Autodestruição sistémica global, insurgências e utopias – Jorge Beinstein

Pelo seu enorme interesse reproduzimos no nosso idioma o relatório do economista comunista argentino Jorge Beinstein no ciclo de palestras “Os reptos da humanidade: a construção social alternativa”, promovido pelo Centro de Investigações Interdisciplinares em Ciências e Humanidades (CEIICH) da Universidade Nacional Autónoma de México, realizado entre 23 e 25 de outubro de 2012.

Publicado no Diário Liberdade
Imagem de Pawel Kuczynski

Autodestruição sistémica global, insurgências e utopias

Aceleração da crise

O fatalismo global abandona a sua máscara otimista neoliberal de outros tempos (que sobreviveu durante o primeiro tramo da crise desatada em 2008) e vai assumindo um pessimismo não menos avassalador. No passado, os meios de comunicações explicavam-nos que nada era possível fazer ante um planeta capitalista cada dia mais próspero (embora infestado de crueldades), só nos ficando a possibilidade de adaptarmo-nos, a uma ruidosa massa de opiniões de peritos que avalizavam as grandes consignas com argumentos científicos irrefutáveis (os críticos não podiam fazer-se ouvir à frente da avalanche midiática ). A isso chamou-se de discurso único, que aparecia como um formidável instrumento ideológico e prometia acompanhar-nos durante vários séculos, ainda que tenha durado umas poucas décadas e tenha se esfumado em menos de um lustro.

Agora à reprodução ideológica do sistema mundial de poder começa a acudir a um novo fatalismo profundamente pessimista baseado na afirmação de que a degradação social (desdobrada como resultado da “crise”) é inevitável e prolongar-se-á durante muito tempo.

Como no caso anterior, os meios de comunicações e a sua corte de peritos explicam-nos que nada é possível fazer além do que adaptarmo-nos (novamente) ante fenômenos universais inevitáveis. Como qualquer outra civilização , a atual,em última instância , controla os seus súditos persuadindo-os a respeito da presença de forças imensamente superiores às suas pequenas existências, impondo a ordem (e o caos) ante as quais devem inclinar-se respeitosamente. O “mercado global”, “Deus” ou outra potência de dimensão oceânica, cumprem essa função e os seus sacerdotes, tecnocratas, generais, empresários ou dirigentes políticos não são mais do que executores ou intérpretes do destino, o que de passo legitima os seus luxos e abusos.

Assim é como em setembro de 2012 Olivier Blanchard, economista chefe do Fundo Monetário Internacional, anunciava que “a economia mundial necessitará no mínimo dez anos para sair da crise financeira que começou em 2008” (1). Segundo Blanchard o esfriamento durável dos quatro motores da economia global (Estados Unidos, Japão , China e a União Europeia) obriga-nos a descartar qualquer esperança numa recuperação geral a curto prazo. Ainda mais duro, em agosto do mesmo ano,o Banco Natixis integrante de um grupo que assegura o financiamento de aproximadamente 20% da economia francesa, publicava um informe intitulado “A crise da Zona Euro pode durar vinte anos” (2).

Encontramo-nos ante um problema que dificilmente possa resolver as elites dominantes: a cultura moderna é filha do mito do progresso, uma e outra vez pode cativar os de abaixo com a promessa de um futuro melhor neste mundo e ao alcance da mão- e isto a diferencia de experiências históricas anteriores. As épocas de penúria são sempre descritas como provisórias,preparatórias do grande salto para tempos melhores. A reconversão da cultura dominante num pessimismo de longa duração aceita pelas maiorias não parece viável, e no mínimo é de muito difícil realização que seja bem-sucedida, não só nos países ricos senão também na periferia, sobre tudo nas chamadas sociedades emergentes. Só populações radicalmente degradadas poderiam aceitar passivamente um futuro negro,sem saída à vista. As elites imperialistas espancadas, desestabilizadas pela falência econômica, sem projetos de integração social poderiam encontrar na degradação integral dos de baixo (os seus pobres internos e os povos periféricos) uma arriscada alternativa possível de sobrevivência sistémica.

Autodestruição

O capitalismo como civilização ingressou num período de declínio acelerado e uma primeira aproximação ao tema mostra que nos encontramos ante o fracasso das tentativas de superação
financeira da crise que se desatou em 2008, embora uma avaliação mais profunda nos levasse à conclusão de que o objetivo anunciado polos governos dos países ricos (a recomposição da prosperidade económica) ocultava o verdadeiro objetivo: impedir o derrubamento da atividade financeira que fora a droga milagrosa das economias centrais durante varias décadas. Dentro desse ponto de vista as estratégias aplicadas foram bem-sucedidas, e conseguiram adiar durante quase um lustro um desenlace que se aproximava rapidamente quando se esvaziou a bolha imobiliária norte-americana.

Uma visão mais ampla que nos indica que o que aconteceu em 2008 foi o resultado de um processo iniciado no final de 1960 e início de 1970, quando a maior crise económica da história do capitalismo não seguiu o caminho clássico (como mostrou o século XIX e a primeira metade do século XX), com gigantescos derrubamentos de empresários e uma rápida mega avalanche de desemprego nas potências centrais, mas foi controlada com o uso de poderosos instrumentos de intervenção do Estado em conjunto com a reengenharia tecnológica e financeira de grandes grupos económicos.

Essa resposta não permitiu superar as causas da crise, na verdade, aumentou para níveis recordes, desencadeando uma onda global de parasitismo e pilhagem dos recursos naturais, o que gerou uma estagnação total da produção na área imperial do mundo, impondo uma contração económica do sistema como fenômeno transitório, mas não como tendência de longa duração .

É um complexo processo de decadência, percebível apenas revisando dados tais como o volume de massa financeira equivalente a 20 vezes o Produto Bruto Mundial e seu sustentáculo: a super dívida público-privada nos países ricos que bloqueia a expansão de consumo e do investimento, o declínio dos recursos energéticos tradicionais (sem uma substituição decisiva próxima) ou a destruição ambiental. E também a transformação das elites capitalistas numa teia de redes criminosas que marca com o seu selo as estruturas de agressão militar, tornando-as numa combinação de instrumentos formais (convencionais) e informais, onde, prevalecem estes últimos através de um conjunto sem precedentes de bando de mercenários e manipulações mediática de alcance global, “bombardeios humanitários” e outras ações inscritas em estratégias de desestabilizacão integral que apontam para a desintegração de vastas áreas periféricas. Afeganistám, Iraque, Líbia, Síria … México ilustram bem sobre o futuro burguês das nações pobres.

