Robert Kurz – Um crítico da economia política

 

Publicado pela Revista IHU On-Line

Ricardo Antunes, da Unicamp, e Dieter Heidemann, junto com membros do Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão, da USP, refletem sobre o legado da obra e do pensamento do filósofo alemão Robert Kurz.

Por: Graziela Wolfart

Na visão do professor da Unicamp, Ricardo Antunes, a crítica aguda ao capitalismo, a recuperação da teoria do fetichismo da mercadoria e a enorme capacidade de atingir o âmago do capitalismo nas suas críticas são os elementos principais da contribuição e da especificidade da obra de Robert Kurz, falecido no último dia 18 de julho. A IHU On-Line entrevistou por telefone o professor Ricardo Antunes, e por e-mail o professor Dieter Heidemann, que respondeu coletivamente com o Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão, da USP, refletindo sobre o legado do pensamento e da obra de Kurz deixam para o debate contemporâneo sobre a economia e suas relações com a cultura, a sociedade, a política, o mundo do trabalho e as novas tecnologias. Antunes resgata aspectos importantes de Robert Kurz, mas também questiona a sua obra em relação à sua crítica da economia política: “ainda que seja riquíssima em várias dimensões, em outras é prisioneira de um excessivo objetivismo onde o mundo da mercadoria teria tolhido todas as formas alternativas, inclusive a revolução do trabalho”. Já para o Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão, “o pensamento de Kurz buscava enfrentar o maniqueísmo do marxismo tradicional, sempre marcado pela crítica da distribuição das mercadorias capitalistas, enfrentamento que permitia perceber o vazio da sociabilidade mediada por essa forma fetichista de relação que caracteriza a modernização”.

Ricardo Antunes é mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo. Realizou pós-doutorado na University of Sussex e obteve o título de Livre Docência pela Universidade Estadual de Campinas, onde hoje é professor. É autor de Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade no mundo do trabalho (São Paulo: Cortez, 2010), Infoproletários: degradação real do trabalho virtual (São Paulo: Boitempo Editorial, 2009), e O continente do labor (São Paulo: Boitempo Editorial, 2011), dentre outros.

As questões recebidas pelo professor Dieter Heidemann, do Departamento de Geografia da USP, foram respondidas de forma coletiva como “Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão”. Estabelecido desde 1993 no Laboratório de Geografia Urbana (Labur), do Departamento de Geografia da FFLCH/USP, o grupo de estudos realizou desde sempre numa relação de coletividade leituras, debates, traduções de textos de autores publicados nas revistas Krisis e Exit!, em especial de Robert Kurz. A constituição do grupo se deu logo após a primeira visita de Robert Kurz, em 1992, ao Brasil e a São Paulo. Nos últimos tempos, o grupo é coordenado pelo professor Carlos de Almeida Toledo, da Unicamp.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a especificidade da obra e do pensamento de Robert Kurz? Que legado ele deixa para a reflexão contemporânea acerca do capitalismo e da relação entre cultura e economia?

Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão – Ao falarmos da especificidade do pensamento de Robert Kurz do nosso ponto de vista, que somos um grupo de estudos dedicado à obra do autor ao longo dos últimos dezenove anos, desde 1993, não podemos deixar de lado uma sensibilidade e empatia pessoal. Tivemos diversas oportunidades de partilhar com Robert Kurz, no Brasil e na Alemanha, a experiência do debate vivo e isso agora não pode mais ser feito. Os seus textos ainda podem ser lidos e podem nos trazer muitas questões conforme discutiremos abaixo, mas fica a sensação de grande vazio para quem pôde experimentar a vivacidade com que Kurz respondia à realidade em nossos diálogos. Com Kurz estivemos em alguns seminários dos grupos Krisis e Exit!, fizemos trabalhos de campo pela Alemanha e pelo Brasil. Nesses momentos compartilhados pudemos perceber a maneira com que ele partia das observações particulares para sua relação com a forma totalizadora do fetiche. Essas experiências possibilitaram compreender o colapso não só em sua manifestação mais clara na periferia de São Paulo como também por trás da aparência civilizada e próspera da “riqueza” das ruas de Nüremberg. O pensamento de Kurz buscava enfrentar o maniqueísmo do marxismo tradicional, sempre marcado pela crítica da distribuição das mercadorias capitalistas, enfrentamento que permitia perceber o vazio da sociabilidade mediada por essa forma fetichista de relação que caracteriza a modernização. A perspectiva apresentada por Kurz nos permitiu questionar a crítica ao capitalismo centrada na exploração de classes e perceber a exploração de classes como fenômeno da própria forma como entendemos o sistema produtor de mercadorias. Nesse sentido as dicotomias entre desenvolvimento e subdesenvolvimento, entre riqueza e pobreza e mesmo entre política e economia – e, se quisermos, entre cultura e economia, como sugere a questão – passavam a poder ser vistas como duas faces de um processo contraditório. Desnaturalizar a mediação da mercadoria, revelando-a como fetichismo, própria do processo de modernização, possibilitou a Kurz transitar entre temas tão diversos quanto os acima listados, não como uma generalização teórica, mas como revelação dessa mediação concreta presente em todos estes campos. Não se faz cultura sem vender cultura e vender trabalho que produz cultura. O próprio entendimento da cultura, como uma esfera autônoma da sociabilidade capitalista, foi problematizado por Kurz e apresentado em relação à modernização como um processo de autonomização e apagamento que possibilita que essas esferas autonomizadas sejam vistas de forma naturalizada e por isso a-históricas. O processo de apagamento dessas separações, quando questionado por Kurz, sugere que essas categorias só podem ser pensadas em relação ao que esse processo constitui em sua totalidade.

Ricardo Antunes – O principal legado da obra de Robert Kurz é a agudeza, o caráter profundamente crítico que ele apresenta em relação ao sistema do capital. Ele se encontra, a meu ver, na primeira fileira dos principais críticos da economia política hoje, junto com István Mészáros , François Chesnais e David Harvey . Citei propositalmente autores que têm análises diferenciadas, mas que têm em comum uma análise crítica muito profunda do sistema capitalista e seu caráter destrutivo, quer em relação à sociedade em geral, quer em relação à destruição ambiental, ou quer, especialmente, em relação à humanidade que trabalha e se converte em supérfluo e descartável na sociedade atual. O principal legado de Kurz, dentro dessas relações entre economia e mundo extraeconômico, é a atualização que ele fazia, com muita acuidade, do fetichismo da mercadoria. Robert Kurz era crítico em relação à teoria da luta de classes de Marx, e esse é um problema da sua obra (que explicarei mais adiante). Mas no que concerne à teoria do fetichismo da mercadoria, ele foi capaz de mostrar como há um monumental processo de mercadorização das coisas. Kurz faz uma análise muito fina e apurada do fetichismo da mercadoria, mostrando como esse processo de mercadorização acabou atingindo não só as coisas que têm forma material, mas também o espaço dos chamados bens imateriais, que frequentemente são maculados e subsumidos à lógica da mercadoria e, portanto, suscetíveis ao fetichismo. Estes dois eixos (a crítica aguda ao capitalismo e a recuperação da teoria do fetichismo da mercadoria) são, em meu entender, junto com um terceiro ponto, que é a enorme capacidade que Robert Kurz tinha de atingir o âmago do capitalismo nas suas críticas, os elementos principais da sua contribuição e da especificidade da sua obra.

IHU On-Line – De que forma Kurz criticava a economia de mercado, o dinheiro, o Estado e o trabalho? Como essa crítica contribui para que seus leitores e leitoras encontrem perguntas e respostas na busca de uma renovada perspectiva de crítica social e emancipação humana?

Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão – Pode-se dizer que a forma como Kurz criticava a economia de mercado partia da crítica categorial e da maneira como os ideais iluministas positivavam essas categorias apagando o seu caráter contraditório. Se percorrermos os textos desenvolvidos por Kurz na revista Exit!, encontraremos lá temas tão variados que qualquer especialista da universidade recusaria o autor como alguém que não tem bases para discutir tais temas. No entanto, qualquer pessoa que se permita pensar criticamente sobre a vida social capitalista é capaz de perceber a coerência com que o autor articula todas essas críticas. Dessa forma, os problemas sociais concretos, sobre os quais Kurz elaborava a crítica radical, expressavam a sua relação com categorias criticadas por ele como a economia de mercado (mercado, dinheiro, Estado, trabalho), que são desdobramento da forma social fetichista. O Estado, nesse sentido, também é tomado por Kurz como objeto concreto que não pode existir sem a mediação da forma mercadoria que possibilita a mobilização de todo trabalho que dá existência real a ele. Kurz criticava coisas como o automóvel apontando a necessidade de relacioná-lo à forma mercadoria (chamando atenção para o seu processo de produção e consumo); criticava a perspectiva ambientalista, apontando-a como desdobramento da autonomização entre homem e natureza, como uma forma de entender que obscurecia a loucura de consumo dos recursos do planeta historicamente constituída; criticava o racismo que, percebido em sua historicidade, revela o violento processo de afirmação da sociedade produtora de mercadorias surgida na Europa sobre todas as outras formas sociais por ela destruídas. A sociedade modernizadora considerada em seu processo contraditório podia assim apresentar-se como ápice de um desenvolvimento imposto e que não era necessário a todas as formas de organização social.

A crítica da questão de gênero e do trabalho

É de fundamental importância, inclusive para perceber a radicalização das primeiras formulações, a forma como Robert Kurz e Roswitha Scholz se posicionaram em relação à crítica da questão de gênero, apontando que ela não pode ser reduzida a uma dedução ou apenas um desdobramento do fetichismo da mercadoria. Nas formulações referidas à “questão de gênero”, ela se apresenta como cisão fundadora das relações de modernização ou parte cindida. Esse tema parece estar relacionado à separação de Kurz do grupo Krisis com o qual elaborou o Manifesto contra o trabalho e publicou inúmeros artigos desde a revista Crítica Marxista passando pela revista Krisis. Sobre a crítica do trabalho, faz-se necessário ressaltar os debates travados com o marxismo tradicional na crítica ao capitalismo. A ontologia do trabalho, presente no marxismo tradicional, é criticada por Kurz por apresentar uma visão evolucionista da sociedade capitalista, como momento positivo da história humana e como pressuposto para uma emancipação entendida em sentido genérico. A emancipação discutida por Kurz é de uma forma social historicamente determinada, das relações capitalistas, não se confundindo com um paraíso na terra. Ao contrário dessa visão ontológica, Kurz propõe a interpretação do trabalho considerando a historicidade dessa categoria, fundamentalmente moderna. Para Kurz, é impossível constituir uma perspectiva crítica no sentido de uma superação das relações entre Estado, mercado e sociedade civil sem criticar o fundamento dessa sociabilidade que é o trabalho.

O marxismo tradicional

Em relação ao marxismo tradicional, Kurz retoma a crítica à forma valor não se atendo à crítica da mais valia, mas compreendendo-a como desdobramento necessário de uma sociedade que só pode compreender a atividade humana como objetivação, como produção de valor, e daí sua relação necessária com o dinheiro e com o movimento sem fim de fazer de dinheiro mais dinheiro. A teoria crítica radical de Robert Kurz não se propõe a ser a base de uma planificação da vida social pós-capitalista; antes compreende como necessário o deslocamento da teoria de sua função de planificadora da prática. Nesse sentido, a teoria não pode ser tomada como instrumento de uma vanguarda estrategista que se direcione a organizar a prática num sentido positivo, a prática teórica como instrumento crítico não pode defender nenhuma prática que esteja referida às formas que pretende criticar. Nesse sentido, destaca a problemática do fetiche da mercadoria, do trabalho, da política do sujeito, como elementos importantes para a crítica da prática. A prática, por si, amarrada nas formas sociais fetichistas não pode ser hipostasiada como emancipação.

