os campos de concentração que dizimaram um número enorme de judeus, ciganos e homossexuais.

Arlindenor Pedro

Verdadeiro perigo para Israel vem de dentro, diz socióloga

Israel se retirou da Faixa de Gaza na terça-feira (5), mas deixou para trás morte e destruição. A socióloga israelense Eva Illouz diz à “Spiegel” que seu país está tomado pelo medo e está cada vez mais suspeitando da democracia.

A entrevista é de Julia Amalia Heyer, publicada pelo Der Spiegel e reproduzida pelo Portal Uol, 07-08-2014.

Eis a entrevista.

Houve amplo apoio em Israel à operação na Faixa de Gaza, apesar dos números imensos de vítimas civis e a morte de centenas de crianças. Por que isso?

Onde você vê seres humanos, os israelenses veem inimigos. Diante dos inimigos, você cerra fileiras, se une no temor por sua vida, e você não pensa na fragilidade do outro. Israel tem uma autoconsciência esquizofrênica, dividida: ela cultiva sua força e não consegue deixar de se ver como fraca e ameaçada. Além disso, tanto o fato de o Hamas nutrir uma ideologia radical islâmica e antissemita quanto a existência de um racismo raivoso antiárabe em Israel explicam por que os israelenses veem Gaza como um baluarte de terroristas reais ou potenciais. É difícil ter compaixão por uma população vista como ameaçando o coração de sua sociedade.

Isso também se deve ao fato de a sociedade israelense estar se tornando cada vez mais militarista?

Israel é ao mesmo tempo um poder militar colonial, uma sociedade militarizada e uma democracia. O Exército, por exemplo, controla os palestinos por uma vasta rede de ferramentas coloniais, como postos de controle, tribunais militares (governados por um sistema legal diferente do sistema israelense), concessão arbitrária de licenças de trabalho, demolição de casas e sanções econômicas. É uma sociedade civil militarizada porque quase toda família tem um pai, filho ou irmão no Exército e porque os militares exercem um papel enorme na formação da mentalidade dos israelenses comuns e são cruciais tanto nas decisões políticas quanto na esfera pública. Na verdade, eu diria que “segurança” é o conceito primordial que guia a sociedade e a política israelense. Mas também é uma democracia, que concede direitos aos gays e possibilita ao cidadão processar o Estado.

Mesmo assim, muitos diriam que Israel foi longe demais nesta guerra contra o Hamas.

Eu acho que os israelenses perderam o que podemos chamar de “sensibilidade humanitária”, a capacidade de se identificar com o sofrimento de um outro distante. Em Israel, ocorreu uma mudança na percepção do “outro palestino”. O palestino se transformou em um verdadeiro inimigo na percepção dos israelenses, no sentido de que “eles estão ali” e “nós estamos aqui”. Eles deixaram de ter um rosto e mesmo um nome.

Você tem uma explicação para a mudança?

Israelenses e palestinos antes se misturavam. Eles trabalhavam como operários de construção e como mão de obra barata, mal paga. O muro foi construído. Vieram os bloqueios de estrada, que impediram a liberdade de movimento dos palestinos. A redução imensa nas licenças de trabalho veio em seguida. E em poucos anos os palestinos desapareceram da sociedade israelense. A Segunda Intifada colocou um prego nesse caixão, por assim dizer. A natureza da liderança israelense também mudou. A direita messiânica ganhou progressivamente poder em Israel. Ela costumava ser marginal e ilegítima; agora é cada vez mais popular. Essa direita radical ocupa cadeiras no Parlamento, controla orçamentos e mudou a natureza do discurso. Muitos israelenses não entendem a natureza radical da direita em Israel. Ela se disfarça com sucesso como sendo “patriótica” ou “judaica”.

Por que a direita é tão forte no momento, apesar de haver bem menos ataques terroristas em Israel do que no passado?

Gerações inteiras foram criadas com os territórios, com Israel sendo um poder colonial. Elas não conhecem outra coisa. Você tem os assentamentos que são altamente ideológicos. Eles expandiram e entraram na vida política israelense. Os assentamentos foram fortalecidos por meio de políticas de governo sistemáticas: eles recebem incentivos fiscais; eles contam com soldados para protegê-los; eles contam com estradas e infraestrutura muito melhores do que no restante do país. Há segmentos inteiros da população que nunca conheceram uma pessoa secular e foram educados religiosamente. Alguns desses segmentos religiosos também são muito nacionalistas. A realidade que enfrentamos dentro de Israel é que devemos escolher entre liberalismo e o judaísmo, e se escolhermos o judaísmo, estamos condenados a nos tornarmos uma Esparta religiosa, o que não será sustentável. Enquanto nos anos 60 era possível ser tanto socialista quanto sionista, hoje não é possível, por causa das políticas e da identidade de Israel. E há o papel que os judeus que vivem fora de Israel exercem em Israel. Muitos desses judeus têm pontos de vista de direita e contribuem com dinheiro para jornais, centros de estudos e instituições religiosas dentro de Israel. Vamos encarar: a direita tem sido mais sistemática e mais mobilizada, tanto dentro quanto fora de Israel.

Os judeus na diáspora veem Israel de modo diferente dos judeus em Israel?

Os judeus da diáspora foram moldados pela memória do Holocausto. Eles costumam viver em sociedades nas quais seus próprios direitos democráticos são garantidos. Às vezes estão sob ataque do antissemitismo e, portanto, sentem um ímpeto de reforçar a identidade judaica. Eles não entendem a aflição dos israelenses que veem a democracia sendo progressivamente devorada por forças sombrias. Hoje, os judeus da diáspora e os judeus em Israel não têm mais os mesmos interesses.

O que acontecerá se os princípios democráticos continuarem ruindo?