A área imperial do sistema degrada-se, e ao mesmo tempo intenta degradar, caotizar ao resto do mundo, quando pretende controla-lo , sobrexplora-lo . É a lógica da morte convertida em desenvolvimento central do capitalismo, tornado senil e desdobrando o seu manto tanático (a sua cultura final) que é em última instância de autodestruição, ainda que pretenda ser uma constelação de estratégias de sobrevivência .

Cada passo das potências centrais para a superação da sua crise é na realidade mais um empurrão para o abismo. Os subsídios outorgados aos grupos financeiros avultaram as dívidas públicas sem lograr a recomposição durável da economia, e quando depois tratam de frenar esta dívida restringindo gastos estatais ao tempo que esmagam salários com a finalidade de melhorar o lucro empresarial, agravam o estancamento convertendo-o em recessão , deterioram as fontes dos recursos fiscais e eternizam o peso das dívidas. Frente ao desastre impulsionados pelas máfias financeiras alça-se um coro heterogêneo de neoliberais moderados, semikeynesianos, regulacionistas ,e outros grupos, que exigem suavizar os ajustes e alentar o investimento e o consumo, isto é : seguir inflando as dívidas públicas e privadas… até que se recomponha um suposto circulo virtuoso do crescimento (e do endividamento) encarregado de pagar as dívidas e restabelecer a prosperidade… ao que os tecnocratas duros (sobretodo na Europa) respondem que os estados, as empresas e os consumidores estão saturados de dívidas e que o velho caminho da exuberáncia monetária-consumista deixou de ser transitável. Ambos bandos têm razão, porque nem os ajustes nem os repartes de fundos são viáveis a médio prazo, pois na realidade o sistema é inviável.

As agressões imperialistas quando conseguem derrotar os seus “inimigos” não logram instalar sistemas coloniais ou semi coloniais estáveis como no passado,senão que engendram espaços caóticos. É assim porque a economia mundial em declive não permite integrar as novas zonas periféricas submetidas, os espaços conquistados não são absorvidos por negócios produtivos ou comerciais medianamente estáveis da metrópole,senão saqueados por grupos mafiosos e por vezes simplesmente empurrados para a decomposição . Enquanto que os gastos militares e paramilitares dos Estados Unidos, o centro hegemónico do capitalismo, incrementam o seu deficit fiscal e as suas dívidas.

Fica assim ao descoberto um aspeto essencial do imperialismo do século XXI,mudando para uma dinâmica de desintegração geral de alcance planetário. Isto é advertido não só por alguns partidários do anti-capitalismo, senão desde há um certo tempo, por um número crescente de “prestigiosos”(midiáticos) defensores do sistema, como o guru financeiro Nuriel Roubini,quando proclamava para meados de 2011 que o capitalismo ingressara num período de autodestruição (3).

É um lugar comum a afirmação de que o capitalismo não se derrubará por si só, senão que é necessário derrubá-lo.Por conseguinte aqueles que chamam para a tendência para a autodestruição do sistema são acusados de ignorar as suas fortalezas, e sobretodo de fomentar a passividade ou as ilusões a respeito de possíveis “vitórias fáceis” que desarmam, distraem a quem luta por um mundo melhor.

Na realidade ignorar ou subestimar o carácter auto-destrutivo do capitalismo global do século XXI significa desconhecer ou subestimar fenómenos que sobre-determinam o seu funcionamento como a hegemonia do parasitismo financeiro, a catástrofe ecológica em curso, o declínio dos recursos naturais, especialmente os energéticos, catalisada pela dinámica tecnológica dominante, a incapacidade da economia mundial para seguir crescendo levando-a a acelerar a concentração de riquezas e a marginaçom de milhares de milhões de seres humanos que “estão sobrando” desde o ponto de vista da reprodução do sistema. Em suma, o ingresso a uma era marcada pela reprodução ampliada negativa das forças produtivas da civilização burguesa, ameaçando a longo prazo a sobrevivência da maior parte da espécie humana.

Presenciamos, portanto, a uma subestimação de aparência voluntarista, que oculta a devastadora radicalidade da decadência e em conseqüência a necessidade da interrupção de um voluntarismo insurgente (anti-capitalista) capaz de impedir que o derrube nos sepulte a todos. Dito doutra maneira, não nos encontramos ante uma “crise cíclica” com alternativas de recomposição de uma nova prosperidade burguesa, ainda que elitista, senão ante um processo de degeneração sistémica total.

A história das civilizações recorda-nos numerosos casos (começando pelo do Império Romano) onde a hegemonia civilizacional que conseguia reproduzir-se no meio da decadência anulava as tentativas superadoras, engendrando descomposições que incluíam vítimas e verdugos.

A contrarevolução ideológica que dominou a pós-guerra fria embalou um tipo de marxismo conservador, que caricaturou a teoria da crise de Marx, reduzindo-a a uma sucessão infinita de “crises cíclicas” das quais o capitalismo conseguia sempre sair, graças à exploração dos trabalhadores e da periferia – o ogro era denunciado ficando demonstrado mais umha vez quem era o vilão do filme.

Mas a história não se repete, nenhuma crise cíclica mundial se parece a outra, e todas elas para serem realmente entendidas devem ser incluídas no recorrido temporal do capitalismo, no seu grande e único super ciclo. É o que nos permite por exemplo distinguir as crises cíclicas de crescimento, juvenis do século XIX, das crises senis de finais do século XX e do século XXI.

Por outra parte, é necessário descartar a ideia superficial de que a autodestruição do sistema equivale ao suicídio histórico ilhado das elites globais, liberando automaticamente das suas cadeias o resto do mundo, que um bom dia descobre que o amo morreu e que dá rédea larga à sua criatividade. É o mundo burguês na sua totalidade que iniciou a sua autodestruição e não só as suas elites, é toda uma civilização com as suas hierarquias e mecanismos de reprodução simbólica, produtiva, etc. que chega ao seu tecto histórico e começa a contrair-se, a desordenar-se pretendendo arrastar todos os seus integrantes, centro e periferia, privilegiados e marginais, opressores e oprimidos… o naufrágio inclui todos os passageiros do navio.

Decadência global

A autodestruição aparece como a culminação da decadência e abrange o conjunto da civilização burguesa, não como um fenómeno “estrutural” senão como totalidade histórica,com todas as suas herdanças nas costas: culturais, militares, produtivas, institucionais, religiosas, tecnológicas, morais, científicas, etc. Trata-se da etapa descendente de um prolongado processo civilizacional, com um auge de algo mais de duzentos anos, precedido por uma prolongada etapa preparatória e que chegou a assumir uma dimensão planetária.

Decadência geral, muito mais que “crises” (as crises que se vão sucedendo aparecem como turbulências, solavancos no recorrido da doença), o fenômeno inclui as duas configurações básicas do sistema: a central (imperialista, “desenvolvida”, rica) e a periférica (”subdesenvolvida”, globalmente pobre, “emergente” ou submergida, com as suas áreas de prosperidade dependente e de miséria extrema).

