O Ponto de Mutação – Arlindenor Pedro

O filme Mindwalk, do diretor Bernt Capra — baseado em O Ponto de Mutação, livro de seu irmão, o físico austríaco Fritjof Capra — é uma excelente oportunidade para quem deseja refletir um pouco mais sobre o mundo em que vivemos, e qual a melhor forma de interpretá-lo.

Quem conhece as ideias de Capra já está acostumado com o seu modo interessante de perceber o mundo e explicar a realidade. Trata-se de um pensamento holístico, que leva ao entendimento de que somos parte de uma teia universal, totalmente interligada, de inseparáveis relações.

Resumidamente, a chamada “Visão Sistêmica”, proposta por Capra, opõe-se à ideia de que, para entender o todo, é preciso fragmentá-lo, indo do particular ao geral. Os sistemas seriam totalidades integradas, e, por isso, temos de pensar em termos de redes, devendo sempre ver as conexões entre as coisas. Deveríamos, pois, pensar em processos, e não em estruturas.

A base de tal forma de pensamento estaria na física subatómica, ou o que conhecemos como física quântica. É a área da física que tomou desenvolvimento com as experiências e descobertas do início do século XX, principalmente à partir de Marx Planck e sua teoria quântica de 1910.

Esquecida durante certo tempo, foi retomada por outras gerações, tais como Werner Heisenberg, polêmico físico-chefe do programa nuclear alemão da II guerra, com sua “Teoria da Incerteza”; o dinamarquês Niels Borh; Otto Hanh, um dos descobridores da fissão nuclear; Erneth Rutherford, descobridor do núcleo do átomo e todos aqueles que, de alguma forma, contrapuseram-se aos princípios da inércia newtoniana.

O Ponto de Mutação, lançado por Capra em 1962, representa um marco no desenvolvimento desta nova forma de olhar mundo, precursora da linha de pensamento denominada Nova Era. Está afinado com as teorias ecológicas do presente século, como a Teoria de Gaia, do inglês James Lovelock.

O filme é uma obra sobre estas ideias, Desenvolve-se ao longo de um roteiro em que os personagens se apresentam com a clara finalidade de expor as teorias de Capra, numa criação cinematográfica que nos lembra os filmes didáticos de Rossellini, na sua fase pós-neo-realismo.

Ele tem Liv Ullmann (a grande atriz dos filmes de Ingmar Bergman) no elenco, como a cientista Sonia Hoffmann ( a personagem é um tipo de alter ego de Fritjof Capra). Os dois outros personagens principais são o político americano Jack Edwards, interpretado por Sam Waterston, e o poeta Thomas Harriman, vivido por John Heard.A atmosfera reflete as grandiosas estruturas góticas do Mont Saint-Michel, abadia medieval situada no lado francês do Canal da Mancha, encravada em um espetacular rochedo, tomado todos os dias pela maré e contra maré, que espraia areais que chegam a 20 quilômetros. Os personagens desenvolvem diálogos longos e densos, acompanhados por uma câmera que alterna suas perguntas e respostas com belos planos-sequências.

Acompanhados por musica, procuram vencer suas incompatibilidades e incompreensões com a contemporaneidade reavaliando suas ideias. Sônia, moradora das cercanias, apresenta, então, a visão sistémica de Capra aos visitantes do rochedo, Jack e a Thomas, e os três discutem, durante uma tarde, política, ecologia, tecnologia e arte.

No livro, Fritjjov Capra constata que a crise que marca a sociedade contemporânea deriva do esgotamento de três grandes elementos que sustentaram a nossa civilização : o esgotamento iminente de todas as fontes não renováveis de energia – petróleo, gás, carvão – e mesmo da água, o que obriga o redesenhar dos mapas estratégicos e induz a guerras por controle territorial. O declínio do sistema patriarcal, que foi a base da construção das sociedades humanas desde a sua fixação que lança a sociedade numa crise de valores e costumes. E, finalmente, a falência dos preceitos oriundos do iluminismo, notadamente da física cartesiana-newtoniana, que não mais podem explicar os fenômenos físicos.

Torna-se necessário, pois, um novo olhar sobre a realidade, capaz de gerar fórmulas que retirem a humanidade desse impasse.E esse olhar tem que ser inovador, fora das concepções em vigor na sociedade contemporânea. Como ele diz: uma mudança de paradigmas!

