Futebol – apenas para quem pode pagar ! – Arlindenor Pedro

Com a celebração da Copa patrocinada pela FIFA no Brasil , o país sentiu na carne o que vem a ser o controle total pelo capital de um esporte que em nosso país tem um profundo sentimento popular. Não que este controle não existisse até então , mas com a Copa nas nossas fronteiras tivemos que nos adaptar ao chamado padrão FIFA , que nada mais é que a administração do evento em todos os seus detalhes . Usando um axioma popular : ” está tudo dominado “.

Para que o espetáculo se desenvolvesse dentro da ilusão de um mundo clean , necessário aos olhos dos milhões de pessoas que acompanharão o evento em todo o mundo, pela TV dominada pelo cartel que controla o futebol, tudo que estivesse fora dos padrões foi afastado: populações foram removidas, vias de acesso aos eventos foram abertas, aeroportos foram reformados, hotéis foram reformulados, estádios adaptados as transmissões televisivas foram construídos , e , mesmos leis , como por exemplo a de não se vender bebidas alcoólicas nos estádios , foram removidas. Criaram-se, inclusive , leis exclusivas, para permitir o total controle pela FIFA do espetáculo , que nesses dias de Copa pairou acima das próprias leis do país. Para isto o Brasil se vergou ao evento, contando com o conluio de políticos, e pelo governo , que se adaptou a todas as exigências dos organizadores estrangeiros.

Para se proteger das vozes descontentes com os gastos astronômicos da Copa, e pela evidente rapinagem de políticos, empresários e oportunistas que se apropriaram de fortunas dos cofres públicos na exploração dos eventos, foi montado um esquema de segurança sem precedentes , onde milhões foram gastos no reequipamento das forças policiais e na movimentação das Forças Armadas , que ficaram prontas para intervenções contra o seu próprio povo, caso os protestos chegassem a embasar o brilho das imagens .

Para justificar os gastos , incompreensíveis para muitos , em um país carente de um sistema razoável de saúde e de educação , entre outras necessidades , o governo , porta-voz dos cartolas de futebol , acena com o argumento de que o principal ganho da Copa será o legado deixado após a sua conclusão com as obras executadas.

Mas , salta aos olhos , que o principal legado será o afastamento definitivo das classes mais populares dos grandes estádios de futebol , pois pela sua estrutura , que exige altos custos para a sua manutenção , só poderá ser freqüentada por quem tem dinheiro para pagar os altos preços dos ingressos . Desta forma, aos aficionados do futebol, sem dinheiro para tal diversão , restará apenas torcer pela televisão , deixando de ser protagonista direto do espetáculo , virando meramente um espectador.

Em um tipo de sociedade que se vai construindo, onde cada vez menos somos protagonistas e cada vez mais espectadores do espetáculo da vida que nos é impingida , as argumentações de que as recentes vaias e xingamentos sofridas nos estádios pela presidente do país ( vaias que surgiram evidentemente dentro de uma lógica eleitoral ) se deram porque ali estavam as elites e não o povo , que não teve acesso aos eventos , soou, no mínimo , como pura hipocrisia .

Ora, não foi o próprio governo quem afastou dos estádios o povo, que até então, mesmo com dificuldades podia ter no futebol um espetáculo onde podia participar ? Se ele queria o povo nos estádios , pelo menos no momento da abertura da Copa, por que não distribuiu ingressos para as classes populares? Só de convites , cerca de 20.000 foram distribuídos pelo próprio Governo .

A constatação de que só as elites estava presente nos estádios realmente procede.E esta será a imagem que prevalecerá daqui por diante . Imagem criada pelo próprio governo quando se rendeu a lógica de que o futebol é um negócio , altamente rentável , para quem pode pagar. Por isso as chamadas “gerais ” foram abolidas destes estádios e as imagens transmitidas pelas tvs só mostrarão as classes mais abastadas , únicas que terão acesso as partidas de futebol.

Nesse sentido , torna-se perfeitamente compreensível o argumento utilizado pelo presidente da FIFA, Joseph Blatter, quando respondeu aos integrantes da oposição que queriam que ele se afastasse da entidade: ” Por que devo sair ? A FIFA nunca teve tanto dinheiro nos seus cofres !” . E é claro que com esta cândida argumentação foi imediatamente reeleito.

Serra da Mantiqueira, junho de 2014
Arlindenor Pedro

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