Os primeiros anos após a rutura de 2008 mostraram o início do fim da prosperidade das economias dominantes, enquanto um bom número de países periféricos continuavam crescendo,sobretudo a China, em torno da qual foram tecendo-se ilusões com respeito à uma recomposição mundial do capitalismo à partir do subdesenvolvimento convertido numa avalanche industrial-exportadora. Porém, a expansão da economia china dependia do poder de compra de seus principais clientes: os Estados Unidos, o Japão e a União Europeia, e como já se pode ver em 2012 a desaceleração desses compradores desacelerou o engendro industrial exportador da periferia (o negócio da superexploração da mão de obra barata china encontra limites significativos). Em síntese: no há qualquer descolamento capitalista possível do declínio mundial do sistema.

A decadência é acima de todo decadência ocidental, degradação do centro imperialista. Do fim do século XVIII, quando se iniciou o acenso industrial, até os primeiros anos do século XXI, o capitalismo esteve marcado pelo domínação inglesa-norteamericana. A Inglaterra no século XIX, e os Estados Unidos na maior parte do século XX,cumpriram a função reguladora do conjunto do sistema, impondo a hegemonia ocidental, e ao mesmo tempo subordinando os rivais que apareciam no interior de Ocidente.A França foi deslocada no inícios do século XIX e a Alemanha na primeira metade do século XX.

A ascensão ocidental do capitalismo vinha se dado não só por fatores econômicos e militares,senão por um conjunto mais vasto de aspetos decisivos do sistema (estilo de consumo, arte, ciência, perfis tecnológicos, desenhos políticos, etc.). O que agora é visualizado como despolarização, ou fim da unipolaridade, dito como perda de peso do imperialismo norte-americano (paralelo ao declínio europeu), sem substituto à vista, expressa a desarticulação do capitalismo como sistema global, que deve ser entendida não só como desestruturacao política e militar,senão também cultural, no sentido amplo do conceito, é a história de uma civilização que entra no ocaso.

Dito de outra maneira, a reprodução ampliada universal, mas não ocidentalista do capitalismo,é uma ilusão sem apoio histórico, sem embriões visíveis reais no presente. Recordemos o fiasco do chamado milagre japonês dos anos 1960-1970-1980 e os prognósticos dessa época com respeito ao “Japão primeira potencia mundial do século XXI” seguidos até há pouco por especulações não menos fantasiosas sobre o iminente ascenso chinês à categoria de primeira potencia capitalista do planeta.

Esgotamento financeiro

É possível assinalar fenómenos que marcam a declinação sistémica. Um deles é o da hipertrofia financeira,que como sabemos foi expandindo-se enquanto descendiam as taxas de crescimento do Produto Bruto Mundial desde os anos 1970. Quando estourou a crise de 2008 a massa financeira global equivalia aproximadamente a umas vinte vezes o PBM. A sua coluna vertebral visível, os produtos financeiros derivados registrados pelo Banco de Basileia representavam em Junho de 2008 11,7 vezes o PBM (contra 2,5 vezes em Junho de 1998, 3,9 vezes em Junho de 2002, 5,5 vezes em Junho de 2004, 7,8 vezes em Junho de 2006). Mas desde meados de 2008 essa massa deixou de crescer, tanto na sua relação com o PBM como em termos absolutos . Chegara nesse momento a uns 683 milhões de milhões de dólares nominais, alcançou os 703 milhões de milhões em Junho de 2011 baixando a 647 milhões de milhões em dezembro de 2011 (4).

Encontramo-nos agora ante um fenómeno de esgotamento financeiro. No passado (posterior dos anos 1970) a expansão das dívidas dos estados, as empresas e os consumidores permitiram crescer as economias dos países ricos mas o endividamento foi chegando ao limite,enquanto lá se saturavam importantes mercados (como os do automóvel e outros bens duráveis). Dívidas, consumos tradicionais e parasitários, redes comerciais, etc. em torno dos quais se inflavam as atividades especulativas alcançaram a sua fronteira por volta de 2007-2008.A a droga acabara por esgotar a dinámica capitalista e ao decair os clientes estancaram-se os negócios dos dealers ou seja do espaço hegemónico do sistema.

O capitalismo financeirizado, resultado de uma prolongada crise de superprodução potencial controlada, mas não resolvida, parasitou cada dia mais vorazmente,finalmente esgotando a sua vitima, e ao fazê-lo bloqueou a sua própria expansão .

Visto de outra maneira, a reprodução ampliada do capitalismo atravessando com sucesso uma longa sucessão de crises de superprodução deu finalmente um filho a seus pais fundadores: as finanças, o fez sobreviver ,porque sem essa droga nao poderia ter saído do atoleiro dos anos 1970-1980. Iniciado o caminho ficou pegado para sempre,pois mais difícil era o crescimento .Mas a droga necessitava ser consumida , e depois de cada breve vaga de prosperidade económica global (a sua euforia efémera) chegava o estado depressivo que reclamava mais droga, as taxas de crescimento ziguezagueavam por volta de uma linha de tendência descendente e a massa financeira mundial expandia-se em progressão geométrica. A festa terminou em 2008.

Bloqueio energético e crise tecnológica

Outro fenómeno importante é o do bloqueio energético. O capitalismo industrial pode decolar no fim do século XVIII porque a Europa imperial acrescentou à exploração colonial à desestruturacao do seu universo rural (o qual lhe proporcionou mao de obra abundante e barata) um processo de emancipação produtiva, a despeito das limitadas e caras fontes energéticas convencionais, como a correntes dos rios, que permitiam o funcionamento dos moinhos, a madeira dos bosques e a energia animal. A solução foi o carvão mineral e, por volta do mesmo, a ampliação sem precedentes da exploração mineira.O seu polo dinámico foi o capitalismo inglês.

A depredação crescente de recursos naturais atravessou todos os modelos tecnológicos do capitalismo, e se considerarmos a totalidade do ciclo industrial (do fim do século XVIII a atualidade) poderíamos referir-nos ao sistema tecnológico da civilização burguesa baseado na dissasociaçao cultural do homem e a “natureza”,assumindo a esta última como um universo hostil, objeto de conquista e pilhagem.

Ao auge do carvão mineral do século XIX sucedeu-lhe o do petróleo no século XX,e por volta dos inícios do século XXI foi esgotada aproximadamente a metade da reserva original desse recurso. Isso significa que já nos encontramos na zona qualificada como acima do nível máximo possível de extração petroleira à partir da qual se estende uma inevitável descida extrativa.Desde meados da década passada deixou de crescer a extração de petróleo cru.