Ricardo Antunes – Em primeiro lugar, Robert Kurz era um defensor, dos poucos hoje, da imperiosa necessidade da emancipação humana. Novamente aqui, a sua herança vem da obra marxiana. A emancipação humana é vital e será obtida partindo de uma crítica radical ao capitalismo. Kurz dizia que o mundo da mercadoria, em particular a mercadoria “dinheiro”, acabava por sufocar as formas alternativas ou contrárias a essa lógica. Eu, particularmente, divergi sempre da tese de Robert Kurz que entendia o trabalho e, por consequência, a classe trabalhadora como tendo perdido seu potencial emancipador por também estar subsumida inteiramente à forma mercadoria. A tese de Kurz, de maneira muito sintética, era a de que, sendo parte do mundo da mercadoria, a mercadoria “força de trabalho” estaria incapacitada de superar a lógica do capital. Por isso, ao mesmo tempo em que Kurz é um agudo crítico à ordem capitalista, ele não desenhava alternativas, porque procurou desconstruir a alternativa do trabalho. Entendo isso como uma lacuna na obra de Kurz. Ele levou ao limite a tese da Escola de Frankfurt – o desencanto em relação ao trabalho. Só que conferiu a essa tese um argumento fundado na economia política, diferente, de certo modo, dos frankfurtianos. Kurz dirá que se a classe trabalhadora é parte da forma mercadoria, ela não quer romper com essa forma, mas melhorar a sua mercadoria “força de trabalho”. Ele perdeu a capacidade de entender que como é a classe trabalhadora que cria o valor e que gera a mais valia, é ela quem propulsiona ao capital e ao capitalista o seu lucro, o trabalho excedente, que acaba gerando lucro. O mesmo proletariado que gera o mais valor é aquele, portanto, em última instância, que valoriza o capital constante. Essa força econômica que decorre do trabalho é potencialmente aquilo que o torna capaz de se converter num sujeito anticapitalista. Então, o comentário crítico que eu faço à obra de Kurz é que a sua crítica da economia política, ainda que seja riquíssima em várias dimensões, em outras é prisioneira de um excessivo objetivismo onde o mundo da mercadoria teria tolhido todas as formas alternativas, inclusive a revolução do trabalho.

IHU On-Line – O que destaca de mais significativo na obra O colapso da modernização (São Paulo: Paz e Terra, 1991)?

Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão – O colapso da modernização, do ponto de vista de nosso grupo de estudos, foi e tem sido o ponto de partida para o entendimento da crítica radical de Robert Kurz. A reflexão crítica sobre o socialismo real, apesar de parecer datada, é, para quem começa a pensar criticamente sobre o processo de modernização, algo decisivo. Kurz possibilita perceber socialismo e capitalismo como duas faces da mesma moeda. A organização da vida social sob a propriedade privada dos meios de produção, ou sob o planejamento estatal, é revelada sob seu fundamento comum de sociedade produtora de mercadorias. A apresentação do socialismo real como modernização retardatária, que dá conta de expropriar os camponeses de seus meios de produção, constitui o pressuposto necessário à transformação do dinheiro em mais dinheiro através da compra e venda da mercadoria força de trabalho. O exame do cotidiano das relações sociais sob o socialismo não permite afirmar a existência de outra forma social senão aquela que socializa o processo de trabalho pela mediação do dinheiro, apropriação privada mediada por um mercado, mesmo que os preços sejam arbitrados pelo Estado. Dizer que os rublos não eram dinheiro é tangenciar a questão fundamental das sociedades produtoras de mercadoria que não tem outro meio de mobilizar o trabalho senão pela coerção direta da violência, ou da violência obscurecida em necessidades “naturais” que o dinheiro permite realizar. O colapso do socialismo real, que não resulta de um enfrentamento direto entre os supostos sistemas capitalista e socialista, mas da própria impossibilidade de manter o pleno emprego pela via do planejamento estatal – no momento em que o avanço das forças produtivas torna o trabalho a mais miserável das mercadorias –, só pode ser adequadamente compreendido como crise do trabalho como mediação social. Trata-se de levar a sério as consequências da terceira revolução industrial, o que é difícil para a consciência do moderno cidadão trabalhador ou mesmo empresário da própria miséria com seus parâmetros coisificados.

Ricardo Antunes – O principal mérito da obra O colapso da modernização foi mostrar que a crise do leste europeu, que é equivocadamente chamada de “socialismo real”, e o colapso da União Soviética e dos países do leste europeu, não foi uma crise do socialismo, mas um momento da crise estrutural e global do sistema de capital, que Kurz chamava de “sistema produtor de mercadorias”. Essa crise, num primeiro momento, ao longo dos anos 1970 e 1980, devastou os países do sul. Já num segundo momento, dizia Kurz, dessa crise estrutural, global, do sistema produtor de mercadorias, foi devastada a União Soviética e os países do leste europeu que, segundo ele, não foram capazes de instaurar um modo de produção fundado na autonomia e na livre atividade dos seres humanos, tornados sociais. E no seu livro O colapso da modernização ele sinalizava que a próxima etapa da crise seria devastadora em relação aos países capitalistas avançados. Nesse sentido, ele foi premonitório, porque a crise que atinge desde 2008 os Estados Unidos, a Europa inteira e o Japão, mostra que o furacão começou pelo sul do mundo, chegou ao leste do mundo e agora está devastando o centro capitalista mundial. Então, esse é o principal legado do livro O colapso da modernização: ter mostrado que a crise do leste europeu é parte do processo de esgotamento global do sistema de capital.

