O homem que amava os cachorros – o livro que estou lendo

Em um momento, na conversa que tive com Cecília, ela me perguntou: – você já leu o livro “o homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Padura? Diante da minha negativa, ela conimagecluiu: – ora, você está perdendo um belo livro! Ele é um dos expoentes da nova safra de escritores latino-americanos. Fez um excelente trabalho de pesquisa histórica, sobre o assassinato de Trotsky; lança muita luz sobre a essência repressora do regime soviético e do stalinismo, além de mostrar, com coragem, a falta de liberdade do regime cubano nos dias atuais. E concluiu: – olha, não é um livro, desses de pesquisas, de jornalistas que se arvoram em historiadores. Na verdade, Padura até então, tinha se especializado  na literatura em contos policiais ( gênero que eu gosto muito, disse ela ). e foi dai que eu me interessei em ler o livro, o que foi uma grata surpresa! ..

Acabei a conversa com a Cecília ficando com suas palavras na minha cabeça, e isto por diversos motivos:

Sempre me interessei por escritores latino-americanos. A minha adolescência foi embalada por obras de Vargas Ilhosa, o grande Miguel Astúrias, Luís Borges, Cortázar, Garcia Marques, Gabriela Mistral, Neruda e é lógico, os nossos escritores desta época, como José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano e tantos outros. Era comum na minha geração  todos jovens passarem por tais autores.

Confesso que com o passar dos tempos fui me afastando deste tipo de literatura e pouco sei sobre o que a Cecília chama de a “nova safra”. Na verdade, a não ser em rápidas incursões em obras de Isabel Allende – autora de La Casa de los Espíritus, a minha atenção na literatura se voltou para outras paragens, com outros temas.Tenho a impressão que pouco se produz de qualidade neste mundo da contemporaneidade, de forma geral !

Isto até ter recebido, das mãos de uma de minhas filhas, o livro “O rei de Havana”, do cubano Pedro Juan Gutiérrez, o que causou em mim uma forte emoção .

Talvez pelo fato de por três vezes ter empreendido viagens a Cuba, notadamente a Havana, a abordagem que faz o autor da vida, do que alguns chamam de lumpesinato cubano, para mim foi uma revelação . Vi ali, através dos personagens criados por Gutierres, que a sociedade cubana é muito mais complexa do que os meus olhos de turista conseguiu alcançar . Trata-se de um livro que nos faz pensar.

Por que em uma sociedade como a cubana, onde do ponto de vista de estrutura social, o Estado promove (e isto é inegável) condições de acesso ao cidadão a elementos básicos de sobrevivência ( educação, saúde e emprego ) existem personagens como os expostos no “Rei de Havana ” , que vivem à margem desta sociedade, colocando-se como diferentes?

Como personagens similares aos do nosso Plinio Marcos, eles se movimentam dentro de padrões para nós incompreensíveis – nômades sociais dentro do sedentarismo de uma sociedade altamente controlada pelo Estado .

Sentindo-se livres, movimentam-se com suas próprias regras, sem emprego, sem moradia fixa, sem responsabilidades com o Estado, na noite voraz das drogas, sexo e indefinições de princípios sociais . Para eles, aquilo que o Estado dá não é o suficiente. Eles buscam por iniciativa própria a totalidade do livre arbítrio.

Será que isto acontece por ser a natureza humana fugidia na sua essência, sempre existindo aqueles que andarão fora do movimento de fuso horário – os diferentes? Aqueles que nunca serão capturados pelo Estado, sejam qual forem as características que ele apresentar?

Será que a Ilha ao deixar este “diferente” aflorar pode seguir um caminho libertário , fora dos grilhões do Estado opressor, livrando- se do modelo soviético,  e fora das amarras da sociedade da mercadoria  proposta pelos refugiados de Miami ?

Ao mergulhar no livro  de Padura, “O homem que amava os cachorros”,  percebi, então que se tratava de uma obra onde sobressaíam os capturados – na verdade, o oposto de Gutierres.

O século XX foi o século da tentativa de materialização das grandes utopias modernas, confrontando opiniões ( ideologias ), levando, inclusive, a duas grandes guerras de caráter mundial.

Logo nas suas primeiras décadas, a revolução bolchevique de 1917 passou a embalar o sonho da maioria dos marxistas, que tiveram a chance de acompanhar a implantação da primeira experiência de um Estado Socialista – pelo menos de acordo com os conceitos Leninistas.

Também, a Itália viveu a sua utopia, a de um estado fascista, influenciando com isto a experiência nazista da Alemanha de Hitler e de falanges em todo o mundo.