Supondo-se a existência de substituições energéticas viáveis a grande escala e a longo prazo, quando aceitamos as promessas tecnológicas do sistema (para um futuro incerto) e os introduzimos no mundo real com os seus ritmos de reprodução econômicas concretos a médio e curto prazo ,nos encontramos ante um bloqueio energético insuperável. Se pensarmos no que resta da década atual comprovaremos que não aparecem substituições energéticas capazes de compensar o declínio petroleiro.

Dito de outra maneira, o preço do petróleo tende a subir e a especulação financeira por volta do produto empurra-o ainda mais para acima, independentemente de alguma aventura militar ocidental, como por exemplo um ataque israelita-estadounidense contra Iram, e o conseqüente fechamento do estreito de Ormuz , o que levaria o preço às nuvens. Tudo isso significa que os custos energéticos da economia converteram-se num fator decisivo militante da sua expansão, e um cenário turbulento causaria uma contração catastrófica das atividades econômicas a nível global .

Não se trata só do petróleo, senão de um amplo esgotamento de recursos minerais que se encontram no cume da sua exploração , próxima da mesma ou já na etapa de extração declinante (5) afetando a industria e a agricultura.Por exemplo, o declínio da produção mundial de fosfatos, componente essencial para a produção de alimentos, a mais de duas décadas (6).

Passamos por tanto do tema do bloqueio energético a outro mais vasto, o do bloqueio dos recursos mineiros em geral e ao do sistema tecnológico da civilização burguesa que o engendrou. Nesse sistema temos que incluir as suas matérias primas básicas, os seus procedimentos produtivos e o seu apoio técnico-científico, a sua dinámica e estilo de consumo civil e de guerra, etc., ou seja ao capitalismo como civilização .

Assistimos agora à procura vertiginosa de “substitutos” energéticos de diversos minerais, etc., destinados a seguir alimentando uma estrutura social decadente cuja dinámica de reprodução nos diz que mais da metade da humanidade “está demais”e que em conseqüência a “civilização ” marcou um caminho futuro habitado por uma sucessão de mega genocídios.

Mas a decadência leva-nos a pensar que todos esses “recursos necessários” para a sustentação de sociedades e elites parasitárias não são necessários em um outro tipo de civilização ou no mínimo o são em volumes muito mais reduzidos. No estão demais os pobres e excluídos do planeta, estão demais o capitalismo,com os seus objetos de consumo luxuoso, os seus sistemas militares, o seu esbanjamento obsceno.

Da superprodução controlada à crise geral de subprodução

É possível descrever o trajeto por volta de pouco mais de quatro décadas que conduziu para a situação atual. No início, entre aproximadamente 1968 e 1973, encontramo-nos ante uma grande crise de superprodução nos países centrais que, como já assinalei nos derivou em um derrube generalizado de empresas e numa avalanche de desocupação ao estilo “clássico”, senão em um complexo processo de controle da crise, que incluiu instrumentos de intervenção pública destinados a sustentar a demanda, a liberação dos mercado financeiros, esforços tecnológicos e comerciais das grandes empresas. E também a ampliação do espaço do sistema, por exemplo integrando a ex União Soviética como provedora de gás e petróleo e a China como provedora de mão de obra industrial barata.

As mudanças não se produziram de maneira instantânea,e sim gradualmente em resposta às sucessivas conjunturas,mas finalmente converteram-se num novo modelo de gestão do sistema chamado neoliberalismo, girando por volta de três orientações decisivas marcadas pelo parasitismo: a financeiracao da economia, a militarização e o saqueio desenfreado de recursos naturais.

O processo de financeiração concentrou capitais,parasitando-o sobre a produção .O consumo, a incorporação de centenas de milhões de obreiros chineses e de outras zonas periféricas, além do saque dos recursos naturais permitiu reduzir custos e desacelerar a queda dos benefícios industriais.

O resultado visível no início do século XXI é o afogo financeiro do sistema, a degradação ambiental e o início do declínio da exploração de numerosos recursos naturais,tanto os não renováveis como os renováveis (ao falir os seus ciclos de reprodução).

Finalmente a crise de superprodução controlada engendra uma crise prolongada de subprodução,que está dando agora os seus primeiros passos. O sistema encontra “barreiras físicas” para a reprodução ampliada dos seus forças produtivas, os recursos naturais declinam, não se trata de “fronteiras exógenas”, de bloqueios causados por forças sobre-humanas senão de auto-bloqueios, dos efeitos da atividade produtiva do capitalismo, prisioneiro de um sistema tecnológico muito dinámico baseado na exploração selvagem da natureza e na expansão acelerada das massas proletárias do planeta (povoações miseráveis da periferia, obreiros pobres, camponeses submergidos, marginais de todo tipo, etc.).

Assistimos por tanto ao paradoxo de indústrias como a automotiva com altos níveis de capacidade produtivas ociosa.Se por alguma magia dos mercados essas empresas chegarem a encontrar demandas adicionais significativas se produziriam saltos espetaculares nos preços numa ampla variedade de matérias primas, por exemplo o petróleo, que anulariam essas demandas.

Não estamos passando do crescimento para o estancamento. Este último não é mais do que o tránsito para a contração , mais ou menos rápida, mais ou menos caótica do sistema, para a reprodução ampliada negativa das forças produtivas ao ritmo da concentração de capitais, a marginarão social e o esgotamento dos recursos naturais. Não tem porque ser um processo de declínio inexorável da espécie humana.Trata-se, sim, da decadência de uma civilização , dos seus sistemas produtivos e perfis de consumo.

Capitalismo mafioso

Deste processo faz parte a mutação do núcleo dirigente do capitalismo mundial num conglomerado de redes parasitárias mafiosas do qual uma das características psicológicas é a do acurtamento temporal de expectativas, curtoprazismo,que junto a outras perturbações o conduz para uma crescente crise de percepção da realidade. O negócio financeiro como cultura hegemónica do mundo empresarial, o gigantismo tecnológico (especialmente o seu capítulo militar), a super concentração econômica e outros fatores convergentes impulsionam esta desconexão psicológica liberando uma ampla variedade de projetos irracionais que servem como sustentação de políticas econômicas, sociais, comunicacionais, militares, etc (o corpo parasitário engorda e a mente racional do obeso contrai-se). A elite global dominante (imperialista) vai-se convertendo num sujeito extremadamente perigoso,obstinado, com a utilizaçom salvadora do que considera o seu instrumento imbatível: o aparato militar (embora experiências concretas como no passado a sua derrota no Vietname e atualmente o empantanamento no Afeganistám demonstram o contrário).

Três enfoques convergentes

É possível abordar a história da civização burguesa, a sua gestação , ascenso e decadência, desde três visões de longo prazo.