IHU On-Line – Como Robert Kurz se tornou conhecido no Brasil?

Ricardo Antunes – Ele chegou ao Brasil por meio da publicação na página 3 da Folha de S.Paulo, de um artigo de Roberto Schwarz , que tinha recentemente terminado a leitura de um livro de Kurz e havia ficado impactado pela importância da obra, resolvendo apresentar na página aí alguns dos principais méritos desse livro . Como se trata de uma página de ampla circulação, rapidamente o livro começou a ser citado. E já estava, inclusive, em processo de preparação para publicação pela editora Paz e Terra. Pouco tempo depois, Kurz tornou-se também colaborador do Caderno Mais da Folha de S.Paulo, onde escrevia com certa periodicidade. Os artigos de Kurz eram esperados por serem sempre uma crítica aguda ao capitalismo. Raros foram os textos “infelizes” que ele publicou. Em geral, eram textos polêmicos, que nos obrigavam a uma reflexão muito aprofundada.

IHU On-Line – Qual a contribuição específica de Kurz para a economia e suas relações com a política (principalmente com a esquerda), com a sociedade chamada pós-moderna, com o mundo do trabalho e com as novas tecnologias?

Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão – A contribuição de Robert Kurz proporcionou uma nova forma de entender as relações sociais capitalistas. A crise da mediação social não significa que o dinheiro deixe de comandar o trabalho, mas a perda de poder do trabalho diante do dinheiro que resulta, num primeiro momento, num processo de humilhação social daqueles que nada mais possuem senão seu tempo de vida para conseguir dinheiro. No entanto, o próprio poder do dinheiro, conforme Kurz nos ajuda a pensar, não pode seguir se valorizando sem a possibilidade de produzir mais e mais mercadorias que precisam encontrar consumidores solventes. Desse processo contraditório resulta a acumulação de uma enorme quantidade de dinheiro vagabundo, de capital fictício que não pode valorizar-se em processo de produção real. Segue-se um movimento que Kurz chama de pendular entre estado e mercado. A crise do capital fictício quando manipulado pelo estado para criar consumidores solventes manifesta-se como hiperinflação levando à crítica das políticas estatais e ao neoliberalismo. Assim como a acumulação de capital fictício pelo setor privado resulta em processos depressivos deflacionários como os que a sociedade mundial vive atualmente. Neste momento o estado é novamente chamado a intervir gerando poder de compra, o que não pode resultar senão em outro processo hiperinflacionário dada a crise do trabalho. Nesse sentido, não se pode dizer que exista, para Kurz, alguma sociedade pós-moderna. No entanto, a percepção da sociedade moderna sobre seu fim revela todo o desconforto de viver na sociedade mais rica em termos materiais que a história já conheceu. Isso não significa que basta simplesmente distribuir de forma mais justa a riqueza produzida. Os valores de uso que essa sociedade consome não são nada neutros em relação à catástrofe social e ambiental que produz esse desconforto. A distribuição de automóveis nunca foi tão ampla, entretanto suas consequências negativas em relação à vida social são desnecessárias de serem apresentadas a um consumidor paulistano, por exemplo. Vale ressaltar que a teoria crítica da modernização não permite afirmar como superar esta forma social, mas permite insistir na recusa radical do existente e na capacidade crítica que pode ser desenvolvida em relação às práticas. Ou seja, é necessário desmascarar constantemente tudo aquilo que se apresenta como pós-moderno, revelando ali as formas de valor e de cisão que seguem presentes na vida social.

