Robert Kurz – 24 12/1943 a  18/06/ 2012

Editado em Outras Palavras

 No dia 18 deste mês faleceu em Nuremberg, vitima de uma sequência de operações, o filósofo alemão Robert Kurz.

A notícia de sua morte foi anunciada, de forma lacônica, nas paginas da revista Exit, que ele ajudou a fundar em 2004, após a cisão do grupo Krisis onde atuou desde 1986 exercendo um importante papel, como editor e publicista.

Seu enterro foi marcado para o cemitério daquela cidade, para ser realizado no dia 26 de julho, e no convite a direção da Revista Exit! fez questão de ressaltar que seus amigos não gastassem dinheiro com flores e coroas, guardando seus recursos para eventuais ajudas à revista, que foi a trincheira política desse importante pensador do mundo contemporâneo.

Mas, mesmo nas linhas austeras onde foi anunciado a sua morte, era possível perceber-se a emoção de seus companheiros, pois sabiam, como nós sabemos, a importância daquela perda. Assim se pronunciou a revista:

 “Com a sua morte, a teoria crítica perde um pensador lutador e um crítico radical, num tempo em que mais que nunca se exige “derrubar todas as condições em que o homem surge como um ser humilhado, escravizado, abandonado, desprezível”. Bobby viveu e lutou por isso. A crítica da dissociação e do valor e a revista teórica EXIT! perdem um teórico marcante e não será fácil preencher a sua falta .Vamos tentar

A tarefa não será fácil, pois Kurz firmou-se como um dos mais importantes teórico marxista e crítico do capitalismo contemporâneo, exercendo, através de seus constantes artigos e livros publicados, uma influência decisiva na formulação dos novos rumos dos movimentos revolucionários em todo o mundo.

Kurz foi um crítico impiedoso dos conceitos gerais do chamado marxismo oficial, elaborado pela esquerda dogmática e positivista que ajudou a burguesia liberal a erigir a sociedade da mercadoria, em que atualmente o mundo está atolado, levando a humanidade a uma situação de penúria sem precedentes. Para ele o movimento socialista serviu, em ultima instância, como avalizador da sociedade de consumo em que vivemos. Com seus escritos, propunha, então, um novo olhar para as obras de Marx, ressaltando nela os estudos que ele fez sobre o trabalho abstrato e fetiche da mercadoria, abandonados pelo marxismo oficial que optou em ver dogmaticamente o proletariado como o motor principal de mudanças na sociedade, omitindo-se na luta pela destruição do Estado e a construção de uma nova sociedade, onde a mercadoria e o dinheiro não mais seriam os elementos de intermediação entre o homem e a natureza.

Corajoso, propunha uma revisão completa dos conceitos iluministas que nortearam a construção da sociedade reacional que se firmou plenamente após a terceira revolução industrial, onde a incorporação da ciência ao processo produtivo levou ao declínio da existência da classe trabalhadora , seja do ponto numérico, seja do ponto de vista do processo , tornando-a, pouco a pouco, secundária ou mesmo, em muitos aspectos, desnecessária para economia capitalista.

Robert Kurz insere-se na vertente de pensadores marxistas que se preocupavam com a impossibilidade do homem moderno encontrar sua plena existência num mundo de ampla oferta de mercadorias, como por exemplo a Escola de Frankfurt. Porém, o pensamento de Kurtz vai mais além do que os estudos dos filósofos dessa escola.

O aspecto mais atual do seu pensamento está em interpretar esta situação do homem contemporâneo à luz da critica de Marx ao valor, partindo do estudo da visão marxiana desenvolvida na sua Critica da Economia Política, colocando em relevo o conceito de fetiche da mercadoria. Em ultima instância, entendendo o pensamento de Marx como uma constatação e uma critica da redução de toda a vida humana, no capitalismo, ao valor, isto é, à economia.

Opondo-se a interpretação dos partidários de Marx que viam a questão da exploração econômica como o mal maior do capitalismo e, desta forma, propunham uma nova sociedade onde a economia não seria usada para a exploração de uma classe sobre a outra, Kurtz, remetendo ao próprio Marx, concebe a esfera econômica como ela própria oposta a totalidade da vida. E ai está sua originalidade.

Seu ultimo livro publicado no Brasil, ¨O Colapso da Modernização” nos mostra que a debacle do chamado “socialismo real” da extinta União Soviética só poderá ser entendida ser for analisada à luz da crise geral que vive o sistema capitalista.

Com um prefácio primoroso de Robert Schwartz, um entusiasta das ideias de Kurz, este livro nos leva a perceber as mudanças operadas no seio da economia internacional e que, ao contrário dos que vêem na derrocada dos regimes socialistas a vitória do sistema capitalista, este, na verdade, já está há algum tempo em crise e caminha para uma falência de proporções catastróficas. Torna-se , portanto, uma obra importante para o entendimento da economia mundial e particularmente a economia de mercado do Brasil.


Serra da Mantiqueira, julho de 2012.
Arlindenor Pedro


2 comentários sobre “Robert Kurz – 24 12/1943 a  18/06/ 2012

  1. A morte de Kurz foi anunciada na “folha.com”. A mídia capitalista deve estar muito feliz com nossa profunda tristeza.
    Kurz era um desses autores, como Marcuse e Adorno e alguns outros, cujos textos, ainda que antigos, parecem ter sido escritos na semana passada.
    Ficam os votos para que a EXIT! continue firme e forte, como dizemos aqui em Minas.
    Abraço ao sr. Arlindenor, meu futuro “vizinho” na Mantiqueira.

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