A primeira delas focaliza uma trajetória de aproximadamente quinhentos anos. Arranca entre fins do século XV e inícios do século XVI europeu com a conquista da América e a pilhagem das suas riquezas,gerando um derrame de oro e prata sobre as sociedades imperiais europeias impulsando a sua expansão econômica e transformação burguesa.

Após da primeira fartadela (século XVI) chegou o tempo da digestão e da desestruturacão dos bloqueios pré-capitalistas e da emergência de embriões sólidos do estado e da ciência moderna e de núcleos capitalistas emergentes, todo isso expressado como “longa crise do século XVII”.

No início século XVIII essas sociedades já estavam culturalmente preparadas para a grande aventura capitalista. O seu despegue esteve marcado por uma crise de duração média entre fins do século XVIII e inícios do século XIX marcada pela revolução industrial inglesa, a revolução francesa e as guerras napoleónicas. Foi atravessando todo o século XIX ao ritmo das expansões coloniais e neocoloniais e as transformações industriais e políticas.

Por volta do ano 1900 o capitalismo, com centro no Ocidente estabelecera o seu sistema imperial a nível planetário. Até chegar à primeira guerra mundial que assinalava o fim da juventude do sistema e o início de uma nova crise de média duração , entre 1914 e 1945, ponto de inflexão entre a etapa juvenil ascendente e uma era de turbulências que começam a mostrar os limites históricos de um sistema que dispõe de recursos (financeiros, tecnológicos, naturais, demográficos, militares) como para prolongar a sua existência no meio de ameaças como a aparecimento da União Soviética, depois a revolução chinesa, etc.

E após uma recomposição que traz a prosperidade a um capitalismo amputado, acossado (entre fins dos anos 1940 e fins dos anos 1960) o sistema ingressa numa crise longa (que consegue pegar os grandes ensaios protosocialistas: a URSS e a China) que se prolonga até o presente.

Esta última etapa, que já dura mais de quatro décadas caracteriza-se pela descida gradual ziguezagueante e persistente das taxas globais de crescimento econômico predeterminado pela desaceleração das economias imperialistas (em primeiro lugar os Estados Unidos) e pelo incremento das mais diversas maneiras de parasitismo (principalmente o financeiro).

Nesta etapa é possível distinguir um primeiro período entre 1968-1973 e 2007-2008 de desaceleração relativamente lenta, de perda gradual de dinamismo e um segundo período (no qual nos encontramos) de esgotamento do crescimento apontado para a contração geral do sistema.

Em síntese: a partir do primeiro impulso colonial bem-sucedido (no século XVI, o anterior: as Cruzadas fracassara) é possível fazer girar a história da civilização burguesa por volta de quatro grandes crise; a longa crise do século XVII vista como etapa preparatória do grande salto, a crise de média duração de nascimento do capitalismo industrial (fins do século XVIII – inícios do século XIX), uma segunda crise de média duração (1914-1945) seguida por uma prosperidade de aproximadamente um quartel de século e finalmente uma nova crise de longa duração (que se inicia por volta do fim dos anos 1960) de decadência do sistema, suave primeiro e acelerada desde fins da primeira década do século XXI.

Um segundo enfoque restrito a um pouco mais de duzentos anos arranca com a revolução industrial inglesa, a Revoluçom Francesa, a independência dos Estados Unidos, as guerras napoleónicas e outros acontecimentos que assinalam o início do capitalismo industrial consolidando-se numa longa etapa juvenil do sistema abarcando a maior parte do século XIX. As turbulências são curtas, as crises de superprodução seguindo o modelo desenvolvido por Marx são “crises de crescimento” do sistema que vão acumulando feridas, deformações, problemas que terminam por provocar o grande desastre de 1914. Karl Polanyi refere-se ao rol da cúpula financeira europeia na manuten de equilíbrios económicos e políticos. Nessa elite está a base da futura hipertrofia financeira de finais do século XX (6).

Depois da etapa juvenil desenvolve-se um período de maturidade assinado por guerras, fortes depressões e uma prosperidade de duração média (1945-1970).

Com a crise dos anos 1970, o fim do patronato dólar-ouro, a derrota norte-americana no Vietname, a estagflação e os dos choques petroleiros, etc., o capitalismo entra na sua velhice que deriva em senilidade. O conceito de “capitalismo senil” foi introduzido por Roger Dangeville por volta do fim dos anos 1970,assinalando que desde esse momento o sistema tornava-se senil (8), desagregava-se, perdia o rumo. Na realidade a senilidade do sistema torna-se evidente três décadas depois, a partir do estampido financeiro-energético-alimentar de 2008 quando se acelera a descida do crescimento até aproximar-nos agora a crescimentos iguais a zero ou negativos no conjunto da zona central do capitalismo e quando o motor financeiro estancou apontando a queda.

Um terceiro enfoque de desagregação do superciclo em “ciclos parciais” permite detalhar fenômenos decisivos da história do sistema. É preciso limitar os aspetos de autonomia desses “ciclos” fazendo-os interatuar entre si e referindo-os sempre à totalidade sistémica.

O crepúsculo do sistema arranca com as turbulências de 2007-2008, a multiplicidade de “crises” que estalaram nesse período (financeira, produtiva, alimentar, energética) convergiram com outras como a ambiental ou a do Complexo Industrial-Militar do Império empantanado nas guerras asiáticas.

O cancro financeiro irrompeu triunfal entre fins do século XIX e inícios do século XX e obteve o controle absoluto do sistema sete ou oito décadas depois, mas o seu desenvolvimento começara muito tempo (vários séculos) antes, financiando estados imperiais onde se expandiam as burocracias civis e militares ao ritmo das aventuras coloniais-comerciais e depois também a negócios industriais cada vez mais concentrados. A hegemonia da ideologia do progresso e do discurso produtivista serviu para ocultar o fenômeno, instalou a ideia de que o capitalismo ao invés das civilizações anteriores não acumulava parasitismo senão forças produtivas que ao expandir-se criavam problemas de adaptação superáveis no interior do sistema mundial, resolvidos através de processos de “destruição -criadora”.

Pela sua parte o militarismo moderno funde as suas raízes mais fortes no século XIX ocidental, desde as guerras napoleónicas, chegando até a guerra franco-prusiana até irromper na Primeira Guerra Mundial como “Complexo Militar-Industrial” (embora fora possível encontrar antecedentes importantes no Ocidente nas primeiras industrias de armamentos de tipo moderno,aproximadamente a partir do século XVI). Foi percebido num início como um instrumento privilegiado das estratégias imperialistas e mais adiante como reativador econômico do capitalismo. Apenas se reparava em certos aspectos do problema mas ignorava-se ou subestimava-se a sua profunda natureza parasitária, o facto de que detrás do monstro militar a serviço do sistema se ocultava um monstro muito mais poderoso: o do consumo improdutivo, causa de deficits públicos que não incentivam a expansão senão o estancamento ou a contração da economia.