E, é este o pano-de-fundo da história contada no livro em questão .

Numa narrativa não linear, apoiada em uma pesquisa histórica, o autor relembra o acontecimento do assassinato de Leon Trosty, no México, no dia 20 de agosto de 1940, e por um artifício de ficção, trás até nós a presença do assassino –  no caso o espanhol comunista Ramon Mercader, falecido em Cuba nos idos de 1978, da sua vítima, o expurgado Trotsky e de um narrador fictício da história, um escritor cubano frustrado, de nome Ivan Cárdenas Maturell.

Através da técnica ficcional de Leonardo Padura, já calejado pelos seus contos policiais, mergulhamos, entre outras experiências, na Revolução Espanhola, onde amadurece o personagem Mercader, na União Soviética pós Lenin, com a derrocada de Trotsky, no México à época do seu assassinato e na ilha de Cuba, nos anos 70, quando o nosso narrador faz o seu relato.

Torna-se flagrante que todos os personagens do livro, mesmo aqueles que não aparecem diretamente, mas pairam com uma força que chega a sufocar, como Stalin e mesmo Hitler, são prisioneiros de seu tempo, aprisionados pelas ideologias que construíram ou abraçaram, capturados, portanto, por suas lógicas.

E, em ultima instância, poderei dizer que é o medo o principal personagem do livro, que envolve a todos e está presente em todos os momentos, empurrando-os para suas decisões .

E isto fica patente, quando em um momento importante do livro, Bukarin, em visita a Paris, resolve voltar para a União Soviética, mesmo ciente que poderia ser preso ( como o foi, de fato ) por Stalin, responde àqueles que perguntam, por que fazia aquilo , com a singela resposta: – por medo. E complementa, dizendo que era preferível voltar,  ciente do que aconteceria, do que viver a vida errante de Trotsky,  sem paradeiro fixo e sem saber quando a mão de um assassino iria tirar sua vida ( como ocorreu mais tarde, no México ) .

Padura, embora não dissidente, não é condescendente com o regime cubano e põe para fora o medo de seu personagem ( talvez seu alter-ego ) que faz o relato do livro :  medo do regime, medo do Estado .E isto fica visível, para qualquer um, no contato com os cidadãos, se visitarem a Ilha .

Quando  da última vez que lá estive , junto com os amigos que lá conheci, tive que deles me afastar no aeroporto, pois a área onde ficaria era proibida para os cubanos.

Naquele momento senti uma grande tristeza, e me perguntei: como pode um regime que se implantou para acabar com o medo de seus cidadãos, que viviam sob o tacão de uma ditadura, difundir ainda hoje um medo e , portanto, uma grande cautela, no que concerne as questões do Estado. E me despedi deles, ainda na área onde podiam ir, voltando para o meu país, com os meus próprios medos ( certamente de outras categorias) : medo de perder o emprego, medo de não poder educar meus filhos, medo dos meus vizinhos.

“O homem que amava os cachorros” para mim é um livro importante, pois relata com realismo a tragédia de uma humanidade ainda neófita, na busca por sua emancipação. Mas, ao mesmo tempo, sei que ele se presta a várias leituras, inclusive para aqueles que ali apenas enxergam os seus heróis na construção do progresso libertador.

Mas, para mim, ali não existem heróis, no sentido helênico do termo. Existe apenas o homem acorrentado pelas certezas das suas ideias, que justificam comunistas a assassinar trotskistas e a anarquistas a fuzilar comunistas, etc.

Nele a vítima, que morre no México,  não é um herói da humanidade ( embora o autor,  em alguns momentos ponha em seus pensamentos
arrependimentos de atos desumanos que perpetrou em plena revolução russa); trata-se apenas de alguém que perdeu sua vida por suas ideias.

E nem o assassino, que mata no México, é também um herói da humanidade; trata-se apenas de um homem que matou por suas ideias .

Prisioneiros de suas ideologias , de suas verdades, cumprem o enredo já há muito traçado por um sistema sem sujeitos que os acorrentou a tal destino .

Encerrei a leitura do livro proposto por minha amiga com um sentimento de tristeza , e confesso que senti naquele momento a falta dos personagens do outro cubano, Pedro Juan Gutiérres , que por sua explosão de humanidade na tragédia da vida- vivida nos aproxima do real e mais nos capacita para a emancipação . Parece que são mais livres .

Serra da Mantiqueira, abril de 2014
Arlindenor Pedro

O pensamento de Padura

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