O Homem que buscou as raízes do Brasil – Arlindenor Pedro

Na história do cinema no Brasil vamos encontrar um destacado papel para a figura de Nelson Pereira dos Santos. Por sua importante produção, ele é, sem dúvidas, um dos construtores do prestígio que nosso cinema alcançou junto à critica internacional. Possui, na galeria de suas realizações, verdadeiras obras-primas, sendo nítida uma preferência para a passagem da literatura para a linguagem cinematográfica. São exemplos Vidas Secas, de Graciliano Ramos e filmes adaptados nas obras de Jorge Amado e Guimarães Rosa.

Com sua arte, Nelson Pereira dos Santos ajuda a descobrir e entender esse Brasil tão complexo, do qual somos filhos.

Em uma de suas recentes realizações, ele incursionou por um tipo de cinema que chamamos cinebiografia. Trata-se de um projeto que visa aproximar o público da vida e a obra de um dos mais importantes pensadores da nossa história, Sérgio Buarque de Holanda.

A produção tem o nome de Raízes do Brasil. É uma escolha apropriada: esse importante historiador buscou sempre o entendimento da nossa gênese, o essencial de nossa existência: para que pudéssemos, enfim, responder quem somos nós e qual o sentido desses imensos Brasis?

Nelson Pereira dos Santos nos coloca em contato com o historiador por meio de seus amigos, e com muita ênfase, do depoimento de sua família – notadamente, as três últimas gerações dos Buarque de Holanda (alguns conhecidos do público, por serem artistas, professores, intelectuais). É obra própria para ser vista em DVD, na calma de casa. Apesar da excelência de roteiro e condução de um dos maiores diretores do nosso cinema, a complexidade das questões levantadas exige os recursos da pausa e retorno, para refletir sobre o tema proposto.

Trata-se de uma produção que deve ser entendida na sua totalidade – não como filme isoladamente.

O filme é distribuído em dois DVDs. O primeiro, um filme de cerca de 70 minutos, é divertida viagem, comandada pela força da presença da viúva, Maria Amélia. Somos conduzidos por uma ideia original de Ana Holanda e pela participação de Miúcha no roteiro. Através das lentes de Nelson Pereira dos Santos, vamos penetrando na intimidade do escritor, conhecendo aspectos relevantes do seu dia-a-dia, não nos retendo somente na sua obra literária ou nos episódios de sua vida pública.

Conhecemos, então, um outro Sérgio Buarque de Holanda: gozador, espirituoso, devotado aos amigos e familiares que transformam sua casa em ponto de encontro de artistas e intelectuais.

No segundo DVD, o foco é dirigido para a produção intelectual do historiador. Surgem imagens raras da sua vida pública e de suas atitudes (já que ele esteve presente em grandes movimentos da nossa cultura e vida política). Tomamos contato, então, com dois de seus mais importantes livros: Raízes do Brasil, de 1936, e Visão do Paraíso, publicado em 1958, numa primeira edição limitada, para fins acadêmicos.

As duas obras pairam constantemente durante todo o filme, e são citadas em vários depoimentos. Em parte do segundo disco encontramos os depoimentos dos professores Maria Odília L.S.Dias e Antonio Prado, ambos da USP, que fogem dos rituais de uma palestra ou aula acadêmica para refletir sobre a construção do pensamento do professor Sérgio Buarque e a sua contribuição para a formação da teoria histórica do Brasil.

Tornou-se lugar comum dizer que Raízes do Brasil é, ao lado de Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Junior, e Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire, obra importante e essencial para quem deseja conhecer as bases reais da criação e desenvolvimento do Estado Brasileiro. Por suas características revolucionárias e inovadoras, que mudaram o olhar que até então prevalecia nos estudos sobre nosso país, tornaram-se clássicos que fogem à temporalidade e impõem-se como fonte de pesquisa.

Interessante é verificarmos que Raízes do Brasil não era a obra mais cultuada pelo autor – que explicitou melhor seus pensamentos em Visão do Paraíso, escrito em sua maturidade intelectual.