Atualmente o Complexo Militar-Industrial norte-americano (por volta do qual se reproduzem os dos seus sócios da OTAN) gasta em termos reais mais um milhão de milhões de dólares, contribuindo de maneira crescente ao deficit fiscal e conseqüentemente ao endividamento do Império (e à prosperidade dos negócios financeiros beneficiários desse deficit). A sua eficácia militar é declinante mas a sua burocracia é cada vez maior, a corrupção penetrou em todas as suas atividades, já não é o grande gerador de empregos como noutras épocas, o desenvolvimento da tecnologia industrial-militar reduziu significativamente essa função . A época do keynesiamismo militar como eficaz estratégia anti-crise pertence ao passado.

Presenciamos atualmente nos Estados Unidos a integração de negócios entre a esfera industrial-militar, as redes financeiras, as grandes empresas energéticas, as camarilhas mafiosas, as “empresas” de segurança e outras atividades dinâmicas, conformando o espaço dominante do sistema de poder imperial. A história das decadências de civilizações, por exemplo a do Império Romano,mostram que já iniciada o declínio geral e durante um longo período posterior a estrutura militar segue-se expandindo sustentando tentativas desesperadas e inúteis de preservação do sistema.

Em conseqüência a decadência geral e a exacerbação da agressividade militarista do Império poderiam chegar a ser perfeitamente compatíveis, daí deriva-se a conclusão de que ao cenário previsível de desintegração mais ou menos caótica da super-potência deveríamos acrescentar outro cenário não menos previsível de declínio sanguinária, guerrerista.

Tampouco a crise energética por volta da chegada do “Peak Oil” deveria ser restrita à história das últimas décadas.É necessário entendê-la como fase declinante do longo ciclo de a exploração moderna dos recursos naturais não renováveis. Esse ciclo energético bissecular condicionou todo o desenvolvimento tecnológico do sistema e expressou, foi a vanguarda da dinámica depredadora do capitalismo, estendida ao conjunto de recursos naturais e do ecossistema em geral.

O que durante quase dois séculos foi considerado como uma das grandes proezas da civilização burguesa, a sua aventura industrial e tecnológica, aparece agora como o maior de todos os desastres, como uma expansão depredadora que pôs em perigo a sobrevivência da espécie humana.

Em síntese, o desenvolvimento da civilização burguesa durante os dois últimos séculos (com raízes num passado ocidental muito mais prolongado) terminou por engendrar um processo irreversível de decadência.A depredação ambiental e a expansão parasitária estão na base do fenómeno.

Existe uma interre dialética perversa entre a expansão da massa global de ganhos, a sua velocidade crescente, a multiplicação das estruturas burocráticas civis e militares de controle social, a concentração mundial de ingressos, o ascenso da maré parasitária e a depredação do ecossistema.

As revoluções tecnológicas do capitalismo foram em aparência as suas tábuas de salvação .Assim foi durante muito tempo incrementando a produtividade industrial e agrária, melhorando as comunicações e os transportes, mas no longo prazo histórico, no balanço de vários séculos constituem a sua armadilha mortal.Terminou por degradar o desenvolvimento que o impulsionaram ao estar estruturalmente baseadas na depredação ambiental, ao gerar um crescimento exponencial de massas humanas super exploradas e marginalizadas.

O progresso técnico integra assim o processo de autodestruição geral do capitalismo (é a sua coluna vertebral) na rota para um horizonte de barbárie. Não se trata da incapacidade do atual sistema tecnológico para seguir desenvolvendo forças produtivas senão da sua alta capacidade como instrumento de destruição .Confirma-se assim o sombrio pronóstico formulado por Marx e Engels em pleno auge juvenil do capitalismo: “Dado um certo nível de desenvolvimento das forças produtivas, aparecem forças de produção e de meios de comunicação que, nas condições existentes apenas provocam catástrofes, já não são mais forças de produção senão de destruição ” (9).

Enfim, o ciclo histórico iniciado por volta de fins do século XVIII contou com dois grandes articuladores hoje declinantes: a dominação imperialista anglo-norteamericano (etapa inglesa no século XIX e norte-americana no século XX) e o ciclo do estado burguês desde a sua etapa “liberal industrial” no século XIX, passando pela sua etapa intervencionista produtiva (keynesiana clássica) em boa parte do século XX para chegar a sua degradação “neoliberal” a partir dos anos 1970-1980.

Capitalismo mundial, imperialismo e predomínio anglo-norteamericano constituem um só fenômeno.Uma primeira conclusão é que a articulação sistémica do capitalismo aparece historicamente indissociável do articulador imperial (história imperialista do capitalismo). Uma segunda conclusão é que é cada vez mais evidente que no futuro previsível não aparece qualquer novo articulador imperial ascendente a escala global,a menos que suponhamos o surgimento de uma sorte de mao invisível universal (e burguesa) capaz de impor a ordem (monetária, comercial, político-militar, etc.). Nesse caso estaríamos extrapolando ao nível da humanidade futura a referência à mao invisível (realmente inexistente) do mercado capitalista pregoada pela teoria económica liberal.

O declínio imperial de Ocidente inclui a do seu suporte estatal abarcando uma primeira etapa (neoliberalismo) marcada pelo endividamento público, o submetimento do estado aos grupos financeiros, a concentração de ingressos, a elitizacao e perda de representatividade dos sistemas políticos e uma segunda etapa de saturação do endividamento público, esfriamento econômico e crise de legitimidade do estado.

O colonialismo-imperialismo e o estado moderno foram em termos históricos pilares essenciais da construção da civilização burguesa. Sobre os antecedentes coloniais do capitalismo não há muito mais que acrescentar. A respeito da relação estado-burguesia é evidente,sobretudo a partir do século XVI na Europa, a estreita interação entre ambos os fenômenos. Não é possível entender o ascenso do estado moderno sem o apoio financeiro e de toda a articulação social emergente da nascente burguesia cujo nascimento e consolidação teriam sido impossíveis sem o aparelho de coerção e o espaço de negócios oferecido polas monarquias militaristas. E também é necessário ter em conta o mútuo apoio legitimador, cultural, social que permitiu a ambos crescer, transformar-se até chegar à instauração do capitalismo industrial e a sua contrapartida estatal.A história da modernidade sugere-nos tratá-los como partes de um único sistema (heterogêneo) de poder.

No final, na fase descendente do capitalismo enviesada pela financeirizacão integral da economia, o Estado (em primeiro lugar os estados das grandes potências) também financeirizao-se , convertendo numa estrutura parasitária (um componente das redes parasitárias), entrando em falência.