Ricardo Antunes – Kurz fazia uma relação muito forte entre economia e política, a tal ponto de ele dizer que a economia tinha se convertido num teatro meio farsante, cujos atores eram os grandes complexos corporativos econômicos. De modo que os governos perdiam completamente qualquer possibilidade de autonomia, mesmo que relativa, uma vez que se tornavam peões na articulação complexa das transnacionais e das grandes corporações. Por isso que ele era muito descrente da política, que era vista por ele como o espaço da razão instrumental completamente maculada pelo mercado, pelo dinheiro e pelo capital. Consequentemente, Kurz fazia uma crítica muito dura à esquerda, por achar que as esquerdas eram prisioneiras da velha política, sendo ele um crítico agudo dos partidos, dos sindicatos, ambos parte da forma mercadoria. Ele dizia: “a esquerda que ainda luta em sindicatos e ainda luta pelos partidos está fadada ao insucesso”. Aí ele dava vazão ao seu limite eurocêntrico e frankfurtiano. No que concerne às novas tecnologias, sua análise tem um duplo movimento: por um lado, ela era muito interessante para mostrar como essas novas tecnologias eram prisioneiras das relações sociais moldadas pelo capital. Por outro lado, ele achava que o capital constante, cuja intensidade se amplificava no mundo contemporâneo pelo avanço das tecnologias, era o que resultava no aumento do maquinário informacional e digital. E esse potencial da máquina e da ciência teria travado a teoria do valor.

IHU On-Line – Qual a originalidade da leitura marxiana de Kurz? Qual a herança que ele deixa para a vertente de pensamento chamada Wertkritik (“crítica do valor”)?

Ricardo Antunes – Um dos elementos mais originais da sua obra está no fato de que ele atualiza a teoria do fetichismo da mercadoria. Um segundo elemento é a sua crítica ao valor. Entendo-a como sendo um dos veios mais originais de Kurz, mas, ao mesmo tempo, mais problemático, porque, no fundo, a teoria do valor tinha entrado em ponto de saturação e estando nesse ponto, as engrenagens geradoras do valor e da mais valia não encontravam mais, segundo Kurz, sua impulsão no trabalho. De modo que o maquinário tecnoinformacional e digital, ao potencializar o valor, abria caminho para eliminá-lo.

IHU On-Line – Como o grupo define a “energia negatória” presente nos escritos de Kurz?

Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão – O termo energia negatória – e isso tem a ver com a perspectiva crítica que a teoria tem que assumir – precisa ser pensado sob um duplo aspecto. Algo como uma energia negatória é importante dada a naturalização proporcionada pela própria forma social fetichista que obscurece quase sempre as suas contradições. O nojo a qualquer forma de política ou ação social, cultural e afirmativa é o outro lado dessa questão. Assim, não se trata de definir o que seria uma energia negatória, mas antes de examinar sob a ótica da crítica categorial os termos positivos com que a sociedade enuncia seus problemas, sempre afirmando ser possível a correção de rumo e a melhoria dos seus procedimentos. A teoria crítica radical não propõe nenhuma forma social nova, tampouco identifica nenhum sujeito revolucionário. Kurz propõe que pensemos o sujeito como forma social inerente ao processo de modernização. Por isso não se trata de encontrar, como sujeito, a prática certa, mas de enfrentar as práticas como inerentemente fetichistas e, portanto, objetos de crítica. O sujeito sujeitado precisa saber-se sujeitado. A subjetividade entendida como produtora de objetividades é o trabalho, o entendimento da atividade seja ela qual for, é neste sentido, trabalho sempre abstrato, não permitindo uma compreensão processual e relacional das atividades. Criar um filho, por exemplo, no processo de modernização passa a ser passível de decomposição em uma série de processos de trabalho, eles mesmos passíveis de serem cumpridos por outros sujeitos sujeitados por sua necessidade de ganhar dinheiro. A ausência de consideração pelos aspectos relacionais não redutíveis a processos de trabalho resulta na reprodução dos sujeitos como meros trabalhadores, meros produtores de objetividade e em si, sujeitos objetivados a serem criticados e autocriticados.

IHU On-Line – Gostariam de acrescentar mais algum comentário?