Há um ou dois anos, o jornal “Haaretz” realizou uma pesquisa que apontou que 40% das pessoas disseram estar considerando deixar Israel. Eu não sei os números reais, mas nunca soube de tamanha alienação em relação a Israel como durante esse período. As pessoas que vivem na secular Tel Aviv têm muito menos em comum com seus pares religiosos em Jerusalém do que com as pessoas que vivem em Berlim.

Você descreve um país temeroso e ansioso.

O medo está profundamente entranhado na sociedade israelense. O medo do Holocausto, o medo do antissemitismo, o medo do Islã, o medo dos europeus, o medo do terror, o medo do extermínio. E o medo gera um tipo muito particular de pensamento, que eu chamaria de “catastrofista”. Sempre se pensa no pior cenário, não no curso normal dos eventos. Nos cenários catastrofistas, é permitido violar muito mais normas morais do que se você imaginasse um curso normal dos eventos.

Essa percepção diferente das ameaças e conflitos é problemática. Enquanto Israel se vê como vítima, o resto do mundo cada vez mais vê o país como um poder de ocupação violento.

Imagine que você seja uma menina criada por um pai muito brutal. Você desenvolveria uma suspeita “saudável” dos homens e se tornaria muito cautelosa. Se você vivesse por algum tempo em um ambiente de homens bons e carinhosos, sua suspeita relaxaria. Mas se você vivesse em um ambiente no qual alguns homens fossem muito brutais e alguns não, sua suspeita saudável se transformaria em uma incapacidade obsessiva de diferenciar entre os tipos diferentes de homens, os brutais e os carinhosos. Esse é o trauma histórico da consciência com o qual os judeus convivem. A psique israelense se tornou incapaz de fazer essas distinções.

Esse medo justifica o tipo de violência brutal imposta à população civil na Faixa de Gaza?

Claro que não. Eu só estou dizendo que o medo é central na psique israelense. Esses temores são cinicamente usados por líderes como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Ele faz os israelenses acreditarem que todos eles querem nos destruir. O Hamas quer nos destruir, a ONU quer nos destruir, a Al Qaeda e o Irã querem nos destruir. O EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) quer nos destruir. Os europeus antissemitas querem nos destruir. Esse é basicamente o filtro pelo qual o conflito com o Hamas é interpretado pelo israelense comum. Outra dimensão desse prisma é que “eles” não são seres humanos. Os palestinos são desumanizados porque colocam seus soldados entre os civis, enviam suas crianças à luta, gastam e desperdiçam seu dinheiro na construção de túneis mortais em vez de construindo sua própria sociedade. Além da desumanização do outro, os israelenses têm um forte senso de sua própria superioridade moral. “Nós pedimos às pessoas para deixarem suas casas; nós telefonamos para elas para assegurar que os civis sejam evacuados. Nós nos comportamos de forma humana”, pensa o israelense. Um Exército com bons modos.

Mesmo assim, uma enorme onda de ódio se tornou visível em Israel nas últimas semanas. E não é direcionada apenas aos palestinos, mas também a segmentos da sociedade israelense.

Algumas normas básicas de discurso foram violadas por alguns rabinos e membros do Knesset, que não têm escrúpulos em expressar ódio pelos árabes de formas que legitimam o ódio. Isso é muito preocupante. Isso acontece porque gerações inteiras foram criadas acreditando nas posições religiosas e ultranacionalistas. Eu não acho que há mais ódio em Israel do que em alguns bolsões racistas da sociedade alemã ou francesa. Mas quando alguns palestinos cantaram recentemente nas ruas de Paris, “Morte aos Judeus”, a reação do governo do primeiro-ministro Manuel Valls foi rápida e clara. As autoridades enviaram uma forte mensagem de que há formas de discurso e de crença que são inadmissíveis. O que falta na sociedade israelense é esse tipo de forte posicionamento moral vindo de seus líderes.

Como você explica esse paradoxo –o ódio por um lado e a ênfase de Israel em seus valores liberais do outro?

Israel começou como uma nação moderna. Ela extraía sua legitimidade do fato de ter instituições democráticas. Mas também construiu instituições altamente antimodernas em seu desejo de criar uma democracia judaica, ao dar poder aos rabinos, ao criar profundas desigualdades étnicas entre diferentes grupos étnicos, como os judeus de países árabes contra judeus de descendência europeia; árabes contra judeus; judeus contra não judeus. Isso bloqueou o pensamento universalista.

Você diria que o caráter judeu do país subordinou o caráter democrático?

Sim, com certeza. Nós estamos em um ponto onde se tornou claro que o judaísmo sequestrou a democracia e seu conteúdo. Isso acontece cada vez mais quando o currículo escolar começa a ser mudado e passa a enfatizar mais conteúdo judeu e menos conteúdo universal; quando o Ministério do Interior expulsa trabalhadores estrangeiros porque membros do partido Shas temem que não judeus possam se casar com judeus; quando direitos humanos são pensados como sendo uma ideia esquerdista, porque os direitos humanos pressupõem que judeus e não judeus são iguais.

Isso não soa particularmente encorajador.

A única resposta é a criação de um vasto campo de pessoas que defendam a democracia. A divisão direita-esquerda não é mais importante. Há algo mais urgente agora: a defesa da democracia. A voz da extrema direita está muito mais alta e clara do que antes. Isso é que é novo: uma direita racista que não tem vergonha de si mesma, que persegue os dissidentes e até mesmo as pessoas que ousam expressar compaixão pelo outro lado. O verdadeiro perigo para Israel e sua sustentabilidade vem de dentro. Os elementos fascistas e racistas não são uma ameaça menor à segurança do que os inimigos externos.

https://vimeo.com/33186000

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