A convergência de numerosas “crises” mundiais pode indicar a existência de uma perturbação grave mas não necessariamente o desdobrar de um processo de decadência geral do sistema. A falência aparece como a última etapa de um longo super ciclo histórico, a sua fase declinante, o seu envelhecimento irreversível (a sua senilidade). Extremando os reduzionismos tão praticados pelas “ciências sociais” poderíamos falar de “ciclos” parciais: energético, alimentar, militar, financeiro, produtivo, estatal e outros, e assim descrever em cada caso trajetórias que despegam em Ocidente entre fins do século XVIII e inícios do século XIX com raízes anteriores e envolvendo espaços geográficos crescentes até assumir finalmente uma dimensão planetária para depois declinar cada um deles. A coincidência histórica de todas essas declinações e a fácil detecção de densas interelacoes entre todos esses “ciclos” sugerem-nos a existência de um único super ciclo que os inclui a todos. Dizendo de outra maneira, trata-se do ciclo da civilização burguesa que se expressa através de uma multiplicidade de aspetos parciais.

O século XX

A partir de um enfoque plurissecular do capitalismo é possível avançar em uma explicação do ascenso e derrota da vaga anticapitalista que abanou o século XX. A Revolução Russa inaugurou em 1917 uma larga sucessão de rupturas que ameaçaram erradicar o capitalismo como sistema universal.O despegue revolucionário apoiava-se numa crise profunda e prolongada do sistema que poderíamos localizar aproximadamente entre 1914 e 1945 e cujas sequelas se estenderam além desse período.

Esta crise foi interpretada pelosv revolucionários russos como o início do fim do sistema,mas o sistema mesmo sofrendo sucessivas amputações “socialistas” (Europa do Leste, China, Cuba, Vietname…) e a proliferação de rebeldias e autonomizações nacionalistas na periferia pode finalmente recompor-se e os seus inimigos foram caindo um atrás do outro através de restaurações explícitas como no caso soviético ou sinuosas como no caso chinês. As elites ocidentais puderam afirmar então que a tão anunciada declinação do capitalismo e a sua substituição socialista não foi mais do que uma ilusão alimentada pela crise, mas a medida que esta foi superada a ilusão foi se esfumando. E alguns gurus, como o agora esquecido Francis Fukuyama até proclamavam o fim da história e o pleno desenvolvimento de um milénio capitalista liberal.

Existe uma visom falsa (mas nom totalmente falsa) da falência ocidental frente a emergência do mundo novo a partir da Revolução Russa.Mesmo se é entendida como “falência hegemônica“, essa visão pareceu ficar desmentida pela realidade com o submetimento chinês (1978) e o derrube soviético (1991), porém, era escorada desde 1968-73 quando começaram a declinar as taxas de crescimento do Produto Bruto Mundial e parcialmente confirmada desde 2008, porque o sistema degrada-se rapidamente (condição necessária para a sua superação ) ainda que o seu coveiro não apareça ou apareça numa dispersão de pequenas doses historicamente insuficientes.

Insurgências (em direção à negação absoluta do sistema)

A contrapartida positiva da falência poderia ser sintetizada como a combinação de resistências e ofensivas de todo tipo contra o sistema operando como um fenômeno de dimensaom global e atuando em ordem dispersa, expressando uma grande diversidade de culturas, diferentes níveis de consciência e de maneiras de luta.

Desde os indignados europeus o norte-americanos que (por agora) só pretendem depurar ao capitalismo dos seus tumores financeiros e elitistas, até os combatentes afgaos pelejando contra o invasor ocidental ou a insurgência colombiana animada pela perspetiva anti-capitalista passando por um muito complexo abano de movimentos sociais, minorias e pequenos grupos críticos e rebeldes.

Opositores a governos abertamente reacionários e a ocupações coloniais mas também às fachadas democráticas mais ou menos deterioradas que tentam subministrar governabilidade ao capitalismo. O que expõem a hipótese da convergência e radicalização desses processos e daquela a posibilidade de aprofundar o conceito de insurgência global pensado como realidade em formação alimentada pela falência da civilização burguesa. A alternativa insurgente emergindo como rechaço e apontando para a negação radical do sistema e ao mesmo tempo abrindo o espaço das utopias pós-capitalistas.

O sujeito central da insurgência é a humanidade submersa em expansão à qual a dinámica da marginalidade e a superexploraçao (a dinámica da decadência) empurra para a rebelião como alternativa à degradação extrema. Trata-se se de milhares de milhões de habitantes dos espaços rurais e urbanos. Este proletariado é muito mais estendido e variado que a massa de obreiros industriais (inclui as suas franjas periféricas e empobrecidas), não é o novo portador do facho do progresso construido pela modernidade senão o seu negador potencial absoluto o qual na medida em que vai destruindo as posições inimigas (as suas estruturas de dominação ) estará construindo uma nova cultura libertária.

Porém, a irrupção universal desse sujeito demora pois um gigantesco muro de ilusões bloqueia a sua rebelião . É que a autodestruição do sistema global está ainda nos seus início, a sua hegemonia civilizacional é ainda muito forte e é quase impossível prognosticar, estabelecer teoricamente o recorrido temporal, o calendário da sua desarticulação . Só é possível estabelecer teoricamente a trajetória descendente ainda que sem pôr datas.

Utopias (o retorno do fantasma)

Aqui aparece o pós-capitalismo como necessidade e possibilidade histórica concreta, como utopia radical que funde as suas raízes no passado revolucionário dos séculos XIX e XX e muito além nas culturas comunitárias pré-capitalistas da Ásia, África, América Latina e da Europa anterior à modernidade. Não se trata de uma etapa inevitável (une sorte de “resultado inexorável” da declinação do sistema decidido por algumha “lei da história”) senão do resultado possível, viável do desenvolvimento da vontade das maiorias oprimidas.

Já na génese do sistema existia o seu inimigo absoluto, negando, rechaçando a sua expansão opressora. Na Europa por volta do século XVI emergiam os desdobres coloniais, a indústria de guerra sob moldes pós artesanais, as primeiras formas estatais modernas, os capitalistas comerciais e financeiros associados às aventuras militares das monarquias. E a superexploraçao dos camponeses, a destruição das suas culturas, dos seus sistemas comunitários gerando rebeliões como a que encabeçou o comunista cristiao Tomas Müntzer no coraçom da Europa sob a palavra de ordem “Omnia sunt communia” (todo é de todos, todas as cousas som-nos comuns).

O amanhecer da modernidade burguesa foi também o da sua negação absoluta. Ambos os bandos aportavam novas culturas mas ao mesmo tempo herdavam velhas culturas de opressão e emancipação .