No documentário, Chico Buarque, seu filho, relata que ao dizer ao pai, quando já tinha cerca de 20 anos, que estava lendo Raízes, ouviu a sugestão de não dar muita importância leitura – e, sim, ler Visão do Paraíso, que seria muito melhor.

Raízes do Brasil foi gestado no período em que Sérgio Buarque viveu na Alemanha, após sua ruptura com as diretrizes que nortearam o movimento modernista no Brasil e a influência dos conceitos teóricos europeus em voga naquele momento. Na obra, ele sustenta que os países ibéricos só vieram a se articular realmente com a Europa a partir da época dos descobrimentos.

Desenvolve a partir disto, a ideia de um homem peculiar, fruto de uma sociedade também peculiar e elemento decisivo para que o processo de expansão colonizante. Argumenta que os homens formados nas sociedades ibéricas diferiam radicalmente dos cristãos europeus de países como a Inglaterra, França ou Alemanha.

Buarque trabalha com a categoria dos pares antagônicos de Weber, dividindo-os nas categorias de trabalhador e aventureiro e atribuindo características próprias a cada uma. Afirma que “nas obras da conquista e colonização dos novos mundos coube ao espírito de trabalho, no sentido aqui compreendido, papel muito limitado, quase nulo. A época predispunha aos gestos e façanhas audaciosas, galardoando bem os homens de grandes voos.

E não foi fortuita a circunstância de se terem encontrado neste continente, empenhados nessa obra, principalmente as nações onde o tipo do trabalhador, tal como acaba de ser discriminado, encontrou ambiente menos propício.” (in Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda).

Para ele, os ibéricos, aí classificados como de espírito aventureiro, são individualistas, avessos a hierarquia e controle. “Esse tipo humano ignora as fronteiras. No mundo tudo se apresenta a ele em generosa amplitude e onde quer que se erija um obstáculo a seus propósitos ambiciosos, sabe transformar esse obstáculo em trampolim. Vive dos espaços ilimitados, dos projetos vastos, dos horizontes distantes”. (idem).

Esta interpretação difere em muito das análises dos historiadores de cunho marxista, mais tradicionais, tal como Nelson Werneck Sodré – que apóia sua interpretação na análise dos modos de produção e das classes sociais, agentes do processo produtivo.

Por este ângulo, o individuo não joga um papel tão importante quanto o que lhe atribui o autor de Raízes do Brasil, naquele momento muito influenciado pelos conceitos weberianos. Sua conhecida tese da oposição entre o homem cordial e o civilizador nos leva a esse entendimento.

Se voltarmos no tempo, veremos que neste período – entre o século XIV e XV –, Portugal, embora pequeno e com uma população diminuta é um dos países mais avançados na Europa. Ao contrário das demais nações cristãs do continente, que ainda viviam o feudalismo, finalizara o processo de unidade territorial, ultrapassando a civilização visigótica românica, substituindo a civilização de regadio erigida após as invasões muçulmanas.

O país criara uma identidade nacional. Separando-se de Castela e acumulando recursos econômicos, militares e tecnológicos, por meio de um gradativo processo de expansão pelas costa da África, tornara-se a mais importante nação do período.

Podemos dizer que a chegada a Calicute dos poderosos galeões da armada portuguesa está à altura das grandes conquistas da humanidade, semelhante ao peso que a chegada do homem à Lua teve para nós, no século passado.

Por quase um século, buscava-se um novo caminho de comércio que evitasse trafegar por dentro do império construído pelos árabes. Com seu feito, inédito, naquele momento, Vasco da Gama passa a ser um grande herói, uma espécie de Neil Armstrong de sua época.

Num mundo onde ainda prevaleciam os resquícios obscurantistas da Idade Média, Portugal pensa globalmente – está a anos-luz da maioria das nações europeias. Sua epopéia abrira para a Europa as condições para o maior movimento de expansão comercial da humanidade, somente inferior ao processo de globalização que vivemos hoje.