No filme, o roteiro segue por esses caminhos: em uma cena de forte valor simbólico, os três personagens dirigem-se a um recinto do castelo onde está exposto um relógio medieval. Sônia usa-o como exemplo, para criticar a visão mecanicista da compreensão do todo por meio de sua fragmentação em unidades básicas. Dirigindo-se a Jack, afirma: “Perdoem-me, mas vocês, políticos, dificultam as coisas. As ideias da maioria de vocês, de direita ou de esquerda, parecem-me antiquadas e mecânicas como um relógio. É como se a natureza funcionasse feito um relógio. Vocês a desmontam, reduzem-na a um monte de peças simples e fáceis de entender, analisam-nas e, aí, pensam que entendem o todo”.

Sônia está se referindo ao pensamento de Descartes, à sua visão mecanicista da vida, vendo o universo como um imenso relógio, que precisa apenas, para funcionar, seguir as leis racionais de seu projeto original. Caberia à sociedade, portanto, conhecê-las, interpretá-las e aplicá-las, num eterno processo mecânico. Ela afirma, então, que esse pensamento tornou-se predominante e moldou uma sociedade extremamente racional, onde o todo não é levado em consideração e o que importa é o aqui e o agora. Em dado momento critica, inclusive, o Brasil, por sua postura de desmatamento e extermínio das sociedades indígenas e agrícolas.

Tal visão de mundo confronta-se com a vida de Jack, recém-saído da campanha em que postulou a presidência dos Estados Unidos, e em preparativos para uma reeleição ao Senado.

Embora sabedor da catástrofe que se avizinha, ele não consegue propor novos caminhos para os americanos, pois isto o levaria a perder seus eleitores: nova política de saúde, nova forma de alimentação, postura anti-bélica, política radicalmente ecológica são posturas inaceitáveis! Ele sabe que a Utopia, por muito tempo um elemento determinante na prática política, foi afastada como matriz de comportamento e ação dos atores políticos na América e no mundo.

Na realidade, a política, tal como é apresentada hoje, foi tomada pela economia. Ao invés de ser espaço de grandes confrontos de ideias, sujeita-se aos ditames das relações de mercado, e seus principais protagonistas, os políticos, por força da lógica desta situação, foram reduzidos a meros produtos, para serem consumidos e descartados.

Na outra ponta, também por força desta mesma lógica, os cidadãos-eleitores ficaram reduzidos à figura de consumidores, que escolhem suas preferências de acordo com o que dita o marketing político: a melhor postura, melhor imagem, apelos emocionais, etc.

Desta forma, pouco importaria o conteúdo das mensagens e sim a forma como elas são ditas-transmitidas. O debate passou,então, a ser travado no campo da administração, destacando-se os candidato capazes convencer o eleitor de que são os mais preparados para efetuar choques de gestão na máquina pública.

Ao mesmo tempo, ficou claro que as corporações dominaram o parlamento: as votações invariavelmente se dão em torno dos interesses corporativos, ficando para segundo plano os interesses de segmentos sociais fora desses parâmetros, tais como movimentos de minorias étnicas, em defesa do meio-ambiente, etc.

Poder-se-ia dizer, portanto, que a política tornou-se um negócio, sujeito, como tantos outros, às leis do mercado. Para sobreviver o político teria que incorporar a figura de um personagem, à semelhança dos atores – com a cruel diferença que os atores só o fazem durante a peça, e ele viveria aprisionado por toda a sua vida.

Também Sonia vive o seu problema, desiludida da política e da própria ciência, que tanto ama!

Recentemente, viu suas descobertas no campo da energia laser serem desvirtuadas pelas autoridades militares, que as incorporaram ao projeto bélico “Guerra nas Estrelas”. Sentiu na carne que a ciência é dominada pelos interesses econômicos, políticos e militares, à exemplo do que aconteceu com as descobertas na área do átomo que resultaram na bomba de Hiroxima.

Como o poeta Thomaz – amargurado em um mundo que cada vez menos lê poesias –, ela almeja momentos de reflexão. Quer aproveitar o ambiente de Mont Saint-Michel nas poucas horas possíveis, fora do turbilhão de turistas e do comércio que explora o lugar.

Com a maré – que chega rapidamente aos 15 metros – dominando e cercando a Abadia, os personagens se despedem e voltam à sua vida real, onde o mercado e as relações cada vez mais reificadas entre os homens os empurrarão para o dia a dia.

Os momentos aprazíveis de descobertas que tiveram naquela tarde ficarão então cada vez mais distantes.

Serra da Mantiqueira, novembro de 2011.

Arlindenor Pedro

Assista ao filme e reflita…

 

 

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