A aliança de banqueiros, terratenentes e príncipes que derrotaram os camponeses na batalha de Frankenhausen (maio de 1525) e assassinou o Müntzer unia os seus novos apetites burgueses com os velhos privilégios feudais (convertidos em base de acumulação das novas formas de poder) enquanto os camponeses rebeldes reinterpretavam os evangelhos de maneira comunista e assumiam a herdança de liberdade comunitária do passado, incluídas valiosas tradições pré-cristae . A construção de alternativas inovadoras (de expressão e de emancipacoes) fundia as suas raízes no passado.

Repassando depois o século XIX europeu e mais adiante a crise ocidental entre 1914 e 1945 e as suas conseqüências vemos como uma vez ou outra o demo burguês derrotar o seu inimigo mortal que renasce mais adiante para presentar novamente batalha. Desde as insurgências obreiras europeias até chegar à derrota da Comuna de Paris na era do capitalismo industrial juvenil que já assumia uma dimensom imperialista planetária até chegar às revoluções comunistas russa e chinesa concluindo com a degeneração burocrática e a implosao da primeira e a mutação capitalista-selvagem da segunda.

Na sua prolongada história a civilização burguesa foi passando desde a sua infância europeia até a sua maturidade no século XX e finalmente à sua velhice e a sua degradação senil desde fins do século XX até os nossos dias.

Na era da decadência do capitalismo vai assomando novamente a figura do seu inimigo.Trata-se de um novo fantasma,herdeiro e ao mesmo tempo superador dos anteriores. Uma olhada pessimista assinalaria-nos que será derrotado de novo.Se se isso ocorrer esta civilização planetária irá-se submergindo em níveis de barbárie nunca antes vistos já que a sua capacidade (auto)destrutiva supera a qualquer outra decadência civilizacional. Agora não está em jogo a sobrevivência de alguns milhões de seres humanos senão de mais de sete mil milhões.

Mas esse pessimismo apoia-se na história da modernidade pensada como uma infinita repetição de cenários onde mudavam a dimensão , a complexidade tecnológica, os modelos de consumo, etc. mas fica intacta a dinámica amo-escravo, o primeiro controlando os instrumentos que lhe permitem renovar a sua dominação e o segundo embarcado em batalhas perdidas de antemão. Dessa maneira é ocultado o fato de que a modernidade burguesa entrou em decadência o que abre a possibilidade da falência, do colapso dessa dinámica perversa abrindo o horizonte da vitória dos oprimidos. Isso não foi possível nas etapas de adolescência, juventude ou maturidade do sistema mas sim é possível agora.

É o declínio do Ocidente (entendido como civilização burguesa universal) o que abre o espaço para o novo fantasma anti-capitalista que para impor-se precisa de irromper sob a forma de um vasto, plural processo de desocidentalizacao , de critica radical à modernidade imperialista, os seus modelos de consumo e producao , de organização institucional, etc. Trata-se da abolição do sistema no sentido hegeliano do conceito: negar, destruir, anular as bases da civilização declinante e ao mesmo tempo recuperar positivamente noutro contexto cultural todo aquilo que poda ser utilizável.

Voltando a Hegel, para superá-lo é necessário afirmar que a marcha da liberdade que ele supunha avançando desde “Oriente” (entendido como a periferia do mundo ocidental-moderno) para realizar-se plenamente no Ocidente, na realidade avança desde o subsolo do mundo e pode chegar a dar um salto gigantesco esmagando, desbordando os baluartes da opressão ocidental, irrompendo como uma onda universal de povos insurgentes.

O primeiro fantasma foi europeu de corpo e alma e deu a sua última batalha em 1871 na Comuna de Paris. O segundo fantasma assumiu uma envergadura planetária, levantou a sua bandeira vermelha na Rússia e a China alentando um amplo espectro de rebeliões periféricas.Tinha um corpo universal,mas a sua cabeça estava impregnada de ilusões progressistas ocidentais (o tecnologismo, o aparatismo, o estatismo, o consumismo). A data ou período de disfunção podemos fixá-la entre 1978 quando China ingressa na via capitalista em 1991 (derrube da URSS).

O que necessita o século XXI é o desenvolvimento de um terceiro fantasma revolucionário, completamente desocidentalizado, ou seja, negador absoluto da modernidade burguesa e por conseguinte universal de corpo e alma, anti-capitalista radical, construindo a nova cultura pós-capitalista a partir do confronto intransigente com o sistema. Herdando os antigos combates, levantando a bandeira multicolor da rebeldia de todos os povos escravizados do planeta, das suas identidades esmagadas, submersas convertidas graças aos seus combates em contraculturas opostas ao capitalismo.

Em suma a emergência, a avalanche plural de povos submetidos, da humanidade verdadeira, liberada (em processo de emancipação ) da pré-história, da história inferior do homem inimigo do seu entorno ambiental, do espaço que lhe permite viver, e em conseqüência do homem inimigo de si mesmo.

Nao se trata de uma utopia universal única apontando a uma humanidade homogênea, senão de uma ampla variedade de utopias comunitárias ancoradas em identidades populares específicas ,interrelacionadas ,conformando um grande espaço plural marcado pela abolição das classes sociais e do estado.

Notas a rodapé

———————

(1), Blanchard, do FMI, di que a crise durará umha década, http://www.que.es/ultimas-noticias/internacionales/201210031112-blanchard-dice-crisis-durara-decada-reut.html

(2), Natixis- Banque de financement & d’investissement, “La crise de a zone euro peut durer 20 ans”, Flash Économie – Recherche Économique, 8 Août 2012 – N°. 534.

(3), Ansuya Harjan, “Roubini: My ‘Perfect Storm’ Scenario Is Unfolding Now”, CNBC 9 Jul 2012, http://www.cnbc.com/id/48116835 e Nouriel Roubini, “A Global Perfect Storm”, Proyect Syndicate, 15 June 2012, http://www.project-syndicate.org/print/a-global-perfect-storm.

(4), “Banco de Basilea”, Bank for International Settlements, Monetary and Economic Department, OTC derivatives market activity. (www.bis.org).

(5), Ugo Bardi and Marco Pagani. “Peak Minerals”, The Oil Drum:Europe, October 15, 2007, http://europe.theoildrum.com/node/3086.

(6),

(7), Karl Polanyi, “La gran transformación. Los orígenes económicos y políticos de nuestro tiempo”, Fondo de Cultura Económica, Mexico DF, 2011.

(8), Roger Dangeville, “Marx-Engels, a Crise”, Union Générale D`Editions-10/18, Paris 1978.

(9), (Marx-Engels, “La ideología alemana”, 1845-46) en Marx & Engels, Obras Escogidas, Editorial Progreso, Moscú, 1974.

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