Tornara realidade um sonho: vencer as barreiras do Mar Tenebroso, flanquear o Islã pelas costas da África, chegar às Índia, ao oriente, para monopolizar o comércio das especiarias.

Além de reeditar os grandes feitos das cruzadas, tinham a proposta de uma nova civilização – salvacionista, na visão de Darcy Ribeiro. Acreditava que sua utopia de um V Império representaria uma nova existência para toda a humanidade . Tudo isso só era possível por estar unido em um sentimento único – uma “visão de mundo” comum a todos os atores sociais.

É em Visão do Paraíso que Sérgio Buarque de Holanda nos coloca em contato com a gênese dessas utopias.

O livro aborda a metáfora do Éden, que povoava e seduzia a mente dos navegantes e aventureiros à época dos descobrimentos. Referindo-se aos objetivos do livro o autor diz que: “O que nele se tencionou mostrar é até onde, em torno da imagem do Éden, tal como se achou difundida na era dos descobrimentos marítimos, se podem organizar num esquema altamente fecundo muitos dos fatores que presidiram a ocupação pelos europeus do Novo Mundo, mais em particular da América Hispânica, e ainda assim enquanto abrangessem e de certa forma explicassem o nosso passado brasileiro. Em tais condições bem poderiam servir estudo semelhante como introdução à abordagem de alguns fundamentos remotos da própria história do Brasil, e de outro – em que não se tocou nestas páginas – como contribuição para a boa inteligência de aspectos de nossa formação nacional ainda atuante nos dias de hoje”. (Sergio Buarque de Holanda, in Visão do Paraíso)

Visão do Paraíso é o livro mais erudito da extensa obra de Sérgio Buarque, e talvez de toda a historiografia brasileira. Trata-se de um estudo original e audacioso, claramente influenciado pelos conceitos da Escola dos Annales, que desenvolveu durante meio século, a partir França, um domínio historiográfico conhecido como “história das mentalidades”.

Através desse método, que emprega de forma pioneira nos estudos feitos no Brasil, o autor trás para o primeiro plano – interiorizando as reflexões das ciências sociais – realidades humanas. Resgata-as da insuficiência com que eram tratadas tanto pela historiografia tradicional (centrada nos episódios, no tempo cronológico, no político e nas ações dos grandes personagens) quanto por aquilo que se designa como economicismo redutor, ou marxismo vulgar.

Com sua extensa bagagem cultural Sérgio Buarque mergulha no mundo mágico das lendas e das mitologias que povoavam o imaginário dos europeus a época das grandes navegações. A existência do Éden não era, então, vista da forma simbólica, como hoje. Acreditava-se que ele existiria de fato e – na medida do relato dos desbravadores – no “Novo Mundo”. Seriamos então os herdeiros do paraíso.

Em Raízes do Brasil, Nelson Pereira dos Santos nos põe diante do que movia Sérgio Buarque de Holanda: desvendar o mito, criando condições para nos conhecermos melhor. Ao apresentar o autor e sua obstinação em estudar o Brasil, aproxima-nos de sua obra – um convite a refletir e agir para que as lendas se tornem realidade.

Os jornalistas Anselmo Góes e Vera Barroso, neste vídeo, nos trazem algumas opiniões sobre o autor de “Raízes do Brasil”

Serra da Mantiqueira, janeiro de 2012

Raízes do Brasil – Uma Cinebiografia de Sérgio Buarque de Holanda Brasil, 2004, Documentário, Cor/PB (imagens de arquivo), Parte 1: 85′, Parte 2: 87′
Direção: Nelson Pereira dos Santos, Produção: Nelson Pereira dos Santos, Roteiro: Nelson Pereira dos Santos e Miúcha, Fotografia: Edgar Moura.

Serra da Mantiqueira

Arlindenor Pedro

2 comentários sobre “O Homem que buscou as raízes do Brasil – Arlindenor Pedro

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