Grupo de Estudos de Crítica ao Valor-Cisão – Seria interessante chamar atenção para o fato de que este grupo de estudos que responde a essa entrevista não se propõe a substituir a fala do autor. Existe uma produção importante e interessante de Robert Kurz já traduzida para o português e existem textos importantes a serem traduzidos ainda como O Livro Negro do capitalismo no qual o autor se propõe a revelar os “moinhos satânicos” do processo de modernização que constituíram nossa consciência fetichizada, a constituição de nossas relações fetichistas. O grupo de estudos que se dedica à leitura e debate desses textos tem percebido constantemente a dificuldade de aprofundamento desse debate em torno de uma teoria crítica do valor cisão. De nossa perspectiva ainda há muito a discutir na obra de Kurz. Nossas tentativas pessoais de pensar as particularidades do processo de modernização, muitas vezes consolidadas em artigos, dissertações e teses, têm revelado o potencial de tais reflexões. Elas têm revelado também a facilidade de transformar uma teoria radical crítica em argumento de autoridade que justifica as práticas que desenvolvemos como trabalho. Nesse sentido nossa manifestação sobre a perda de possibilidade de partilhar experiência com Kurz não poderia estar completa sem exercer a autocrítica sobre nossas próprias práticas. Não pensamos, portanto, que seja suficiente estabelecer uma relação acadêmica com os escritos de Robert Kurz. É muito mais importante estabelecer um cotidiano vivo de debates sobre as práticas visando superar o maniqueísmo de uma teoria crítica que se contenta em apontar os problemas objetivos do capitalismo. Isso pode ser feito assumindo a teoria do valor cisão como pressuposto de crítica e autocrítica das práticas fetichistas que não podem ser superadas pelos simples processo de estudo da teoria e nem podem prescindir desses estudos. “Toda ideia morre se ela não for levada adiante” (Kurz). Para nós este é um momento de muita tristeza que não pode ser expresso nem sentido por meros leitores de uma obra; Robert Kurz era para nós muito mais do que uma referência bibliográfica.

Quem foi Robert Kurz?

Robert Kurz, filósofo alemão, crítico radical e contundente do “moderno sistema produtor de mercadorias”, morreu, aos 68 anos, no último dia 18 de julho.

Estudou Filosofia, História e Pedagogia. É cofundador e redator da revista teórica EXIT! — Kritik und Krise der Warengesellschaft (EXIT! — Crítica e Crise da Sociedade da Mercadoria).

Entre seus livros publicados em português, citamos O colapso da modernização (São Paulo: Paz e Terra, 1991), O retorno de Potemkin (São Paulo: Paz e Terra, 1994) e Os últimos combates (Petrópolis: Vozes, 1998).

Kurz nasceu em Nuremberg, no dia 24 de dezembro de 1943. Na Alemanha, participou do movimento Wertkritik (crítica do valor) impulsionado pelo grupo Krisis que publicou, em 1999, o importante “Manifesto contra o trabalho”.

Em 2003, o filósofo Anselm Jappe, em seu livro As aventuras da mercadoria – para uma nova crítica do valor (Lisboa: Antígona, 2006), apresentou os desenvolvimentos teóricos do trabalho de Kurz e do grupo Krisis.

Em abril de 2004, o grupo Krisis sofre uma cisão, e Robert Kurz, Roswitha Scholz e Claus Peter Ortlieb criam um novo grupo, em torno da revista EXIT! – Kritik und Krise der Warengesellschaft.

Robert Kurz contribuiu, sempre com muita solicitude, com a revista IHU On-Line. Sempre que solicitado, nos atendia prontamente, expondo, erudita e detidamente, a sua crítica radical do moderno sistema produtor de mercadorias.

Releia as entrevistas exclusivas concedidas por ele à nossa redação:

* A esquerda e a dialética sujeito-objeto do fetichismo moderno. Edição número 287, de 30-03-2009

* “O vexame da economia da bolha financeira é também o vexame da esquerda pós-moderna”. Edição número 278, intitulada A financeirização do mundo e sua crise. Uma leitura a partir de Marx, de 21-10-2008

* “Novas relações sociais não podem ser criadas por novas tecnologias”. Revista IHU On-Line nº 161, de 24-10-2005, intitulada As obras coletivas e seus impactos no mundo do trabalho

* “A globalização deve se adaptar às necessidades das pessoas, e não o contrário”. Revista IHU On-Line nº 98, de 26-04-2004, intitulada A crise da sociedade do trabalho. Estamos saindo do capitalismo industrial?

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